Opa! Mais um texto suburbano para o deleite (ou não) de vocês.

Resolvi colocar apenas uma pequena observação: Esse texto foi escrito à quatro mãos. As partes que te fizerem lembrar do subúrbio são minhas, as que te fizerem rir são dele: meu querido amigo
Douglas R. Lourenço que agüentou meus telefonemas e e-mails pedindo que me contasse histórias sobre seus vizinhos de bairro durante sua infância, então os personagens dessa história não são reais, mas são uma mescla de tudo que ele e eu vivemos durante nossas infâncias! Valeu mesmo querido!
Espero que vocês gostem
Cotidiano de Ana. O cheiro de café recém passado no coador de pano recendia no ar da casa toda, e o avental xadrez balançava de um lado para o outro com os passos agitados de Ana na cozinha. A faca com a qual cortava o pão das crianças escapuliu de suas mãos indo parar perto do pé da geladeira. Rapidamente, ao pegá-la riscou uma cruz no chão com a ponta da faca.
- Para não dar briga, falou baixinho como sua mãe havia lhe ensinado.
Enquanto os três filhos serviam-se na mesinha próxima da copa, ela rapidamente desceu as escadas que ligavam a casa na parte de cima à oficina do esposo, levando nas mãos a caneca de alumínio decorada com o time do coração da família, cheia do delicioso café que ela acabara de passar.
O portão azul da pequena oficina era bem de frente para a rua de paralelepípedos, e ao lado da entrada havia um corredor cheio de damas da noite e na calçada daquele sobrado de subúrbio um grande salgueiro chorão. Recebeu um beijo apaixonado do marido e antes de subir novamente lembrou-se de colocar as garrafas de vidro cheias de água em cima do relógio de luz.
- Esses meninos gastam muita luz por causa da demora no banho e do bendito Atari, sem falar que aquilo ainda me estraga a única TV que temos, justificava para as vizinhas.
Apressou os filhos e subiu a rua pisando em folhas amarelas que o vento de outono havia derrubado. Deixou os meninos no portão da escola soprando-lhes um beijo ao dobrar a esquina da floricultura. Desceu a rua em direção ao salão onde trabalhava desde mocinha como cabeleireira. Ao passar pela praça da cidade aspirou o cheiro das flores de Ipê Amarelo que começavam a brotar, com a proximidade do inverno. Enquanto atravessava a rua quase foi atropelada por um fusca azul marinho que vinha subindo a rua. Preparou-se para praguejar quando percebeu que era o seu vizinho Adaílton levando a mulher para o trabalho
- Desde que esse aí comprou essa bendita lata-velha passa o dia todo para cima e para baixo se exibindo, resmungou entre dentes.
- Bom dia vizinha! Desculpa o mau jeito.
- Bom dia! Vá com Deus, e para bem longe de mim pensou.
Um vento gelado balançou sua longa saia e ela apertou mais o casado de tricô que ganhara da comadre no ultimo aniversário. Esbaforida entrou no salão com o rosto corado por causa do vento
- Bom dia Lurdes!
- Bom dia Ana, que agitação é essa?
- Ai aqueles meninos ainda me botam louca! O Pedro me atormentou o caminho todo para que eu o deixe ir à matinê ver o novo filme dos trapalhões.
- Deixa menina, eles precisam se divertir.
- Hora, no meu tempo diversão era tomar picolé no coreto da pracinha.
Ligaram o rádio e enquanto começavam a arrumar o salão para mais um dia de trabalho, e começou o som de uma banda nova
- Esses tais de Titãs são bons não é?
- É sim menina, apesar de o som ser meio “pesado”.
A sineta pendurada atrás da porta de entrada balançou e entrou a primeira cliente da manhã
- Ana minha flor, preciso que você me deixe maravilhosa! Tenho um casamento hoje à noite e preciso estar divina
- Mas claro! Você tem idéia do corte que vai quer?
- Hum, acho que pode ser igual ao da Viúva Porcina, aquela do Roque Santeiro sabe? Eu a acho muito elegante!
No fim do dia Ana voltava para casa, não sem antes conferir no armarinho do bairro as cores novas de linha para fazer seus panos de crochê que ajudavam complementar a renda, e também buscar o marido no boteco da esquina que outra vez tinha deixado as crianças em casa para jogar bilhar com os amigos e tomar uma “branquinha”.
- De novo bebendo Aderbal, anda pra casa “hômi” que ainda tenho que cozinhar o feijão “pra janta”.
- Já vou mulher, deixe só terminar mais essa partidinha com o Zé!
Enquanto subiam a rua, viram uma figura escondida atrás das cortinas da casa quase em frente.
- Ô “cumádi” escondida espiando a vida do povo de novo é?
- Imagina Ana, é que no friozinho gosto de ficar aqui perto da cortinas para aquecer.
- Cuidado que um dia alguém te pega por ser fuxiqueira hein?