quarta-feira, 31 de agosto de 2005

O carrasco da firma

Muito se engana quem pensa que a figura mais temida de um escritório é o chefe: o fato de ele ter um salário muito maior que o seu e uma cadeira muito mais confortável que a sua não quer dizer, necessariamente, que o cara é malvado. A vilania também existe naquela sádica e sorridente mocinha do RH, que vive inventado churrascos de confraternização entre funcionários que pagariam para não trombar com os colegas fora do expediente. E o que dizer do protegido dos superiores? O figura adora um puxa-saquismo e, durante a prática, gosta de puxar o tapete dos outros.

Na verdade, se pensarmos direito, todo ambiente de trabalho é repleto de figurinhas deveras amedrontadoras, do tipo que você reza para não esbarrar enquanto pega um cafezinho ou busca uma fotocópia. Aqueles sujeitos que lhe fazem adiar o almoço só para não correr o risco de dividir o elevador com eles. Nenhum, porém, pode ser comparado ao maior carrasco da firma. Ele vive nas sombras, não é de muita fala e esconde suas malvadezas em pequenos gestos. Sim. O moço do suporte.

Todas as empresas pelas quais eu passei dependiam dos computadores para o seu ganha-pão – e é em casos como esse que o moço do suporte se esbalda, por saber que seus conhecimentos e sua presença são mais necessários que os de grande parte dos demais empregados. Pode reparar: em firma de internet, por exemplo, ele não se mistura com a gentalha que fica do lado de lá da redoma de vidro onde ele fica. Porque enquanto nós temos mesas grudadas umas nas outras em um escritório calorento, ele tem um espaço com a temperatura controlada por conta do maquinário.

Quando sai para o almoço, só sai acompanhado dos seus semelhantes, pois sabe que poderá conversar sobre a última novidade em matéria de placas-mãe sem soar nerd. Tudo bem, nós não queremos bater papo sobre esse assunto. Mas custava o moço do suporte responder aos “ois” e “bom dias” que tentamos inocentemente jogar neles? Ou, pelo menos, não olhar com cara de desprezo quando dirigimos a fala à sua tão ilustre pessoa? Na minha terceira tentativa de uma troca de idéias que não funcionou, desisti de me misturar com a equipe dos moços do suporte. Contudo, essa parede invisível precisa ser quebrada quando o computador dá pau.

Ao ver uma temida tela azul aparecendo ou qualquer outro sinal de arrego do aparelho, suspiramos fundo prevendo a missão em terreno acidentado que teremos pela frente. A primeira atitude a ser tomada é chamar o moço do suporte para dar uma olhada no problema. Então, ligamos para o ramal dele. O telefone toca, toca, toca... Olhamos para a redoma de vidro para ter certeza de que ele está lá. Está. Levantamos da cadeira e caminhamos, devagar, até o habitat do sujeito. Falamos, em voz trêmula, “meu computador travou”. Ele não levanta os olhos da tela. “Será que você poderia vir até a minha mesa, por favor?”. Ele não mexe um músculo. Sussurra algo que se parece com “grumpf”. Tomamos o grunhido por um “ok”. Só nos resta voltar ao nosso espaço e esperar.

E esperar. E esperar. E esperar mais um pouco. Porque o moço do suporte adora mostrar que existem outros 745 pepinos para ele resolver e que nosso computador travado com certeza não está entre as suas prioridades. Após estarmos bem humilhados com a insignificância do nosso trabalho, ele aterrissa. Começamos a mostrar “olha, eu estava digitando e apareceu isto e...”, mas ele interrompe e pede para sairmos da cadeira. Obedecemos e ficamos parados, em pé, ao lado dele. Ele torce o nariz para a nossa foto na área de trabalho. Ele vasculha todos os nossos arquivos. Ele resolve o problema em dez segundos.

Perguntamos o que aconteceu, para fazer uma social. O moço do suporte, então, pode tomar dois rumos: ou ele dá uma explicação cheia de palavras complicadas para encerrar logo o assunto, ou diz apenas que o problema é uma bobagem – dando a entender que só alguém tão estúpido em informática não resolveria a situação de imediato e precisaria chamar por socorro como um maricas.

Antes de se recolher aos seus aposentos refrigerados, porém, ele não perde a oportunidade de colocar toda a culpa do mau funcionamento do computador no nosso programinha de compartilhamento de músicas. Diz, com cara séria, que fazer uso de tal ferramenta é proibido pelas normas da firma e deleta tudo sem dó nem piedade. Também acaba com o nosso programinha de conversa com amigos. “É uma porta de entrada para vírus, depois o computador trava e você não sabe o porquê”, sentencia o carrasco.

Isso, é claro, se tivermos sorte. Porque se o azar estiver pairando sobre nossas cabeças, é provável que o moço do suporte mande trocar o nosso teclado, tão macio e familiar, por outro duro e com as letras trocadas. Ou o nosso monitor bacanoso por um de pior qualidade, meio capenga e de cor diferente das demais peças. Ou o nosso mouse com scroll por um daqueles toscos que a firma dá de brinde. E lá ficamos, com um computador destravado, mas sem muitas das coisas que faziam as horas de labuta ficarem um pouco menos insuportáveis.

Moço do suporte, você não tem coração?

Nota da autora: Texto dedicado ao Alê, o carrasco mais doce que eu já conheci. Ele resolvia sorridente os problemas da minha máquina, me cumprimentava sempre que me via e ainda fazia vista grossa para meu Napster. Aquele sim é moço do suporte – talvez por isso, durou pouco na empresa... Pena.

Vivi Griswold às 10:46 AM

terça-feira, 30 de agosto de 2005

Get this shit out of my mind!

Há algum tempo, marcou presença neste sítio o que eu julgava haver de pior no mundo dos vermes de ouvido, aquelas músicas malditas que grudam em você feito gente chata numa festa. Mas é claro que um tema tão abrangente não poderia se encerrar naquilo. Ainda mais porque de boas intenções, almas arrependidas e canções-chiclé o inferno (e a Terra) estão cheios.

Aliás, é da própria natureza do assunto penetrar nos mais sombrios cantos da mente e se aderir ali, sem trégua, dó ou piedade da pobre criatura que passa a ser atormentada noite e dia por um refrão infame, um acorde barato, um solo xexelento. Como eu não posso sofrer sozinha, quero apresentar a você, caro leitor, a lista dos maiores vermes de ouvido internacionais.

Daqui, você tem duas opções: fechar essa janela e correr para encher os ouvidos de algodão ou seguir a leitura e tentar, bravamente, passar incólume pelos eleitos. Como sei que você gosta de um bom desafio...

YMCA
Responsáveis: Village People
Diz respeito a... uma ode às maravilhas da YMCA, a Young Men’s Christian Association – ou, cá no Brasil, Associação Cristã de Moços. Só não sei o que os “rapazes” tanto faziam lá. Peraí. Eu sei sim.
Ponto bonder: “It’s fun to stay at the... Y-M-C-A” (“É bom ficar na A-C-M”). Agora entendi porque um bocado de padres foram acusados de pedofilia. É tudo entre cristãos.

Macarena
Responsáveis: Los Del Rio
Diz respeito a... uma caliente dama que dançava, muito sensualmente, aquela coreografiazinha idiota com as mãozinhas para frente, para o lado, bate palma e vira.
Ponto bonder: “êêêêêêê, Macarena/ Aaaaaaai!”. Acho que dispensa tradução. E eu queria saber porque toda música latina de sucesso tem de ter um gutural “aaaaaaai”.

Baby Don’t Hurt Me (What is Love)
Responsáveis: Haddaway (não me pergunte)
Diz respeito a... um rapaz às voltas com uma senhorita que, para falar o português bem claro, não dá nem desce.
Ponto bonder: “Baby don’t hurt me, don’t hurt me, no more” (“Garota, não me machuque, não me machuque mais”). Na verdade, a música é praticamente só isso.

Toxic
Responsável: Britney Spears
Diz respeito a... uma declaração da loira a certo rapaz com quem, aparentemente, ela mantém um perigoso romance. Trocando em miúdos, besteira.
Ponto bonder: “I’m addicted to you, don’t you know that you’re toxic” (“Estou viciada em você, você não sabe que é tóxico?”). Some-se a isso aquelas notinhas de violino. Ou sintetizador.

MMMBop
Responsáveis: Hanson
Diz respeito a... dicas para quando você ficar velho: valorize as antigas amizades, não ligue para os que se vão e... plante uma rosa. Juro.
Ponto bonder: “Mmmbop, ba duba dop ba do bop, Ba duba dop ba do bop”. No segundo “verso”, aquele pequenininho subia uma nota. Argh!

Just Lose It
Responsável: Eminem
Diz respeito a... a agitada descrição de alguns dias na vida do senhor Mathers, sem esquecer de tirar uma casquinha do Michael Jackson, claro.
Ponto bonder: “Alright now lose it / Aah aah aah aah aah/ Just lose it / Aah aah aah aah aah”. (Agora enlouqueça/ Aah aah aah aah aah/ Apenas enlouqueça/ Aah aah aah aah aah”. O legal é o gritinho.

Wake me Up Before You Go
Responsáveis: Wham
Diz respeito a... um caridoso pedido de alguém que não tem despertador. Desculpe, não resisti. Ok, na verdade é uma divertida declaração de amor. Ou um veículo para o George Michael rebolar, antes de assumir que ele estava mais para sócio da YMCA.
Ponto bonder: “Wake me up before you go-go, cause I’m not planning on going solo” (“Acorde-me antes de ir embora, pois não penso em sguir sozinho”). Ainda por cima, o refrão é mentiroso: pouco tempo depois de lançar a música, George Michael apostou na carreira-solo.

She Drives me Crazy
Responsáveis: Fine Young Cannibals
Diz respeito a... um rapaz às voltas com uma senhorita que, para falar o português bem claro, não dá nem desce. Ei, espera aí... Podia ser uma regravação de “Baby Don’t Hurt Me”!
Ponto bonder: “She drives me cra-zy/ uhú/ Like no one ever did/ uhú”. (“Ela me deixa louco/ uhú/ Como ninguém jamais deixou”). Bom, o título não deixa de ser auto-explicativo.

Pump up the Jam
Responsáveis: Technotronic
Diz respeito a... se jogar na pista de dança, pura e simplesmente. Bem, eu nunca tinha lido a letra. E agora vejo que não perdi muito.
Ponto bonder: “Pump up the jam, pump it up”. Toda e qualquer frase que envolva a palavra “pump” cola na cabeça. E quando ela começa simplesmente a repeti-la? Cruzes.

All Night Long
Responsável: Lionel Richie
Diz respeito a... um pessoal festeiro. Particularmente, adoro aquele efeito de eco na hora do “let the music play on (play on, play on)”.
Ponto bonder: “All night long, all night, all night...” (“Por toda a noite, toda a noite, toda a noite...”). Daí, é só repetir ad eternum. Ou all night long.

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Lionel cantou sua “fiesta forever” até no Japão

Clara McFly às 10:16 AM

segunda-feira, 29 de agosto de 2005

Domingo no parque

Eram duas princesas. Lindas, sorridentes, graciosas. Uma morena, outra bem loira. Não usavam vestidos rodados ou sapatos de cristal. A bem da verdade, elas trajavam roupas sumárias e seus pés tocavam a grama descalços – o que fazia as nobres senhoritas rirem mais ainda, numa divertida descoberta da chamada coceguinha. Nada como encontrar um jardim bonito e pacífico para ensinar princesas a caminhar... Aquela mãe deve agradecer à cidade pelo Jardim Botânico.

Bom seria ver garotinhas por todo o Brasil dando seus primeiros passos em um parque assim. A cena que testemunhei aconteceu no último domingo, um dia ensolarado e fresco. E não foi fato isolado. Além das gêmeas engraçadinhas, um bando de crianças de todas as idades aproveitava o clima para curtir o local. Poucos lugares, nesta cidade tumultuada e psicótica que é São Paulo, se comparam ao Jardim Botânico.

Os dados técnicos são encontrados com facilidade. Foi fundado oficialmente em 1938 e guarda 360 mil m2 de área. O conceito do jardim é naturalista, ou seja, as espécies (a maioria da Mata Atlântica) tendem a encontrar seu próprio espaço. Contém árvores como imbuias e pinheiros, bosques de bambu e lagos com vitórias-régias. Na região central, uma exceção ao estilo geral, fica o Jardim de Lineu, inspirado nas formas de um parque na cidade sueca de Uppsala.

O que não se vê muito é gente disposta a pular os dados técnicos e ir direto às vias de fato com o parque. Nas minhas visitas periódicas para passear, conto mais macacos coçando o traseiro do que humanos percorrendo as alamedas. Esses espécimes costumam estar no estabelecimento ao lado, o Jardim Zoológico de São Paulo. Ficam lá, badernando, gritando, correndo. Deu para entender que falo das pessoas e não dos macacos, certo?

Sei bem porque a esmagadora maioria prefere, entre os dois vizinhos, aquele que mantém animais na jaula. É mais fácil entreter a criançada com um cachorro-quente mirrado e dois minutos frente à gaiola da onça do que criar uma brincadeira para elas, todinha nova, entre as árvores do botânico. Não tem graça arremessar amendoins e tampinhas de garrafa para o Pau-Brasil, oras.

Tirando a ironia, fica mesmo muito difícil entender porque optar por um zôo com gente por todo lado e tristonhos bichos enjaulados em vez do jardim mais brilhante de São Paulo. Quietude, pelo visto, não é lá uma prioridade.

Mas que bobagem! Basta um pouquinho de imaginação para curtir uma visita ao Jardim Botânico em toda a sua fanfarrice. Em poucos lugares da cidade, por exemplo, se pode fazer piquenique. Em vários parques, incrivelmente, a prática é proibida – provavelmente algum zé-mané deixou dois saquinhos de Cheetos Cheddar largado no mato e agora todos pagam por isso. Lá, porém, vale estender a manta no chão e festejar a existência de tortinhas, sanduíches de atum e suco na garrafa térmica.

Os adeptos do lanche no solo aparecem de tudo quanto é forma. Tem o pessoal do violão-com-Raul-Seixas, a molecada moderninha, as famílias ripongas, as famílias dorminhocas, os casais de idade avançada, os casais com mãos e lábios avançados... Todos querem apenas sombra e vento fresco.

Ah, sim, lá tem muita sombra! Pode parecer idiota fazer tal observação, mas vai entender a colocação aquele abnegado que já visitou um certo Memorial da América Latina, também situado na capital paulista. Projetado por Oscar Niemeyer, o arquiteto amigo do concreto, o lugar é mais árido que o sertão do Piauí. Na época de seca. Sem caminhão-pipa. E comendo três bolachas de água e sal em seqüência.

Dito isso, há que se comemorar SIM a existência de um parque onde as árvores são maioria. Cordiais, elas oferecem abrigo refrescante, o verde necessário e o visual grandioso. Mais cordiais ainda, os mantenedores do Jardim Botânico oferecem plaquinhas explicativas com nome popular e científico de cada elemento. Recentemente, num requinte de gentileza, fizeram um trecho de passeio ladeado somente por ervas aromáticas. Caminhada com odor de alecrim e manjericão? Quem acha ruim?

Ali ainda podemos beber água na biquinha, ver o funcionamento de um monjolo, conferir a roda d’água e as estufas e as orquídeas e as escadarias antigas... Tudo bem, tem descanso. Tem picolé no barzinho, tem muitos e muitos bancos, tem o gramado convidativo. Tem um bom cenário para trocar brincadeiras com os filhotes e bitocas apaixonadas com a cara-metade, se esta aceitar ir arrastada até o jardim.

O diabo é que ninguém deveria ir ali arrastado. Para os que já conhecem, isso nem deveria ser muito divulgado, porque afinal seria bom manter o oásis longe da multidão. Mas que nada: todos deveriam ter direito a chutar sapatos e curtir o Botânico felizes.

As duas princesinhas que encontrei no domingo assim estavam. Com as mãos gordinhas segurando a mãe, vestindo fraldas e camisetas, elas cambaleavam animadas sobre o tapete natural. Crianças de todas as idades deveriam curtir o mesmo... Eu curto.

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E os macacos acharam uma bela casa

Fla Wonka às 10:05 AM

sábado, 27 de agosto de 2005

Perdida no roteiro

Pois bem. Agora que o último episódio da primeira temporada da série “Lost” foi exibido, vamos aos fatos: nenhum dos mistérios ficou minimamente solucionado. Nem uma pista sequer o lazarento do roteirista entregou a nós, telespectadores fiéis, apesar de termos passado semanas em frente à televisão, sem piscar para não perder detalhe algum. O urso polar em plena floresta tropical continua uma incógnita, assim como a solução para aquela seqüência de números e, finalmente, aquele raio de escotilha que se abriu só nos 45 do segundo tempo.

Ou seja, posso dizer que terminei o seriado do mesmo jeito que o comecei: cheia de dúvidas. E às interrogações costumeiras – como “onde diabos eles estão?”, “seria a ilha uma espécie de Triângulo das Bermudas?” e “por que eles não aproveitam aquele marzão azul e param de reclamar?” – somaram-se outras ao fim da temporada. Porque o que mais existe em “Lost” é motivo para duvidar de tudo, questionar tudo, não confiar nas aparências.

Em primeiro lugar, queria saber se há algum mistério envolvendo o tal acidente aéreo. Desculpe, mas o avião simplesmente partiu em duas partes e caiu em uma ilha deserta, explodindo em seqüência. Então como existem pelo menos 40 sobreviventes? Na vida real, todos eles teriam virado panqueca queimada. Mas segundo o roteiro, é possível sim haver aquele bando de gente salva. Ou isso teria a ver com a história, hã? Ao que parece, vai demorar bastante para termos a resposta.

Tudo bem, eu espero. Principalmente se ela vir atrelada a outras explicações. Como, por exemplo, o aparecimento de uma revista em quadrinhos. Se um ser humano, composto de carne, ossos e músculos, não sobreviveria à queda de um avião, o que dirá um gibi feito de papel. E ele não é o único item de celulose a ser encontrado: em algumas cenas, podemos ver livros, passaportes e até mesmo uma carta! Vai ver, como diria a minha mãe, Deus colocou a mão embaixo.

Talvez só o Todo-Poderoso conseguiria explicar como aquele cachorro continua rechonchudo, esperto e brincalhão. Sabemos que animais de estimação são carregados dentro de uma caixa de transporte, por sua vez levada dentro do compartimento de carga da aeronave. Mas o serelepe cãozinho aparece liberto, com coleira e guia e, apesar de todo esse tempo comendo sabe-se lá o quê (algo diferente de ração, com certeza), não está nem um pouco abatido. Sim, cachorros são serem muito adaptáveis e resistentes.

Então o que dizer do gorducho Hurley que ainda não perdeu um quilo sequer? Ele, como todo o resto os sobreviventes, vivem corados e saudáveis. Mesmo aqueles que se feriram na queda (ferimentos bem levezinhos, diga-se de passagem) estão prontos para outra. A grávida teve o bebê numa boa, e o petiz ainda nasceu já com uns seis meses, de tão gigante. Nada de complicações, infecções, machucados purulentos, amputações, etc. Quem fica ruim de verdade, morre. Os outros, contudo, são um tanto intocáveis. Devem de ter o corpo fechado.

Seria o tal corpo fechado o responsável pela aparência geral da turma? Segundo consta o mote do seriado, cada episódio retrata dois dias na vida dos personagens. A primeira temporada teve, ao todo, 26 episódios – o que significa, segundo as minhas contas, que eles estão perdidos há exatos 52 dias. Vou falar: se eu passo mais do que três semanas sem retocar a tintura dos cabelos, uma horrorosa raiz de tom diferente começa a aparecer no meu cocuruto. É sinal de que eu preciso urgentemente botar química nas raízes.

Digamos que eu estivesse na ilha sem cabeleireiro. Ao passar de 52 dias, estaria com o cabelo totalmente bicolor. Não é o caso, porém, da loira tingida da trupe. Ela continua com as madeixas reluzentes de tão claras. E ainda por cima macias (apesar da água salgada, da falta de xampu e condicionador e da exposição prolongada ao sol, fatores que fazem um mal danado aos cabelos). Também acredito que quase dois meses seriam o suficiente para o cabelo do doutor Jack, cortado com máquina 2, ter crescido um tantinho. Mas não...

O que mais impressiona, porém, são as sobrancelhas perfeitamente tiradas da mocinha Kate. Eu, com pinça, espelho, mão firme e histórico livre de acidentes de avião, não consigo deixar as minhas nem perto do arqueamento perfeito das de Kate. E olha que nem muito pêlo eu tenho, de modo que a manutenção dessa parte importante da beleza feminina era para ser mais fácil. Toda vez que ela aparece, com seus cachos moldados a baby-liss e mousse, eu nem presto atenção na cena. Vejo apenas aquele par irretocável de sobrancelhas!

As malas também são um capítulo à parte. Se no aeroporto, em condições normais, já é uma luta a gente buscar nossa bagagem intacta, imagine encontrar justamente a sua no meio de destroços, corpos e vazamento de combustível. É um milagre. A meu ver, muito maior do que a repentina cura para a paralisia do careca Locke. Ou do que o sumiço do corpo do pai de Jack de dentro do caixão. Mas em “Lost”, todo mundo usa roupas bacanas de caimento perfeito. As pessoas acham seus sapatos, seus brinquedos, suas necessaires. Um luxo. Parece a ilha de Caras.

Ok, ok. Eu posso estar mal-humorada com a falta de consideração do roteirista, que joga 486 mistérios no colo e não resolve unzinho sequer para nos fazer feliz. E com aquele final fraquinho, fraquinho. Ou eles voltam com algumas respostas na próxima temporada ou... Eu é que vou continuar perdida.

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Isso lá é cara de sobrevivente de desastre?


Vivi Griswold às 10:44 AM

sexta-feira, 26 de agosto de 2005

Se meu apartamento falasse

Uma casa se faz de histórias (e, claro, do esforço de uma construtora, de preferência não de propriedade do Sérgio Naya). Além dos tijolos e cimento, dos móveis e tintas e das vigas de ferro, os episódios vividos pelos habitantes são o que realmente determina a cara de um lugar. Por isso, não há nada como relembrar os causos que, afinal, fizeram de uma seca “unidade 107, situado no bloco Z, do condomínio estabelecido à rua X, no município de Y” a minha casa.

Em meu lar anterior, hoje conhecido como “a casa da minha mãe”, teve a vez em que fizemos festa junina com fogueira na calçada. E minha mãe, querendo dormir, abriu a janela do quarto dela e mandou todo mundo embora, para meu total desespero. E a vez em que os filhos do vizinho, dois moleques mal-criados do inferno, ficaram jogando pedras no nosso quintal. E as inúmeras vezes em que eu fiquei trancada para fora e passei pelo vão do vitrô da cozinha.

Teve também a noite em que um ladrão entrou em casa com um cachecol amarrado no pescoço, e minha mãe pensou que o cara era meu amigo Dener. O meliante falava “Cadê as jóias? Eu quero as jóias!”, empunhando um... machado. Juro. E minha mãe: “pára de brincadeira, Dener!”. É lógico que o cara não encontrou jóia alguma. Levou uns 20 paus que estavam na mesinha da sala e deu-se por satisfeito. E nós instalamos um alarme, que disparou umas 15 vezes no meio de outras noites, sempre em falso.

Muitas outras histórias, trágicas ou cômicas, aconteceram por lá. E agora, em pouco menos de dois anos de residência própria, as paredes da minha casa já têm um bocado de histórias para contar. Tantas que darei preferência às que mais se assemelham à trama do hilário “Um Dia a Casa Cai”, só para o caro leitor ver que nem sempre essas situações só acontecem no cinema.

E já aconteceu de tudo por aqui. Já teve o dia em que...

... tomei banho com água mineral
Pode parecer muito chique, mas tomar banho com a água que restava no garrafão foi a única opção que encontrei para não passar a noite em estado lamentável. Isso porque fui para a ducha umas duas da manhã e... surpresa! Nem uma gota de água. Sem ter vizinho ou amigo a quem recorrer àquelas horas, olhei para o recipiente azulado, ele olhou para mim e... vocês já sabem.

... tomei banho frio
Pensei que, mudando-me para uma casa com o promissor sistema de aquecimento a gás, nunca mais lidaria com termos como “resistência” ou “banho-gelado-na-falta-de-luz”. Pffff. Agora, é mais cruel: se a pilha do aquecedor acaba (e essas coisas só acontecem às duas da manhã) ou o famigerado aparelho quebra, apele para panelas no fogão ou para água em temperatura ambiente.

... tomei bronca do vizinho pelo barulho
Não dá para evitar: são muitas casinhas, todas grudadas umas nas outras. O cara de cima costuma tocar cavaquinho de madrugada. A casa à direita tem um bebê que chora. E do outro lado da parede estamos nós, com a sala muitas vezes cheia de amigos cujo forte não é exatamente falar baixo. Até que demorou: a primeira “advertência” levou quase dois anos. Tá bom.

... o lustre caiu
Eu tinha acabado de varrer a sala. Quando estou guardando a vassoura na lavanderia, ouço um vidro se quebrando. Corri de volta para a sala e uma das bolas de vidro penduradas do lustre se espatifara no chão. Primeiro, pensei que um pássaro entrara ali e trombara com a peça por engano. Depois, agradeci por não estar debaixo do dito na hora do horror. Por fim, xinguei o maldito fio que se soltara, ao ver que havia cerca de 2.435.728 pedaços de vidro entranhados em todo canto.

... ficamos presos no quarto
Com hóspedes em casa, antes de dormir trancamos a porta do quarto – para ter um pouco mais de privacidade, se é que você me entende. No dia seguinte, acordo com namorido xingando alguma coisa. Tonta de sono, percebo que ele não conseguia destrancar a danada, a fim de, naturalmente, sair e seguir para o trabalho. Tivemos que pular a janela e pedir à Roberta, a hóspede, que abrisse a porta da sala. Ainda bem que moramos no térreo.

... a sala e a cozinha se inundaram
Saí, feliz e contente, para umas comprinhas à tarde. Quando voltei, já estava escuro. Abri a porta, meio atrapalhada com as sacolas, e pisei dentro de casa sem acender a luz. Fez “tchof”. Estranhei. Temi. Rezei. (Tudo isso em menos de um segundo). Ao tocar o interruptor, percebi o estrago: a máquina de lavar quebrou no meio do ciclo e botou uns dois dedos de água por toda a sala e cozinha. Nunca eu e meus rodos nos sentimos tão felizes...

... furei o piso da cozinha
O placar de maior quebrador de coisas e artefatos domésticos estava em uns 15 a zero para o namorido. Até que resolvi empatar em grande estilo (mas sem querer): derrubei uma caneca de louça da pia ao chão. A caneca ficou inteira, mas o piso ganhou um buraco bonito, onde hoje se acumulam sujeiras inatingíveis. No dia seguinte... fui acender um cigarro, o fósforo quebrou e abriu um interessante buraco no sofá. Acho que agora posso dizer com segurança que virei o placar.

E quem nunca causou um incidente doméstico que queime o primeiro sofá.


Clara McFly às 10:53 AM

quinta-feira, 25 de agosto de 2005

Gente do cursinho

Cabeça vazia é oficina do diabo, como bem fala o ditado. Quando o sujeito deixa muito espaço vago entre as orelhas, é fácil cair nas armadilhas maléficas do destino – como drogas, álcool, trabalho em excesso, namorada chata e horas assistindo o teste de fidelidade do João Kleber. Para rechear a vida, uma boa opção são os cursos. Olhando por esse lado, o tinhoso nunca há de me pegar. Sempre fui a maior fã de aulas extracurriculares.

O esporte costuma ser porto seguro para mães com filhos à toa. Minha santa genitora, por exemplo, nos incentivou a mexer o esqueleto desde cedo. Não teve muito sucesso, coitada... No setor do suadouro, tentei inúmeras alternativas. Com a natação tive um caso de amor, porque arrasto asa para água desde bebê. Mas o relacionamento foi ralo abaixo ao me colocarem para competir. Não achei graça em chegar em oitavo. Eram oito concorrentes. Pare de rir agora, sim?

Também testei habilidades no tênis e no basquete. Precisei luxar 12 dedos para descobrir minha aversão a bolas. Objetos redondos criados pelo demo, isso sim. Só fui me entrosar mesmo com o curso de ginástica artística – naquela época ainda chamado “olímpica” – porque este permitia aplicar tudo o que aprendi dando cambalhotas no colchão, caminhando pelo muro e virando estrela no quintal. Durou até eu atingir 1,65 m. Daí a professora passou a ignorar o troll aqui e me mandei das aulas.

O esporte nunca preencheu meu tempo ocioso a contento. Conheço muita gente que não se dava bem com ele também. Para esses, o jeito era ir mais ao intelecto do que aos músculos. Em uma tentativa última de misturar os dois, me inscrevi no curso de jazz. Mas após algumas apresentações embaraçosas de “What a Feeling” diante daquele latifúndio de espelhos, dei no pé. Nunca mais pretendo mesclar colans, polainas e lantejoulas.

Decidida a usar mais o talento manual – e a ficar distante de demonstrações públicas – entrei nas aulas de desenho. Festa! Logo me achei apaixonada por blocos, lápis 6B, borracha mole e naturezas mortas. No cursinho, impressionei colegas e até a professora. Tanto que ela me levou a tentar a pintura à óleo. O cheiro era ótimo, viciei rápido.

Já os quadros... hum... digamos que Picasso riria um bocado. Não eram ruins, mas amadores. Até que, em uma aula, fui apreciar minha “obra” de longe, pincel lambuzado de azul-cobalto em punho, e pintei a blusa da mestra. Ela surtou. A arte perdeu o charme em meio àquele palavrão. Pedi para sair mais uma vez.

A essa altura, mamãe já queria me inscrever no Guiness como a menina que mais largou cursos pela metade. Contei que também fugi das aulas de inglês? E do italiano? E do violão? E do piano (apesar da dor no coração por nunca mais degustar os bolinhos da professora ao som de Mozart)? Quanto desprendimento...

Sempre gostei muito de cursos, mas confesso que eles me desapontavam logo. Ou batia a preguiça. Francamente: acordar cedo e vestir maiô para encarar hidroginástica com 1.276 velhinhas era dose. Limpar toda a caixa de material da pintura em porcelana, pior ainda. Naturalmente, a paixão esfriava em alguns meses.

Então consegui concluir as aulas de corte e costura! Vitória! Nunca mais me chamariam de “pega-e-larga”. Era só comprar os tecidos, abrir a máquina lá na lavanderia, espalhar os moldes e fazer mil vestidinhos que deixariam Chanel parecendo uma caminhoneira! Resolvi começar na semana seguinte. Depois, na outra. As duas viraram seis. Os moldes emboloraram. Chanel riu de mim tanto quanto Picasso.

Já mais velha, teria finalmente aprendido a levar um curso até o fim e exercer a arte? Resolvi comprovar. Achei uma simpática aula de paisagismo, aquela que me ajudaria a aprender mais sobre as amigas plantinhas, criaturas que tanto amo. Chato demais, minha nossa.

Acho que, lá no inconsciente, pensamos que no curso de culinária vamos comer como reis; no de guitarra, receberemos a visita do espírito de Hendrix cumprimentando pelo acorde; na aula de paisagismo, eu esperava produzir um jardim babilônico. Quem sabe não me descobriria uma “menina do dedo verde”, revivendo samambaias com o toque de uma unha?! Não. Era chato. E só aprendíamos aborrecidas técnicas de enxerto.

O último sopro de insistência foi viajar até o interior de São Paulo para ter aulas de como cuidar de bonsais. Sim, aquelas arvorezinhas japonesas angelicais e delicadas. Foi um fim de semana divertido no que concerne ao aproveitamento de coca-cola e amendoim no coffee break, mas não quanto ao aprendizado. Quem mandou assistir “Karate Kid” demais e se achar um Senhor Miyagi?

Para surpresa de muitos, me empolguei foi em um curso sugerido pela revista onde trabalhava. Como tratava de automóveis, seria bom conhecer melhor a “arte”. Marquei aulas de mecânica com um profissional da área, o Zelão.

Depois de uns gritos, uns tapas na cabeça e umas piadinhas, me formei. Troco óleo, faço rodízio de pneus, substituo uma bobina de ignição queimada... O básico. Se o diabo quiser ocupar minha cabeça, vai ver que nessa oficina quem manda sou eu. Pelo menos até o próximo curso.

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Eu sei podar e tratar! Hummmm...mais ou menos

Fla Wonka às 10:22 AM

quarta-feira, 24 de agosto de 2005

Em defesa dos maiores

Caçula que é caçula sempre saca do mesmo lero-lero: como seus irmãos mais velhos o maltratavam, o esculhambavam, o faziam sofrer e chorar. Como eles pegavam a maior fatia do bolo, surrupiavam a coxa mais gorda do frango, sentavam sempre na janelinha, roubavam a última bolacha do pacote – ou o último danoninho da geladeira, ou o último pedaço do último ovo de Páscoa, etc. Fora a culpa que colocam nos manos e manas por todos os medos, traumas e neuras que carregavam na infância. Bando de bebês chorões, esses caçulas.

Pior é que, além de fazerem pais, avós, tios, padrinhos, agregados e desconhecidos tomarem partido de suas frágeis figuras a cada briga (mesmo sendo eles os responsáveis pelo tumulto), ainda conseguiram convencer toda a sociedade de que irmãos menores são anjos caídos do céu que padecem na mão de carrascos. Ah, tão dissimulados! E todos caem direitinho na conversa de vítima deles. Depois de séculos e séculos de beicinho e olhos marejados, conseguiram fazer com que a máxima fosse estabelecida em seu favor.

Na condição de legítima representante da classe dos irmãos maiores, porém, acho que está mais do que na hora de defender meus semelhantes. Não que caçulas estejam mentindo sempre. Não vou negar, por exemplo, que beliscava meu irmão (nascido nove anos depois de mim) só para vê-lo chorar. Daí, o abraçava com ternura, o consolava e dizia que tudo ficaria bem – mostrando a ele que eu estava ali para protegê-lo. Caso o pirralho não parasse o choro, eu o enfiava debaixo das cobertas para a nossa mãe não ouvir. Nada bonito, hã? Mas eu tinha os meus motivos. Todos nós temos nossos motivos.

Eu era a rainha soberana da casa, do quarto e dos brinquedos quando chegaram com a notícia “Você vai ter um irmãozinho!”. A tonta aqui ficou até feliz. Mal sabia o que me esperava. O tal irmãozinho não chegou grande, querendo brincar e correr comigo. Chegou uma mini-pessoa, muito da feia, com cara de joelho e cheiro de queijo estragado. Comecei a desconfiar que aquilo não poderia dar em coisa boa. Mas ficou pior: depois de um ano, outra mini-pessoa chegou. Só podia ser castigo.

Como choravam estridente! Quando um estava quieto e o outro começava o berreiro, o primeiro punha-se a berrar também, como se fosse um coral dos infernos. E eu ainda precisei dividir o meu quarto com aqueles intrusos – que dormiam às seis da tarde, acordavam umas 20 vezes por noite e despertavam para o dia às cinco da manhã. Eu não podia ouvir música, ler um livro, curtir uma fossa pré-adolescente em paz. Quando cresceram um pouquinho, rabiscavam minhas revistas, quebravam minhas coisas, amassavam meus trabalhos escolares e manchavam minha roupa.

A proteção materna costuma ser o primeiro item na lista de defesa pelos irmãos maiores. Porque a gente roubava a última bolacha do pacote sim. Mas em seguida da ceninha com lágrimas crocodilentas dos pentelhos menores, mamãe se compadecia e prometia que o próximo pacote de bolacha seria só deles, e eles ainda poderiam escolher o sabor no supermercado! O que você prefere, leitor: uma mísera última bolacha (que ainda carrega aquela superstição contra casamento), ou um pacote inteiro comprado com carinho de mãe?

Contudo, acredito que a pior faceta da condição de irmão maior é que nós não passamos de cobaias. Isso mesmo, cobaias. Nossa mãe nunca teve um filho antes, não sabe como se faz – até porque filho não vem com manual. Ou seja, nós é que choramos com febre e ela pensando que era fome; nós que berramos com calor e ela achando que era frio; nós que armamos um escândalo com dor de barriga e ela concluindo que era apenas manha. E olha que só mencionei a fase de bebê.

Porque quanto mais crescemos, piora. Eu, por exemplo, não pude ir a diversas excursões divertidas da escola porque meus pais consideravam perigoso. Só estavam liberados passeios a museus ou feiras de ciência. Já meus irmãos, ah, foram em absolutamente todas. E aposto que ainda botavam a cabeça para fora do ônibus e faziam guerra de fandangos quando a monitora não estava olhando. Nas festas, eu tinha hora marcada para chegar em casa. Meus pais me buscavam ou ficavam me esperando na sala. Com eles, nada. Já tinham cansado dessa prática quando chegou a vez dos meus queridos irmãos.

A primeira nota vermelha é nossa. A primeira advertência, nossa. O primeiro namorico? Nosso. A primeira crise adolescente... Nossa. A primeira camisinha encontrada na gaveta? Adivinhou: nossa. Nós é que amansamos nossos pais para que os que vierem depois possam desfrutar de uma vida sem grilos ou marcações. Porque todos os grilos e marcações do mundo já foram gastos conosco. E ainda vêm reclamar de tapas no banco de trás do carro? Ah, me poupem.

Irmãos caçulas, vocês são uns maricas.

Vivi Griswold às 10:40 AM

terça-feira, 23 de agosto de 2005

Como os anos passam

É triste admitir, mas preciso: estou velha. Nunca pensei que fosse chegar tão rápido. E olha que nem “marcas de expressão” (eufemismo safado para “rugas”) ou cabelos brancos eu tenho ainda. O corpinho está em forma (também, mal tenho carnes para cair) e garanto que poderia passar por uns 20 e poucos – numa danceteria, à noite, claro. No entanto, nada disso é prova cabal de que meu tempo já foi.

Comecei a desconfiar que eu já não estava mais na flor da idade justamente quando passei a usar esta expressão, “na flor da idade”. Logo depois, um acontecimento me fez engrossar a suspeita: na aula de Espanhol, nenhuma das minhas duas colegas de classe tinha idéia do que fora o Menudo. Só eu e a professora – que, aliás, também foi ao show – conhecíamos o furacão puerto-ricense.

Fiquei com a pulga atrás da orelha (o que novamente colaborou para reafirmar a sensação de velhice. Afinal, “pulga atrás da orelha” é “do tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça”. Argh! Droga! De novo!). Até que outro dia estava no viciante exercício de zapear quando parei no “Beija Sapo”, um dos programas da Cicarelli na MTV.

Um dos pretendentes a beijar a moça (chamada de “princesa” na pagação de mico generalizada que é a atração) estava sendo entrevistado. O rapazote travestido de sapo disse que cursava o terceiro ano e pretendia fazer publicidade. Fiquei uns nanossegundos pensando: “nossa, ele já vai fazer outra faculdade?!”, até que percebi: ele estava no terceiro ano do colégio!

Corri para o rádio, tentando me convencer de que eu podia estar velha demais para pensar no colégio, mas não para o roque enrol. No som, ouço a voz da Pitty. Putaqueopariu, que saco. Minha prima, que tem 17 anos, deve gostar da Pitty. Ela adora Linkin Park e todas essas bossas, que eu acho, com todo o respeito, um pé no meio dos bagos.

Não é por nada, não. Acho a Pitty bem simpática, aliás. Mas não tenho mais idade para isso. Nem para os garotos perturbadinhos do Linkin Park, com aquelas músicas sombrias, aquela misturinha burocrática de rap e rock com uns toquezinhos eletrônicos e letras deprê adolescente, do tipo “rastejando em minha pele, essas feridas não vão se curar” ou “memórias se dissipam, como uma ferida se abrindo” (eles têm obsessão com feridas?). Para mim, parecem todas iguais.

Arrá! Eis uma prova fundamental. Estou velha mesmo. Minha mãe achava que todas as músicas do Red Hot Chili Peppers, minha banda favorita na adolescência, eram a mesma coisa. E eu pensava: “nossa, como ela pode não distinguir ‘The Greeting Song’ de ‘Knock me Down’? Não é possível!”. Quando eu tentava argumentar, ela achava que eu estava falando grego. Que Knock me Down, o quê.

Na verdade, aí está outra prova cabal de que envelheci – além do fato de não conseguir ler blogs escritos em miguxês nem ter saco para ficar passando torpedos por celular. Dia desses estava fuçando na net atrás da história das raves. Acabei por cair num site sobre música eletrônica que parece entender bastante do assunto. Só não soube me explicar. Ou sou eu que fiquei velha? Eis um trecho:

“Breakbeat, um descendente do Techno, tem origem em frenéticas batidas de Hip-Hop e samples com "pitch" altos. Há muitas variações de breakbeats: Darkside, Jungle e o mais popular, Drum 'n Bass. Trip Hop tem raízes no breakbeat e ambient e é uma colagem de beats, vocais, guitarra & bass strings, e elementos de jazz.”

Agora sim entendi como minha mãe se sentia quando eu despejava que “a primeira fase do Red Hot, cheia de influências do Funkadelic e da black music, era mais interessante que o flerte com o rock mais cru, no Mother’s Milk, mas que a junção de estilos e ritmos mostrada no Blood Sugar Sex Magik era o som mais afinado que a banda já fizera: ‘Apache Rose Peacock’ é a melhor música do CD, mãe!”

Bom, eu ainda gosto do Blood Sugar e da incrível história de uma paquera em Nova Orleans intermediada por um garotinho chamado Louis Armstrong. Talvez não seja tão ruim envelhecer. Alguma coisa sempre fica.

Clara McFly às 10:32 AM

segunda-feira, 22 de agosto de 2005

Que voltem os velhos

Hábitos. Conjuntos de manias e idéias costumazes que faz de cada um de nós gente única. Ele se manifesta de muitas formas – ao colocarmos o chinelo debaixo da cama à noite ou quando empilhamos camisetas por cor no armário. É hábito. Ultimamente, ando gostando mais dos antigos que dos novos. Pena que muitos quase que já morreram.

Hoje cultivam-se maneiras modernas de agir. Aniversário, por exemplo: quase todo mundo comemora em bar (e assim perdemos a chance de decorar a casa com bexigas e comer coxinha requentada na manhã seguinte). Escrever diário caiu de moda – e nem a cine-garota Bridget Jones reacendeu a chama e o charme dos cadernos secretos. Também já não se ouve falar de quem costure colchas de retalhos, aquela belezura de trabalho.

Claro, eu não defenderia o retorno do casamento baseado em dote, dos carburadores e das fraldas de pano. Deusolivre retroceder no tempo a esse ponto. Mas muitos hábitos bacanas ficaram perdidos em algum ponto do passado e agora fazem falta, deixando a vida menos romântica e, no bom sentido, antiquada.

Podem chamar de “idéias do arco da velha”. Eu sinto mesmo vontade de ver de volta...

... gravata borboleta e suspensórios
Talvez os rapazes chutem meu traseiro por declarar isso, mas como esconder? Acho uma gracinha homem com acessórios do tipo. A gravatinha deixa com cara de boneco de ventríloquo? Que nada! Assim como o suspensório, rende é graciosidade. Juntos, então, que doçura!

... a Cuba Libre
Ah, sim, eu gostaria que os cubanos tivessem mais liberdade, mas estou falando é do drinque. A bebida, parece, reúne coca-cola, um pouco de rum, gelo, canudo e, quiçá, guarda-chuvinha. Falou em bebida refrescante, pouco alcoólica e decorada de modo cafona, falou comigo.

... encontro para jogar buraco
Acho que os baralhos estão em extinção. Não há mais quem saiba tirar partida de biriba, pôquer ou mesmo rouba-monte (este último, aliás, é praticado apenas por deputados em Brasília... e não da forma lúdica). Onde estão as noites recheadas por canastra real e lavadeira de Ás?

... o macarrão feito em casa
Só de birra, adquiri o cilindro que abre a massa para reavivar a tradição que nossa família perdeu. Tudo bem, comprar o saco de talharim no mercado é muito mais simples, mas nada é tão agregador quanto juntar sobrinhos para fazer pasta. E tirar guerrilha de farinha depois.

... as festas do pijama
Por falar na molecada, eles vêm perdendo muito da graça de ser criança. Não podem lamber a vasilha do bolo por ameaça de salmonela. Não brincam na rua por risco de atropelamento. Ao menos o hábito de dormir na casa dos amigos e badernar com travesseiros poderia voltar, hein?

... namorico de portão
Bandidos deviam ter um código de honra prevendo o não-assalto de casais apaixonados. Foi ruim perder a chance de dar uns amassos no carro ou se despedir na porta de casa por longos minutos amorosos. Hoje é mais sábio jogar a moça do veículo em movimento, para evitar seqüestro.

... livros de receitas
Minha mãe tinha o requinte de copiar o feitio do prato em um caderno e, depois, recortar a foto e colar junto. Eu faço um desses, mas me esmero somente em reproduzir a receita com letra bonita – a fim de não substituir “uma xícara de frutas” ou “uma xícara de fritas”.

... as viagens de trem
Queria ir para Santos pela via férrea. Queria ir à Araraquara da mesma forma. Queria embarcar hoje à noite para o Rio de Janeiro e acordar frente ao mar amanhã. Não dá, porque esse transporte é considerado lerdo, perigoso e caro. Bom mesmo é dirigir feito uma besta? Pois sim...

... dos piqueniques
Vivemos a combinar, mas nunca que a “festa das saúvas” acontece! Um dia, porém, vou embalar a torta de palmito, as queijadinhas, suco de uva, brioches e sanduíches de queijo e rumar para o parque mais próximo. De preferência, usando saia rodada e sentando sobre a toalha xadrez.

... os bailes com jantar
Eis a minha maior frustração para com os hábitos desaparecidos. Não devia ter coisa mais encantadora para nossos pais e avós do que vestir traje de gala (brega mesmo, quem liga?) e adentrar o salão de tábuas enceradas. Após a ingestão de algo como codorna e suflê, é hora de bailar ao som de Glen Miller ou orquestras de jazz. Um dia ainda vou gastar a sola do sapato revivendo esse hábito para lá de saudoso. Ah, se vou.

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Ninguém mais tira para dançar?

Fla Wonka às 10:20 AM

sábado, 20 de agosto de 2005

A leitura daqueles tempos

As capas eram chamativas. O tamanho da letra, grandão. As páginas eram poucas e ilustrações apareciam sempre. Tudo isso acabava sendo chamariz para minha curiosidade quando eu era criança. Naquele tempo, bastava ver uma brochura esperando para ser degustada na prateleira “Infanto-Juvenil” que eu já sacava da frase favorita dos petizes: “Compra, mãe?”. Se bem que hoje eu continuo fuçando nas estantes mais coloridas da loja. A única diferença é que não caibo mais nas mesinhas e cadeirinhas disponibilizadas para a leitura dos pequenos – e sou chamada de “tia” por eles.

Apesar do apelo natural que um livro voltado ao público infantil carrega, acender a vontade de ler é trabalho árduo quando se tem apenas um punhado de anos. Como competir com videogame, Internet, televisão e brincadeiras com os amigos? E olha que a escola também não colabora muito. Acho o fim aquelas leituras obrigatórias de apenas uma opção – ou seja, todo mundo vai ler exatamente o que a professora acha legal.

Eu passei por tudo isso. Confesso que muitas vezes preferia tentar quebrar meu recorde no Enduro a passar a tarde lendo. Mas não há administradores de tempo melhores do que as crianças. O dia, para elas, possui umas 36 horas. Dá para fazer de um tudo – ler, inclusive. Eu conseguia. E, apesar de não haver Harry Potter naquela época, a magia era certa com...

... O Gato do Mato e o Cachorro do Morro
De Ana Maria Machado
Existe um título infantil mais delicioso do que essa riminha aparentemente boba? O Gato do Mato vivia brigando com seu maior inimigo, o Cachorro do Morro, para decidirem quem era o mais valente e destemido da dupla. O problema é que do nada surge um leão para botar o rabinho dos dois entre as pernas. Nas minhas lembranças confusas, este livro figura como o primeiro.

... O Gênio do Crime
De João Carlos Marinho
Quando chegamos naquela fase em que histórias de fadas e bichos viram “coisa de criança” (como se ainda não fôssemos isso), a melhor pedida é esse causo de mistério que fez parte da infância de muita gente – uma vez que foi publicado, pela primeira vez, em 1969. Foi a chance de brincar de detetive mirim e adivinhar quem estava por trás do esquema de falsificação de... figurinhas!

... O Menino do Dedo Verde
De Maurice Druon
Era o meu “Pequeno Príncipe”. O personagem também é descrito como um menino loiro de olhos azuis e que vivia em um mundinho só dele. O dom de Tistu era, claro, o dedo verde – tudo o que ele tocava ganhava vida, principalmente as plantas. Tipo aquela cena de “E.T. – O Extraterrestre” em que o alienígena faz uma flor reviver. E a história, como no cinema, tem final triste e inesperado.

... A Curiosidade Premiada
De Fernanda Lopes de Almeida
Toda criança já passou pela fase dos “Por quês”: para a gente era divertidíssimo saber por que a água é molhada e por que o fogo é quente; para os adultos, porém, deve ser dose. Essa brochura mostra bem o assunto levado até as últimas conseqüências. Glorinha é uma peste que quer saber tudo e incomoda muita gente com tanta curiosidade. Mas consegue, com isso, fazer até os pais aprenderem.

... O Escaravelho do Diabo
De Lúcia Machado de Almeida
Se eu fosse falar de todos os livros que li da “Coleção Vaga-Lume”, precisaria de pelo menos um mês inteiro só versando sobre o tema. Como nem eu nem você agüentaríamos, vou me ater apenas ao principal. A história dava conta de uma série de assassinatos de pessoas ruivas que recebiam um pequenino escaravelho pouco antes de comerem capim pela raiz. Dava medo, mas era ótimo.

... A Bolsa Amarela
De Lygia Bojunga
Outro dia vi esse volume em um sebo e amaldiçoei os céus por não ter um troco sequer na carteira para comprá-lo. Tudo bem: prometi a mim mesma voltar lá depois para reviver a saga da menina que mistura o dia-a-dia com histórias fantásticas de amigos imaginários que só uma criança sensível e imaginativa consegue criar. Faz muito tempo, mas lembro de ter devorado cada página.

... Quem Manda Já Morreu
De Marcos Rey
Outro favorito da coleção “Vaga Lume”. Perceba que eu já adorava histórias tipo “C.S.I” desde pequena. Ali, o herói era o Edu, um rapaz que ajudava seu tio detetive – conhecido como Palha – a desvendar mistérios. O maior deles era a identidade de um tal de Boss. Depois de ler e reler e reler mais uma vez, ainda fiz com letra caprichada todo o suplemento de atividades. Sem a professora mandar.

... História Meio Ao Contrário
De Ana Maria Machado
É tudo de trás pra frente, de ponta-cabeça. E como era divertido! Primeiro, o livro começa com “E eles foram felizes para sempre” e termina com “Era uma vez...”. Depois, a princesa se recusa terminantemente a casar-se com o príncipe encantado. A autora colocou um conto de fadas no espelho e recriou tudo assim, maluco, para a alegria dos pequenos que, como eu, tiveram a sorte de ler.

... Marcelo, Marmelo, Martelo
De Ruth Rocha
Três histórias em um só volume: uma sobre Marcelo, um menino que resolveu criar seu próprio idioma, digamos, básico (cachorro era “latildo” e colher era “mexedor”); uma sobre Teresinha e Gabriela, duas garotinhas bem diferentes, mas que no fundo eram iguais; e uma sobre Carlos Alberto, um moleque mimado e egoísta que não gostava de perder. E tudo isso assim, de uma vez. Maravilha.

... O Menino Maluquinho
De Ziraldo
Certamente o meu livro infantil favorito de todo o universo. Tanto que eu ainda o guardo, apesar da capa rasgada, das folhas soltas, do cheiro de mofo e dos rabiscos de canetinha que meus irmãos fizeram nele quando eram bebês. E o pego de vez em quando para falar oi ao menino que era maluquinho como todos nós éramos, mas que virou um adulto muito legal. Como eu espero ter virado.

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Ô vontade de abraçar esse moleque!


Vivi Griswold às 11:06 AM

sexta-feira, 19 de agosto de 2005

Troca o disco

Já experimentou assistir a um filme com a tv no mudo? Talvez a falta não seja notada numa cena qualquer, mas nas seqüências mais eletrizantes – sejam elas de terror, comédia ou drama – o efeito sem a trilha sonora não é o mesmo. A musiquinha ambiente pode passar despercebida, mas quando a retiramos é fácil notar o estrago. Imagine o inesquecível trecho do vôo das bicicletas em “ET – O Extraterrestre” sem os acordes monumentais de John Williams. Sacou?

Mas nem só de trilhas incidentais são feitos os filmes. Ou melhor, a trilha sonora deles. Temos também as canções-tema, sendo que algumas se grudam a seus personagens feito música ruim no cérebro. Quem não pensa em Daniel-San, de “Karatê Kid”, ao ouvir os primeiros versos de “Glory of Love”? E quem se esquece da sanguinolenta seqüência da orelha em “Cães de Aluguel” toda vez que escuta “Stuck in the Middle with You”?

Pois eu acho que os produtores e diretores deviam ter um pouco mais de senso de humor e ousadia para fugir do óbvio. Não seria o máximo ouvir “Pedaço de Mim”, com os versos “Oh, pedaço de mim/ Oh, metade afastada de mim” quando um enlouquecido Michael Madsen decepa a orelha do policial? Não? Ah, você não tem senso de humor! Melhor nem seguir na lista de sugestões para mudanças nas trilhas sonoras, logo aí embaixo.

Casa, Lulu Santos
Para o filme: Horror em Amityville
Lulu cantava “Pois sempre tem a cama pronta, e rango no fogão/ Luz acesa, espera no portão”. Tudo bem que nem sempre são as pessoas deste plano terreno que acenderam a luz ou estão te esperando na porta. Mas ouvir a música em meio a cenas de uma casa possuída seria definitivamente um belo alívio cômico. Ainda mais para mim, que caio em todas.

Elas Estão Descontroladas, Furacão 2000
Para o filme: As Panteras
“Elas sobem, elas descem, elas dá (sic) uma rodada/ Elas estão descontroladas”. Olha que Cameron Diaz, Lucy Liu e Drew Barrymore fazem até mais que subir, descer e rodar quando encarnam o trio contratado por Charlie. Elas batem, quebram e espancam os bandidos que nem mato. E é sempre muito divertido ver mulheres (ou funkeiros) botando para quebrar.

Terra, Planeta Água, Guilherme Arantes
Para o filme: Waterworld
“Terra, planeta águaaaa/ Terra, planeta águaaa (repete ad eternum)”. Se essa não seria uma bela trilha para as três horas em que somos brindados com Kevin Costner navegando num barco fulambento na imensidão azul, não sei o mais o que é trilha. Ou o que é passar três horas a ver Costner navegando num barco fulambento na imensidão azul.

Talco no Salão, Cremilda
Para o filme: Dirty Dancing – Ritmo Quente
“Talco no salão, talco no salão/ Pro forró ficar cheiroso e ter mais animação”. A grande Cremilda registrou os versos sem pensar que, em meados dos 80, a música viria a calhar para a história de uma garota apaixonada pelo instrutor de dança da colônia de férias. Eles dançam o tal ritmo quente na água, num tronco, nos bangalôs. Com talco, ficaria bem mais legal.

Maionese, Gil
Para o filme: Rocky
“Má-iô-ne-se, ele me bate bate feito maionese”. Nem precisa dizer mais. A cantora Gil acertou na mosca o espírito da cinessérie estrelada por Sylvester Stallone. O pobre diabo apanha até dizer “êpa”. Com a cara mais feia que o Largo da Batata, eis que o Garanhão Italiano reage. Daí, é a vez do adversário cantar o refrão de “Maionese”.

Caçador de Mim, Milton Nascimento
Para o filme: Predador
“Nada a temer, senão o correr da luta/ Nada a fazer, senão esquecer o medo”. Os compositores jamais imaginaram que seus versos caberiam como uma luva para a trama em que Schwarzzie e cia. são caçados numa floresta por um bichão de rastafári. Eu ainda tô para saber como alguém com unhas daquele tamanho pode manusear tanta parafernália digital.

Agamamou, Art Popular
Para o filme: Terremoto
“Requebra de cá, requebra de lá/ Tá querendo balançar”. Se o filme-catástrofe dos anos 70 fosse refilmado no Rio, a letra poderia ser mais aproveitada: “E a galera lá do Morro do Salgueiro e Vidigal, tá querendo balançar”. Senão, é só adaptar. Afinal, a métrica da composição permite dizer qualquer coisa e arrematar com “tá querendo balançar”.

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Será que sêo Charlton apreciaria
o timbre de Leandro Lehart?


Clara McFly às 11:08 AM

quinta-feira, 18 de agosto de 2005

Quem canta, os vizinhos espanta

Com toda sua habilidade tecnológica, o japonês Daisuke Inoue poderia sido o criador do teletransporte. Ou poderia ter inventado uma montanha-russa portátil ou um sistema de invisibilidade para escaparmos do chefe quando este fica bravo. Mas que nada: Inoue poderia ter imaginado um novo sabor de pastel ou uma versão de “A Gaiola das Loucas” para o teatro Kabuki, mas ele preferiu gerar a invenção mais discutível de todos os tempos. Daisuke, seu louco, foi tua a idéia do karaokê, né?

Aconteceu em 1971. O então rapazote teve a visão de um aparelho que tocasse as músicas sem letra, para o pessoal cantar por cima. Farra total entre japoneses, os shows de calouros poderiam enfim ser organizados em qualquer clube de bocha e sem a participação de uma bandinha.

Inocente, porém, Daisuke Inoue não patenteou sua... er... belíssima idéia. A mania se espalhou como areia dentro do biquíni e ganhou o planeta. Mas o criador ficou a ver navios – inclusive com a aparição do “primo” videokê. Deve ter sido castigo por permitir que tias assolassem nossos ouvidos com interpretação esganiçada de clássicos da Jovem Guarda.

Claro, pois não há mais uma festa de aniversário que aconteça sem a presença do karaokê. Desde evento para bebês de um ano até bodas de diamante de dois nonagenários, lá podemos localizar o negócio plugado na TV. Com direito a microfone dourado e uma pasta com milhares e milhares de sucessos.

Como “sucesso” entenda-se todo o repertório do Kid Abelha e as mais-mais de Wando, Fábio Jr. e Roberto Carlos. Se bem que essas são até impopulares perto de “Fio de Cabelo”, parida por Chitãozinho e Xororó, “Whisky a Go-Go”, do Roupa Nova, e “Dancing Queen”, hit setentista do ABBA. E olha que a banda sueca ainda colabora com o karaokê liberando a difusão de “Fernando”, “Chiquitita” e “Super Trouper”.

Ao que me consta, toda noite devemos rezar para nunca topar com um matador de aluguel, nunca prender o dedinho da mão na porta do carro e jamais acordar bêbado ao lado de um senhor de idade com cuecas samba-canção. Mais do que tudo, entretanto, eu uno mãos e rogo ao Senhor dos Universos para meu vizinho não adquirir um karaokê.

Sim, porque todo mundo que aluga um karaokê é gente divertida que gosta de farra em eventos familiares e com amigos. Diverte-se à beça entoando clássicos bregas enquanto puxa o sogro pelo ombro – e o obriga a cantar “Festa do Apê” na frente da turma toda. Já quem COMPRA um karaokê, me preocupa... Isso só pode querer dizer que o sujeito realmente se considera um bom cantor. E vê futuro na atividade. Não é brincadeira, é assustador.

Em pouco tempo você ouvirá dizer que o feliz proprietário do aparelho está “treinando muito” as canções. E que já conseguiu “uma ótima pontuação com ‘Águas de Março’”. Francamente: ninguém reparou que os pontos são mais fajutos que nota de 3 Reais? Basta urrar feito um porco no abate e o condescendente karaokê assimila isso como um gogó de ouro.

Eu mesma, dona de um timbre semelhante ao do Pato Donald, já fui capaz de conquistar a aprovação do brinquedo – não espalhem, mas foi com uma interpretação toda prosa de “Livin’ on a Prayer”, do mago Jon Bon Jovi. E, como disse, bastou urrar de modo insano no “Ooooooooo/ We’re half way there/ Oooooooo/ Livin’ on a prayer”! Com braços ao alto e tudo. Vergonha...

É, é verdade, eu também já brinquei de karaokê. Não se espantem. Afinal, depois de duas doses caprichadas de Fanta Uva Diet, digo aos amigos que considero todos como chapas e canto qualquer balada. Foi isso que Daisuke Inoue fez, aliás: liberou a besta dentro de nós, esse animal possuído e feliz que entorna bebidas escusas e, dentro de um bar de gosto discutível e iluminação colorida piscante, solta a voz.

Em uma pesquisa feita há nove anos, mostrou-se que 10 milhões de karaokês já tinham sido vendidos. No mundo, a coisa ficou tão conhecida quanto “pizza” e “música disco”. No Japão, como em tantos outros lugares hoje, ele é considerado um meio de quebrar o gelo entre colegas, aproximar pessoas e até promover o aprendizado de outras línguas. Daí o fato de Daisuke Inoue ter recebido o Ignobel da Paz em 2004. Tudo bem, o prêmio é apenas uma sátira ao Nobel, mas aposto que Inoue gostou de saber o seu valor.

Diz a lenda, inclusive, que o simpático inventor japonês celebrou seu aniversário de 59 anos, em 1999, usando o karaokê pela primeira vez. Cantou “Hound Dog”, ao que consta. Aposto que Elvis não se revolveu no túmulo, porque o Rei do Rock era um grande sarrista. Já os vizinhos de Inoue... Esses devem rezar todo dia para encontrar um matador de aluguel pela frente ou prender o dedinho na porta do carro. Deve doer menos do que presenciar o poder do karaokê.

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Canta Raul, Inoue! Mas deixa eu
colocar os tapa-ouvidos antes

Fla Wonka às 10:15 AM

quarta-feira, 17 de agosto de 2005

Espantando marcianos

Muitos já viram esta idéia: enviar ao espaço sideral alguns dos aspectos mais bacanas do nosso planeta para, no caso da existência de seres extraterrestres, mostrar a eles como aqui é bonito, agradável e cheio de vida. Dessa forma, costuma-se pensar em mandar arquivos com o rebolado de Elvis, uma canção dos Beatles, um soneto de Camões, um gol do Pelé, uma réplica de um quadro de Van Gogh... E até sorrisos de bebês, imagens de pôr-do-sol, foto de ninhada de cachorrinhos, etc. Algo assim meigo e positivo ao mesmo tempo.

Eu já acho tudo bem estranho. Pra quê fazer propaganda da Terra? Pros alienígenas verem que realmente vale a pena invadir tudo, escravizar os humanos e fazer testes com eles enquanto homenzinhos verdes curtem uma praia? Sei não. Acredito que esse pacote de boas-vindas só faz os ETs ficarem de olho gordo no que é nosso por direito. E olho gordo de ET não deve passar nem com benzedeira. Como há a possibilidade de nossos vizinhos intergalácticos serem pouco amistosos – afinal, qualquer cidadão sem pipi deve ser revoltado – eu voto por não arriscar.

Basta ver que a Terra já está populosa demais. Já caminha por aqui gente bem estranha. Já temos conflitos saindo pelo ladrão. Se não for para ajudar a transformar nossa vida em um paraíso celestial, é melhor que os extraterrestres fiquem mesmo só olhando de fora. Para garantir que eles voltem a atenção para outros planetas que não o nosso, proponho um pacote bem diferente daquele que costuma ser proposto: um pacote para espantar marcianos. Seria bem fácil. E divertido!

Ao invés de Bach, Beethoven e Mozart, acho que poderíamos mostrar outra faceta de nossa vasta cultura musical: canções que grudam e não soltam nunca mais. Como “Florentina”, do Tiririca. Imagine um bando de alienígenas ouvindo os versos “Florentina, Florentina/ Florentina de Jesus/ Não sei se tu me amas/ Pra que tu me seduz”. Aposto que suas cabeças explodiriam como no filme “Marte Ataca”, do grande Tim Burton. Eis uma arma mais poderosa do que a bomba atômica! No combo, seriam incluídas também “Macarena”, “Ragatanga” (com as devidas coreografias) e Caetano Veloso cantando “Sozinho”. Infalível.

No lugar de Camões, Shakespeare, Byron e Fernando Pessoa, versos igualmente belos como “When you breathe/ I wanna be the air for you”, do poeta John Bon Jovi. Ou “I don't care/ who you are/ where you're from/ what you did/ as long as you love me”, do Backstreet Boys. Decerto os ETs não possuem anticorpos contra essa dose altíssima de glicose. Mas caso sobrevivam à seção melosa, podemos expô-los a obras que fazem pensar – demais. Tipo “Uma palavra na tua camiseta/ O planeta na tua cama/ Uma palavra escrita a lápis/ Eternidade da semana”, do grande Humberto Gessinger. Ou “Açaí guardiã/ zum de besouro um imã/ branca é a tez da manhã”, do nosso Djavan.

Estou começando a ficar com dó dos visitantes. Porém, não há espaço para gente frouxa nessa luta! Então, continuemos com alguns espécimes cinematográficos. Nada de Fellini, Bergman, Hitchcock ou até mesmo Spielberg. Que tal uma exibição de “Waterworld – O Segredo das Águas”, abacaxi estrelado por Kevin Costner? Se sobrar algum homenzinho após a seção, é bom emendar com “Glitter”, da Mariah Carrey. Também há exemplares nacionais como “Eliana e o Segredo dos Golfinhos” e “Aquária”, com Sandy e Junior. Capaz de haver um suicídio em massa dentro da nave.

Na parte de literatura, tratemos de esconder Wilde, Machado, Bukowski, Garcia Marquez e companhia. Quem sabe a obra completa de Lair Ribeiro, hã? No caso dos alienígenas sobreviverem, correm o risco de fazer muito sucesso na vida. Então, estamos de fato ajudando-os, certo? Eles podem também entrar em contato com os mistérios do eu interior com Paulo Coelho. E aprender palavras novas como “intumescer” com aquelas brochuras de banca como Julia, Bianca e Sabrina. Sobrou ET? Dá-lhe o livro do José Sarney (ele deve ter um, afinal está na Academia Brasileira de Letras), ou a obra de Adriane Galisteu “O Caminho das Borboletas”.

Em vez de Fred Astaire, mostramos um número de dança com a(o) Lacraia. Em vez de sorrisos de bebês, uma fralda suja e fedida. Em vez de um pôr-do-sol, qualquer entardecer na zona de guerra do Iraque. Em vez de cenas de humanos vencendo adversidades, uma matéria da revista “Caras” com a socialite abrindo as portas de sua nova cobertura. Em vez de avanços científicos e tecnológicos, uma Variant 73 cor de abóbora. E em vez de uma ninhada de labradores felpudos e adoráveis, uma foto de Sam, eleito pelo terceiro ano consecutivo o cachorro mais feio do mundo:

sam.jpg

Quero ver aterrissarem aqui depois dessa.

Vivi Griswold às 10:55 AM

terça-feira, 16 de agosto de 2005

I fought the law

Embora ontem mesmo eu tenha sido acusada injustamente pela colega Flávia (ok, eu me esqueci mesmo de levar os post-its de brinde para as duas, mas foi só isso. Juro que não estou na famigerada lista de sacadores de Marcos Valério), confesso que já me vi, muitas vezes, em posição de burlar a lei. Todo mundo aí fora já teve sua chance, não?

Pródiga que sou em perder documentos – meu RG é quarta via; uma vez perdi, outra roubaram e por fim me vi obrigada a alterar a carteirinha para botar ali meu nome de casada – sou quase uma habitué do Poupatempo. Da última ocasião em que estive nos domínios dessa mega-mão-na-roda foi para tirar o RG com o “Garcia” acrescido ao meu sobrenome.

Antes de me encaminhar para lá, busquei na net o que era necessário. Certidão de casamento, RG anterior e, em caso de roubo, o B.O. – o que me isentaria do pagamento da taxa pelo processo. Havia ainda outra opção para não pagar os 20 paus exigidos pelo governo: estar desempregada, comprovando a condição sem o famoso “registro em carteira” (hoje praticamente uma peça de museu), há mais de três meses.

Pois bem. Eu não tenho registro em carteira há uns... quatro anos. Fui ruminando comigo mesma no coletivo: “bom, eu posso muito bem dizer que estou a ver navios em se tratando de trabalho... Economizo aí uns 20 e pego um cinema com pipoca jumbo no final de semana”. Ensaiei à beça, repetindo como um mantra: “quando a mulher disser: ‘está desempregada?’, eu digo ‘sim, estou’”. Pronto. Era mais fácil que tirar pirulito de criança!

Adentrei o galpão e encarei a fila. Quando chegou a minha vez...

“Bom dia. Preciso de uma segunda via de RG, com meu nome de casada.”
“Trouxe certidão de casamento e RG anterior?”
“Sim, tá aqui.”
“Ok. Está desempregada?”
(pausa)
“Er... sss... não! Não estou.”

A mulher tentou me dar mais uma chance, exclamando como se minha resposta fora absurda:

“NÃO ESTÁ DESEMPREGADA?!”

Pensei comigo: devo ter a maior cara de desocupada dos rincões da Vera Cruz. Ratifiquei:

“Não, não estou. Estou trabalhando.”
“Então, vai pagar vinte paus. Palhaça!”

Tá, ela não falou desse jeito. Foi mais para algo do tipo “então vá até o banco, no fim do corredor à direita, para recolher a taxa”. Mas é que foi assim que minha memória guardou.

Eu tenho um problema em mentir para o governo. Não que eu seja a pessoa mais sincera do planeta – como todo mundo, devo contar aí uns parezinhos de mentiras chamadas “brancas” diariamente. Mas com o governo... sei não. Já me imagino na cadeia, ou ao menos no tribunal, escutando do juiz aquela terrível frase que sempre vejo em filmes e séries de advogado: “a acusada pode se levantar para ouvir a sentença”. Pé-de-pato, mangalô, três vezes.

Noutra feita, fui parada por um policial rodoviário. Minha habilitação estava vencida há uns... deixa ver... dez meses. E eu simplesmente não sabia, porque quando tirei a danada, em 1996, 2001 era o ano da odisséia no espaço e estava muito, mas muuuito longe mesmo, manja? Logo, esqueci por completo de renová-la.

O cara-de-pau do senhor guarda me deu uma canseira de uns 40 minutos, entremeado por frases do tipo “vamos resolver isso aí” e “como seus olhos são bonitos!” (essa última dirigido à minha irmã, que me acompanhava). Estava claro que queria uma graninha. Devolvia a carteira do documento toda hora para a gente. Voltava, recolhia, abria... e nada.

Ele disse que ia ter de apreender o carro. E minha carteira (o que não seria incômodo nenhum, já que a desdita não valia mais que um desenho do Caetano imitando uma habilitação). Falei: “puxa, eu garanto que sou uma boa motorista, mas realmente me distraí. Se é isso o que se aplica, paciência. Posso ligar para alguém vir me buscar?”

Acho que o cara se cansou e deixou a gente ir – sem multa, mas também sem propina. Na manhã seguinte, lá estava eu na minha segunda casa, o Poupatempo, renovando o papel que me dá direito a flanar por aí atrás de um volante.

Mas tenho de confessar algo. Não, não tem nada a ver com post-its, mas sim com minha habilitação. Depois de reprovar duas vezes naquele exame comandado por mafiosos de auto-escolas por duas vezes, decidi “contratar” minha aprovação – eufemismo usado pelo pessoal “do ramo” (não disse que era uma máfia? Tem até os jargões!) para “comprar a carta”. Eu já sabia dirigir, pôxa, e reprovava por puro nervosismo – acentuado pelos caras que estão loucos por tirar uns cruzados do seu bolso.

Estava tudo acertado. Entrei no carro de exame pela terceira vez. Botei o cinto. Dei seta. Engatei primeira e saí perfeitamente. Fiz o percurso sem um engasgo – inclusive a parada e nova saída na subida. Encarei naturalmente a terrível “faixa”, responsável pela minha primeira não-aprovação, onde era preciso passar com um pneu no meio-fio e embicar o carro a 90o na calçada oposta. Segui para uma baliza simplesmente irretocável, de primeira. Enfim, tive uma performance que seria aprovada com louvor.

Daí concluí algumas coisas: Murphy vive; eu sabia mesmo dirigir, mas reprovava de puro nervosismo, e a sensação de ter jogado dinheiro fora à toa, nas piores mãos possíveis, deixa um gostinho amargo na boca. Burlar a lei nem sempre faz você se sentir por cima. Muito pelo contrário.

Clara McFly às 10:49 AM

segunda-feira, 15 de agosto de 2005

Operação limpeza

Nunca imaginei que, um dia, fosse me postar em frente dos colegas para prestar esse tipo de esclarecimento. Claro que não adianta dizer, mas reafirmo: não tenho nada com isso, o desvio de valores foi feito à minha total revelia. Nosso grupo está em completo descrédito após esse escândalo terrível. Vossas Excelências podem estar certos de que não durmo há dias, perdi a fome, já nem brinco com a minha filha... (*Chuinf, chuinf*). Tudo por causa das minhas sócias, que não souberam controlar seus impulsos. Não estou aqui para julgá-las, mas apenas para ajudar essa comissão de inquérito e limpar a imagem do GQDN (Garotas que Dizem Ni, nosso partidão).

Estou prestando depoimento por vontade própria, é bom que fique claro. Os jornais e revistas ficam dizendo o que bem entendem sem apurar fatos, mas a verdade é que eu não tive nada a ver com o desvio de Post-its. Nada, nobres colegas, nada! Nossa tesoureira, a senhora Clarissa Adriana, arquitetou essa situação toda. Caixa 2 de jujubas, captação de gibis junto aos amigos, pagamentos de lanche no McDonald’s sem nota fiscal... Não concordei com nada disso.

E se hoje venho aqui com Habeas Corpus requisitado junto às instâncias superiores, podem estar certos de que é apenas para minha proteção e dos meus familiares. Eu falo “a minha verdade”, oras. Sei que não tenho provas de nada, não estava presente na data do ocorrido, não vi ninguém entregar encomenda alguma, sou meio surda de um ouvido e às vezes vejo girafas roxas tocando flauta, mas... eu sou sim uma pessoa confiável! Tenho certeza sobre a existência do Pacotão.

Desde que era menininha, lá nos rincões do agreste de Beverly Hills, nunca presenciei tanta lama. Datavênha, nobres colegas, datavênha. (Tudo bem, não sei o que significa essa “datavênha” aí, mas acho bonito dizer pra dar mais credibilidade ao discurso). Clarissa Adriana recebeu sim Post-its das contas do senhor Márcio Aurélio. E tudo me leva a crer que Viviana Agostinho sabia de tudo sim. Eu estava no apartamento em que elas combinaram os pagamentos: a quantia era de 12 parcelas de 10 milhões de bloquinhos nas cores verde-limão e rosa-Barbie. Essa foi a primeira vez em que “vi falar” do Pacotão.

Isso tudo é tão triste, puxa... (*Chuinf, chuinf*). Damos a vida para defender este país e proporcionar ao povo brasileiro uma vida melhor, mais dignidade, um suprimento justo de comida e Post-its para anotação de recados... Desde que lutei na guerrilha do Araguaia e passei fome, sede, sono, vontade de fazer xixi e a privação de não ter sequer um gole de uísque 18 anos pra beber, nunca me senti tão arrasada.

Se os senhores quiserem, eu abro meu sigilo bancário agora! Agora agorinha nesse segundo! Sou garota correta e não quero meu nome misturado ao dessas duas moças que macularam a imagem de um grupo lutador como o GQDN. É um absurdo envolver camaradas inocentes nessa barbárie hedionda, burlesca e torpe mesclada com um ignóbil conceito de cidadania. O que quer que isso queira dizer.

Mas ora, é claro, eu também queria ganhar o iBest – e fazer uma campanha vultuosa nos rendeu ótimos frutos mesmo! Mas nunca desconfiei, juro, que todos os milhões usados ali vinham das Bahamas. Clarissa Adriana e Agostinho contrataram aquele marqueteiro de renome, porém me juraram que ele trabalhava por amor aos nossos textos e recebia em amendoins! Quando eu poderia imaginar que ele, além de alucinado por rinha de pulgas, era ainda um salafrário que abriu conta no Caribe para amealhar fundos?

E agora vem dizer que não sabia de nada... Odeio essa gente mentirosa que fica chorando de jeito fingido só para ganhar simpatia popular... (*Chuinf, chuinf*). Minhas lágrimas são reais. Eu nunca recebi Pacotão e vivo mui modestamente com minha família comprando nossos próprios Post-its com muita dificuldade.

Agora meus entes queridos não podem mais sair na rua sem cobrir o rosto com vergonha. Mas tenho fé que a verdade aparecerá. Nunca a opinião pública saberá, porém, de onde vieram tantos Post-its e quantas pessoas foram beneficiadas neste esquema. Só espero não ir parar no xilindró. Tem muito bandido lá.

Este texto é uma obra de ficção – nomes e cenas foram inventadas, mas qualquer semelhança com a realidade política do Brasil não é mera coincidência. Só espero que aquilo tudo que vemos hoje divulgado na TV e nos jornais não passe incólume. Porque Clarissa não repassou mesmo uns Post-its que ganhamos e isso acabou virando piada entre Garotas. Mas brincar com dinheiro público, com influência e serviços à nação, isso não tem a mínima graça.

Fla Wonka às 10:44 AM

sábado, 13 de agosto de 2005

Toda criança é um pouco

A infância consiste no período mais peculiar da vida: enquanto dependemos dos adultos para a nossa sobrevivência básica (e, por isso mesmo, precisamos obedecer-lhes), podemos fazer tudo o que a cachola mandar. Petizes não conhecem vergonha, não têm medo de perigos terrenos e estão pouco se importando para a opinião alheia. A eles é permitido dar asas à imaginação e aprender com liberdade. Se aprontam alguma travessura, alguém sempre vai dizer “Ah, mas criança é assim mesmo!”.

Sob essa máxima, os pequenos se amparam e encontram permissão para muita coisa – desde que não seja tentar voar da janela do prédio ou ver quanto tempo o irmãozinho bebê consegue prender a respiração debaixo d’água. É claro que broncas virão com uma certa freqüência como resultado dessa prática libertária. Depois que crescemos, porém, vemos que sermão pode ser um mal necessário às vezes. E vemos como era legal aquela época. Afinal de contas, toda criança pode ser, e é, um pouco...

...dramática
“Se você não me der um picolé, vou parar de respirar!”. Imagine dizer essa frase quando se tem 30 anos! A meninada é mestre em fazer drama para conseguir o que quer como se nisso dependesse a própria existência. Ainda existe aquela “Eu prometo que nunca mais vou pedir outra coisa!”.

... estilista
A mãe bem que tenta empurrar um vestido ou uma camisa. Mas a filha ou o filho quer mesmo é usar saia de bolinha por cima da calça listrada ou a roupa do homem-aranha com tênis que acende. Isso quando não inventa de fazer um rabo-de-cavalo na testa ou usar gel verde limão no topete.

... paranóica
Acha que debaixo da cama mora um monstro. Que o urso de pelúcia ganha vida e anda pelo quarto à noite. Que a sombra da árvore na janela é um vampiro tentando entrar. Que a vizinha velhota é na verdade uma bruxa maligna devoradora de criancinhas. Enfim, o mundo conspira contra ela.

... artista
Desenhar uma casinha, com sol sorridente e nuvens fofas, flores por todos os lados e cercas brancas, lago com patos amarelos e peixes vermelhos... tudo na parede da sala! A casa onde mora é uma tela em branco para o(a) pintor(a) mirim. Tudo vale – contanto que não use canetinha no sofá novo.

... esquizofrênica
Amigos invisíveis estão por toda parte e aparecem do nada. Principalmente quando a criança derruba o vaso de porcelana que veio de herança da bisavó. Ao ver mãe correndo para dar bronca, diz: “Não fui eu, foi a Lurdinha!” (sendo que a Lurdinha é mais falsa que nota de R$ 3).

... gourmet
Nas panelinhas de plástico, uma mistura de água da torneira, grama picada, batata roubada da cozinha e terra. Daí, na hora de comer de verdade, a invenção continua: bota ketchup, mostarda e maionese no arroz com feijão e adora molhar a batata frita no sorvete com leite condensado.

... bióloga
Basta uma lagarta aparecer que ela já corre para botar a mão – sem ao menos pensar na possibilidade do bicho ser venenoso. Estuda por horas o vôo das borboletas e de vez em quando faz experimentos: tira da formiga o pedaço de folha que levava no lombo e coloca uma pedra no lugar.

... roteirista
É só o adulto dar corda que o petiz começa a narrar aventuras complexas como se as tivesse vivido. Viagens de foguete por planetas desconhecidos na hora do recreio da escolinha. Desbravamentos de matas cheias de canibais enquanto os pais dormiam. Visitas à China pelo buraco do quintal.

... vilã
Poucos conseguem ser tão cruéis quanto a criança: se está inspirada, chama o amiguinho gordinho de “rolha de poço”, diz para a irmãzinha que ela foi adotada, faz o priminho dar um soco na parede, esconde a boneca da coleguinha, coloca uma lagartixa no travesseiro da avó, etc.

... heroína
Contudo, adora salvar o mundo quanto está com vontade. Aplica golpes de caratê na barata que tanto assustou a mãe. Arruma briga com o garoto da rua de cima que puxou o cabelo de sua irmã. Dá bronca se pega o pai fumando. Fala para a avó tomar cuidado ao usar a faca de serra.

E podem ser astronautas, meliantes, motoristas, atletas de olimpíada, cientistas, piratas, robôs, seres de outro planeta, chantagistas, adeptas do nudismo, malucas. Toda criança, ainda bem, é um pouco de tudo.

Vivi Griswold às 10:22 AM

sexta-feira, 12 de agosto de 2005

Só no forévis

Quem vive de escrever – sejam livros, reportagens, manuais, comunicados ou sites – sabe como pode ser surpreendentemente difícil encontrar sinônimos. Trocamos facilmente um “ocorrer” por um “acontecer”, um “havia” por “existia”, mas há termos mais marrudos – como “videoclipe”, por exemplo. Só há um nicho de palavras onde sinônimos caem às pencas, feito banana do cacho: os substantivos usados para designar as “partes”. Como assim, que partes? As partes íntimas do corpo, ué. Tá vendo? Até “parte” é aceita como designação das... “partes”.

Pode apostar: qualquer palavra pescada a granel no dicionário terá, se muito, um número bem limitado de sinônimos. Nada comparável à grandeza numérica dos nomes que podem ser usados à guisa de referência ao pênis, à vagina e ao ânus. Aliás, o próprio triângulo já me sugere o porque de tantos sinônimos brotarem da boca do povo: é muito chato, técnico e broxante dizer “pênis”, “vagina” e “ânus”, a não ser que você esteja numa consulta médica.

Outro fator a se considerar para essa multiplicação de termos é a irresistível graça que aparentemente achamos na simples pronúncia de um palavrão. Não é engraçado dizer “ânus”, mas pode ser hilário falar “toba”. Ou “fiantã”. Além disso, a fim de fazer trocadalhos do carilho – algo muito comum em se tratando de tais partes da anatomia – é preciso ter muito com o que rimar.

Aquela marchinha “Pipoca, meu bem, pipoca”, com o verso “Vem cá, meu bem/ Que coisa louca/ Quero botar pipoca na sua boca”, não teria a menor graça se não existisse a “piroca” como sinônimo de “pênis”.

Mas tais palavras precisam de muito mais.

É preciso ter uma linha técnica (representada pelos “nomes científicos”), uma linha cômica, uma linha infantil e uma linha chula. Onde cada termo vai fica a seu critério. Ou seja, cada um decide onde prefere enfiar a “piroca”. (Desculpe, não resisti).

Para mim, “piroca” entra na gaveta dos sinônimos engraçados para o científico “pênis”. Assim como “vergalhão”, “piciroca”, “mandioca”, “jeba”, “rola”, “pau” e “bráulio”. Na casa dos infantis, tradicionalmente encontramos o “pipi”, o “pingolim” e, vez por outra, uma “manjubinha”. Entre os chulos, coloco “caralho”, “pica” e “cacete”. Tanto que esses são os mais usados para xingar. Ninguém diz “ô, manjubinha!”, mas sim “ô, caralho!”.

No caso da “vagina”, tão pródiga em sinônimos quanto seu colega pinto, acho cômico ouvir “perseguida”, “aranha”, “bixoxota” e, mais que tudo, “prochaska” – essa última, claro, criada a partir da lendária história do “fecha na Prochaska”, orientação dada pelo diretor ao câmera que cobria um baile de Carnaval apresentado pela atriz Cristina Prochaska (adivinhem onde o câmera deu o close?).

Para as crianças, dizemos “periquita”, “perereca” (que mania de botar bicho no meio, não?) e, minha favorita, “pupuca”. Entre os chulos, vejo “xana”, “xavasca”, “buceta” ou “buça” e “carne mijada” – especialmente horroroso, na modesta opinião de uma portadora da parte assuntada.

Finalmente, o “ânus” é muitas vezes disfarçado de “bunda” para os mais pudicos ou para os petizes. Mas tem alguns dos sinônimos mais engraçados: “fiofó”, por si só, é uma palavra gozada. Assim como “fiantã”, “butico”, “toba” (com bastante ênfase no “tó”), “brioco” e “chibiu” (será com “x” ou com “ch”?).

Diante de tantas possibilidades (ainda temos “rabo”, “anel”, “rosca” e seu primo cossaco, o “roscófe”, “rego” e o inesquecível “forévis”, popularizado pelo grande Mussum), o famoso, monossilábico e um tanto chulo “cú” até perde a graça. Não?


Clara McFly às 10:45 AM

quinta-feira, 11 de agosto de 2005

Nomes para esconder

Meu avô, aquele senhor mais do que bacana, era também um homem criativo. Entre suas excentricidades – se bem que pobre é mesmo “doido”, não “excêntrico” – a predileta era mudar os nomes das pessoas. Dos netos, principalmente. Meninas e meninos da família sempre ganharam uma versão cafona de seu nome. Por exemplo: minha prima Cássia sempre foi, para ele, Julieta. As garotas mais velhas eram Zuleica, Amélia ou Teresa. Eu era a Lourdes, creiam. Meu avô foi um grande inventor de nomes de guerra. Mas não era tão imaginativo quanto as pessoas de hoje em dia.

Nome de guerra é a alcunha que se dá a quem não vê, no próprio chamamento, respeito, charme ou glamour. Marylin Monroe teria virado mesmo um sex symbol divulgando a si própria como Norma Jean Baker? A mim parece, no máximo, nome de tiazinha que dá aulas de culinária na TV. Tipo Palmirinha Onofre.

Outros artistas seguiram a linha. Rick Martin, sinto informar, não passa de um Enrique Morales. Com a antiga forma, podia muito bem ser tocador de reco-reco no metrô de San Juan, mas nunca um rei do rebolado, ex-menudo e pegador de tietes. Fez bem em se renomear, o Enrique.

Para ficar mais “mano”, também vale alterar na certidão. Eminem se chama Marshall, um nomezinho muito do chumbrega (até mesmo para um rapper branquela). Já 50 Cent, com aquela pose toda de quem quebra ossos e chupa a cartilagem, nasceu Curtis Jackson. Eu chutaria a bunda de um Curtis, mas nunca de um 50 Cent. Boa troca, portanto.

Aqui no Brasil, os meliantes aprenderam a lição. Elias Pereira da Silva pode não ter metido medo em muita gente quando assim era conhecido. Já de Elias Maluco, todos corriam. O repórter carioca Tim Lopes, apagado por ele, não teve sorte de fugir a tempo. E Elias virou luz também, depois de preso – provavelmente pelas mãos de alguém um pouco mais “maluco” do que ele.

Tenho a seguinte teoria hoje: nomes no diminutivo apresentam um passador de tóxico; já nome duplo indica gente metida com falcatruas monetárias. Para comprovação do primeiro caso, posso apresentar Andinho, Edinho, Fernandinho, Naldinho. No segundo, José Dirceu, Marcos Valério, Fernanda Karina, Renilda Maria... A exceção da regra é o casal Rosinha e Garotinho, que esses devem mexer com ilicitudes de várias naturezas.

Mas nome não se muda só para fugir dos tiras. Também é bom para se diferenciar e ganhar o público em geral. Eu, aliás, aprecio muito o trabalho de Arlette Pinheiro Monteiro Torres. E também sou parada em tudo o que faz Paul Hewson. Ultimamente, ando cantando o tempo todo com David Robert Jones e William Broad. Fernanda Montenegro, Bono Vox, David Bowie e Billy Idol, felizmente, contrariaram suas mães ao escolherem codinomes.

Fernando Pessoa há de concordar que o batismo nem sempre condiz com um trabalho a ser feito. Em devaneios de personalidade, o poeta criou heterônimos (jeito chique de chamar os nomes de guerra). Além de simplesmente Pessoa, ele foi Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos. E, desconfia-se, foi ainda muitos mais. Não economizava nomes, o Fernando.

Outro que não poupou imaginação para mudar de nome foi o dono do Baú. Será que Senor Abravanel sentava-se no banquinho de camelô e, com lápis e papel no colo, rascunhava possibilidades? Desenhou o traje de herói (terno, gravata e microfone chumbado no peito) e lembrou que precisava de iniciais semelhantes, como Peter Parker, Bruce Banner ou coisa assim. Então, o pobre ambulante, ao menor sinal de falta de dinheiro, transformou-se em Silvio Santos! O paladino da justiça social que distribui automóveis Volkswagen a álcool e aviõezinhos de dinheiro aos oprimidos!

Não sei não, mas acho que nomes de guerra podem deixar o sujeito mais valente e seguro de si. Sting não agüentaria a pressão se chamando Gordon. Ozzy não comeria o morcego se fosse um mero John. Freddy Mercury aceitaria ser zoado pelas roupas douradas colantes, mas nunca por ter nascido Frederick Bulsara.

Preciso inventar um bom nome de guerra para quando ficar famosa. E, apesar de amar meu saudoso avô, a escolha certamente não será Lourdes.

cidadededeus.jpg
Ele aprendeu a lição e mandou avisar:
Dadinho é o caralho, o nome agora
é Zé Pequeno, porra!

Fla Wonka às 10:14 AM

quarta-feira, 10 de agosto de 2005

A semana

Um ano tem por volta de 52. Uma gravidez saudável e sem complicações, 40. Mas se a mamãe for elefanta, o número sobe para 94. Eu, no momento, já computei algo em torno de 1450 – enquanto Deus, segundo consta nos ensinamentos religiosos, não precisou nem de uma inteira para fazer o mundo. A semana faz parte da nossa rotina por ser ela mesma uma rotina: tem dia para acabar, dia para começar e um período redondo e imutável a cumprir. Quando se despede, volta de novo. Até o fim.

Tudo começa na temida segunda-feira. É ali que despertamos para a dura realidade. Ainda mais se o despertar, no caso, for com um maldito rádio-relógio tocando às 7h30 da manhã. Acordar cedo pode ser difícil, mas em uma segunda-feira a dificuldade alcança níveis estratosféricos. Trata-se do momento da largada – do seu trabalho e daquela prometida dieta. Há ainda a pia transbordando de louça suja do fim-de-semana. Por fim, a segunda-feira costuma marcar a despedida do tempo chuvoso que assolou sua folga. Por que diabos as segundas ficam ensolaradas?

No meio dos questionamentos, chega a terça-feira. Coisa mais chinfrim, hã? Não há aquele drama que o dia anterior carrega na essência. Com sorte, poderia ser um feriadão – mas tesouros desse tipo acontecem de vez em nunca. Então você aceita a sua chegada com resignação. Afinal, agora é sabido que a semana começou mesmo e de nada adianta ficar reclamando. A pia de louça já foi devidamente atacada e aquela dieta foi mais uma vez colocada no modo de espera. Ah, quem sabe semana que vem? Ainda faltam cinco dias.

A quarta-feira aterrissa como um alívio, uma vez que pode ser considerada o meio de sua semana de trabalho. Mais um período daquele já vivido desde a segunda e... pronto, a tão aguardada dupla sábado/domingo. É o dia de exercitar a paciência, portanto. De mirar seu objetivo e seguir com força até ele. Vá por mim: se o objetivo for uma pequena viagem, ou um tempo de bobeira junto de quem se ama, o percurso até lá fica ainda mais fácil. Sempre bom lembrar também que é o dia promocional no cinema. Ou seja, oportunidade para assistir a filmes ruins pelos quais você não pagaria um ingresso completo.

Quando menos se espera, lá vem a quinta-feira. Apesar da folga estar perto, ela não guarda a expectativa de sua predecessora. E, além disso, é alvo de nossa braveza por ainda não ser sexta-feira. Com ela, aparece um turbulento período de impaciência e de insatisfação. O cansaço começa a bater forte. “Agora falta pouco!”, você sussurra a si próprio. Mas calma, nem tudo está perdido! Quinta-feira é o melhor dia para passar na locadora e angariar os melhores títulos. Nada como vivenciar um pouquinho de lazer preparando-se para ele.

Com todos os louros e pétalas de rosa, nossa amiga sexta-feira comparece em grande estilo. É a parte da semana favorita de muitos: ao mesmo tempo em que traz a sensação de vitória por haver resistido a todos esses dias, a sexta-feira carrega um mundo de esperanças para o amanhã. Eis um belo dia para ter amigos, para o telefone tocar sem parar, para estar apaixonado. O planejamento da folga começa cedo e nem aquela notícia de frente fria se aproximando consegue emburrar. Mas é preciso ter cuidado com isso! Se ainda existir trabalho a ser feito, tanta expectativa pode fazer o relógio andar para trás.

Sábado! Não é por acaso que a interjeição “aleluia!” costuma ser associada a ele. Há quem prefira aproveitar o ócio e acordar lá para as duas da tarde. Eu, porém, até gosto de sair da cama cedo (9h da manhã de um sábado é cedo, vá...) para planejar o dia. Um bom aliado é o jornal, que pode dar a dica das estréias no cinema, das feiras de antiguidades, das exposições de arte, etc. Monto um roteiro completo: almoço em algum restaurante, lazer qualquer à tarde, filme à noite... Se houver espaço para algumas comprinhas, então, melhor ainda!

Eis que o domingão aparece bem no meio desse ritmo alucinante só para botar um freio. Domingo é o começo do fim. É um corvo de mau agouro que fica bicando e nos lembrando de que tudo vai acabar. É difícil ter pique naquele dia – normalmente, ficamos na inércia e esperamos a noite chegar. Bom momento para acordar bem tarde. Para almoçar às 16h. Para sujar bastante louça com molho de macarrão e pipoca de microondas. Vários copos com resto de refrigerante. E assim vamos, comendo e vendo TV até que... Não, a música do “Fantástico” não!

Droga. A segunda-feira, danada que só ela, sinaliza no horizonte. E é hora de recomeçar. Novamente.

(*) Nota da autora: Texto para ser lido ao som de “Friday I’m In Love”, do Cure.

Vivi Griswold às 10:32 AM

terça-feira, 9 de agosto de 2005

Bubu, Mimi e outras coisas de matar

Nas novelas e filmes, os grandes momentos de fúria das personagens são causados por males tremendos, como inveja, traição e conspirações. Claro que ver sua irmã roubar seu marido ou sua madrasta tentar lhe passar a perna no testamento não deve gerar a melhor das sensações de paz e complitude... Mas o dia-a-dia está cheio de pequenas armadilhas de ódio, subestimados no mundo dos romances televisivos ou cinematográficos.

A lendária revista “Mad”, que eu adquiria na adolescência em troca de suadas economias da mesada, sacou essa realidade e a colocou muito bem no saudoso “Livro do Ódio”. Era uma seção temática que listava razões capazes de deixar qualquer cristão maluco – e todas elas estavam ali, à espreita, em situações banais como a fila do banco ou a lanchonete.

Eu também tenho meu próprio Livro do Ódio particular. E aposto que você, leitor, tampouco passa ileso por todas essas situaçõezinhas irritantes, capazes de tirar a gente do sério e nos fazer sentir ter acordado com o pé esquerdo.

Você não odeia quando...

... se esquece do nome de um ator no meio da conversa?
Também vale para títulos de livros, filmes ou para o começo de uma música. O pior é que a gente se esforça louca e inutilmente para lembrar e não consegue; despede-se do pessoal e vai para casa; toma banho; come alguma coisa; vai dormir... e daí, feito um relâmpago, o desdito nome lhe ocorre, lá para a meia-noite e meia, já deitado na cama.

... está atrasado e, na sua frente, um mané põe primeira para passar em lombada?
Tudo bem, tudo bem... eu devia sair mais cedo. Mas o ponto aqui é outro. Se o carro é novo, é capaz de agüentar; se é velho, para que poupar? Não sei o que é pior: ver motoristas de Fiat 147 com tanto esmero (sendo que o pára-choque está amarrado com fio de varal) ou presenciar proprietários de F 1000, cheios de marra, com essa frescura.

... nota uma respeitável mancha na sua roupa já no ponto de ônibus?
Lógico que isso ocorre quando não há mais tempo de voltar para casa – e preferencialmente quando você tem um compromisso importante, como uma reunião com clientes. Aliás, ninguém sai de casa com antecedência suficiente para consertar esse tipo de presepada. Mas o pior é que quase sempre acontece quando seu circular surge no horizonte.

... pega o finzinho da reprise de um programa que você queria ver?
Tenho para mim que a televisão por assinatura é baseada em reprises. Nem esquento muito se perco um programa legal; vai repetir. O problema é que tenho um timing invejável para pegar uma atração no fim, interessar-me por ela e ficar procurando o replay – só para encontrá-lo exatamente no mesmo ponto quase final a partir do qual eu já havia visto.

... acorda pensando que é domingo, mas já é segunda?
Eis outra habilidade na qual sou craque: perder a noção do tempo. Costumo dizer “sábado fui ao cinema” quando “sábado” foi “ontem”. Então, vez por outra, me pego despertando no primeiro dia preto na folhinha, mas planejando como gastarei meu tempo no domingo que se inicia. Quando lembro que o tal domingo já terminou, fica ainda mais difícil sair da cama.

... já misturou todos os ingredientes do bolo e nota que não tem fermento?
Tal expediente toma lugar, de preferência, se o referido bolo é para o aniversário surpresa do seu marido, sendo que não há tempo de fazer outro até a festa. Melhor ainda se a receita foi anotada com muito custo, num programa de tv. E é daquelas elaboradíssimas, com preparação em várias etapas. Porque desgraça com pão-de-ló pouco é bobagem.

... dois belos programas estão em exibição ao mesmo tempo na tv?
Além de ser baseada em reprises, a tv por assinatura não é lá essas coisas. Programas bons, mas bons mesmo, tem uns dois por semana. E, volta e meia, no mesmo dia e horário. Intrépida, tento assistir aos dois ao mesmo tempo. Mas, como uma cereja no sorvete da fúria, eles parecem sincronizar também os momentos dos intervalos comerciais.

... pega um pacote de açúcar furado no supermercado?
O ato em si não seria tããão irritante se percebêssemos o erro a tempo, antes de demarcar toda nossa trajetória no mercado com uma faixa branca. Mas usualmente só reparo a cagada ao tirar o açúcar do saquinho de compras de sopetão, já em casa para guardá-lo no armário, e derramar metade do pó esbranquiçado pelo chão, pia e demais facilidades da cozinha.

... o telefone toca no exato minuto em que você vai ao banheiro?
O aparelhinho foi criado por Graham Bell para ajudar na vida das pessoas. Porém, sua atuação pode ser maligna. Basta verificar a tendência do danadinho a soar em situações impróprias, como quando você está chegando em casa e não encontra a chave na bolsa ou quando acaba de sentar-se para atender ao chamado da natureza.

... o casal à sua frente na fila do cinema não sabe o que vai assistir?
Sábado à noite. A fila do cinema está respeitável. Levou uns vinte minutos até se aproximar das bilheterias – tempo que o citado casal gastou espremendo espinhas mútuas e se chamando de nomes nojentos, como “Bubu” e “Mimi”. Bem na vez deles, ambos se olham, fitam o letreiro luminoso e se perguntam candidamente: “o que vamos assistir, hein?”. Segue-se um diálogo do tipo:

Ele: “Vamos ver esse ‘Sin City’?”
Ela: “Sobre o que é?”
Ele: “Bom, é baseado em quadrinhos...”
Ela: “Ah, não, Bubu! Cê sabe que eu de-tes-to essas coisas de quadrinhos...”
Ele: “Tudo bem, tudo bem. O que você quer ver, então?”
Ela: “Ah, vamos ver ‘Madagascar’ de novo, vai?”
Ele: “De novo, Mimi? Mas a gente já viu duas vezes, mozão!”
Ela: “Então vamos nesse ‘Guerra dos Mundos’. É com o Tom Cruise”
Ele (fazendo beicinho): “Mas você vai ficar falando que ele é ‘gatão’? (fazendo voz de criancinha) Eu fico com ciúmes, Mimi!”
Ela (rindo e fazendo festinha nele): “Seu tonto! Você é muito mais bonito que o Tom Cruise, mô!”

Alguém me passa o cianureto, por favor?


Clara McFly às 10:13 AM

segunda-feira, 8 de agosto de 2005

Rua Copacabana

John e Paul eram dois rapazes ímpares, na minha opinião. Da experiência modesta da classe média de Liverpool, conseguiram extrair sentimentos e pensamentos doces e amargos. A saudade, por exemplo. Incrível pensar que um moço que já tinha fama mundial e fortuna celestial, como MacCartney, pudesse sentir nostalgia. E como sentia! Arrastava saudades de muitas coisas, inclusive de sua antiga rua da infância. Foi aí que conhecemos “Penny Lane”.

Ele dizia que a alameda estava em seus olhos e ouvidos. Isto é: as lembranças de tempos antigos, os pequenos detalhes marcados na memória, nunca o deixaram – mesmo depois de grande, rico e popular. Não que eu seja grande, rica ou popular como Paul, mas ao menos uma coisa temos em comum: minha velha rua está gravada na mente como a dele.

De tanto repassar a canção, McCartney acabou me ensinando a lembrar. Ela se tornou uma das preferidas enquanto matutava: “não é que todos temos uma imagem do bairro da infância registrada na memória?”. Tenho várias. Minha Rua Copacabana não era assim uma Penny Lane, que ficou para a história como música dos Beatles, mas foi um lugar sensacional para crescer. Cheia de histórias, peculiaridades, defeitos, qualidades.

A Rua Copacabana era minha no número 414. A casa de conjunto habitacional cresceu conforme o salário de papai na indústria automotiva e o da mamãe, na escola próxima. A casa nem mudou muito: ganhou garagem coberta, sala maior (graças ao teco roubado do meu quarto) e só. Nem precisamos fazer aquele “puxadinho” no portão para caber a rabeira do Monza... Os vizinhos, esses sim.

Na minha rua existia de tudo. Se o Paul lembra-se da barbearia com fotos pregadas e das pessoas que “stop and say hello”, eu me lembro é de muito mais. Lembro, primeiro de tudo, da vizinha da frente, a Dona Marina. Era a Mirtes em pessoa. Boleira de mão cheia, ela passava o dia na cozinha a confeitar – e a espionar tudo e todos pelo vitrô. Nunca entendi: a mulher media cerca de 1,45 m. Como podia estar sempre tão bem informada sobre nossos namoricos, visto que mal alcançava a janela? Só descobri muito mais tarde, já grande, que Dona Marina usava uma banqueta pelo lado de dentro da cozinha. Moveu a geladeira para dar mais visão. Esperta, a velhota.

A vizinha dela, da casa bem de fronte à minha, era a Cascuda. Quer dizer, ela tinha nome, mas nós a chamávamos de Cascuda porque... bem, o marido dela era o Cascudo, daí a variante de gênero. Pois não é que a Cascuda começou a sair com o filho da Olívia, nossa vizinha de muro? Saiu sim. Por conta disso, separou do Cascudo e levou os três filhos embora. Quem contou foi a Mulher do Suquinho.

Essa vendia aquele sacolé/gelinho/chup-chup (artigo que mudava de nome conforme a cidade onde estava) em sua própria casa. Para alcançar a janela e pedir “um de coco queimado, dois de uva e um de anis”, a gente subia no pára-choque do Fusca do marido dela, estacionado na garagem. O homem ficava doido – mas acho que valia a pena consertar o carro com parte da dinheirama que arrecadava a Mulher do Suquinho.

Também ficava maluca de raiva conosco a Dona Inês. Ela morava ao lado da praça e, como optou por um portão sem tranca, sua mangueira de água era vítima de toda a molecada sedenta da Rua Copacabana. Batíamos uma bola, batia sede, batíamos o esguicho dela na garganta. E depois o Marcelo, aquela besta, nunca fechava o registro direito e a água ficava correndo na calçada. A Dona Inês ficava fula. “Vocês pensam que eu sou sócia da Sabesp?”, ela dizia com as mãos na cintura.

Moleques capazes de aloprar o bairro, tínhamos muitos naquela rua. Uns passavam esmerilhando a moto. Outros passavam acelerando o Maverick. Outros roubavam motos e Mavericks quando ninguém estava olhando (mas, se perguntarem, não fui eu quem contou, hein?). Por causa dessa paixão juvenil por motores, nós sempre tínhamos um escândalo de plantão. Ora era o Jefinho, roubando o carro do pai, ora era um acidente feio. Assim morreu o Peixe, um garoto do fim da rua. Foi a primeira pessoa que eu conhecia a morrer. Não me deixaram ir ao enterro.

Engraçado é que o Peixe era bem nerd, nunca consegui imaginá-lo voando com o carro por aí. Ele até era o queridinho da vizinha dele, a Dona Aurélia, professora de pintura. Ela me ensinou a desenhar e pintar telas. Na primeira aula, mandou que tirasse os tênis e colocasse sobre a mesa. Pensei que a velha gordota empertigada tinha ficado lelé de vez. Mas que nada: me fez desenhar os sapatos à mão livre e, até hoje, acho que foi meu melhor trabalho.

Já não posso dizer que a Dona Marli, professora de piano, tenha tido o mesmo sucesso. Gostava de me ensinar Chopin, mas eu não aprendia. Eu tinha ouvidos péssimos, coordenação de um ganso bêbado e nunca, nunca fazia lição de casa. Convenhamos: adorava ir na aula e martelar o piano enquanto ela servia bolacha e leite naquela sala cheirando sempre a carpete novo, mas detestava copiar as notinhas na pauta.

Ao lado da Marli morava a Raquel, minha amiga desde o berço e dona da garagem que recebeu as brincadeiras mais legais do mundo. E olha que ela morava na Rua Ipanema, não na Copacabana, e a richa ali era forte. Mas nunca liguei para bairrismos. Fiz amizade até com a turma do Pombal – apelido “carinhoso” que demos ao conjunto de prédios horrendos brotado na Ipanema.

Nunca esqueci dos amigos que fiz lá, como a Patrícia, cujo pai tinha sido preso na Ditadura. Nem da outra Patrícia, que roubou meu namorado, aquela vaca. Muito menos da Vanessa, melhor amiga na terceira série, ou da Maria Eugênia, uma chata de galocha a quem nós chamávamos “Maria Oxigênia”, só pra encher.

Não esqueço o dia em que caí da bicicleta e ralei o rosto no asfalto. Ou do dia em que vimos um ladrão saltar telhado por telhado para fugir da polícia. Ou de quando meu irmão brigou no futebol de rua e os meninos quiseram vir bater nele dentro da nossa casa.

Nada pode ser esquecido, por mais bobo, proletário e infantil que pareça. Rua Copacabana “is in my ears and in my eyes”. E a sua Penny Lane, como se chamava?

Fla Wonka às 10:30 AM

sábado, 6 de agosto de 2005

Coisas que o desenho não mostra

Eles são coloridos, ingênuos, engraçados. Uma tarde regada a desenhos animados, contudo, pode acarretar outro efeito além de minutos de diversão: questionamento. Isso que dá manter o (mui saudável) hábito depois de crescido. Quando somos criança, olhamos para os filminhos, rimos à beça e pronto. Quando nos tornamos adultos, enxergamos algo mais que tortas na cara e explosões inofensivas de dinamite.

Por exemplo, todo mundo já se perguntou um dia por que o Pateta anda com duas pernas e veste roupas de gente enquanto Pluto anda com quatro patas e late – se ambos são considerados cachorros. Ou por que o Pato Donald usa camisa, mas não usa calça. E por que há tanto sobrinhos e sobrinhas, se não há pais e mães que colocaram os petizes no mundo. As animações de Walt Disney são realmente cheias de mistérios. Mas não são as únicas. Na verdade, existem tantas questões nesse âmbito que uma pessoa curiosa pode entrar em curto circuito ao tentar elencá-las.

Em quinze minutos pensando sobre o assunto – e apenas isso, não quero entrar em curto circuito –, consegui juntar uma dezena de perguntas sobre enigmas que vi e vejo nos desenhos. Imagino que existam muitos outros além destes. E as respostas, onde estarão? Se nenhum telespectador ousou buscá-las antes, não vou ser eu quem arriscará desvendar...

1) Como a Mulher Maravilha enxerga seu avião invisível?
Quando o perigo se aproxima, a Sala da Justiça fica em polvorosa. A morena de maiô, tiara e chicote biônico trata de pular em sua aeronave, dar a partida e seguir caminho até o vilão. Mas se a tal é notoriamente invisível, como saber onde está estacionada? Como achar a porta? E como encontrar o manche para levantar vôo?

2) Quem é a mãe do Caverninha?
Capitão Caverna é um ser deveras estranho. Ele é mais peludo que o Tony Ramos, come feito um troglodita e ainda por cima tira objetos inusitados de dentro do seu corpo. Ou seja, um tipinho cavernoso. Que mulher no mundo gostaria de se envolver com ele? Não sei. O fato é que o cara conseguiu procriar. Mãe, que é bom, necas...

3) Por que o Pica-Pau usa luvas?
Personagens de desenhos nutrem um certo fetiche por luvas. Mas o que diabos um pássaro, que nem dedos possui, faz com um par dos acessórios? Para complicar a nossa cachola, Pica-Pau ainda consegue voar batendo seus bracinhos e mãozinhas enluvadas. Eu achava que esse maravilhoso dom dependia só de asas e muitas, muitas penas.

4) Como os Smurfs se reproduzem?
Essa é boa. Na vila de cogumelos dos Smurfs há uns cento e cinqüenta homenzinhos azuis – incluindo o sábio e grisalho Papai Smurf – e, pasme, apenas uma única mulher. Ou Smurfete é uma parideira de mão cheia (e um tanto quanto promíscua), ou eles se multiplicam por brotamento. Ou são um bando de hermafroditas, como as planárias.

5) Que espécie de E.T. é Marvin, o Marciano?
Sempre achei que marcianos fossem seres etéreos e esverdeados. Marvin, porém, foge à regra: ele usa capacete e saia de gladiador. Assim como outro personagem misterioso, o Gorpo, o pequeno alienígena não possui um rosto muito bem definido. O pobre também não fala. E, obviamente, usa luvas. Não falei que é um fetiche inexplicável?

6) Como o Tutubarão sobrevive fora d’água?
Ele é um peixe imenso que, ao contrário dos seus parentes, consegue respirar fora do ambiente aquático. Como se isso não bastasse, ele anda de carro, toca em uma banda de rock e consegue equilibrar seu corpanzil em uma pequenina cauda que faz as vezes de pernas. Tutubarão é uma espécie a ser estudada – quiçá, o Elo Perdido que muitos buscam.

7) Onde o Mestre dos Magos mora?
O velhote baixinho aparece e desaparece em qualquer lugar, quando lhe dá na veneta, para o espanto da turma perdida no inóspito universo de “Caverna do Dragão”. Se ao menos ele revelasse em qual cafofo reside, os adolescentes poderiam bater palma no portão e exigir um modo para que, de uma vez por todas, possam retornar ao lar.

8) Como foi o parto do Bebê Elástico?
Como é sabido pelos telespectadores do desenho, o Homem Elástico casou-se com a Mulher Elástico e, juntos, resolveram ter um bebê – que puxou ao poder dos pais. Fico só imaginando o trabalho que deu tirar o rebento do ventre de sua mãe, uma vez que ele se estica como mussarela derretida. Já pensou o perigo de arrebentar o coitadinho?

9) Onde o Príncipe Adam compra roupas de lycra?
Ele é chegado no tipo de malha justa que costumamos apelidar de mamãe-olha-os-meus-músculos. Uma coisa assim, digamos, metrossexual. O problema é que lycra é uma invenção moderna e terrena – então, não deveria existir no reino de Etérnia, certo? Vai ver, Mentor é um sacoleiro de luxo. Hmm, sempre desconfiei daquele bigodinho...

10) Qual é a cara da babá dos Muppet Babies?
Um dos maiores mistérios dos desenhos animados. Conheço gente que até ajoelhava na frente da tevê para ver se conseguia dar uma espiada no que ficava além dos contornos do aparelho. A verdade é que só enxergávamos os sapatos, as meias listradas e uma parte da vestimenta da babá. O resto, ficou mesmo para os questionamentos.

E agora chega, pois minha cuca já está soltando fumaça.


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Será que ela não tem cabeça?


Vivi Griswold às 10:11 AM

sexta-feira, 5 de agosto de 2005

Negativo

Duas matronas da alta sociedade tomam chá à tarde, sentadas bem na pontinha, com aquele jeito de madame, de poltronas muito luxuosas. O papo flutua entre os novos produtos para cabelos e maquiagem, a dificuldade de criar os filhos “nesse mundo de hoje” e as desconfianças de que a mulher do Almeida esteja saindo com o motorista da família.

- Menina, a Rose que me contou. Jurou de pé junto que é verdade. Diz ela que viu a Neidinha descendo do carro da família com o vidro todo embaçado, altas horas da noite, semana passada mesmo – quando o pobre do Almeida tava viajando.
- Ih... Melhor não deixar ele passar embaixo do meu lustre de Murano quando vier jantar aqui em casa. O chifre vai me quebrar tudo os vidros!
- Uá ah ah ah ah!

E jogam a cabeça para trás ao rir.

A animada prosa é interrompida pela empregada, que entra para servir uns bolinhos:

- Com licença, dona.
- Pode botar aí, Mari. Isso. Obrigada.
- Precisar de alguma coisa, me chama.
- Tá bem. Pode ir.
- Licença.

Alguns segundos constrangedores de silêncio. Mal a silhueta da menina desaparece pelo corredor que leva à cozinha, uma das colegas vira para a outra e começa:

- Olha, Jô, você sabe que a gente é amiga há muito tempo, né? Não me leva a mal, não, mas é que eu preciso perguntar!

Jô olha assustada:

- Gasp! O quê? O quê?! Eu não estou saindo com o jardineiro, não!

Engole seco e espera a resposta da amiga, que faz uma cara de interrogação:

- Ahn? Não, nada disso! Peraí, do que você está falando?

Nisso, Jô consegue desfazer o bolo formado na boca pelos quitutes e pela súbita falta de saliva. Recompõe-se.

- De nada, queridinha! De nada. Não sei o que deu na minha cabeça para dizer isso! É que a gente tava falando da mulher do Almeida, sabe como é... Ai, aquela bisca! Mas o que você ia me perguntar mesmo, Helena?

Helena toma um longo fôlego. Olha para os lados. Se aproxima da amiga com cara de cúmplice e solta, baixinho, quase que se lamentando:

- É que... a sua empregada... ela é... assim...

Passa o dedo de leve no braço, como que querendo evitar falar a terrível palavra, na esperança de que Jô mesmo a profira e poupe sua língua de dizer que a empregada, afinal, é...

- Ela é meio... branquinha, né, Jô? Como se diz? Assim, meio... leite. Puro.

Jô olha para a amiga com olhar magnânimo:

- Hele-ná! Não acredito que você está me perguntando isso!
- Ai, Jô, me desculpa! É que você sabe como é, esse pessoal meio, assim, meio-dia em ponto... Sei lá, é tão diferente da gente!
- Helena, pelamordedeus... A menina não tem culpa de nascer branca, coitada! Além do mais, ela é branca, mas é muito limpinha, viu? Trabalha bem mesmo!
- Mas então ela é, como se fala?, uma branca de alma preta! Aí é diferente, né, Jô?
- Ela trabalha que nem preto, Helena. E outra: é de muita confiança, viu? Precisa ver. Pode deixar qualquer coisa aí por cima, cheque, dinheiro, cartão... Não mexe em nada! E humilde, viu? Muito boazinha. De alma preta mesmo.
- É que o pessoal diz tanta coisa, Jô, que a gente acaba acreditando...Tem até aquelas expressões: “fez um servicinho de branco” e, perdoe meu francês, amiga, “branco, quando não caga na entrada, caga na saída”.
- Mas nem todo branco é igual, Heleninha querida. Saiba disso.

Satisfeitas, as duas sorvem o último golinho da bebida e Mari é chamada novamente à sala para tirar o aparelho de chá. Dessa vez, Helena olha para ela com simpatia. Ou comiseração.

Clara McFly às 11:01 AM

quinta-feira, 4 de agosto de 2005

Viagem ao mundo de Caras

São namoros que começam, relacionamentos partidos, festas glamourosas, viagens patrocinadas e um oceano de falta de assunto. Desde que surgiu, a revista Caras já conta 12 anos de verdadeiros furos de reportagem. Tudo bem, não é para tanto... Mas a brochura decana ainda é capaz de nos brindar com suas novidades-novidadeiras lá nos salões de cabeleireiro e consultórios médicos – os assinantes mais fiéis desta bíblia dos ricos, famosos e, por que não, até dos falidos.

Quem afirmar nunca ter aberto uma Caras é mais fingido que casamento do Chiquinho Scarpa. Seria o mesmo que garantir não ter pisado em uma sala de espera desde 1993 – e isso não é coisa que se admita. Enquanto o doutor não vem, folhear as páginas da publicação é o melhor passatempo que há. Melhor ainda, só comentar entre dentes “mas essa Débora Secco tá cada vez mais peituda, hein?”.

Impossível ficar alheio à sedução de Caras. Ok, a capa está sempre amarfanhada e as páginas soltam na mão. Dá nojo só de pensar em quantos dedinhos cheirando a acetona passaram pelas orelhas (quiçá, argh!, sendo molhados na língua antes). A curiosidade é maior, porém, em 99% dos casos. Eu quero saber quem visitou a Ilha de Caras e andou de jet ski, uai.

Ainda que torça secretamente para que a tal ilha seja tragada por um tsunami, rolo de rir com as fotos locais. Lembrem-se que, por lá, já passaram quilos de “famosos” como Xuxas, Lumas, ex-BBBs e, pasmem, o ator Jean-Claude Van Damme. E se é bom para o Dragão Branco, é bom para mim.

Mas isso só no verão. Nos dias frios, a turma pseudo-célebre tira as traças do casaco pago em 36 prestações e ruma para Campos do Jordão, na estação da revista. É um chalezinho meio mequetrefe, a bem da verdade. Bom mesmo é o Castelo de Caras. Aquilo é que é requinte.

Tem passeio de carruagem, massagem no gazebo das montanhas, trilha com cavalos e, óbvio, manchetes vitais como “Carol Magalhães visita o Vale do Loire com o novo namorado”. Primeiro, você precisa saber que a viagem é jabá – e que jabá é aquele mimo pago pela revista para chupinhar a imagem do semi-famoso. Depois, que o novo namorado dela já não será o mesmo daqui uma semana. E vale ainda anotar que Carol é a neta de Antonio Carlos Magalhães – aquela pessoa humilde e desapegada que não deve poder pagar férias para a desocupada garota.

Ler Caras não é futilidade. É uma redenção. Basta abrir a revista e disparar sem dó “mas essa gente não trabalha, não? Vá lavar um tanque de roupa suja, ô Dona Vera Loyola!”. Excomungar um ricaço é gostoso e só faz bem. Melhor ainda é criticá-los segundo suas roupas e declarações e classificá-los com os rótulos “perua”, “vagabundo”, “mercenário”, “sacoleira de luxo” e “parece um manequim de bijuteria da 25 de Março”.

Não é nossa culpa, afinal, se eles expõem o telhado de vidro. Para mim, quem se dispõe a convidar a Caras para fotografar o casamento em família, está pedindo enxovalhação. Assim que leio “Fulano de Albuquerque Lins casa a filha”, me belisco para saber se não voltamos a 1925. Sério que ainda tem gente que “casa a filha”? Publiquem o valor do dote, por favor, que eu quero saber a quantas anda esse mercado.

Como se não fosse suficiente, ainda tem sujeito que “apresenta a neta em festa de debutante”, sicrana que “mostra sua cobertura de R$ 200 mi” e o playboy que “curte a vida solteiríssimo”. É tão embaraçoso quanto hilário. Nesse momento fecho os olhos e fico imaginando todos chorando e se debatendo porque não conseguem abrir uma lata de atum. Tenho certeza que nenhum desses vive a vida real.

Não dá mesmo para levar a sério a coisa toda. É preciso estar sempre com olhos de “Alice no País das Maravilhas” para adentrar o mundo de Caras. Como é possível ler, sem gargalhar, chamadas como “Caroline Bittencourt conhece avestruzes com sua filha”? E não ficar sensibilizado com “Recém-separada, Babi vive fase de mudanças”? Tem comédia, drama e até terror – com a notícia de que o programa de Márcia Goldsmith “vem dando 12 pontos de Ibope aos domingos”.

Dá uma pontinha de raiva saber que é uma das revistas mais lidas do Brasil. Mas ninguém vai para o inferno por se deleitar com tanta bobagem entre uma obturação e outra. Afinal, o capeta também deve ler Caras. E até sair na capa, de vez em quando.

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Esta é a tristeza da recém-separada de Caras

Fla Wonka às 10:43 AM

quarta-feira, 3 de agosto de 2005

Tive, tenho, terei

Acho que todos nós nascemos apavorados. Imagine estar lá no quentinho do útero, ouvindo o batimento compassado da mamãe, relaxando no escuro e, de repente, bum!, vem uma mão estranha puxando você para a claridade, para o barulho, para o desconhecido. Deve dar um medo danado. E esse sentimento, o medo, acaba sendo companheiro da nossa vida. Impossível ele não estar ali a cada passo que tomamos. Enquanto amadurecemos, o medo amadurece junto.

O primeiro vilão da minha história foi o mesmo de muitas outras histórias: o lobo. Minha mãe me contava “Chapeuzinho Vermelho”, “Os Sete Cabritinhos” e mais um punhado de sagas que continham o tal malvado fazendo das suas. Na primeira, havia até uma música que dizia “ele pega as criancinhas pra fazer mingau”; na segunda, o lobo se fantasiava de cabrita-mãe e comia todos os filhotinhos. Pronto, lá veio o medo. E, com ele, pesadelos. Tanto que fui levada até o zoológico para me mostrarem que o bicho estava preso – um mirrado lobo-guará, de olhos tristes, em uma jaula minúscula. O medo foi embora.

Daí ele atacou de novo em forma de leão de um livro infantil. Tinha uma versão daquelas “pop-up” de “O Gato de Botas”. Em uma das páginas, havia um leão deveras assustador. Mas já estava mais espertinha na época e tratei logo de arrancar a cabeça dele! O livro ficou feio, mas o medo acabou. Isso, é claro, até eu ser levada ao cinema para assistir “E.T. – O Extraterrestre”. Não sei se foi o alienígena feioso e enrugado, se foram as cenas escuras ou as crianças gritalhonas – o certo é que grudei no pescoço da minha mãe de tanto que fiquei petrificada.

O medo do personagem de Spielberg perdurou por muito tempo. Com ele, veio o medo do escuro (o E.T. chegou na cidade à noite, certo?), de ficar sozinha e de qualquer luz no céu. O problema é que a eles se somaram outros. Lembro-me de assistir a uma reportagem do “Fantástico” sobre lobisomens. Foi na mesma época da novela “Roque Santeiro”, que tinha um mistério desse tipo. Toda vez que mostrava o cemitério de Asa Branca, envolto em névoa, eu fechava os olhos. E, pra piorar, lá vinha Zé Ramalho e sua voz de morto-vivo com o tema “Mistérios da Meia-Noite”.

Cresci um pouquinho e comecei a ter medo de perder os meus pais. Tudo por causa de um sonho, talvez o pior que já tive, e do qual me lembro até hoje. Eu estava sozinha em um castelo em ruínas. Havia só o esqueleto da construção, como se ela tivesse sido cortada ao meio. Subi uma escada de pedra até o topo e nisso passava uma nuvem imensa. Em cima dela, fazendo “tchau” para mim, estavam meu pai e minha mãe, vestidos de branco. Horrível. Se eles morressem, o que seria de mim? Fora que isso era muito mais “concreto” do que qualquer filme ou novela.

Quando nos tornamos mais conscientes, o medo do fantasioso cede espaço para o terrível medo real. Passamos a dormir tranqüilamente no escuro, pois sabemos que ninguém vai puxar nosso pé à noite e que debaixo da nossa cama há mais poeira e farelo de bolacha do que monstros famintos. Porém, ele continua ali fungando no nosso cangote: o medo de ser demitido do emprego, o medo de ser assaltado, o medo das estradas perigosas, o medo de seqüestro-relâmpago, o medo de ficar doente e não ter plano de saúde, etc.

E, é claro, o medo de barata. De rato, cobra, aranha, escorpião, vespa e todos esses bichinhos que costumam rondar principalmente as mulheres. Desses, confesso que marimbondos me dão calafrios. O problema é que comecei também a ter medos que inseto picador algum conseguiria superar. Hoje até procuro pela sensação em filmes de terror, ou em histórias fantásticas que adoro ouvir (principalmente antes de dormir, que é mais gostoso). Então a lacuna foi preenchida por questões mais existenciais e bem mais assustadoras. Como, por exemplo, perder a consciência.

Morro de medo de ter qualquer problema que afete a cachola. De não conseguir lembrar de quem sou, o que fiz, quem são as pessoas que eu amo. No momento, esse é o medo que me acompanha. Mais tarde, conforme for envelhecendo, outros virão. Talvez o medo de ficar sozinha na velhice, ou de morrer em uma cama de hospital, ou de ser esquecida. Ou, pior de todos, de olhar para trás e ver que eu podia ter feito muito mais do que eu fiz. Isso sim deve dar medo.

Se eu já nasci grudada com o danado, não vai ser no final que ele vai me abandonar. O jeito é tentar de um tudo para enfrentá-lo desde agora – assim, quem sabe, lá pra frente o medo seja tão pequenino e indefeso quanto aquele pobre lobo-guará da minha infância.

Vivi Griswold às 10:36 AM

terça-feira, 2 de agosto de 2005

567 dias de papel – Parte 2

Nem só de anotações cretinas viviam meus diários. Semana passada contei como foi, para dizer o mínimo, divertido e proveitoso tirar o pó das velhas brochuras que eu teimava em preencher com acontecimentos triviais e reflexões então profundas (hoje, à luz da passagem do tempo, acontecimentos engraçados e reflexões... também).

Mas de vez em quando eu acertava. Ou escrevia idéias que ainda me cabem hoje. Por exemplo, eu já desconfiava da efemeridade de algumas amizades de colégio. Aos 4 de dezembro de 94, anotei o resultado do amigo secreto da classe:

“Meu amigo secreto era o João. Quero dizer, era secreto, porque amigo sempre vai ser.”

E na linha seguinte:

“Será que esse ‘sempre’ vai só até o fim do 3o ano?”

Foi mesmo. Guardo a memória do João com o maior carinho, mas não tenho idéia de onde ele esteja ou do que faz da vida. Às vezes eu também era esperta!

Em 29 de dezembro, creio ter batido a deprê de fim de ano. Isso explica o trecho aí debaixo:

“Parece que comigo é sempre assim: estou na hora errada, no lugar errado, vestida errada, falando e fazendo as coisas erradas”.

Sai desse corpo que não te pertence, Charlie Brown! A frase hoje parece engraçada. Mas também é prova irrefutável de que fui uma adolescente-pacote-completo, com a insegurança, o exagero e a sinceridade que povoam as mentes da idade em questão.

No penúltimo dia do ano, 30 de dezembro, eu estava de férias na praia. Anotei que meus amigos foram me visitar, tomamos água de coco e conversamos besteiras na varanda madrugada adentro. Até que...

“Eles foram embora e ficaram me colocando medo do duende, e eu entrei rapidinho e fui chamar a Tita (minha tia), que eu estava com muito medo na verdade mas é claro que não ia contar isso a ela, então perguntei se ela queria coco (imagina, às duas da manhã!) só para disfarçar”.

Aparentemente, eu tinha medo do duende. E às vezes brigava com as vírgulas.

A fase adolescente também é caracterizada pela volubilidade das opiniões. Em 15 de fevereiro de 1995, não tive dúvidas em listar algumas razões para ficar feliz:

“(...) Em terceiro, minhas pernas ‘tão menos finas nas fotos do ‘Macunaíma’ (peça que encenamos em finais de 1994) que nas do ‘Macarrão’ (encenada em finais de 1993)! Não estão, assim, liiindas. Mas pelo menos estão menos finas!”

Uma semana depois, em 22 de fevereiro, mudei de idéia:

“(...) Ah! E notei outra coisa. Minha pernas ‘tão tão finas quanto antigamente!”

Prestes a aniversariar, em 20 de março discorri sobre minhas expectativas:

“Faltam dois dias pro meu aniversário. Antes, parecia que eu nunca ia fazer 17. Quando eu era menor, parecia que 17 era grande demais, crescida demais, adulta demais. (...) E estou aqui, com 1,60 metro e 42 quilos. Cadê a grandeza? Acho que sou mesmo MUITO PEQUENA.”

Assim mesmo, com letras garrafais e tudo. E, em 19 de maio, eis a observação mais bizarra de todas:

“Fui ao Metrópole (outro shopping bernardense) hoje com a Robs e, enquanto ela experimentava uma calça, me olhei bem de perto num espelho e descobri uma coisa horrível: eu tenho cara de velhinha!”

Essa eu dispenso comentar.

Não muito tempo depois de descobrir que eu tinha cara de velhinha, meu diário acabou. Quer dizer, as folhas acabaram (e eu, incansável, parti para outra brochura, que ainda não reli).

O último texto escrito nesse intrépido companheiro, que gentilmente forneceu os trechos acima, dava uma descrição espantosamente detalhada de como eu me lembraria, no futuro, dos dias registrados ali – dos meus anos incríveis.

E não é que acertei essa também?


”You could've done anything, if you'd wanted
And all your friends and family think that you're lucky
But the side of you they'll never see
Is when you're left alone with the memories
That hold your life together like... glue”

The The, “This Is the Day”

Clara McFly às 11:56 AM

segunda-feira, 1 de agosto de 2005

Fim de caso

Prezado Emprego de Nove às Seis,

Não se engane com o cumprimento cordial. Você bem sabe que nosso relacionamento já terminou faz tempo, muito tempo. Mas a mágoa não cessa. Por isso eu, que nem sou de guardar rancor, decidi colocar tudo nesta carta para exorcizar o mal que me causaste – e causa ainda, agora através dos meus entes queridos. Não, não se manifeste, é minha vez de falar tudo! Para começar, esqueça o “prezado”. Eu acho mesmo que você é um tipinho muito do desprezível.

Lembra quando nos conhecemos? Tudo era uma festa. Eu era só uma menina pobre e você veio com aquelas promessas de dinheiro fácil e pouco esforço. Todo fim de mês eu juntava as mãozinhas e agradecia por ter meu próprio e querido Emprego de Nove às Seis. Há! Como fui ingênua. Não demorou nada para você fazer de mim uma garota oprimida.

Primeiro, me obrigava a usar as roupas que você queria. Vinha com aquela história de vetar o uso das calças jeans e camisetas de desenho animado. Fez com que passasse a comprar camisa branca de botão e sapato, tirou minha individualidade. Só porque todas as demais moças que andavam contigo eram assim? Precisava ser tão hermético?

Arrancando a criatividade das pessoas você se sente feliz. Depois fica indignado porque todos ao seu redor preferem jogar Paciência no computador... Pudera! Neste seu ambiente, a moçada perde a garra, a vontade. Mesas iguais, cadeiras iguais, baias minúsculas. Não podia grudar uma foto das minhas sobrinhas na parede e lá vinha você, ciumento, dizendo “isso não é comportamento profissional”.

No começo, confesso, caí na sua lábia. Prometias de tudo, lembra? Viagem de férias, décimo-terceiro, plano de saúde e até convênio odontológico. Suas armas de sedução funcionaram comigo e larguei o Mercado Informal, o rival de longa data, para cair em seus braços. Quanto arrependimento... Temo nunca me recuperar de você, Emprego.

Vivi esperando que notasse minha dedicação e assumisse nosso compromisso. Que custava assinar os papéis? Colocar seu nome na minha Carteira de Trabalho seria um sacrifício tão grande? Tudo bem nunca ter enviado um panetone aos meus pais, mas nos estávamos firmes, você disse que tudo ficaria bem e que me daria até aumento! Canalha!

Já não posso sequer ouvir o seu nome. “Emprego de Nove às Seis”. Bah! Quero distância. Vejo muito bem o que você anda fazendo com a minha irmã, viu? Não bastasse dominar a vida dela nos dias de semana, ainda faz questão de possui-la aos sábados. Ela tem família, você não tem coração? Não tem vergonha de usar essa moça e depois descartá-la?

Como fez comigo, por sinal. Recordo muito bem daqueles fins de semana. Você ligava e dizia que algo importante acontecera. Eu, ainda inocente com suas artimanhas, apanhava bolsa e casaco e corria ao seu encontro – apenas para descobrir que você queria o trabalho refeito, para ontem. Eu chateava, mas aceitava, imaginando que isso faria de mim sua eterna preferida. Mal sabia que você só gosta mesmo é de variar de funcionários. Troca a equipe como quem troca de cueca!

Felizmente acordei daquele pesadelo. Deletei os arquivos que fiz para você, apanhei minha caneca de café e bati a porta da redação sem olhar para trás. Você tentou me segurar, novamente oferecendo mentiras como “carro da firma” e “seguro de vida”. Não caio mais. Já chega ter acreditado naquela promessa de “divisão de lucros”. Dividimos mesmo: você ficou com a grana, eu com a dor na coluna por conta da cadeira velha.

Saiba que estou agora muito feliz com seu primo, o Trabalho em Casa. Vivemos de modo humilde e precisamos ralar muito para quitar as contas. Mas estamos bem. Ele me dá liberdade e nem liga se coloco os pés na mesa enquanto faço as reportagens ou falo no telefone. Pretendemos inclusive gerar filhotes, sabe? Projeto de Vida e Sonho de Infância devem vir ao mundo daqui poucos anos. Serão lindos – e mal posso esperar para esfregar a foto deles nessa sua cara-de-pau.

Não que eu seja vingativa, ou já teria tomado medidas contra as suas comadres. Elas ficam me apontando, pensa que eu não sei? Onde passo, perguntam “trabalha em qual revista?”. E quando respondo “nenhuma específica, eu sou freelancer”, vem aquele olhar. Assim que afasto, percebo os comentários: “freelancer, sei... Na minha terra isso tem outro nome... É aquela palavra com D... De-sem-pre-ga-da! Aposto que fica borboleteando o dia inteiro, essa aí”. Que ódio tenho disso, cara! Como se só fosse respeitável quem joga no seu time!

Mas olha, Senhor Emprego de Nove às Seis, todos merecem ser felizes de uma maneira ou outra. Se fosse mais esperto, saberia que está cercado de gente que precisa de ti, mas não te ama. Não custava ser mais flexível, permitir uma folga aqui e outra ali. Com essa postura rígida de cem anos atrás, só o que você consegue são mentiras. Sim, porque quando aquele garoto diz “preciso ir ao dentista” ou “minha avó faleceu”, ele cai mesmo é na farra! Vai ao cinema, viu? Não pense que você pode vigiar a todos por todo o tempo.

A mim, não engana mais. Um dia podemos nos encontrar de novo, porque... você sabe, eu gostava do pessoal. Das conversas no cafezinho, dos almoços em grupo, daquela dinâmica. Não de você, não! De você não tenho saudade. Te risquei da minha vida. E só escrevi para isso mesmo: dizer que você está demitido.

Passar bem,

Flávia

Fla Wonka às 10:10 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold