sábado, 30 de julho de 2005

O que me irrita em você

Eis o título de uma das minhas novas atrações favoritas da TV por assinatura. Infelizmente, ela é transmitida por um canal incluso em poucos pacotes de programação: o obscuro Discovery Home & Health. Digo “infelizmente” porque acho que todo casal que mora junto – sob os sagrados laços de matrimônio ou não – deveria grudar os olhos na tela quando a vinheta de abertura começa. Além de ser uma aula de terapia, “O Que Me Irrita Em Você” é pra lá de divertido.

Funciona assim: dois pombinhos entram em uma disputa acirrada para ver quem é o mais irritante da relação. Para tanto, diversas câmeras são espalhadas na casa das vítimas e o cônjuge precisa montar uma prova cabal, baseada nessas filmagens, da pior ação ou postura do companheiro. Cada parceiro tem o direito de reunir três provas, que mais tarde serão exibidas a um júri especializado. O júri dará notas para as evidências (sendo 0 pouco irritante e 10 extremamente insuportável). Aquele que reunir o menor número de pontos é considerado o “anjo” do relacionamento e tem o direito de impor um castigo ao outro.

Situações hilárias – para o telespectador, é claro – são passadas diante de nossos olhos. Desde a mulher com mania de limpeza, viciada em sprays perfumados, até o homem que passa o dia cutucando os peitos da esposa, mesmo estando em público. Já vi a garota que cuidava mais do cachorro do que do marido e o marido que cuidava mais do carro do que da própria casa. Lembro-me também de um moço gastou mil dólares só em produtos para cabelo e uma moça que coletava plantas, tênis e roupas que outras pessoas haviam jogado fora. Fora as sessões de conversa em linguagem gugu-dadá que embrulham qualquer estômago mais sensível.

Fico assistindo ao programa e, enquanto meu queixo vai parar no chão por presenciar situações loucamente irritantes, penso cá comigo como eu e meu namorido somos normais. Não sei se eu sou zen, mas pouca coisa consegue me tirar do sério. Porém, conforme o próprio apresentador costuma dizer no início de cada episódio, nem tudo é um mar de flores na vida a dois. E, se eu fosse participar de “O Que Me Irrita Em Você”, poderia escolher três das ações irritantes do meu amado parceiro...

Ele deixa pratos, copos e canecas espalhados pela sala
Nosso apartamento é pequenino e não há uma sala de jantar formal. Portanto, comemos no sofá, com os pratos no colo, e os copos em cima das estantes laterais. Quando ele termina de comer, deixa tudo ali mesmo. Às vezes eu passo recolhendo. Às vezes, porém, acordo na manhã do dia seguinte e dou de cara com um resto de macarrão na mesinha de centro.

Ele ouve música no carro em volume altíssimo
Sempre que eu entro no carro e ligo o rádio, dou um salto. A música vem tão alta que poucos segundos de audição já me dão dor de cabeça. Tento abaixar devagarinho (para ele não perceber), mas o danado sempre consegue dar um jeito de aumentar. A tática é puxar uma conversa – em voz mais baixa – para ele não ouvir e ser obrigado a abaixar o som.

Ele derruba comida na roupa
Como já contei anteriormente, não jantamos na mesa. É claro que isso faz o ato de elevar o garfo à boca um pouco mais trabalhoso, e a pessoa precisa ter o dobro de atenção e cuidado. Rá! Ele não tem. Na primeira garfada, lá vai o purê na calça. Na segunda, bang!, salsicha na camisa. Sobremesa com calda de chocolate? Coitado do colarinho! É impressionante. E irritante!

Ele não fecha as portas dos armários que abre
Pratico um ritual assim que namorido vai trabalhar todas a manhãs: sair pela casa fechando as portas que ele deixou abertas. Tem a metade dele do nosso guarda-roupa de onde saiu a vestimenta do dia; tem a minha metade do nosso guarda-roupa de onde saiu o par de tênis; tem a porta do armário da cozinha, a porta do armário do quartinho, a da lavanderia...

Ele é esquecido
O coitado está na lista negra de 95% dos dentistas de São Paulo, porque sempre esquece quando é a consulta. Quando se lembra do dia, esquece o endereço. Quando se lembra o endereço, esquece o número da casa. Fora as vezes em que a gente chega lá na garagem e ele diz “Xi, esqueci a chave do carro!”. Também já deixou passar um aniversário meu. Ê, cabeça.

Ele sempre resolve trocar a roupa de cama às 11 da noite
Tudo bem: eu costumo passar dias sem me lembrar de trocar os lençóis. Isso namorido faz por mim. Pena que tal lembrete acontece sempre em horários avançados, quando eu estou com soninho e doida para cair na cama. Dormir em fronha limpinha é ótimo, eu admito, mas pôxa, será que não dá para a gente fazer a operação exaustiva no sábado de manhã?

Ele fica tempo demais no computador
O bonitão trabalha o dia todo na frente desta máquina. Quando ele chega em casa à noite, adivinhe só para onde vai? Para o computador! Eu entendo que lá no escritório as atividades são outras, e que aqui em casa ele pode brincar, cuidar das fotos que gosta de tirar, procurar coisas divertidas, etc. Se eu deixar e ficar vendo TV, porém, nem vejo a cara dele naquele dia.

Eu também já desconfio de todas as provas que namorido teria contra mim. Sou teimosa como uma mula e dorminhoca como um bicho-preguiça. Pergunto mais de uma vez durante as refeições se a comida que eu fiz estava realmente boa. Choro em programas de animais e fico perguntando para ele se podemos ter um bebê elefante em casa. Além dos lençóis, costumo me esquecer de trocar as toalhas de banho. Quando vou às compras, olho algo que gosto, experimento, mas não levo. Alugo o nosso único banheiro por horas. Lavo calcinha no chuveiro (e às vezes as esqueço no box). Faço as unhas e empesteio a casa com cheiro de acetona. Esqueço de molhar as plantas.

Xi, o jeito é parar – e lembrar que, de perto, todo mundo é um pouco irritante.

Vivi Griswold às 10:22 AM

sexta-feira, 29 de julho de 2005

567 dias de papel – Parte 1

”You've been reading some old letters.
You smile and think how much you've changed.
All the money in the world couldn't buy back those days”

“This Is the Day”, clássico de uma era assinado pela banda estranhamente denominada The The, é uma das minhas canções favoritas de todos os tempos. Como se não bastasse, ainda conta com o verso que serve feito luva para um velho hábito que guardo: o de reler diários antigos. Entreguei-me à aventura em tempo na última sexta-feira – e a jornada rendeu.

Tenho uma memória muito boa, mas às vezes me esqueço de quem sou. Podem rir. Parece bizarro, eu sei, mas é verdade. Para isso, guardo coisas que me ajudem a lembrar. A velha caixa de madeira, pintada por mim mesma (meio toscamente) e recheada de agendas e diários antigos, é um de meus tesouros. Todo mundo aí fora deve ter os seus.

Mas nada de ficar relembrando dias que já foram com aquela nostalgia burra, que termina em si mesma. Gosto de reler minha vida por duas razões básicas: primeiro, perceber que há uma essência que permanece aqui – e, ao mesmo tempo, ver como amadureci e aprendi a lidar melhor com ela.

Só que essa razão, claro, não tem a menor graça para você, caro leitor. Então, vamos logo à segunda, antes que isso aqui vire consultório de psicanalista. Bacana mesmo é o seguinte: rir do passado, seus monstros e problemões que hoje viraram piada. É essa parte que quero compartilhar com você.

Em primeiro lugar, a capa de meu diário mais antigo – que cobre o período de 4 de janeiro de 1990 a 6 de dezembro de 1991, dos 11 aos 13 anos – é composta por uma bela miscelânea de recortes que eu mesma fiz. Se as figuras são um reflexo do que eu achava interessante à época, prepare-se: tem a Madonna, o Indiana Jones, o Bart Simpson e... o Humberto Gessinger! Numa foto grande, ainda por cima. O tempo nos prega peças.

O terceiro diário – que vai de 9 de dezembro de 1993 a 29 de junho de 1995, 567 dias de papel enquanto eu contabilizava de 15 a 17 verões – é o mais divertido. Ou, pelo menos, o único que reli de cabo a rabo até agora. Foquemo-nos nele.

Na madrugada de 25 para 26 de julho de 94, por exemplo, cravei o seguinte:

“É muito solitário estar aqui na sala da casa do meu pai, à uma da manhã, escrevendo. Na verdade, há mais ou menos uma hora atrás (sic) eu estava dormindo bem e sonhando com meu amigo Marcelo (no sonho ele não dava o furo que ele deu)...”

É claro que não tenho idéia de que furo estou falando. Bom, pelo menos nesse trecho eu sei quem é o Marcelo. Sigamos.

“... até que a Tati e a Rê chegaram gritando e caindo por cima de não-sei-quê... e rindo. Despertei e elas continuaram cantando e conversando e eu bem quietinha, acordada, vendo se dava para dormir de novo, que eu precisava (já já conto por quê).”

É claro que acabei não contando. Nem tenho idéia do porquê.

“Muito engraçado, eu me mexia um pouco e elas diminuíam o volume das cacarecajens (meu Deus, de onde isso surgiu?!), falavam ‘a Clá, a Clá, baixa o volume aí!’. Aí eu parava e elas voltavam aos 2.350 decibéis normais.”

Continuo sem saber de onde tirei “cacarecajens”. Ainda mais com jota.

Já em 9 de setembro de 1994, registrei o seguinte:

“Estou ouvindo jazz enquanto escrevo. Antes, eu estava ouvindo jazz e fazendo CARETAS – o que é muito divertido.”

Comecei bem, mas joguei qualquer chance de querer ser fina na lata do lixo. Depois, terminei a escrita do dia com esse incrível resumo:

“No mais... fui no Golden com a Rê (1o dia de trabalho!) e comprei um jeans saint-tropez; encontrei a Tereza lá; não fui ver o Já (pasmem!); Alê brigou com o Su; girls ganharam nos Jogos hoje, boys lost; peguei uma merda de ônibus lotado de delinqüas e cheguei à conclusão de que PENSO DEMAIS E ACABO ENROLADA. Boa noite!”

Vamos às explicações possíveis: o Golden é um shopping de São Bernardo; o Já é o Jarbas (minha paixão platônica adolescente que trabalhava no shopping); tenho uma vaga idéia de quem sejam Alê e Su, mas não dá para confirmar. A única lembrança que guardo claramente é do ônibus cheio de garotos que tumultuaram o percurso e detonaram os bancos. Tive medo.

No dia 30 de setembro do mesmo ano, vem o melhor:

“O Jarbas pegou na minha mão e no meu pescoço. Que conquista!”

Bom, ao menos eu já tinha um pouquinho de auto-crítica. A seqüência aparece escrita e ligada à frase anterior por uma seta: “Parece aquelas menininhas de 13 anos... Ou melhor, acho que até as menininhas de 13 ‘tão tão avançadas que nem pensam mais nisso.”

O ano seguiu. Em 19 de outubro, há um PS depois dos acontecimentos e considerações do dia: “Comprei um maço de Hollywood Lights”. Foi minha primeira aquisição em termos de... tabaco. Muitas outras viriam – e continuam vindo até hoje. Assim como as histórias.
.
.
.
.
Continua na terça-feira que vem


Clara McFly às 10:20 AM

quinta-feira, 28 de julho de 2005

Invenção de brincadeira

Então a cena apareceu na tela da nossa Telefunken e eu paralisei: encontrei, naquele dia de 1989, a profissão dos sonhos. O filme em questão era a febre do momento e se chamava “Quero Ser Grande”. Tom Hanks, um rapaz que ainda não tinha ganhado sequer Oscar de chocolate, encarnava o menino que pediu para ter 30 anos – e, num passe de mágica, acordou crescido e com alma de infante. A tal cena mostrava Tom se esbaldando em uma sala com os mais diversos brinquedos. Era isso o que o menino-adulto fazia, testava brinquedos. Era o que eu queria também.

Sempre fui doidivanas por esses artigos lúdicos. Desde os bloquinhos do Pequeno Engenheiro, passando pelas bonecas que falavam “mamãe!” até os carrinhos controlados por um motorista remoto, tudo me chamava atenção. Continua chamando, aliás. Crianças adoram e detestam me convidar para brincar – porque sabem que inventaremos muitas artes legais mas, em compensação, elas não poderão tocar em nada até minha empolgação acabar.

Ter me tornado test-driver de brinquedos, portanto, seria a glória. Não foi nesta vida, infelizmente. E duvido que alguém da Grow ou da Estrela ligará aqui em casa nos próximos anos. Pena.

De tanta admiração pela classe, porém, passo os dias matutando sobre o assunto. Imagino que, para desenvolver brinquedos, o sujeito precise de muita imaginação e muita pesquisa. Ah, e se despir de todos os preconceitos, claro. Ou nunca teríamos vivido para conhecer o Neb, aquele alien que, aberto, apresentava um corpo repleto de vísceras e gosma verde.

Fez sucesso, essa nojeira. Natural, pois crianças adoram meleca. Coisas viscosas mas gostosas, é com elas mesmo. Por isso a Geleca ganhou tanto mercado: era nada mais do que uma massaroca colorida e fedegosa presa em um recipiente. Mas tinha coisa melhor do que espirrar de mentira e fingir que ela estava saindo pelo nariz? Sujeito ímpar, o inventor da Geleca.

Humor discutível é outra característica que um criador de brinquedos precisa ter, eu suponho. Sem essa virtude, não teriam feito nascer o Pula-Pirata, por exemplo. Imagino como o cidadão pensou na coisa toda... “Podíamos colocar um pirata anãozinho em um barril e fazê-lo pular, seria engraçado! Sim, sim! Melhor ainda: para ele pular, enfiamos espadinhas no barril, como se elas estivesse a perfurar o corpo diminuto do corsário! Há! Hilário! Eu sou mesmo um gênio”.

E era genial (ainda que maligno), porque está sendo vendido há pelo menos 30 anos. Tal qual o Detetive. O camarada inventor do jogo de tabuleiro é, para mim, um investigador frustrado. Ou um serial-killer que, felizmente, freqüentou bastante o analista. Daí, em vez de atacar pessoas com um candelabro, criou um folguedo.

Ou deve ter havido todo um método para inventar personalidades pungentes como as da Srta. Rosa e do Coronel Mostarda. E também para pensar em cenários e armas. Professor Black com a corda na cozinha foi fácil. Mas quando chegou na parte da Dona Violeta, com a chave-inglesa na Sala de Música... Esse homem era assustador. Corda e revólver vá lá, mas chave-inglesa é requinte de crueldade. Seria a patricinha Suzane Von Richthofen a criadora do Detetive?

Humor negro por humor negro, sou mais fã é do inventor do Torremoto. Lançado no mercado de brinquedos nos anos 80, tratava-se de um punhado de toquinhos de madeira que deviam ser empilhados de maneira firme. Então os competidores sagazes precisavam tirar peça por peça sem deixar a torre desabar – o que fatalmente acontecia.

Em paragens como Tóquio ou Los Angeles, imagino, ninguém acha muita graça em simular terremotos. Já que o criador foi assim tão ousado a ponto de parodiar um desastre, por que não lança agora uma versão “Torremoto World Trade Center”? Com bombeirinhos de plástico inclusos, quem sabe...

Desculpem, já entendi. Talvez eu não seja mesmo uma boa inventora de brinquedos. A não ser que, para criar os desenvolver os tais nem haja necessidade de tanto humor, pesquisa ou criatividade. Se for preciso apenas ser um grande crianção, como o Tom Hanks em “Quero Ser Grande”, eu ainda estou na disputa pela vaga.

Fla Wonka às 09:33 AM

quarta-feira, 27 de julho de 2005

A verdade está lá dentro

Teorias conspiratórias, casos paranormais e detalhes de visitas alienígenas ao nosso planeta. Três temas que conseguem prender a minha atenção como poucos. Contudo, por algum motivo estranho, passei incólume pela febre “Arquivo-X” – seriado de mistério que virou um dos maiores símbolos dos anos 90. Talvez tenha sido a falta de TV por assinatura na época; talvez a culpa era da dublagem tosca dos episódios na Record; talvez eu estivesse mais interessada em “Barrados no Baile”; talvez o governo dos Estados Unidos, a CIA e os ETs não queriam que eu assistisse e...

O fato é que, com mais de uma década de atraso, resolvi checar de perto qual era o lance com os agentes Fox Mulder e Dana Scully para angariar tantos seguidores fiéis até hoje. Peguei emprestado do meu pai, um trekker de carteirinha (mesmo) e o responsável por introduzir o maravilhoso mundo da ficção científica à filhota aqui, os DVDs da primeira e segunda temporadas. Resultado? Preciso comprar um pôster com os dizeres “I Want To Believe”, arranjar uma carteira de agente do FBI e grudar um “X” de fita-crepe na janela da sala.

Sim, estou viciada. Os primeiros 24 episódios, incluindo o elucidativo piloto, já foram devidamente devorados em tempo recorde. Agora falta pouco para terminar a segunda leva. Porém, estou segurando o ritmo e tentando não fazer a graça acabar tão logo. Enquanto isso, planejo uma visita à locadora com o objetivo de alugar a terceira temporada. Isso porque “Arquivo-X” não é apenas um seriado com um cara crente e uma mulher cética que tentam desvendar em vão mistérios de homenzinhos verdes. Pô, é muito, muito mais.

Quando coloco um dos discos no aparelho, é hora de me preparar para o que virá. Pode ser uma seita adoradora das forças do mal matando jovens em uma cidadezinha, ou um assassino sanguinário e contorcionista que se espreme para dentro da casa da vítima, ou um zoológico que sofre com a perda de animais por abdução alienígena. Os temas são tão variados e numerosos quanto os mistérios desse nosso mundo. E, após ouvir o sombrio tema de abertura (um clássico imediato), prendo a respiração que só vai voltar ao normal quando aparecerem os créditos.

Sério, eu pareço minha avó Nena vendo novela. Ela era daquelas telespectadoras que xingavam o vilão, aconselhavam a mocinha, choravam com as tragédias e riam à beça com as situações engraçadas. Televisão, para a vovó, era uma experiência interativa. Pois não é que me peguei várias vezes dando uma de velhota noveleira? Já gritei para a tela “Scully, você é cega?”, “Não entre aí, seu tonto!” e “Mulder, por que você não anda com uma maldita câmera de vídeo?”. Ainda bem que não tenho testemunhas dos meus desvarios. Ou tenho, porque o governo sabe de tudo, né.

Embasando histórias intrincadas e bem construídas está, é claro, a dupla principal. Praticamente tudo já foi falado sobre a médica ruiva e o malucão de gravatas horrorosas e sobre suas diferenças e semelhanças que dão vida aos episódios. O que é legal notar, no entanto, é a química incrível entre os atores David Duchovny e Gillian Anderson e, consequentemente, entre seus papéis. Eu faço parte da turma contra um envolvimento amoroso dos dois. Mas adoro ver o carinho com que Mulder protege a parceira e como ela vai, aos poucos, aliviando sua visão ceticista dos fatos que a ciência ainda não pode explicar.

No meio disso tudo, os roteiristas enfiam personagens incrivelmente densos para uma vida-útil de apenas um episódio. Como, por exemplo, Ed Funsch, um pacato funcionário dos correios que tem fobia a sangue mas, por uma reviravolta misteriosa, é incitado a matar através de mensagens subliminares. É possível construir um perfil psicológico inteiro a partir de poucas cenas.

O criador da série, Chris Carter, também adora colocar detalhes significativos na trama. Como o apartamento de Mulder, que é número 42 – a resposta para todas as questões segundo “O Guia dos Mochileiros da Galáxia”. Outro número que botei reparo foi 11:21, horário que sempre aparece marcado no relógio digital do quarto de Scully. Trata-se do aniversário da mulher de Carter.

Em um ranking da revista “TV Guide” sobre os seriados mais cult de todos os tempos, “Arquivo-X” ficou com a medalha de prata – perdendo apenas para “Jornada nas Estrelas”. Assim como Fox Mulder é cultura pop instantânea, instantâneo também foi o impacto que o seriado teve nos fãs. É bom lembrar que ele floresceu ao mesmo tempo em que a Internet estava avançando e foi a primeira vez que discussões entre telespectadores tiveram tal tecnologia como aliada absoluta.

Tudo bem: eu admito que, chegando nas últimas temporadas, alguma coisa dá errado. Não sei se Carter perdeu a mão, ou se o sucesso subiu às cabeças dos atores, mas dá para sentir uma queda vertiginosa de qualidade e poder de entretenimento. Quando Scully fica grávida de alienígenas e quando Mulder é bruscamente substituído pelo T-1000, a mistura desanda. Apesar disso, vou continuar firme na minha empreitada de completar a série inteira. Porque eu sei que a verdade está lá dentro daqueles capítulos. E eu quero acreditar.


xfiles.jpg
Ei, não falei que estou viciada?


Vivi Griswold às 10:38 AM

terça-feira, 26 de julho de 2005

Tinha tudo para dar errado

Pense comigo: você está confortavelmente instalado em seu sofá numa tarde preguiçosa, quando escuta a chamada para a Sessão da Tarde ou similar. “Dois músicos muito loucos topam tudo para fugir de um bandido: vestidos de mulher, eles vão viver as mais eletrizantes aventuras em meio a uma banda feminina!” Não espantaria se, na seqüência, o locutor anunciasse a participação de Steve Guttenberg ou qualquer outra figurinha conhecida por estar sempre em filmes duvidosos, hã?

O mote de “Quanto Mais Quente Melhor”, clássico de Billy Wilder com soberbas interpretações de Jack Lemmon, Tony Curtis e Marilyn Monroe e roteiro irrepreensível, pode ser resumido nas linhas citadas acima. Ou seja: tinha tudo para dar errado, mas o resultado foi excelente. Talvez graças ao diretor, talvez ao roteirista ou aos atores; sabe-se lá. Mas o fato é que esse misterioso expediente ocorreu mais de uma vez na história do cinema.

Quem em sã consciência levantaria a bunda do sofá e pagaria 13 pilas por cabeça (fora o estacionamento) para ver algo resumido como “um embate entre o Bem e o Mal no qual tomam parte uma princesa rebelde, um guerreiro de roupão, um mercenário e seu inseparável amigo peludo, cuja linguagem resume-se a grunhidos”? Parece um baita samba-do-nerd-doido, mas a descrição acima não deixa de ser uma maneira de explicar, em linhas gerais, a saga de “Star Wars”. Claro que não é só isso, mas todos os elementos citados estão lá.

Obviamente, George Lucas preferiu não divulgar sua obra dessa maneira. E o público deixou 780 milhões de verdinhas nos caixas dos cinemas. Foi uma loucura. Diz que tinha gente saindo da sessão e entrando na fila para a próxima. Por que o simpático criador do universo de “Guerra nas Estrelas”, que anda cada vez mais parecido com um ewok, conseguiu decolar um filme que todos apostavam ser um pepino? Vai saber...

Nos dois casos acima, ao menos fomos premiados com películas bacanas. Mas não é só um argumento estranho que pode comprometer produções – embora elas também acabem, surpreendentemente, saindo-se melhor que a encomenda. Contar uma história cujo final é sabido deveria ser a maior asa negra do cinema. No entanto, não é.

“Titanic” e “A Paixão de Cristo” são dois exemplos palpitantes. Ambos estouraram a boca do balão nas bilheterias. E, tanto na história do barcão como na do Filho do Hômi, todo mundo já sabia a triste conclusão: o navio vai afundar e o cara vai parar na cruz. Então, como explicar a massiva presença de infiéis ansiosos por depositar o valor da entrada e ver os filmes? Mistééério...

Talvez o que as gentes querem é ver como as coisas aconteceram. Tarantino sacou esse fetiche nos cinéfilos e entrou para a história ao subverter a ordem de suas narrativas. Assim, criou outra forma de manipular as audiências. Em “Pulp Fiction”, quem não torceu para que Vincent Vega vivesse, apesar de já saber de antemão que o carismático “gangsta” havia encontrado a Desdita sentado no trono, pelas mãos de Butch?

Concluímos, portanto, que nem um argumento bizarro, nem a ciência do final da trama são capazes de estragar uma produção. Mas a prova final deste mal-traçado teorema ainda está por vir. E ela atende pelo nome de “Proposta Indecente”.

Eu gostaria muito de saber onde diabos está o atrativo desta porcaria – que custou estimados 38 milhões e arrecadou, pasmem, mais de 260. Supostamente, o filme se sustentaria num grande dilema moral. Mas onde diabos está o dilema moral de dormir com o Robert Redford e ainda ganhar um milhão? Polêmica, para mim, seria o senhor Redford oferecer um milhão para dormir com o Didi travestido de Maria Bethânia. E olhe lá!

Indecent_proposal.jpg
Alguém me explica onde está a polêmica?

Clara McFly às 10:25 AM

segunda-feira, 25 de julho de 2005

Ei, Tim Burton, cadê o meu cupom?

Ele fez mesmo. Quando o boato sobre uma nova versão de “A Fantástica Fábrica de Chocolate” começou, há três anos, eu jurava que era mentira. Na verdade, acho que era mais uma auto-indução de quem não queria acreditar na ameaça. Sim, porque eu assisto tudo o que é remake, mas admito que eles geralmente não agradam como o original. Por isso ver meu filme predileto refeito era tratado como “ameaça”. Mas ele fez. Tim Burton – o diretor, o homem, o mito – fez. Neste momento gostaria de ser um polvo, para dar todos os meus oito braços a torcer.

Primeiro, era tudo mentira. A nova “Fábrica” não é um remake. É a verdadeira versão cinematográfica do livro de Roald Dahl. O escritor britânico publicou a obra em 1964. Daquela cabecinha lindamente torta saiu a história de Charlie, um garoto pobre muito interessado na fábrica de chocolates vizinha à sua casa. Especialista em contos que misturavam horror e fantasia, Dahl, um ex-piloto da Força Aérea, produziu um texto divertido para crianças – mas só aquelas que suportam uma boa dose de susto. E bizarrice.

Não é um livro fofinho. Willy Wonka, o dono da fábrica, é um maluco paranóico que trancou-se em seu estabelecimento por décadas devido ao ódio que sentia dos traficantes de segredo industrial. Tempos depois, ele espalha cupons dourados dentro de chocolates que dão direito a cinco crianças visitarem a empresa. Tem, na verdade, um plano muito bem traçado, o Sr. Wonka.

Estava mais para história da máfia – com Joe Pescy e Robert De Niro no elenco, claro – do que para fantasia infantil. Mas virou, porque o texto é vibrante e engraçado. E evoca formas divertidas de mostrar às crianças os piores defeitos que ela podem ter.

No filme de 1971, Gene Wilder era um Wonka amalucado, sarcástico e bem assustador em certos momentos. Era dele a função de apontar para os vícios dos visitantes da fábrica: Augustus era um alemão ensandecido por comida; Veruca, o máximo da mimada pentelha; Violet era neurótica por ganhar a competição de mastigadora de chiclete; Mike pregava os olhos na TV dia e noite. Todos tinham a permissividade dos pais como apoio. Todos sofreriam as conseqüências.

O filme de Tim Burton, que acaba de estrear, traz toda essa gangue de malditos de novo. Traz também os Oompa Loompas, homenzinhos muito bem coreografados para o trabalho de produzir chocolate – e dizer o “eu te disse” cantado para as crianças eliminadas da visita à fábrica. No primeiro filme, eu queria ser amiga de um Oompa. Eles tinham cabelo verde e sobrancelhas brancas. Agora não quero mais... Para Tim Burton, eles têm todos a mesma cara. É estranho.

Bom, mas tudo é estranho. O comportamento do empresário Willy Wonka dá arrepios. Alguém bem afirmou: Johnny Depp deve ter se inspirado em Michael Jackson para compor o personagem. De fato, só falta cantar “Beat It”. Ele ri meio fino e afetado, relembra a infância com traumas, vive uma realidade doidona, faz amizade com garotinho... E ainda assim é apaixonante!

Quem mais ficaria fazendo versinhos estúpidos como “Chewing gum is really grosse, chewing gum I hate the most”? E diz a um menino pequeno para falar sem meter a língua nos dentes, porque assim não se entende nada? E troca o seguinte diálogo com uma senhora de idade:

Vovó Georgina: “O senhor cheira a amendoim!”
Wonka: “A senhora cheira a gente velha. E sabão. Que gostoso!”

Willy Wonka, desta vez, rouba a cena. No filme anterior, as crianças ainda tinham alguma vez. Agora, só dá ele. Ele, seu elevador panorâmico que anda para todos os lados, sua bala que nunca termina, seu passado tenso como filho de dentista, seus esquilos descascadores de nozes, suas ovelhas cor-de-rosa... Não disse que era inspirado em Michael Jackson?

Mas não se pode ficar comparando os dois filmes. Já se vão 34 anos de diferença entre os lançamentos. Como a década de 70 teria tecnologia suficiente para montar o sonho que montaram Tim Burton e equipe? Bom mesmo é apreciar o ar tosco e cheio de isopor do primeiro e a magia do segundo. Cada um em sua época, são marcos.

Para quem tiver o prazer de ver o que vi, não aconselho levar crianças muito pequeninas. Elas não vão entender tudo – e podem se assustar com ataques de esquilos e com meninas inchando feito imensos balões roxos. Eu me assustei, e olha que já sou grande.

Não tão grande, porém, que não tenha choramingado e gargalhado com Willy Wonka, Charlie e as histórias de ambos. Acontece desde os sete anos: Charlie abre o chocolate, não acha o cupom dourado e eu me acabo em lágrimas. Depois ele persevera, encontra o passaporte da alegria, e lá vou eu me debulhar de novo.

Sempre sonhei em ganhar um cupom dourado. Já ganhei um até! Não foi entregue por Willy Wonka, mas me deixou em êxtase. Queria que fosse de verdade. Ah, Tim Burton, por que foi avivar essa esperança, hein?

Wonka2.jpg
Seria Michael Jackson? Com o cabelo da
Ana Paula Padrão?? Não, é o Senhor Wonka...

Fla Wonka às 10:52 AM

sábado, 23 de julho de 2005

Uma tarde de aventuras

Enquanto um punhado de brasileiros abastados (e sem noção) anda pelos suntuosos corredores da paulistana Daslu, aquele marco da opulência em plena Marginal Pinheiros, outros muitos se acotovelam nos grandes bolsões de comércio popular da cidade. Tal qual à exclusiva loja, as ruas de compras econômicas são um mundo à parte: ali, porém, você não precisa ter carteirinha de freqüentador – mas sim uma boa dose de paciência, um tanto de bom-humor e olhos abertos para a diversão certa.

Com sapatos confortáveis, trocados para o ônibus e bolsa colada ao corpo, aventurei-me ao Brás, conhecidíssimo ponto para aqueles em busca de roupas a preços de fábrica. O motivo maior foi a procura por uma calça jeans que não fosse azul e que não marcasse na etiqueta 80 reais, valor facilmente encontrado em qualquer loja acessível nos shoppings da cidade. Mas é claro que a experiência única também conta pontos para desembarcar nas calçadas apinhadas de gente, camelôs, cachorros, papel de bala, carrinho de milho cozido e vendedor batendo palma para atrair clientela.

De maneira impressionante, cumpri a missão nos primeiros 10 minutos de andança: achei a tal calça do jeito que eu imaginava, feita com um jeans macio e resistente, de perfeito caimento e por módicos... 30 reais! Um recorde de tempo e economia. “Esse Brás é mesmo danado de bom!”, pensei, enquanto pagava feliz pela compra que já havia feito a empreitada valer a pena. Dali para frente, satisfeita, passei a seguir minhas acompanhantes enquanto observava atentamente a fauna local.

Para aproveitar o que as ruas têm a oferecer, o visitante deve se desprender de todos os preconceitos do hábito de fazer compras. Se você costuma escolher lojas mais iluminadas, que tenham vitrines bonitas e vendedores bem-apessoados, saiba que tal critério não poderá ser utilizado por lá. Os estabelecimentos são escuros, bagunçados, mal-ajambrados. E os vendedores, coitados, não primam pela simpatia ou pela apresentação. No dia da minha visita, com os termômetros da cidade marcando 15 graus, todos haviam adotado o modelito “bóia-fria”: blusa por cima de blusa, luva, meia de lã por fora da calça, etc.

Eles também não costumam ligar muito para o cliente comum. Como o bairro é ponto de parada de sacoleiras e lojistas que compram sempre e em muita quantidade – dado comprovado pelas dezenas de ônibus de turismo estacionadas pelas ruas e pelas tiazinhas puxando carrinhos ou com sacolas imensas na cabeça –, uma pessoa sozinha, ou em pequeno grupo, atrás de uma única camiseta, não é lá muito atraente. O lado bom é que você não será perseguido e vencido pelo cansaço por uma vendedora que não larga o osso. Portanto, há muito espaço e liberdade para vasculhar as peças.

E é exatamente aí que o espírito arqueológico precisa baixar na pessoa. Manja o paciente Indiana Jones que, além de não temer caverna alguma, ainda é cuidadoso para localizar o tesouro mais valioso no meio de todos os outros? Então. O negócio é afiar os olhos e saber separar o que é lixo (tem muito) do que pode ser uma peça atraente. E ter coragem para fazer o que você não faria em qualquer outro ponto de comércio. Por exemplo, fuçar em baciadas de 5 reais. Vá fundo, ninguém vai lhe reconhecer! Entrar no meio de senhoras ensandecidas na arara de ponta de estoque também é válido. Eu inclusive me aventurei em uma escadaria fina e escura para achar uma loja! E olha que lá não funcionava um comércio ilegal de órgãos como eu poderia desconfiar!

Assim como você não pode se apegar a preconceitos, também precisa fechar os olhos para o preconceito local. Eu sei que é desagradável entrar em uma loja com um segurança empoleirado em cima de uma caixa de olho em suas ações, para ter certeza de que você não vai enfiar na bolsa uma blusinha de 3 reais – que, provavelmente, não iria querer nem de graça. Ou quanto você põe os pés para dentro de um estabelecimento e uma coreana com cara de poucos amigos grita de modo ríspido “só atacado!”, praticamente lhe expulsando do lugar.

Por outro lado, há pessoas agradabilíssimas. Como o senhor de origem muçulmana dono de uma pequena rede de lojas. Depois de negar um pedido de fiado do motorista de um ônibus de excursão (o cara disse “Eu trouxe 40 pessoas para comprar no Brás”, e o velhote respondeu “Então traga todo mundo aqui que eu dou desconto”), notou que nós estávamos cheias de sacolas e nos deu uma sacola maior, para facilitar a caminhada. Em sua loja, enquanto esperava a cunhada experimentar uma calça, também pude assistir a um programa sobre cinema da TV árabe.

Pena que chega um momento em que seu corpo pede arrego, embora sua mente saiba que ainda existe muita coisa para ser explorada. Após seis horas de aventura eu precisava esticar as pernas e descansar o bumbum. No ponto, ao lado de uma barraca de CDs e DVDs piratas, ficamos esperando o ônibus com a pior trilha-sonora de todos os tempos: um forró cujo refrão era uma menina de voz estridente que repetia os versos “O seu vizinho quer comer meu cu...elhinho/ O seu vizinho quer comer meu cu...elhinho”. Ah, vai me dizer que na Daslu existe tamanha diversão?

Vivi Griswold às 10:36 AM

sexta-feira, 22 de julho de 2005

Quanto assunto, Silvio!

Há um atributo erroneamente subestimado na convivência social moderna: o talento para puxar papo. Só notamos o quão importante é a habilidade naqueles dias em que o ônibus demora anos a passar ou nos pegamos sozinhos no elevador com um vizinho. Dividir um espaço tão pequeno com um completo desconhecido é deveras constrangedor. Pessoalmente, acho que manter o silêncio em tais ocasiões torna os ponteiros do relógio ainda mais pesados. É quando pensamos: “ah, se eu tivesse um assunto na manga!”. No entanto, entre os milhões de brasileiros, há um homem que, aposto, jamais se lamentou pela falta de assunto. Isso porque ele o tem até demais.

Silvio Santos é tido como um grande comunicador não só porque ele aparece na televisão, nem porque sua imagem já está mais popular que chinelo havaianas. Tampouco por ter gravado marchinhas de Carnaval de duplo sentido e gosto duvidoso, como “A Pipa do Vovô Não Sobe Mais” (para deleite dos meus ouvidos, confesso). Claro que tudo isso conta – e muito. Mas a essência do poder de comunicação desse senhor está no animado papo que ele engata com os participantes de seus programas.

Vejamos, por exemplo, o caso do “Show do Milhão”. Na antológica atração, descaradamente xerocada do norte-americano “Who Wants to Be a Millionaire”, a pessoa enfrentava uma batelada de perguntas que a levariam a “um milhão de reais em barras de ouro, que valem muito mais que dinheiro” (o que o Patrão quis dizer com isso ainda não entendi).

Antes do candidato a milionário começar a responder as capciosas questões (como “Quem perseguia a Chapeuzinho Vermelho no conto de fadas? A. O lobo mau; B. O urso mau; C. O javali mau; D. A foca má”), sêo Silvio batia um papo com o dito-cujo. Invariavelmente, o apresentador-e-mito indagava o que a pessoa queria fazer com o dinheiro. Daí é que vinha a graça.

Tinha gente que pretendia comprar a tão sonhada casa própria, adquirir mais uma residência para a mãe, negociar um carro para o irmão e arcar com os custos da faculdade da caçula. “E quanto você acha que precisa para tudo isso?”, perguntava o Homem do Baú. E o participante: “Ah, uns cinco mil dá, né, Silvio?”.

Hum. Dois imóveis, um carro e a faculdade... deixa ver... sessenta... vezes dois... mais quinze... sobe um... É. Cinco mil não dá nem pro começo. Ou essas pessoas moram na Preçolândia ou o Roque ensaiava os coitados para dar essa resposta bizarra e divertir as multidões do outro lado da tela. Bom, comigo funcionava. Especialmente quando o oposto acontecia: também havia gente que queria só “terminar o puxadinho lá de casa” – e para tanto precisaria de uns... cem mil.

O fato é que Silvio tem o poder de fazer as pessoas se sentirem em casa, a ponto delas ficarem suficientemente à vontade para levar a cabo cálculos despropositados e dar declarações absurdas como essas. Ou de pularem no pescoço dele, gritando “tira uma foto comigo, Silvio!”. Natural. Na presença do Patrão, eu também faria isso. Nem que fosse só para ouvir o “sai pra lá” do homem.

E não é só. Ele também costuma travar diálogos sensacionais sobre o que as pessoas fazem da vida, tanto no próprio “Show do Milhão” como em outros programas inesquecíveis, como o “Topa Tudo por Dinheiro” e o “Em Nome do Amor”. Até o participante chegar às vias de fato do que foi fazer ali, Silvio vai matando o tempo com todo seu poder de fogo.

“É a primeira vez que você participa do programa?”
“É, sim, Silvio”
“Já participou antes?”
“Não, Silvio”
“Então você nunca esteve aqui, no SBT?”
“Não, senhor, Silvio”
“Certo. É a primeira vez que você vai participar, então?”
“É isso mesmo, Silvio”

Impressionante. E quando Silvio se convence definitivamente de que o cidadão nunca esteve ali, ele passa à fase seguinte:

“E você faz o quê?”
“Eu sou feirante em Catolé do Rocha, Silvio”
“Ahn! E quanto você tira por mês, mais ou menos, como feirante em Catolé do Rocha?”
“Ah... Fica aí na casa de uns mil, Silvio”
“Mil reais?”

“Não, pedro bó. Mil conchinhas de praia”, dá vontade de dizer. Mas o mais incrível é que a gente não diz – e ainda continua assistindo à enrolação:

“E por quanto está saindo o quilo da cenoura lá em Catolé do Rocha?”
“Ah, taí pelos oitenta centavos, Silvio”
“Oitenta centavos, certo. Então, com um e sessenta, eu compro dois quilos de cenoura em Catolé do Rocha, é isso?”
“É isso mesmo, Silvio”

Nessa hora, eu me pergunto porque ainda estou a acompanhar toda essa patuscada e, acima de tudo, porque diabos o Silvio acha que o preço do quilo da cenoura em Catolé do Rocha pode ser interessante para seu público.

Mas o controle remoto permanece intocado – eis a prova cabal do poder de assunto de Sêo Silvio.

silvio-santos-milhao.jpg
Imagina pegar o elevador
com ele todo dia de manhã


Clara McFly às 11:24 AM

quinta-feira, 21 de julho de 2005

Cante com os políticos

Se eles fossem bons administradores como são compositores, o Brasil teria a renda per capita de Mônaco. Políticos deveriam investir em cursos de finanças e faculdades de gestão pública, mas em vez disso preferem gastar fábulas na criação de campanhas atraentes. Péssimo para o nosso bolso – pois hoje sabemos de onde sai a verba para tal publicidade –, ótimo para a memória. Porque em nenhum outro país do mundo existem tantos jingles políticos sensacionais para guardar na lembrança.

A rima é patética. A métrica é infame. E aí está a mistura perfeita para fazer as tais musiquinhas grudarem na cabeça feito papel de bala vagabunda. É claro que, ao produzir um tema de candidato na eleição, ninguém quer saber de poesia. Querem é colar na mente e nos fazer repetir aqueles versos como uma seita maligna. O que, por sinal, dá certo.

Até eu, que me considero dona de uma carapaça de aço contra ação musical de políticos, já me peguei cantando coisas terríveis como “Lá lá lá lá lá Brizoooola”. Pode? Pode. Aposto que muito reacionário também entoou, em 1989, o emocionante “Lula-lá, com sinceridade/ Lula-lá, com toda a certeza/ Pra você, meu primeiro voto/ Pra fazer brilhar nossa estrela”. E de mãozinhas para o alto, embalando a democracia! Como uma ode dessas pôde perder para Fernando Collor?

De qualquer forma, é simplesmente impossível ficar alheio aos jingles em época de campanha eleitoral. São tantas as pérolas que, quando vemos, estamos repetindo o refrão ao lavar louça ou passar aspirador. Espertos, esses tios. Nos pegam desprevenidos e incutem as musiquinhas em nossa pobre cachola para todo o sempre.

Duvido que você, politizado leitor, nunca tenha proferido estes malfadados versinhos.

Faça a coreografia com Afif Domingos
“Juntos chegarem lá
Fé no Brasil
Com Afif juntos chegaremos lá”

O cidadão não venceu como presidente, mas fez toda uma nação juntar as mãos com dedos indicadores apontados, e dizer o “juntos chegaremos lá”. Ele não alçou o estrelato, nem nós, mas a mímica sim.

Cante indignado com a cara-de-pau(lo) de Maluf
“São Paulo é Paulo porque Paulo é trabalhador
São Paulo é Paulo é Maluf sim senhor!”

São Paulo foi Paulo – e foi para o buraco também. Trabalhador ele era mesmo. Os paulistanos só não sabiam que, no caso, o salário de prefeito não era a única féria que o homem embolsava. Ou sabiam? Então como ele elegeu Celso Pitta depois? Raios!

Mantra de enganador, com Orestes Quércia
“O sol nasceu pra todos e também para você
Vote Quércia, vote Quércia, PMDB”

Eu cantei em 1986, mas hoje não canto mais por medo da minha língua apodrecer, secar e cair. Nem sequer falo o nome do camarada, que é para não atrair mau-agouro. O sol nasceu para todos mesmo. O de Orestes, ele foi apanhar em algum paraíso fiscal.

Jânio, político-gari-e-cantor
“Varre, varre, vassourinha
Varre, varre a bandalheira
O povo já está cansado
De sofrer dessa maneira”

Tiozinho incrível esse Jânio! Criou o maior factóide da história nacional (insinuou renunciar esperando que lhe dessem mais poderes... mas não é que aceitaram a demissão?). E criou também o jingle mais cantado. Minha avó, fanática, tinha até um bottom da vassourinha. Era bebum e destemperado, o Quadros, mas era engraçado.

Bom letrista, grande perdedor
“Ey-Ey-Eymael, um democrata cristão
Para prefeito em 15 de novembro, Eymael!
O candidato da renovação”

Um dos meus prediletos – e de todas as crianças que acompanharam as eleições de... de todos os anos, porque José Maria Eymael se candidatou até a síndico do prédio apenas fazendo versões da música (seria ele o Jorge Vercilo da política?). A levada de sambinha atraiu os ouvidos de petizes por toda a cidade de São Paulo e Eymael, que não tinha nem três minutos de horário eleitoral, virou celebridade.

O melhor jingle político é o do velhinho
“Bote fé no velhinho, o velhinho é demais
Bote fé no velhinho, ele sabe o que faz
Vai mudar o Brasil do Oiapoque ao Chuí
E acabar com a molecagem que tem por aí!”

Disparado, o mais divertido e engajado tema já criado para uma campanha. Ulysses Guimarães acertou em organizar as “Diretas, Já!”, mas acertou muito mais ao aceitar ser chamado de velhinho na canção tema. Ele sabia mesmo o que fazia. A não ser quando adentrou aquele helicóptero em dia de tempo ruim... Pena. Perdemos um bom homem público. Mas o jingle ficou! E agora podemos passar as tardes a cantar “Bote fé no velhinho, o velhinho é demais...”.

ulysses.jpg
Consegue imaginar Ulysses cantando
a própria musiqinha?

Fla Wonka às 10:14 AM

quarta-feira, 20 de julho de 2005

Vai um filminho aí?

Toda vez em que a moça da televisão, aquela que fica diante de mapas e temperaturas, anuncia a chegada de mais uma frente fria típica do inverno no hemisfério sul, muitos de nós acabamos com a mesma vontade: alugar filme. Afinal, se existe algo que combina com uma tarde gelada é um bom entretenimento para ser assistido do sofá, de preferência com uma manta sobre as pernas e um balde de pipoca no colo.

Mas vamos voltar a fita: antes de apertar o “play” do aparelho de DVD, antes de acomodar o traseiro no almofadão e antes de estourar o milho no microondas, os adeptos do cinema doméstico precisam passar por um mesmo ritual – enfrentar a videolocadora. O que parece ser fácil e inofensivo, contudo, pode vir atrelado a várias arapucas. É necessário tomar alguns cuidados naqueles templos para que o final desse programão de inverno seja feliz.

Por isso, sugiro que você imprima o manual que vem a seguir. Leve-o para ser plastificado e mantenha-o na bolsa ou na carteira a cada momento em que a temperatura ameaçar diminuir e a vontade de ver um filminho ameaçar subir...

Não vá com a cara-metade
Uma quer pegar “Razão e Sensibilidade” e o outro teima em segurar a caixa de “Piranhas 2 – Assassinas Voadoras”. Visitar o estabelecimento enquanto casal é tarefa para poucos! Ou vocês tiram no par ou ímpar (no caso, apenas um parceiro vai se divertir), ou levam os dois filmes, ou tentam chegar num acordo amigável. Qualquer uma das situações leva tempo. E muita saliva.

Não procure por filmes alternativos
Quem topa freqüentar a videolocadora deve estar preparado para escolher entre opções comerciais. Dá um pouco de raiva saber que a indústria prefere lançar “Beethoven 5” a colocar na prateleira um especial do Monty Python? Claro que dá! Mas saiba engolir a raiva para ela não atrapalhar seus planos. Até porque às vezes um filmão hollywoodiano vem a calhar na tal tarde gelada.

Não alugue desenhos infantis
Tudo bem: eu adoro “Procurando Nemo”, “Monstros S.A.” e “Shrek”. Porém, lembre-se de que os disquinhos prateados já passaram por mãozinhas travessas. O DVD costuma vir tão riscado que fica difícil precisar se ele serviu de bumerangue ou foi atacado pelo poodle da família. De qualquer maneira, o melhor a fazer é evitar o setor das crianças – e, com isso, evitar também dor de cabeça depois.

Não caia na arapuca dos lançamentos
Quando a nova superprodução chega, seus exemplares tomam metade da loja. É difícil resistir a tamanho apelo. Tente se controlar! Provavelmente você já deve ter visto o filme no cinema e é sempre mais legal optar por um outro título. E se você o perdeu na telona... Bem, espere mais um pouco e economize dinheiro, pois lançamentos custam mais. Não teve pressa na época e vai ter agora?

Não leia o texto no verso da caixa de DVD
O resumo que costuma vir estampado na caixa serve mais para afugentar espectadores do que para atraí-los. Faça um favor para si mesmo e não perca um minuto sequer lendo as letrinhas. Normalmente, elas estragam a surpresa do final. Ou contam uma revelação que era para ser impactante. Ou narram uma história tão sem-graça que você pensa se vale mesmo a pena. Siga seus instintos.

Não vá às sextas e sábados
Quer ficar com a sensação de que a cidade inteira de repente teve a mesma idéia? Então desembarque no local na sexta-feira à noite. Você com certeza terá de disputar a tapas o último título decente que sobrou ali. Em sábados, por outro lado, existem apenas... restos. Tipo “Vovózona”. O melhor dia para passar na videolocadora é quinta-feira. Pelo menos, haverá uma chance maior para o sucesso da missão.

Não opte por sessões temáticas
Digo isso por experiência própria: sou mestre em ter a “brilhante” idéia de pegar, por exemplo, “O Senhor dos Anéis” 1, 2 e 3. No começo parece super legal. Depois, por volta da metade do segundo episódio, você já não está mais agüentando a mesma história, os mesmos personagens e os mesmos atores. O último CD parece nunca acabar, e você corre o risco de cochilar e perder o final.

Não vá com muito tempo disponível
Visitar a videolocadora com tempo de sobra é como ir ao supermercado com fome – sempre acabamos pegando mais do que conseguimos suportar. Lembre-se de que o fim-de-semana não será passado tão somente na frente da televisão. Você também precisará almoçar, jantar, ir ao banheiro, tomar banho, escovar os dentes, dormir... Superlotar sua folga cansa mais do que se estivesse trabalhando.

Não passe na sessão de guloseimas
Os responsáveis pelas lojas jogam muito baixo ao posicionar o setor de salgadinhos, balinhas e sorvetes bem ao lado da fila. Enquanto sua vez não chega, você fica olhando aquele monte de gostosuras e babando. O problema é que lá os artigos custam 10 vezes mais do que em qualquer outro mercado. Então, segure a onda e passe na venda honesta mais perto de sua residência.

Não alugue nada que tenha o Steven Seagal
Se você passou incólume por todas as tarefas acima, é chegada a hora de colocar o filme para tocar... Com a manta, a pipoca e, de preferência, uma boa companhia, é quase impossível o passatempo não ser bacana. Quase. Isso depende, é claro, do escolhido não contar com o tosco do Steven Seagal. Se for “Nico – Acima da Lei”, “Ameaça Subterrânea” ou “Lado a Lado Com o Inimigo”, vá já devolver!

seagal.jpg
Lembre-se: o importante é fugir dele!



Vivi Griswold às 10:43 AM

terça-feira, 19 de julho de 2005

Diversão é a solução, sim

Gozado como a nossa idéia de diversão muda ano a ano. Ok, talvez não tão rápido quando você chega na casa etária em que me encontro: ano passado, eu achava o máximo passar a tarde borboleteando pelo Jardim Botânico ou pegar uma sessão de cinema maldita, daquelas depois da meia-noite – sem fila, empurra-empurra ou adolescentes conversando sobre quem pegou quem em “Malhação”. Esse ano... continuo achando. Mas há cerca de duas décadas, o que eu chamava de diversão era bem diferente.

Aos quatro anos, diversão era a minha coleção de pinos mágicos. Meu Deus, que coisa genial era aquele brinquedo! E, como todas as coisas geniais, consistia numa idéia muito simples: pequenos pedaços de plástico encaixáveis. Eu podia passar horas montando casinhas, barcos, robôs ou simplesmente enfileirando os pinos, até que eles se estendessem num palito gigante que ocupava todo o corredor.

Aos seis, não podia haver nada tão divertido quanto viajar para a praia e caçar os presentes de Natal. São atividades associadas porque a gente sempre passava as férias de verão – que incluem os feriados de final de ano – na casa de Bertioga. Minha mãe preparava pistas que continham charadas e missões; depois de tudo cumprido, a recompensa vinha embalada em papel celofane e fitas coloridas. Ao fim, nem importava muito o que os pacotes continham...

Aos oito, ficar sozinha no apartamento de uma amiga comendo besteiras e assistindo “Viva a Noite”, seguido de “Comando da Madrugada”, era a glória. Os pais saíam para curtir o conceito de diversão deles (provavelmente jantar-e-cineminha-talvez-um-chopp) e deixavam a prole à mercê do Gugu e do armário de biscoitos, chocolates e balas disponível no apê. Noites inesquecíveis, nessa época da vida, se faziam com playmobils e uma caixa de mentex de sobremesa.

Aos dez, meu grande objetivo de vida era jogar taco na rua até altas horas. Nessa fase, o grito de “tá na hora de entrar” proferido por minha mãe era a grande barreira entre eu e a diversão sem fim. Como tudo que é muito gostoso na vida precisa de alguma proibição para continuar sendo sensacional, havia a mãe chamando, as lições de casa e a escola no dia seguinte.

Aos doze, divertido mesmo era passar a tarde comendo confeti e jogando videogame. Eu e minhas amigas passávamos a semana poupando a mesada para comprar uma caixa do confeito de chocolate, suprindo assim as necessidades criadas por um sábado inteiro de “Alex Kidd in the Miracle World” ou “Castle of Illusion”. Também tinha “Jogos de Verão”, mas eu era muito ruim no footbag.

Aos catorze, veio a virada: o melhor lugar para se divertir não era mais nossa casa, nem a rua. Havia que se ir longe, o mais longe possível. Onde? No shopping, claro. Quer diversão mais subúrbio-classe-média que essa? Uma vez nos corredores do grande centro de compras, nada como patinar, ir ao cinema e gastar a suada economia da mesada em chicletes de melancia importados.

Aos dezesseis, já tão próxima dos 18, ir ao shopping perdeu a graça – simplesmente porque eu podia fazer isso quando quisesse. Para dar um passo adiante no desafio do divertimento sem fim, o que pegava era sair com os amigos “das dez às quatro”. Sim, porque danceterias e bares “das oito à meia-noite” já eram permitidos, então, perderam a graça. Mas voltar para casa de madrugada... isso sim era diversão!

Quando fiz dezoito... bem, aí eu podia passar quantas horas quisesse montando pinos mágicos; comprar presentes de Natal para mim mesma; sair do supermercado com o carrinho cheio de guloseimas; jogar taco doze horas seguidas; baixar um emulador de Master System no PC e brincar até dizer êpa; entrar e sair do shopping quando eu quisesse e passar a noite fora de casa.

Resultado? Tudo isso perdeu boa parte da graça. Hoje, meu conceito de diversão se espalhou em uma porção de coisas: encontrar os amigos para jogar conversa fora, pegar um cinema vez em quando, brincar com meu afilhado, jantar num restaurante bacana, viajar um pouco e até mesmo trabalhar – só porque amo o que faço.

Mas, se me pilhar sozinha com um pacote de pinos mágicos, não respondo por mim.

pinosmagicos.jpg
Eu chamo isso de diversão
Clara McFly às 11:09 AM

segunda-feira, 18 de julho de 2005

Contrata-se ama-seca

Observo a conta corrente e me sinto picando cebolas: os olhos vertem lágrimas. Não há verba sequer para um novo sapato, quanto mais para pedir aquela ajuda tão necessária, a de uma babá. Claro, minha bebê não dá trabalho e nem precisa de supervisão profissional. Apenas a mamãe aqui pode dar conta das refeições, sonecas, caquinhas, banhos, brincadeiras e que tais. Porém, se em um cenário fantástico eu precisasse de alguém para ajudar, já sei quem contrataria.

Os que responderam “a vovó” acertaram apenas em parte. Não teria coragem de surrupiar minha santa mãe de sua casa para vir aqui, cuidar do nono bebê desta família. Ela já passou por isso vezes demais. Hoje ganhou a carta de alforria e pode gastar o tempo em cursos de cerâmica e teatro ao cair da tarde.

Também não conseguiria contratar aquelas moças de uniforme branco. Elas têm sempre um ar angelical e fala meiga e me parecem muito doces – e olha que passam o dia correndo atrás de petizes nem sempre angelicais, meigos e muito doces. Vejo todas olhando os filhos do outros em corredores de shopping, restaurantes e parquinhos. Fico me perguntando se a mãe do pirralho, a mulher de cabelos alinhados, bolsinha e salto alto, conseguiria cuidar dele sozinha.

É possível que eu esteja sendo radical, uma mãe de 1920. Mas ter babá o tempo inteiro, fins de semana inclusos, parece exagero. Chega um ponto, imagino, que a genitora nem sabe se a criança dorme com chupeta ou dedo na boca. Até que um dia o garoto chora ao ver a mãe e corre para os braços da babá, o carinho mais conhecido. Pavor, pavor!

Mas tem dias em que eu bem poderia entregar Sabrina aos cuidados de uma boa alma dessas. Por algumas horas, quem sabe... Seria bom ir ao cinema sem pressa, participar de uma reunião sem alguém babando no ombro, passar no mercado sem ter uma macaquinha pendurada nos braços...

Como já disse, porém, a conta bancária anda de chorar, então não teremos ajuda tão cedo. Se o mundo da fantasia permitir, contudo, posso escalar um time de babás do barulho. Para esta turma eu entregaria meu bebê por uma tarde por semana. Quer dizer... Primeiro precisam passar pela entrevista de contratação. Porque só um tipo servirá.

Fran Fine
Onde mora: na finada série “The Nanny”
Método: faz de conta que pajeia os filhos enquanto garfa o pai bonitão.
Referências: Poderá distrair o bebê por horas, visto que o guarda-roupa de drag queen costuma chamar atenção da molecada.
Resultado: Dispensada. Não quero minha filha aprendendo a dar golpe em milionário e usando saias que mais parecem cintos.

Daniel Hillard/ Mrs. Doubtfire
Onde mora: no filme “Uma Babá Quase Perfeita”
Método: pai saudoso, finge ser uma senhora gorda para ficar com os rebentos.
Referências: não mede esforços para satisfazer os pequenos – e pode entretê-los comprando comida fora ou colocando fogo nos seios falsos.
Resultado: Dispensada (o). Tem medo que a bebê perceba aquelas pernas peludas por baixo da meia-calça e comece a fazer perguntas estranhas cedo demais.

Charlie Hinton
Onde mora: no filme “A Creche do Papai”
Método: não tem. Organizou um berçário em sua própria casa depois de perder o emprego.
Referências: veste-se de cenoura ou brócolis para que as crianças aprendam sobre boa alimentação.
Resultado: Dispensado. Se Eddie Murphy decide voltar a ser o policial Jarrel, de “O Rapto do Menino Dourado”, vou encontrar Sabrina no Nepal, levitando folhinhas.

Frau Maria
Onde mora: no filme “A Noviça Rebelde”
Método: cantar. Canta ao ficar triste, canta ao ficar feliz, canta para passar roupa, canta toda a droga do tempo.
Referências: transforma seis crianças chatas, reclamonas e mal-criadas em um coral.
Resultado: Dispensada. É bom que saiba organizar teatro de fantoches e ensinar música, mas chega uma hora que queremos dormir. E ela vai continuar cantando, a mala.

Mary Poppins
Onde mora: local desconhecido. Mas ela chega no horário, com o vento leste.
Método: suspeito. Não explica nada claramente e usa metáforas como “uma colher de açúcar ajuda o remédio a descer de modo delicioso”.
Referências: já foi vista levando petizes para brincar dentro de um desenho e inventando palavras. Alguém sabe o que é “supercalifragilisticoespialidoucious”?
Resultado: Dispensada. Deve consumir substâncias proibidas. E se eu nem tenho grana para contratar babá, que dirá para instalar câmera de vigia.

James Ubriacco
Onde mora: no filme “Olha Quem Está Falando”.
Método: sensacional! Dança, canta, sapateia e permite que a sopa seja cuspida longe, de pura farra.
Referências: já perdeu uma criança aqui e outra ali, mas é um taxista danado de esperto. Ou um babá danado de esperto.
Resultado: Contratado. James tem um estilo todo próprio de cuidar de bebês. E dá asas para a imaginação da neném voar e pensar as coisas mais hilárias. Isso é babá da boa. Do bom.

lookwhostalking.jpg
E James 'Travolta' ainda pode ensinar o twist!


Fla Wonka às 10:34 AM

sábado, 16 de julho de 2005

Doméstica, amiga e confidente

Eu não queria que a minha vida fosse como as vidas em folhetins televisivos. Naquele mundo colorido e irreal, se a pessoa for honesta, sofre como um cão sarnento e só depois de muitos obstáculos consegue finalmente sorrir. Se for desonesta, usufrui de dinheiro, mansões e prazeres, mas morre em uma explosão no último capítulo. Sem mencionar o fato de que, ali, casamento é sempre o fim da história – e não o começo, como deve ser. E todas as fêmeas acabam grávidas, num espantoso surto reprodutivo que ataca mãe, filha, enteada e cadelinha.

Mas existe um único aspecto das novelas que eu invejo mortalmente e queria para mim: as trabalhadoras domésticas. Empregadas da telinha não apenas lavam, passam e cozinham. Aliás, serviços da casa são o que elas menos fazem. Ou você já viu alguma pegar pesado no batente? A vassoura e o desinfetante cedem espaço ao aconselhamento, ao apoio moral, ao esforço de levantar o ânimo da patroa. Principalmente se a patroa for a Vera Fischer.

Bem, eu não tenho peitão turbinado, não sou loura, não pego garotinho e não falo com voz de velha cirrótica como a tal “deusa”. Mesmo assim, adoraria contratar qualquer uma das domésticas que já passaram pelas casas de personagens globais – desde a mais pobrinha até a mais elegante. Afinal, em novela, basta ter um teto para fazer uso de uma ajudante sorridente sempre a postos. Seja um cafofo no núcleo do subúrbio ou um palacete na parte mais chique do Projac.

Se bem que empregadas de gente rica não são tão boazinhas assim. Elas sempre escutam atrás das portas e conspiram na cozinha com demais serviçais. Também é comum terem um caso com o motorista da dona da casa, o que invariavelmente vai acabar em confusão. Como se não bastasse, ainda servem de testemunha de falcatruas no caso do patrão corrupto ir parar no xilindró. Pensando nisso tudo, eu não queria ser grã-fina. O melhor é ser classe média – não tão miserável, mas também não tão esbanjadora. Aí estão as melhores e mais fiéis domésticas.

Porém, doméstica é nomenclatura um tanto equivocada. No máximo, veremos as moças esfregando um paninho “onde o padre passa”, como diria a minha mãe. Aspirar o tapete, arear a panela ou tirar o mofo do rejunte do banheiro, por exemplo, são atividades que não constam na descrição de tal papel. Uma coisa que elas fazem bastante é ir ao mercado. Já reparou? Vira-e-mexe vemos as serelepes chegando da rua com um saco de papel (ainda que estabelecimentos da vida real usem os infames saquinhos plásticos) cheio de verduras, carne, frutas. Mas cozinhar que é bom, não cozinham.

Ah, quem se importa com a falta de comida no almoço se no café da manhã elas adentram o quarto com uma bandeja cheia de guloseimas? Novamente, aqui, se você for a Vera Fischer, vai sair ganhando. Porque, como já disse, a danada tem um olho para escolher empregada que eu nunca vi! Lá está a patroa com seu penhoar de cetim e sua maquiagem pesada, a sofrer por um novo amor não correspondido. Nisso, chega a fiel escudeira com o pequeno agrado, o coloca delicadamente sobre os joelhos da senhora e senta-se na cama pronta para ouvir lamentações.

No mundo de carne-e-osso, ai da pobrezinha que relasse o traseiro no lençol da dona da casa. Outro detalhe da realidade: a empregada jamais ficaria calada para servir de ombro amigo. Aposto que ela já soltaria uma fofoca bem cabeluda do bairro, ou pediria para a patroa para sair mais cedo pois haveria, justo naquela tarde, um show do Daniel. Mas não na novela! Naquele espaço, há uma aura de cumplicidade que ultrapassa qualquer capricho, qualquer fofoca, qualquer apresentação de cantor brega.

Enquanto no nosso cotidiano domésticas querem é ver a patroa acordar com a boca cheia de formiga – algumas com razão, outras nem tanto –, no folhetim a alegria de sua empregadora já vale qualquer sacrifício. São mais compreensíveis do que monjas budistas: se o dinheiro está curto naquele mês, dizem “tudo bem, no próximo você me paga!”. Não vão à delegacia fazer B.O., não colocam sal no açucareiro e não oferecem seus serviços para a vizinha. Elas sabem que fazem parte da família e que, no último capítulo, vão comemorar a morte do vilão e chorar no casamento da dona da casa (ao qual foram convidadas de honra).

Vida de empregada de novela é boa. Mas a vida de quem tem uma empregada de novela, ah, é melhor ainda.

empregada.jpg
Só faltava serem robóticas

Vivi Griswold às 10:59 AM

sexta-feira, 15 de julho de 2005

Digam o que quiserem

Gente com imaginação demais e tempo de sobra talvez compartilhe comigo dessa estranha mania: às vezes, fico matutando sobre como seria se grandes acontecimentos históricos saíssem errado. Ou, vá lá, sequer acontecessem. A História como a conhecemos, é claro, não existiria. E grandes frases ligadas a ela teriam de dar lugar a declarações menos inspiradoras.

Na verdade, tenho certeza de que não sou a única a pensar nessas coisas. Os figurões da História também cogitam a possibilidade do erro. Richard Nixon, por exemplo. Presidente dos Estados Unidos quando da chegada de Armstrong à Lua, ele tinha um discurso pronto para o caso de, er... precisarmos de outro Armstrong.

Mas, se a Águia não pousasse, o que será que Neil ia dizer? “É um pequeno passo para um homem, mas um gigantesco salto para a Humanidade” por certo iria para o vinagre. Teria de ser algo mais na linha “er... valeu a tentativa, gente”. Afinal, é difícil ter a mesma eloqüência quando se fracassa.

Se bem que uma trupe não exatamente bem-sucedida também cunhou uma expressão famosa na mesma história, a das viagens espaciais. A Apolo 13 devia repetir o feito da 11, mas o funcionamento da nave não estava lá muito bem azeitado. Então, ao avisar para o pessoal em terra que eles estavam com o maior abacaxi nas mãos, surgiu a popular “Houston, we have a problem!”.

Mesmo assim, até hoje, há quem diga que a jornada humana ao romântico satélite não passou de um belo de um embuste. Meu vô era um deles. “Bá! É tudo combinado, tonta”, ele falava para a minha mãe. Se o velhinho estava certo e tudo não foi além de uma encenação no deserto de Nevada, a frase poderia ser “Houston, we have a... dog! O bicho tá correndo solto aqui no set, dá para mandar alguém recolher esse maldito vira-lata antes que ele estrague tudo?”.

Como Nixon, outro homem precavido era o general Dwight Eisenhower, responsável pelas tropas estadunidenses na Segunda Grande Guerra. Ele também tinha debaixo do quepe umas palavrinhas a dizer se o planejadíssimo desembarque na Normandia não saísse lá essas coisas. Fico imaginando que palavras cairiam bem nessa situação.

“Bom, nós tentamos. Obrigado por tudo, desculpem qualquer coisa. Agora, corram, que o hômi do bigodinho tá uma arara!”

Não sei se Eike diria exatamente isso, mas decerto seria algo do tipo. O discurso poderia não incluir palavras tão inspiradoras quanto “coragem”, “pátria” ou “liberdade”, mas passaria o recado. Afinal, Patton tinha razão: não se ganha uma guerra morrendo pela sua pátria, mas fazendo o inimigo morrer por ela. Esperto, esse cara.

Cá em terras brasileiras, uma das declarações mais famosas é a de D. Pedro I no Dia do Fico. O príncipe decidiu curtir por mais um tempo as belezas tropicais e deixar para o pai a missão de resolver os pepinos que pipocavam lá na Europa. Na ocasião, proferiu a famosa: “Se é para o bem de todos e para a felicidade geral da Nação, diga ao povo que fico”.

Particularmente, acho que era mais para o bem dele, mas... enfim. E se Pedro decidisse se mandar? Como ia encarar a comissão que foi encontrá-lo, munida de um abaixo-assinado em que milhares pediam a permanência do herdeiro por aqui?

”Olha, gente, eu agradeço muito o carinho e tudo, mas é que eu estou com uns projetos aí, e nem vai dar, viu. Eu venho nas férias, pode ser?”

Duro mesmo não seria ouvir essa do príncipe. Pior seria arrumar um nome para o 9 de janeiro de 1822 passar à História. Dia do Fujo? Dia do Tô-Com-Uns-Projetos-Aí? Dia do Nem Me Viu? Pensando melhor, ainda bem que nada é como eu imagino.

pedro1.jpg
Diga ao povo que... fui!


Dedicado ao Douglas, que me dá essa e outras idéias

Clara McFly às 10:45 AM

quinta-feira, 14 de julho de 2005

Brega in Rio

O Brasil vai parar por três dias! Milhões de megawats de potência serão ouvidos por todas as partes do país em uma celebração máxima da música popular. O maior festival já visto em nossas terras está prestes a começar – e você não pode ficar fora dessa! Esqueça as famosas bandas estrangeiras que necessitam de 250 toalhas de rosto no camarim... Nesta orgia de sons e luzes, ninguém vai ficar parado, pois o melhor da MPB está para chegar!

Essa seria a minha chamada para um grande show organizado na Praça da Apoteose, Rio de Janeiro. Quando o primeiro “Rock in Rio” foi montado, eu era uma pré-adolescente sem licença sequer para andar de bicicleta na avenida – que dirá viajar até outro estado e ouvir música. Fiquei muito triste naquele 1985. Perdi a apresentação de B-52’s, Blitz e do Queen! Ok, eu nem dava bola para o Freddy Mercury, mas queria estar presente na farra com patrocínio da Malt 90.

Hoje, porém, os megashows instalados a cada década no Brasil não são lá grande coisa. Haja vista que, na última edição do “Rock in Rio” em terras nacionais, marcaram presença em palco a loira Britney Spears, Carlinhos Brown e Sandy & Junior. Não era rock, era só Rio. E nem isso sobrou na quarta versão do evento – montada lá em Lisboa com a presença de roqueiros como... Ivete Sangalo. Devia ter se chamado “Rock in Rio (Tejo)”.

Se armássemos um bom show hoje em dia, eu votaria por esquecer os medalhões e resgatar boas músicas. Canções há muito esquecidas no armário da memória e interpretadas por gente que já figurou na parada do finado Globo de Ouro. Não teria coisa melhor. Esqueceríamos de posar de globalizados, sacudindo a cabeça com roqueiros estrangeiros em fim de carreira. O negócio seria apenas entoar músicas em coro. Quiçá acendendo o isqueiro de vez em quando, para dar clima.

Minha idéia de festival é meio cafona mesmo. Mas duvido que alguém conseguiria não cantar junto com os artistas, de mãozinhas para o alto e olhos semi-cerrados. Em três dias de show, reuniríamos... uns mil neguinhos. E poderíamos alugar o teatro aqui do bairro, muito mais barato que qualquer passarela do samba. E cobrar 7 mangos de entrada, já que o cachê da turma é modesto.

Quem quiser informações sobre o “Brega in Rio” já pode ir anotando ao menos a programação:

Primeiro Dia
Abertura: 14 Bis
Beto Guedes
Kleitor e Kledir
Guilherme Arantes

A noite inicial do evento traz um apanhado de moços chegados no violão. Imaginem o palco todo escuro e os primeiros acordes de “Todo Azul do Mar” (“Foi assim/ Como ver o maaaar/ A primeira vez que meus oooolhos/ Se viram no seu olhar”). Então tudo se ilumina e podemos ver o 14 Bis arrasando com sua canção mais famosa. Depois poderiam cantar “Espanhola”, aquela delícia, e terminar com “Bola de Meia, Bola de Gude”, agitadinha. Quando os rapazes deixassem o local, entraríamos com Betão e o “Sal da Terra”, com a dupla K&K vibrando um “deu pra ti, baixo astral, vou pra Porto Alegre, tchau” e “Maria Fumaça”. Para finalizar, Guilherme Arantes nos faria cantar a plenos pulmões assim: “Eu que tinha tudo hoje estou mudo, estou mudado/ À meia-noite, à meia-luz, pensando/ Daria tudo por um modo de esquecer”. Eu iria para casa feliz e enxugando o rosto de emoção.


Segundo Dia
Abertura: Sidney Magal
Zizi Possi
Fábio Jr.
Roupa Nova

Abrir a segunda noite seria o trabalho do mestre Sidão. Sonho com a platéia, toda trajada com camisetas “MAGAL É REI”, balançando braços ao som de “O Meu Sangue Ferve por Você”, “Sandra Rosa Madalena” e, mais do que tudo, “Se Te Agarro com Outro Te Mato”. Para não dizer que a casa viria abaixo com a canção-tema da novela “Rainha da Sucata”. Para baixar a fervura, entraria a doce voz de Zizi cantando “Per Amore” e, depois, aquela gostosa “Perigo é ter você perto dos olhos, mas longe do coração/ Perigo é ver você assim sorrindo, isso é muita tentação”. Em seguida, Izildinha receberia Fábio Jr. no palco para cantarem juntos “Almas Gêmeas” e “20 e Poucos Anos” – a parceria renderia casais se atracando entre o público, eu creio. Para fechar a noite de gala, o Roupa Nova nos brindaria com uma seleção arrasadora: “Dona”, “Linda” (para acompanhar com isqueiro aceso, não esqueçam) e “Whisky a Go-Go”. De tanto sacudir o esqueleto, todos iriam para casa descalços e com a camiseta amarrada na testa, certeza!


Terceiro Dia
Abertura: Gang 90
Pepeu Gomes e Baby Consuelo
(que só será convidada com este nome, e não Baby do Brasil)
Ritchie
Rádio Táxi

Isso sim é noite de rock’n’roll! Começamos com a Gang 90 botando para quebrar com “Perdidos na Selva” – aquela preciosidade que diz “eu e minha gata rolando na relva/ Rolava de tudo/ Covil de piratas pirados/ Perdidos na selva”. Depois Baby e Pepeu mandariam ver “Menino do Rio”, “Masculino e Feminino”. Na interpretação final, junto com as filhas, a família cantaria feliz “a flor do desejo e do maracujá/ Eu também quero beijar”. Então teríamos uma seqüência premiada com Ritchie, a menina veneno e “A Vida Tem Dessas Coisas” (eu gritaria “bis!” ao final de “sei que isso não tem importância, pra você não faz sentido/ Mas a noite aumenta a distância/ Me perdi no seu caminho/ me encontrei falando sozinho/ Sigo sempre sem destino pra te encontrar”). O fechamento do evento bombástico ficaria a cargo de Rádio Táxi e sua Pequena Eva. “Um Amor de Verão” pode ser tocada, mas precisamos terminar com “o nosso amor na última astronave... Eva!/ Além do infinito em vou voar/ Sozinho com você...”. Lindo.

O festival não tem data para acontecer, infelizmente. Então talvez continuemos amargando Britneys e afins por algum tempo. Paciência. Um dia o “Brega in Rio” sai.

Fla Wonka às 11:02 AM

quarta-feira, 13 de julho de 2005

Abra as pernas e feche os olhos

Chegou o dia tão temido. Dia da consulta semestral ao ginecologista. No meu caso, bianual. Sim, é horrível uma garota consciente e limpinha adiar por tanto tempo um check-up nas partes pudicas. Pensando bem, talvez seja menos horrível do que ter alguém estranho mexendo em suas partes pudicas. Dizem que o topo da lista das especialidades médicas mais temidas do mundo é dentista. Pois eu prefiro qualquer anestesia na gengiva a um par de mãos enluvadas... lá.

O terror dos odontofóbicos é, por certo, a broca fazendo aquele zuiiiiiiiiim na boca, barulho possível de ser sentido até no âmago. Já o terror das ginecofóbicas (será que o termo existe?), como eu, é ficar sem calcinha deitada no leito que mais parece aparelho de tortura medieval, com uma perna para cada lado. Tudo escancarado, sem qualquer possibilidade de defesa. Levantar e sair correndo da cadeira do dentista é moleza. Agora experimente tentar livrar-se de supetão da cadeira do ginecologista: você corre o risco de se espatifar no assoalho. Pelada.

A dureza é que a gente nunca se acostuma com a idéia. Cada ida ao consultório parece a primeira vez. Manja modelo que posa nua e diz “No começo eu fiquei tímida, mas todos da equipe foram tão delicados que depois rolou numa boa”? Então. Tire a parte do “depois rolou numa boa” – não rola numa boa não. Só quando você finalmente alcança a rua (embora o medo de estar com cara de quem acabou de sair do ginecologista persista até em casa). E tire também a parte do dinheiro entrando na conta e da fama de gostosa. Ficamos, portanto, só com o caroço.

Lembro-me de ler na “Capricho”, quando eu era uma teen assinante da revista, algumas dicas para enfrentar aquela meia hora que nunca passa. Uma delas era ter em mente o fato de que, para o ginecologista, o procedimento era café-com-leite. Ele já viu milhares de xoxotas na frente, de todas as cores, aromas, idades e credos. Tão lógico! Só que essa mentalização cai por terra a partir do momento em que é a sua xoxota em jogo. E que você não teve milhares de pessoas de branco com a fuça nela.

O tormento já começa na sala de espera. Um punhado de mulheres tenta aparentar calma folheando revistas como uma “Cláudia” de 1997. Para não fazer papel de histérica, você faz o mesmo e alcança uma “Caras” com a Carla Perez antes da plástica estampada na capa. O negócio é transpirar tranqüilidade. Fazer de conta que está interessadíssima na receita da torta feita com talos de vegetais. E tentar não dar um pulo assustado quando ouve o seu nome sendo chamado lá de dentro da salinha.

Eis que você é então recebida por um médico ou uma médica sorridente. Costumo pensar o que é melhor: homem ou mulher ginecologista. Tem gente que acha que os homens são mais cuidadosos. E também correm um risco (baixo, é verdade) de se parecerem com o George Clooney em “E.R.”. O que facilitaria muito, cá entre nós. Outras, porém, não se sentem bem ao lado de um homem, e acreditam que só as médicas podem compreender os mistérios femininos. Eu ainda não cheguei a conclusão alguma. Para mim, no fundo, tanto faz – desde que o martírio acabe logo.

Primeiro você senta na cadeira normal e responde a um questionário deveras estranho. Perguntas como “Com que idade você perdeu a virgindade?”, “Qual foi a última vez que você fez sexo?”, “Você sente prazer?” e “Quantos parceiros você teve nos últimos cinco anos?” são indagados pelo doutor como se versassem sobre um tema inofensivo, tipo seu sabor de sorvete favorito ou quantas vezes você já deixou queimar o arroz no almoço de domingo. Passado esse primeiro obstáculo, você é gentilmente conduzida a um biombo para arrancar os trajes.

Daí eu pergunto: qual é a função específica do biombo? Diacho, você vai sair de lá como veio ao mundo (um pouco mais encorpada e com um pouco mais de pêlos, obviamente) e vai deitar mui abertamente na maldita cadeira-dos-infernos! O biombo é para a gente sentir mais privacidade, é? Sei. Eu voto pela extinção do biombo e pela aquisição de uma taça de vinho, uma música ambiente e um incenso cheiroso. Pô, cadê o romantismo? Eu é que não vou sair tirando a roupa sem preparação não!

Mas no consultório ginecológico não há clima algum. É um ambiente seco e profissional. Então você afasta a idéia do vinho enquanto tenta escalar o leito-tortura agarrando-se ao resto de dignidade que lhe resta após deixar o biombo. “Pode chegar um pouco mais pra cá?”, diz o doutor. Você respira fundo e faz o que ele manda. Aliás, você tocaria bandolim com os pés se isso fosse contribuir para o desenrolar da consulta. Contudo, o divertido pensamento sobre o bandolim some quando sente um cutucão lá embaixo.

Droga, começou! O lance agora é fechar os olhos e buscar concentração para pensar sobre coisas relaxantes: uma cachoeira, um imenso campo verdejante, um gatinho ronronando, uma borboleta serelepe a voar... Qualquer coisa que afaste a dura realidade: há alguém com o qual você não tem intimidade alguma vasculhando o que há de mais íntimo no seu corpo. Definitivamente, ser uma garota não é nada fácil.

Ainda bem que é só a cada seis meses. Ou dois anos, se o trauma persistir até lá.

Vivi Griswold às 10:34 AM

terça-feira, 12 de julho de 2005

Sabe o Português?

A gente chupa manga, mas também pode cortar as mangas da camisa. Isso não significa, de maneira alguma, que mangas nasçam em camisetas. Mangas frutas, digo. Alvejar também pode ser de dois jeitos: significa ou que atiramos em alguém ou que jogamos cloro ou outro produto similar num paninho qualquer. Ou seja, alvejar vem de tornar alvo, seja lá um tecido ou um infeliz andando pela rua. Isso porque alvo, por sua vez, pode ser equivalente a mira, objetivo de um projétil ou a branco, claro.

Como se não bastasse, ainda temperamos doces e bebidinhas com canela. Mas não a da perna, por certo. Nem pense em cortar fora aquela parte afinada, entre os joelhos e o tornozelo, para botar no vinho quente. Ao ler que tal empresa tem sede à rua X, tampouco me vá imaginar que a firma está precisada de um copo d’água enquanto se encontra no dito passeio público. E se digo que cedo trabalho, fica a seu critério entender se pretendo passar minhas tarefas a alguém ou começo a labutar nas primeiras horas da manhã.

Outras vezes, uma letrinha muda tudo. Mas só na pronúncia é impossível sacá-la. Eu posso acender a luz ou ascender à luz. Promover um concerto de flauta doce (não ria, é o único instrumento que sei tocar) ou... promover um conserto – nesse caso, em tudo que é tranqueira quebrada lá em casa. Perder o censo, se não estiver em casa quando o moço passar. Ou perder o senso e sair correndo pelada pela rua.

Isso sem falar em X – não a rua citada à guisa de exemplo ali em cima, mas a letra e sua gama infindável de sons. Na Caminho Suave, a lição do X (acertadamente a final da cartilha) tinha uma história que incluía um táxi, um vidro de xarope e alguns exames. Acho que o texto era sobre alguém que adoecia... A palavra texto, aliás, não constava da epopéia. Mas já serviu para exemplificar mais um dos fonemas do X. Não me espanta ser esta a letra mais associada a incógnitas. Depois, temos coragem de achar o Chinês ou o Alemão complicados!

E não é só. Ainda temos muitos modos. Mas não só modos de boa educação, daqueles que sua mãe aconselha a mostrar às visitas; e sim modos verbais. Dispomos de três, cada qual subdividido em tempos: indicativo, subjuntivo e imperativo – o menos usado e mais legal. Ou você não acharia o máximo dizer “faze tu!” quando seu irmão pede alguma coisa?

Mas vamos nos ater ao indicativo, que exprime algo certo. Nele, conjugamos em seis tempos: presente (ok), pretérito imperfeito (que não trata necessariamente de um passado maculado), pretérito perfeito (tampouco se refere a uma biografia certinha), pretérito mais-que-perfeito (mania de grandeza!), futuro do presente (eu pensava “mas, afinal, isso é futuro ou presente?”) e, pasme, futuro do pretérito (que embananou de vez minha cabeça ginasial).

Portanto, irmão em língua, conjuguemos. Eu conjugo, tu conjugas, ele conjuga. Nós conjugamos, vós conjugais, eles conjugam. Fácil, pois trata-se de um verbo regular de primeira conjugação. É só trocar por qualquer outra ação terminada em –ar e copiar os finais: eu copio, tu copias, ele copia. Nós copiamos, vós copiais, eles copiam.

A não ser que o verbo em questão seja irregular. Alguns nem chegam a mudar tanto, mas outros só podem estar de sacanagem. Como o verbo ir. Tão pequeno e tão feroz, o danado é uma anomalia. Literalmente: ir é um verbo anômalo, ou seja, tem mais de um radical quando conjugado. Vejamos, em rápido passeio pelos tempos: eu vou, eu ia, eu fui, eu fora, eu irei, eu iria. Que você. Se eu fosse. Quando eu for. Não vás. Ou , você é quem sabe! Já podia ter ido. Eu tô indo. E pensar que chegamos à escola já intuindo boa parte disso.

Por isso que eu digo: Português é para os fortes.

Clara McFly às 10:40 AM

segunda-feira, 11 de julho de 2005

Adictos

Vício é que nem bunda: todo mundo tem, mas acha melhor esconder – e não é bonito ficar falando do formato alheio. Sim, porque ninguém, ninguém em todo o mundo, está livre dos vícios. Todas as pessoas que conheço possuem sua versão. Uns conseguem pegar leve, outros são maníacos que chegam a dar medo. Eu não gosto de ficar falando dos vícios alheios, sabe... Mas que todos guardam um quê de obsessão no fundo do armário, lá isso guardam.

Posso exemplificar com facilidade, mas os nomes e graus de parentesco serão suprimidos e/ou modificados para evitar embaraço. Afinal de contas, não quero virar a vizinha Mirtes e ficar por aí dizendo que “o filho da Eneida tá cheirando maconha, ó que descarado!”. Deus me livre fofocar esse tanto e contar em público os podres dos conhecidos. O assunto morre aqui, hein? Você tem que ser um túmulo! Mas, se alguém perguntar, não fui eu quem contou.

Acontece que os vícios não giram apenas em torno de químicas, álcoois, fumos. Eles existem em várias formas, que é para abranger o maior número possível de doidos. E abrange até quem a gente não imagina.

Um senhor muito chegado a mim, ultimamente, se apaixonou por aquelas máquinas caça-níqueis de padaria. Quem diria? Homem correto, sério, até meio bravo. Anda sempre na estica, faz questão de parecer e se portar como um lorde inglês. Passa seus dias, contudo, enchendo maquininhas de moedas de modo enlouquecido. Ele garante que não está perdendo o dinheiro da aposentadoria – e que, há um mês, levou a bolada de R$ 400. Se não perdeu R$ 1.500 nisso, até foi bom negócio.

Já a mãe de um amigo é doida por bingo. Isso mesmo, bingo. Aquele jogo que antigamente reunia velhotas, cartelas e feijões hoje ganhou, por aqui, estilão Las Vegas. As casas do gênero compraram todo o estoque mundial de néon roxo e tapete vermelho e, após fazer a decoração discutível, passaram a render. Render bancarota e CPIs, claro. Se bem que a supracitada mulher jura pelos filhotes: a irmã da vizinha de sua cunhada ganhou 15 mil pilas no bingo! Suspeito.

Uma garotinha que conheço deixa de comer comida séria para esmerilhar um chocolate. Todo almoço é a mesma história: coloca meia colher de arroz no prato, pincela duas gotas de feijão, finge comer a carne e abocanha duas rodelas de tomate-cereja. Depois, despede-se com jeito furtivo e vai, de fininho, assaltar o armário da cozinha em busca de cacau do bom.

É magrela feito o mapa do Chile, a pequena. Por isso ninguém dá muita bola para o vício no doce. Feia mesmo está a situação de uma outra moça, conhecida de longa data.

Fundamentalista culinária, ela não admite o uso de enlatados. Nem de caixinhas. Nem produtos light. Nem nada que não seja fresco como o orvalho da manhã. Basta ver alguém usando margarina para fazer bolo, tem chilique. Seu negócio é uma boa de uma manteiga. Então descobriu ser portadora de intolerância à lactose. Ó que mundo cruel?! Pois o vício já estava instalado e, agora, ela levanta de noite para comer pão francês com manteiga salgadinha escondido de todos. Espero não ter que visitá-la na clínica de reabilitação de manteigólatras logo mais.

Mas nem só de comida e jogo vivem os adictos. A tecnologia, ao que parece, anda fazendo muitas vítimas. O cunhado de uma amiga (não é o meu não, juro) troca de celular de seis em seis meses. Primeiro queria o que tocava musiquinha. Depois, o que tirava fotos. Mais tarde, o que tocava musiquinha enquanto tirava fotos. E agora possui um que, se não me engano, toca musiquinha, tira fotos, passa fax, faz escova progressiva e conta glóbulos brancos no sangue.

Ficou dominado, o sujeito. Não admite perder sequer uma novidade de mercado. É como o garoto que compra DVDs compulsivamente. Estava tudo perfeito enquanto ele adquiria clássicos, comédias oitentistas e grandes épicos. Duro foi notar o investimento em coisas como “Rocky 5”, “Nell” e, pasmem, “As Aventuras de Alceu e Dentinho”. “Mas o Robert De Niro faz parte do elenco!”, ele justificava. Nem a família do De Niro cairia nessa conversa de viciado.

Soube, recentemente, que uma antiga colega de trabalho estava precisando se explicar ao gerente do banco por conta dos dinheiros negativos na conta. Muitos e muitos dinheiros, parece. Ela tentava amolecer o coração do burocrata dizendo que necessitou pagar a operação de hérnia da mãe. A não ser que hérnia agora se chame “C&A” e mãe também seja conhecida como “Renner”, mentiu feio, a moça.

Compradora compulsiva de roupas, ela conseguiu se safar do prejuízo. Pagou o vicio em deliciosas 36 vezes com juros e aprendeu a lição. Mas já fiquei sabendo sobre a nova obsessão da cidadã: um negocinho chamado MSN.

A garota fez centenas de amigos virtuais – porque os reais deram no pé durante a fase “preciso ter todas as roupas do planeta”, com medo de precisarem emprestar dinheiro. Agora, “conhece” gente da Mongólia, Alemanha, Turks e Caicos e até de Shangri-la. Liga o comunicador ao adentrar o escritório, às 9h00, e só se desconecta às 21h00, quando dá bom dia ao parceiro japonês.

Semana passada, ganhou licença de duas semanas do trabalho para cuidar dos nervos. O chefe de RH achou melhor fazer isso depois que a menina ameaçou assassiná-lo e picar seu cérebro em cubinhos caso ele cumprisse a norma da empresa e tirasse o MSN do computador dela... Não digo que os viciados dão medo? E nem é só o filho da Eneida, aquele descarado cheirador de maconha.

Fla Wonka às 10:47 AM

sábado, 9 de julho de 2005

Por onde eu ainda quero andar

Se eu tivesse um globo e colocasse alfinetes coloridos nas partes que já tive o prazer de conhecer, daria para fazer uma graça. Contudo, sei que estaria longe da minha maior ambição na vida: fazer o tal globo ficar como a cabeça do vilão de “Hellraiser”, de tanto alfinete que gostaria de colocar. Viajar é o máximo! Pena que custa caro (ainda mais para nós, pobres assalariados em reais) e depende de muito planejamento e tempo para dispor.

Porém nada é impossível quando a vontade é grande. Sempre dá para juntar uma grana, passar uma conversa no chefe, empacotar a mala e sair por aí. Nem que o “aí” seja o estado vizinho ao seu – qualquer mudança de ares, qualquer paisagem nova e qualquer sotaque diferente já fazem um viajante suspirar. Não há desculpa para não arriscar um passeio por mares (ou terras, rios, matos) nunca dantes navegados.

Conheço gente que gasta dinheiro com sapatos. Outros, queimam tostões com carros. Já eu prefiro estar com a mesma velha bota de sempre e depender diariamente do precário transporte coletivo só para que, com sorte, sobre algum troco que poderá ser transformado em momentos gastos com uma mochila nas costas e um guia turístico nas mãos. É por isso que não quero parar nunca de andar por esse mundão – e prometo a mim mesma conseguir algum dia botar um alfinete em...

1) Edimburgo, Escócia
Já passei perto, mas fiquei devendo uma visita a incrível Edimburgo. A vontade de pisar na cidade só aumenta de pensar que ela ainda conserva aquela atmosfera medieval, um famoso e tradicional castelo e catacumbas escuras, dizem, cheias de fantasmas. Eis aí um prato cheio para quem gosta de histórias verdadeiras e fantásticas. Como eu.

2) Graceland, Estados Unidos
Ok. Eu sei que é brega, cafona e pegadinha de turista. Mas ah, esta garota aqui adoraria pisar na mansão do Rei do Rock! Andar pelas salas decoradas com aquele gosto duvidoso, ver de perto as roupas cheias de lantejoulas e ainda tirar uma foto ao lado do cadillac pink de Elvis! No final, ainda passo na lojinha e arranjo um par de costeletas falsas.

3) Salar de Uyuni, Bolívia
Um deserto branco feito de sal que se estende até onde a vista alcança. Se o tempo estiver claro, o que é muito comum a 3600 metros de altitude, o chão reflete o azul do céu e parece que você está andando nas nuvens. Em volta, só silêncio. Diz aí: é ou não é um lugar para se conhecer antes de esticar as canelas? Eu não tenho dúvidas.

4) Bangkok, Tailândia
A capital tailandesa mistura arranha céus com 400 templos budistas espalhados em seu território. Entre eles, o Templo do Buda Esmeralda, com a imagem do deus lapidada em jade, e o Templo do Buda Reclinado, que conta com um gigantesco Buda deitado no chão com olhar maroto, contando 5 metros de comprimento por 15 de altura. Ai.

5) São Luís do Maranhão e arredores, Brasil
Já me disseram que eu, por conta da minha ojeriza por calor, vou sofrer no Maranhão. Ainda assim, o lindo estado ao norte do nosso país faz parte da minha lista. Nada de ruim pode acontecer em uma cidadezinha colonial como São Luís... E aposto que a sensação térmica é o que menos sentimos quando vemos algo como os Lençóis Maranhenses.

6) Petra, Jordânia
Quando assisti a “Indiana Jones e a Última Cruzada” fiquei espantada com o local que servia de lar para o Santo Graal: um vale rochoso em forma de meia-lua que abrigava um palácio esculpido na própria pedra. O espanto foi maior ainda quando descobri que o lugar é real e fica na Jordânia. Pronto, foi o suficiente para o faniquito turístico se apoderar.

7) Chichen Itza, México
Vou ser sincera: se fosse falar do México, essa lista teria apenas atrações mexicanas. Sou louca para visitar aquele país que está nos meus planos de férias a cada dia com mais força. Mas me segurei e decidi citar apenas um local entre todos os outros: Cichen Itza, o mais bem preservado complexo maia que foi erguido como um calendário gigante.

8) Cairo, Egito
Um dia vou ver as pirâmides e, nesse dia, é bom eu não estar usando rímel: sei que vou chorar. Não apenas porque sou manteiga derretida mesmo, mas porque estará diante dos meus olhos a única das sete maravilhas do mundo antigo que ainda está de pé. Além disso, ali tem a Esfinge e o Museu Arqueológico, um deleite para qualquer entusiasta.

9) Angkor Wat, Camboja
Ele fica no meio do nada num local úmido e cheio de mosquitos. Para piorar, deve haver alguma mina terrestre esperando para explodir aqui e acolá. Ah, quem se importa? O sítio arqueológico milenar toma três dias do visitante e, dizem, encanta a qualquer um com sua imponência e suas faces de deuses esculpidas nos blocos de pedra por escravos.

10) Taj Mahal, Índia
Outro que vai me arrancar lágrimas. O mausoléu em mármore branco na cidade de Agra é a morada eterna de Mumatz Mahal e do marido, Xá Jahan, que o mandou construir para sua esposa favorita. Há algum tempo, à frente do Taj Mahal, foram encontradas fundações de um outro palácio, em mármore negro. Golpe baixo. Seria muita beleza para uma só Humanidade.


taj_mahal.jpg
A mãe já foi. Falta a filha!



Vivi Griswold às 10:36 AM

sexta-feira, 8 de julho de 2005

Pegue, reze e pague

Recentemente, fui obrigada a empurrar meu carrinho de compras em outra freguesia. Pode parecer uma mudança pequena, mas, acredite-me, não é. Trocar de supermercado resulta numa mão-de-obra tremenda, especialmente se você já está tão habituada a fazer compras no mercado anterior que até cumprimenta o guardinha do estacionamento pelo nome e sabe os horários da troca de turno dos caixas.

Por isso, quando o Pão de Açúcar do Largo de Rudge Ramos fechou as portinholas, fiquei duas semanas me lamentando e sonhando que o danado reabriria. Já imaginava o trabalho que seria me adaptar a novos corredores, descobrir onde afinal fica o papel-toalha e abrir mão de marcas que só se vendiam lá.

Passada a quinzena, a despensa, como eu previa, se esvaziou. Minha última esperança era que, de alguma forma mística, ela parasse com esse comportamento teimoso de se esvair a cada 15 dias. Quando abri o armário e me deparei apenas com temperos – saquinhos de orégano costumam durar anos, já notou? –, respirei fundo e resolvi encarar o inevitável: fazer compras em outro super.

No meio da lista, descobri que não sabia ao certo se me sentava no chão, entre o tomate e o toicinho, e chorava... ou se tinha um ataque de riso. No corredor central do novo mercado eleito para suprir minha casa, eis que surge uma fogueira-santa-do-monte-sinai. Juro. Era uma daquelas lareiras elétricas com um paninho iluminado esvoaçante, sob um monte de bandeirinhas e rodeada de produtos de festa junina. Será um sinal? E, se fosse, queria dizer exatamente o quê? Era para correr daquele mercado ou jamais deixá-lo? Difícil dizer.

Ok. Passei pela fogueira. E logo vi que aquilo não era nada. Refletindo diante da gôndola de latarias (“será que tudo bem comprar uma ervilha chamada Twist? Hum. Pensando bem, é legal comprar uma ervilha chamada Twist!”), ouço uma voz. “Meu Deus, é o Gugu!”, me espantei. “Mas que diacho aquele loiro sem-noção tá fazendo aqui no mercado?”.

Foi só afinar o ouvido para obter a resposta: ele estava anunciando produtos em oferta! Ao mesmo tempo, claro, percebi que não podia ser o Gugu, mas apenas uma criatura de voz e dicção parecidíssimas com as do apresentador mais “valenduuu” do Brasil. Só faltava encompridar as sílabas finais, porque até a estampa do sujeito era similar – cabelinho loiro muito ajeitado, camisa por dentro da calça e gravata, olho claro.

Pronto. O Gugu cover anuncia produtos no meu supermercado. E a narrativa é demais: “que frio, não? Que tal, então, levar para casa um danette fondue? Já vem pronto, é só esquentar em banho-maria. E sai por apenas sete e noventa e nove, aqui na seção de danones. Corre que tá acabando! Depois, aproveita e pega uma caixinha de morango na seção de hortifruti, por apenas dois e quarenta e nove! Olha aí, que delícia: fondue de chocolate com morango!”

Só me faltava essa. Agora o Gugu me faz sugestões de menu ou sobremesa para o jantar. E não é tudo. Quando ele para de falar, sobe o som ambiente da loja. Ou melhor, os três, dependendo do corredor em que você está. É que tem a rádio local (inclusive com horóscopo) por todo o super; o forró, executado na parte de festa junina e, por fim, o show do Bruno e Marrone em looping, na seção de DVDs, bem perto da feira.

Já tentou escolher maçãs com o insistente refrão de “Dormi na Praça” martelando na orelha? Foi difícil. Tanto quanto, minutos mais tarde, topar com um palmito da marca Doidão. Olhei para os lados. Peguei o vidro, incrédula: “palmito Doidão?”. Era isso mesmo. Tava lá, no rótulo. Ganhou da ervilha Twist. Só podia ser nesse mercado...

Depois de tudo isso, me diga, caro leitor ou estimada leitora: onde raios eu vim parar?! Devo me resignar, gargalhar com tais peculiaridades e continuar neste mercado muito louco da pesada – junto ao Gugu, à fogueira-santa e ao palmito Doidão – ou encomendo um despacho forte em frente à casa do sêo Abílio para fazer o Pão de Açúcar daqui reabrir?

Clara McFly às 10:48 AM

quinta-feira, 7 de julho de 2005

Síndrome de Cinderela

Era uma árdua tarefa separar as minhas mãos roliças de cinco anos do livro de fábulas. Encadernado em um grande calhamaço de desenhos bonitos e texto cativante, a obra ficava no armário da sala – e recebia minha visita semanal. Passava os olhos por Branca de Neve e seus amiguinhos de estatura reduzida, por Bela Adormecida e a roca, pelo Lobo, o Prático e aqueles dois outros porcos idiotas. A predileta, porém, era Cinderela. Li essa história tantas e tantas vezes que o roteiro deve ter entranhado nos meus genes.

Daquele tempo, quando aprendi a ler, até hoje somam-se 25 anos de paixão pela historinha conturbada da Cindy. Com aqueles cabelos dourados e ondulados e o corpinho mignon – pelo menos era o que informava a ilustração do meu livro – ela bem podia ser modelo e capa de revista. Mas caiu nas mãos da malvada, a pobre.

Pobre mesmo, porque teve toda a fortuna do pai surrupiada pela segunda mulher dele. E pensa que a maquiavélica apenas embolsou o espólio e se mandou fazer compras na Daslu? Que nada! Ficou lá no castelo, obrigando a Cinderela a ser sua empregada. Tadinha... Ainda bem que fadas-madrinhas têm um possante radar para encontrar moçoilas desfavorecidas. E que os príncipes sempre curtem uma serviçal bem-apanhada e de pés miúdos.

Não que eu tenha uma mãe postiça perversa até os ossos ou costume fazer amizade com ratos, mas me vejo muito como a Cin-Cin. Ou minha vida é muito parecida com a dela ou... ando precisando consultar um doutor de doidos.

Mas sou mesmo como a Cinderela, juro! Isso porque...

... gosto de fazer um drama
A garota podia dar um pé no balde de sabão e arremessar a escova na cachola da madrasta. Mas não. Ficava ali, passivamente varrendo e cozinhando e se ralando toda. Ainda acho que a Cinderela não fugia, simplesmente, porque gostava de se fazer de vítima. Aposto que ela também entoava canções tristes enquanto contava os calos e chorava. Sei disso porque uma drama queen reconhece outra.

... deixo muita gente folgar
Minha irmã é linda e gentil e não se chama Griselda ou Anastácia. Mas mesmo não tendo dividido quarto com duas morféticas fingidas feiosas e azedas, eu assumo: permito que folguem um bom tanto comigo. Muitas vezes faço o que não quero só para não entrar em briga ou criar clima ruim. Preciso dar um jeito nisso antes de ser mandada a dar milho aos patos ou limpar chaminé. Credo.

... acredito em príncipes
Sempre acreditei. Exceto pelos quesitos “cavalo branco” e “roupinha afeminada”, eu soube desde cedo que eles existiam. Alguns se mostraram sapos depois de um tempo, é verdade. Esperar pelo intrépido rapaz, porém, vale a pena. Ainda que ele use tênis, camiseta, óculos e não seja exatamente filho de um rei. Ou prefira ver jogo de futebol a declamar poemas para sua amada. É a vida (real).

... sou perita em perder os sapatos
Se meus calçados fossem de cristal, talvez ficasse mais fácil localizá-los na casa. Cinderela perdeu o dela em uma desabalada carreira depois da meia-noite. Os meus somem em qualquer horário, se escondendo atrás das portas ou debaixo do sofá. Quando estou atrasada, já fico imaginando que as roupas virarão trapos e o carro se transformará em abóbora antes que eu consiga encontrar os pisantes.

... sou chegada numa limpeza pesada
Quer dizer que apenas uma mocinha conseguia dar conta de todo o serviço do castelo? A não ser que Cindy conhecesse o poderio do Omo Dupla Ação e a eficácia do Veja Desengordurante, acho difícil acreditar que ela, sozinha, limpava aquela mansão inteira. Mas temos algo em comum: dê uma flanela, balde, rodo e artigos de limpeza para essa nobre pessoa aqui e você não há de se decepcionar. Eu e Cinderela podíamos abrir a “Limpa-Limo Serviços Domésticos Ltda.”. O slogan da firma seria “Sumimos com a sujeira como que por encanto!”.

... me faço de princesa
Esta deve ser a característica que mais me aproxima da gata-borralheira. Aconteça o que acontecer... Lá no fundo, sempre vou achar que sou uma doce princesa prestes a receber a justiça mágica que merece. Mesmo que hoje eu lave um monte de louça, troque pneu do carro, grite palavrões ou use mais botinas do que salto alto, quero acreditar ser uma princesinha doce, sonhadora e recatada. E, 25 anos depois, ainda muito crente dos contos de fada.

cinderela.jpg
Esta será a Cinderela correndo de encontro ao príncipe
ou eu, atrasada para ir ao supermercado?

Fla Wonka às 10:42 AM

quarta-feira, 6 de julho de 2005

Bye bye, Ofélia!

Foi-se o tempo da Ofélia, aquela senhora gorducha que fazia pratos bonitos na televisão. O cabelo modelado com laquê, a manicure perfeita, o avental sem respingos de massa de bolo já eram. Ficou para trás o modo de ensinar receitas sem sujar as mãos e mandando a pobre ajudante fazer todo o trabalho melequento. São passado os ingredientes complexos, as tortas confeitadas e os preparativos que duram dias. E isso não tem nada a ver ao fato de Ofélia já ter falecido há anos – essa revolução nos programas culinários, na verdade, se deve a um inglesinho chamado Jamie Oliver.

Você já deve tê-lo visto na tela da TV por assinatura ou na capa de seu livro recém-lançado no Brasil (e que está vendendo que nem pão quente): trata-se de um jovem rapaz, de cabelo espetado, cara de integrante de boy-band e que cozinha em ambientes longe de serem claros e imaculados vestindo camisetas de banda. Nada de chapéu de chef ou aventais impecáveis. Aliás, a palavra “impecável” não se encontra no vocabulário de Jamie: a culinária que ele se propõe a ensinar é aquela com sabor e visual, porém sem frescuras e floreios. Parece lógico, não?

Com o pai dono de pub no interior da Inglaterra, Jamie Oliver ficou encantado pela cozinha desde criança, mesmo com seus coleguinhas tirando sarro e dizendo que aquilo era coisa de menina. Tanto foi que, aos 16 anos, ele resolveu dar adeus à escola tradicional e se pôs em uma aventura gastronômica na França. Quando retornou ao seu país, ele conseguiu emprego em um restaurante italiano renomado – o que era incrível para um garoto ainda na adolescência. E foi por causa de um documentário na cozinha de outro restaurante em que trabalhou que os holofotes descobriram o talento do rapaz.

Por Jamie ser o macote loirinho da turma, os produtores acharam engraçado o empurrar para frente das câmeras. O que não esperavam era que ele se desse bem. Tão bem que, no dia seguinte do programa ir ao ar, cinco diferentes produções ligaram para o jovem querendo conversar sobre uma possível atração só dele. Assim começou a série “The Naked Chef”, termo que não significa que Jamie ensinava os pratos pelado, mas que sua cozinha era desnuda de qualquer ostentação.

A cada episódio, o mocinho ensina uma entrada, um prato principal e uma sobremesa. Normalmente, ele aparece cozinhando para eventos de amigos e familiares – desde o batizado do sobrinho até um jantar para colegas que estão de saco cheio de comer sanduíche todos os dias. Jamie prega que o mais importante na confecção dos pratos são os ingredientes frescos. Nos armários, apenas os utensílios básicos como uma boa panela (“boa” equivale a “pesada”), frigideira funda, pilão e colher de pau. O resto é improviso.

Eu, telespectadora e fã assumida, tenho absoluta certeza de que Jamie não cozinha com receita decorada na cabeça. Em seu programa, não há aqueles famigerados potinhos com a medida certa de cada componente. Se vai azeite, por exemplo, lá vem o serelepe chef com a garrafa e começa a botar o óleo amarelado sem dizer “três colheres de sopa bem cheias”. Ele vai botando até parar. Daí muda de idéia e põe mais um pouco. É tudo de olho mesmo. E aí está o motivo de seus seguidores se identificarem tanto.

Meu episódio favorito foi o que ele derrubou um dos maiores mitos modernos e provou que comida pronta e congelada (daquelas que a gente compra em supermercado e tem gosto de plástico) não é mais rápida e mais prática do que uma comida caseira. Fez um lindo e apetitoso macarrão com molho de tomates cerejas e ervas, acompanhado por salmão grelhado, em 10 minutos – 15 a menos do que o pacote da lasanha pregava ser o tempo para assá-la.

Como se a louvável missão de abrir os nossos olhos para uma cozinha divertida e saborosa já não garantisse a ele um terreno generoso no céu, Jamie também dedica seu tempo a projetos assistenciais. Em um deles, o jovem acolhe 15 pessoas, entre desempregados e sem-teto, e lhes ensina sua arte para que consigam bons empregos. Ele já está em sua terceira turma. Além disso, encabeça um movimento na Inglaterra chamado “Feed Me Better” (“Alimente-me Melhor”), para que as escolas dêem lanches saudáveis aos alunos, ao invés de batata frita com ketchup.

Não que batata frita com ketchup seja ruim. Mas eu trocaria fácil essa iguaria por qualquer outro prato feito por Jamie.

jamie.jpg
Go, baby, go!

Vivi Griswold às 10:28 AM

terça-feira, 5 de julho de 2005

O captain! My captain!

Em 27 anos de vida, passei 18 circulando por corredores escolares, da pré-escola à universidade. É bem mais que a metade do que já vivi. Nesse tempo todo, tive a companhia das mais sensacionais figuras – algumas como colegas, que viraram amigos ainda presentes; outras, como mestres. Com tanta rodagem, não é de se espantar que a gente conheça professores a rodo no caminho. E, sendo tamanha a oferta, alguns inesquecíveis vêm no pacote.

Gente a quem eu respondia “presente” na chamada e de quem eu me escondia quando estava devendo trabalhos. Gente que adentrava a sala de aula enlouquecida, depois de ter encarado punhados de adolescentes chatolas no período anterior, e ainda assim tentava fazer com que aderisse à nossa cabeça algo inextricável (como, por exemplo, logaritmos). Gente que me fez pensar diferente e, naturalmente, me deu algo do que sou hoje.

Sou grata a todos eles, da paciente tia Helena (que me acolheu na EMEI José de Alencar quando eu tinha cinco verões e me agüentou chorando por semanas, de saudades da minha mãe) ao Jorge Carvalho (que fumava feito um camelo e me deixou de exame em Política quase todo semestre na faculdade de Jornalismo).

Mas há alguns dos quais é particularmente impossível esquecer. Para esses eu subiria na carteira, arrancaria algumas páginas do livro e recitaria os versos emprestados de “Leaves of Grass”, obra de Walt Whitman que ficou pop ao aparecer em “Sociedade dos Poetas Mortos”.

No ginásio e colégio, tive muitos bons professores – como o Chiquinho, de Geografia, com sua retórica peculiaríssima e seu claro amor pela política; o Leonardo, de Física, gentilmente apelidado de Harry devido ao tamanho de seu pé (lembra do Pé Grande de “Um Hóspede do Barulho”?) e a Sônia, de Literatura, que me fez ler “A Missa do Galo” com 13 anos e boiar total, só para depois me levar a entender que se tratava de um jogo de sedução. O legal é que ela teve a delicadeza de me deixar compreender sozinha, de modo a não roubar o sabor da minha epifania literária.

No entanto, é de um jovem professor do ginásio e colégio que mais recordo. O Marcelo estudava Direito quando entrou na minha sala de 6a série pela primeira vez, com a missão de nos ensinar História. Ele parecia um gato aos olhos pré-adolescentes da minha e das outras classes ginasiais. As meninas da 8a, sempre mais sabidas e experientes, desenhavam esboços do Super-Homem, recortavam fora a cabeça e ficavam mirando o bonitão pelo buraco.

Fora isso, o novo mestre tinha uma visão bem diferente a respeito de sua disciplina. Mostrava como a História não é, de modo algum, uma desinteressante e empoeirada seqüência de fatos, datas e nomes. Mal usava o livro herdado da quadradíssima professora anterior. Promovia debates na classe. Falava com calorosa convicção, absoluta clareza e indiscutível amor sobre temas como a queda do Império Romano ou a chegada da corte portuguesa ao Brasil. E tinha uma letra hor-ro-ro-sa. Devo a ele boa parte da minha visão política de hoje e o desenvolvimento da habilidade em interpretar garranchos.

Ele é um grande e inesquecível capitão, mas divide espaço no panteão com a tia Valéria e a tia Marilda. Esta última foi a responsável por liderar a fila da 1a série “C”. Lembro-me com clareza das suas mãos secas pelo pó do giz e de sua presença marcante e determinada. Devo a ela meu domínio em separação de sílabas e algo da acentuação. Além da sensação de segurança para enfrentar o desconhecido mundo do primário.

Já a tia Valéria era a professora mais bacana da escola. Ela andava de moto e tinha o cabelo bem curtinho. Cantava “Material Girl” da Madonna quando chegava a hora de guardar o material e ensinava Comunicação e Expressão e Estudos Sociais na 4a série. Bem-humorada, me dava folhas de papel almaço em vez da miserenta folha de linguagem para fazer as composições. Já tinha sacado que eu gostava mesmo era de escrever. Graças a ela, sei de cor as preposições até hoje. Quer ver? A-ante-até-após, com-contra, de-desde, em-entre, para-per-perante-por, sem-sob-sobre.

Uma pena ter perdido contato com todos eles. Mas pelo menos ainda vejo com freqüência minha primeira professora. Além de ter me alfabetizado, talvez motivada por se ver livre da interminável sabatina diária do “o-que-está-escrito-aqui-e-ali-e-acolá?”, ela ainda me ensinou a ter senso de humor e imaginação: na hora de preparar o jantar, botava uma cadeira à beira da pia para eu subir, passava a me chamar de “assistente” e cozinhava como se estivesse num programa de televisão – “igual ao da Ofélia”, dizia. A tal professora devo essa e muitas outras. Valeu, mãe!

Clara McFly às 10:23 AM

segunda-feira, 4 de julho de 2005

Duro de seguir

Virar adicta, para mim, é fácil. Ei, mas não de substâncias ilícitas, claro... Vicio mesmo é em programas de TV. Segunda-feira largo tudo para ver “Lost”; às terças me apego em “The Amazing Race” e “O Desafiante”; quarta não sossego até saber quem foi demitido por Donald Trump; quinta grudo na tela por “Desperate Housewives” e, mais tarde, pelo australiano “Entre Quatro Paredes”; nos demais dias da semana, eu descanso, pois nem sempre se pode ser deus. Mesmo assim, existem seriados impossíveis de engolir. Até para esta lata de lixo televisivo aqui.

Já fui de acompanhar “Três é Demais” – aquela série onde nasceram as irmãs Olsen – escondida das demais pessoas da casa. Isso porque não há forma mais fácil de destruir uma reputação. Se me pegam vendo “Gilmore Girls”, “Dawson’s Creek” ou a reprise de “Miami Vice”, mudo rápido de canal ou finjo estar zapeando. Ninguém precisar ser conhecida como “aquela que torce para a Joey ficar com o Pacey”.

Curioso é que algumas iguarias criadas para a telinha simplesmente não descem por essa garganta. E eu pensava que, depois de seguir duas temporadas de “Charmed”, poderia suportar de tudo.

Estou para entender como alguém tolera estes dez seriados bestas, sórdidos, xaropetas, chatos, feios e bobos.

Everwood
No começo, achei que se tratava de uma história sobre almas penadas – já que toda a família vive com cara de defunto. O menino adolescente consegue ter 18 crises existenciais por episódio. Tenho ganas de mergulhar aquele moleque no melado, rolá-lo no milho e dar aos pombos.

8 Simple Rules
Segundo o script do seriado, o excelente comediante John Ritter deveria ser um pai cioso de suas filhas, mas muito engraçado e sarrista. Ele era, até falecer no ano passado. Cancelar o show? Que nada, meteram mais dois personagens e seguiram em frente. Ficou embaraçoso.

Frasier
Se o programa chamasse “Niles” e desse ênfase ao irmão do protagonista, eu poderia até gostar. Já com Kelsey Grammer, o filhote-de-George-Bush, encabeçando o elenco, assistir à serie é quase como tomar um porre de tequila, dançar rumba a noite toda e dormir com a boca na sarjeta.

O Quinteto
Originalmente, chamava-se “Party of Five”. Até hoje não sei onde era a tal “festa”, porque os cinco irmãos órfãos tinham a animação de agentes funerários. O mais velho era gatão, mas ficava impossível prestar atenção nisso com a Neve Campbell choramingando ao lado dele. E a coisa ainda gerou um spin-off com a Jennifer Love-Hewitt! Desliguem meus aparelhos, sim?

The Shield
Quem for ao cinema por esses dias há de encontrar com o herói desta série, Michael Chiklis, interpretando a Coisa em “Quarteto Fantástico”. Bom, “A Coisa” também seria um bom nome para o seriado, sobre um policial corrupto e safadão. Com esse enredo, não dá no mesmo assistir “Cidade Alerta”?

Buffy, a Caça-Vampiros
Os fãs de Sarah Michelle Gellar podem atirar suas latinhas agora. Mesmo virando alvo, não posso deixar de dizer: enquanto essa besteira esteve no ar, eu torci loucamente para algum senhor das trevas picar a insuportável Buffy em cubinhos e guardá-la no freezer junto com o espinafre.

Early Edition
O perfeito exemplo de um bom argumento transformado em péssimo seriado. O sujeito encontra todos os dias, em sua porta, um gato sentadinho sobre um jornal mágico com as notícias do dia de amanhã. De posse dos fatos, ele salva pessoas e faz justiça. Mas é chaaaaato... O gato podia fazer caquinha em cima do periódico e nos poupar daquele marasmo.

Joan of Arcadia
Uma garota que fala com deus e, em meio às transformações da adolescência, precisa lidar com seus pedidos e ensinamentos. Criatividade, nota 10! Drama, nota 136! Se fosse um pouquinho mais engraçada e um tanto menos apocalíptica, seria um achado.

O Toque de um Anjo
A parceira de site Clarissa é fã confessa. Como eu gosto muito da minha amiga, tento ser compreensiva e entender por que, raios múltiplos, ela acha graça em um show onde todo mundo fala por metáforas sussurrantes como “na vida nós temos que provar o gosto amargo que fica depois do mel”. Ah, vai se catar, parece o Mestre dos Magos depois de entornar oito pingas!

Sex and The City
Agora eu sei que nove em cada dez meninas enquadradas na faixa etária dos 18 aos 30 anos vão querer espetar minha cabeça no alto de um poste. Mas eu juro que tentei, de coração aberto, assistir a esta premiadíssima série. Só o que vi, porém, foi um retrato malacabado e estereotipado de mulheres americanas desnorteadas. Loucas por atenção, sexo e sapatos, elas falam demais e usam bolo de chocolate como se fosse heroína! Fiquei com medo de entrar em depressão pós-série. Deste vício, eu não preciso.

Nota: O argumento “você não gosta porque não viu muito” não cola. Assisti a alguns episódios de todas essas séries. Mesmo que, para isso, tenha precisado de caixas de lenços de papel, doses de uísque, durex para as pálpebras e várias ligações para o CVV.

sex_and_the_city_cast.jpg
ZZzzz... Elas já pararam de tagarelar?
Não? Ok... ZZzzz

Fla Wonka às 10:33 AM

sábado, 2 de julho de 2005

Do subúrbio à passarela

Interrompemos a programação normal do Garotas que Dizem Ni para a cobertura dos desfiles da São Paulo Fashion Week. Porém, na semana que passou o trio de autoras estava ocupadíssimo pedindo coquetéis coloridos em um bangalô nas Bahamas e a produção do site foi obrigada a escalar uma repórter especial para o evento. É com você, Mirtes!

... E então eu falei pra Janete, “Janete minha filha, cê tem que pegar um fiapo de lã vermelha e colar com cuspe na testa do Armandinho! É tiro-e-queda contra soluço!”. Hein? Tá no ar? Ai, Jesus! Irene, depois eu te ligo pra gente prosear mais, agora tenho que trabalhar! (Som de pigarro).

Bom dia, colegas! E não é que me arrumaram a missão de contar como se sucedeu a tal da Féxion Uíque? O telefone tocou e eu pensei “Quem será uma hora dessas?”. Era de um site me convidando para falar sobre moda. Pensei “Vixe, vai me atrasar a vida! Vou ter que botar o feijão de molho antes de sair de casa e avisar a faxineira para recolher a gaiola do periquito!”, mas não pude negar. As mocinhas pediram com tanta educação...

Eu entendo dessas coisas de moda. Vivo falando pro Válti parar de usar as camisetas de político, porque sei que isso não é muito bonito, né? Já eu, até que me visto bem. Conheço uma loja aqui no bairro que vende uns conjuntos de viscose em conta. Na loja vizinha, o sêo Geraldo também vende umas alpargatas confortáveis, boas mesmo pra bater perna, sabe? E para a reportagem de hoje, dei uma ajeitada na permanente, peguei a bolsa de lacre de latinha que aprendi a fazer lá na Ana Maria e fui.

Eita lugar danado de longe! Peguei quatro conduções e ainda tive que andar um teco. Quando finalmente cheguei, gritei “Minha Santa Isildinha!”. Aquele Féxion Uíque enche as vistas, viu. Até parece que tem mais gente ali do que na missa do Padre Marcelo! Todo mundo aprumado. Se bem que vi uns tipos que sei não... Deviam mexer com tóchico, sabe? Um par de olhos pintado de preto que parecia tudo morto-vivo. Uns cabelos desgrenhados que nem ninho de ratazana. Um moço tava com as calças rasgadas, imagina? Será que brigou com gato brabo, foi? Esse mundo de hoje tá perdido. Ah, seu eu saísse de casa assim com essa idade, meu pai me esquentava o traseiro!

Apertei o passo e segurei a bolsa bem forte quando passei perto de um sujeito com cara de louco. Ele usava óculos escuros dentro ali do lugar, sendo que nem sol batia! Com casaco de couro e botinão. Já viu uma estranheza como essa? Devia estar com os parafusos frouxos. Eu, hein, depois sou roubada e como é que fica para eu voltar para casa? Toca de ligar pro Válti tirar o Passat da garagem e vir me buscar nessa lonjura. Válti é homem bom, mas é preguiçoso que só ele. Quando senta no sofá de courino nem o Papa faz o traste levantar. É mais fácil ele pedir desquite do que ir me socorrer!

A hora do primeiro desfile tava chegando e fui buscar o convite. Precisei mostrar o crachá que as mocinhas do site fizeram, coisa fina. Escrito M-I-R-T-E-S. Elas pediram uma foto e eu mandei a que tirei com o Válti lá na Praia do Gonzaga, em Santos. A paisagem tava tão bonita, mas cortaram só a minha cabeça para colocar no crachá. O convite é um cartãozinho, parece o bilhete único da Marta. Tem até catraca para entrar na sala! Esse povo acha que é chique, mas fica imitando os ônibus...

Sentei no meu lugar e adivinha quem eu vejo do outro lado da passarela? A moça da novela! Justo ela, a malvadona! Como judiava da pobre da mãe! Gritei lá do meu assento “Maria de Fátima, sua lazarenta!”. Bem feito, assim ela aprende. Se não estivesse tão longe, ia lá dar uma bolsada nela. Mais pra frente tava a moça que faz “Esmeralda”. Botei os óculos de grau para ver melhor, mas daí ficou tudo escuro, tocou uma música que quase me estoura os ouvidos e o desfile começou.

Primeiro, entrou uma menina com cara lavada. O cabelo mais liso que osso, parecia que a vaca tinha lambido! E a magreza? Vixe, se batesse um vento encarnado, ela era capaz de sair voando! Coitada, a mãe dela não sabe fazer arroz e feijão com sustança. E pra piorar tava com as partes querendo pular fora do biquíni. Bem, biquíni é modo de dizer, porque aquilo tava mais pra tampa-sexo. Que horror. Se tivessem me falado que seria um desfile de roupas de banho escandalosas, teria preferido ficar em casa treinando minha técnica de biscuit, fazendo meus imãs de geladeira... Muito mais proveitoso!

Daí veio um moço com cara de faminto. Esse povo não come, meu Jesus? Ou então é tóchico demais. Vi dizer que tóchico acaba com o apetite. O Vagner, filho mais velho da Juraci, mexe com essas coisas. O menino tá que é só pele e osso. A Juraci fica falando que é anemia, mas sei... Tá é cheirando maconha por aí. O menino da passarela era igualzinho. E tava de sunga estampada e uma camisa cor-de-rosa por cima. Cristo, a gente vive anos e anos e ainda não viu de tudo nessa vida! Homem usando rosa? Barbaridade!

Ainda bem que o desfile acabou logo. Peço desculpas pras mocinhas do site, mas valha-me Deus, essa coisa não é pra mim não. Peguei a sacola que veio de brinde e tratei logo de sair dali. No meu terceiro ônibus de volta para casa, resolvi abrir a sacola e vi que dentro tinha uma camiseta até que ajeitada. Vou dar pro Válti, quem sabe ele não troca essa por aquelas de político? Assim, pelo menos a tal de Féxion Uíque vai me servir pra alguma coisa! Vixe!

Vivi Griswold às 10:25 AM

sexta-feira, 1 de julho de 2005

Se não fosse, não era

Imagine só se o cultuado Ferris Bueller, em “Curtindo a Vida Adoidado”, não tivesse aquela carinha sapeca de Matthew Broderick. Ou se o confuso e tímido Benjamin Braddock, de “A Primeira Noite de um Homem”, exibisse uma lataria all american guy em vez da aparvalhada fachada de Dustin Hoffman. Pois tudo isso poderia ter acontecido, se Eric Stoltz houvesse faturado o papel central do clássico oitentista ou se Robert Redford não se recusasse a viver o personagem às voltas com a implacável Mrs. Robinson.

Uma vez impressos na telona, os filmes são capazes de associar de tal forma a imagem de um ator à de seu personagem que é impossível imaginar outrem no lugar. A não ser em casos terríveis, como ver Britney Spears na pele de Lucy Wagner em “Amigas para Sempre”. Mas peraí. Esse já é outro caso, o do filme que poderia nem ter existido.

No entanto, quando viramos o outro lado do bordado, pode crer que há um monte de fios soltos. Ao analisar os bastidores das produções, descobrimos que, para certos atores, Murphy vive. Eles recusaram papéis que tornaram seus substitutos famosos – seja nas bilheterias ou na Academia. Por outro lado, pouparam a massa de freqüentadores da saleta escura de vê-los num papel, no mínimo, bizarro. Ou vai dizer que dá para imaginar...

Gene Hackman como Hannibal Lecter?
Não há nada que desabone o intérprete de Lex Luthor, mas depois que Anthony Hopkins salivou daquele jeito por um chianti, como conceber que o papel do psicopata finérrimo de “O Silêncio dos Inocentes” poderia não ter ido parar em suas sábias mãos? Além do mais, duvido que Hackman ficaria tão bem por trás daquela focinheira.

Meg Ryan como Clarice Starling?
Ou a namoradinha da América ia surpreender a todos com sua interpretação ou o sensacional “O Silêncio dos Inocentes” ia ficar uma bela porcaria. Jodie Foster, que ganhou o papel da agente à caça de um maníaco, levou para casa seu segundo tiozinho-dourado-pelado. E a estrela de “Harry e Sally” foi fazer “The Doors”. A vida é mesmo injusta.

Ronald Reagan como Rick Blaine?
Pára o mundo que eu quero descer. Pense no ex-presidente estadunidense dizendo “Mr. Gorbachev, derrube este muro!”. Agora, substitua a frase por “De todos os bares em todas as cidades do mundo, ela tinha de entrar justo no meu?”. Funciona? Ainda bem que alguma boa alma percebeu a tempo que Humphrey Bogart era o cara para “Casablanca”.

Tom Selleck como Indiana Jones?
Analisemos friamente: alguém como o arqueólogo aventureiro e meio sujinho teria tempo de manter aquele bigodón aparado? Acho que não. Então, o Magnum teria de raspar o bigode se quisesse ocupar a posição que acabou ficando com Harrison Ford. Mas temos um problema aí: Selleck não existe sem sua pelagem supra-bucal. Uma pena...

Bette Midler como Oda Mae Brown?
Whoopi Goldberg se destaca em “Ghost” – não só porque faz um papel engraçado em meio ao dramalhão, mas também porque, a certa altura, usa aquele belo conjunto rosa-choque, acompanhado de um chapéu não menos berrante. Bette Midler tem história, mas jamais envergaria aquele modelão feito Whoopi.

Max von Sydow como Bond, James Bond?
Com a perspectiva que o tempo nos dá – e lançando mão do inevitável hábito retratado aqui –, poderíamos definir o caso acima como “depois de jogar xadrez contra a Morte, aquele cara que virou padre e exorcizou a menina (o velhinho, não o novo) quase largou a batina para ser o espião mais famoso do mundo!”. Vida de artista não é o máximo?

Frank Sinatra como Dirty Harry?
O policial duro feito adamantium, centro da série de filmes que começou com “Perseguidor Implacável”, marcou época no cinema e na carreira de Clint Eastwood. Até dá para imaginar Sinatra dizendo (ou, mais ainda, cantando) qualquer coisa – inclusive o famoso bordão “do ya, punk?”. Mas juro que prefiro A Voz cantando “Fly me to the Moon”.

O.J. Simpson como o Exterminador?
Pensando bem, talvez não seja tão difícil assim ver o atleta grandalhão e assassino interpretando um robô grandalhão e... assassino. Parte da experiência O.J. já tem. Só faltava aprender a viajar no tempo. Mas Schwarzzie chegou e estragou tudo... Valia a pena, vá? Desde que, naturalmente, O.J. não herdasse também a sina de virar governador.

Molly Ringwald como Vivian Ward?
Julia Roberts, tadinha, não era ninguém no jet set hollywoodiano. Mas eis que algum produtor/diretor/roteirista achou que ela tinha cara de “da vida” e a escalou para viver a prostituta-cinderela de “Uma Linda Mulher”. A atriz, hoje, está cheia de bala na agulha e grana em caixa. Mas, acima de tudo, deve estar cheia de gratidão por Molly, que recusou o papel.

Sylvester Stallone como Axl Foley?
“Diga a Victor que Ramón, o rapaz com quem ele estava saindo semana passada, está com herpes genital”. O dia em que Sly for capaz de pronunciar esta fala com a mesma desenvoltura – e o mesmo grau de desmunhecamento – mostrados por Eddie Murphy em “Um Tira da Pesada”, podemos voltar a conversar. Mas acho que demora.



sly.jpg
”Diga a ele que Ramón o quê?”


axelfoley.jpg
"Ah, esquece, cara. Xá comigo!"


Clara McFly às 10:41 AM

Envie esta página a um amigo



No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold