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O TRÂNSITO Se lá pelos idos de 1900 um sujeito achasse bola de cristal dando sopa e conseguisse sintonizar a coisa no canal “século 21”, não ia acreditar na aparição. O rapaz observaria chocado que o automóvel, aquela fantástica criação para poucos e ricos, tomou a humanidade de assalto. De meio de transporte, ele passou a circular pelo sangue de alguns. Alguns não: muitos! Milhares! E todos saem na rua ao mesmo tempo, dando vida a uma entidade chamada “O TRÂNSITO”. Assim, em letras garrafais mesmo. Porque O TRÂNSITO é como um ser vivente, um monstro mais poderoso que Frankenstein e mais temido que o Abominável Homem das Neves. Falamos dele como de uma pessoa. O TRÂNSITO! Só falta usar voz gutural e erguer as sobrancelhas ao proferir seu nome maldito: O TRÂÂÂÂNSITO! Cuidado, ele come criancinhas! Tudo bem, ele não come, não. Mas atropela. Atropela petizes, separa família, faz as pessoas perderem empregos e oportunidades românticas. Fomenta crises de stress, provoca tragédias a bala, instaura a inimizade e o pavor onde quer que passe. E olha que ele passa, hoje, por todo canto. Basta sair na rua aqui da frente de casa e dobrar a primeira à direita. Pronto. Eu acho O TRÂNSITO. Ele se estende daqui até onde a gasolina alcança. Está na avenida mais próxima, na Marginal, na outra Marginal, na estrada, na vicinal, no bairro suburbano da minha mãe e, se bobear, na zona rural. Aprendemos a viver assim, travados, esperando a boa-vontade d’O TRÂNSITO. Mas cadê que ele tem boa-vontade? Para marcar compromissos com amigos, é bom combinar um lugar mas, acima de tudo, a hora. Depois que O TRÂNSITO passar, aí sim. Ou antes de começar O TRÂNSITO. É importante saber, porque senão a birita das 19h00 começará, de fato, às 21h30, quando o último conviva conseguir chegar. Ficar parado no congestionamento não é uma variável. É constante. Ele é bom somente para os atrasados, que sempre podem se valer desta desculpa. O despertador tocou, porém o condenado acionou o botão “Dorminhoco”, desligou o bip incômodo, virou para o lado e nanou de novo. Chegou no escritório às 10h30 e perdeu a reunião? “Desculpa, chefe, peguei o MAIOR TRÂNSITO” – sim, porque ele também tem o irmão mais velho, o MAIOR TRÂNSITO. Qual patrão há de desconfiar? Afinal, basta abrir a janela da sala e olhar lá para baixo. Há de ter ao menos uns vinte carros tentando ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Normalmente, eles estarão usando de um poder mágico que O TRÂNSITO inventou: o escândalo com a buzina. Todos podem reconhecer o nosso vilão urbano por essa característica básica. Ao contrário dos bandidos do gibi, ele não usa colan negro, máscara, raios laser ou escudo de força. Ele usa buzina. Loucamente. Não há mais jeito de escapar dessa praga. Para ir ao banco, localizado a 2 km de distância, é necessário sair com uma hora de antecedência. Seria mais rápido fazer o percurso a pé, mas isso não vem ao caso. Quem tem carro quer fazer uso do motor, claro! Então é entrar na cabine e encarar O TRÂNSITO – acelerando a esfusiantes 30 km por hora. E xingar bastante a mãe de quem guia o veículo ao lado é contingência. Culpa d’O TRÂNSITO, que nos oprime e animaliza. O curioso é que... quem faz O TRÂNSITO somos nós! Frankenstein era o nome do doutor, não do monstro! Atrás de cada pára-brisas coberto por aquele infeliz e funesto insulfilm existe um cidadão – eu acho, porque às vezes parece que a máquina é conduzida por controle-remoto. Não devíamos, por isso, ficar com tanto medo dele. Se a entidade nos ameaça, devíamos sair nas ruas com estacas (para cravar nos pneus), foices (para destroçar a lataria) e réstias de alho (para... refogar alguma coisa mais tarde, durante o jantar comemorativo pelo fim do tráfego). O TRÂNSITO não sobreviveria após nosso ataque coordenado! Duro é que, para coordenar o ataque, precisaríamos no encontrar em algum lugar... E vai ter muito trânsito para chegar lá. Seríamos derrotados por W.O.. Esperto, O TRÂNSITO.
Ó deus das pistas de rodagem, tende piedade de nós! Fla Wonka às 10:09 AM
A música mais triste do mundo Naquela época, eu devia contar meus anos usando apenas uma mão. Foi quando ganhei a vitrolinha vermelha e vários vinis da coleção Disquinho – saudosas bolachas coloridas que narravam histórias das mais diversas. Minha favorita era, de longe, “O Patinho Feio”. Rejeição sempre me pareceu o pior sentimento que alguém pode sentir, e o pobre pato (na verdade, um cisne), experimentou a tal em cada peninha cinza de seu corpo franzino. Ele era tão zombado por ser estranho e diferente de seus irmãos que decide partir do terreiro. Então o Disquinho tocava uma música mais ou menos assim: “Vou me embora pra bem longe/ Esta é a triste verdade/ Talvez eu sozinho encontre/ A paz e a felicidade”. Mesmo sendo a qüinquagésima audição do mesmo raio de história, a emoção batia e eu chorava feito... hã... criança. Para mim, aquela era a música mais triste do mundo. Depois, com um pouquinho mais de idade, fui presenteada com o disco “Arca de Noé”, uma jóia composta apenas por poemas de Vinícius de Moraes musicados por artistas da MPB. Entre a maluca “A Casa”, a engraçada “A Foca” e a alegre “O Gato” estavam duas canções de cortar a alma. Em “A Corujinha”, Elis Regina cantava baixinho “Todo mundo que te vê/ Diz assim, ah, coitadinha/ Que feinha que é você”. Já em “São Francisco”, Ney Matogrosso narrava a história do santo que ia pelo caminho “de pé descalço, tão pobrezinho”. Pensava que essas sim eram músicas tristes. Hoje, acho “O Caderno”, do Toquinho, uma crueldade. A saga da brochura que acompanha a menina “do primeiro rabisco até o beabá” e que, no final da letra, pede a ela para que mesmo depois de crescida não o esqueça em um canto qualquer, me arranca lágrimas. Seria essa a mais triste? Talvez no quesito infantil. Porque para os crescidos, “Eu Te Amo”, do Chico Buarque, é pior: com um caso de amor rompido, o cara se pergunta como conseguirá seguir em frente “se na desordem do armário embutido” o paletó dele enlaça o vestido dela e os sapatos ainda pisam um no outro. Lindo e terrivelmente triste. Outro coração partido que Chico compôs foi em “Atrás da Porta”. Ali, a mulher está tão desesperada que diz “Dei pra maldizer o nosso lar/ Pra sujar teu nome, te humilhar/ E me vingar a qualquer preço/ Te adorando pelo avesso/ Pra mostrar que ainda sou tua”. Cruel? Sem dúvida! Mas o que é um ex-amor perto da morte de alguém que é carne da sua carne? Em “Pedaço de Mim”, o compositor escreve que “Saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”. Isso sim é triste que dói, hein? Já o Rei Roberto Carlos, na bela “Sentado à Beira do Caminho”, canta o verso “Vem a chuva molha o meu rosto e então eu choro tanto/ Minhas lágrimas e os pingos dessa chuva se confundem com meu pranto”. Pô, não agüento homem chorando. Quanto mais dois, como a dupla Tonico e Tinoco em “Chico Mineiro”. Na letra, o caboclo é baleado. “Mataram meu companheiro/ Acabou-se o som da viola/ Acabou-se o Chico Mineiro”. No quesito “sertanejo de raiz”, voto também em “Filho Adotivo”, entoada por Sérgio Reis. É a história de um pai que teve sete rebentos, sendo um adotivo. Todos se criaram, estudaram, casaram e venceram na vida, mas foi só o adotivo que o amparou na velhice. Chuinf. Sem dúvida é mais fácil emocionar-se em português do que em inglês. A criação internacional, porém, já machucou aqueles que entendem pelo menos um pouquinho do idioma estrangeiro. Os versos “But I'd trade all of my tomorrows for one single yesterday/ Holdin' Bobby's body next to mine” (Mas eu trocaria todos os meus amanhãs por um único ontem/ Abraçando o corpo de Bobby junto ao meu), imortalizados por Janis Joplin em “Me and Bobby McGee”, são emocionantes. Assim como “Eleanor Rigby died in the church/ And was buried along with her name/ Nobody came” (Eleanor Rigby morreu na igreja/ E foi enterrada com seu nome/ Ninguém compareceu). Morrer e ser enterrada sem ter ninguém por perto é triste demais. Ponto para os Beatles. Perito em letras melancólicas e perturbadas é o meu amado Morrissey, aquele que já escreveu que “Todo dia é como domingo/ Todo dia é silencioso e cinza” e já me acompanhou nas maiores fossas e crises da minha vida. Sua voz perfeita apresentou versos como “Noite passada eu sonhei que alguém me amava/ Outro alarme falso”. Mas a jóia tem de ser “I Know It’s Over”, na qual sente o solo desabando e pede pela mãe no meio da solidão. Não dá para escolher o verso mais triste. Talvez “And it never really began/ But in my heart it was so real” (“E nunca começou de verdade/ Mas em meu coração era tão real”). Ou “Love is natural and real/ But not for such as you and I, my love” (“O amor é natural e real, mas não para alguém como você e eu, meu amor”). Buááá. Tudo bem: vimos que amores perdidos, corações em frangalhos e partidas de seres amados fazem músicas comoventes. E se juntarmos tudo isso com crueldade animal e a seca do sertão, poderemos finalmente ter a mais triste do mundo, certo? Então “Assum Preto” o é. Luiz Gonzaga bota um nó doído na minha garganta só com a lembrança da canção sobre o passarinho que teve os olhos furados para cantar melhor. “Assum preto verve sorto/ Mas num pode avuá/ Mil vezes a sina de uma gaiola/ Desde que o céu, ai, pudesse oiá”. No final, o cantor se identifica com o sofrimento do bicho dizendo “Assum Preto, o meu cantar/ É tão triste como o teu/ Também roubaro o meu amor/ Que era a luz, ai, dos óios meu”. Pronto. Estou para ouvir tristeza maior. Enquanto isso não acontece, vou ali pegar um lencinho. Vivi Griswold às 10:51 AM
Meu passado me condena “Agenda: caderninho feito para facilitar sua vida que, no entanto, muitas vezes acaba complicando-a”. Claro que essa definição para a palavra acabou de ser inventada por mim, mas, convenhamos, podia mesmo existir para valer. A agenda tem múltiplas funções na vida de uma simples mortal como eu – tudo dependendo da faixa etária e da (in)capacidade de organização da criatura proprietária da brochura. Quando eu tinha aí uns quatro anos, as agendas promocionais que meu pai trazia para casa (aquelas com capa de couro e os dias da semana escritos em várias línguas – graças a elas aprendi que Lunedi é segunda-feira em italiano) serviam pura e simplesmente para as minhas garatujas. Eu também gostava de arrancar aquele triângulo picotado que ficava no cantinho da página, só para ouvir o barulhinho do picote rasgando. Quando ingressei nas fileiras do primário, a agenda ganhou a função de me lembrar das tarefas a fazer. Isso durou até mais ou menos meus 11 anos, quando percebi outra função desse afamado objeto: abrigar minhas confidências. E olha que confidências são o que garotas nessa idade mais têm. Claro que, à luz da passagem do tempo, elas se tornam particularmente ridículas. Lendo minhas agendas antigas hoje, poderia muito bem encontrar registros do tipo “hoje eu espirrei e o Fábio falou ‘saúde’. Ai, ai...”, ao lado de uma penca de coraçõezinhos desenhados em dez cores diferentes. Nesse tempo, a agenda começa mais a atrapalhar do que ajudar se seu irmão a surrupia da sua gaveta. Ou, anos depois, por ter mantido o registro firme, forte e juramentado, durante todo esse tempo, das besteiras que a afligiam. Lê-las uma década mais tarde nos faz querer enfiar a cabeça debaixo da terra, de tanta vergonha. Mesmo quando fazemos isso sozinhas, sem nenhum irmão cretino cantando versinhos idiotas como “Dois namoradinhos, só falta dar beijinhos...”, em voz pastosa e bem pausadamente. No auge da adolescência, minha agenda servia para lembrar os trabalhos escolares – já no colegial – e, aparentemente, para copiar versos soltos de músicas. Outro dia peguei uma e tinha de tudo, de Bob Marley a Radiohead. Acho que uma das características mais intrínsecas a essa fase é o ímpeto de mostrar quem somos. Daí a miscelânea musical: era preciso deixar bem claro que tipo de música eu ouvia. Mas não só o recheio do dito caderno era usado para dizer a que eu vinha (e olha que eu não vinha lááá para muita coisa nessa época). O que pegava era cobrir a capa da agenda com recortes de toda espécie, tirados de revistas que eu lia; no caso, a Bizz, a Set e a... Capricho (não riam, lembrem-se que eu tinha 15 anos). Os ídolos também entravam na colagem, o que era uma boa: todo mundo podia saber, através da minha querida agenda, que eu adorava Red Hot Chili Peppers. O problema, nessa fase, é que não é nada incomum mudar de idéia no segundo semestre. E, depois que a transadíssima colagem era coberta com contact transparente (o que aliás dava um trabalho enorme, com a minha parca coordenação motora), era melhor você a-do-rar Red Hot até o final do ano. (Nesse caso, funcionou: eu gosto até hoje). Caso contrário, sua querida agenda passa a ser razão de constrangimento e tem de ser enfiada lá embaixo dos livros, para cobrir a foto enorme do Milli Vanilli que você colou ao lado de um coração. Mais tarde, liberta dos corredores e das carteiras escolares, minhas agendas passaram a conter frases mais, digamos, adultas, como “passar na lavanderia” e “otorrino às 14:30” (não seria de todo errado substituir “adultas” por “chatolas” na frase anterior). Meu irmão não surrupia mais minha agenda – nem minhas amigas, para devolvê-la com versinhos e mensagens do tipo “te adoro muitão”. Mas ela me ajuda bastante. Comporta idéias de textos surgidas em momentos indevidos, como sentada ao balcão de uma pastelaria ou parada no trânsito. Ajuda esta pobre cabeça atormentada e confusa a não se esquecer da lavanderia e do otorrino. E, acima de tudo, guarda todos os telefones necessários para o bom desenrolar da minha vida, como o da comida chinesa delivery e o do moço da assistência técnica que conserta o aquecedor do chuveiro. Aliás, aí é que mora o problema com minhas agendas atuais. Trocar de agenda no final do ano letivo era praticamente indolor. Havia uma capa limpinha para ser coberta de recortes com suas novas bandas e filmes favoritos e um calhamaço de deliciosas folhas (sempre adorei o cheiro de brochuras novas) esperando pela ponta da sua esferográfica. A parte destinada aos telefones era passada para a nova agenda num tapa; afinal, quem tinha tantos contatos assim aos 17? Porém, com o passar dos anos, a coisa se inverte. A parte mais cheia de minhas agendas atuais é mesmo o índice telefônico. Não tenho mais trabalhos de Gramática ou Química para entregar todo dia, nem preciso mais ler “Iracema” para o fim do semestre. Tampouco fico copiando trechos de músicas nas páginas diárias. Por outro lado, o finalzinho, destinado aos números de telefones, é lotado. E haja disposição caligráfica para passá-lo a limpo... Resultado? Este ano, comprei uma agenda 2005 em maio e ainda não a estreei, por pura preguiça de copiar os telefones. Isso me deixa um tanto aflita, pois o ano já está pelo meio. Estou pensando em arrancar o índice de números e colá-lo na contracapa de minha nova brochura. Talvez fique porco, mas é melhor que manter tudo no celular – e se ver no mato sem cachorro caso seu aparelho seja roubado ou perdido – ou comprar um palmtop – com o dinheiro do brinquedinho, compro toneladas de bala 7Belo ou dezenas de entradas de cinema. Ou, ainda, uma caixa de novas agendas.
Samba do italiano doido Como tanta gente boa, ele nasceu e morreu pobre. Pobre mesmo, de pedir ajuda aos parentes e amigos. O caso é que todo o dinheiro ganho com a música foi diluído nas beberagens do botequim. Pudera: se suas incríveis canções nasceram mesmo foi do bate-papo com amigos, entre uma birita e um torresmo, porque haveria de se afastar deles? Foi em meio às pinguinhas e os sambinhas que viveu o grande Adoniran Barbosa. Como meus avós, ele foi um homem muito simples. Vai ver por isso ficou tão marcado que, nas palavras cantadas de Adoniran, estavam as histórias e a lembranças dos velhinhos da minha família. Desde pequena me acostumei a ficar na roda de conversas deles – que, em geral, versavam sobre bobagens do dia-a-dia e a memória dos tempos antigos. Meu pai dividiu seu quarto de criança com dois irmãos e um primo até casar. Isso porque meu avô, apesar de pedreiro de mão cheia, não tinha tostão no bolso para aumentar sua própria casa. Se há alguém que cantou como nenhum outro essa face dos imigrantes no Brasil, foi o seo Adoniran Barbosa. Daí acontece de ouvir “Saudosa Maloca” e, em instantes, pensar em como devia ser essa história de se ver como estrangeiro neste país novo. A letra, um primor de descrição, conta como se sentiu a gente do cortiço quando a polícia botou abaixo seus barracos. “Cada tauba que caía, doía no coração”. O Matogrosso quis gritar, mas em cima ele falou “os hôme tá com a razão, nóis arranja outro lugar”. Triste e sofrido – mas com aquele toque cômico que só os carmacamos sabem dar. Adorinan, na verdade, se chamava João Rubinato. Mas ele considerava o óbvio: isso não era lá nome para um cantor de samba. Filho de italianos, bem cedo largou a escola e foi trabalhar com tecelagem, de garçom, de balconista. E como gostava de compor suas histórias em forma de música, na década de 30 passou a arriscar a pele nos programas de calouros. Foi desclassificado inúmeras vezes, porque era meio fanho, meio rouco. Mas essa era a graça. E, felizmente, alguém notou rápido. Também era muito divertido o modo dele escrever as letras. Os erros de português propositais fizeram Vinicius de Moraes criticar o malandro Adoniran, mas cadê que ele se importou? Em resposta, o pirracento musicou um poema do adversário e o transformou em valsa. Os vacilos verbais, segundo o próprio, aproximavam a música do povo, que falava errado mesmo. Minha avó, até hoje, ainda diz “parteleira”, poxa. Ela adorava cantar uma modinha em que o sujeito dizia “seu olhar mata mais que atropelamento de artomóvel/ Mata mais que bala de revórver”. Apesar de prezar muito a língua-mãe, me animo à beça de cantarolar algo chamado “Tiro ao Álvaro”! Ainda mais porque as canções de Adoniran Barbosa são o que há de mais inocente. Na obra citada acima, ele diz: “De tanto levar frechada do seu olhar/ Meu peito até parece sabe o que?/ Táuba de tiro ao Álvaro/ Não tem mais onde furar”. As boy bands devia aprender como esse senhor como é que se faz baladinha de amor. É assim também com “Trem das Onze”, famosa por mostrar como se sente o pobre rapaz que precisa deixar a guria para trás porque, proletário que só ele, necessita de apanhar o último transporte público. E ainda conta que a mãe não dorme enquanto ele não chegar. Coisa de filho único mesmo... Filho único de mãe italiana, por sinal. Se Adoniram fosse francês, a mãe ia se lascar sozinha lá no Jaçanã. O público se identificava com ele por isso. Nos anos 50 e 60, quando as músicas foram gravadas, o comportamento familiar de bairro era só o que se conhecia. Globalização, que nada. O negócio era marcar uma roda de samba com os colegas. Menos com o Ernesto – o “Arnesto”, no caso. Porque bem cantou Adoniran: ele convidou pra um programa, mas não estava em casa quando o pessoal chegou. “O Arnesto nos convidou/ Prum samba, ele mora no Brás/ Nóis fumo e num encontremo ninguém/ Nóis vortemo com uma baita de uma reiva/ Da outra vez nóis não vai mais”. Esse era o comecinho do imortal “Samba do Arnesto”. Entendi a mágoa do Adoniran, mas não o que ele diz depois: “nós não semo tatu”? Como assim, homem? Deve ser uma gíria, porém ignoro o sentido. “As Mariposa” sempre me fez rir da burrice dos insetos que se auto-fritam na lâmpada. “Torresmo à Milanesa” é o clássico da marmita – e me dá a maior fome quando o Dito diz “truxe ovo frito”. Mas talvez a melhor letra de Adoniran seja “Iracema”. Inspirada em uma notícia de jornal, ele conta sobre a moça que não olhava para atravessar a rua. Morreu de atropelamento, a desavisada Iracema. Já Adoniran Barbosa faleceu foi no hospital mesmo. Esquecido por todos, inclusive pelos amigos do bar onde ele tinha mesa cativa, no centro de São Paulo. Um fim triste para o cidadão que mais faz lembrar as engraçadas mazelas dos meus parentes e suas malocas. “Dim dim donde nóis passemo dias feliz de nossas vida”.
Era um véio aprumado, hein, Iracema? Fla Wonka às 10:17 AM
Por onde andei Quando eu somava pouca idade, achava simplesmente o máximo uma ida ao sítio do meu avô, em Sorocaba. Costumava também perder o sono às vésperas da visita aos primos que moravam em Piracicaba. E ainda contava os dias, ansiosa, para passar uma temporada praiana na casa da minha avó, em São Vicente. Os trajetos eram curtos e os lugares, conhecidos – mesmo assim, alguma coisa me dizia que viajar podia ser emocionante. Aos 10 anos, fui arrastada pelos meus pais para uma excursão européia em família. Mas a única cena que ficou guardada na memória foi a chegada em Roma: estávamos seguindo para o hotel quando, de repente, o ônibus fez uma curva. Da janela, vi o Coliseu aparecer, igualzinho às fotos dos livros de História. Ali eu senti que viajar não é só emocionante. É preciso. Seja para o interior paulista ou para uma cidade milenar. Deve ter sido naquele momento que o espírito mochileiro se apossou do meu ser. Desde então, tenho caído na estrada sempre que o dinheiro possibilita a empreitada. E nessa deliciosa forma de entrar no vermelho no banco, já vi algumas maravilhas... 1) Cataratas do Iguaçu, Brasil/Argentina 2) Fez, Marrocos 3) Bath, Inglaterra 4) Ouro Preto, Brasil 5) San Pedro do Atacama, Chile 6) Glaciar Perito Moreno, Argentina 7) Pompéia, Itália 8) Machu Picchu, Peru 9) Alhambra, Espanha 10) Luxor, Egito
![]() Esfinge, querida, me aguarde!
Eu me lembro Se você me perguntar o que almocei ontem, talvez eu não seja capaz de lhe dar uma resposta de pronto. Também costumo me esquecer de onde deixei as chaves do carro e de se realmente fechei a janela da cozinha antes de sair. No entanto, misteriosa como ela só, minha memória gravou detalhes e fatos muito – mas muito mesmo – mais antigos do que os ocorridos há poucas horas. O critério desse implacável mecanismo de lembranças eu desconheço. Não sei como a minha caixa de giz de cera dos Barbapapas, objeto de minha alegria e paixão aos quatro anos, ficou aqui, enquanto que o menu do almoço de ontem se foi. Talvez aí esteja uma dica: o valor que se dá às coisas. Eu aposto que ainda terei milhares de almoços com arroz, feijão, bife de panela e salada de alface americana. Já caixas de giz dos Barbapapas... como diria o corvo, nevermore. Federico Fellini, cineasta e malucão, intitulou um de seus filmes de “Amarcord”. Ao que me consta, a palavra significa “eu me recordo” no dialeto italiano que o homem cresceu ouvindo. Pois eu também tenho cá minhas recordações. Amarcord... ... de pensar que o céu estava indo embora ... do gosto de sangue deixado pela queda do dente ... de uma certa blusa de lã colorida ... de um bueiro enorme que tinha na rua do sobrado ... do cheiro da merenda no pré ... de ouvir o “Jornal da Manhã” na Jovem Pan AM ... de pegar onda nas costas do meu pai
Como é bom ser sith Sempre achei muito cômodo ser bandido. Não há regras para eles. É só pisar sobre os livros-guias da boa educação, do decoro e da honestidade e mandar ver para cima dos bonzinhos. Gente ruim pode tudo. Os legais, por sua vez, passam anos comendo grama. No final, costumam se dar bem, enquanto o malvado queima em um poço de piche ou se afoga no ácido. Mas nesta altura da vida começo a achar que é melhor ir ao Lado Negro da Força, porque ser Jedi dá um trabalho louco. O fatídico “Episódio III – A Vingança dos Sith” foi que deu saída na tese. Sempre achei bacana defender a galáxia do Império e quis, ao lado de Luke, Leia e do gatão Han Solo, resgatar a Democracia. Durou cinco filmes. Agora, cansei. Passei a achar que gente boa não está com nada. Bom mesmo é ser sith. Por que? Ora essa. O primeiro motivo, já vemos no modo de se expressar! Aposto que, a essa hora, os jedis estão fazendo alguma palestra sobre a forma politicamente correta de se referir aos inimigos. E, assim como os tradutores brasileiros, passaram a dizer “Lado Sombrio da Força”. Sombrio em vez de Negro. Logo eles deverão trocar por “Lado Afro-Americano da Força”. Mocinhos estorvam com essa mania de serem imaculadamente corretos. Vale a pena sofrer por incontáveis anos até conseguir destruir o bandido e, assim, viver feliz para sempre? Ou melhor é aproveitar do modo vilanesco de ser, se dar bem durante mil sóis e encarar o castigo? Começo a crer na segunda versão... Até porque, matutei muito sobre os pontos abaixo e conclui que ser sith é melhor. Siga-me: Pode casar Pode matar à vontade, como quem troca de cueca Não precisa decidir pela ética nos momentos críticos Pode praguejar Deve esculachar com os figurantes Veste a roupa mais style Fica mais famoso
Anakin é o c*, meu nome agora é Darth Vader, porra! Fla Wonka às 11:30 AM
Linhas finas e letras pequenas Tenho uma pilha de livros interessantes esperando em fila por mim. Mas de uns tempos para cá meus hábitos de leitura mudaram radicalmente: ando correndo tanto que sempre me esqueço de parar um pouco e abrir uma brochura. Quando isso acontece, só consigo ler um par de páginas – mal começo e o sono já bate. Pelo menos um outro hábito de leitura, mais expresso e mais momentâneo, permanece: sim, eu leio rótulos e embalagens! Não apenas porque gosto de conhecer as propriedades daquele produto e qual o melhor modo de usá-lo, mas porque... Bem, porque virou mania e mania nunca possui uma explicação plausível e racional, certo? O fato é que basta cair uma embalagem nova nas minhas mãos que eu a viro e já começo a me entreter naquelas letras minúsculas. Muitos compartilham desta atividade, principalmente pela manhã. São inúmeras as pessoas que, logo cedo, já se atiram na leitura da caixa de Sucrilhos. E como evitar se é tão divertido? Na parte de trás, costuma haver uma atividade com o Tigre Tony que rende alguns minutos de concentração – seja ela um labirinto, um quebra-cabeça ou um jogo dos 7 erros. Nas partes laterais, informações sobre o valor energético do alimento, a quantidade de caloria e outras notas nutricionais nos preparam para um dia cheio. Minha mania pela leitura de rótulos e embalagens com certeza teve início naquela prática matinal, mas hoje já alcança todos os momentos e situações diárias. No banho, por exemplo, é inevitável dar uma espiada no que diz o frasco de xampu, nem que seja pela décima vez. É que eu gosto de relembrar o que o cosmético capilar vai fazer exatamente às minhas madeixas, sabe? Então, enquanto o condicionador faz efeito... Nisso, eu já me deparei com algumas curiosidades. Não pense você, leitor, que não podemos nos divertir com um recipiente de sabonete líquido! O meu, após dizer que “é 90% mais eficaz no combate à proliferação de bactérias que os sabonetes comuns”, cita o modo de usar. Peraí, modo de usar para um sabonete? Pois é! Vem escrito assim: “Espalhe Protex Sabonete Líquido por todo o corpo e rosto, com uma esponja ou com as mãos, até formar uma rica e cremosa espuma. Enxágüe”. Ah, bom! Achei que fosse para passar no pão! Outro dia notei que meus cachos estavam secos e quebradiços. Coisa que só mulher repara. Enfim, comprei um sachê com hidratante “de choque” e, enquanto deixava o produto agir pelos 15 minutos sugeridos na embalagem, ri à beça com os demais escritos. Começava assim: “Seus cabelos são rebeldes, difíceis de alisar? Secos, ásperos, é sempre difícil penteá-los?”. Parece ou não propaganda das Organizações Tabajara? Fora que eu adoro aqueles termos como Hidraloe, Nutrileum e D-Panthenol, os quais nem o farmacêutico deve conseguir explicar. Por falar no técnico responsável, você sabia que se o seu esmalte (ou o da sua namorada) der chabu, a culpa é do Luiz Carlos L. Esteves? É isso que informa o frasco de “Esmalte Colorama Maybelline longa duração, maior resistência e mais brilho”. E, para tirar a cor das unhas, será necessário um removedor que “substitui acetona”, que precisa ser preservado “em local fresco à uma temperatura não superior a 40º C” e cuja venda “é proibida para menores de 18 anos”. Também vem escrito que “a inalação deste pode causar ‘ a morte’”. Apesar de nem todos serem tão alarmantes assim, a grande maioria dos produtos de limpeza, higiene e beleza vem com o aviso “Uso externo. Manter fora do alcance das crianças”. Desculpe, pequenos. Mas vocês precisarão crescer mais um pouquinho para conseguir adentrar nesse mundo curioso da leitura dos rótulos. Enquanto isso, só o Tigre Tony pode entretê-los. Vivi Griswold às 10:01 AM
Serviço de utilidade gúglica Eu sei que já fizemos isso antes – e mais de uma vez. Mas as entradas no Garotas a partir de estranhíssimas buscas no Google (ou em outro mecanismo de pesquisa qualquer) continuam a me surpreender. Receber o clique de um internauta que estava atrás de “colegiais safada” (sic), “BIZARROS E FANTASMAGÓRICOS” (assim mesmo, com as letras grandes) ou “modo de fazer bijoteria” (sic também) é estranho – afinal, como eles vieram parar num site de textos a partir disso? Mas mais esquisitas ainda são as buscas em si. Para ajudar estas pobres almas perdidas no mundo das 8.058.044.651 páginas que o Google jura atingir na web, decidi reunir algumas pérolas e ajudar os intrépidos pesquisadores que as criaram. Assim, tentarei responder às dúvidas e anseios destes cristãos, na esperança de que, da próxima vez que empreenderem tal busca esdrúxula, eles se deparem logo com este texto e a resposta exata (ou quase isso) ao que procuram. como saber se a simpatia da banana funcionará fotos de cantores brasileiros que cantavam em inglês nos anos 70 o que são dígrafos imagens do personagem urubu na new wave Como que as aves envelhecem objetos ingeridos como pegar garotas Tom Cruise em revista pousando peladão Daileon ringtones comado para matar/ filme foto do ricky martin e menudo ![]() Ricky, em primeiro plano, toma sua pepsi junto aos colegas de trabalho Clara McFly às 10:31 AM
Lava a boca com sabão! Quando eu era criança, qualquer brincadeira em grupo só podia resultar em violência. Fosse uma partida de alerta, barra-manteiga ou corre-cotia, tudo sempre acabava em tapas, rasteiras, choro e, óbvio, xingamentos. O palavreado chulo permeou toda a minha infância – afinal eu sou de família italiana e praguejar é nossa atividade predileta depois de comer. Bom, eu sempre fui uma adepta dos palavrões. Com a idade chegando, porém, eles estão ficando mais amenos. Ou não? Ah, estão sim. Porque era muito comum, na meninice, berrar um belo “féladaputa” na cara dos coleguinhas inimigos. Assim, de boca cheia (e suja). Hoje já não tenho a mesma desenvoltura com os palavrões. Fico com vergonha, tenho a impressão de que a língua vai secar e cair por causa da má educação. Coisas que a idade e a consciência trazem. De pequena, isso não existia. Meu grilo falante mental nunca barrou os nomes feios – e lá ia eu disparar um “vá se f*...” por qualquer motivo. Depois de levar um empurrão no jogo de mãe-da-rua, esta gentil princesa aqui não conseguia se parecer menos com um estivador de beira de cais. E ao longe se escutava ecoar um bonito e suave “seu viadinho de merda!”. Perdoe, por favor, o meu francês... Atualmente, percebi ter adaptado os xingamentos podres e vergonhosos por palavras mais, digamos, esculpidas. São horrendas do mesmo jeito, e eu costumo me arrepender de ter dito aquilo em 0,2 segundo. Mas ainda bem que, pelo menos, amenizei os termos. Agora é muito mais comum usar os seguintes. 10. Morfético 9. Quadrúpede 8. Lazarento 7. Paquiderme 6. Safardana 5. Sirigaita 4. Vagabundo 3. Larápio 2. Cagüeta 1. Xarope
Que bela produção! Trata-se, praticamente, de uma entidade. Um grupo de pessoas sem rosto e sem nome definidos, mas com uma lista de utilidades que não possui fim. São “mão para toda obra”, como se diz, e devem trabalhar de sol a sol para conseguir dar conta de tarefas que vão desde arrumar roupa para a tiazinha da Vila Matilde até comprar um buquê de flores do campo para o analista de sistemas perdoar a atendente de telemarketing infiel. Não podem vacilar. Também, com um patrão daquele... Eu sempre imaginei que a Produção do SBT (assim mesmo, com letra maiúscula, pois estamos falando de um patrimônio da televisão brasileira) fosse um bando de Umpa Lumpas – centenas de anões idênticos, usando suspensórios e cabelo verde. Ok, talvez sem o cabelo verde. Todos, é claro, liderados pelo sapientíssimo Roque e conduzidos sob os olhares atentos de seu Silvio Santos. Minha curiosidade nas criaturas é constantemente atiçada. Basta assistir a qualquer programa do Homem do Baú para notar a presença desses trabalhadores braçais ocultos. Afinal, o próprio apresentador faz questão de checar a eficácia de sua equipe no ar a todo o momento. No “Show do Milhão”, por exemplo. Quando ele formulava aquela mini-entrevista com o participante antes de jogar nele dezenas de perguntas inúteis e de respostas engraçadíssimas. Silvio: “Foi a primeira vez que você andou de avião?” Ou seja: a Produção era responsável por arrumar passagens aéreas para o casal e providenciar um hotel decente para os dois ficarem. E ainda era botada na berlinda diversas vezes por noite. Já pensou o que aconteceria se o participante respondesse “Não, seu Síuvo, tua produção cuspiu no meu sapato novo e ainda chamou a minha véia de bruaca”? Iam todos parar no pelourinho do gabinete do chefe. Toda a malemolência, o ziriguidum e o telecoteco da Produção do SBT eram colocados em prova mesmo na atração “Topa Tudo Por Dinheiro”. Ali, precisavam não apenas arranjar ovos cozidos e crus para a prova do “Xampu de Ovo”, ou fazer dobraduras de aviões em notas de 10 reais, ou distribuir pompons coloridos para as 6.927 senhoras presentes no auditório. A missão maior dos trabalhadores era arranjar objetos de cenas inusitados e fantasias para as tiazinhas. Vestir uma “colega” sexagenária de índia Iracema não é nada fácil: mas a Produção conseguia. Também arrumava todos os detalhes daquele quadro em que o pobre marido era chamado ao programa sem saber de nada e ficava tomando chá de cadeira no camarim. Enquanto isso, sua mulher, no palco, precisava dizer para o Silvio se o homem iria ou não olhar dentro da carteira esquecida em cima do sofá. Parece tudo muito difícil e trabalhoso – mas eu tenho a mais absoluta certeza de que a Produção se divertia à beça e que suas missões eram feitas sob o som de gargalhadas. Basta pegarmos o programa “Em Nome do Amor” (ou qualquer uma de suas versões) para vermos que os trabalhadores jamais perdiam o senso de humor. Assim que a convidada ou convidado adentrava o palco em forma de coração, Silvio Santos perguntava “Essa roupa é sua ou foi a produção quem arrumou?”. A moça ou o rapaz respondia, envergonhada(o), que havia sido a Produção. E que maestria para montar figurino! Nas jovens, tratavam de enfiar um tailleur de vilã de novela mexicana, sem mencionar a maquiagem e o penteado que envelheciam as coitadas em uns 15 anos. Nas senhoras, trajes de freqüentar o culto aos domingos – saias batendo no calcanhar e blusas com botões dourados. Nos homens, terno de defunto. De preferência cinza claro, com gravata salmão. É por tudo isso que eu tiro o meu chapéu invisível para os funcionários que compõem a entidade chamada Produção. E quando seu Silvio Santos bater as botas (isola!), eu vou ficar 17 horas na fila do velório na Câmara Municipal não apenas para me despedir do grande brasileiro que ele foi, mas para tentar identificar, entre as expressões chorosas, alguns componentes desse ilustre grupo. Se eles estiverem de peruca verde, ficará bem mais fácil.
Será que a Produção também lustrava o microfone do Silvio? Vivi Griswold às 10:21 AM
O que foi que ele disse? O ano era 1989. Eu contava onze tímidos verões e adentrava a quinta série do Colégio São Bernardo, trajando um uniforme azul e branco com calças de helanca e aquele bolso-saco costurado por dentro do cós. Depois de quatro anos primários assistindo a aulas de Inglês que não passavam de palavras soltas, como pen, pencil e book, finalmente começaríamos a aprender algo decente na disciplina. E, ao mesmo tempo, eu despontava para o fabuloso mundo do rádio – era demais ouvir sua própria música, e não os discos da sua mãe e do seu pai. Pode parecer que as aulas de Inglês não teriam nada a ver com o início da formação de minha personalidade musical, mas não se engane. Esse dois elementos estavam intimamente ligados no caminho de pedras que era conseguir uma música na era pré-internet e antes de você diferenciar push de pull. Tudo começava com a parada de sucessos da rádio. Eu ouvia alguma coisa legal, diferente, interessante e inovadora. (É bom lembrar que, à época, Technotronic já era o suficiente para preencher tais requisitos. Não riam). Isto posto, era necessário ficar de ouvidos colados à caixa para tentar entender o nome da banda ou da música que acabara de ser executada. Era a primeira barreira: os locutores despejavam uma dúzia de palavras em um inglês de sotaque forçado e eu, armada em parva na frente do rádio, tentava anotar alguma coisa: “O que foi que ele disse? Tequinotról? Tequinotrong? Droga”. Aí, toca a esperar a próxima execução da música, desta vez com a fita virgem a postos e o dedo no botão do rec. Depois que a gente finalmente conseguia gravar a danada, desviando dos jingles das estações e dos apresentadores que insistiam em dizer as horas por cima dos últimos acordes, o passo seguinte, claro, era querer cantá-la. Pronto! Vinha novo round de dificuldades. Aí entram as aulas de inglês – ou a falta de domínio do idioma. Se hoje basta pegar poucas palavras do refrão de alguma música e digitá-las no Google para obter o nome da canção, seu intérprete e sua letra – às vezes traduzida –, naqueles duros anos não tínhamos recurso algum. Quer dizer, tínhamos. Mas eles eram um tanto ridículos. Minha primeira tábua de salvação eram os folhetos das escolas de inglês. Eu tinha uma prima estudava em uma delas e trazia aquele monte de papel com letras coloridas, estampados com os versos das canções do momento e suas traduções. Depois dos folhetos de escolas de idiomas, vinham as edições da Bizz Letras Traduzidas. O problema é que, quando você é estudante, não fala inglês e ainda por cima grava músicas da rádio, dá para presumir que seus proventos não são lá muito grandes. E a revista custava umas boas pratas para alguém como eu. A solução era arrumar mais duas ou três amigas interessadas no empolgante mundo das FMs, fazer uma vaquinha para comprar a edição e, depois, dividir as páginas. As letras que não me cabiam na divisão eu copiava num caderno. Mesmo assim, a gente dependia da boa vontade do editor em incluir na revista a letra desejada. A última cartada era o processo chamado de “tirar a letra”. Eu reunia uns amigos que sabiam mais ou menos o idioma anglo-saxão, passava a mão no toca-fitas e lá ia a gente, verso a verso, tentar desbravar o que diabos os cantores estavam dizendo. Para quem ouvia de fora, devia ser um inferno. Os hits do momento (que, convenhamos, já não eram lá essas coisas) ficavam entremeado de “tlecs!” vindos dos botões pause, stop, rew, play... e lá vinha mais um trechinho, seguido de uma acalorada discussão: “Acho que é uátchior finquin”. O pior de tudo é que, muitas vezes, ao me deparar com a letra oficial, eu já tinha lançado mão do embromation – e decorado minha própria versão para “I’ll Be There For You”, do Bon Jovi, por exemplo. Foi duro trocar “fi-fái-fo ái suér tchu iú” por “these five words I swear to you” quando eu ia cantar essa dramática pérola de sêo Jon. Para falar bem a verdade, muitas das músicas que comecei a ouvir nesta época ainda preservam suas versões embromation no meu teimoso cérebro. Ainda bem que, creio eu, nenhuma das letras valeria a pena mesmo saber: era tudo Information Society, Snap, C+C Music Factory, Milli Vanilli e congêneres. É. Pensando bem, acho que escapei de umas boas. Viva o embromation!
* Para o registro: a letra é de “What’s on Your Mind”, do Information Society. Mas na versão da embromation society. Clara McFly às 10:23 AM
Crossover E então ela surgiu na porta, apoiou os dois braços nos batentes e disse para todos ouvirem: “o Bira matou a Yasmin!”. Essa era minha irmã. O ano era 1992. Estava no ar, no horário das 20h00, a novela “De Corpo e Alma”. E quando estas variáveis se unem, eu sei que nada é o que parece. Porque, na minha família, todo mundo tem mania de misturar ficção e realidade – e os nomes dos artistas com seus respectivos personagens. Aposto que muitos de vocês já usaram desta artimanha para se expressar, criando um cruzamento de fatos para chegar à conclusão. Assim: a idéia é comentar algo sobre o Keanu Reeves, mas o nome desgraçado teima em fugir da memória como peixe ensaboado. Então, o jeito é cortar caminho: “Eu vi o filme novo daquele cara, o... aquele que fez... o Neo da Matrix, sabe?”. Lá em casa isso sempre foi costume. Nem há discussão quando a conversa tem início por um “a Heleninha Roitman tá ótima nessa novela nova, né?”. Já sei que não é um remake de “Vale Tudo”. Nem que a mamãe pirou ou entornou mais uísque que a própria filha de Odete. Ela pretende dizer que o atual desempenho da atriz Renata Sorrah está excelente. Quando o nome dos dito cujos desaparece da mente, improviso é o que conta. Também ajuda muito ter um bom banco de dados cine-televisivo na cabeça. Quem vai fazer o Homem-Morcego em “Batman Begins”? O moleque de “O Império do Sol”. Ou o “Psicopata Americano”, você escolhe. Ele se chama Christian Bale, mas quem é capaz de lembrar isso de bate-pronto? Na verdade, peguei a mania familiar para mim por pura vontade de diversão. Minha cachola é até bem azeitada para recordar nomes e trabalhos das celebridades, porém ainda acho muito mais engraçado dizer que a Natasha não fez nada bom depois de “Vamp” (ignorando que a moça tem nome, e é Claudia Ohana). Ou que o Edson Celulari é casado com a “bailarina da coxa grossa” – como bem era conhecida Claudia Raia nos tempos de “Rainha da Sucata”. Até porque, fazer o crossover artista-personagem é muito útil nas conversas com gente como meu namorido. Ele simplesmente desconhece o nome de 80% dos famosos. E com aquele parco poder de marcar fisionomias, também esquece que o Qui-Gon Jinn de “Star Wars” já ajudou a salvar centenas de judeus como Oskar Schindler. Por causa dele, treino constantemente a brincadeira. Quando perguntada sobre a presença de brasileiros no corpo eleitor do Oscar, já digo logo que, pelo que sei, a Tieta vota. Ele sabe, obviamente, que a cabrita-quenga de Santana do Agreste não pode eleger ninguém para a estatueta. Mas, lá no setor de referências do cérebro, saca logo a face de Sônia Braga. E está resolvida a questão. Muito mais simples do que explicar quem a Sônia é aquela do “Beijo da Mulher Aranha”, e não outra. Só espero que ele não misture com a Lili Carabina. Ops, a Betty Faria. Alguns artistas, por sinal, já ganharam há tempos um nome postiço para serem designados. Outro dia, assistindo ao seriado “Lost”, tivemos a impressão de ver um rosto conhecido fazendo ponta. Evidente que nenhum dos espectadores residentes nesta casa diria “veja só se não é o grande Robert Patrick... Que interpretação!”. A reação exata foi dizer “esse cara não é o T-1000?”. Chamar a máquina assassina de “Exterminador do Futuro 2” pelo nome de batismo é impossível. Para mim, ele sempre será o T-1000. Mesmo que interprete Jesus Cristo ou Adolf Hitler. Ou o cara chatola de “Arquivo X”. Bom é saber que muitos conhecem essa modalidade de misturar estações. No ótimo “Meu Tio Matou um Cara”, por exemplo, os meninos conversam sobre um filme que assistiram. E então, para lembrar o tema da produção, assimilam que “era aquele onde o 007 faz um monge”. Tradução: Sean Connery, que um dia já foi James Bond, recria um religioso em... “O Nome da Rosa”! Viu como é fácil? Por isso mesmo é que, quando minha afobada irmã paralisou na porta e proferiu o acontecimento citado no primeiro parágrafo, saquei logo toda a história. Guilherme de Pádua acabava de ser preso por ter assassinado a colega de trabalho Daniela Perez. Eles faziam o casal romântico na novela, mas a tragédia aconteceu entre o ator e a atriz na vida real. Isso, porém, já é um crossover muito do sem graça.
Belo terno, T-1000! Manda um abraço ao Duchovny e outro pra... pra... pra Dana Scully lá Fla Wonka às 10:29 AM
Arraiá de memórias Quando junho chega, meu coraçãozinho já começa a bater forte. Não apenas por ser o mês de meu natalício. Ou por marcar o início dos dias mais amenos, das brisas mais geladas, dos céus mais azuis e das noites mais aconchegantes e românticas. Na verdade, o que me faz amar esta época do ano acima de qualquer outra são as festas juninas e todas as suas cores, sabores, sons e cheiros. Sendo uma garota que odeia Carnaval, não liga para o Natal e nem se abala pelo reveillon, é nesta comemoração popular de meio de ano que eu me esbaldo. E tem sido assim desde criança – é claro que 95% de meus aniversários tiveram o tema caipira, já que a estação pedia. Ao invés de brigadeiros e beijinhos, a mesa tinha pé-de-moleque, cocada e arroz-doce. No lugar dos Ursinhos Carinhosos, lá estava Chico Bento e sua turma. Também estudei em uma escola famosa na cidade por sua grande e tradicional festa junina. A cada ano, me estapeava para poder participar ao máximo do evento. Vendia rifa, fazia bandeirolas, ensaiava a dança e, no grande dia, estava tinindo para gastar a sola do sapato de fivela correndo para lá e para cá (e parando quieta apenas para comer os quitutes da barraca). Era a primeira a chegar e a última a sair. São essas imagens saudosas que me vêm à cabeça quando junho chega. E, com elas, todos os motivos para eu ser uma grande entusiasta das festas do santo chamado João! 1) Quadrilha 2) Toca do coelho 3) Quentão 4) Fogueira 5) Decoração 6) Doces 7) Correio Elegante 8) Cadeia 9) Pescaria 10) Roupa caipira ![]() Vivi - mas pode me chamar de Rosinha, sô!
O caderno secreto Ou: Como juntar diários, vilões do cinema e uma brincadeira numa tacada só Quem nunca teve um diário? Em tempos internéticos a gente até estranha a palavra, usada para designar aqueles velhos cadernos ou agendas onde narrávamos acontecimentos, idéias e filosofias do dia. Hoje, esse conceito atende por weblog. Mas quem tem ao menos a minha idade, 27 verões, decerto já preencheu pilhas e pilhas de páginas com informações relevantíssimas, como “hoje fui à padaria tomar um sorvete” ou “decidi que não vou mais chorar por nenhum garoto”. No entanto, aposto que grandes figurões teriam diários bem mais interessantes... Levando vidas corriqueiras e escrevendo num veículo cuja característica maior é ser corriqueiro (e secreto, lógico, o que, pensando bem, o descaracteriza como “veículo”), acabamos por gastar quilômetros de tinta esferográfica com... besteirinhas. Doces, tristes, boas de se reler e até necessárias – mas besteirinhas. Porém, imagine os registros dos personagens cujas vidas são cheias de intrigas, reviravoltas, assassinatos, traições e degustação de carne humana? E se os grandes vilões do cinema tivessem um diário? Para tornar a brincadeira mais gostosa, seguem trechos que poderiam ter saído dos diários de inesquecíveis figuras maléficas da Sétima Arte, se eles tivessem um. Os excertos estão listados de A a G. Cabe ao leitor associá-los com seus respectivos autores, enumerados lá embaixo de 1 a 7. Eu aposto que você não vai precisar da resposta, mas o gabarito está disponível no Fórum. É só clicar no link ao fim do texto. O jogo já começou!
A - “Querido diário, B - “Mon chère, C - “Caro diário, D - “Oi, bastardo! E - “Olá, Johnny F - “Estimado diário, G - “Alô, caderno!
1. Norman Bates (Anthony Perkins, em “Psicose”) As respostas estão aqui.
Mamãe, tradutora e intérprete Bebês são tão fofos, lindos, cheirosos e macios! Tão doces, tão perfeitos, tão divertidos de se observar por toda a tarde. Olhando para minha filhinha de quatro tenros meses, eu fico pensando... Ô fase maldita deve ser essa de neném! Não se pode fazer nada, nada. Você depende dos outros para comer, beber, vestir, banhar, limpar seu traseiro. É como ser um lutador de sumô, mas sem a glória. E o pior de tudo: nunca se sabe se os demais irão interpretar seus gritinhos com precisão. Como ficamos só eu e Sabrina em casa praticamente todos os dias, conversamos bastante. Quer dizer... Eu falo muito, ela solta lá seu balbuciar engraçadinho. Que está me entendendo, não tenho a mínima dúvida. Se eu entendo o que ela responde? Aí já é coisa mais complexa. Podemos traduzir algumas partes rapidamente. Está deitada no carrinho e começa a chorar? Pode estar com sono. Ou sujou a fralda e cansou de sentar na meleca. Ou prefere brincar em vez de fitar o teto branco. Existem poucas possibilidades para cada ação, então fica até fácil. Mais fácil ainda seria a Sabrina ter poder de comunicação além dos sons guturais e me dizer, com clareza, o que diabos ela quer. Não vai acontecer. Troca de informações com palavras inteiras, só daqui um ano. No momento, eu preciso encarnar uma maga da adivinhação e supor o que fazer – rezando para acertar logo e acabar com o incômodo da garota em dois tempos. E não posso me demorar no socorro, querendo terminar o banho ou um telefonema enquanto a pequena chora. Senão, logo ela se chateia muito e, imagino, começa a dizer para os brinquedos “vai, boneca idiota, deixa de rir pra mim e busca a mamãe!!!”. Sempre se pode exercitar a imaginação assim. Enquanto tento decifrar os choramingos, chamados, sorrisos, esperneios e berros possuídos de Sasá, me pego pensando em que está passando naquela cacholinha miúda. Agora, eu sei o que os bebês querem responder quando dizemos... “Cadê o nenê?” “Onde você vai?” “Tá com soninho?” “Nossa, que fralda suja!” “Você gosta da mamy?” “Onde você escondeu a chupeta?” “Dorme um pouco, vai, Sabrina...” Ei! Quem são vocês? Estão olhando o quê?? Fla Wonka às 10:13 AM
Anel, só se for de papel Segundo o estereótipo do sexo feminino, mulheres costumam ter ataques quando passam em frente a uma joalheria. Algo meio Audrey Hepburn babando na vitrine da Tiffany’s de Nova York e dizendo que ali dentro nada de ruim pode acontecer, pois ela estaria cercada por ouro e diamantes. Moças param para olhar aquele mundaréu de anéis, pulseiras e brincos com preços que mais parecem códigos (de tanto número que tem) – algumas, mais audaciosas ou mais ricas, entram e experimentam todos os brilhos, emocionadas. Engraçado que eu não cultivo essa fissura. Pelo menos, com joalherias. Não apenas porque eu não tenho dinheiro para adquirir peça alguma, mas principalmente porque eu prefiro fuçar no atacadão de bijuteria da 25 de Março, que é mais barato, mais descartável e bem mais divertido. Porém, entendo as mulheres que passam mal em lojas de jóias: pois eu também passo mal. Mas em papelarias! Assim como os olhos das dondocas cobiçam uma pulseira de ouro branco incrustada de ametistas, os meus olhos cobiçam a última novidade em caneta esferográfica. Enquanto elas salivam por um diamante, eu salivo pela variedade de cores de cartolina. Do mesmo modo que o coração delas bate mais forte por um colar que não podem usar na rua, o meu coração bate por um caderno de anotações que eu posso sacar da bolsa quando bem entender. E tem sido assim desde que eu me conheço por gente. Talvez tudo tenha começado com as saudosas listas de material escolar que mamãe recebia a cada começo de ano. Pelo menos quando a gente está nas fases estudantis mais básicas, aquele papel era mais apetitoso do que um catálogo da H. Stern. Tudo bem: significava que as férias estavam acabando e isso nunca é agradável. Mas quem ligava para o lado negativo se o lado positivo era passar na grande papelaria e voltar com sacolas e mais sacolas dos mais coloridos e cheirosos materiais artísticos? Guardo em um cantinho especial da memória aqueles minutos preciosos quando, uma vez em casa, abria tudo e espalhava no chão. Eram aquarelas (daquelas que vinham em paletas de papelão e com um pincel de plástico), massinhas de modelar, tintura a dedo, guache, papel crepom, papel espelho, papel laminado, folhas de almaço, folhas de papel cartão, borracha nova (sempre gostei das brancas com capinha verde), canetinhas, giz de cera e, claro, as amadas caixas de lápis de cor. Parecia que eu tinha encontrado o pote de ouro no final do arco-íris. Quando recebi a minha primeira mesada – já não me lembro do valor ou da moeda vigente na época –, fui correndo para a papelaria. Para minha delícia e desespero, havia uma na rua de casa. Pior: a moça ainda botava a compra “na pendura”. E eis que aos 10 anos de idade eu acumulei dívidas de papel de carta. Sem falar nas borrachas cheirosas com formatos diversos, de estrelas a hambúrgueres. Assim, todo dinheiro que sobrava do lanche na cantina, já tinha destino certo. Hoje, moça crescida que sou, ainda consigo vibrar quando a impressora acusa falta de papel. É a deixa para visitar o templo intitulado Kalunga, uma papelaria em formato de supermercado que possui de um tudo, e em grande quantidade. Toda vez eu me pego pensando se realmente preciso de uma embalagem com 20 bastões de cola Prit. Ou de um conjunto de canetas marca-texto. Ou de um pacote de envelopes amarelo canário. Tão bonitos, tão brilhantes como ouro! Talvez eu não precise. Talvez a madame também não precise de outro anel para sua coleção. Contudo, só nós duas sabemos a empolgação de experimentar o objeto de desejo pela primeira vez. E quando ela estiver colocando a jóia no dedo, eu estarei escrevendo meu nome em um papel com um delicioso – e novo! – lápis 6B. Vivi Griswold às 10:17 AM
Só tomando uma Calma. Antes que o caro leitor aí do outro lado me recomende ao AA, explico que não tomo um porre há anos. Tive, claro, minha parcela de histórias com a água que passarinho não bebe – mas nada além de, digamos, experiências adolescentes. Na primeira vez em que entornei mais álcool do que meus míseros 43 quilos suportariam, logo aprendi que uma das conseqüências mais salientes da bebedeira é deixar você... saliente. E sua língua também. O indispensável Drummond dizia, no Poema de Sete Faces, que “mas essa lua/ mas esse conhaque/ botam a gente comovido como o diabo”. Digo mais: o etanol bota a gente mais aberto que mala velha. E nos faz dizer e fazer uma porção de besteiras – que, embora pequenas, jamais serão esquecidas pelo seu grupo de amigos, que aproveitarão toda e qualquer oportunidade dali em diante para relembrar seus momentos embaraçosos. Não podemos culpá-los. Não há nada mais chato do que agüentar bêbado quando você está sóbrio. Então, tudo que esse pessoal tem são os causos para contar depois – afinal, eles são os únicos que se lembrarão daquela noite. Claro que essa vantagem dá a eles a chance de exagerar um cadinho na narrativa. Como dizem, c* de bêbado não tem dono. E memória também não. Eu fui vítima desse “incremento” narrativo. Acontece que fizemos uma viagem, há quase dez anos, para a casa de praia de uma amiga. Aquela coisa adolescente e tal. Tomei umas. Quando bateu o sono – típico do meu procedimento bêbado – fui para o quarto e ia tomar banho. Mas depois de me ver como vim ao mundo, não agüentei e cai na cama. Lógico que tive o cuidado de me enrolar num lençol antes. Eis que o tal amigo me encontra no quarto e me acorda. Já um pouco melhor, levantei e segui para o chuveiro. A polêmica está entre o momento em que saí da cama e o que fechei-me no banheiro. Diz ele que, nesse ínterim, banquei a Cicciolina e revelei “as meninas” para o público presente – no caso, ele. Ou que eu subi numa mesinha, deixei cair o lençol e dancei um cha-cha-cha perguntando “te gusta?”. Enfim, a cada oportunidade ele conta uma história diferente. Mas tenho certeza de que, se algo que não devia apareceu, foi num relance totalmente acidental. Ao contrário dele, que foi tomar banho logo depois e apareceu na porta de cueca, deliberada e gratuitamente, perguntando se alguém tinha xampu. Humpf! Ainda bem que o tal amigo é amigo mesmo. Até hoje. Aliás, através dele conheci outros rapazes muito divertidos – e bem chegados à marvada. Um deles (vamos chamá-lo de Bochecha), numa de suas piores noites, chegou numa garota para se apresentar. Na hora de dizer seu próprio nome, Bochecha encheu o peito e lascou, à la “Bond-James-Bond”: - Meu nome é Alê. (Pausa dramática). Alê Assunção. Nunca soubemos de onde ele tirou essa. Até porque o nome dele não é Alê, muito menos Assunção. Nem descobrimos de onde saiu a pérola etílica de outro rapaz da mesma turma. Há não muito tempo, ele também foi tentar a sorte com uma moçoila numa festa. Quando ela perguntou qual era a profissão do conquistador – que é jornalista – ele saiu-se com essa: - Eu trabalho com uma empilhadeira. Eu empilho caixas. Dizer que você é médico, advogado ou CEO de uma grande corporação pode impressionar alguns brotinhos. Contar que você luta boxe, narra trailers de cinema ou faz parte de um coro de risadas decerto me interessaria. Mas, se é para mentir, empilhar caixas não me parece uma boa opção. A não ser que você esteja com a cara cheia e tenha um senso de humor peculiar. Era o caso dessas duas criaturas. Além de proferir umas incongruências, uma das últimas drogas legalizadas também é uma beleza para provocar performances cretinas. Uma grande amiga, que hoje nem sequer molha o bico, foi a estrela de pequenos espetáculos inesquecíveis. Ela tem paúra de cachorro, mas beijou um na boca. Pediu uma cerveja grátis para um tiozinho desconhecido num bar. Salpicou a boca com fondue de chocolate para exemplificar que um outro convidado da festa estava com herpes. E, por fim, pegou uma flor de papel crepom, botou o artigo na boca e saiu cantando e dançando pela casa cheia de amigos. Mas não qualquer música: o tema de seu número foi aquele jingle comercial meio cigano, ao melhor estilo Gipsy Kings, que repetia “djobe, djobe, lere lere lê”. Se não me falha a memória, era de uma propaganda... de uísque. Clara McFly às 10:26 AM
Fachada renovada, riso garantido Ah, a beleza... Bem afortunados os que nascem com ela, ostentando cabelos sedosos, rosto esculpido a cinzel, pele de neném e “tudo no lugar”, como diria a vizinha Mirtes. Já outros precisam conseguir essas coisas na base da funilaria e pintura mesmo, apelando para cremes, químicas, tintas, escova, alicate, chave-inglesa, serrote e o que mais for necessário. Esse segundo grupo costuma ter um ponto de encontro. Chama-se salão de beleza. O lugar mais divertido, inusitado e malucão que existe. Por menos que goste, sou obrigada a fazer parte desse clube surreal de vez em quando. Não existe outro local onde aparar o cabelo, por exemplo (fazer isso em casa não é uma opção desde que tentei sozinha e fiquei com a franja do Palhaço Arrelia). Só ali, também, é possível fazer penteado e maquiagem para uma festa. Ou encarar a depilação. Ou, em caso de desespero máximo, me lançar na manicure. Detesto gente me futucando com pinças como a um camundongo de laboratório, mas fazer o quê? O jeito é ir ao abate. Curioso é que reluto em marcar hora, mas uma vez no recinto, tudo parece horrivelmente engraçado. Onde mais eu posso ler revistas de fofoca de meses atrás – sabendo, assim, que algum mané da alta roda “casou a filha” e que o bebê da Angélica com o Huck, graças aos céus, não puxou o nariz do pai? Bom é chegar 15 minutos antes do compromisso agendado e ficar ali, folheando aquelas páginas gastas, equilibrando a capa semi-destroçada, e me informando sobre a nova namorada do cantor Daniel. Eu não dou a mínima para quem rala-e-rola com o sertanejo – só de pensar, deusmelivre, já tenho engulhos –, mas é sempre bom ter assunto para conversar, mais tarde, com a atendente. Em uma maca de depilação ou poltrona de fazer mãos, restam poucos assuntos a discutir. Depois de comentar sobre a chuva/sol que não pára mais, sobram as fofocas. E toca ouvir aquele monte de mulher desocupada palpitar sobre o romance mal-sucedido da modelo ou a última manobra feita pela mocinha da novela. Já ouvi cada coisa... Certa feita, curiosa como só, estava escutando o papo de duas clientes. A frase pescada: “... e aquela cara-de-pau casou com o homem por dinheiro, depois deu fim no coitado e ainda maltratou a filha dele pelo resto da vida! Lambisgóia! Se morasse no meu bairro, já tinha levado uns tabefes”. Pasmei. Quem seria aquela figura hedionda?? Não demorou a descobrir que o nome dela era Nazaré. E que ela não era de verdade, mas a salafrária fictícia da novela das oito. Podia ter ficado brava pela confusão, mas saber que alguém ainda usa as palavras “lambisgóia” e “tabefe” me anima. Entre uma cutícula extirpada e outra, a vida alheia é dissecada nos salão de beleza. Há que se ter uma certa paciência e ativar o escudo anti-bobagem às vezes, porque a dose de maluquices ouvidas ali é grande. Já escutei, por exemplo, uma senhora dizer que precisava sair logo porque o filho ia chegar da Europa. Perguntada pela mocinha se ele foi a passeio, ela responder que não, “ele foi só buscar umas encomenda (sic) em Miami”. Hein? Apertar os lábios e pressionar a língua contra o céu da boca ajuda a conter o riso, sabiam? Eu uso muito nos salões. Por que, me desculpem, mas é quase impossível não cair do banquinho gargalhando ao ouvir coisas como “a minha sobrinha tá em estado de goma, acredita, Solange?”. E a Solange, pobre profissional dos esmaltes que trabalha o dia todo arrancando bifes e estuda administração à noite, apenas balança a cabeça – possivelmente fingindo escutar enquanto matuta sobre os exames finais. E ignorando que “goma”, no caso”, devia ser “coma”. Só sendo rápida de ouvido e de reflexos para trocar a mão da cumbuquinha cheia d’água e, ao mesmo tempo, participar do conversê ao redor. Minha habilidade não chega a tanto. Costumo derrubar o recipiente nojentamente cheio de aparas de mim no colo ou no chão. A cara feia da manicure passa rápido, assim que elogio a cor roxo-beliscão que ela escolheu para as próprias unhas. Sim, porque as moças de salão se tornam verdadeiras especialistas em pesquisa de produto. Além de envergar o esmalte laranja da moda nas unhas de 20 cm, elas apóiam a utilização de qualquer coisa no cabelo. Juram de pés juntos que sua peruca ficará “ma-ra-vi-lho-sa” com a nova tintura X. Iniciada a aplicação, você pensa por que diabos deixou colocarem a química com cheiro de raticida no seu couro. Aparentemente, só eu tenho receio de mandar ver nos aditivos capilares. Na última vez em que penetrei no salão, existia uma verdadeira nuvem pairando. Era como se o fog de Londres ou o acidente de Chernobyl tivessem chegado até aquele modesto estabelecimento. Só o meu nariz entupiu? Só os meus olhos ardiam? Não, mas a mulherada é forte nesses momentos. Agora, eu soube, usam até formol! Isso mesmo, aquela substância empregada na conservação de corpos e tomada de golinho, toda manhã, pela Dercy Gonçalves! É forte, é fedido, é perigoso. Mas para manter as madeixas alinhadas, parece, vale tudo. Até embalsamar o cabelo. Só para ficar com a cara da modelo impressa no pôster enooooorme que cobre a parede do salão? Diabos, elas parecem sempre a mesma pessoa, seja no Oiapoque ou no Chuí! E ainda mostram penteados estranhos aparentemente feitos com um caco de vidro ou a faca de geléia. Vai ver os litros de química fazem o ar dos salões de beleza ficarem irrespiráveis mas, ao mesmo tempo, hilários. Inalar aquilo muito tempo nos faz dizer um monte de sandices, escolher cores bizarras para mãos e cabeça e apaixonar por notícias sem valor. Ah, claro... e querer voltar sempre para se embelezar e divertir.
Minina, nem ti conto como vai ficar lindo esse penteado! Fla Wonka às 10:54 AM
Missão: Impossível (ler um só) Todo mundo já teve a oportunidade de conhecer uma mãe coruja, né? Trata-se daquela abnegada para a qual o filho é o mais bonito, o mais educado, o mais limpinho, o mais estudioso, o mais inteligente, o mais atlético, o mais cheiroso, o que nunca vai jogar papel de bala no chão e o que sempre vai comer todos os vegetais do prato. E de pensar que eu me tornei um exemplar dessa curiosa espécie... Mas o meu rebento não me acorda de noite chorando; nem solta gases na frente das visitas; nem fica com febre ou bereba; e muito menos vai se mandar com uma namorada e não me ligar mais de fim de semana. Aliás, nem crescer ele vai! Permanecerá um bebezinho do tamanho exato desde o dia em que eu o peguei no colo pela primeira vez: 14 centímetros de largura por 21 de altura. E 152 páginas de recheio. Ok, meu filhote é um livro que foi escrito a seis mãos – e seis vezes mais carinho – por mim e por outras duas mães. “É Impossível Ler Um Só – Histórias para devorar a qualquer hora”, porém, é um menino de sorte. Sua concepção foi totalmente planejada e aguardada. Ele nasceu com força total e tem padrinhos invejáveis (Mário Prata e Ricardo Feltrin, é mole?). Seu batizado, ups, lançamento, foi o maior sucesso e lotou de amigos, parentes, agregados, leitores, curiosos, passantes. E ainda por cima é corado! O caso é que eu poderia continuar até amanhã falando sobre nosso livro. Sobre como ele nos trinca de orgulho. Sobre como ele nos encheu de alegria, de realização e nos deu o maior frio na barriga já sentido por este trio. Sobre como botamos a maior fé na sua trajetória e sabemos que ainda conseguiremos muitas coisas boas ao lado dele. Sou mãe coruja mesmo! Contudo, o propósito deste texto é mais prático e esperamos poder contar com a sua ajuda, leitor atento aí do outro lado da telinha do computador. Você já adquiriu seu exemplar (ainda não? Pô, clique já aqui!) e está matutando em que mais pode nos ajudar nestes bravios mares literários, certo? Bem, estamos aqui para sanar essas dúvidas. Na verdade, estamos aqui para criar uma força-tarefa pró-“É Impossível Ler Um Só”. Se cada um fizer um pouquinho, este planeta será um lugar bem mais legal para se viver. Não? Hmm. Ok, não custa tentar! 1) Fingir ser o vendedor 2) Fazer propaganda corpo-a-corpo 3) Encorajar a leitura casual 4) Botar em prática a “Operação Grude” 5) Botar em prática a “Operação Mão-Boba”
![]() Ninguém vai reparar na diferença!
E viveram... a vida de casado Quando eu era pequena, devorava livros que nem mariolas. Na verdade, mais do que mariolas. É que eu nunca fui muito chegada a esses doces tradicionais. Dentre os que marcaram território neste coraçãozinho vão e pueril estão quase todos da Ana Maria Machado; “A Bolsa Amarela”, da Lygia Bojunga Nunes, e “O Fantástico Mistério de Feiurinha”, do Pedro Bandeira. No livro, ele relatava a visita de um lacaio que procurava uma princesa de contos de fada desaparecida. No caso, a tal da Feiurinha, coitada. Na verdade, de feia a princesinha não tinha nada. É que ela foi criada por três bruxas muito das horrendas, que invertiam as coisas e diziam para a menina que ela é que era um monstrengo. Mas o ponto aqui é outro: Feiurinha desaparecera do mapa dos contos porque ninguém havia escrito sua história. O grande barato da brochura era, entre outras coisas, retratar as diáfanas princesas em sua vida de casada. Elas tinham um punhado de filhos e faziam parte da grande família Encantado, já que todas haviam se casado com o senhor Príncipe... Encantado. Ou você acha que os roteiristas de “Shrek 2” foram os primeiros a sacar isso? Pois hoje acordei meio tonta, pensando em Feiurinha e na importância de registrar nossas histórias, mas principalmente imaginando como está a vida de casada das princesas. Será que Cinderela acertou a mão no ovo frito? E Bela Adormecida, paga as contas em dia? Rapunzel ainda mantém aquele cabelão? Branca de Neve espera pelo seu príncipe chegar do trabalho na porta, com o avental sujo? Irc. Vai ver o casamento das heroínas não tenha saído lá essas coisas. Acho que por isso nenhum autor ou tradição se debruçou sobre a vida marital das princesas. Uma pena, porque casar pode ser muito, muito divertido. Só não deve ter sido para essas pobres almas abnegadas, que trocaram uma vida de aventuras sensacionais – como viver com sete anões mineiros, nadar livre pelos mares ou trançar madeixas quilométricas – pelo “sim” diante do juiz de paz ou de um padre. Isso se elas se casaram oficialmente, visto que nem o enlace é narrado nos contos. Talvez elas tenham apenas juntado os trapinhos. Quem sabe? Ninguém. Então, como sempre, que tal preencher os espaços vagos da curiosidade com um pouco de imaginação? Eu aposto que... Cinderela, acostumada ao serviço doméstico, preferiu dispensar os empregados do castelo Encantado, para onde se mudou com seu príncipe logo depois que o último convidado comeu o último croquete da festa. Duas semanas depois, percebeu que lavar, arrumar, limpar, cozinhar e passar para o senhor Encantado (“que bem poderia se chamar senhor Folgado”, repetia ela entre cuecas largadas na sala e pratos deixados na mesa) era bem mais difícil do que trabalhar para a Madrasta e suas enjoadas filhas. Fez as malas e ameaçou se mandar caso o marido não contratasse uma empresa terceirizada. Foi o que ele fez. Agora, ela apenas estala os dedos para que o mordomo lhe traga uma taça de Perrier fresquinha e prepare seus sais de banho. Mas a comida Cinder faz questão de preparar: Encantado adora seu bolo de carne com abobrinha. Bela Adormecida passou a lua de mel em Embu das Artes, onde aproveitou para superar seu pavor por rocas. Comprou uma porção de badulaques com o dinheiro arrecadado pelo corte da gravata do noivo. Ao chegar ao castelo onde fariam residência, descobriu que o espaço era pouco para tanta coisa. Decidiu encarar uma reforma, apesar dos conselhos contrários da sogra: “dá trabalho, boba! Aproveita o clima de recém-casados, depois eu convenço o pai do Encantado a comprar alguma coisa maior para vocês. Quem sabe no Morumbi”. Quando as seis semanas prometidas pelo empreiteiro viraram dois anos e meio, não agüentou mais o pó e se mudou para a casa da sogra. Sua casa ficou pronta três meses depois, mas as crianças sofrem de rinite até hoje. Em julho, é um horror: ela não sai da fila do posto de saúde para fazer inalações. Rapunzel tinha prometido secretamente a Santo Antônio que, se não terminasse seus dias encalhada – o que parecia bem provável de acontecer, visto que ela vivia isolada numa torre – cortaria o cabelão. Quando se viram sozinhos na suíte nupcial, a jovem “senhoura” entregou uma tesoura ao príncipe. Ele ficou branco feito cera e achou que sua doce esposa tinha estranhas preferências sexuais. Mas ela o tranqüilizou ao explicar tudo e pedir que ele lhe cortasse as madeixas – nada muito drástico, podia ser um fio reto básico mesmo. Na primeira mecha, ela notou o incrível talento do marido com as tesouras. O cabelo dela ganhou muito mais vida e movimento. Resolveram abrir um salão. Hoje, os dois atendem à mais seleta clientela dos Reinos no Encantado’s Coiffure & Beauté – ela faz mão e pé sem tirar um bife, ele arrasa nos penteados. Ariel, a Pequena Sereia, passou nove meses planejando o casamento. Cuidou de tudo pessoalmente e escolheu a dedo cada música que deveria tocar na festa. “Are you Gonna Be My Girl”, do Jet, era a primeira. O Príncipe achou muito bom, já que ele não gostava muito dessas coisas envolvendo marzipan, tafetá ou flores, mas adorava um roque enrol. Tudo correu às mil maravilhas e, depois da tradicional execução de “Whisky a Go Go”, do Roupa Nova, Ariel achou que era hora de ir para casa. Ali, o Príncipe quis fazer bonito e pegou a sereia no colo para passar pela porta, mas acabou descamando parte do rabo da mocinha ao raspá-lo no batente. Foi um acidente infeliz, mas Ariel ainda dá boas risadas ao lembrar da história. Ainda mais quando participa das tardes de beleza, junto às colegas aqui citadas, promovidas no salão de Rapunzel. Branca de Neve sofreu para enturmar o príncipe com seu grupo de amigos – formado, basicamente, pelos sete anões. Era difícil lidar com o ciúme que Encantado tinha dos rapazes. Mas não podemos culpar o Príncipe. Ninguém gostaria de chegar em casa com a esposa na hora do tradicional “enfim, sós” e topar com sete criaturinhas no sofá assistindo à Sala Especial e acabando com seu precioso estoque de Erdinger. Depois desse mau começo, Branca conseguiu unir os oito homens de sua vida na paixão pelo futebol: ao descobrir que todos torciam pelo Curíntia, comprou nove ingressos para uma partida contra o América de Rio Preto (“porque ir aos clássicos está muito perigoso”, dizia) e fez a alegria dos torcedores ao puxar o corinho de “Timão, eô”. Em casa, sorriu ao ver o marido perguntando se os anões viriam para o churrasco da semana seguinte – aliás, marcado para reunir todas as suas colegas que apareceram neste texto e seus respectivos Encantados. Quem sabe? Clara McFly às 09:55 AM
A gente nunca, nunca esquece Tudo o que acontece pela primeira vez é inesquecível. Tudo bem, nem tanto assim... Eu já detelei há tempos da memória coisas como o meu primeiro Miojo ou a estréia no quesito andar de ônibus. Mas outras ficaram guardadas em um cantinho especial da cabeça. São coisas que jamais deixaram a mente – mesmo sendo ainda muito jovem para entender a dimensão do caso. Se a primeira vez a gente nunca esquece, eu sempre contabilizarei um monte de lembranças. Acredito piamente: nossas memórias mais recônditas formam aquilo que chamamos personalidade. Lembrar o dia em que me mandaram para a pré-escola sem o shorts, por exemplo, só me fez passar a vida sendo muito envergonhada. Nunca esqueci esse lapso da família e acho que nunca vou esquecer. Porque a cachola é capaz de nos pregar peças e sedimentar, para a eternidade, alguns acontecimentos. Paciência, o jeito é conviver com isso e tentar extrair o máximo de aprendizado. Eu me lembro sempre das coisas que seguem abaixo. Não sei bem por quê. Devem ter sido marcantes o suficiente para virar ensinamentos. É assim que funciona a memória humana, não? Registramos certos momentos para, desse modo, aprender sempre com eles. Estão aí meus arquivos eternos. A primeira vez que vi meu pai chorar A primeira vez que vi um cara bater em uma moça A primeira vez que vi serpentes A primeira vez que vi minha filha A primeira vez que vi uma matéria minha publicada A primeira vez que vi jogo no estádio A primeira vez que vi o cinema A primeira vez que vi meu nome em um livro
Foto do meu primeiro bebezinho literário Fla Wonka às 10:43 AM
Presente para mim Toda vez que alguém me dá um embrulho com laço de fita eu já começo a entrar em pânico. E se eu não gostar? E se não servir? E se eu tiver de fazer cara de paisagem e disfarçar? Os minutos que se sucedem – é que não gosto de rasgar papel, embora a crendice popular pregue que isso traz sorte – são decisivos, e a expectativa estampada no rosto da pessoa à minha frente só piora a minha ansiedade. Sim, eu amo distribuir presentes, mas recebê-los me coloca em alerta. Como muitos de vocês sabem (santo Orkut!), quinta-feira passada foi o meu aniversário. Como vem acontecendo em todos os dias 2 de junho, eu escuto sempre a mesma ladainha dos familiares e amigos: “eu nunca sei o que lhe dar...” e “ah, é tão difícil encontrar algo para você!” são frases proferidas ano após ano. Então, para eu não passar saia-justa e para meus conhecidos não passarem aperto, aí vão algumas diretrizes para facilitar a nossa convivência nas primaveras (ou melhor, outonos) vindouras. Povo, anote aí e pare com o discurso! Não dê: Agenda Não dê: Jóias Não dê: Bibelôs Não dê: Bombons chiques Não dê: Vale-esteticista Não dê: Copos finos de cristal Não dê: Telegramas animados Não dê: Livros-cabeça Não dê: Arte
Então compareça! É daqui a pouco... ![]()
Vivi Griswold às 10:06 AM
Tinha que ser mulher Outro dia fui deixar um amigo em casa depois da nossa caminhada noturna. Ele mora nessas típicas vizinhanças de subúrbio onde crianças tomam a rua para jogar bola até altas horas da noite, demarcando os golzinhos do sagrado futebol com tijolos baianão, pedregulhos, chinelas de tiras estouradas – o que estiver mais à mão. Pois mais adiante da casa do meu amigo estava um animado grupo de ludopédio de asfalto, disputado por infantes de não mais que dez anos. Quando fui passar com o carro, eles mal e mal se afastaram. Ostentavam aquele ar de dono da rua típico das crianças urbanas, que só têm mesmo a via pública para brincar. Ao mesmo tempo, outro veículo encostou diante de uma casa. Tive que desviar com cuidado e atenção, para evitar que o pobre El Comandante tivesse suas partes baixas atingidas pelos tijolos largados à guisa de traves ou que eu desse manchete do tipo “motorista ensandecida atropela criancinhas brincando na rua”. Quando havia cumprido a tortuosa manobra, eis que ouço um petiz ao longe: “tinha que ser mulher mesmo!”. Parei o carro. Ia dar ré, descer, largar a chave na mão do moleque e dizer em alto e bom som, no meio da ruidosa turma e das comadres que papeavam no portão: “tira o carro daqui. Vai, tira!”. Quando ele negasse, saísse correndo ou tentasse me chutar, diria: “você só diga isso de novo se um dia souber dirigir melhor que eu”. Mas, infelizmente, não sei dar ré. Claro que não exatamente por ser mulher – a Flávia, por exemplo, é um verdadeiro ás do volante. E partilha do mesmo sexo que eu. Por outro lado, conheço gente que não consegue estacionar nem a 45o. E que joga no time dos rapazes. Mas, ao fim, o fato de eu não conseguir levar o carro de ré por dez metros sem entortar toda a trajetória acabou reforçando o preconceito do garoto. Preconceito, aliás, é o que não falta sobre o universo feminino. Dizem que as meninas não sabem dirigir. Que choram por qualquer coisa. Que não podem ver um par de sapatos sem surtar. Que são traiçoeiras e fofoqueiras. Como toda leva de generalizações, há uma porção de verdades (óbvio que não motivadas pura e simplesmente pelo sexo com o qual você nasceu) e outra de puras besteiras, tudo misturado no mesmo saco. Depois de anos me negando a usar cor-de-rosa ou pintar as unhas na tentativa de ser levada mais a sério, percebi que agir forçosamente ao contrário dos estereótipos era, no fundo, concordar com os preconceitos. Ultimamente tenho assumido certas “coisinhas de menina” sem medo de ser feliz ou de me sentir frágil, fútil ou idiota por isso. E hoje empresto um verso de Chico Buarque para dizer que, “se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que”... Não sabem mesmo estacionar Adoram fazer compras Tomam bebidinhas “de mulher” Sustentam a indústria de comédias românticas Adoram jogar conversa fora E, como dizia Cyndi, as garotas só querem se divertir.
Clara McFly às 10:20 AM
Só em novela mesmo... Minha vó Ondina era uma senhora divertidíssima. Com ela, tudo era legal: fazer suspiros, pular corda, contar piada boba, ouvir Tonico e Tinoco. Mas nada, nada era mais bacana do que ver novela ao lado da vovó. A velhinha se embrenhava tanto na trama que, em poucos minutos, estava mandando a mocinha deixar de ser boba e classificando o vilão como “ó que bandido!”. Até mesmo ela, porém, sabia que os folhetins sempre forçavam a barra. E, nessa cena, lá vinha Dona Ondina balançar a cabeça, fazer um ar de desdém e dizer “só em novela mesmo...”. Ela também emendava jurando que nunca mais ia “seguir” qualquer desses programas. Pura mentira, óbvio, visto que meses depois a senhorinha estava novamente aboletada no sofá para assistir à nova trama das seis. De tanto apreciar com ela, acabei foi concordando: novela é mesmo uma balela danada. Podem chamar de retrato da vida real, eu acho mesmo é que só acontecem coisas impossíveis e baseadas num belo clichê. Não raro, me pego sacudindo a cachola do mesmo modo que minha saudosa vovó e proferindo frases como “até parece” ou “ah, me engana que eu gosto”. E eu gosto mesmo. Mas não deixo de reparar que, nas novelas... ... há sempre o joguinho da campainha ... ninguém liga para segredo ... só existem escritórios iguais ... crianças adoram sexo ... empregadas levam um vidão ... não se pega muito no batente ... carros explodem demais
Fla Wonka às 10:43 AM
Salve, simpatia! Estava eu bisbilhotando os tortuosos caminhos que trazem as pessoas até o Garotas quando vislumbrei a seguinte busca no Google: simpatia para nunca mais engasgar. Tive pena do sujeito que não deve ter encontrado a resposta, pelo menos por aqui. Afinal de contas, ele deve engasgar tanto que se deu ao trabalho inclusive de buscar uma solução para seu problema na internet. E ainda acrescentou o “nunca mais”, o que demonstra o grau de desespero. Tentei encontrar a resposta que ele buscava, mas a única coisa que consegui foi diversão com as sempre sábias crendices populares. Venho de uma família totalmente crente nesse tipo de ritual que promete de um tudo, desde fim do mau-olhado até aumento de salário, passando por casamentos e até cura para enxaqueca. Às vezes, quando eu era pequena, deixava de lado os gibis da Mônica para pegar sorrateiramente os livrinhos de simpatias que minha tia colecionava e guardava no criado-mudo. Ficava maravilhada com a oferta de mandingas e seus ingredientes. Feijão, por exemplo. Sempre presente em muitas delas. Para a mulher engravidar, precisa engolir um feijão como se fosse comprimido, logo pela manhã, com um copo de água, durante um certo período de tempo. Por outro lado, para a menstruação atrasada descer, é necessário guardar um feijão dentro do bojo esquerdo do sutiã, enquanto estiver usando. Ou seria o contrário? Bem, na dúvida, não tente fazer uma delas em casa. Objetos do cotidiano também são usados: pratos, copos, facas... Porém, costumam ser seguidos pelo adjetivo “virgem”. Além da pessoa fazer aquele monte de coisa estranha (e botar a maior fé na eficácia do negócio), ainda tem que arranjar utensílios nunca usados. Isso quando a simpatia não pede uma moça virgem, o que é mais difícil de se arrumar. Mas ô, quantas vezes não fui arrastada pela mão por titia até o córrego mais próximo para “despachar” as sobras de seus rituais – que, na maioria das vezes, precisam acabar em água corrente. Ou jardim florido. Pode reparar que simpatias possuem diferentes graus de dificuldade. A incauta começa na escola, quando pequeninas mandingas são populares. Como aquela de escrever o nome dos garotos interessantes em um papel, dobrar todos em partes iguais e deixá-los na bacia com água. O rapaz do papelzinho que amanhecer desdobrado será um futuro affair. Não me pergunte o que acontece se dois papéis abrirem, ou se nenhum. Simpatia não trabalha com variáveis. Depois, a pessoa cresce um pouquinho e toca de botar o pobre do Santo Antônio de cabeça para baixo no dia dos namorados, para que no próximo o partido chegue. Se não chegar, lá vai ela com uma faca virgem na bananeira do quintal na noite de lua cheia anterior à data, fazer cortes e esperar o leite da planta formar uma inicial. Se não formar nada, no próximo ela já vai estar fazendo aquelas simpatias complicadíssimas, que pregam pular com um pé só na encruzilhada enquanto segura uma vela de 15 centímetros da cor azul-celeste no terceiro luar após solstício de verão do ano ímpar. Voltando à busca que fiz para tentar arrumar uma resposta ao internauta engasgador, posso garantir que dei muita risada com alguns rituais hilários, copiados na íntegra aí embaixo. Quem se sentir compelido a tentar algum, que fique à vontade. Mas depois volte para me contar se deu certo, hein! Para espantar os paqueradores chatos: Se o seu problema for com um paquerador, que não se manca, faça esta simpatia para afastá-lo. Coloque um pouco de água para ferver em uma panela velha de ferro (céus, quem tem panela de ferro hoje em dia?). Jogue dentro tantos copinhos de água quanto forem os anos da pessoa (que quantidade vem a ser um “copinho”?). Ao fazer isso, diga: “Leva embora pra outro canto a queda que fulano tem por mim”. Para sossegar coroas: Esta simpatia serve para acabar com aquele fogo interno (!!!!) de coroas solitárias que se sentem angustiadas, que se queixam dos famosos “calores internos” (Hahaha. Desculpe, o negócio é sério). Em uma noite de lua crescente, coloque para ferver uma leiteira (leiteira, hein? Não vale panelinha) com um litro de água, algumas folhas de erva cidreira, camomila e erva-doce, junto com uma xícara de açúcar mascavo. Deixe ferver até o líquido engrossar feito um xarope. Tome um cálice desse chá três vezes ao dia que é um ótimo calmante (e xarope apaga fogo interno?). Para conquistar uma pessoa que nem repara que você existe: Junte cinco fios de seu cabelo com mais cinco fios do cabelo dele(a) (só não arranque os fios da pessoa em um ato tresloucado, porque daí ela não vai se interessar muito). Enrole os cabelos com um pedaço de pano e embrulhe junto com um anel novo, que nunca tenha sido usado. Deixe o amuleto bem perto do próprio coração (mas do lado de fora do peito, viu?) durante nove dias. Passado esse período, dê o anel de presente a tal pessoa, que logo vai reparar em você e poderá até acabar se apaixonando (uai, “poderá”? Depois de tudo isso ainda há a dúvida?). Para ter seus superiores debaixo do seu pé: Se você quizer (sic) ficar sempre por cima dos seus superiores em matéria de conceito (hein?) e desejar ascensão profissional, escreva o nome da pessoa ou dos diretores e chefes num pedaço de papel em branco e prenda com adesivo dentro do seu sapato, de maneira que os nomes fiquem virados para cima e o seu pé em cima deles, sempre no seu pé direito. Toda vez que precisar que eles tomem alguma atitude a seu favor, fique batendo com o pé direito no chão, de mansinho (vai parecer que você está com vontade de ir ao toalete, mas tudo bem!). No final, o atestado: Essa simpatia é infalível. Ah, vá. Todas são.
Vivi Griswold às 09:43 AM |
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