quinta-feira, 30 de junho de 2005

O TRÂNSITO

Se lá pelos idos de 1900 um sujeito achasse bola de cristal dando sopa e conseguisse sintonizar a coisa no canal “século 21”, não ia acreditar na aparição. O rapaz observaria chocado que o automóvel, aquela fantástica criação para poucos e ricos, tomou a humanidade de assalto. De meio de transporte, ele passou a circular pelo sangue de alguns. Alguns não: muitos! Milhares! E todos saem na rua ao mesmo tempo, dando vida a uma entidade chamada “O TRÂNSITO”.

Assim, em letras garrafais mesmo. Porque O TRÂNSITO é como um ser vivente, um monstro mais poderoso que Frankenstein e mais temido que o Abominável Homem das Neves. Falamos dele como de uma pessoa. O TRÂNSITO! Só falta usar voz gutural e erguer as sobrancelhas ao proferir seu nome maldito: O TRÂÂÂÂNSITO! Cuidado, ele come criancinhas!

Tudo bem, ele não come, não. Mas atropela. Atropela petizes, separa família, faz as pessoas perderem empregos e oportunidades românticas. Fomenta crises de stress, provoca tragédias a bala, instaura a inimizade e o pavor onde quer que passe. E olha que ele passa, hoje, por todo canto.

Basta sair na rua aqui da frente de casa e dobrar a primeira à direita. Pronto. Eu acho O TRÂNSITO. Ele se estende daqui até onde a gasolina alcança. Está na avenida mais próxima, na Marginal, na outra Marginal, na estrada, na vicinal, no bairro suburbano da minha mãe e, se bobear, na zona rural. Aprendemos a viver assim, travados, esperando a boa-vontade d’O TRÂNSITO. Mas cadê que ele tem boa-vontade?

Para marcar compromissos com amigos, é bom combinar um lugar mas, acima de tudo, a hora. Depois que O TRÂNSITO passar, aí sim. Ou antes de começar O TRÂNSITO. É importante saber, porque senão a birita das 19h00 começará, de fato, às 21h30, quando o último conviva conseguir chegar. Ficar parado no congestionamento não é uma variável. É constante.

Ele é bom somente para os atrasados, que sempre podem se valer desta desculpa. O despertador tocou, porém o condenado acionou o botão “Dorminhoco”, desligou o bip incômodo, virou para o lado e nanou de novo.

Chegou no escritório às 10h30 e perdeu a reunião? “Desculpa, chefe, peguei o MAIOR TRÂNSITO” – sim, porque ele também tem o irmão mais velho, o MAIOR TRÂNSITO. Qual patrão há de desconfiar? Afinal, basta abrir a janela da sala e olhar lá para baixo. Há de ter ao menos uns vinte carros tentando ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo.

Normalmente, eles estarão usando de um poder mágico que O TRÂNSITO inventou: o escândalo com a buzina. Todos podem reconhecer o nosso vilão urbano por essa característica básica. Ao contrário dos bandidos do gibi, ele não usa colan negro, máscara, raios laser ou escudo de força. Ele usa buzina. Loucamente.

Não há mais jeito de escapar dessa praga. Para ir ao banco, localizado a 2 km de distância, é necessário sair com uma hora de antecedência. Seria mais rápido fazer o percurso a pé, mas isso não vem ao caso. Quem tem carro quer fazer uso do motor, claro! Então é entrar na cabine e encarar O TRÂNSITO – acelerando a esfusiantes 30 km por hora. E xingar bastante a mãe de quem guia o veículo ao lado é contingência. Culpa d’O TRÂNSITO, que nos oprime e animaliza.

O curioso é que... quem faz O TRÂNSITO somos nós! Frankenstein era o nome do doutor, não do monstro! Atrás de cada pára-brisas coberto por aquele infeliz e funesto insulfilm existe um cidadão – eu acho, porque às vezes parece que a máquina é conduzida por controle-remoto.

Não devíamos, por isso, ficar com tanto medo dele. Se a entidade nos ameaça, devíamos sair nas ruas com estacas (para cravar nos pneus), foices (para destroçar a lataria) e réstias de alho (para... refogar alguma coisa mais tarde, durante o jantar comemorativo pelo fim do tráfego). O TRÂNSITO não sobreviveria após nosso ataque coordenado!

Duro é que, para coordenar o ataque, precisaríamos no encontrar em algum lugar... E vai ter muito trânsito para chegar lá. Seríamos derrotados por W.O.. Esperto, O TRÂNSITO.

transito.jpg
Ó deus das pistas de rodagem,
tende piedade de nós!

Fla Wonka às 10:09 AM

quarta-feira, 29 de junho de 2005

A música mais triste do mundo

Naquela época, eu devia contar meus anos usando apenas uma mão. Foi quando ganhei a vitrolinha vermelha e vários vinis da coleção Disquinho – saudosas bolachas coloridas que narravam histórias das mais diversas. Minha favorita era, de longe, “O Patinho Feio”. Rejeição sempre me pareceu o pior sentimento que alguém pode sentir, e o pobre pato (na verdade, um cisne), experimentou a tal em cada peninha cinza de seu corpo franzino.

Ele era tão zombado por ser estranho e diferente de seus irmãos que decide partir do terreiro. Então o Disquinho tocava uma música mais ou menos assim: “Vou me embora pra bem longe/ Esta é a triste verdade/ Talvez eu sozinho encontre/ A paz e a felicidade”. Mesmo sendo a qüinquagésima audição do mesmo raio de história, a emoção batia e eu chorava feito... hã... criança. Para mim, aquela era a música mais triste do mundo.

Depois, com um pouquinho mais de idade, fui presenteada com o disco “Arca de Noé”, uma jóia composta apenas por poemas de Vinícius de Moraes musicados por artistas da MPB. Entre a maluca “A Casa”, a engraçada “A Foca” e a alegre “O Gato” estavam duas canções de cortar a alma. Em “A Corujinha”, Elis Regina cantava baixinho “Todo mundo que te vê/ Diz assim, ah, coitadinha/ Que feinha que é você”. Já em “São Francisco”, Ney Matogrosso narrava a história do santo que ia pelo caminho “de pé descalço, tão pobrezinho”. Pensava que essas sim eram músicas tristes.

Hoje, acho “O Caderno”, do Toquinho, uma crueldade. A saga da brochura que acompanha a menina “do primeiro rabisco até o beabá” e que, no final da letra, pede a ela para que mesmo depois de crescida não o esqueça em um canto qualquer, me arranca lágrimas. Seria essa a mais triste? Talvez no quesito infantil. Porque para os crescidos, “Eu Te Amo”, do Chico Buarque, é pior: com um caso de amor rompido, o cara se pergunta como conseguirá seguir em frente “se na desordem do armário embutido” o paletó dele enlaça o vestido dela e os sapatos ainda pisam um no outro. Lindo e terrivelmente triste.

Outro coração partido que Chico compôs foi em “Atrás da Porta”. Ali, a mulher está tão desesperada que diz “Dei pra maldizer o nosso lar/ Pra sujar teu nome, te humilhar/ E me vingar a qualquer preço/ Te adorando pelo avesso/ Pra mostrar que ainda sou tua”. Cruel? Sem dúvida! Mas o que é um ex-amor perto da morte de alguém que é carne da sua carne? Em “Pedaço de Mim”, o compositor escreve que “Saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”. Isso sim é triste que dói, hein?

Já o Rei Roberto Carlos, na bela “Sentado à Beira do Caminho”, canta o verso “Vem a chuva molha o meu rosto e então eu choro tanto/ Minhas lágrimas e os pingos dessa chuva se confundem com meu pranto”. Pô, não agüento homem chorando. Quanto mais dois, como a dupla Tonico e Tinoco em “Chico Mineiro”. Na letra, o caboclo é baleado. “Mataram meu companheiro/ Acabou-se o som da viola/ Acabou-se o Chico Mineiro”. No quesito “sertanejo de raiz”, voto também em “Filho Adotivo”, entoada por Sérgio Reis. É a história de um pai que teve sete rebentos, sendo um adotivo. Todos se criaram, estudaram, casaram e venceram na vida, mas foi só o adotivo que o amparou na velhice. Chuinf.

Sem dúvida é mais fácil emocionar-se em português do que em inglês. A criação internacional, porém, já machucou aqueles que entendem pelo menos um pouquinho do idioma estrangeiro. Os versos “But I'd trade all of my tomorrows for one single yesterday/ Holdin' Bobby's body next to mine” (Mas eu trocaria todos os meus amanhãs por um único ontem/ Abraçando o corpo de Bobby junto ao meu), imortalizados por Janis Joplin em “Me and Bobby McGee”, são emocionantes. Assim como “Eleanor Rigby died in the church/ And was buried along with her name/ Nobody came” (Eleanor Rigby morreu na igreja/ E foi enterrada com seu nome/ Ninguém compareceu). Morrer e ser enterrada sem ter ninguém por perto é triste demais. Ponto para os Beatles.

Perito em letras melancólicas e perturbadas é o meu amado Morrissey, aquele que já escreveu que “Todo dia é como domingo/ Todo dia é silencioso e cinza” e já me acompanhou nas maiores fossas e crises da minha vida. Sua voz perfeita apresentou versos como “Noite passada eu sonhei que alguém me amava/ Outro alarme falso”. Mas a jóia tem de ser “I Know It’s Over”, na qual sente o solo desabando e pede pela mãe no meio da solidão. Não dá para escolher o verso mais triste. Talvez “And it never really began/ But in my heart it was so real” (“E nunca começou de verdade/ Mas em meu coração era tão real”). Ou “Love is natural and real/ But not for such as you and I, my love” (“O amor é natural e real, mas não para alguém como você e eu, meu amor”). Buááá.

Tudo bem: vimos que amores perdidos, corações em frangalhos e partidas de seres amados fazem músicas comoventes. E se juntarmos tudo isso com crueldade animal e a seca do sertão, poderemos finalmente ter a mais triste do mundo, certo? Então “Assum Preto” o é. Luiz Gonzaga bota um nó doído na minha garganta só com a lembrança da canção sobre o passarinho que teve os olhos furados para cantar melhor. “Assum preto verve sorto/ Mas num pode avuá/ Mil vezes a sina de uma gaiola/ Desde que o céu, ai, pudesse oiá”. No final, o cantor se identifica com o sofrimento do bicho dizendo “Assum Preto, o meu cantar/ É tão triste como o teu/ Também roubaro o meu amor/ Que era a luz, ai, dos óios meu”.

Pronto. Estou para ouvir tristeza maior. Enquanto isso não acontece, vou ali pegar um lencinho.

Vivi Griswold às 10:51 AM

terça-feira, 28 de junho de 2005

Meu passado me condena

“Agenda: caderninho feito para facilitar sua vida que, no entanto, muitas vezes acaba complicando-a”. Claro que essa definição para a palavra acabou de ser inventada por mim, mas, convenhamos, podia mesmo existir para valer. A agenda tem múltiplas funções na vida de uma simples mortal como eu – tudo dependendo da faixa etária e da (in)capacidade de organização da criatura proprietária da brochura.

Quando eu tinha aí uns quatro anos, as agendas promocionais que meu pai trazia para casa (aquelas com capa de couro e os dias da semana escritos em várias línguas – graças a elas aprendi que Lunedi é segunda-feira em italiano) serviam pura e simplesmente para as minhas garatujas. Eu também gostava de arrancar aquele triângulo picotado que ficava no cantinho da página, só para ouvir o barulhinho do picote rasgando.

Quando ingressei nas fileiras do primário, a agenda ganhou a função de me lembrar das tarefas a fazer. Isso durou até mais ou menos meus 11 anos, quando percebi outra função desse afamado objeto: abrigar minhas confidências. E olha que confidências são o que garotas nessa idade mais têm. Claro que, à luz da passagem do tempo, elas se tornam particularmente ridículas. Lendo minhas agendas antigas hoje, poderia muito bem encontrar registros do tipo “hoje eu espirrei e o Fábio falou ‘saúde’. Ai, ai...”, ao lado de uma penca de coraçõezinhos desenhados em dez cores diferentes.

Nesse tempo, a agenda começa mais a atrapalhar do que ajudar se seu irmão a surrupia da sua gaveta. Ou, anos depois, por ter mantido o registro firme, forte e juramentado, durante todo esse tempo, das besteiras que a afligiam. Lê-las uma década mais tarde nos faz querer enfiar a cabeça debaixo da terra, de tanta vergonha. Mesmo quando fazemos isso sozinhas, sem nenhum irmão cretino cantando versinhos idiotas como “Dois namoradinhos, só falta dar beijinhos...”, em voz pastosa e bem pausadamente.

No auge da adolescência, minha agenda servia para lembrar os trabalhos escolares – já no colegial – e, aparentemente, para copiar versos soltos de músicas. Outro dia peguei uma e tinha de tudo, de Bob Marley a Radiohead. Acho que uma das características mais intrínsecas a essa fase é o ímpeto de mostrar quem somos. Daí a miscelânea musical: era preciso deixar bem claro que tipo de música eu ouvia.

Mas não só o recheio do dito caderno era usado para dizer a que eu vinha (e olha que eu não vinha lááá para muita coisa nessa época). O que pegava era cobrir a capa da agenda com recortes de toda espécie, tirados de revistas que eu lia; no caso, a Bizz, a Set e a... Capricho (não riam, lembrem-se que eu tinha 15 anos). Os ídolos também entravam na colagem, o que era uma boa: todo mundo podia saber, através da minha querida agenda, que eu adorava Red Hot Chili Peppers.

O problema, nessa fase, é que não é nada incomum mudar de idéia no segundo semestre. E, depois que a transadíssima colagem era coberta com contact transparente (o que aliás dava um trabalho enorme, com a minha parca coordenação motora), era melhor você a-do-rar Red Hot até o final do ano. (Nesse caso, funcionou: eu gosto até hoje). Caso contrário, sua querida agenda passa a ser razão de constrangimento e tem de ser enfiada lá embaixo dos livros, para cobrir a foto enorme do Milli Vanilli que você colou ao lado de um coração.

Mais tarde, liberta dos corredores e das carteiras escolares, minhas agendas passaram a conter frases mais, digamos, adultas, como “passar na lavanderia” e “otorrino às 14:30” (não seria de todo errado substituir “adultas” por “chatolas” na frase anterior). Meu irmão não surrupia mais minha agenda – nem minhas amigas, para devolvê-la com versinhos e mensagens do tipo “te adoro muitão”.

Mas ela me ajuda bastante. Comporta idéias de textos surgidas em momentos indevidos, como sentada ao balcão de uma pastelaria ou parada no trânsito. Ajuda esta pobre cabeça atormentada e confusa a não se esquecer da lavanderia e do otorrino. E, acima de tudo, guarda todos os telefones necessários para o bom desenrolar da minha vida, como o da comida chinesa delivery e o do moço da assistência técnica que conserta o aquecedor do chuveiro.

Aliás, aí é que mora o problema com minhas agendas atuais. Trocar de agenda no final do ano letivo era praticamente indolor. Havia uma capa limpinha para ser coberta de recortes com suas novas bandas e filmes favoritos e um calhamaço de deliciosas folhas (sempre adorei o cheiro de brochuras novas) esperando pela ponta da sua esferográfica. A parte destinada aos telefones era passada para a nova agenda num tapa; afinal, quem tinha tantos contatos assim aos 17?

Porém, com o passar dos anos, a coisa se inverte. A parte mais cheia de minhas agendas atuais é mesmo o índice telefônico. Não tenho mais trabalhos de Gramática ou Química para entregar todo dia, nem preciso mais ler “Iracema” para o fim do semestre. Tampouco fico copiando trechos de músicas nas páginas diárias. Por outro lado, o finalzinho, destinado aos números de telefones, é lotado. E haja disposição caligráfica para passá-lo a limpo...

Resultado? Este ano, comprei uma agenda 2005 em maio e ainda não a estreei, por pura preguiça de copiar os telefones. Isso me deixa um tanto aflita, pois o ano já está pelo meio. Estou pensando em arrancar o índice de números e colá-lo na contracapa de minha nova brochura. Talvez fique porco, mas é melhor que manter tudo no celular – e se ver no mato sem cachorro caso seu aparelho seja roubado ou perdido – ou comprar um palmtop – com o dinheiro do brinquedinho, compro toneladas de bala 7Belo ou dezenas de entradas de cinema. Ou, ainda, uma caixa de novas agendas.

Clara McFly às 10:21 AM

segunda-feira, 27 de junho de 2005

Samba do italiano doido

Como tanta gente boa, ele nasceu e morreu pobre. Pobre mesmo, de pedir ajuda aos parentes e amigos. O caso é que todo o dinheiro ganho com a música foi diluído nas beberagens do botequim. Pudera: se suas incríveis canções nasceram mesmo foi do bate-papo com amigos, entre uma birita e um torresmo, porque haveria de se afastar deles? Foi em meio às pinguinhas e os sambinhas que viveu o grande Adoniran Barbosa.

Como meus avós, ele foi um homem muito simples. Vai ver por isso ficou tão marcado que, nas palavras cantadas de Adoniran, estavam as histórias e a lembranças dos velhinhos da minha família. Desde pequena me acostumei a ficar na roda de conversas deles – que, em geral, versavam sobre bobagens do dia-a-dia e a memória dos tempos antigos.

Meu pai dividiu seu quarto de criança com dois irmãos e um primo até casar. Isso porque meu avô, apesar de pedreiro de mão cheia, não tinha tostão no bolso para aumentar sua própria casa. Se há alguém que cantou como nenhum outro essa face dos imigrantes no Brasil, foi o seo Adoniran Barbosa.

Daí acontece de ouvir “Saudosa Maloca” e, em instantes, pensar em como devia ser essa história de se ver como estrangeiro neste país novo. A letra, um primor de descrição, conta como se sentiu a gente do cortiço quando a polícia botou abaixo seus barracos. “Cada tauba que caía, doía no coração”. O Matogrosso quis gritar, mas em cima ele falou “os hôme tá com a razão, nóis arranja outro lugar”. Triste e sofrido – mas com aquele toque cômico que só os carmacamos sabem dar.

Adorinan, na verdade, se chamava João Rubinato. Mas ele considerava o óbvio: isso não era lá nome para um cantor de samba. Filho de italianos, bem cedo largou a escola e foi trabalhar com tecelagem, de garçom, de balconista. E como gostava de compor suas histórias em forma de música, na década de 30 passou a arriscar a pele nos programas de calouros. Foi desclassificado inúmeras vezes, porque era meio fanho, meio rouco. Mas essa era a graça. E, felizmente, alguém notou rápido.

Também era muito divertido o modo dele escrever as letras. Os erros de português propositais fizeram Vinicius de Moraes criticar o malandro Adoniran, mas cadê que ele se importou? Em resposta, o pirracento musicou um poema do adversário e o transformou em valsa.

Os vacilos verbais, segundo o próprio, aproximavam a música do povo, que falava errado mesmo. Minha avó, até hoje, ainda diz “parteleira”, poxa. Ela adorava cantar uma modinha em que o sujeito dizia “seu olhar mata mais que atropelamento de artomóvel/ Mata mais que bala de revórver”. Apesar de prezar muito a língua-mãe, me animo à beça de cantarolar algo chamado “Tiro ao Álvaro”!

Ainda mais porque as canções de Adoniran Barbosa são o que há de mais inocente. Na obra citada acima, ele diz: “De tanto levar frechada do seu olhar/ Meu peito até parece sabe o que?/ Táuba de tiro ao Álvaro/ Não tem mais onde furar”. As boy bands devia aprender como esse senhor como é que se faz baladinha de amor.

É assim também com “Trem das Onze”, famosa por mostrar como se sente o pobre rapaz que precisa deixar a guria para trás porque, proletário que só ele, necessita de apanhar o último transporte público. E ainda conta que a mãe não dorme enquanto ele não chegar. Coisa de filho único mesmo... Filho único de mãe italiana, por sinal. Se Adoniram fosse francês, a mãe ia se lascar sozinha lá no Jaçanã.

O público se identificava com ele por isso. Nos anos 50 e 60, quando as músicas foram gravadas, o comportamento familiar de bairro era só o que se conhecia. Globalização, que nada. O negócio era marcar uma roda de samba com os colegas. Menos com o Ernesto – o “Arnesto”, no caso. Porque bem cantou Adoniran: ele convidou pra um programa, mas não estava em casa quando o pessoal chegou.

“O Arnesto nos convidou/ Prum samba, ele mora no Brás/ Nóis fumo e num encontremo ninguém/ Nóis vortemo com uma baita de uma reiva/ Da outra vez nóis não vai mais”. Esse era o comecinho do imortal “Samba do Arnesto”. Entendi a mágoa do Adoniran, mas não o que ele diz depois: “nós não semo tatu”? Como assim, homem? Deve ser uma gíria, porém ignoro o sentido.

“As Mariposa” sempre me fez rir da burrice dos insetos que se auto-fritam na lâmpada. “Torresmo à Milanesa” é o clássico da marmita – e me dá a maior fome quando o Dito diz “truxe ovo frito”. Mas talvez a melhor letra de Adoniran seja “Iracema”. Inspirada em uma notícia de jornal, ele conta sobre a moça que não olhava para atravessar a rua. Morreu de atropelamento, a desavisada Iracema.

Já Adoniran Barbosa faleceu foi no hospital mesmo. Esquecido por todos, inclusive pelos amigos do bar onde ele tinha mesa cativa, no centro de São Paulo. Um fim triste para o cidadão que mais faz lembrar as engraçadas mazelas dos meus parentes e suas malocas. “Dim dim donde nóis passemo dias feliz de nossas vida”.

Ad_Barbosa.jpg
Era um véio aprumado, hein, Iracema?

Fla Wonka às 10:17 AM

sábado, 25 de junho de 2005

Por onde andei

Quando eu somava pouca idade, achava simplesmente o máximo uma ida ao sítio do meu avô, em Sorocaba. Costumava também perder o sono às vésperas da visita aos primos que moravam em Piracicaba. E ainda contava os dias, ansiosa, para passar uma temporada praiana na casa da minha avó, em São Vicente. Os trajetos eram curtos e os lugares, conhecidos – mesmo assim, alguma coisa me dizia que viajar podia ser emocionante.

Aos 10 anos, fui arrastada pelos meus pais para uma excursão européia em família. Mas a única cena que ficou guardada na memória foi a chegada em Roma: estávamos seguindo para o hotel quando, de repente, o ônibus fez uma curva. Da janela, vi o Coliseu aparecer, igualzinho às fotos dos livros de História. Ali eu senti que viajar não é só emocionante. É preciso. Seja para o interior paulista ou para uma cidade milenar.

Deve ter sido naquele momento que o espírito mochileiro se apossou do meu ser. Desde então, tenho caído na estrada sempre que o dinheiro possibilita a empreitada. E nessa deliciosa forma de entrar no vermelho no banco, já vi algumas maravilhas...

1) Cataratas do Iguaçu, Brasil/Argentina
Seja do lado argentino ou do lado brasileiro, a quantidade de água emociona. A tal da Garganta do Diabo, a queda mais impressionante de todas, faz um barulho ensurdecedor – e dá a maior vontade de fazer xixi. Em volta, muita natureza para ver: bromélias, colônias de borboletas coloridas e até revoadas de tucanos.

2) Fez, Marrocos
De repente, parece que você caiu em uma seqüência de “Star Wars”. Fez, um povoado medieval totalmente murado, lembra as cenas no deserto com o Povo da Areia não apenas pela coloração clara das construções, mas por aquelas roupas que deixam apenas os olhos das mulheres à mostra. Dá medo, mas é inesquecível.

3) Bath, Inglaterra
Há 2000 anos, os romanos resolveram fazer da cidade inglesa um spa. Aproveitaram a água quente que brotava do chão e criaram piscinas, saunas, salas de relaxamento, tudo decorado por estátuas e mosaicos. Em volta do complexo, campos verdes e casinhas que parecem ter sido criadas para bonecas.

4) Ouro Preto, Brasil
Como as fotos turísticas costumam mostrar apenas a Praça Tiradentes, achava que Ouro Preto não passava muito daquilo. Quase caí para trás quando cheguei e vi que as ruelas de paralelepípedo, os casarões e as igrejas seguem até perder de vista. E a comida? Um lugar para ir e não querer voltar.

5) San Pedro do Atacama, Chile
No meio do deserto de Atacama está um amontoado de casinhas chamado San Pedro. Não há asfalto, as construções são de argila e a eletricidade chegou há poucos anos. O banco mais próximo está a quatro horas de distância. Ironicamente, há cafés com Internet e ótimos restaurantes. E um céu estrelado...

6) Glaciar Perito Moreno, Argentina
Nunca imaginei que um mundaréu de gelo poderia me tirar o fôlego. Mas Perito Moreno tem 195 km2 de extensão e pelo menos 30 mil anos de idade. Em dias ensolarados, como o que eu tive a sorte de estar, ele fica completamente azul. Vontade de pegar a groselha e fazer uma raspadinha pré-histórica!

7) Pompéia, Itália
Dizem que, no século 18, um comerciante resolveu cavar um poço no local e descobriu uma escadaria. Quando arqueólogos chegaram, viram que debaixo do solo havia ruas, casas, praças e até estádios, tudo soterrado devido à grande explosão do Vesúvio. É o que mais se assemelha a uma cidade fantasma.

8) Machu Picchu, Peru
Machu Picchu é ainda um grande mistério. Não se sabe qual era sua função real. Também há dúvidas sobre o motivo da escolha daquele local específico, e sobre como os incas conseguiram levar tanta pedra lá para cima da montanha. Com tanta beleza ao redor, porém, teorias e dúvidas são o que menos importa.

9) Alhambra, Espanha
Ele é conhecido como o maior monumento mouro da Andaluzia, região no sul da Espanha. Mas o palácio Alhambra, em Granada, é, fácil, uma das coisas mais lindas em que já botei os olhos. Salas com paredes esculpidas e jardins floridos cheios de fontes compõem a construção que toma um dia todo para visitar.

10) Luxor, Egito
A antiga capital Tebas é o lar de templos como Karnak, do Vale dos Reis, da tumba de Tutancamon. Desde que eu peguei um livro de História pela primeira vez, sonho em ir para o Egito. Completei meu sonho pela metade: fui para Luxor, mas ainda falta o Cairo. Melhor assim. Tenhos motivos de sobra para voltar.


egito.jpg
Esfinge, querida, me aguarde!


Vivi Griswold às 11:12 AM

sexta-feira, 24 de junho de 2005

Eu me lembro

Se você me perguntar o que almocei ontem, talvez eu não seja capaz de lhe dar uma resposta de pronto. Também costumo me esquecer de onde deixei as chaves do carro e de se realmente fechei a janela da cozinha antes de sair. No entanto, misteriosa como ela só, minha memória gravou detalhes e fatos muito – mas muito mesmo – mais antigos do que os ocorridos há poucas horas.

O critério desse implacável mecanismo de lembranças eu desconheço. Não sei como a minha caixa de giz de cera dos Barbapapas, objeto de minha alegria e paixão aos quatro anos, ficou aqui, enquanto que o menu do almoço de ontem se foi. Talvez aí esteja uma dica: o valor que se dá às coisas. Eu aposto que ainda terei milhares de almoços com arroz, feijão, bife de panela e salada de alface americana. Já caixas de giz dos Barbapapas... como diria o corvo, nevermore.

Federico Fellini, cineasta e malucão, intitulou um de seus filmes de “Amarcord”. Ao que me consta, a palavra significa “eu me recordo” no dialeto italiano que o homem cresceu ouvindo. Pois eu também tenho cá minhas recordações.

Amarcord...

... de pensar que o céu estava indo embora
É minha mais antiga memória. Eu tinha uns três anos e estava comendo danoninho sentada no quintal da minha avó. Olhei para o céu e as nuvens passavam depressa, com o vento. Sem noção para fazer o julgamento correto, acreditei no que meus olhos viam e corri apavorada, a fim de alertar minha mãe do perigo iminente: “o céu tá indo embora!”. Entrou para os anais da família.

... do gosto de sangue deixado pela queda do dente
Também me lembro da sensação de ter um dente (de leite) mole. Ficava empurrando-o com a língua, para lá e para cá. Quando estava por uma pelinha, minha mãe arrancava o infeliz, com a mão embrulhada numa toalha. Dava ânsia aquele monte de pano na minha boca. Quando ela tirava, sobrava só o gosto do sangue. E aquele buraco molenga onde outrora vivera o dente.

... de uma certa blusa de lã colorida
Ela era minha peça de roupa favorita no mundo quando eu tinha 10 anos. Eram grandes faixas tricotadas, uma de cada cor. Tinha vermelho, amarelo, cor-de-rosa, azul escuro e clarinho. Lembro até que eu usava exatamente esta roupa quando minha prima Mariana nasceu lá no sobrado, em 3 de junho de 1988. Mas isso é por assistir tantas vezes a fita de vídeo do dia do nascimento...

... de um bueiro enorme que tinha na rua do sobrado
Ficava diante de um portão, três casas para baixo da minha. Bem em frente à casa da Vanessa, minha amiguinha, cujo irmão – o Rodrigo – era meu par oficial nas festas juninas da rua. O maldito bueiro engolia todas as minhas bolinhas de taco, barquinhos de papel, pedras de amarelinha e brinquedos de rolar em geral. Parecia um buraco negro. Ainda o vejo em sonhos.

... do cheiro da merenda no pré
Meu dia favorito era quinta, quando se servia para a petizada pão com carne moída. Até hoje tenho vontade de comer tal sanduíche e, por mais que tente, nunca consegui repetir a receita. Em compensação, na segunda-feira eu queria morrer. Era dia de pão com manteiga – o que nem seria tão ruim, não fosse um detalhe: a manteiga era com sal. E eu sempre detestei manteiga com sal.

... de ouvir o “Jornal da Manhã” na Jovem Pan AM
Isso porque às vezes meu pai me levava à pré-escola de carro, antes de ir trabalhar. Na carona, eu tinha de escutar o que ele escutava – ou seja, a Pan AM. Os versos “a cidade não desperta, apenas acerta a sua posição... vam’bora, vam’bora, olha a hora, vam’bora” e os locutores dando o horário com aquele timing bizarro (“7 e 15”; “Rrrrepita!”; “7 e 15”) ficaram grudados para sempre.

... de pegar onda nas costas do meu pai
Durante toda a infância, passei sagradas férias de verão na praia. Pirralha, não apreciava muito a areia melequenta, mas gostava do mar. Porém, só podia ficar no rasinho. Daí, era a glória quando meu pai me levava até o “fundão” e a gente voltava de jacaré – eu presa com todas as minhas forças nas costas dele, apavorada e excitada, intercalando a garganta entre risos e o gosto de sal.

Clara McFly às 10:23 AM

quinta-feira, 23 de junho de 2005

Como é bom ser sith

Sempre achei muito cômodo ser bandido. Não há regras para eles. É só pisar sobre os livros-guias da boa educação, do decoro e da honestidade e mandar ver para cima dos bonzinhos. Gente ruim pode tudo. Os legais, por sua vez, passam anos comendo grama. No final, costumam se dar bem, enquanto o malvado queima em um poço de piche ou se afoga no ácido. Mas nesta altura da vida começo a achar que é melhor ir ao Lado Negro da Força, porque ser Jedi dá um trabalho louco.

O fatídico “Episódio III – A Vingança dos Sith” foi que deu saída na tese. Sempre achei bacana defender a galáxia do Império e quis, ao lado de Luke, Leia e do gatão Han Solo, resgatar a Democracia. Durou cinco filmes. Agora, cansei. Passei a achar que gente boa não está com nada. Bom mesmo é ser sith.

Por que? Ora essa. O primeiro motivo, já vemos no modo de se expressar! Aposto que, a essa hora, os jedis estão fazendo alguma palestra sobre a forma politicamente correta de se referir aos inimigos. E, assim como os tradutores brasileiros, passaram a dizer “Lado Sombrio da Força”. Sombrio em vez de Negro. Logo eles deverão trocar por “Lado Afro-Americano da Força”. Mocinhos estorvam com essa mania de serem imaculadamente corretos.

Vale a pena sofrer por incontáveis anos até conseguir destruir o bandido e, assim, viver feliz para sempre? Ou melhor é aproveitar do modo vilanesco de ser, se dar bem durante mil sóis e encarar o castigo? Começo a crer na segunda versão... Até porque, matutei muito sobre os pontos abaixo e conclui que ser sith é melhor. Siga-me:

Pode casar
Aliás, pode até comprar uma esposa por catálogo, mandá-la se vestir com roupas de odalisca e exigir massagem nos pés. Os coitados dos guerreiros jedi precisam salvar um universo inteiro na seca total. Nem selinho é permitido! Aposto que, no fim do dia, todos os sith vão ao bar se divertir, enquanto os jedi estão de joelho no milho, açoitando as próprias costas devido aos pensamentos impuros.

Pode matar à vontade, como quem troca de cueca
Para quê tanta luta de espada se, no final, os bonzinhos não têm a manha de eliminar o inimigo? Batem, batem, batem, saltam, chutam, estocam o adversário. Na hora de levar à cabo a diferença, passam lição de moral. Os sith nem precisavam levar com o sabre de luz no peito para morrer... Basta ouvir dois minutos de sermão jedi que já podia falecer. De tédio.

Não precisa decidir pela ética nos momentos críticos
Deve ser estafante à beça ter que raciocinar, em meio ao conflito, o que fazer. Acertá-lo de leve no abdômen, para ver que o assunto é sério? Compreender que o malvado é perturbado e dar-lhe uma segunda chance? Convidá-lo para uma xícara de chá em um restaurante charmosinho de Tatooine, afim de discutir a relação? Os maus decepam logo a cabeça e a levam como enfeite para a mesa da sala. Bem mais determinados.

Pode praguejar
Ser coisa-ruim é muito liberador. Não há aquela necessidade de posar de gente fina o tempo inteiro, sendo amável, proferindo palavras de sabedoria e reciclando o lixo. Quando Darth Vader topa com o dedinho no armário da cozinha na Estrela da Morte, garanto que ele solta um belo palavrão, se recompõe e segue mancando. Obi-Wan deve juntar as mãos e agradecer pelo ensinamento de que “é quebrando ossos que se constrói um herói”. Bah... que boiola.

Deve esculachar com os figurantes
Se os nomes daquele monte de Storm Troopers nem está nos créditos, por que ter piedade? Sair dando pitos e uns pontapés nos guardinhas deve ser relaxante aos homens maus do comando. Não vejo Palpatine pedir “por favor” ou dizer “obrigada” em nenhuma cena. Por isso ele tem tudo o que quer rapidinho! Veja se alguém obedece ao Yoda, aquela gentil alcaparra?

Veste a roupa mais style
Vamos concordar: aquele traje de algodão jedi mais parece um saco de batatas amarrado na cintura. Deve pinicar loucamente o pescoço e fazer suar no sovaco. Infinitamente mais espetaculoso é vestir uma armadura de vinil preto, capacete polido com cera automotiva, botas de reprimir manifestação e capa. Capa! Quem não quer usar capa?? Eu quero.

Fica mais famoso
A não ser a mãe do Mark Hammil, alguém mais torceu de fato para o Luke Skywalker? Com aquela cara de goiaba? Sério? Posso apostar que 9 entre 10 meninos mantém, grudado na parede do quarto, um pôster de Lord Vader – já vestido como tal, e não na versão Anakin Skywalker. É legal ter gente boazinha no mundo, mas o vilão é que fica registrado na memória. Neste momento, queimei meu manual de como ser legal. Que venha o Lado Sombrio! Ah, droga... O Lado Negro, Negro, Negrão!

Darth_Vader.jpg
Anakin é o c*, meu nome
agora é Darth Vader, porra!

Fla Wonka às 11:30 AM

quarta-feira, 22 de junho de 2005

Linhas finas e letras pequenas

Tenho uma pilha de livros interessantes esperando em fila por mim. Mas de uns tempos para cá meus hábitos de leitura mudaram radicalmente: ando correndo tanto que sempre me esqueço de parar um pouco e abrir uma brochura. Quando isso acontece, só consigo ler um par de páginas – mal começo e o sono já bate. Pelo menos um outro hábito de leitura, mais expresso e mais momentâneo, permanece: sim, eu leio rótulos e embalagens!

Não apenas porque gosto de conhecer as propriedades daquele produto e qual o melhor modo de usá-lo, mas porque... Bem, porque virou mania e mania nunca possui uma explicação plausível e racional, certo? O fato é que basta cair uma embalagem nova nas minhas mãos que eu a viro e já começo a me entreter naquelas letras minúsculas.

Muitos compartilham desta atividade, principalmente pela manhã. São inúmeras as pessoas que, logo cedo, já se atiram na leitura da caixa de Sucrilhos. E como evitar se é tão divertido? Na parte de trás, costuma haver uma atividade com o Tigre Tony que rende alguns minutos de concentração – seja ela um labirinto, um quebra-cabeça ou um jogo dos 7 erros. Nas partes laterais, informações sobre o valor energético do alimento, a quantidade de caloria e outras notas nutricionais nos preparam para um dia cheio.

Minha mania pela leitura de rótulos e embalagens com certeza teve início naquela prática matinal, mas hoje já alcança todos os momentos e situações diárias. No banho, por exemplo, é inevitável dar uma espiada no que diz o frasco de xampu, nem que seja pela décima vez. É que eu gosto de relembrar o que o cosmético capilar vai fazer exatamente às minhas madeixas, sabe? Então, enquanto o condicionador faz efeito...

Nisso, eu já me deparei com algumas curiosidades. Não pense você, leitor, que não podemos nos divertir com um recipiente de sabonete líquido! O meu, após dizer que “é 90% mais eficaz no combate à proliferação de bactérias que os sabonetes comuns”, cita o modo de usar. Peraí, modo de usar para um sabonete? Pois é! Vem escrito assim: “Espalhe Protex Sabonete Líquido por todo o corpo e rosto, com uma esponja ou com as mãos, até formar uma rica e cremosa espuma. Enxágüe”. Ah, bom! Achei que fosse para passar no pão!

Outro dia notei que meus cachos estavam secos e quebradiços. Coisa que só mulher repara. Enfim, comprei um sachê com hidratante “de choque” e, enquanto deixava o produto agir pelos 15 minutos sugeridos na embalagem, ri à beça com os demais escritos. Começava assim: “Seus cabelos são rebeldes, difíceis de alisar? Secos, ásperos, é sempre difícil penteá-los?”. Parece ou não propaganda das Organizações Tabajara? Fora que eu adoro aqueles termos como Hidraloe, Nutrileum e D-Panthenol, os quais nem o farmacêutico deve conseguir explicar.

Por falar no técnico responsável, você sabia que se o seu esmalte (ou o da sua namorada) der chabu, a culpa é do Luiz Carlos L. Esteves? É isso que informa o frasco de “Esmalte Colorama Maybelline longa duração, maior resistência e mais brilho”. E, para tirar a cor das unhas, será necessário um removedor que “substitui acetona”, que precisa ser preservado “em local fresco à uma temperatura não superior a 40º C” e cuja venda “é proibida para menores de 18 anos”. Também vem escrito que “a inalação deste pode causar ‘ a morte’”.

Apesar de nem todos serem tão alarmantes assim, a grande maioria dos produtos de limpeza, higiene e beleza vem com o aviso “Uso externo. Manter fora do alcance das crianças”. Desculpe, pequenos. Mas vocês precisarão crescer mais um pouquinho para conseguir adentrar nesse mundo curioso da leitura dos rótulos. Enquanto isso, só o Tigre Tony pode entretê-los.

Vivi Griswold às 10:01 AM

terça-feira, 21 de junho de 2005

Serviço de utilidade gúglica

Eu sei que já fizemos isso antes – e mais de uma vez. Mas as entradas no Garotas a partir de estranhíssimas buscas no Google (ou em outro mecanismo de pesquisa qualquer) continuam a me surpreender. Receber o clique de um internauta que estava atrás de “colegiais safada” (sic), “BIZARROS E FANTASMAGÓRICOS” (assim mesmo, com as letras grandes) ou “modo de fazer bijoteria” (sic também) é estranho – afinal, como eles vieram parar num site de textos a partir disso? Mas mais esquisitas ainda são as buscas em si.

Para ajudar estas pobres almas perdidas no mundo das 8.058.044.651 páginas que o Google jura atingir na web, decidi reunir algumas pérolas e ajudar os intrépidos pesquisadores que as criaram. Assim, tentarei responder às dúvidas e anseios destes cristãos, na esperança de que, da próxima vez que empreenderem tal busca esdrúxula, eles se deparem logo com este texto e a resposta exata (ou quase isso) ao que procuram.

como saber se a simpatia da banana funcionará
Primeiro eu precisaria saber a qual simpatia da banana você se refere. Afinal, banana é mato em simpatias. É um tal de cravar um punhal (virgem, claro) na banana, descascar a banana num pires (virgem, lógico), besuntar a banana no mel (virgem também, por certo. Aliás, como seria um mel virgem?). Mas já adianto que, no caso desses procedimentos da sabedoria popular, só tem uma maneira de saber se deu certo: pagando o mico de fazer.

fotos de cantores brasileiros que cantavam em inglês nos anos 70
Caro internauta: seria mais eficiente descobrir quem eram os ditos-cujos e, depois, usar a ferramenta Imagens. Lá, pesquise nome a nome. Morris Albert (ou Mauricio Alberto), com a corte-meus-pulsos-agora “Feelings”, foi o maior deles. Jessé era o Tony Stevens e Ralf, do Christian & Ralf, atendia por Don Elliot. O Fabião, velho conhecido dos textos desse site, é outro. Ele cantava sob a alcunha de Mark Davis ou... Uncle Jack (não me pergunte).

o que são dígrafos
Vale repetir uma dica: o Google, por mais milagroso que pareça, não é o Oráculo de Delfos. Ou seja, não adianta fazer perguntas assim, formuladas, para ele. O melhor é usar palavras-chave; nesse caso, bastava digitar “dígrafos”. Vamos lá: dígrafos são grupos de duas letras que representam apenas um fonema. Ou seja, embora esteja escrito “CHá", lemos apenas “Xá”. Outros exemplos: iLHa, aRRoz, maNHa, eXCeSSo. Olha, dois num só!

imagens do personagem urubu na new wave
Er... Quem diabos é urubu? E o que ele estava fazendo na “new wave”?

Como que as aves envelhecem objetos ingeridos
Aves ingerem objetos para envelhecê-los? Jura? Achei que engolissem por serem parvas demais para diferenciar um abajur de uma espiga de milho. Talvez você esteja se referindo aos avestruzes, coitados, que engolem qualquer coisa. Acho que os ácidos estomacais cuidam de “envelhecer” as tranqueiras. Mas, no caso de querer dar aos objetos um aspecto antigo, sugiro que você apele para o bom e velho betume.

como pegar garotas
A não ser que o valoroso navegante tenha sete anos e queira descobrir como alcançar as meninas mais velozes no jogo de pega-pega, tenho apenas uma dica para você: pare de usar o verbo “pegar” ao se referir às moças. Seu ibope deve começar a aumentar apenas com isso.

Tom Cruise em revista pousando peladão
Três coisas – primeiro, posar, no sentido de fazer poses para fotos, dispensa esse U aí no meio. Segundo, “peladão” é um termo deveras coloquial, para dizer o mínimo, para uma pesquisa, hein? Terceiro, o Cruise nunca posou pelado, muito menos “peladão”, para uma revista. Resumindo: esqueça.

Daileon ringtones
Pô, se você achar, me avisa! Quero baixar também.

comado para matar/ filme
Que tal tentar “comando para matar”? Pode ajudar bastante. É que a busca não foi realizada no Google; se fosse, nosso querido oráculo moderno traria, em link no alto da página de resultados, aquela simpática pergunta: “Você quis dizer comando para matar?”

foto do ricky martin e menudo
Fiquei na dúvida se seria uma foto do Ricky Martin quando ele ainda tinha todos seus dentes de leite e integrava o furacão porto-riquenho ou se seria um retrato do rapaz e outro da trupe que formava a boy band latina. Vou apostar na primeira opção, já que fotos do Ricky atuais abundam na net. Segura aí.

rickyemenudo.jpg
Ricky, em primeiro plano, toma sua
pepsi junto aos colegas de trabalho

Clara McFly às 10:31 AM

segunda-feira, 20 de junho de 2005

Lava a boca com sabão!

Quando eu era criança, qualquer brincadeira em grupo só podia resultar em violência. Fosse uma partida de alerta, barra-manteiga ou corre-cotia, tudo sempre acabava em tapas, rasteiras, choro e, óbvio, xingamentos. O palavreado chulo permeou toda a minha infância – afinal eu sou de família italiana e praguejar é nossa atividade predileta depois de comer. Bom, eu sempre fui uma adepta dos palavrões. Com a idade chegando, porém, eles estão ficando mais amenos. Ou não?

Ah, estão sim. Porque era muito comum, na meninice, berrar um belo “féladaputa” na cara dos coleguinhas inimigos. Assim, de boca cheia (e suja). Hoje já não tenho a mesma desenvoltura com os palavrões. Fico com vergonha, tenho a impressão de que a língua vai secar e cair por causa da má educação. Coisas que a idade e a consciência trazem.

De pequena, isso não existia. Meu grilo falante mental nunca barrou os nomes feios – e lá ia eu disparar um “vá se f*...” por qualquer motivo. Depois de levar um empurrão no jogo de mãe-da-rua, esta gentil princesa aqui não conseguia se parecer menos com um estivador de beira de cais. E ao longe se escutava ecoar um bonito e suave “seu viadinho de merda!”. Perdoe, por favor, o meu francês...

Atualmente, percebi ter adaptado os xingamentos podres e vergonhosos por palavras mais, digamos, esculpidas. São horrendas do mesmo jeito, e eu costumo me arrepender de ter dito aquilo em 0,2 segundo. Mas ainda bem que, pelo menos, amenizei os termos. Agora é muito mais comum usar os seguintes.

10. Morfético
Muito utilizado para designar motoristas lerdos no trânsito e jogadores de futebol que ganham muito e correm pouco. Nem chega a ser palavrão, vá? Segundo o dicionário, é apenas algo relativo a Morfeu, o deus do sono, e ao indivíduo molengão. Mas chamar de morfético é mais forte.

9. Quadrúpede
Ainda acho que é mais uma ofensa aos pobres bichos do que às pessoas. Afinal, os bípedes conseguem ser, muitas vezes, bem estúpidos. Uso apenas porque, assim, o sujeito entende logo o que pretendo dizer: se o colocarmos de quatro num gramado, ele pasta tudinho, de tão burro.

8. Lazarento
Eu falo, mas baixinho. É horrível demais chamar alguém por esse outro sentido de “leproso”. Eu sei, eu sei, desculpe! Mas é que ainda não consegui me livrar dessa forma hedionda de xingar. E eu juro: só uso mesmo para políticos corruptos e gente que maltrata criança e velhinho. Juro.

7. Paquiderme
Quem faz corpo mole vive na minha mira. O estilo paquidérmico de levar as coisas é de deixar doente. Pela tradução literal, este é um gênero animal, como os hipopótamos e rinocerontes. Mas eu não utilizo como forma de enxovalhar os mais robustos, viu?! Sou malcriada, mas nem tanto.

6. Safardana
Ô, modo arcaico de falar... Xingar como a tia futriqueira de bairro é minha especialidade. Por isso, os malandros e espertinhos não fogem à essa antiga forma de designá-los. Também adoro usar “pulha”, mas tenho medo de não ser compreendida. Ou de acharem que tenho 74 anos.

5. Sirigaita
É parente daquela outra, a lambisgóia. Mocinhas atiradas, despachadas e desinibidas são isso mesmo, pronto. Detecto as sirigaitas há quilômetros de distância, sempre usando perfume demais e/ou aquele olhar de peixe morto. Xingo mesmo, essas merecem.

4. Vagabundo
Quando repito, lembro de um chefe que tive. Para ele, quase todo mundo era vagabundo – desde quem não fez seu trabalho até artistas, milionários, aposentados, adolescentes e mendigos. Tudo vagabundo. Não concordo, mas é engraçado dizer. De preferência, bem devagar: va-ga-buuuun-do.

3. Larápio
Chamar alguém de ladrão? Eu não! É muito ofensivo. Muito mais elegante é sacar um “larápio” ou “gatuno”. Até porque, quem rouba coisa pouca é apenas mão-leve, não precisa exagerar. Ladrão de verdade a gente chama de lazarento, conforme já comentado.

2. Cagüeta
Olhaí mais um modo ameno de alardear um traidor. Não gosto de levantar testemunho sem provas, então um traidorzinho mequetrefe costuma virar, para mim, um cagüeta. Chamar de “Judas!” também vale. Mas só se os demais tiverem conhecimento bíblico.

1. Xarope
Aí está meu xingamento mais utilizado desde os brincadeiras de corre-cotia. Por que? Simplesmente porque ele congrega tudo, todas as formas de desmoralizar o adversário. Malucos, bobalhões, chatos, contraventores, mal-educados, grosseiros... Tudo xarope! Preciso lavar a boca com sabão? Nem tanto, poxa.

Fla Wonka às 10:39 AM

sábado, 18 de junho de 2005

Que bela produção!

Trata-se, praticamente, de uma entidade. Um grupo de pessoas sem rosto e sem nome definidos, mas com uma lista de utilidades que não possui fim. São “mão para toda obra”, como se diz, e devem trabalhar de sol a sol para conseguir dar conta de tarefas que vão desde arrumar roupa para a tiazinha da Vila Matilde até comprar um buquê de flores do campo para o analista de sistemas perdoar a atendente de telemarketing infiel. Não podem vacilar. Também, com um patrão daquele...

Eu sempre imaginei que a Produção do SBT (assim mesmo, com letra maiúscula, pois estamos falando de um patrimônio da televisão brasileira) fosse um bando de Umpa Lumpas – centenas de anões idênticos, usando suspensórios e cabelo verde. Ok, talvez sem o cabelo verde. Todos, é claro, liderados pelo sapientíssimo Roque e conduzidos sob os olhares atentos de seu Silvio Santos.

Minha curiosidade nas criaturas é constantemente atiçada. Basta assistir a qualquer programa do Homem do Baú para notar a presença desses trabalhadores braçais ocultos. Afinal, o próprio apresentador faz questão de checar a eficácia de sua equipe no ar a todo o momento. No “Show do Milhão”, por exemplo. Quando ele formulava aquela mini-entrevista com o participante antes de jogar nele dezenas de perguntas inúteis e de respostas engraçadíssimas.

Silvio: “Foi a primeira vez que você andou de avião?”
Participante: “Foi sim, seu Síuvo”
Silvio: “Veio sozinho?”
Participante: “Não, vim com a senhora minha esposa, seu Síuvo”
Silvio: “Estão num hotel bom? A produção está tratando vocês bem?”
Participante: “Tá tudo bom demais da conta, seu Síuvo”.

Ou seja: a Produção era responsável por arrumar passagens aéreas para o casal e providenciar um hotel decente para os dois ficarem. E ainda era botada na berlinda diversas vezes por noite. Já pensou o que aconteceria se o participante respondesse “Não, seu Síuvo, tua produção cuspiu no meu sapato novo e ainda chamou a minha véia de bruaca”? Iam todos parar no pelourinho do gabinete do chefe.

Toda a malemolência, o ziriguidum e o telecoteco da Produção do SBT eram colocados em prova mesmo na atração “Topa Tudo Por Dinheiro”. Ali, precisavam não apenas arranjar ovos cozidos e crus para a prova do “Xampu de Ovo”, ou fazer dobraduras de aviões em notas de 10 reais, ou distribuir pompons coloridos para as 6.927 senhoras presentes no auditório.

A missão maior dos trabalhadores era arranjar objetos de cenas inusitados e fantasias para as tiazinhas. Vestir uma “colega” sexagenária de índia Iracema não é nada fácil: mas a Produção conseguia. Também arrumava todos os detalhes daquele quadro em que o pobre marido era chamado ao programa sem saber de nada e ficava tomando chá de cadeira no camarim. Enquanto isso, sua mulher, no palco, precisava dizer para o Silvio se o homem iria ou não olhar dentro da carteira esquecida em cima do sofá.

Parece tudo muito difícil e trabalhoso – mas eu tenho a mais absoluta certeza de que a Produção se divertia à beça e que suas missões eram feitas sob o som de gargalhadas. Basta pegarmos o programa “Em Nome do Amor” (ou qualquer uma de suas versões) para vermos que os trabalhadores jamais perdiam o senso de humor.

Assim que a convidada ou convidado adentrava o palco em forma de coração, Silvio Santos perguntava “Essa roupa é sua ou foi a produção quem arrumou?”. A moça ou o rapaz respondia, envergonhada(o), que havia sido a Produção.

E que maestria para montar figurino! Nas jovens, tratavam de enfiar um tailleur de vilã de novela mexicana, sem mencionar a maquiagem e o penteado que envelheciam as coitadas em uns 15 anos. Nas senhoras, trajes de freqüentar o culto aos domingos – saias batendo no calcanhar e blusas com botões dourados. Nos homens, terno de defunto. De preferência cinza claro, com gravata salmão.

É por tudo isso que eu tiro o meu chapéu invisível para os funcionários que compõem a entidade chamada Produção. E quando seu Silvio Santos bater as botas (isola!), eu vou ficar 17 horas na fila do velório na Câmara Municipal não apenas para me despedir do grande brasileiro que ele foi, mas para tentar identificar, entre as expressões chorosas, alguns componentes desse ilustre grupo.

Se eles estiverem de peruca verde, ficará bem mais fácil.


silvio.JPG
Será que a Produção também
lustrava o microfone do Silvio?



Vivi Griswold às 10:21 AM

sexta-feira, 17 de junho de 2005

O que foi que ele disse?

O ano era 1989. Eu contava onze tímidos verões e adentrava a quinta série do Colégio São Bernardo, trajando um uniforme azul e branco com calças de helanca e aquele bolso-saco costurado por dentro do cós. Depois de quatro anos primários assistindo a aulas de Inglês que não passavam de palavras soltas, como pen, pencil e book, finalmente começaríamos a aprender algo decente na disciplina. E, ao mesmo tempo, eu despontava para o fabuloso mundo do rádio – era demais ouvir sua própria música, e não os discos da sua mãe e do seu pai.

Pode parecer que as aulas de Inglês não teriam nada a ver com o início da formação de minha personalidade musical, mas não se engane. Esse dois elementos estavam intimamente ligados no caminho de pedras que era conseguir uma música na era pré-internet e antes de você diferenciar push de pull.

Tudo começava com a parada de sucessos da rádio. Eu ouvia alguma coisa legal, diferente, interessante e inovadora. (É bom lembrar que, à época, Technotronic já era o suficiente para preencher tais requisitos. Não riam). Isto posto, era necessário ficar de ouvidos colados à caixa para tentar entender o nome da banda ou da música que acabara de ser executada.

Era a primeira barreira: os locutores despejavam uma dúzia de palavras em um inglês de sotaque forçado e eu, armada em parva na frente do rádio, tentava anotar alguma coisa: “O que foi que ele disse? Tequinotról? Tequinotrong? Droga”. Aí, toca a esperar a próxima execução da música, desta vez com a fita virgem a postos e o dedo no botão do rec.

Depois que a gente finalmente conseguia gravar a danada, desviando dos jingles das estações e dos apresentadores que insistiam em dizer as horas por cima dos últimos acordes, o passo seguinte, claro, era querer cantá-la. Pronto! Vinha novo round de dificuldades. Aí entram as aulas de inglês – ou a falta de domínio do idioma.

Se hoje basta pegar poucas palavras do refrão de alguma música e digitá-las no Google para obter o nome da canção, seu intérprete e sua letra – às vezes traduzida –, naqueles duros anos não tínhamos recurso algum. Quer dizer, tínhamos. Mas eles eram um tanto ridículos.

Minha primeira tábua de salvação eram os folhetos das escolas de inglês. Eu tinha uma prima estudava em uma delas e trazia aquele monte de papel com letras coloridas, estampados com os versos das canções do momento e suas traduções. Depois dos folhetos de escolas de idiomas, vinham as edições da Bizz Letras Traduzidas.

O problema é que, quando você é estudante, não fala inglês e ainda por cima grava músicas da rádio, dá para presumir que seus proventos não são lá muito grandes. E a revista custava umas boas pratas para alguém como eu.

A solução era arrumar mais duas ou três amigas interessadas no empolgante mundo das FMs, fazer uma vaquinha para comprar a edição e, depois, dividir as páginas. As letras que não me cabiam na divisão eu copiava num caderno. Mesmo assim, a gente dependia da boa vontade do editor em incluir na revista a letra desejada.

A última cartada era o processo chamado de “tirar a letra”. Eu reunia uns amigos que sabiam mais ou menos o idioma anglo-saxão, passava a mão no toca-fitas e lá ia a gente, verso a verso, tentar desbravar o que diabos os cantores estavam dizendo.

Para quem ouvia de fora, devia ser um inferno. Os hits do momento (que, convenhamos, já não eram lá essas coisas) ficavam entremeado de “tlecs!” vindos dos botões pause, stop, rew, play... e lá vinha mais um trechinho, seguido de uma acalorada discussão:

“Acho que é uátchior finquin”.
“Não! É uátsiór sinquin*”.

O pior de tudo é que, muitas vezes, ao me deparar com a letra oficial, eu já tinha lançado mão do embromation – e decorado minha própria versão para “I’ll Be There For You”, do Bon Jovi, por exemplo. Foi duro trocar “fi-fái-fo ái suér tchu iú” por “these five words I swear to you” quando eu ia cantar essa dramática pérola de sêo Jon.

Para falar bem a verdade, muitas das músicas que comecei a ouvir nesta época ainda preservam suas versões embromation no meu teimoso cérebro. Ainda bem que, creio eu, nenhuma das letras valeria a pena mesmo saber: era tudo Information Society, Snap, C+C Music Factory, Milli Vanilli e congêneres.

É. Pensando bem, acho que escapei de umas boas. Viva o embromation!


* * * * * *

* Para o registro: a letra é de “What’s on Your Mind”, do Information Society. Mas na versão da embromation society.

Clara McFly às 10:23 AM

quinta-feira, 16 de junho de 2005

Crossover

E então ela surgiu na porta, apoiou os dois braços nos batentes e disse para todos ouvirem: “o Bira matou a Yasmin!”. Essa era minha irmã. O ano era 1992. Estava no ar, no horário das 20h00, a novela “De Corpo e Alma”. E quando estas variáveis se unem, eu sei que nada é o que parece. Porque, na minha família, todo mundo tem mania de misturar ficção e realidade – e os nomes dos artistas com seus respectivos personagens.

Aposto que muitos de vocês já usaram desta artimanha para se expressar, criando um cruzamento de fatos para chegar à conclusão. Assim: a idéia é comentar algo sobre o Keanu Reeves, mas o nome desgraçado teima em fugir da memória como peixe ensaboado. Então, o jeito é cortar caminho: “Eu vi o filme novo daquele cara, o... aquele que fez... o Neo da Matrix, sabe?”.

Lá em casa isso sempre foi costume. Nem há discussão quando a conversa tem início por um “a Heleninha Roitman tá ótima nessa novela nova, né?”. Já sei que não é um remake de “Vale Tudo”. Nem que a mamãe pirou ou entornou mais uísque que a própria filha de Odete. Ela pretende dizer que o atual desempenho da atriz Renata Sorrah está excelente.

Quando o nome dos dito cujos desaparece da mente, improviso é o que conta. Também ajuda muito ter um bom banco de dados cine-televisivo na cabeça. Quem vai fazer o Homem-Morcego em “Batman Begins”? O moleque de “O Império do Sol”. Ou o “Psicopata Americano”, você escolhe. Ele se chama Christian Bale, mas quem é capaz de lembrar isso de bate-pronto?

Na verdade, peguei a mania familiar para mim por pura vontade de diversão. Minha cachola é até bem azeitada para recordar nomes e trabalhos das celebridades, porém ainda acho muito mais engraçado dizer que a Natasha não fez nada bom depois de “Vamp” (ignorando que a moça tem nome, e é Claudia Ohana). Ou que o Edson Celulari é casado com a “bailarina da coxa grossa” – como bem era conhecida Claudia Raia nos tempos de “Rainha da Sucata”.

Até porque, fazer o crossover artista-personagem é muito útil nas conversas com gente como meu namorido. Ele simplesmente desconhece o nome de 80% dos famosos. E com aquele parco poder de marcar fisionomias, também esquece que o Qui-Gon Jinn de “Star Wars” já ajudou a salvar centenas de judeus como Oskar Schindler.

Por causa dele, treino constantemente a brincadeira. Quando perguntada sobre a presença de brasileiros no corpo eleitor do Oscar, já digo logo que, pelo que sei, a Tieta vota. Ele sabe, obviamente, que a cabrita-quenga de Santana do Agreste não pode eleger ninguém para a estatueta. Mas, lá no setor de referências do cérebro, saca logo a face de Sônia Braga. E está resolvida a questão. Muito mais simples do que explicar quem a Sônia é aquela do “Beijo da Mulher Aranha”, e não outra. Só espero que ele não misture com a Lili Carabina. Ops, a Betty Faria.

Alguns artistas, por sinal, já ganharam há tempos um nome postiço para serem designados. Outro dia, assistindo ao seriado “Lost”, tivemos a impressão de ver um rosto conhecido fazendo ponta. Evidente que nenhum dos espectadores residentes nesta casa diria “veja só se não é o grande Robert Patrick... Que interpretação!”.

A reação exata foi dizer “esse cara não é o T-1000?”. Chamar a máquina assassina de “Exterminador do Futuro 2” pelo nome de batismo é impossível. Para mim, ele sempre será o T-1000. Mesmo que interprete Jesus Cristo ou Adolf Hitler. Ou o cara chatola de “Arquivo X”.

Bom é saber que muitos conhecem essa modalidade de misturar estações. No ótimo “Meu Tio Matou um Cara”, por exemplo, os meninos conversam sobre um filme que assistiram. E então, para lembrar o tema da produção, assimilam que “era aquele onde o 007 faz um monge”. Tradução: Sean Connery, que um dia já foi James Bond, recria um religioso em... “O Nome da Rosa”! Viu como é fácil?

Por isso mesmo é que, quando minha afobada irmã paralisou na porta e proferiu o acontecimento citado no primeiro parágrafo, saquei logo toda a história. Guilherme de Pádua acabava de ser preso por ter assassinado a colega de trabalho Daniela Perez. Eles faziam o casal romântico na novela, mas a tragédia aconteceu entre o ator e a atriz na vida real. Isso, porém, já é um crossover muito do sem graça.

T-1000.bmp
Belo terno, T-1000! Manda um abraço ao
Duchovny e outro pra... pra... pra Dana Scully lá

Fla Wonka às 10:29 AM

quarta-feira, 15 de junho de 2005

Arraiá de memórias

Quando junho chega, meu coraçãozinho já começa a bater forte. Não apenas por ser o mês de meu natalício. Ou por marcar o início dos dias mais amenos, das brisas mais geladas, dos céus mais azuis e das noites mais aconchegantes e românticas. Na verdade, o que me faz amar esta época do ano acima de qualquer outra são as festas juninas e todas as suas cores, sabores, sons e cheiros.

Sendo uma garota que odeia Carnaval, não liga para o Natal e nem se abala pelo reveillon, é nesta comemoração popular de meio de ano que eu me esbaldo. E tem sido assim desde criança – é claro que 95% de meus aniversários tiveram o tema caipira, já que a estação pedia. Ao invés de brigadeiros e beijinhos, a mesa tinha pé-de-moleque, cocada e arroz-doce. No lugar dos Ursinhos Carinhosos, lá estava Chico Bento e sua turma.

Também estudei em uma escola famosa na cidade por sua grande e tradicional festa junina. A cada ano, me estapeava para poder participar ao máximo do evento. Vendia rifa, fazia bandeirolas, ensaiava a dança e, no grande dia, estava tinindo para gastar a sola do sapato de fivela correndo para lá e para cá (e parando quieta apenas para comer os quitutes da barraca). Era a primeira a chegar e a última a sair.

São essas imagens saudosas que me vêm à cabeça quando junho chega. E, com elas, todos os motivos para eu ser uma grande entusiasta das festas do santo chamado João!

1) Quadrilha
Outro dia estava no supermercado e a música ambiente era o tema clássico da quadrilha. Não é que me peguei fazendo passinhos tímidos na gôndola de produtos de limpeza? Fazer o quê, parece que está no meu sangue! Participei de diversas quadrilhas e sei o quanto é divertido pular na hora do “Óia a cobra!”.

2) Toca do coelho
Uma das minhas brincadeiras favoritas da quermesse: consiste em um pequeno espaço com várias casinhas numeradas. A pessoa escolhia um número e o coelho, uma vez solto, deveria entrar naquela casinha. Era difícil, mas uma vez eu ganhei e levei para casa um brinde bem tosco, tipo toalha de rosto.

3) Quentão
Eu não bebo cerveja, cachaça, conhaque, vodka ou uísque. Só vinho, mas precisa estar acompanhado de comida. “Sóbria” é meu nome do meio (tá, depois de “Meleca”). Mas não respondo por mim quando alcanço uma caneca daquela mistura quente e doce de pinga, gengibre, canela e cravo-da-índia!

4) Fogueira
Tudo bem: botar fogo em toras de madeira no meio de um monte de crianças endiabradas (e altas por conta do quentão e do vinho quente) não é lá a melhor das idéias. Sem contar o fato de que o cabelo fica cheirando a índio. Mas já viu festa junina sem uma? Não dá! Adoro me aninhar perto dela e pensar na vida.

5) Decoração
Na escola, éramos nós os responsáveis por cortar as bandeiras em papel de seda colorido e colar uma a uma em longos barbantes. Para esta amante de papelaria, o que mais poderia querer com esse tanto de material a meu alcance? Fazê-las era uma alegria, mas vê-las penduradas ao vento no grande dia era melhor ainda.

6) Doces
Primeiro, aquela pamonha quentinha que precisa ser desembrulhada com cuidado. Depois, um pedaço de bolo de fubá macio. Em seguida, um teco de pé-de-moleque e um de paçoca. Então, um pote com arroz-doce cremoso. Finalmente, uma linda e apetitosa maçã-do-amor para roer até em casa. Ah, meu cardápio favorito!

7) Correio Elegante
Será que ainda se usa fazer correio elegante em festa junina? Eu espero que sim! Afinal, nenhum e-mail ou torpedo de celular consegue substituir a emoção de receber um bilhetinho colorido. Eu sempre quis ser a moça que leva-e-traz os recados. Ela era bonita, bem vestida e levava serelepe uma cesta de palha.

8) Cadeia
Ficar presa na cadeia era meu pior pesadelo durante o evento, uma vez que o tempo não seria gasto em brincadeiras e comilanças. Fora que alguém precisava ir salvar a sua pele. Um horror. Mas esse costume sádico entrou na lista porque, cá entre nós, adicionava mais um tanto de emoção àquela noite estrelada.

9) Pescaria
A melhor brincadeira! Minhas moedas iam todas parar no bolso do tio da pescaria que, sorridente, me entregava uma pequena vara com um anzol na ponta. Daí era preciso concentração e mão firme para encaixar o anzol na argola do peixe de cartolina fincado na areia. Era ele quem ditava a prenda a ser ganha.

10) Roupa caipira
Muita gente torcia o nariz para se fantasiar de caipira. Mas não esta garota! Eu simplesmente amava botar vestido de chita, chapéu de trança e ainda arrematar com pintinhas no rosto. Era como um passaporte para poder aproveitar em grande estilo todos os itens acima. E eu sinto falta de cada um deles!

caipira.jpg
Vivi - mas pode me chamar de Rosinha, sô!


Vivi Griswold às 09:54 AM

terça-feira, 14 de junho de 2005

O caderno secreto

Ou: Como juntar diários, vilões do cinema e uma brincadeira numa tacada só

Quem nunca teve um diário? Em tempos internéticos a gente até estranha a palavra, usada para designar aqueles velhos cadernos ou agendas onde narrávamos acontecimentos, idéias e filosofias do dia. Hoje, esse conceito atende por weblog. Mas quem tem ao menos a minha idade, 27 verões, decerto já preencheu pilhas e pilhas de páginas com informações relevantíssimas, como “hoje fui à padaria tomar um sorvete” ou “decidi que não vou mais chorar por nenhum garoto”. No entanto, aposto que grandes figurões teriam diários bem mais interessantes...

Levando vidas corriqueiras e escrevendo num veículo cuja característica maior é ser corriqueiro (e secreto, lógico, o que, pensando bem, o descaracteriza como “veículo”), acabamos por gastar quilômetros de tinta esferográfica com... besteirinhas. Doces, tristes, boas de se reler e até necessárias – mas besteirinhas. Porém, imagine os registros dos personagens cujas vidas são cheias de intrigas, reviravoltas, assassinatos, traições e degustação de carne humana? E se os grandes vilões do cinema tivessem um diário?

Para tornar a brincadeira mais gostosa, seguem trechos que poderiam ter saído dos diários de inesquecíveis figuras maléficas da Sétima Arte, se eles tivessem um. Os excertos estão listados de A a G. Cabe ao leitor associá-los com seus respectivos autores, enumerados lá embaixo de 1 a 7. Eu aposto que você não vai precisar da resposta, mas o gabarito está disponível no Fórum. É só clicar no link ao fim do texto.

O jogo já começou!


Os crimes

A - “Querido diário,
Hoje eu contei a Luke que sou o pai dele. O garoto não aceitou muito bem, não. Daí, fui dar um tapinha na mão do guri, para aprender a não fazer birra, mas acabei acertando o coitado com meu sabre de luz. Resultado: mutilei meu filho. Como se não bastasse, ele acabou caindo na dispensa de roupa da Estrela da Morte. Resumindo: já tive dias melhores... Até mais!”

B - “Mon chère,
Nesta tarde, o cavalheiro do recenseamento apareceu na soleira bem na hora de minha audição vespertina de Mozart. É muito grosseiro interromper a performance de um gênio. Ele estava me testando e, claro, não gosto de me sentir testado. Resumindo: para o jantar, degustei um cardápio magnificente – fígado com feijões brancos e um bom chianti. Tata!”

C - “Caro diário,
Preciso desabafar. Não agüento mais minha mãe. É terrível. Ela pega no meu pé sem parar e reclama de tudo. Para piorar, faz semanas que não aparece ninguém aqui no Motel. E os dias com aquela bruxa velha estão cada vez mais longos. Resumindo: tomara que pinte uma companhia logo, até porque consertei os chuveiros. Todos eles.”

D - “Oi, bastardo!
Amanhã é o grande dia daquele esquema lá. Na verdade, nem sei bem o que vamos tungar. Se é que vamos tungar algo. É tudo muito misterioso. Nesses trabalhos, geralmente a gente usa apelidos. E o apelido, na hora da ação, para mim é tudo. Também é importante que não haja policiais infiltrados. Resumindo: espero que eu pegue um codinome bacana. Ouvindo: “Stuck in the Middle with You”, Stealer’s Wheel”

E - “Olá, Johnny
All work and no play makes Jack a dull boy. All work and no play makes Jack a dull boy. All work and no play makes Jack a dull boy. All work and no play makes Jack a dull boy. All work and no play makes Jack a dull boy. All work and no play makes Jack a dull boy. All work and no play makes Jack a dull boy. Resumindo: all work and no play makes Jack a dull boy.”

F - “Estimado diário,
O tédio me corrói. Para você ter uma idéia, hoje fui à manicure duas vezes. Preciso de algo para me distrair, antes que eu acabe com essa vida infeliz. No final de semana teremos algo na casa dos Braddock. Parece que o filho deles vai voltar da faculdade. Saiu daqui um franguinho, o pobre Ben... Como será que ele está? Resumindo: acho que vou à manicure de novo.”

G - “Alô, caderno!
Ontem arrisquei uma esticada até a praia. Foi bacana, mas acho que dei muito nas vistas... O pessoal saiu correndo que nem louco quando eu cheguei. Acho que preciso procurar um cirurgião e tirar um pouco da barbatana, viu? Ela está me matando. Resumindo: pelo menos peguei uma cor. E uns banhistas também. See you later, aligator!


... e os culpados

1. Norman Bates (Anthony Perkins, em “Psicose”)
2. Darth Vader (James Earl Jones – voz, na saga “Star Wars”)
3. Jack Torrance (Jack Nicholson, em “O Iluminado”)
4. Mrs. Robinson (Anne Bancroft, que Deus a tenha, em “A Primeira Noite de um Homem”)
5. Hannibal Lecter (Anthony Hopkins, em “O Silêncio dos Inocentes”)
6. Mr. Blonde (Michael Madsen, em “Cães de Aluguel”)
7. Tubarão (o próprio, no seu próprio filme)

As respostas estão aqui.

Clara McFly às 10:06 AM

segunda-feira, 13 de junho de 2005

Mamãe, tradutora e intérprete

Bebês são tão fofos, lindos, cheirosos e macios! Tão doces, tão perfeitos, tão divertidos de se observar por toda a tarde. Olhando para minha filhinha de quatro tenros meses, eu fico pensando... Ô fase maldita deve ser essa de neném! Não se pode fazer nada, nada. Você depende dos outros para comer, beber, vestir, banhar, limpar seu traseiro. É como ser um lutador de sumô, mas sem a glória. E o pior de tudo: nunca se sabe se os demais irão interpretar seus gritinhos com precisão.

Como ficamos só eu e Sabrina em casa praticamente todos os dias, conversamos bastante. Quer dizer... Eu falo muito, ela solta lá seu balbuciar engraçadinho. Que está me entendendo, não tenho a mínima dúvida. Se eu entendo o que ela responde? Aí já é coisa mais complexa.

Podemos traduzir algumas partes rapidamente. Está deitada no carrinho e começa a chorar? Pode estar com sono. Ou sujou a fralda e cansou de sentar na meleca. Ou prefere brincar em vez de fitar o teto branco. Existem poucas possibilidades para cada ação, então fica até fácil. Mais fácil ainda seria a Sabrina ter poder de comunicação além dos sons guturais e me dizer, com clareza, o que diabos ela quer.

Não vai acontecer. Troca de informações com palavras inteiras, só daqui um ano. No momento, eu preciso encarnar uma maga da adivinhação e supor o que fazer – rezando para acertar logo e acabar com o incômodo da garota em dois tempos. E não posso me demorar no socorro, querendo terminar o banho ou um telefonema enquanto a pequena chora. Senão, logo ela se chateia muito e, imagino, começa a dizer para os brinquedos “vai, boneca idiota, deixa de rir pra mim e busca a mamãe!!!”.

Sempre se pode exercitar a imaginação assim. Enquanto tento decifrar os choramingos, chamados, sorrisos, esperneios e berros possuídos de Sasá, me pego pensando em que está passando naquela cacholinha miúda. Agora, eu sei o que os bebês querem responder quando dizemos...

“Cadê o nenê?”
Cada vez que recebemos visitas, eu vejo gente brincar com a neném e perguntar a frase acima bem na fuça dela. De tanto que essa menina já se mostrou esperta, passei a acreditar no que ela responde mentalmente a todos: “Diabos, mulher, não consegue me ver aqui? Eu tenho 63 centímetros!”. Meio mal-criada, por sinal, mas só com perguntas de resposta óbvia.

“Onde você vai?”
Desde que começou a fazer tentativas na área do rolamento corporal, Sabrina parece ter ganhado o mundo. Quer sair correndo para todo lado – apesar de conseguir apenas se torcer em círculos feito uma minhoca bêbada. E lá vem o pessoal sacar da frase acima... Ao que ela, eu imagino, responda “Para Paris. E, nesse meu ritmo atual, devo chegar lá em novembro de 2034. Agora deixa de se fazer de bobo e alcança aquele leãozinho pra mim, tio?”.

“Tá com soninho?”
“Não, mamãe. Estou berrando feito um porco no abate porque gosto de atormentar seus ouvidos”. Eu sei que ela se aborrece quando está cansada e o barulho não a deixa relaxar. Pergunto mais por perguntar mesmo – e daí já simulo a resposta azeda. Acho que vou fazer isso até ela completar uns 12 anos, só pra encher a paciência.

“Nossa, que fralda suja!”
Ouvir isso quando você não tem coordenação para usar o papel higiênico sozinho deve ser, no mínimo, um insulto. Não basta estar... er... atolada em caquinha, e ainda precisa escutar comentários bobocas sobre a situação? Se ela pudesse me dizer algo, certamente seria “Fala mais alto, mamãe, o pessoal da rua de baixo ainda não sabe que eu fiz nas calças...”.

“Você gosta da mamy?”
Quem não questiona os filhos sobre o amor deles, tem sangue frio. Eu pergunto, sempre que temos um tempinho, se Sabrina adora a sua velha mãe. Ela apenas sorri – provavelmente imaginando “Você recheia minha barriga, é claro que eu te amo, mãezinha! Mas quando crescer, vou amar o Ronald McDonald também, pode?”.

“Onde você escondeu a chupeta?”
Quando os pestinhas ficam a sós, reinando no edredom, acontece toda sorte de esquisitice. Os brinquedos parecem rasgados por dentadas, a fralda de boca vai parar debaixo do sofá. A chupeta, aliás, já foi encontrada há metros de distância e até debaixo do próprio bebê. Então me resta questionar a dona do negócio. E ela deve pensar “Nem te conto, estou conseguindo arremessá-la cada vez mais longe! Acho que serei malabarista quando crescer”.

“Dorme um pouco, vai, Sabrina...”
Entre as 18h00 e as 19h30, é o horário de ranhetação máxima para a menininha aqui residente. Estafada depois de um dia todo de aventuras e bate-papos, ela finalmente se irrita com tudo. Os brinquedinhos não têm mais graça, o colo ganha espinhos imaginários, nada fica bom. Então o cansaço chega também para mim, e peço para a filhota dar um tempo e ir se aninhar. Quando ela me encara com aqueles olhões e diz “nhããã!”, sei o que significa: “Me dá banho, põe aquela roupa do ursinho, dá o líquido branco gostoso e me nana meio minuto que eu juro entregar os pontos por 10 horas seguidas”. Esses bebês sabem o que querem. E até tentam nos dizer.

IMG_2994.JPG
Ei! Quem são vocês?
Estão olhando o quê??

Fla Wonka às 10:13 AM

sábado, 11 de junho de 2005

Anel, só se for de papel

Segundo o estereótipo do sexo feminino, mulheres costumam ter ataques quando passam em frente a uma joalheria. Algo meio Audrey Hepburn babando na vitrine da Tiffany’s de Nova York e dizendo que ali dentro nada de ruim pode acontecer, pois ela estaria cercada por ouro e diamantes. Moças param para olhar aquele mundaréu de anéis, pulseiras e brincos com preços que mais parecem códigos (de tanto número que tem) – algumas, mais audaciosas ou mais ricas, entram e experimentam todos os brilhos, emocionadas.

Engraçado que eu não cultivo essa fissura. Pelo menos, com joalherias. Não apenas porque eu não tenho dinheiro para adquirir peça alguma, mas principalmente porque eu prefiro fuçar no atacadão de bijuteria da 25 de Março, que é mais barato, mais descartável e bem mais divertido. Porém, entendo as mulheres que passam mal em lojas de jóias: pois eu também passo mal. Mas em papelarias!

Assim como os olhos das dondocas cobiçam uma pulseira de ouro branco incrustada de ametistas, os meus olhos cobiçam a última novidade em caneta esferográfica. Enquanto elas salivam por um diamante, eu salivo pela variedade de cores de cartolina. Do mesmo modo que o coração delas bate mais forte por um colar que não podem usar na rua, o meu coração bate por um caderno de anotações que eu posso sacar da bolsa quando bem entender. E tem sido assim desde que eu me conheço por gente.

Talvez tudo tenha começado com as saudosas listas de material escolar que mamãe recebia a cada começo de ano. Pelo menos quando a gente está nas fases estudantis mais básicas, aquele papel era mais apetitoso do que um catálogo da H. Stern. Tudo bem: significava que as férias estavam acabando e isso nunca é agradável. Mas quem ligava para o lado negativo se o lado positivo era passar na grande papelaria e voltar com sacolas e mais sacolas dos mais coloridos e cheirosos materiais artísticos?

Guardo em um cantinho especial da memória aqueles minutos preciosos quando, uma vez em casa, abria tudo e espalhava no chão. Eram aquarelas (daquelas que vinham em paletas de papelão e com um pincel de plástico), massinhas de modelar, tintura a dedo, guache, papel crepom, papel espelho, papel laminado, folhas de almaço, folhas de papel cartão, borracha nova (sempre gostei das brancas com capinha verde), canetinhas, giz de cera e, claro, as amadas caixas de lápis de cor. Parecia que eu tinha encontrado o pote de ouro no final do arco-íris.

Quando recebi a minha primeira mesada – já não me lembro do valor ou da moeda vigente na época –, fui correndo para a papelaria. Para minha delícia e desespero, havia uma na rua de casa. Pior: a moça ainda botava a compra “na pendura”. E eis que aos 10 anos de idade eu acumulei dívidas de papel de carta. Sem falar nas borrachas cheirosas com formatos diversos, de estrelas a hambúrgueres. Assim, todo dinheiro que sobrava do lanche na cantina, já tinha destino certo.

Hoje, moça crescida que sou, ainda consigo vibrar quando a impressora acusa falta de papel. É a deixa para visitar o templo intitulado Kalunga, uma papelaria em formato de supermercado que possui de um tudo, e em grande quantidade. Toda vez eu me pego pensando se realmente preciso de uma embalagem com 20 bastões de cola Prit. Ou de um conjunto de canetas marca-texto. Ou de um pacote de envelopes amarelo canário. Tão bonitos, tão brilhantes como ouro!

Talvez eu não precise. Talvez a madame também não precise de outro anel para sua coleção. Contudo, só nós duas sabemos a empolgação de experimentar o objeto de desejo pela primeira vez. E quando ela estiver colocando a jóia no dedo, eu estarei escrevendo meu nome em um papel com um delicioso – e novo! – lápis 6B.

Vivi Griswold às 10:17 AM

sexta-feira, 10 de junho de 2005

Só tomando uma

Calma. Antes que o caro leitor aí do outro lado me recomende ao AA, explico que não tomo um porre há anos. Tive, claro, minha parcela de histórias com a água que passarinho não bebe – mas nada além de, digamos, experiências adolescentes. Na primeira vez em que entornei mais álcool do que meus míseros 43 quilos suportariam, logo aprendi que uma das conseqüências mais salientes da bebedeira é deixar você... saliente. E sua língua também.

O indispensável Drummond dizia, no Poema de Sete Faces, que “mas essa lua/ mas esse conhaque/ botam a gente comovido como o diabo”. Digo mais: o etanol bota a gente mais aberto que mala velha. E nos faz dizer e fazer uma porção de besteiras – que, embora pequenas, jamais serão esquecidas pelo seu grupo de amigos, que aproveitarão toda e qualquer oportunidade dali em diante para relembrar seus momentos embaraçosos.

Não podemos culpá-los. Não há nada mais chato do que agüentar bêbado quando você está sóbrio. Então, tudo que esse pessoal tem são os causos para contar depois – afinal, eles são os únicos que se lembrarão daquela noite. Claro que essa vantagem dá a eles a chance de exagerar um cadinho na narrativa. Como dizem, c* de bêbado não tem dono. E memória também não.

Eu fui vítima desse “incremento” narrativo. Acontece que fizemos uma viagem, há quase dez anos, para a casa de praia de uma amiga. Aquela coisa adolescente e tal. Tomei umas. Quando bateu o sono – típico do meu procedimento bêbado – fui para o quarto e ia tomar banho. Mas depois de me ver como vim ao mundo, não agüentei e cai na cama. Lógico que tive o cuidado de me enrolar num lençol antes.

Eis que o tal amigo me encontra no quarto e me acorda. Já um pouco melhor, levantei e segui para o chuveiro. A polêmica está entre o momento em que saí da cama e o que fechei-me no banheiro. Diz ele que, nesse ínterim, banquei a Cicciolina e revelei “as meninas” para o público presente – no caso, ele.

Ou que eu subi numa mesinha, deixei cair o lençol e dancei um cha-cha-cha perguntando “te gusta?”. Enfim, a cada oportunidade ele conta uma história diferente. Mas tenho certeza de que, se algo que não devia apareceu, foi num relance totalmente acidental. Ao contrário dele, que foi tomar banho logo depois e apareceu na porta de cueca, deliberada e gratuitamente, perguntando se alguém tinha xampu. Humpf!

Ainda bem que o tal amigo é amigo mesmo. Até hoje. Aliás, através dele conheci outros rapazes muito divertidos – e bem chegados à marvada. Um deles (vamos chamá-lo de Bochecha), numa de suas piores noites, chegou numa garota para se apresentar. Na hora de dizer seu próprio nome, Bochecha encheu o peito e lascou, à la “Bond-James-Bond”:

- Meu nome é Alê. (Pausa dramática). Alê Assunção.

Nunca soubemos de onde ele tirou essa. Até porque o nome dele não é Alê, muito menos Assunção. Nem descobrimos de onde saiu a pérola etílica de outro rapaz da mesma turma. Há não muito tempo, ele também foi tentar a sorte com uma moçoila numa festa. Quando ela perguntou qual era a profissão do conquistador – que é jornalista – ele saiu-se com essa:

- Eu trabalho com uma empilhadeira. Eu empilho caixas.

Dizer que você é médico, advogado ou CEO de uma grande corporação pode impressionar alguns brotinhos. Contar que você luta boxe, narra trailers de cinema ou faz parte de um coro de risadas decerto me interessaria. Mas, se é para mentir, empilhar caixas não me parece uma boa opção. A não ser que você esteja com a cara cheia e tenha um senso de humor peculiar. Era o caso dessas duas criaturas.

Além de proferir umas incongruências, uma das últimas drogas legalizadas também é uma beleza para provocar performances cretinas. Uma grande amiga, que hoje nem sequer molha o bico, foi a estrela de pequenos espetáculos inesquecíveis. Ela tem paúra de cachorro, mas beijou um na boca. Pediu uma cerveja grátis para um tiozinho desconhecido num bar. Salpicou a boca com fondue de chocolate para exemplificar que um outro convidado da festa estava com herpes.

E, por fim, pegou uma flor de papel crepom, botou o artigo na boca e saiu cantando e dançando pela casa cheia de amigos. Mas não qualquer música: o tema de seu número foi aquele jingle comercial meio cigano, ao melhor estilo Gipsy Kings, que repetia “djobe, djobe, lere lere lê”. Se não me falha a memória, era de uma propaganda... de uísque.

Clara McFly às 10:26 AM

quinta-feira, 9 de junho de 2005

Fachada renovada, riso garantido

Ah, a beleza... Bem afortunados os que nascem com ela, ostentando cabelos sedosos, rosto esculpido a cinzel, pele de neném e “tudo no lugar”, como diria a vizinha Mirtes. Já outros precisam conseguir essas coisas na base da funilaria e pintura mesmo, apelando para cremes, químicas, tintas, escova, alicate, chave-inglesa, serrote e o que mais for necessário. Esse segundo grupo costuma ter um ponto de encontro. Chama-se salão de beleza. O lugar mais divertido, inusitado e malucão que existe.

Por menos que goste, sou obrigada a fazer parte desse clube surreal de vez em quando. Não existe outro local onde aparar o cabelo, por exemplo (fazer isso em casa não é uma opção desde que tentei sozinha e fiquei com a franja do Palhaço Arrelia). Só ali, também, é possível fazer penteado e maquiagem para uma festa. Ou encarar a depilação. Ou, em caso de desespero máximo, me lançar na manicure. Detesto gente me futucando com pinças como a um camundongo de laboratório, mas fazer o quê? O jeito é ir ao abate.

Curioso é que reluto em marcar hora, mas uma vez no recinto, tudo parece horrivelmente engraçado. Onde mais eu posso ler revistas de fofoca de meses atrás – sabendo, assim, que algum mané da alta roda “casou a filha” e que o bebê da Angélica com o Huck, graças aos céus, não puxou o nariz do pai? Bom é chegar 15 minutos antes do compromisso agendado e ficar ali, folheando aquelas páginas gastas, equilibrando a capa semi-destroçada, e me informando sobre a nova namorada do cantor Daniel.

Eu não dou a mínima para quem rala-e-rola com o sertanejo – só de pensar, deusmelivre, já tenho engulhos –, mas é sempre bom ter assunto para conversar, mais tarde, com a atendente. Em uma maca de depilação ou poltrona de fazer mãos, restam poucos assuntos a discutir. Depois de comentar sobre a chuva/sol que não pára mais, sobram as fofocas.

E toca ouvir aquele monte de mulher desocupada palpitar sobre o romance mal-sucedido da modelo ou a última manobra feita pela mocinha da novela. Já ouvi cada coisa... Certa feita, curiosa como só, estava escutando o papo de duas clientes. A frase pescada: “... e aquela cara-de-pau casou com o homem por dinheiro, depois deu fim no coitado e ainda maltratou a filha dele pelo resto da vida! Lambisgóia! Se morasse no meu bairro, já tinha levado uns tabefes”. Pasmei. Quem seria aquela figura hedionda??

Não demorou a descobrir que o nome dela era Nazaré. E que ela não era de verdade, mas a salafrária fictícia da novela das oito. Podia ter ficado brava pela confusão, mas saber que alguém ainda usa as palavras “lambisgóia” e “tabefe” me anima.

Entre uma cutícula extirpada e outra, a vida alheia é dissecada nos salão de beleza. Há que se ter uma certa paciência e ativar o escudo anti-bobagem às vezes, porque a dose de maluquices ouvidas ali é grande. Já escutei, por exemplo, uma senhora dizer que precisava sair logo porque o filho ia chegar da Europa. Perguntada pela mocinha se ele foi a passeio, ela responder que não, “ele foi só buscar umas encomenda (sic) em Miami”. Hein?

Apertar os lábios e pressionar a língua contra o céu da boca ajuda a conter o riso, sabiam? Eu uso muito nos salões. Por que, me desculpem, mas é quase impossível não cair do banquinho gargalhando ao ouvir coisas como “a minha sobrinha tá em estado de goma, acredita, Solange?”. E a Solange, pobre profissional dos esmaltes que trabalha o dia todo arrancando bifes e estuda administração à noite, apenas balança a cabeça – possivelmente fingindo escutar enquanto matuta sobre os exames finais. E ignorando que “goma”, no caso”, devia ser “coma”.

Só sendo rápida de ouvido e de reflexos para trocar a mão da cumbuquinha cheia d’água e, ao mesmo tempo, participar do conversê ao redor. Minha habilidade não chega a tanto. Costumo derrubar o recipiente nojentamente cheio de aparas de mim no colo ou no chão. A cara feia da manicure passa rápido, assim que elogio a cor roxo-beliscão que ela escolheu para as próprias unhas.

Sim, porque as moças de salão se tornam verdadeiras especialistas em pesquisa de produto. Além de envergar o esmalte laranja da moda nas unhas de 20 cm, elas apóiam a utilização de qualquer coisa no cabelo. Juram de pés juntos que sua peruca ficará “ma-ra-vi-lho-sa” com a nova tintura X. Iniciada a aplicação, você pensa por que diabos deixou colocarem a química com cheiro de raticida no seu couro.

Aparentemente, só eu tenho receio de mandar ver nos aditivos capilares. Na última vez em que penetrei no salão, existia uma verdadeira nuvem pairando. Era como se o fog de Londres ou o acidente de Chernobyl tivessem chegado até aquele modesto estabelecimento. Só o meu nariz entupiu? Só os meus olhos ardiam? Não, mas a mulherada é forte nesses momentos.

Agora, eu soube, usam até formol! Isso mesmo, aquela substância empregada na conservação de corpos e tomada de golinho, toda manhã, pela Dercy Gonçalves! É forte, é fedido, é perigoso. Mas para manter as madeixas alinhadas, parece, vale tudo. Até embalsamar o cabelo. Só para ficar com a cara da modelo impressa no pôster enooooorme que cobre a parede do salão? Diabos, elas parecem sempre a mesma pessoa, seja no Oiapoque ou no Chuí! E ainda mostram penteados estranhos aparentemente feitos com um caco de vidro ou a faca de geléia.

Vai ver os litros de química fazem o ar dos salões de beleza ficarem irrespiráveis mas, ao mesmo tempo, hilários. Inalar aquilo muito tempo nos faz dizer um monte de sandices, escolher cores bizarras para mãos e cabeça e apaixonar por notícias sem valor. Ah, claro... e querer voltar sempre para se embelezar e divertir.

Salao1.bmp
Minina, nem ti conto como vai
ficar lindo esse penteado!

Fla Wonka às 10:54 AM

quarta-feira, 8 de junho de 2005

Missão: Impossível (ler um só)

Todo mundo já teve a oportunidade de conhecer uma mãe coruja, né? Trata-se daquela abnegada para a qual o filho é o mais bonito, o mais educado, o mais limpinho, o mais estudioso, o mais inteligente, o mais atlético, o mais cheiroso, o que nunca vai jogar papel de bala no chão e o que sempre vai comer todos os vegetais do prato. E de pensar que eu me tornei um exemplar dessa curiosa espécie...

Mas o meu rebento não me acorda de noite chorando; nem solta gases na frente das visitas; nem fica com febre ou bereba; e muito menos vai se mandar com uma namorada e não me ligar mais de fim de semana. Aliás, nem crescer ele vai! Permanecerá um bebezinho do tamanho exato desde o dia em que eu o peguei no colo pela primeira vez: 14 centímetros de largura por 21 de altura. E 152 páginas de recheio.

Ok, meu filhote é um livro que foi escrito a seis mãos – e seis vezes mais carinho – por mim e por outras duas mães. “É Impossível Ler Um Só – Histórias para devorar a qualquer hora”, porém, é um menino de sorte. Sua concepção foi totalmente planejada e aguardada. Ele nasceu com força total e tem padrinhos invejáveis (Mário Prata e Ricardo Feltrin, é mole?). Seu batizado, ups, lançamento, foi o maior sucesso e lotou de amigos, parentes, agregados, leitores, curiosos, passantes. E ainda por cima é corado!

O caso é que eu poderia continuar até amanhã falando sobre nosso livro. Sobre como ele nos trinca de orgulho. Sobre como ele nos encheu de alegria, de realização e nos deu o maior frio na barriga já sentido por este trio. Sobre como botamos a maior fé na sua trajetória e sabemos que ainda conseguiremos muitas coisas boas ao lado dele. Sou mãe coruja mesmo!

Contudo, o propósito deste texto é mais prático e esperamos poder contar com a sua ajuda, leitor atento aí do outro lado da telinha do computador. Você já adquiriu seu exemplar (ainda não? Pô, clique já aqui!) e está matutando em que mais pode nos ajudar nestes bravios mares literários, certo? Bem, estamos aqui para sanar essas dúvidas. Na verdade, estamos aqui para criar uma força-tarefa pró-“É Impossível Ler Um Só”.

Se cada um fizer um pouquinho, este planeta será um lugar bem mais legal para se viver. Não? Hmm. Ok, não custa tentar!

1) Fingir ser o vendedor
Nas grandes mega-stores do ramo (grande mega-store é pleonasmo?), os vendedores costumam usar uma camisa amarelo-canário estampada, nas costas, pela frase “Posso ajudar?”. Pois bem. Confeccione uma dessa para você e escreva com canetinha os mesmos dizeres. Entre na livraria e fique de bobeira. Quando um cliente perguntar para você sobre aquele livro do Luis Fernando Veríssimo, diga que ele está por fora do mundo das crônicas. Que o que liga agora é um tal de “É Impossível Ler Um só”, sabe? Insista até ele comprar um exemplar para si e um para a vizinha. E siga para a próxima vítima.

2) Fazer propaganda corpo-a-corpo
Repare que em livrarias bacanas sempre existe um par de bancos onde os clientes sentam-se para ler algumas brochuras. Encaminhe-se serelepe para o local com o “É Impossível Ler um Só” em mãos. Abra o volume e, de repente, comece a dar gargalhadas histéricas. Se você conseguir soltar lágrimas a cena ficará ainda mais efetiva. Quando as pessoas ao lado estiverem bem interessadas em sua leitura, volte-se para elas e diga “Gente, esse livro é muito bom! Ainda vai me matar de tanto rir”. Em seguida, deixe o exemplar em cima do banco, bem à vista dos demais, e saia de perto.

3) Encorajar a leitura casual
Na mesma livraria certamente haverá também aquele canto das revistas, onde madames descansam e lêem sobre as novidades da última cirurgia plástica do mercado e moleques endiabrados fazem um pit-stop para conhecerem os mais novos e irados joguinhos de Play Station. Veja bem: nosso público pode ser composto por madames e moleques endiabrados, somos autoras bem democráticas. Portanto, pegue um “É Impossível Ler Um Só” e deixe-o, displicentemente, entre a Caras e a EGM. Sua capa bacanosa e colorida vai ofuscar as duas publicações, tenha certeza.

4) Botar em prática a “Operação Grude”
A chamada “Operação Grude” é muito simples. Você vai grudar em um vendedor da loja e não soltar mais. Chegue para o moço e pergunte pelo volume. Mas faça de um jeito bem efetivo: por exemplo, diga “Oi! Eu tô procurando um livro super recomendado de três garotas que têm um site pra lá de divertido. Como se chama mesmo? Puxa, tem até orelha do Mário Prata! Sabe? Elas são colunistas da Época, e... Ah! Lembrei! ‘É Impossível Ler um Só’!”. Nisso, o cara já se interessou. Depois, é só grudar em outro vendedor, até que a equipe inteira da loja saiba da existência do livro.

5) Botar em prática a “Operação Mão-Boba”
Se a “Operação Grude” é fácil, a “Operação Mão-Boba” é facílima. Tudo o que você precisa fazer é ser muito ágil. Vá até a seção da livraria onde repousa a nossa brochura e pegue um. Em seguida, siga para a frente do estabelecimento, na prateleira onde costumam ficar os best-sellers. De um modo muito rápido, tire do display “O Zahir”, de Paulo Coelho, e coloque em seu lugar o “É Impossível Ler Um Só”, do Garotas. Se quiser completar bem a missão, coloque o exemplar retirado lá na parte de Administração e Finanças, para que ele nunca mais seja encontrado. Também vale fazer o mesmo com “O Código Da Vinci”.


livros_ni.jpg
Ninguém vai reparar na diferença!


Vivi Griswold às 10:27 AM

terça-feira, 7 de junho de 2005

E viveram... a vida de casado

Quando eu era pequena, devorava livros que nem mariolas. Na verdade, mais do que mariolas. É que eu nunca fui muito chegada a esses doces tradicionais. Dentre os que marcaram território neste coraçãozinho vão e pueril estão quase todos da Ana Maria Machado; “A Bolsa Amarela”, da Lygia Bojunga Nunes, e “O Fantástico Mistério de Feiurinha”, do Pedro Bandeira. No livro, ele relatava a visita de um lacaio que procurava uma princesa de contos de fada desaparecida. No caso, a tal da Feiurinha, coitada.

Na verdade, de feia a princesinha não tinha nada. É que ela foi criada por três bruxas muito das horrendas, que invertiam as coisas e diziam para a menina que ela é que era um monstrengo. Mas o ponto aqui é outro: Feiurinha desaparecera do mapa dos contos porque ninguém havia escrito sua história.

O grande barato da brochura era, entre outras coisas, retratar as diáfanas princesas em sua vida de casada. Elas tinham um punhado de filhos e faziam parte da grande família Encantado, já que todas haviam se casado com o senhor Príncipe... Encantado. Ou você acha que os roteiristas de “Shrek 2” foram os primeiros a sacar isso?

Pois hoje acordei meio tonta, pensando em Feiurinha e na importância de registrar nossas histórias, mas principalmente imaginando como está a vida de casada das princesas. Será que Cinderela acertou a mão no ovo frito? E Bela Adormecida, paga as contas em dia? Rapunzel ainda mantém aquele cabelão? Branca de Neve espera pelo seu príncipe chegar do trabalho na porta, com o avental sujo? Irc. Vai ver o casamento das heroínas não tenha saído lá essas coisas. Acho que por isso nenhum autor ou tradição se debruçou sobre a vida marital das princesas.

Uma pena, porque casar pode ser muito, muito divertido. Só não deve ter sido para essas pobres almas abnegadas, que trocaram uma vida de aventuras sensacionais – como viver com sete anões mineiros, nadar livre pelos mares ou trançar madeixas quilométricas – pelo “sim” diante do juiz de paz ou de um padre. Isso se elas se casaram oficialmente, visto que nem o enlace é narrado nos contos. Talvez elas tenham apenas juntado os trapinhos. Quem sabe?

Ninguém. Então, como sempre, que tal preencher os espaços vagos da curiosidade com um pouco de imaginação? Eu aposto que...

Cinderela, acostumada ao serviço doméstico, preferiu dispensar os empregados do castelo Encantado, para onde se mudou com seu príncipe logo depois que o último convidado comeu o último croquete da festa. Duas semanas depois, percebeu que lavar, arrumar, limpar, cozinhar e passar para o senhor Encantado (“que bem poderia se chamar senhor Folgado”, repetia ela entre cuecas largadas na sala e pratos deixados na mesa) era bem mais difícil do que trabalhar para a Madrasta e suas enjoadas filhas. Fez as malas e ameaçou se mandar caso o marido não contratasse uma empresa terceirizada. Foi o que ele fez. Agora, ela apenas estala os dedos para que o mordomo lhe traga uma taça de Perrier fresquinha e prepare seus sais de banho. Mas a comida Cinder faz questão de preparar: Encantado adora seu bolo de carne com abobrinha.

Bela Adormecida passou a lua de mel em Embu das Artes, onde aproveitou para superar seu pavor por rocas. Comprou uma porção de badulaques com o dinheiro arrecadado pelo corte da gravata do noivo. Ao chegar ao castelo onde fariam residência, descobriu que o espaço era pouco para tanta coisa. Decidiu encarar uma reforma, apesar dos conselhos contrários da sogra: “dá trabalho, boba! Aproveita o clima de recém-casados, depois eu convenço o pai do Encantado a comprar alguma coisa maior para vocês. Quem sabe no Morumbi”. Quando as seis semanas prometidas pelo empreiteiro viraram dois anos e meio, não agüentou mais o pó e se mudou para a casa da sogra. Sua casa ficou pronta três meses depois, mas as crianças sofrem de rinite até hoje. Em julho, é um horror: ela não sai da fila do posto de saúde para fazer inalações.

Rapunzel tinha prometido secretamente a Santo Antônio que, se não terminasse seus dias encalhada – o que parecia bem provável de acontecer, visto que ela vivia isolada numa torre – cortaria o cabelão. Quando se viram sozinhos na suíte nupcial, a jovem “senhoura” entregou uma tesoura ao príncipe. Ele ficou branco feito cera e achou que sua doce esposa tinha estranhas preferências sexuais. Mas ela o tranqüilizou ao explicar tudo e pedir que ele lhe cortasse as madeixas – nada muito drástico, podia ser um fio reto básico mesmo. Na primeira mecha, ela notou o incrível talento do marido com as tesouras. O cabelo dela ganhou muito mais vida e movimento. Resolveram abrir um salão. Hoje, os dois atendem à mais seleta clientela dos Reinos no Encantado’s Coiffure & Beauté – ela faz mão e pé sem tirar um bife, ele arrasa nos penteados.

Ariel, a Pequena Sereia, passou nove meses planejando o casamento. Cuidou de tudo pessoalmente e escolheu a dedo cada música que deveria tocar na festa. “Are you Gonna Be My Girl”, do Jet, era a primeira. O Príncipe achou muito bom, já que ele não gostava muito dessas coisas envolvendo marzipan, tafetá ou flores, mas adorava um roque enrol. Tudo correu às mil maravilhas e, depois da tradicional execução de “Whisky a Go Go”, do Roupa Nova, Ariel achou que era hora de ir para casa. Ali, o Príncipe quis fazer bonito e pegou a sereia no colo para passar pela porta, mas acabou descamando parte do rabo da mocinha ao raspá-lo no batente. Foi um acidente infeliz, mas Ariel ainda dá boas risadas ao lembrar da história. Ainda mais quando participa das tardes de beleza, junto às colegas aqui citadas, promovidas no salão de Rapunzel.

Branca de Neve sofreu para enturmar o príncipe com seu grupo de amigos – formado, basicamente, pelos sete anões. Era difícil lidar com o ciúme que Encantado tinha dos rapazes. Mas não podemos culpar o Príncipe. Ninguém gostaria de chegar em casa com a esposa na hora do tradicional “enfim, sós” e topar com sete criaturinhas no sofá assistindo à Sala Especial e acabando com seu precioso estoque de Erdinger. Depois desse mau começo, Branca conseguiu unir os oito homens de sua vida na paixão pelo futebol: ao descobrir que todos torciam pelo Curíntia, comprou nove ingressos para uma partida contra o América de Rio Preto (“porque ir aos clássicos está muito perigoso”, dizia) e fez a alegria dos torcedores ao puxar o corinho de “Timão, eô”. Em casa, sorriu ao ver o marido perguntando se os anões viriam para o churrasco da semana seguinte – aliás, marcado para reunir todas as suas colegas que apareceram neste texto e seus respectivos Encantados.

Quem sabe?

Clara McFly às 09:55 AM

segunda-feira, 6 de junho de 2005

A gente nunca, nunca esquece

Tudo o que acontece pela primeira vez é inesquecível. Tudo bem, nem tanto assim... Eu já detelei há tempos da memória coisas como o meu primeiro Miojo ou a estréia no quesito andar de ônibus. Mas outras ficaram guardadas em um cantinho especial da cabeça. São coisas que jamais deixaram a mente – mesmo sendo ainda muito jovem para entender a dimensão do caso. Se a primeira vez a gente nunca esquece, eu sempre contabilizarei um monte de lembranças.

Acredito piamente: nossas memórias mais recônditas formam aquilo que chamamos personalidade. Lembrar o dia em que me mandaram para a pré-escola sem o shorts, por exemplo, só me fez passar a vida sendo muito envergonhada. Nunca esqueci esse lapso da família e acho que nunca vou esquecer. Porque a cachola é capaz de nos pregar peças e sedimentar, para a eternidade, alguns acontecimentos.

Paciência, o jeito é conviver com isso e tentar extrair o máximo de aprendizado. Eu me lembro sempre das coisas que seguem abaixo. Não sei bem por quê. Devem ter sido marcantes o suficiente para virar ensinamentos. É assim que funciona a memória humana, não? Registramos certos momentos para, desse modo, aprender sempre com eles. Estão aí meus arquivos eternos.

A primeira vez que vi meu pai chorar
Ele deve ter ficado triste muitas vezes na vida, mas eu nunca cheguei a notar. Então, há dez anos, nosso cachorro morreu. Era um cão bem histérico, mas divertido e esperto. Ainda acho que ele adoeceu e faleceu em tão poucos dias porque soube que o pessoal do prédio novo não o queria ali... Companheiro-grude do papai, ele deixou saudade e muitas lágrimas nos olhos do velhinho. Aprendi, naquele dia, que até gente forte tem fraquezas.

A primeira vez que vi um cara bater em uma moça
Foi quando trabalhava no centro de São Paulo. Vinha apressada pela rua, pensando nos afazeres, quando ouvi berros vindos de um cortiço. Parei. Olhei. E vi o sujeito dar uns tapas na garota e jogá-la escada abaixo. Meu coração disparou tanto que quase saiu pela goela. Aprendi, naquele dia, que homem nenhum jamais ia relar a mão em mim com violência – e que cortiços nem sempre são locais de gente divertida, como na novela.

A primeira vez que vi serpentes
Visita ao zoológico era meu passeio predileto lá pelos seis anos. Até o dia em que alguém resolveu levar meu bando até a Casa dos Répteis. Entrei no recinto escuro sem entender bem o que seriam “ré... ré-o-quê mesmo?”. Bom, logo descobri que era cobras visguentas se entortando por galhos secos. Bem ali, há 20 cm do meu nariz. O sangue sumiu do rosto, mas me agüentei sobre as pernas até à saída. Aprendi, naquele dia, o que são répteis. E que não sou chegada neles.

A primeira vez que vi minha filha
Quatro meses atrás, estava eu deitada de camisolão sobre uma maca desconfortável. Aconteceu em um clique: levei uma picadinha nas costas, deixei de sentir as pernas, comentei com o anestesista sobre como meu time é ótimo e, em meia hora, colocaram perto do meu ombro uma menininha ainda cinza, de olhos grandes, boquinha de coração. Ela nem chorava, só se aninhava. Aprendi, naquele exato momento, que estava lascada para toda a vida. Era o tal amor infinito.

A primeira vez que vi uma matéria minha publicada
Ao prestar vestibular, escolhi ser advogada. Ou arquiteta. Ou engenheira. Ou jornalista. O que desse positivo, era nessa que eu iria. Pois o jornalismo me escolheu. Mas, meses depois, ainda não sabia se gostava dele. Fui ao jornal da faculdade e pedi para estagiar, fazer reportagens, saber se eu dava para a coisa. Quando vi a manchete sobre a nova adutora local (e meu nome abaixo, em letrinhas miúdas), aprendi que minha profissão estava decidida para sempre.

A primeira vez que vi jogo no estádio
Sábado ameno, dia 9 de setembro de 1984. Sem medo de torcidas ensandecidas ou meliantes uniformizados, papai resolveu me levar para ver o Tricolor Paulista pela primeira vez. Seria um embate contra o Palmeiras. Morumbi lotado, os porcos nos venceram por 2 a 1. Fui chamada de “pé frio”. Magoei profundamente. Tanto que passei o domingo emburrada. Não é que, na segunda-feira, divulgaram o doping de um jogador verdinho? Vibrei. O São Paulo levou os pontos e eu aprendi a nunca mais ligar para quem me considerar um amuleto de mau-agouro.

A primeira vez que vi o cinema
Eu era pequena demais. Não sei por que me mantiveram naquela fila enorme por duas horas. Nem o cheiro da pipoca com provolone pôde manter o ânimo. Finalmente a porta se abriu e fomos nos aboletar nas poltronas. Eu fiquei no colo da mamãe, para dar lugar a alguém que sentava no corredor (naquele tempo, overbooking de cinema era comum). Perdi o começo por causa do sono, mas quando o Superman apareceu voando, tudo fez sentido. Aprendi, na cadeira do Cine Vitória, que a sétima arte seria a maior paixão desta garota.

A primeira vez que vi meu nome em um livro
Clarissa e Viviana chegavam aqui em casa para a indefectível reunião semanal. Traziam, porém, um brilho diferente nos olhos... Mãozinhas escondidas para trás, notei Vivi disfarçando. Era o filhote, nosso livro, o projeto que consumiu quase um ano de suor, lágrimas e tendões. Quando vi os nomes das autoras, deu um branco. “Eu? Escrevi tudo isso? Sério? Ah, vá, vá...”. Pois era verdade. O pior foi não ter parado de emocionar ali. No último sábado veio uma tarde de autógrafos plena, divertida, surreal. Acho que nenhum escritor jamais sentiu tanta felicidade. Ou vai ver que sim, na primeira vez. Porque a primeira, a gente nunca, nunca esquece.

capa_impossivel.jpg
Foto do meu primeiro bebezinho literário

Fla Wonka às 10:43 AM

sábado, 4 de junho de 2005

Presente para mim

Toda vez que alguém me dá um embrulho com laço de fita eu já começo a entrar em pânico. E se eu não gostar? E se não servir? E se eu tiver de fazer cara de paisagem e disfarçar? Os minutos que se sucedem – é que não gosto de rasgar papel, embora a crendice popular pregue que isso traz sorte – são decisivos, e a expectativa estampada no rosto da pessoa à minha frente só piora a minha ansiedade. Sim, eu amo distribuir presentes, mas recebê-los me coloca em alerta.

Como muitos de vocês sabem (santo Orkut!), quinta-feira passada foi o meu aniversário. Como vem acontecendo em todos os dias 2 de junho, eu escuto sempre a mesma ladainha dos familiares e amigos: “eu nunca sei o que lhe dar...” e “ah, é tão difícil encontrar algo para você!” são frases proferidas ano após ano.

Então, para eu não passar saia-justa e para meus conhecidos não passarem aperto, aí vão algumas diretrizes para facilitar a nossa convivência nas primaveras (ou melhor, outonos) vindouras. Povo, anote aí e pare com o discurso!

Não dê: Agenda
Uma pessoa que, como eu, nunca sabe o dia da semana vigente e até costuma errar o ano quando preenche cheque pode estar precisada de uma agenda, certo? Errado! Isso só demonstra que é possível sobreviver sem a brochura que só tem 365 dias de validade.
Dê: Caderno de anotações. Principalmente aqueles pequeninos e de capa dura, que cabem na bolsa e não se desmancharão dentro dela.

Não dê: Jóias
Dizem que diamantes são os melhores amigos da garota – mas não desta aqui! Acho um desperdício gastar dinheiro com brincos, anéis e pulseiras caros que, desculpe, eu nunca vou usar. E o risco de ser assaltada? Jamais me compre penduricalhos na cor dourada.
Dê: Bijuterias coloridas. Pulseiras de plástico, colares que lembrem balinhas e anéis que parecem ter vindo de brinde em doce de mocotó.

Não dê: Bibelôs
Não é que eu não goste de bibelôs (uma caixinha, uma garrafinha, uma estatueta). Mas é que minha pequenina casa já está atulhada deles e não há espaço para outros. Por mais que eu tenha adorado o presente, vou ser obrigada a me desfazer dele – ou de outra coisa para ele caber.
Dê: Vaso de flores. Sempre há espaço para flores, certo? E sempre há um teco de terra na varanda esperando receber uma planta nova.

Não dê: Bombons chiques
Eu até gosto de chocolate, mas não sou tarada por aqueles pedacinhos marrons e enjoativos não. Além disso, meu paladar é pouquíssimo apurado para a iguaria: então, se me derem um bombom belga e um guarda-chuvinha de chocolate, é capaz que eu goste mais do segundo.
Dê: Um punhado de bala-chiclete. Isso sim é uma perdição para mim, mesmo com a proibição sumária de minha ortodontista. Shhhhhh!

Não dê: Vale-esteticista
São cupons que a pessoa compra valendo um valor X para o aniversariante gastar como bem entender dentro do salão. Mas como eu sou totalmente “do-it-yourself” nesse quesito – e só apareço no cabeleireiro para aparar as madeixas de vez em quando – não é uma boa idéia.
Dê: Esmaltes de cores malucas para eu brincar de manicure e maquiagem cheia de brilho (mas sem batom!) para eu brincar na frente do espelho.

Não dê: Copos finos de cristal
Se eu já sou desastrada normalmente, imagine com as mãos molhadas e ensaboadas! Por esse motivo, dificilmente copos de cristal sobreviveriam muito tempo aqui em casa. Então poupe seu dinheiro para comprar sorvete extra e me arrume algo menos delicadinho, ok?
Dê: Xícaras grandes, resistentes e baratas onde eu possa tomar sopa, comer bolo e mastigar cereais na frente da tevê. Quebrou, compro outra.

Não dê: Telegramas animados
Pelo amor dos meus filhinhos que ainda não tive e não sei se virei a ter: telegrama animado, só se você quiser cortar relações comigo. Daí é tiro-e-queda. Do contrário, me mantenha longe de serenatas, carros de som, faixas na rua, mensagens animadinhas e outras coisitas estranhas.
Dê: Um bilhetinho escrito com caneta Bic em uma folha arrancada do caderno com as melhores das intenções – e sem a rua inteira saber que é meu aniversário.

Não dê: Livros-cabeça
Sou tão chatinha para literatura quanto sou para música, e confesso que, nesse quesito, é realmente difícil dar uma bola dento. Então, para não correr riscos, mantenham-se longe de qualquer obra de filosofia, sociologia, política. Ficção, prefira brochuras de contos.
Dê: Guias de viagem. Se você quiser acertar em cheio sempre, opte por volumes turísticos. Gosto tanto que eles podem ser até sobre Carapicuíba.

Não dê: Arte
Também um quesito perigoso, uma vez que gostar ou não de uma peça de arte é algo estritamente pessoal. E é outro caso em que o espaço conta muito: não há mais um centímetro quadrado de minhas paredes que esteja sobrando para pendurar algo novo.
Dê: Massinha de modelar, giz de cera e pintura a dedo. Deixe eu mesma fazer a minha própria arte. E mais: se ficar feia ou sem espaço, vai pro lixo sem remorsos!


* * * * * *


Quer dar um presentão para mim?

Então compareça! É daqui a pouco...

convite_impossivelroda.jpg


Quando: 4 de junho, sábado
A que horas: das 14h às 18h
Local: Livraria Cultura - Loja de Artes
Onde: Av. Paulista, 2073 (Conjunto Nacional)



Vivi Griswold às 10:06 AM

sexta-feira, 3 de junho de 2005

Tinha que ser mulher

Outro dia fui deixar um amigo em casa depois da nossa caminhada noturna. Ele mora nessas típicas vizinhanças de subúrbio onde crianças tomam a rua para jogar bola até altas horas da noite, demarcando os golzinhos do sagrado futebol com tijolos baianão, pedregulhos, chinelas de tiras estouradas – o que estiver mais à mão. Pois mais adiante da casa do meu amigo estava um animado grupo de ludopédio de asfalto, disputado por infantes de não mais que dez anos.

Quando fui passar com o carro, eles mal e mal se afastaram. Ostentavam aquele ar de dono da rua típico das crianças urbanas, que só têm mesmo a via pública para brincar. Ao mesmo tempo, outro veículo encostou diante de uma casa. Tive que desviar com cuidado e atenção, para evitar que o pobre El Comandante tivesse suas partes baixas atingidas pelos tijolos largados à guisa de traves ou que eu desse manchete do tipo “motorista ensandecida atropela criancinhas brincando na rua”.

Quando havia cumprido a tortuosa manobra, eis que ouço um petiz ao longe: “tinha que ser mulher mesmo!”. Parei o carro. Ia dar ré, descer, largar a chave na mão do moleque e dizer em alto e bom som, no meio da ruidosa turma e das comadres que papeavam no portão: “tira o carro daqui. Vai, tira!”. Quando ele negasse, saísse correndo ou tentasse me chutar, diria: “você só diga isso de novo se um dia souber dirigir melhor que eu”.

Mas, infelizmente, não sei dar ré. Claro que não exatamente por ser mulher – a Flávia, por exemplo, é um verdadeiro ás do volante. E partilha do mesmo sexo que eu. Por outro lado, conheço gente que não consegue estacionar nem a 45o. E que joga no time dos rapazes. Mas, ao fim, o fato de eu não conseguir levar o carro de ré por dez metros sem entortar toda a trajetória acabou reforçando o preconceito do garoto.

Preconceito, aliás, é o que não falta sobre o universo feminino. Dizem que as meninas não sabem dirigir. Que choram por qualquer coisa. Que não podem ver um par de sapatos sem surtar. Que são traiçoeiras e fofoqueiras. Como toda leva de generalizações, há uma porção de verdades (óbvio que não motivadas pura e simplesmente pelo sexo com o qual você nasceu) e outra de puras besteiras, tudo misturado no mesmo saco.

Depois de anos me negando a usar cor-de-rosa ou pintar as unhas na tentativa de ser levada mais a sério, percebi que agir forçosamente ao contrário dos estereótipos era, no fundo, concordar com os preconceitos. Ultimamente tenho assumido certas “coisinhas de menina” sem medo de ser feliz ou de me sentir frágil, fútil ou idiota por isso. E hoje empresto um verso de Chico Buarque para dizer que, “se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que”...

Não sabem mesmo estacionar
Às vezes, deixo o possante quadras e quadras distantes do meu destino, por não encontrar uma vaga que se encaixe não só ao tamanho do carro, mas especialmente às minhas (parcas) habilidades de baliza. Claro que, toda vez que sou obrigada a manobrar, o espaço é ao lado de um ponto de táxi ou de um boteco. E claro que eu noto os olhares mistos de compaixão e sarro dos taxistas e botequeiros, a acompanhar minha epopéia com o canto dos olhos.

Adoram fazer compras
Estou longe de ser uma fashion victim ou uma compradora compulsiva de roupas. Na verdade, gosto de fazer todo tipo de compras, de supermercado a objetos para a casa. E quando nada parece dar certo – seu despertador pifou, sua torrada queimou, seu carro quebrou e aquele texto prometido para ontem não sai de jeito nenhum – nada como largar um pouco a vida e se distrair numa grande loja de departamentos. Uma blusinha pode salvar o seu dia.

Tomam bebidinhas “de mulher”
Juro que eu adoraria gostar de cerveja. Parece tão borbulhante, cremosa e cintilante nos comerciais! Mas não tem jeito. Toda vez que dou uma bicadinha, faço careta. E o gosto leva dias para sair da minha boca. Uma pena – até porque, além de tudo, é uma bebida barata. Vai ver o preço das batidas, taças de vinhos e smirnoffs-ice nos bares por aí? Como se não bastasse, custa caro ser mulher. Baita injustiça, já que costumamos ganhar menos pelos mesmos trabalhos...

Sustentam a indústria de comédias românticas
Basta ter um casal a se desencontrar o filme todo, com alguns toques de comédia (pode ser o protagonista se esborrachando no chão ou a mocinha pagando um mico), e um longo, apaixonado, suspirante beijo final: pronto, já pago para ver. E ainda bato palmas na hora do ósculo. Baixinho, para não passar vergonha. Aliás, fico emocionada com qualquer beijo na tela. Exceto aquele da Liza Minelli e do David Gest quando do estranho matrimônio da dupla.

Adoram jogar conversa fora
Ao me pilhar com tempo de sobra e na companhia de um interlocutor disponível, pimba! Um dos meus passatempos prediletos é mesmo conversar. De preferência, o papo deve ser regado a uma bebidinha (chá, café ou outras descritas dois itens acima). Os temas são os mais variados: nossa vida, a vida alheia, teorias bizarras sobre o universo, a sociedade, os móveis da Tok & Stok, o último episódio de “Desperate Housewives”. Há quem chame de fofoca. Eu chamo de diversão.

E, como dizia Cyndi, as garotas só querem se divertir.

* * * * * *


Corra! É só amanhã!

convite_impossivelroda.jpg


Quando: 4 de junho, sábado
A que horas: das 14h às 18h
Local: Livraria Cultura - Loja de Artes
Onde: Av. Paulista, 2073 (Conjunto Nacional)




Clara McFly às 10:20 AM

quinta-feira, 2 de junho de 2005

Só em novela mesmo...

Minha vó Ondina era uma senhora divertidíssima. Com ela, tudo era legal: fazer suspiros, pular corda, contar piada boba, ouvir Tonico e Tinoco. Mas nada, nada era mais bacana do que ver novela ao lado da vovó. A velhinha se embrenhava tanto na trama que, em poucos minutos, estava mandando a mocinha deixar de ser boba e classificando o vilão como “ó que bandido!”. Até mesmo ela, porém, sabia que os folhetins sempre forçavam a barra. E, nessa cena, lá vinha Dona Ondina balançar a cabeça, fazer um ar de desdém e dizer “só em novela mesmo...”.

Ela também emendava jurando que nunca mais ia “seguir” qualquer desses programas. Pura mentira, óbvio, visto que meses depois a senhorinha estava novamente aboletada no sofá para assistir à nova trama das seis. De tanto apreciar com ela, acabei foi concordando: novela é mesmo uma balela danada. Podem chamar de retrato da vida real, eu acho mesmo é que só acontecem coisas impossíveis e baseadas num belo clichê.

Não raro, me pego sacudindo a cachola do mesmo modo que minha saudosa vovó e proferindo frases como “até parece” ou “ah, me engana que eu gosto”. E eu gosto mesmo. Mas não deixo de reparar que, nas novelas...

... há sempre o joguinho da campainha
Você já deve ter visto também. A moça se despede de Fulaninho na porta e tranca a dita cuja. Cinco segundos depois, a campainha toca. Então ela vem pela sala dizendo sorridente “oh, deve ser o Fulaninho que esqueceu a chave!”. Claro que não... É o vilão terrível que chegou para apavorar. Incrível é eles acharem mesmo que só pode ser o Fulaninho retornando. E mais curioso ainda é Fulaninho não ter cruzado com o malvado no hall, no corredor, no portão. Ou o bandido sempre fica escondido atrás das plantas decorativas, ou eu não entendo.

... ninguém liga para segredo
Que ódio me dá! A moça está há 40 capítulos mantendo uma mentira cabeluda – dormiu com o irmão do noivo, fingiu ser ricaça quando na realidade limpa calhas ou algo assim. Pois na hora que a pobre finalmente toma tento e diz ao cara “preciso te contar uma coisa”, ele dá de ombros e emenda “depois, querida, agora vamos jogar squash”. Ahhh! Como assim? Se alguém de diz que precisa falar coisa importante, largo qualquer tarefa e ouço. Vai que sou filha de uma princesa da Bavária? Nas novelas, eles não são bons de ouvido.

... só existem escritórios iguais
Pode ser uma agência de publicidade, uma fábrica de aço ou uma indústria produtora de sagu: o cenário é composto por detalhes cromados, vidros fumê e muito, muito carpete verde-musgo. Não há individualidade visual nos escritórios, eles são os mesmos desde os tempos de “Pecado Capital”. Sem falar que ninguém abre firma comum nos folhetins. Os ricaços são donos de coisas estranhas como estaleiros. Numa boa, quantos estaleiros existem no Brasil? Meio?? Na novela “Vale Tudo”, eles se referiam à empresa apenas como “a holding”. Todos iam “à holding”, trabalhavam “na holding”, desfalcavam “a holding”. Que preguiça de escolher um ramo, hein?

... crianças adoram sexo
Nunca vi, na vida real, a molecada gostar tanto de falar sobre o rala-e-rola. Bobeou, lá estão os garotos e garotas da ficção discutindo sobre transar ou não com o namoradinho, comprar ou não camisinha, a desconfiança de gravidez desta semana. Quanto drama, são só uns pivetes de 15 anos, poxa. Do jeito que as novelas pintam, acabam é dando mais idéias sobre isso do que prevenindo o acontecimento. Vai ver é porque os atores que representam os adolescentes têm, na verdade, 35 anos e dois filhos.

... empregadas levam um vidão
No máximo você vai encontrar a moça picando cebolinha na pia ou atendendo ao telefone. Nunca vi uma doméstica de novela batendo tapetes, arrastando móveis ou fazendo aquele barulhão aspirando os cantinhos. Normalmente, elas gastam tempo mesmo é dando palpite na vida do patrão. Por isso mesmo, vai ver, até assalariados humildes contam com uma secretária do lar... Curioso: a mulher é professora do Estado mas mantém lá sua fiel escudeira diariamente. Só eu não consigo verba para isso?

... não se pega muito no batente
Não são apenas as faxineiras que passam a vida novelística na flauta. Aquela gente do escritório-padrão, citada acima, também enrola que é uma beleza. Andam de terno e pasta 007, mas nunca estão realmente trabalhando. Estão sempre passeando na areia da praia ou discutindo a relação no living por longas horas. O chefe não acha ruim? Sério? Seria mais realista se eles ao menos fossem filmados jogando Paciência no computador.

... carros explodem demais
É um jeito célebre de acabar com a vida do vilão ou dar fim em personagens incômodos. Gozado é que qualquer batida ou quedinha em barranco suscita uma mega-ultra-explosão de proporções hollywoodianas. Para atear fogo em um automóvel daquele jeito são necessárias umas 30 condições específicas – mas não na novela. Desceu a ribanceira, é hecatombe certa. Os carros deles devem ter pólvora no tanque e assentos embebidos em gasolina. Ou minha vó tinha razão de novo: é só em novela mesmo.


* * * * * *


E não se esqueça disso!

convite_impossivelroda.jpg


Quando: 4 de junho, sábado
A que horas: das 14h às 18h
Local: Livraria Cultura - Loja de Artes
Onde: Av. Paulista, 2073 (Conjunto Nacional)




Fla Wonka às 10:43 AM

quarta-feira, 1 de junho de 2005

Salve, simpatia!

Estava eu bisbilhotando os tortuosos caminhos que trazem as pessoas até o Garotas quando vislumbrei a seguinte busca no Google: simpatia para nunca mais engasgar. Tive pena do sujeito que não deve ter encontrado a resposta, pelo menos por aqui. Afinal de contas, ele deve engasgar tanto que se deu ao trabalho inclusive de buscar uma solução para seu problema na internet. E ainda acrescentou o “nunca mais”, o que demonstra o grau de desespero. Tentei encontrar a resposta que ele buscava, mas a única coisa que consegui foi diversão com as sempre sábias crendices populares.

Venho de uma família totalmente crente nesse tipo de ritual que promete de um tudo, desde fim do mau-olhado até aumento de salário, passando por casamentos e até cura para enxaqueca. Às vezes, quando eu era pequena, deixava de lado os gibis da Mônica para pegar sorrateiramente os livrinhos de simpatias que minha tia colecionava e guardava no criado-mudo. Ficava maravilhada com a oferta de mandingas e seus ingredientes.

Feijão, por exemplo. Sempre presente em muitas delas. Para a mulher engravidar, precisa engolir um feijão como se fosse comprimido, logo pela manhã, com um copo de água, durante um certo período de tempo. Por outro lado, para a menstruação atrasada descer, é necessário guardar um feijão dentro do bojo esquerdo do sutiã, enquanto estiver usando. Ou seria o contrário? Bem, na dúvida, não tente fazer uma delas em casa.

Objetos do cotidiano também são usados: pratos, copos, facas... Porém, costumam ser seguidos pelo adjetivo “virgem”. Além da pessoa fazer aquele monte de coisa estranha (e botar a maior fé na eficácia do negócio), ainda tem que arranjar utensílios nunca usados. Isso quando a simpatia não pede uma moça virgem, o que é mais difícil de se arrumar. Mas ô, quantas vezes não fui arrastada pela mão por titia até o córrego mais próximo para “despachar” as sobras de seus rituais – que, na maioria das vezes, precisam acabar em água corrente. Ou jardim florido.

Pode reparar que simpatias possuem diferentes graus de dificuldade. A incauta começa na escola, quando pequeninas mandingas são populares. Como aquela de escrever o nome dos garotos interessantes em um papel, dobrar todos em partes iguais e deixá-los na bacia com água. O rapaz do papelzinho que amanhecer desdobrado será um futuro affair. Não me pergunte o que acontece se dois papéis abrirem, ou se nenhum. Simpatia não trabalha com variáveis.

Depois, a pessoa cresce um pouquinho e toca de botar o pobre do Santo Antônio de cabeça para baixo no dia dos namorados, para que no próximo o partido chegue. Se não chegar, lá vai ela com uma faca virgem na bananeira do quintal na noite de lua cheia anterior à data, fazer cortes e esperar o leite da planta formar uma inicial. Se não formar nada, no próximo ela já vai estar fazendo aquelas simpatias complicadíssimas, que pregam pular com um pé só na encruzilhada enquanto segura uma vela de 15 centímetros da cor azul-celeste no terceiro luar após solstício de verão do ano ímpar.

Voltando à busca que fiz para tentar arrumar uma resposta ao internauta engasgador, posso garantir que dei muita risada com alguns rituais hilários, copiados na íntegra aí embaixo. Quem se sentir compelido a tentar algum, que fique à vontade. Mas depois volte para me contar se deu certo, hein!

Para espantar os paqueradores chatos: Se o seu problema for com um paquerador, que não se manca, faça esta simpatia para afastá-lo. Coloque um pouco de água para ferver em uma panela velha de ferro (céus, quem tem panela de ferro hoje em dia?). Jogue dentro tantos copinhos de água quanto forem os anos da pessoa (que quantidade vem a ser um “copinho”?). Ao fazer isso, diga: “Leva embora pra outro canto a queda que fulano tem por mim”.

Para sossegar coroas: Esta simpatia serve para acabar com aquele fogo interno (!!!!) de coroas solitárias que se sentem angustiadas, que se queixam dos famosos “calores internos” (Hahaha. Desculpe, o negócio é sério). Em uma noite de lua crescente, coloque para ferver uma leiteira (leiteira, hein? Não vale panelinha) com um litro de água, algumas folhas de erva cidreira, camomila e erva-doce, junto com uma xícara de açúcar mascavo. Deixe ferver até o líquido engrossar feito um xarope. Tome um cálice desse chá três vezes ao dia que é um ótimo calmante (e xarope apaga fogo interno?).

Para conquistar uma pessoa que nem repara que você existe: Junte cinco fios de seu cabelo com mais cinco fios do cabelo dele(a) (só não arranque os fios da pessoa em um ato tresloucado, porque daí ela não vai se interessar muito). Enrole os cabelos com um pedaço de pano e embrulhe junto com um anel novo, que nunca tenha sido usado. Deixe o amuleto bem perto do próprio coração (mas do lado de fora do peito, viu?) durante nove dias. Passado esse período, dê o anel de presente a tal pessoa, que logo vai reparar em você e poderá até acabar se apaixonando (uai, “poderá”? Depois de tudo isso ainda há a dúvida?).

Para ter seus superiores debaixo do seu pé: Se você quizer (sic) ficar sempre por cima dos seus superiores em matéria de conceito (hein?) e desejar ascensão profissional, escreva o nome da pessoa ou dos diretores e chefes num pedaço de papel em branco e prenda com adesivo dentro do seu sapato, de maneira que os nomes fiquem virados para cima e o seu pé em cima deles, sempre no seu pé direito. Toda vez que precisar que eles tomem alguma atitude a seu favor, fique batendo com o pé direito no chão, de mansinho (vai parecer que você está com vontade de ir ao toalete, mas tudo bem!).

No final, o atestado: Essa simpatia é infalível. Ah, vá. Todas são.


* * * * * *


E não se esqueça disso!

convite_impossivelroda.jpg


Quando: 4 de junho, sábado
A que horas: das 14h às 18h
Local: Livraria Cultura - Loja de Artes
Onde: Av. Paulista, 2073 (Conjunto Nacional)



Vivi Griswold às 09:43 AM

Envie esta página a um amigo



No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold