|
||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
||||||||||||||||||||||||||||||||||
Isso é um “Q” minúsculo ou um “9”? Muito bem. Agora, é só clicar aqui e... pronto. Missão cumprida, e-mail enviado. Espero que o Marco Antonio receba. Puxa, quem diria! Depois de vinte anos, encontrei meu melhor amigo da pré-escola no orkut! Só de ver a microfoto dele no perfil já me lembrei na hora! Tudo bem que o nome Marco Antonio da Silva não é nada incomum... Mas aquela carinha não mudou nada. Foi fácil lembrar-me de todos os brinquedinhos que ele me emprestou e escrever uma mensagem linda de morrer para o danado. Duvido que ele não se lembre de mim também. Aposto que vai até responder rápido, rápido. Ainda mais quando ele vir que estou para casar e seria uma honra se ele aceitasse ser o padrinho. Opa! Tá chegando um e-mail. Será que já é o Marco Antonio? Nossa, ele deve ter feito leitura dinâmica. Hum. Não. É um tal de Anti-Spam UOL. Sobre a mensagem para o Marcão. “Olá, Você enviou uma mensagem para Marco Antonio Interessante! Hoje em dia, os caras têm de pensar em tudo, não? Olha isso. Graças aos malditos espalhadores de mensagens indesejadas, preciso confirmar a boa intenção de minha missiva para um amigo do pré. Tudo bem, a idéia do mecanismo é das melhores. E a máquina é até simpática! Me saudou com um “olá”. Bom, parece que é só clicar aqui... Opa. Abriu outra janela. “Por favor, digite o que você vê na imagem ao lado e clique no botão OK.” Certo. A máquina é simpática mesmo. Pede até por favor. Bom, não pode dar errado. Vamos ver a imagem. Hum... É um “L” minúsculo ou um número 1? Acho que é um “L”. Só pode ser. Então, isso forma... “L4sy9”. Pronto. Ok. Ué. Outra imagem? Acho que errei. Droga. Vamos lá. Isso é um “4” ou um “7”? Mas que raios, porque eles botam esses caracteres pontilhados? Parece mais um 4. Vamos lá. Pelo Marcão. Pela presença do Marco no meu casamento. “x8r4up”. Ok. Ok nada. Não acredito. Outra imagem. Filhos da p*&% de m$#%*! Agora esses lazarentos desses spammers ficam torrando os bagos alheios e eu que tenho de pagar? P*&%queopariu, tudo o que eu queria era convidar um amigo de infância para o meu casamento! Calma. Respira. Isso, agora digita. Com cuidado. Erre. Tê. Sete. Nove. E... isso é um zero ou um “O”? Quer saber? Vou chamar o Almeida logo para me apadrinhar. É o cara mais chato do escritório? É, não vou mentir para você. Mas pelo menos eu posso entregar o maldito convite para ele em mãos. Adeus, Marco Antonio. Quem sabe um dia a gente tromba num bar por aí. Enquanto isso, Marco Antonio, sentado diante do computador na empresa, trabalha com afinco contra os spammers e se esmera em criar imagens de confirmação de e-mail. “Acho que hoje vou acrescentar um traço no meio de todos os caracteres, para dificultar. Tomem essa, spammers filhosdap*&%! Agora quero ver vocês driblarem meu programa”.
Tem, sim senhor! Estas três garotas vão conversar virtualmente – sobre o livro “É Impossível Ler um Só” (o lançamento é no próximo sábado, não se esqueça!) e otras cositas más – com quem aparecer por lá às 19:00. Chega junto. Vamos nos divertir. Clara McFly às 10:52 AM
Efetivação já! Só quem já foi, sabe: é dura a vida de um pobre estagiário – com o perdão desse pleonasmo “pobre estagiário”. Remuneração miúda, trabalho que ninguém mais quis e bronca sem sentido são apenas alguns dos sapos que os abnegados enfrentam. Ruim mesmo é lembrar que, a despeito disso, muitos deles salvam suas empresas diariamente, apesar de serem tratados como material de escritório, um objeto que se compra em papelaria. Apenas o Frodo, o maior estagiário que o cinema mostrou, recebeu algum crédito. E, mesmo assim, levou oito horas de fita e uns 1.500 km de Terra Média percorrida. O costume geral é fazer do trainee um chinelão velho: usa-se muito, não se dá valor ao conforto que ele oferece e, no fim do dia, atira-se o coitado para o canto mais próximo. É difícil aturar esse desdém sabendo da suma importância que os estagiários têm nos tempos de hoje. Por exemplo: se eu fosse o comandante da MTV, aumentava o salário do estagiário. O único período em que a emissora passa clipes de verdade é de manhã muito cedo. Duvido que exista um VJ ocupando este horário. Aquela é mesmo a hora em que somente o moleque contratado para ajudar a produção está acordado e trabalhando. Ou seja, é ele quem garante alguma “music” naquela “television”. Nas rádios é a mesma coisa. Todo mundo sabe: os programas da madrugada são comandados por estudantes que arrumaram um bico na difusora mais próxima de casa. Precisam de uns trocados para comprar o sonhado videogame e vão até lá descolar um empreguinho. Como os profissionais da área não são bobos nem nada, aceitam o garoto com dois tapinhas nas costas e dão a ele um copo de café frio e o horário da meia-noite às 4h00. É nesse momento que conseguimos, finalmente, ouvir boas canções – e não o desgraçado do jabá. Outro estagiário valente e merecedor de crédito é aquele das agências de turismo. Quem vocês acham que vai buscar figurão em aeroporto e fica lá, pagando mico com aquela plaquinha escrito “Mr. Jobilicapoulos”? O dono do estabelecimento é que não é. Nem a gerente. Na cadeia hereditária, sobra para o membro mais frágil o trabalho de esperar sete horas por um avião atrasado e um senhor grego que nunca saiu de seu país. Estagiário de jornal ou revista eu sei bem como é. Se sobrou uma pauta a respeito de buraco de rua, bicho recém-nascido no zoológico ou moradores reclamando do saneamento, é ele quem pega. Repórter novato não escolhe matéria – e nunca fica com o filé, mas sabe como é roer um osso magro. Há que se reconhecer esse sujeito pela eterna pressa, as olheiras e a barra da calça suja de lama. Até as bandas têm estagiários. No meio musical, levam o pomposo nome de roadie. Segundo consta, são eles que montam o equipamento, afinam instrumentos, repassam som. Se fazem tudo isso, podiam muito bem estar no grupo em definitivo, no lugar daquele baixista ou guitarrista estrelinha dos infernos... Mas que nada. Os estagiários de banda são relegados à obscuridade. Tomara que roubem umas baquetas e paletas de vez em quando, só por compensação. Mas talvez o estagiário que mais rala seja o da Polícia Federal. Imagino que ali, na maior parte do tempo, ele não passe de um ajudante de escritório, sempre levando papéis para cima e para baixo e administrando o almoxarifado. Basta aparecer um produto de contravenção, porém, que o cidadão tem seu momento de trabalhar até de madrugada. É ele, certamente, quem organiza a mesa onde se expõem as apreensões. São milhares de saquinhos de cocaína, blocos e blocos de maconha embrulhados em fita adesiva e quilos de munição. E lá vai o miserável estagiário passar a noite arrumando a coisa toda, enfileirando celulares, pentes de metralhadora e facas de rocambole confiscados na última rebelião da penitenciária. Tudo isso porque logo cedo, ao raiar do dia seguinte, os fotógrafos precisarão clicar a mesa arrumadinha, com as inicias “PF” ou “DEIC” escritas com balas de fuzil alinhadas. Ninguém se pergunta quem gastou tanto tempo ali, fazendo aquele bem cuidado cenário policial? Eu sei, foi o estagiário, o ser mais valoroso, competente e barato que há. Quando puder, vou comprar um só pra mim.
Adivinha quem passou a noite montando este belo cenário?
Fla Wonka às 09:59 AM
Replay? Nem pensar! Companheira diária, aquela máquina quadrada que transmite imagens já nos fez testemunhar momentos de pura magia: beijos de último capítulo, reportagens instigantes, cenas raras, gols maravilhosos, episódios históricos ao vivo, reprises do Chaves e até mesmo Didi imitando a Maria Bethânia. Isso, claro, é o lado bom – o motivo primordial para que tenhamos a televisão em um apê com vista privilegiada dentro de nossos corações. Mas se no mundo real nem tudo são flores, imagine só ali dentro. Dizem que o couro come. A tal briga pela audiência seja pelo preço que for, a tal mania de escalar gente jovem, bonita e sarada para fazer vezes de profissionais qualificados e, principalmente, a tal falta de semancol, contribuem para que a qualidade das atrações vá voando pelos ares sem deixar rastros. A TV já nos deu coisas lindas de encher as vistas. Mas também já nos fez sofrer só por olhar para alguns dos piores momentos que seguem... 1) Van Damme armando a barraca 2) Dercy com peitos de fora 3) Bial e o viado 4) O dia do Latininho 5) Chorando pela boneca 6) Dona Armênia II 7) Pegadinha com Rafael Ilha 8) “I de iscola” 9) Uma coisa chata 10) Repórter joselito
Vivi Griswold às 11:04 AM
Ela estava certa Detesto admitir, mas minha mãe tinha razão. Um ano e oito meses depois de assinar uns papéis na frente do juiz de paz, “contrair matrimônio” (isso é lá jeito que se fale? Parece doença!) e me mandar para debaixo do meu próprio teto, tenho de dar o braço a torcer: uma porção de coisas que ela dizia (e que eu insistia em ignorar solenemente) fazem todo sentido agora. Não entendia, por exemplo, porque ela ficava irritadíssima com uns tiozinhos que queimavam folhas nos terrenos baldios adjacentes. Pensando bem, tampouco entendia porque esse bando de piromaníacos gostava de atear um fogaréu em vez de simplesmente recolher o lixo e botar num saco. Mas enfim. Minha mãe, emputecida, corria para fechar as janelas todas e passava a mão na piaçava para varrer o quintal. Tudo isso xingando os pobres. Eu pensava como Rosalita nos “Goonies”: “Deus, vim parar numa casa de loucos”. Por que tanto ódio contra uns poucos cristãos que gostam de ver o lixo pegar fogo? Mas foi só me mudar – e passar a tentar manter limpa a minha própria casa – para perceber que uma semana de queimadas promovidas nas adjacências, aliadas a um insistente vento, eram mesmo razão para soltar os maiores impropérios. Quando vi, o banheiro branquinho estava coberto de fuligem preta. As partículas se desmanchavam ao menor toque e aderiam aos azulejos e peças feito “Festa no Apê” gruda na cabeça. Duas opções: limpar tudo, o que daria o maior trabalhão, ou ignorar o ocorrido e, da próxima vez que usasse o vaso, levantar com um círculo preto pintado nas pernas e no derriére. Fui na primeira. Quando me vi xingando os filisteus que levaram a fogueira a cabo, pensei: “Droga. Ela tinha razão”. Eu também achava frescura a insistência da mãe para que, depois do jantar, a gente deixasse a louça raspada e cheia d’água com detergente dentro da pia. Era detalhe demais para minha cabeça: raspar os restinhos de macarrão, empilhar tudo direitinho, ligar a torneira e jogar sabão por cima? Ah, acho que não, hein. Pois foi só me ver com a incumbência de lavar a louça do jantar no dia seguinte para que de novo eu pagasse a língua (e a má-vontade). Restos de molho, na manhã seguinte, estão secos e amalgamados aos pratos que nem aquele mosquito no âmbar em “Jurassic Park”. A água com detergente impede o processo maldito. Não tive outra opção senão murmurar para mim mesma: “Droga. Ela tinha razão”. A lista é interminável: panos de chão deixados ao relento, embolados, realmente emboloram. E fica chato – e muito mais difícil – lavá-los depois. Se a gente não regar as plantas, elas de fato morrem. Deixar a vassoura de pelo virada para baixo deforma a “pelagem”. Depois, ao varrer, fica uma faixa de sujeira para trás. Existem panos de prato (os mais bonitinhos e ajeitados) cujo destino não deve ser a desglamurizada secagem de louça. Eles servem para botar em cima do fogão, só para... para... ah, sei lá para quê. Minha mãe fazia e eu faço também, puxa. De repente, me peguei ralhando com o namorido para que ele, ora bolas, pegasse os panos de prato mais velhos para secar os copos. E, depois do jantar, raspasse o prato, empilhasse tudo dentro da pia, ligasse a torneira e despejasse sabão ali dentro. Até o arremate dramático era igual ao da dona Sandra: “Não vai cair sua mão, vai?” Comecei a ficar preocupada. Veio o estalo: viximaria, estou virando a minha mãe! Mas logo me acalmei. Ficar parecida com minha mãe não é nada mau, porque ela é uma das pessoas mais legais que eu conheço. Claro que também tenho meus limites. Encher a casa de paninhos decorativos ou correr com um rodo para enxugar o quintal a cada fim de chuva não é comigo. Se bem que estou achando aquele galão de água tão nuzinho... Fica um pó em cima, menina, que só vendo. É ruim deixar o negócio assim, pelado. Acho que vou comprar uma daquelas capinhas de galão, com um bordado de vaq... Opa! Alerta vermelho, Clara. Assim já é demais. Minha mãe sempre me disse para ser eu mesma. Mais uma vez, me ocorreu: “Droga. Ela tinha razão”.
Clara McFly às 10:41 AM
Garmice É uma palavra tão nova que nem consta nos dicionários. Aliás, nem irá constar – a não ser que o poder de influência deste humilde sítio seja um bilhão de vezes maior do que presumo. O termo que nomina este texto foi uma corruptela criada incrivelmente sem querer e de modo bastante... er... bobo. O bom é que ela, hoje em dia, resume algumas situações de modo que nenhum outro vocábulo pode. Garmice. Anotem isso aí, pois cada um de nós tem vestígios dela. O que é a tal da “garmice”? O que é ser “garminho”? Tentarei resumir. Certa feita, quando o trio de autoras deste sítio trabalhava em um site de entretenimento, conhecemos uma menina muito divertida e simpática, a Debbie. Fã de música e de seriados de TV, ela era parada em um filme chamado “Os Últimos Dias de Laura Palmer”. Sim, aquela que teve as botas batidas em “Twin Peaks”. Foi daí que inventou sua palavra. Até onde descobri, o maior vilão podreira do filme, o “Homem de Outro Lugar”, se alimentava de uma certa Garmonbozia. A criatura terrível encerrava em seu espírito tudo o que havia de coisa-ruim, e o termo significava toda a dor e sofrimento do mundo. Isso fez com que Debbie, impressionada, usasse a palavra a toda hora, transformando em um substantivo. “Garmice” era a forma dela definir o que praticavam os chefes chatos e toda a sorte de atitudes maléficas e sem sentido. Quem o fazia era, portanto, um tremendo “garminho”. Com o tempo, o sentido degringolou um pouco e passou a ser usado para aquela tendência à avareza, a fazer tudo de modo tosco, à mania de empurrar com a barriga. Incrível como passei a notar toda a garmice que eu mesma praticava! E os outros ao redor também. Para dar mais a entender onde usar a palavra, posso definir as maiores garmices do universo. Aposto que algum de vocês já foi bem assim um dia. Plástico no banco do carro Durex no controle-remoto Colherinha na garrafa Balde para conter goteira Água no detergente Bombril na ponta da antena
Fla Wonka às 10:09 AM
Alô? Quando o escocês Alexander Graham Bell inventou o telefone, lá por volta de 1875, nem imaginava que, muito tempo depois, a engenhoca encontraria tanta serventia em nosso cotidiano: desde perguntar para a avó se ela melhorou da gripe até pedir uma pizza no sábado à noite – passando por dar um fora no(a) namorado(a), demitir funcionários, papear por horas com o melhor amigo, ser demitido, marcar dentista e combinar aquele arrasta-pé no fim-de-semana. Repare que, inclusive, o telefone é um excelente termômetro. Antes de mais nada, para mostrar seu crescimento. Se no começo de sua vida falante você recebia chamadas apenas de familiares, de repente passa a atender ligações de amigos. Tal passagem equivale, em importância, a ir pela primeira vez sozinho à padaria. Além disso – e, principalmente – a invenção do barbudo Bell é um termômetro de popularidade. Se ele toca demais, parabéns, você é popular. Se ele não toca... Xi, meu chapa, a coisa tá fraca. Ele pode ser a salvação da lavoura ou a bola de ferro no pé que nos faz afundar cada vez mais. Como todo mundo, eu também já perdi algum tempo da minha vida ao lado do aparelho esperando aquele triiiiiim específico; já chorei no bocal, já gargalhei, já fiz amizades e já as destruí. Já me afoguei ouvindo a música mais deprê dos Smiths quando ele teimava em ficar mudo a noite toda, e já tive ocasiões em que não conseguia deixá-lo no gancho por cinco segundos sequer. Passado esse período de inseguranças no qual o telefone é tanto um amigão quanto um inimigo cruel, eu comecei a encarar o aparelho cor de creme com teclas pretas como apenas mais uma facilidade da vida moderna, equivalente à televisão, computador e máquina de milk-shake. Já não tenho mais aquela relação de dependência, de amor e ódio. Hoje, se ele não toca, aproveito para botar a leitura em dia. É muito chato ser interrompida repentinamente no melhor da história, né? Agora que meu contato com ele é prático e beira a indiferença, comecei a notar algumas coisas. Por exemplo, que o maldito infantiliza ainda mais a minha voz – que já é bem infantil. Quantas vezes eu atendi a ligações de telemarketing e ouvi, do outro lado da linha, a simpática moça indagar “Posso falar com a sua mãe?”. Grrrr. Pelo menos, resolvi aproveitar a deixa a meu favor e escapar: “ah, desculpa, tia do banco, mas minha mãe tá trabalhando”... Costumo também mandar beijos para estranhos. É típico na hora de pedir comida delivery. Quando o rapaz fecha o meu pedido, me passa o valor e me informa quantos minutos levará o rango para chegar até a minha porta, eu preciso me segurar para não encerrar a conversa com um “Tá bom então. Um beijo!”. Se eu estiver distraída com a tevê, o risco de distribuir amor a completos desconhecidos é ainda maior. E quando eu termino com “Qualquer coisa, me dá um toque”? Sei lá, acho que esse hábito de pedir um toque assim, sem mais nem menos, pega um pouco mal. Tenho ainda uma facilidade absurda em me dispersar com a conversa. Sabe quando você liga para alguém com o propósito consciente de falar sobre um assunto x e, após meia hora de blábláblá inútil, já com o telefone no gancho, repara que esqueceu de mencionar exatamente o que motivou o contato? Faço isso com uma freqüência enlouquecedora. Já tentei confeccionar listas de prioridades antes de discar, mas por muitas vezes o papel e a caneta só servem para rabiscar desenhinhos enquanto amenidades saem da boca. Sempre receei estar atrapalhando. Não ligo para ninguém cedo demais, ou tarde da noite – nem mesmo para os amigos do peito. Só em caso de emergência extrema. E olhe lá. Quando a pessoa demora mais de quatro toques para atender, começo a matutar: será que ela está no chuveiro? No banheiro? Será que saiu? Ou está dormindo? E costumo dar uma de vidente, só pelo “alô”. Sério, dá para sacar se a pessoa está ocupada/ doente/ alegre/ brava/ assustada/ cansada/ triste apenas sabendo ouvir aquela palavrinha de três letras. Normalmente, eu acerto. É por tudo isso que acho uma pena Graham Bell não ter sobrevivido a todas essas décadas para ver que ele não inventou apenas um meio de comunicação – mas um aparelhinho do dia-a-dia capaz de ser o canal para coisas tão incríveis e tão mundanas ao mesmo tempo. ![]() “Alô? Menina, eu nem te conto!”
Quando: 4 de junho, sábado Vivi Griswold às 10:00 AM
Eles é que estão descontrolados Algumas meninas odeiam jogos de futebol. Outras adoram. Eu tenho uma opinião nem tanto ao mar, tampouco à terra. No fundo, acho esses embates ludopédicos um sarro. Mas atenção: é preciso considerar como um “jogo de futebol” completo não só o que acontece entre as quatro linhas, mas também – e especialmente – o circo armado em volta, pela imprensa, pelos espectadores e pela atuação dos jogadores em campo. E, por atuação, entenda-se o teatro, não os chutes, passes e defesas. Para quem gosta de futebol, os 90 minutos de toma lá, dá cá são sagrados. Vejo pelo namorido e pelo irmão, fãs incondicionais da brincadeira, e pelos muitos amigos empolgados que me cercam. No último jogo Palmeiras x São Paulo, descobri que também tenho vizinhos muito comprometidos com o 11 contra 11. Soltaram rojões à meia-noite. Na minha janela. Depois dizem que as mulheres é que ficam irracionais quando vêem um sapato irresistível ou quando choram sem razão aparente. Os peludos que me desculpem, mas não há demonstração maior de descontrole do que homens assistindo a (ou jogando) uma partida do seu time. Não entendo, por exemplo, porque um punhado de jogadores se amontoa em volta do juiz quando este tira o cartão do bolso, na intenção de mostrá-lo a um infeliz que confundiu os joelhos do adversário com a bola. Uma vez retirado do bolso, o cartão não volta para lá até ser erguido, gente. Eu, que nem acompanho o esporte, sei disso. Não vai adiantar cercar o juiz. Ele não costuma mudar de idéia, especialmente se tem alguém sangrando em campo. Não faz sentido embolar o pobre homem de preto. Mas eles embolam. Outra coisa: como os integrantes do “elenco” têm coragem de fazer cena e rolar três metros adiante quando são delicadamente tocados por um adversário? Pelamordedeus, o juiz pode não ter visto que não foi nada, mas sua mãe deve estar assistindo em casa, meu filho! Não tem vergonha de pagar de mentiroso em rede nacional, não? Parece que não. Adentrar o “tapete” faz os homens perderem as estribeiras. O pessoal do sofá não fica atrás. Douglas, o namorido, é Curíntia até morrer. Fica com os olhos vidrados na tela quando assiste a um jogo. Fala com o juiz: “ah, assim não, juizão!”, como se o homem pudesse ouvi-lo. Xinga os jogadores, ao mesmo tempo em que orienta o jogo: “filhadap*%*&! Toca ali, toca ali!”. As palmas da mão geladas, o rosto contrito. Fico olhando e pensando: “como uma pessoa racional e objetiva como ele pode falar com gente que está do outro lado da tela?”. É impressionante. E a emoção na arquibancada? Fico passada. Meu irmão me disse que quando sai um gol todo mundo se abraça. Inclusive desconhecidos. Duvidei. Até saber que o Dener, amigo de década, certa feita abraçou um PM. Isso mesmo, um policial militar. Quando percebeu o que tinha feito, foi quase um filme: soltou o homem, deu uma limpadinha nele e um sorriso amarelo. Virou as costas e procurou outro incauto para agarrar. O pessoal que cobre tais eventos não fica atrás. Convenhamos: deve ser mesmo difícil arrumar perguntas variadas para um negócio que é mais ou menos igual – entram vinte e dois, passam noventa minutos tocam a bola, onze saem vitoriosos, onze derrotados (ou menos, dependendo do juiz e do controle da testosterona). Aí vêm os repórteres no intervalo, pegam um pobre cuja esquadra perde de três a zero e tascam: - E aí, o que você está achando do resultado até agora? Se sou eu, digo: - Maravilhoso! É que na verdade eu sou um espião infiltrado e entreguei todos os gols. Vou receber a maior grana do pessoal de lá. Olha aqui minha tatuagem! (Levanta a camisa e mostra, impresso no peito, o escudo do time adversário, sob o olhar atônito do jornalista). Não contente em cobrir o jogo durante o embate em si, a imprensa ainda curte passar umas duas horas falando dos resultados depois. Aí, junta um monte de mané em volta de uma mesa. Quando há notícias de contratação, brigas, inovações técnicas, muito que bem. Fica um programa quase sério, salvo por eventuais momentos de destempero verbal de alguns participantes. Quando não há é que são elas. É preciso preencher o tempo regulamentar do programa com alguma coisa. Então, passa um lance polêmico no videotape (classificado muito sabiamente de “burro” pelo Nelson Rodrigues). Metade do pessoal no ar diz: “foi pênalti”. Outra metade diz: “não foi, não”. O que se segue é um festival de subjetividades, até que eles mesmos se irritam entre si e começam a falar um por cima do outro. Pronto! Virou aquela discussão de tios semi-briacos sobre qualquer nota, depois do almoço de domingo na casa da sua avó. Se seu sobrinho menor passasse diante da tela, diria: “olha, os titios estão na TV!”. E como convencê-lo do contrário? Não tem jeito. Como não há maneira de convencer os torcedores de que tudo aquilo é só um jogo. Vai ver não é mesmo. E só eu ainda não percebi.
Quando: 4 de junho, sábado Clara McFly às 10:10 AM
Amigo do bom Há quem possa contá-los apenas nos dedos da mão direita. Há quem encha uma boa bacia com seus nomes. Há quem conheça hoje e, amanhã, já se sente íntimo. Há quem leve dois anos para concretizar uma amizade. Ter amigos é tão necessário quanto ter água para beber, comida para comer e o CD dos Saltimbancos para ouvir em uma manhã ensolarada de domingo. Somar conhecidos é fácil. Difícil, porém, é ter um comparsa perfeito para chamar de seu. É complexo definir o amigo de fé, o irmão camarada. Tudo depende do quanto pretendemos nos lançar nessa parceria. Se você gosta apenas de ter alguém para papear de vez em quando, pelo telefone mesmo, pode arrumar amigos a granel. Mas complica um pouco se quiser ter uma alma gêmea, um grude total, aquela pessoa que iria te resgatar até na Sibéria. No inverno. Sem esquis. E carregando o Jô Soares nas costas. O bom de pensar nos amigos mais chegados é que eles são, na realidade, uns gradecíssimos pentelhos. Folgados, salientes, intrometidos, caras-de-pau. Só eles usam da sinceridade plena, aquela que nem sua mãe tem coragem de exercer sobre ti. Tanta intimidade, às vezes, também nos faz querer dar um belo murro na cara do amigão. Não fazemos isso apenas porque, raios, eles nos conhecem tão bem que saberiam com antecedência de onde viria o golpe. Para amigos assim não há regras ou limites. É amor puro – só não tem a parte do beijo na boca. Quer saber se achou uma metade não-romântica para sua laranja? Veja se ela encaixa em alguns itens aqui. Empréstimo sem retorno Muro das lamentações Impertinência máxima Refrigerador, o alvo clássico Destrato com a mobília Discreto, pero no mucho Ataques de bobeira Intercâmbio sem frescura O carinho mútuo
Quando: 4 de junho, sábado Fla Wonka às 10:42 AM
Manifesto do PP Venho por meio deste manifesto exprimir minha indignação de consumidora quanto à nova modelagem de roupas atualmente em voga nas lojas da cidade. Creio eu, nos estabelecimentos de todo o país. Pois se a tal prática abusiva estiver acontecendo apenas onde resido, vou ficar ainda mais irritada do que já estou. Seria o estopim de minha fúria assassina. Mas por enquanto não usarei de violência. Não atacarei vendedoras, não açoitarei gerentes e não destruirei vitrines a marretadas. No momento, estou aberta ao diálogo – e peço, para isso, a compreensão de todos os cidadãos de bem quanto a este assunto de suma importância. Antes de mais nada, permita que eu me apresente. Meu nome é Viviana, sou brasileira, paulistana, casada, jornalista, estou às vésperas de completar 28 anos, pago minhas contas e impostos (quase) em dia e... Bem, eis um dado que pode parecer fútil à primeira vista, mas que é imprescindível a esta discussão: meu número de manequim é 36. O famigerado PP. Para esclarecer as coisas de antemão, saiba que não faço uso de tal tamanho para contar vantagem. Tampouco passo vaselina para vestir o jeans, forçando a entrada do mesmo, com a finalidade específica de sair espalhando por aí o grande feito de haver cabido nele. Acontece que com pouca altura e poucos quilos na balança, não há outra escapatória para mim além de adquirir peças dessa categoria. Infelizmente. E cito o termo “infelizmente” por dois fatores. O primeiro diz respeito ao aumento de centímetros das roupas de número 36. Outro dia, por exemplo, saí em busca de uma saia. Após haver me certificado do tamanho na etiqueta, segui a uma cabine do provador feminino. Bastou fechar o zíper da peça para eu notar que, se soltasse a cintura, ela escorregaria pelos meus joelhos, deixando à mostra, veja você, minhas roupas íntimas. Um despautério. Agora eu pergunto: se o 36 é o manequim mais baixo que existe, o que eu faço em situações como a relatada logo acima? Poderia levar até um alfaiate para reformar o traje – mas não gostaria de pagar a mais por isso. Poderia tentar um modelo da seção infantil – mas lá só existem minissaias com desenhos das Meninas Superpoderosas para garotinhas de 10 anos. Poderia simplesmente não comprar. E foi o que fiz. Mas até quando? O segundo versa sobre o completo desaparecimento de trajes tamanho P. Que encontrar um PP na arara é tarefa das mais difíceis, eu já sei. Estou conformada quanto a isso. Mas o P também está entrando em extinção. E tenho testemunhas: há algumas semanas, estava olhando a coleção de uma famosa loja quando notei a completa falta de peças pequenas. Questionei a vendedora quanto ao fato, e ela me respondeu que agora a rede não trabalha mais com P. Só a partir de M. Ou seja, não encontro vestimentas do meu tamanho. Quando encontro, elas não me servem. Aí você pode indagar “Ah, mas são realmente poucas as mulheres que usam PP”. Eu poderia até concordar, se não fosse por outro detalhe: existem, aos montes, peças GG. E até Extra-GG – uma quantidade de pano que não acaba mais. A população brasileira (talvez, mundial) anda em um enlouquecido sistema de engorda, é isso? Talvez uma consumidora cheinha esteja festejando, neste exato momento, a entrada triunfante em uma calça 36. Ela deve estar pensando que a dieta e as horas de caminhada têm dado resultados, apesar do espelho não mostrá-los. Mal sabe a coitada que está sendo ludibriada pela máfia do PP gigante. Mas, paciência. A comemoração de alguns é a ruína de outros. Sei que enfrentarei mares bravios para atualizar meu guarda-roupa. Sei que posso não obter sucesso na empreitada, e sei que provavelmente precisarei usar as mesmas peças velhas e desbotadas ano após ano, até o dia em que elas mesmas virarão trapos. Então, a partir desse dia, não poderei mais sair às ruas. E, quando o fim chegar, alguma alma caridosa terá de cobrir meu corpo inerte e nu com uma camiseta de político ou uma toalha de piquenique para eu descansar com dignidade. Ciente de que meu futuro é incerto e frio, despeço-me. Vivi Griswold às 10:01 AM
Tirem isso da minha mente! Um dos grandes mistérios da humanidade pode ter sido solucionado por uma pesquisa americana. Solucionado, não; na verdade, enunciado. A questão é por que certas músicas (geralmente classificadas como ruins) colam na nossa cabeça. A resposta é que algumas combinações melódicas, aliadas a repetições de versos, causam uma “coceira cognitiva” no cérebro. Como toda coceira, a sensação fica entre o irritante e o satisfatório. Mas, para alcançar a tal satisfação, não conseguimos evitar a cantoria repetida da infeliz canção. Achou confuso? Então vamos a um exemplo prático: a famigerada “Festa no Apê”, de Latino, está na ordem do dia quando o assunto é “ohrwurm” (palavra alemã que significa, literalmente, “verme de ouvido” e se refere a tais músicas). A pérola do cantor chega assim, como quem não quer nada. E, uma vez ouvida, não sai mais do sistema. Você tenta se livrar, mas não é capaz. O danado do refrão, que convida para uma festa muito louca do barulho realizada num apartamento, adere ao cérebro feito piche fresco na sola do sapato. O nobre colega Inagaki cantou a bola há algum tempo, mas não é de agora que vermes de ouvido estão à espreita para atacar os incautos. Eles não têm uma fórmula única, mas a métrica e a repetição de palavras contam bastante. Tanto que, nas canções-chiclé selecionadas abaixo, pode botar reparo: a parte mais grudenta quase sempre é o refrão e/ou título da música, acrescido, às vezes, de um lalaiá vagabundo. Antes de começarmos, um aviso: o conteúdo a seguir é deveras autocolante e deve ser evitado por pessoas muito sensíveis. A autora não se responsabiliza por casos agudos, como manifestação de um desejo incontrolável de cantoria em momentos pouco convenientes, como reuniões de trabalho ou jantares na casa da sogra. Prepare-se. Dança da Motinha Só Love Melo do Tchaco Madagascar Xibom Bom Bom Anna Julia Baba Carrinho de Mão SNS (Só no Sapatinho) Dança da Vassoura ![]() Diga onde você vai, que eu vou... correndo para o outro lado
Amor, o sujeito de mil faces Segundo apreciadores de rima ruim, ele é “uma flor roxa que nasce no coração do trouxa”. Felizmente, o amor já suscitou versinhos bem mais ricos e otimistas do que esse – e também infinitas canções. Se olharmos para o setor musical tentando definir o sentimento, aliás, dá para ficar louco. São tantas as possibilidades que nem sabemos se quem está certo é Paul McCartney ou Nando Reis. Quem será, afinal, esse tal de amor? Para mim, Huey Lewis e seus parceiros de banda é que resumiram bem tudo o que pode fazer o sujeito traiçoeiro. Em “Power of Love”, o rapaz de voz gutural bem cantou “Make one man weep, make another man sing/ Change heart in a little white dove”. É duro para alguns admitir, porém é isso mesmo: ele pode fazer um homem chorar e outro cantar. E transforma o coração em uma pombinha branca. Faz de nós todos uns maricas, esse tal de amor. Já os Beatles, na pérola “I'm Looking Through You”, disseram foi uma grande verdade. “Love has the nasty habit of disappering overnight”. Às vezes basta mesmo uma única noite para fazer o amor sumir, por maior que seja. É um péssimo hábito que o sentimento tem, o de dizer adeus de hora para outra. Então, até agora, já sabemos que ele provoca reações exageradas e é volúvel. Sigamos. Para o obscuro grupo J. Geils Band, o amor fede. É uma danação só. Eles entoam um rock pesado chamado “Love stinks” e garantem que o amor vai te encontrar, não adianta se esconder. E quando você ouvi-lo chamar, vai deixar o coração se apaixonar. Daí o sentimento vai voar e tudo vai acabar. O arremate é triste: “I don't care what any Casanova thinks/ All I can say is love stinks”. Sabemos mais essa então. O amor é sádico. Mas também não se pode pintar um rosto malvado no pobre sentimento. Há que diga: ele é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente, é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer. Dá para suspirar apenas por escrever isso, impressionante. Alguns adolescentes desavisados podem pensar que foram Renato Russo e sua Legião Urbana os criadores do trecho acima. Mas foi Luis de Camões. Sim, aquele de “Os Lusíadas”. Renatão adaptou, virou, mexeu, e se valeu das palavras do poeta para contar o que ele achava: o amor capaz de promover o maior arrebatamento possível. Sádico e vadio, mas muito forte é o tal. Há quem aposte, contudo, em uma resposta mais simplista. “Love is love”, para Boy George e o finado Culture Club. Só isso, modesto assim. Amor é amor e não é nada se eu não tiver você, diziam eles lá nos anos 80. Em uma década tão cheia de purpurina, era até pecado ser cético desse modo, não? Mas eles foram. Cada um com sua opinião, ora. Vamos então ao que profetiza o barbudo Nando Reis. “O amor é o calor que aquece a alma/ O amor tem sabor pra quem bebe a sua água”. Não bastasse parecer com uma redação “Minhas férias” feita na segunda série, ainda tinha que ser interpretada pelo Jota Quest... Mas pulemos esse fato. Ao que parece, Nando acredita que o amor é uma espécie de pinga com limão. Vadio, sádico, simples e forte – e agora também inebriante. Tomara que não deixe bafo no dia seguinte. Vai ver é tão difícil explicar o amor, mas tão difícil, que cada um pinta ali o rosto que bem entende. Quem já sofreu com ele, vê um sujeito de temperamento ruim e pronto a dar tombo no primeiro desavisado que cruzar seu caminho. Quem tem boas recordações, define a face do amor como um tipo legal, divertido, sapequinha. Bom mesmo é esquecer de formar teorias e amar apenas – usando, aí, a canção que melhor couber ao momento. De todas as músicas que evocam o amor, eu fico com os Beatles mais uma vez. Diriam os quatro mocinhos que “All you need is love”. Tenha ele que cara for.
Quem lembra de um, pede bis Para você o título deste texto remeteu ao comercial daquele pequeno chocolate cuja caixa era impossível de largar? Então puxe uma cadeira e sente-se no clube dos telespectadores que, como eu, gravam na memória slogans famosos. Afinal, algumas das frasezinhas criadas por publicitários ficaram tão (ou mais) populares do que os produtos que elas tentavam vender – e, por isso, marcaram época. Tudo bem que as danadas parecem grudar em nossa cabeça mais do que a nova música da Britney Spears que a MTV insiste em transmitir a cada meia hora. Sem falar que algumas são tão irritantes quanto a loira pop: aquele tal de “A cerveja do nã nã nã nã”, para dar um exemplo recente, me doía nos bagos. E olha que eu nem os tenho. Mas vamos nos ater às jóias da propaganda, responsáveis por ultrapassar a barreira quadrada da telinha, aterrissar em nosso cotidiano e virar grandes conhecidas do público. Você, aí do clube, com certeza recordou-se de “Quem pede um, pede Bis”. E, portanto, também vai puxar pela memória aquele outro slogan que dizia assim... Vale por um bifinho Existem 1000 maneiras de preparar Neston O caldo nobre da galinha azul Coca-cola é isso aí It's all O mundo gira e a Lusitana roda Nós viemos aqui pra beber ou pra conversar? É impossível comer um só Parece, mas não é Não basta ser pai, tem que participar Energia que dá gosto O queijinho do coração Desperta o tigre em você 1001 utilidades Vende mais porque é fresquinho, ou é fresquinho porque vende mais?
Hollywood quer dizer azevedo Uma das coisas que mais me atraiu em “Matrix”, além do Keanu Reeves vestido de preto, foi a idéia de “baixar” programas direto no cérebro. Imagina que bacana plugar uma mídia intitulada “Kung Fu – Do Básico ao Avançado” em um buraco na nuca, esperar uns minutos e sair dando golpes de encher os olhos e deixar Bruce Lee nas chinelas! Mas minha ambição maior, caso eu tivesse o tal do buraco, seria baixar um disco do tipo “Todas as Línguas do Mundo”. Quando a gente começa a aprender outro idioma, além de expandir as possibilidades de expressão e pensamento, o bom é perceber as particularidades da sua própria língua mater. Já dizia Caetano Veloso, antes de virar um velho chatola: “a língua é minha pátria”. Pois eu também “gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões”. E de notar as diferenças. Aprendendo espanhol como estou, notei uma curiosidade. Em português, temos um ou uma e dois ou duas – o número não muda de gênero só a partir do três. Enquanto isso, no idioma de Cervantes, tiveram mais preguiça: do dois para a frente, já é a mesma coisa. Eu peno para dizer, por exemplo, “dos mujeres”. Parece que estou falando igual ao doutor Hans Chucrutes, “dois mulherrres”. Aliás, alemães têm uma séria dificuldade com os artigos. Da língua em que Kafka concebeu sua “Metamorfose” nada sei, exceto que, aparentemente, os artigos são todos trocados. Em espanhol, isso acontece. Pouco, mas acontece. “Viagem”, para nós, é “a viagem”, enquanto que para os hermanos é “el viaje”. Também quebrei a cara proferindo uma porção de “la viaje”, “la mensaje”, “la pasaje”. Isso sem falar nos malditos verbos irregulares. Eu nunca havia tido bronca de tais anomalias lingüísticas, e elas acontecem um bocado em português. Mas, nesse caso, peguei as manhas de maneira natural. Como as crianças, que passam naturalmente do “eu dí” para o “eu dei” depois de um tempo. Já os irregulares em espanhol estão me pondo doida. É um tal de hice, hizo, salgo – e a isso eu não me refiro a botar sal em nada, mas a sair de algum lugar. Pode? Voltando à Alemanha – cujo nome, aliás, me desperta várias dúvidas: para os próprios, é Deutschland; para os ingleses, Germany, para nós, Alemanha. Bem diferentes uns dos outros, hã? Sei mais uma coisinha da língua que a nós, falantes cheios de vogais, parece tão travada: alemães inventam palavras. Ou quase isso. É permitido juntar dois ou mais conceitos para sintetizar uma idéia. Por isso que, na mesma "Língua", Caetano dizia que só é possível filosofar em alemão. Inagaki listou outro dia algumas dessas pérolas germânicas. Drachenfutter, por exemplo, significa “comida de dragão” literalmente. Mas se refere àqueles presentes que esposos em falta compram para suas mulheres. Engrosso o coro do moço responsável pelo “Pensar Enlouquece”: isso é que é poder de síntese! Mas também temos nossas particularidades. A mais conhecida é a tradicional “saudade”. Como as línguas são feitas a partir das realidades, parece que só os portugueses, cheios de aventureiros que se lançavam ao além-mar, sentiam “saudades”. A palavra existe apenas na língua portuguesa. Já “golpe de estado” não existe em inglês. Parece que nunca aconteceu por lá. E, para referir-se a tal manobra política, eles não se deram ao trabalho de inventar uma palavra. Emprestaram “coup d’État” dos franceses. Também acontece de termos expressões completamente diferentes para uma mesma situação. Para os falantes de português, “Inês é morta” significa “agora é tarde”. Para um falante de inglês, significa que certa mulher deve ter batido as botas por aí, so what? Claro; a Inês da expressão é Inês de Castro, figura da história de Portugal assassinada e coroada rainha depois de falecida. Os colegas de língua de Shakespeare, no entanto, têm lá suas maneiras de dizer quando algo aconteceu tarde demais. Ou sacam mesmo do “too late”. Por outro lado, se alguém me disser que vai largar o cigarro no “peru frio”, vou imaginar o sujeito encomendando um despacho na esquina ou algo similar. Para quem fala inglês, “cold turkey” significa largar um vício de uma vez só, abruptamente. A lista é interminável: “mamão com açúcar” não deve fazer o menor sentido para quem vive num lugar sem a ocorrência dessa fruta. “Tirar o cavalinho da chuva” provavelmente não existe no Atacama. E, se existe, deve adquirir outro sentido. Tipo “coisa muito rara, que só acontece uma vez por ano”. Para o fim, deixo meu caso de idiossincrasia lingüística favorito: um certo dialeto esquimó (isso explica tudo) possui nove substantivos diferentes para neve. Cada qual a define de acordo com a textura, consistência, cor e... e... ah, sei lá que outras variações neve pode ter! Claro, sou brasileira. Tudo que herdei foi a saudade.
Abracadabra? Só se for agora Em mais algumas semanas estreará nas telonas um filme bacaninha. É a versão cinematográfica de “A Feiticeira”, série de sucesso nos anos 60 que levava Elizabeth Montgomery, atriz adorável, no papel-título. Lembram das aventuras de Samantha? A moça era bruxa, mas queria viver como mortal e se ocupar de todas as tarefas como uma pessoa comum. Podia fazer as melhores mágicas, porém escolhia operar o aspirador de pó como qualquer outra. Aquela palerma! Numa boa? Sam me deixava nervosa com a mania de não querer usar seus poderes. Seria tudo mais fácil se ela fizesse logo um truque. Mas a mulher não queria. Tinha por meta ser uma dona de casa americana padrão, a cuidar dos filhos e servir o marido proletariamente. O destino, no entanto, era claro: todas as situações acabavam ficando complicadas e a feiticeira terminava por resolver os impasses com um trimilique de nariz. Se fosse eu a dona do poder, o nariz precisaria de manutenção permanente, tamanho o uso. Não venceria de sacudi-lo para organizar minhas pendências! Desde o básico até o mais complexo assunto, tudo entraria nos eixos como em um passe de mágica. Já pensaram, que sonho?! Louça acumulada na pia há quatro dias. Colheres com Toddy grudado, pratos marcados por molho de tomate, aqueles malditos restinhos entupindo o ralo da cuba. Em vez de passar minutos intermináveis areando panelas e me livrando da meleca, bastaria focar o olhar, mentalizar a limpeza e dar a tal mexidinha de nariz. Voilá! Pia limpa, tempo de sobra para ler uma revista. Tarefas prosaicas, nunca mais. Isso estaria em acordo fechado. Ter cama arrumada, roupas guardadas e comida feita sem esforço seria a resolução inicial desta bruxa aqui. E como esses poderes fazem falta... Passar camisa, a atividade criada pelo demônio, já não seria mais problema. A mágica viria a calhar, ainda, naquela hora em que a bebê chora. É batata: quando as mãos estão ocupadas nanando a pequena, o telefone sempre toca. Normalmente preciso equilibrar a criança com uma só mão, apanhar o gancho com a outra, usar o ombro como escora e rezar para não deixar tudo ir pelos ares – inclusive e especialmente a minha filha. Já com a poder de Samantha, faria o aparelho levitar até meu ouvido. Ou parar de tocar de uma vez. Como maga poderosa, eu saberia quem era do outro lado da linha sem necessitar secretária eletrônica. Retorno depois. E na hora da pressa, então? Convenhamos: circular aboletada no cabo de uma vassoura não deve ser lá muito confortável, mas é mais ligeiro do que escolher o automóvel em São Paulo. Ou posso ir de carro mesmo, apenas retirando os barbeiros da frente com o poder da mente! E, de quebra, ainda lançaria raios na testa de quem guiasse falando ao telefone. Bruxa e justiceira, essa é minha meta. Samantha ainda tinha aquela bobeira de não pedir ajuda à família e aos amigos mais tarimbados do mundo da magia. Eu amo minha mãe mas, sinceramente, se ela fosse a Endora eu estaria feita. Além de transformar um homem em tartaruga como ninguém, ela ainda era linda e estilosa. Podia rogar pragas divertidas e atazanar o dia de uns e outros. Algumas pessoas bem que mereciam passar uma semana com a língua presa, não? Ademais, Sam recusava-se a apelar pela ajuda de Tia Clara como babá de Tábata e Adam. Mas tem alguém melhor para distrair petizes do que uma mulher que some apenas da cintura para cima? E como ignorar os remédios tiro-e-queda do Doutor Bombay, o médico malucão? Ele curava tudo, desde gripe até bolotas azuis que apareciam no rosto da nossa feiticeira. Eu queria o curandeiro doido aqui em casa quando vem aquela dor de cabeça atômica. Tudo bem: eu não seria uma bruxa maluca que se mete em encrencas e depois precisa ouvir uma vizinha pentelha como a Senhora Kravitz dizer “Abner, tem um elefante no quintal ao lado!”. Podia ser mais discreta, só usar a magia no recesso do meu lar. Ou nas lojas de departamentos, quando o preço parece alto demais... Seria permitido? Ou isso dá cana lá no plano dos bruxos? Ok, trocar etiquetas de mercadorias não deve ser boa idéia. Mas abrir vaga para estacionar, atrair o controle remoto ou jogar 500 mangos na mão de um sem-teto com um simples gesto, isso seria bom, vai? Por que Samantha preferia não usar a magia, não compreendo. Era mesmo uma palerma ou apenas uma moça tentando se encaixar? Vai ver a melhor pergunta é: você conseguiria ter poderes e não usar? Eu não!
Sam, mexa logo esse nariz! Fla Wonka às 10:09 AM
Criança é bicho estranho Era uma vez um garotinho que não entendia de onde as palavras vinham. Curioso, ele começou a se perguntar por que a colher se chamava colher, e não "mexedor" - na cabecinha dele, fazia muito mais sentido. O menino então ficou com a mania de falar naquele novo idioma auto-explicativo (aterrorizando os pais, que precisavam fazer força para entender as sentenças do filho rebelde à língua portuguesa). Essa história saiu da brilhante chachola da escritora Ruth Rocha em "Marcelo, Marmelo, Martelo", mas ninguém estranharia se o personagem do livro fosse alguém de carne e osso: um primo, um irmão ou um colega da escola. Pois mesmo a mais fértil das imaginações não consegue ser tão mirabolante quanto a realidade infantil, e fatos como o do garotinho que inventou seu próprio jeito de falar podem acontecer diariamente na vida de quem convive com os pequenos. Parece mesmo que a idade é inversamente proporcional à criatividade. Quanto menos anos somados na hora de apagar as velas do bolo, maior o talento para inventar brincadeiras malucas, amigos imaginários, hábitos absurdos e constatações hilárias. E eu adoro lembrar de alguns infantes que conheci e dar risada com as coisas que eles faziam. Afinal, criança pode até ser bicho estranho pra dedéu - mas é um bicho muito, muito divertido. O perseguidor implacável O culinarista bizarro A "scream queen" O bebê enceradeira A dupla personalidade O tarado das etiquetas O mestre-cuca A beijoqueira tresloucada O menino stripper
Quero ouvir a sua voz “O quê? Fala mais alto, Lurdinha, que eu não tô te ouvindo. Ah, melhorou. Vixi, parece que tinha uma jamanta na linha, mulher de Deus! Manda o menino abaixar a televisão, senão não ouço nada. O show? Ah, foi uma coisa linda de se ver, Lu! Falei que você devia ter ido? Ah, mas mandasse o Vágni se virar com a janta... esse traste! Hã? Ah, tá. Eu sei que é meu irmão, Lu, Deus que me perdoe, que a gente num gosta de ficar falando, sabe? Mas pelamordedeus, um hômi desse tamanho num sabe fritar um ovo? Ah, vá, vá, vá. Você mima muito ele. Ele e o menino também. Pronto, falei. Não, não vou falar nada do menino. Calma, Lu! Tá bom, desculpa. Num tá mais aqui quem falou. Então, o show. Ai, menina! Que coisa linda. Foi, assim, de encher as vista, sabe? Aquela luz, aquele homem no palco... Canta que é uma beleza, Lu! E num esquece da falecida, viu? É, todo de branco, sim. Vi dizer que ele tá se tratando das manias, mas ainda veste só branco, da cabeça aos pés. Coisa linda. Toda vez que aquelas luz apagava, eu gritava. Ô, se gritava! Bem assim: “Fofinhoooooooo!”. O Válti? Ah, o Válti ficava quieto, né? No começo ele me deu uns cutucão. Mas aí já fui logo cortando as asinha. É, porque hômi é folgado mesmo, né, colega? Tem que cortar. Ele se conformou e ficou ali. Cada berro que eu dava o Válti baixava a cabeça, sabe? Todo engruvinhado na poltrona, trincando de vergonha. Eu? Magina, que eu tive vergonha. Nada! Ô, colega, num é todo dia que você vê o Roberto assim, ao vivo, ali na frente!” São Paulo, sexto dia deste mês, dez e pouco da noite. No setor “cadeira superior ímpar” (também conhecido como “o mais barato”) do Credicard Hall, seis das poltronas eram ocupadas por uma mãe radiante, uma amiga contente, dois irmãos empolgados, uma cunhada que foi “para acompanhar” (e acabou responsável pelas fotos) e... eu. Foi a primeira vez que vi o rei. E entendi rapidinho porque Roberto Carlos merece o título. À guisa de presente do dia das mães, arrastei a minha e toda a trupe acima descrita para comemorar a data assistindo ao homem, ao mito, à lenda. Quase tão interessante quanto a apresentação de Robertão em si foi a observação da platéia. Era comum ver três gerações reunidas em torno da interpretação elegante, impecável (apesar do repertório discutível, o que também é compreensível: não dá para acertar todas quando se tem décadas de carreira) do monarca. Não faltaram também velhinhas empolgadíssimas ao lado de consternados maridos. Elas poderiam muito bem ter travado com a cunhada por telefone, no dia seguinte, o diálogo que inventei acima. Vários berros de “lin-dôôôô!” puderam ser ouvidos, para meu espanto. Ok, o cara é o rei. Mas lindo? Emendou minha sábia mãe, corroborando o dito popular: “a beleza está nos olhos de quem vê”. Outra respondia ao refrão de “Eu te Amo, Te Amo, Te Amo” com “Eu tambéééém, Roberto!”. De fato, havia uma que gritava “Roberto fofinhoooooo” a cada intervalo entre as canções, marcado pelo apagar das luzes. E eu me pergunto: que diabo de cantada é “fofinho”? Nos clássicos de Roberto, foi fácil se empolgar. Cantar diante de uma orquestra não é para qualquer um. Que “My Way”, que nada. “Emoções” diz tudo e mais um pouco, com verso e arranjo de encher os ouvidos. “Outra Vez” vira pérola na interpretação fabulosa do homem. “Detalhes” fez a visão longínqua do palco embaçar. Mas mesmo nas músicas de gosto mais duvidoso, como “Jesus Cristo”, é inevitável se pegar batendo palmas e acompanhando a letra com os olhinhos fechados. Eis a prova maior da majestade de um homem que já cantou sobre carros, gatinhas, florestas, mulheres de óculos, caminhoneiros, romances inacabados e o próprio filho de Deus – sempre com a mesma paixão e alma. O rei não está morto. Viva o rei.
Cartas já não adiantam mais “Eu Te Amo, Te Amo, Te Amo”, presente no repertório do espetáculo no Credicard Hall Clara McFly às 01:49 PM
Independência ou morte! Muito bem, vamos lá. É chegada a hora de você deixar de ser um filhinho da mamãe. Não entenda isso mal, mas já estava até se tornando ridículo, sabe? Ser uma pessoa assim tão apegada nas barras de saia alheias não fica nada bem. Felizmente, as regras para se transformar em alguém mais desapegado, proprietário vitalício do próprio nariz, são bastante simples. Preparado? Então lá vai. Eu nem queria falar nada, a princípio. Mas como deixar passar? Hoje em dia parece que ninguém mais é capaz de ficar sozinho, de tomar as rédeas da vida. Somos uma raça de seres carentes e dominados pelo senso comum. Qual a graça disso, poxa? Exercitar a fina arte da independência é o primeiro passo para quem pretende ter controle sobre sua existência. Enquanto não são lançadas fitas de videocassete com as lições para ser auto-suficiente, entenda estas linhas como um pequeno cursinho. Tenho certeza de que você se sentirá muito mais você amanhã! Vai, amigo, deixa de preguiça... Hup, hup! É hora de virar gente grande! Acompanhe as instruções. Módulo 1 – Casa da mamãe, nem pensar Módulo 2 – Traje de festa em plena quarta-feira Módulo 3 – Tocou o telefone, desliga na cara Módulo 4 – Dê passafora até no cachorro Módulo 5 – Aula de pintura em porcelana, sim, por que não? Módulo 6 – Na cozinha, com coragem Auto-suficiência – Curso Avançado
Cenas do coletivo Meses se passaram desde a publicação de Contos da catraca, texto narrando alguns diálogos impagáveis que escutei de pessoas que embarcaram nas mesmas viagens cotidianas que eu embarcara, a bordo de um ônibus. Acompanhada do meu inseparável caderninho, passei a anotar as conversas que pego começadas e largo antes de terminadas. Às vezes, são frases soltas que não fazem o menor sentido (daí toda a graça da atividade); às vezes, acompanho histórias inteiras contadas no banco de trás (e então torço, silenciosamente, para chegar logo o ponto do sujeito - só assim posso juntar um rosto ao "causo"). Aprendi, em todos esses anos sem um carro para chamar de meu, que a verdadeira paisagem do coletivo não está do lado de fora, através da janela marcada pela poluição e por nomes escritos com a ponta afiada do compasso. Afinal, são sempre as mesmas casas, as mesmas ruas, os mesmos outdoors, a mesma falta de verde e o mesmo céu acinzentado. O quadro muda de figura quando viro minha antena para dentro daquele espaço pouco ventilado e sempre muito cheio. Ali há toda uma fauna pronta para ser vasculhada. Basta saber ouvi-la. Passageiros, cobradores e motoristas podem até mudar de nome, endereço, raça e credo: mas a mania de prestar atenção neles sempre renderá um baita divertimento! Passageiro 1: Olha a loira lá fora... Cobrador: Aquele cobrador é novo. Tá todo sorridente. No começo é assim. Daqui cinco anos, ele já vai estar injuriado. Adolescente: Ninguém acredita que você é minha mãe! Passageira: Ela já matou a família inteira! Cobrador: Nessa loja aí só tem CD bom, tudo a R$ 7,90! Passageiro: Eu tô cheirando a formol, né? Precisei mexer nuns cadáveres... Vendedor: Vai uma caneta aí, dona? Passageiro: Ah, se Deus deixasse e minha mulher não visse! E as páginas do caderninho continuam sendo preenchidas. Encontro você para outras conversas, quem sabe, no próximo ponto. Vivi Griswold às 10:55 AM
Estilo ginásio No dia inaugural da quinta série, eu estava toda toda. Eram muitas novidades: não podia mais chamar a professora de tia, nem o intervalo de recreio. E, acima de tudo, os quatro pilares do primário haviam se multiplicado numa miríade de disciplinas interessantíssimas. De Estudos Sociais vieram História e Geografia. De Matemática surgiram Geometria, Álgebra e Desenho Geométrico (bom, nem tudo é perfeito). Ciências e Saúde se transformou em Biologia, Ciências e Laboratório. E, para minha alegria, Comunicação e Expressão se desmembrou em Gramática, Literatura e Redação. Três vivas para o ginásio! Pois todas estas matérias nos foram entregues engradadas, num charmoso horário (ok, não passava de um papel xerocado). Mais que depressa colei o horário na minha fabulosa agenda (outra novidade de ginásio). Logo depois, descobri que a agenda tinha um espaço para o tal horário. Culpa da inexperiência. Então, copiei tudo de novo, dessa vez no próprio papel da brochura, tomando o cuidado e o capricho de fazer uma disciplina de cada cor – cortesia de minha caneta 10 cores. Além da indispensável caneta 10 cores – eu queria aproveitar todas as opções possíveis depois de esperar quatro anos para usar uma esferográfica – a lista de material ainda incluía novidades bem pesadas. Cada uma das matérias exigia, é claro, um grosso (para os padrões que eu conhecia até então) livro didático. Eu abria a última página de cada um, maravilhada: “nossa, tem mais de 100 folhas! Como vamos terminar tudo isso?”. Os caderninhos de brochura, encapados com papel dobradura e plástico só para, mais tarde, serem destroçados dia a dia no primário, também foram substituídos. Agora era a vez dos enormes e espiraludos cadernos universitários. Demorava à beça para encher uma página. E a denominação imprimia ainda mais sofisticação ao meu novo estilo de vida. Havia ali, entre aquelas carteiras azuis (que agora tampouco eram as mesmas dos anos passados) algo de... de... faculdade! Fomos instruídos sobre outras novidades incríveis. Para irmos ao recr..., ops, intervalo, soaria um sinal e deveríamos descer so-zi-nhos! Nada de fila atrás da tia. Uau. Estávamos grandes mesmo... Além disso, as provas não precisariam mais ser copiadas da lousa, em folha de almaço. Nem teríamos a sexta-feira para pintar a capinha das avaliações. Agora, responderíamos a folhas xerocadas – o mimeógrafo também dançara. Logo percebi que estar no ginásio acarretava outras mudanças sobre as quais ninguém tinha avisado. Andar sem a blusa amarrada na cintura era só para as meninas mais “dadas” (código besta, não?). Distrair-se e tascar um enfeitinho no caderno, entre uma atividade e outra, era morte certa. Se alguém visse, você seria tachado de crianção. Ter sua mãe te levando pela mão até a porta, então, equivalia a assinar a declaração de ruína de uma promissora e agitada vida social pré-adolescente. Era um mundo duro e a adaptação a ele ia daquele jeito – entre uma aula de Desenho Geométrico, em que tudo que aprendi foi manejar o compasso para copiar famigeradas rosáceas e tentar concordar implacáveis arcos e retas – e outra de Gramática, na qual líamos textos que depois seriam interpretados e analisados sintática e morfologicamente. Pelo menos, quando entrava qualquer professora do núcleo outrora conhecido por Comunicação e Expressão, eu me sentia em casa. Em Gramática, respondíamos a exercícios que nos faziam mudar uma mesma sentença em três ou quatro formas diferentes. Assim, ó: “Ontem passei um bom dia”; “Passei, ontem, um bom dia”; “Passei um bom dia ontem”, até que eu ficava meio louca e escrevia coisas como “Dia, passei um bom ontem”. Na época, achava isso quase tão ruim quanto ter doze anos e nenhum sinal de peito. Hoje vejo que esse exercício, que se chamava “A Frase e Seus Segredos” e se repetia a cada lição do meu “Texto e Contexto”, foi deveras útil. Isso, junto a bobeiras como a coleção de rabiscos feitos na agenda com corretivo, intitulados “Arte em Branquinho” (a série ia do I ao VIII e era confeccionada nas aulas vagas), são alguns dos feitos que mais me despertam saudades do cruel-mas-superável ginásio. Some-se a tanto amizades descobertas, paqueras frustradas – ou não – e a experiência de que a sensação de deslocamento passa. Inclusive porque, um dia, a gente se desloca dali. Ou “Porque, inclusive, dali um dia a gente se desloca”. Ou “Se dia, inclusive, desloca a gente um porque dali”. E haja preparação para o colégio, ao qual só os fortes sobrevivem.
Travestis da sétima arte Como dizem os vovôs que sofreram muito durante guerras e se tornaram pessoas endurecidas, artista é tudo malandro. Tudo gente safada. Eu não boto minha mão no fogo por nenhum deles. Opa, encosto, sai deste corpinho que não te pertence! Os vovôs podem acreditar nisso, mas não eu. Adoro quando atores ou atrizes se dispõem a largar o orgulho de lado e, digamos, “passar para o outro lado”. Homem vestido de mulher, mulher vestida de homem... Artista é tudo safado mesmo – o que é hilário! O fenômeno fica engraçado por si só, mas ganha requintes em certas situações. É fato: quanto mais sério, renomado ou heterossexual o ator, mais divertida se torna a transmutação no sexo oposto. Ou alguém aí imaginava que Patrick Swayze, pilar dos “macho-pacas-mas-com-guinga-sexy”, ficaria tão interessante como a senhora Vida Boheme em “Para Wong Foo”? Ou mesmo Wesley Snipes, que dispensou as espadas afiadas de Blade e soltou toda a franga possível no mesmo filme? Eu passo mal com essas variações de menino/ menina/ menino de novo/ quem sabe menina. Fico imaginando que, para um ator, deve ser o fino do profissionalismo interpretar com seriedade mesmo calçando salto alto. Ou para as moças, que abandonam vestidos, rapam o cabelo em estilo soldado e tentam engrossar a voz. Nunca dá muito certo – o que fica óbvio apenas para quem está na poltrona do cinema, pois os demais personagens parecem nem notar a falta do gogó ou pernas peludas debaixo da meia-calça. Rapazes, quase sempre, precisam virar mocinha para conseguir um trabalho, cumprir uma promessa ou fugir de marido ciumento. Garotas tendem a envergar terno para provar seu valor junto ao outro gênero. As histórias são manjadas, mas não importa. Legal mesmo é notar as mutações sórdidas, sentar e seguir pensando “quando será que vão descobrir tudo?”. Nestes casos, os meus prediletos, demorou um bocado... Julie Andrews em “Victor ou Victoria” Johnny Depp em “Ed Wood” Robin Williams em “Uma Babá Quase Perfeita” Dustin Hoffman em “Tootsie” Jack Lemmon e Tony Curtis em “Quanto Mais Quente Melhor”
Mas eram dois moços tão bonitos e com saúde... Pelamadrugada... Fla Wonka às 10:46 AM
Deus e o Diabo na vila do Chaves Como muitos já devem estar sabendo, Silvio Santos decidiu não renovar o contrato com a rede mexicana Televisa pelos direitos de transmissão no Brasil de "Chaves". Ou seja, após cerca de 23 anos ininterruptos, a série do "ninguém tem paciência comigo" - que por várias vezes ganhou em audiência de muita atração inédita na concorrente - vai deixar de ser exibida. Quando eu li a notícia, minha vontade foi de enviar uma carta pro Silvio Santos. Abrir uma comunidade no Orkut. Mandar correntes de e-mails. Estender uma faixa na minha janela. Organizar passeatas. Mas, amigos e amigas, eu decidi por escrever um texto e, com ele, mostrar minha teoria. Porque eu estou realmente preocupada com essa história toda. Para mim, a ida de "Chaves" acarretará em conseqüências que nós jamais poderíamos imaginar. Quando algo está por aí há tanto tempo (as histórias do menino que mora em um barril estrearam no SBT em 1982) e de repente é ceifado da convivência de todos, como é o caso, sem explicações, pode acarretar uma falha no sistema. Comecei a pensar se "Chaves" não esteve no ar por um motivo muito nobre. Por exemplo, para equilibrar as forças do céu e do inferno. Sim, isso mesmo. Pra começo, a série chegou "sem querer querendo" como brinde em um pacote de novelas que a emissora brasileira adquiriu. Portanto, foi uma coisa assim meio cósmica. E se tiver dedo divino ali? E se, com o encerramento do amado programa mexicano, o encerramento do universo chegar também? A danação da raça humana? O apocalipse? Se isso não for o sinal do fim dos tempos, eu não sei mais o que seria. Pode procurar nas previsões de Nostradamus. Ali, entre os ataques ao World Trade Center, o atentado a João Paulo II e a bomba de Hiroshima, terá uma citação a "Chaves". Vou transcrevê-la aqui em língua portuguesa, atentando para o fato de que a tradução pode variar um pouco. "No calendário do ano de 2005 e quatro meses, de uma fantasia descerá o príncipe negro. O garoto-adulto sem pais será arrancado e irá alterar o curso das estações. Todos sucumbirão". Ora, para mim está claro. A "fantasia" é a TV - você não queria que o velhote barbudo conhecesse a máquina antes de ela ser inventada, queria? Mas a maior pista foi a parte do "garoto-adulto sem pais". O personagem interpretado por Roberto Gómez Bolaños representava um garoto, porém o ator já estava adulto. E Chaves era órfão. Puxa, fico arrepiada! O "príncipe negro", porém, é o que me preocupou. Todo mundo já ouviu dizer sobre aquela história do anti-cristo estar entre nós, né? Pois bem. E se o anti-cristo foi criado, como eu, sob a descontração e o divertimento de "Chaves"? E se ele for um grande fã e ter ficado quietinho por todos esses longos anos por estar feliz com a companhia de Dona Florinda, Seu Maduga e Quico? E se a Bruxa do 71 e o Professor Girafales o tivessem mantido ocupado e sem pensamentos de destruição? Com o fim do programa, ele poderá enfim soltar toda sua fúria sobre nós. E tem mais: você sabe que Deus criou tudo o que vivemos em seis dias, e descansou no sétimo. O que nenhuma aula de catecismo nos explica é o que Ele ficou fazendo naquele período de folga. Não, não ficou admirando as cachoeiras, os pássaros e Adão brigando com Eva por ela ter deixado a calcinha pendurada no registro do chuveiro. Ele... adivinha?... estourou uma pipoca, deixou as chinelas no chão celestial e ligou a televisão que acabara de fazer só com a força do pensamento. E você não vai acreditar no que estava sendo transmitido. Sim, era "Chaves". E Ele se apaixonou por aquilo, setenciando: "Ó, caro moleque, tu não cairás no esquecimento". Como não poderia deixar de ser, o Diabo também entra na história. É sabido que Belzebu é um anjo caído que decidiu se voltar ao lado negro da força. Mas você já se perguntou o por quê de sua perdição? Hã? Bem, vou contar. Ele estava assistindo ao ilustre episódio rodado em Acapulco. Com o detalhe de ser a versão em português, com os personagens dizendo "Guarujá" ao invés do balneário mexicano (apesar de seus lábios soletrarem, claramente, "A-CA-PUL-CO"). A um dado momento, a energia no céu caiu. O então anjo foi pedir satisfações. Mas tudo lá em cima é uma bruta burocracia. Ele teria de procurar exatamente o santo das contas atrasadas, entidade esta que não encontrou. Foi tirar satisfação com o Chefe em pessoa. Depois de muito falar, explicar que ele precisava saber se o Nhonho seria ou não empurrado na piscina do hotel, Deus se compadeceu e fez a TV funcionar novamente. Contudo, era tarde demais. Já havia começado "Passa ou Repassa". O Coisa-Ruim virou um bicho, xingou todo mundo e resolveu descer às profundezas terrestres porque diziam que lá nunca faltava energia e ele poderia assistir a "Chaves" enquanto fazia uns churrasquinhos de carne humana. A partir do momento em que Silvio Santos não quis assinar aquele contrato, Deus e o Diabo ficaram sem ter o que os divertissem em seus respectivos planos astrais. Deus tentou ver a Ana Maria Braga, mas não era a mesma coisa. O Diabo deu uma chance a "Malhação", mas só serviu para piorar seu humor. Portanto, temos duas forças opostas, e muito poderosas, sem nada para distraí-las. O resultado disso, bem, ainda está por vir. O negócio é torcer para que o homem do baú se compadeça por nós e nos traga "Chaves" de volta - e, com ele, a paz na Terra. E você achou que era só um seriadinho tosco, hein? ![]() É um santo homem...
Vá nos Rafaéis Faz uns quatro meses que tive hóspedes aqui em casa. Não, não era o rato. Muito pelo contrário, eram visitantes muito bem-vindas. Patrícia e Aline, primas do namorido com 12 e 13 anos respectivamente, vieram de uma cidade do interior e se assentaram aqui por uma semana. Nosso dia-a-dia era bem de férias, entremeado de programinhas e tours de carro. Patrícia é uma menina linda, morena, com um ar discreto e um sorriso delicioso. Aline não fica atrás, com uns olhos azuis de doer e uma cabeça distraidíssima. Gracinhas, as duas me acordavam de manhã depois de ter lavado a louça. Ainda por cima são prendadas, como diria minha avó. No final da semana, como eu já tinha de trabalhar, elas ficavam a maior parte do tempo na piscina. E, no penúltimo dia, arrumaram um amigo. As duas estavam no chuveiro, depois da piscina, quando me aparece na porta um menino bem à la Harry Potter: de óculos, tímido e muito educado, ele perguntou se Aline e Patrícia podiam ir brincar. Diante da minha cara de interrogação, se apresentou. Disse que se chamava Rafael e tinha conhecido as duas na piscina. Passei por um rápido flashback. Alguns anos atrás, era eu que me via plantada na porta da casa das minhas amiguinhas, pedindo às mães delas que as deixasse brincar comigo. Pisquei os olhos para voltar ao presente e disse ao Rafael que elas estavam no banho, mas eu podia avisá-las e, se ele quisesse, podia esperar. “Entra, Rafael”, convidei. Ele, muito educada e timidamente, disse que esperava ali na porta mesmo. Falou que minha casa era bonita. Completou que havia se mudado, há pouco, de São Paulo, e tinha uma irmã menor cujo nome me escapa agora. As meninas ficaram prontas e lá se foram, porta afora, brincar com aquele garoto que apareceu na minha casa tão desarmado. De quebra, levaram alguns dos meus jogos de tabuleiro. Quando os três saíram, fiquei pensando que o Rafa-Harry-Potter era o tipo de menino simpático, sincero e bacana que eu queria ter como amiguinho na infância. Pensando bem, eu tive um Rafael. Ele se chamava Leli, corruptela de um impronunciável Wesler, e sabia conversar e respeitar os outros, ao contrário do bando de garotos chatos e grosseiros que reinavam na escola. Baseando a comparação no cinema-pipoca, o Rafael e o Leli são garotos como o Matthew, de “De Repente 30”. Quem assistiu vai entender mais facilmente. O Rafael é dessa espécie de menino que, justamente por suas maneiras, talvez não se dê muito bem no quesito popularidade escolar. Não que eles sejam bobões, travados ou fechados demais. São apenas guris que, por alguma razão, enfrentam as inseguranças da pré-adolescência sem se armar de uma carapuça xingalhona, chata e agressiva –“qualidades” estas endossadas por aqueles meninos popularíssimos, por quem todas as garotas se apaixonam. E quebram a cara. Minha primeira paixão pré-adolescente escolar foi por um rapazote meio a meio (sem duplo sentido). Ele era um pouco Rafael (comigo), um pouco chatola (com o colégio). Depois, fui caindo na besteira de descambar as minhas paixonites agudas para o lado dos “populares”. E, claro, quebrando a cara toda vez – ou sendo sumariamente ignorada pelos bonitões, ou conseguindo alguma coisa só para logo notar que, de perto, de bonitões eles não tinham nada. Até que cresci e percebi que o que pega mesmo são os Rafaéis. Ainda bem que saquei a tempo de me casar com um deles. Do outro lado da ciranda, estão os Rafaéis de saias. No caso das meninas, não é ser bem-educada que as faz passarem batidas no jogo do romance juvenil. Isso já é esperado de cada serzinho com cromossomos XX desde que eles abandonam as fraldas. O problema para nós é o humor. Parece que os homens não são lá muito fãs de garotas engraçadas. Pelo menos não enquanto eles têm à disposição moçoilas de saias mais curtas e peitos mais adiantados. Talvez mais tarde essas criaturas acabem por mudar de idéia. Melhor para eles, pelo simples fato de que peito, por mais que se adie, cai; presença de espírito, não. Na manhã seguinte, Rafael bateu de novo à minha porta. Riscando o chão com a ponta do tênis, pediu que as meninas ficassem mais um dia. Expliquei para ele que elas voltariam para casa de carona com um tio, e que ele só poderia mesmo levá-las na data marcada. Eu não podia fazer nada. Mas prometi que, nas férias de julho, elas já estavam mais que convidadas para voltar – e eles poderiam brincar desde o primeiro dia (por que diabos a gente sempre faz amizade com alguém realmente legal no fim das férias?). Quando falei para o namorido sobre o estranho pedido do novo amigo das primas, ele vaticinou: “o garoto está apaixonado. Só resta saber por qual das duas”. Bom, para isso teremos que esperar até julho. Só sei que, se alguma delas me pedir um conselho, a frase está na ponta da língua – para elas e para quaisquer outras meninas: “vá nos Rafaéis”!
Quando eu vier como eles Se reencarnação existe ou não, a mim pouco importa. Estou me obrigando a acreditar nela de qualquer jeito, mesmo que o mais sério cientista prove o contrário. Ter a certeza hindu de que a próxima vida sempre vem é uma maravilha! Imagine o tanto de coisas que podemos sonhar fazer, mudar! Na encarnação vindoura, que acontecerá logo depois desta aqui, eu acho que seria bom vir como um rapaz, em vez de garota. Os motivos escorrem pelo ladrão. O primeiro e mais óbvio é este: agora que já sei como é ser menina, quero explorar o outro lado. Lógico, preciso ser imparcial. Porque, por mais que divulguem a igualdade dos sexos, a gente sabe que, na prática, a teoria é bem outra. Então nada mais correto do que checar os dois lados dessa história. Quando eu vier menino, já tenho metas a cumprir e situações a remediar (baseada em tudo o que conheço do lado feminino, digamos que tenho um bom material pesquisado). E vou começar cedo, logo nos bancos escolares. Se a menininha da carteira à frente olhar para mim mais do que três vezes em uma aula, vou saber: ela quer papo, me acha simpático, quer ser amiga. Não vou puxar suas tranças, roubar seu suco e muito menos levantar a saia dela no meio do pátio. Sim, seria divertido rir disso entre os meus amigos marginais-mirins, mas não vou fazer. Vou ser gentil e me oferecer para segurar a mochila dela na saída. Só para começar a vida social com fama de cavalheiro. Mais crescidinho, decidi cair de verdade no gosto das garotas. No baile da escola, tirarei para dançar a menina mais desengonçada da classe. Que se dane se ela pisará no meu pé ou seu aparelho irá enganchar na minha camisa. Aposto que a esquisita vai gostar, ganhar confiança e se tornar alguém mais despachado.Tudo por minha santa culpa. E meu cartaz só vai crescer com o gênero oposto nos anos seguintes. Diabos! Eu serei o único rapaz a ligar para a namorada duas vezes ao dia. O único a marcar uma hora para pegá-la e não me atrasar porque estava vendo jogo do Inter de Itapipoca com o Grêmio Recreativo de Três Coroas. O único a dizer que a amo na frente de todo mundo – quem sabe até único a lacrimejar quando diz isso, se conseguir... Ou aí já seria demais e ela saberia que fui menina na outra encarnação? Nas horas vagas, enquanto não estiver sendo o melhor cara do planeta, farei tudo para aproveitar o que a masculinidade tem de bom. Vou deixar crescer a barba e cortá-la de formas piradas, um dia imitando Fidel Castro e, no outro, o Abrahan Lincoln. Vou sentar de perna aberta, folgadão. Farei xixi de pé, meu deus, xixi de pé! Nunca mais terei problemas com banheiros públicos imundos! Será uma loucura, o nirvana. No calor, posso tirar a camisa no meio da rua sem ser tachado de exibicionista. No frio, uso apenas uma malha leve e nem congelo – afinal, serei um sujeito macho pacas. Poderei correr várias quadras sem perder o fôlego, erguer caixas com mais de 5 kg acima da cabeça e chutar uma bola sem que ela vire uma besta-fera a se atirar contra mim. Ser menino é mesmo uma alegria. Eu sei, não vai mais dar para chorar vendo novela. Nem conseguir as coisas que quero apenas fazendo beicinho ou emburrando suavemente. No dia do meu casamento, serei apenas aquele bocó vestido como o garçom, e não uma linda princesa de vestido rodado. Droga. Ei... também não vou ter meus bebês, apenas acompanhar do lado! E nem vou organizar uma agenda cheia de badulaques ou uma caixa lotada de lembranças... Ai! E ninguém vai abrir a porta do carro para mim, e nem serei chamada de “gatinha linda do papai” para todo o sempre! Pensando bem, agora, talvez seja melhor deixar a próxima encarnação como uma surpresa. E, se por acaso provarem mesmo a existência dela, minha opção pode continuar como a de hoje? Eu nem sou tão imparcial assim, poxa...
Calçada gourmet Quando eu era pequena e começava a dar minhas primeiras andadas solo pelo bairro, além dos avisos usuais de "não converse com estranhos" e "olhe para os dois lados antes de atravessar", minha mãe sempre dizia: "não vá comer nada na rua, hein, menina?". Obviamente, ela não estava se referindo a pegar restos de comida pelo calçamento, como fazia um amigo meu (aliás, o infante se empanturrava com pipoca de macumba e ainda achava o máximo a iguaria ser gratuita). Minha sapientíssima genitora alertava-me sobre os muitos perigos da culinária vendida em barracas e carriolas ali, no meio do passeio público. Se segui aqueles conselhos? Por um tempo, sim. Mas, um belo dia, algo aconteceu. Caminhava do ponto de ônibus para casa quando, de repente, minhas narinas foram invadidas por um fumacê. A nuvem, espessa e escura, abriu meu apetite e me fez seguir, flutuando, até uma pequenina churrasqueira na frente de um boteco. Um trocado por um espeto de carne temperada! E ainda tinha farinha! Tudo bem: hoje eu sei que a carne deve ter vindo de um amigo felino, o tempero continha fuligem do escapamento dos automóveis e a farinha, provavelmente, era resultado da varredura do chão do distinto estabelecimento. Apesar de nunca mais ter consumido um filé "miau", confesso que continuo sendo admiradora fiel dos quitutes de calçada. Afinal, quando a fome bate, o vento sopra trazendo aquele aroma enebriante, o ponto culinário aparece no meio dos camelôs e você possui apenas um punhado de moedas no bolso, a preocupação com higiene e procedência consegue ficar em segundo plano. Você pensa "ah, só dessa vez, vá?" e acaba cedendo. Eu, pelo menos, me rendo, sem culpa, aos populares quitutes abaixo! 1) Pipoca 2) Maçã do amor 3) Cachorro-quente 4) Tapioca 5) Milho verde 6) Coquinho 7) Pastel 8) Calabreza 9) Amendoim doce 10) Churros Mas dá para resistir? ![]() Tio, me vê um com bastante recheio, hein?!
Você tem medo de quê? Tem gente que, ao conhecer alguém, gosta de saber qual o signo do novo interlocutor. Outros preferem perguntar das bandas e filmes favoritos do sujeito. Há quem priorize, ainda, saber onde a pessoa cresceu e estudou. Tudo para tentar captar com que tipo de gente (ou gentalha) estamos lidando e se vale a pena (ou nem por decreto) virar amigo da pessoa. Mas eu tenho um outro caminho. A melhor maneira de conhecer alguém a fundo é... o tempo. Não há meio de ter completa consciência de outrem a não ser o sabendo há muitos, muitos calendários. Eu, por exemplo, me conheço há 27 anos, e ainda não sei tudo de mim! Já a segunda melhor maneira, em minha (i)modesta opinião, é saber o que a pessoa teme. Todo mundo morre de amores e de pavores por umas e outras coisas, mas o costume é polir seus gostos e abafar seus medos. Pois são justamente estas pistas mais escondidas que dão a dica de quem, afinal, é esse mané à minha frente. O mané à sua frente eu não sei, mas esta mané do outro lado da tela tem um monte de paúras, pânicos, temores, sustos e receios, em toda sua gama de intensidade. Sim, eu tenho medo de... ... perder a mão e nunca mais acertar um texto, um bolo ou um conselho. ... perder a memória e nunca mais saber quem é aquela fada loira que me visita com freqüência. ... capotar o carro num acidente espetacular e... perder a memória (veja item acima). ... me perder para sempre e não conseguir jamais voltar para casa (não ria, comigo tudo pode acontecer). ... achar um bebê na porta e não poder ficar com ele. Pensando bem, achar um bebê na porta já seria medonho o suficiente. ... botar fogo numa lata de lixo com a bituca do cigarro e depois ter de me explicar. ... deixar a janela aberta ao sair para passar um dia inteiro fora – e ver cair uma daquelas tempestades homéricas só imaginando o estrago, sem poder fazer nada. ... ser levada pela correnteza e ir parar em alto-mar, tão longe que não se veja um isso de terra. ... esquecer o lugar do carro no estacionamento e ter de esperar todo mundo sair, além de mobilizar um guarda a cada andar, para encontrar. ... ser encurralada pelo rato, em busca de vingança, em algum canto da casa enquanto estou sozinha. ... topar com o Duende e ver o infame serzinho roubar todos os meus sapatos. ... topar com o João Kleber e ver o infame serzinho... ah, basta topar com ele. ... ficar presa no elevador com o Christopher Walken e ver aquele cabeção gigante se aproximar. ... deixar o carro rolar – note bem: rolar, não descer – para trás numa ladeira muito muito íngreme e não poder fazer nada contra a força da gravidade (sempre tenho essa fantasia em subidas muito acentuadas). ... acordar num buraco e descobrir que as formigas cavaram um mega-formigueiro debaixo de meu doce lar. ... ser mal compreendida e, depois, ter de enfrentar todos os contratempos que um engano traz (tenho verdadeira paúra de ser mal compreendida, na verdade). ... assistir ao Gato Félix e aquela gargalhada facínora que sempre se repete ao final dos desenhos. ... encontrar monstros debaixo da cama e eles não serem simpáticos e azuis como o Sulley de "Monstros S.A.". Podem ser aranhas gigantes ou sapos, também. ... calçar o sapato e perceber que esmaguei uma incauta barata que fizera morada lá dentro. Irc!
Um declive e tanto Quando eu era pequena, poucas coisas eram capazes de me deixar tão entusiasmada quanto a Serra do Mar. Tudo bem, a verdade é que eu não dava a menor pelota para a serra em si, sua mata virgem ou o aspecto sócio-ambiental da coisa. Aquela porção montanhosa era tão querida somente por um motivo: ligava minha cinzenta, boboca e humilde São Bernardo ao ensolarado, divertido e esplendoroso litoral paulista. A viagem levava apenas uma hora, mas era uma vida de alegria. Alegria para mim, evidente. Meus pais começavam a bufar só de pensar em equipar o carro para dar início ao percurso. Eu não entendia a razão de tanto aborrecimento naqueles tempos. Hoje sei porque o trajeto era uma festa para crianças e uma provação para os adultos. Tudo questão de perspectiva, claro. Começava pelo trânsito. Nem precisava ser feriado, começo de férias, época de festas natalinas. A estrada era um entupimento eterno, sempre a apresentar acidentes, caminhões, fila no pedágio. Podia ser sexta-feira às 3h00 da madrugada: encontrar centenas de carros lotados de gente praieira como nós era facílimo. Para os meus pacientes pais, ficar preso em um automóvel, dentro do congestionamento, com três petizes chatos, era um trauma. Para nós, um deleite. Eu é que não me importava com o aperto, o calor, as migalhas de biscoito no estofado novo do carro do velhinho. Já o velhinho... Por que meu pai nunca nos largou no acostamento, para sermos comidos pelas feras? Decididos a passar pelo trânsito, o jeito era encarar tudo com animação. Repito: tudo. Na minha concepção de mundo, criança só é criança se um dia ficou dentro do carro contando os postes lá fora ou fazendo joguinho com as placas dos demais veículos. Nós fazíamos isso para matar o tempo – que nunca se resumia a tal uma hora hipotética de percurso. Descer a serra tinha surpresas guardadas, literalmente, em cada curva. Até na Curva da Onça, a mais fechada e arriscada de todas. Ali se concentravam vendedores de comida, por exemplo. Então, quilômetros antes da manobra, eu já iniciava a pentelhação para comprar queijadinha, milho verde ou qualquer diabo disponível. O “não” era comum. O “não, cala a boca e senta a bunda nesse banco agora!” era mais comum ainda... Para aplacar meu mal-humor, mamãe sempre tinha estratégias. E eram estratégias enormes, verdadeiras obras de engenharia. Os túneis alojados na Serra do Mar, se não me engano, são nove. Alguns longos, onde a luz do sol some por completo. Outros curtinhos, até meio ridículos, típicos de Paulo Maluf querendo superfaturar projeto. Em qualquer um deles, nós tínhamos que ficar espertos para a “hora de dormir” e a “hora de acordar”. Era isso que gritávamos quando o túnel se aproximava. Entrando na caverna de alvenaria, todo mundo tinha que fingir pegar no sono e se jogar contra o banco de olhos fechados. Na saída, o berro de “hora de acordar” fazia a macacada na mamãe ficar animadinha de novo, espreguiçando e simulando um despertar. Brincadeira besta, não? Mas sabe que faço até hoje? Pena estar sempre ao volante, o que estraga um pouco a “hora de dormir”. Outra forma de distrair era procurar cachoeiras. Ô serra para ter quedas d’água, minha nossa! Bastava fixar os olhos no morro e aguçar os ouvidos e era bico encontrar rios se atirando das pedras. Também era bem fácil achar vários Fuscas e Brasílias de motor fervido, a encher garrafas de coca vazias para dar de beber ao radiador. Nessa hora, o mais gostoso era meter a cabeça para fora da janela e gritar “Pois é!”, como fazia o Ari Toledo na propaganda da Vimave – e depois rezar para nosso próprio carro não quebrar e o dono do calhambeque vir tomar satisfação. Ótimos tempos aqueles em que Fusca era carinhosamente chamado de “poisé”, que a concessionária Vimave ainda existia e que o Ari Toledo era engraçado. Passadas cerca de duas horas e meia, conseguíamos finalmente alcançar o mar. A vista observada lá de cima, da mesma Curva da Onça, já havia revelado o sol gostoso da praia, então era questão de tempo até os pezinhos deixarem o tênis e tocarem a areia. O objetivo tinha sido cumprido: vencêramos a Serra do Mar e seus percalços para molhar o traseiro branco na água salgada! Hoje penso muito mais na essencial Mata Atlântica, na ocupação desenfreada das encostas, da poluição das cachoeiras e no impacto ambiental da nova estrada. A Serra do Mar perdeu um pouco o charme com tudo isso, mas nunca vai deixar de ser sinônimo de viagem divertida. Na verdade, estou pensando em pegar o rumo do litoral e contar uns postes, comprar umas queijadinhas, sacanear com uns donos de Fusca. Tomara que estejam todos lá.
Uma estrada, muita diversão Fla Wonka às 11:00 AM |
![]() |
|||||||||||||||||||||||||||||||||
![]() |
||||||||||||||||||||||||||||||||||