sexta-feira, 29 de outubro de 2004

Quero ser burra

Tenho um importante comunicado a fazer. Decidi ser burra. Tanto quanto uma porta. Ou, pelo menos, aparentar burrice. Não me perguntem porquê. Simplesmente acendeu uma luzinha (ou teria ela se apagado?) aqui dentro e percebi as vantagens de ter sua reputação marcada pela ignorância.

Deve ser muito legal ser um tanto estúpido. Você não precisa provar nada, nem se policiar o tempo todo para não dizer uma asneira homérica. Não tem que fazer aquela cara de entendido nos assuntos cultuados do momento. Não tem que se preocupar com os rumos da humanidade ou com o momento filosófico da sociedade moderna.

E, quando te tratarem com bastante condescendência e começarem a falar mui-to pau-sa-da-men-te ao se dirigir à sua pessoa, você pode surpreender a todos com uma análise da conjuntura político-econômica dos países do Leste Europeu após a derrocada da União Soviética. Não tem como dar errado!

Marilyn Monroe, por exemplo, fez sucesso encarnando a síntese da loira burra – mais tarde desprezada por Gabriel, o Pensador (acho esse epíteto auto-aferido sensacional! Daqui por diante, quero que me chamem de Clarissa, a Grande). Mas voltando. De bobinha Norma Jean não tinha muito, pelo menos no campo intelectual.

A bonitona possuía uma vasta biblioteca, com clássicos da literatura mundial como Os Irmãos Karamazov. Era traça de livros e curtia música clássica. Fora a idéia de tomar uma porção de remédios de uma vez só (o que se deveu, lógico, pela fragilidade emocional da garota e não por não saber ler o rótulo no vidrinho), Marilyn se deu bem na vida posando de estúpida.

Decidida a seguir o exemplo da moçoila, exceto pela parte relacionada aos eventos da noite de 5 de agosto de 1962, vi que só precisava de umas cirurgias plásticas aqui e ali e uns bons mililitros de silicone... Mas tenho pavor de entrar na faca.

Então pensei em apostar na burrice pura, sem mexer na lataria. Você pode ser o que você diz, certo? Porém, aí está o problema maior. Eu sou tão burra que não sei sequer o que fazer para parecer burra.

Não posso apelar para a caricatura de passar branquinho na tela do computador, como sugerem as piadas de loira – e olha que eu sou uma delas (loira, não gente que passa branquinho no monitor). Essa não cola.

(Pensa, Clara, pensa!)

Jogar a cabeça de um lado para o outro enquanto converso com as pessoas? Vou é ter um torcicolo. Emitir opiniões do tipo “eu acho que bandido tem tudo é que morrer mesmo”? Vai ser difícil não rir se eu falar isso. Hum.

(Pensa, Clara, pensa!)

Passar a grafar “oi, miguxos! Td bem com vossês por aki? Bjussss!” nos meus textos? Não que eu acerte todas, mas tenho de prestar mais atenção para redigir assim do que para escrever como já escrevo. Repetir uma única expressão bem cretina à exaustão? Não consigo me decidir por qual.

(Pensa, Clara, pensa!)

É. Acho que assinei meu atestado ao me ver incapaz de superar um obstáculo supostamente simples assim. Pensando bem, posso me dar por satisfeita. Nem para ser burra eu presto!

bushcretino.jpg
Eis a prova viva (infelizmente) do quão
longe se pode chegar aparentando burrice
Clara McFly às 05:34 PM


De um mundo escolar a outro

Quando se trata de estudo, é muito fácil tomar um teleférico ligando a Áustria com Bangladesh. Claro, é preciso pagar uma fortuna para embarcar no transporte. Mas eu posso dizer que passei das carteiras imaculadas para o caos total e vivi um pouco dos mundos “particular” e “estadual” do ensino.

Escola pública é criticada até por crianças de seis anos hoje em dia. Meus pais contam sobre o tempo em que estudar sem pagar, em colégio de prefeitura, era coisa fina. As vagas eram disputadas e, para conseguir um lugarzinho naquela sala de aula, contava muito ter um tio comerciante, um avô abonado ou amigos em órgão público. O aprendizado era gratuito, bem servido, fomentado por professores cultíssimos e castradores – e até a merenda era de lamber os beiços.

Já para a escola privada eram enviados os riquinhos problemáticos. Filho de comendador meio burro e levado? É para o colégio pago que ele ia. Não escapava da palmatória por ter as costas quentes – o que lhes deixava as “costas” mais quentes ainda. E assim a vida escolar seguia. Até que tudo se inverteu.

Corta a cena para o meu tempo, aqueles eletrizantes anos 80. Quando fui para a primeira série pela primeira vez, tinha seis anos ainda. Não queria ficar na pré-escola porque saturei de fazer desenho e já sabia ler e escrever de um tudo. Mamãe me levou para estudar na escola estadual onde ela dava aula, a fim de acabar com os chiliques matinais. Fui, permaneci o ano todo feliz e estudiosa, passei com média 9. Mas não tinha matrícula, porque era nova demais.

Então os enjoados da escola particular para onde me mandaram, muito afeitos a papéis de documento, me fizeram praticar toda a 1a série de novo. Passei tudo de novo, agora com 10. E estranhei demais todo aquele ambiente.

Na escola do Estado, o cenário era lazarento. Paredes sujinhas, pátio sem bancos, quadras sem tabela de basquete ou mesmo uma trave de futebol. Não tinha material de educação física, o lanche era mirrado, as tias ganhavam mal. Mesmo assim, eu amava cada centímetro. Meus amigos eram, com toda sua classe média baixa, divertidíssimos, sapecas, sarristas. Peguei piolho, sim... Quem não pegou?

Com a passagem no “teleférico social”, notei as diferenças para a escola privada logo de cara. Uniforme de helanca fazendo suar no calor era o de menos ali. Duro era aturar as meninas metidinhas, os garotos filhinhos de papai, a diretora cheia de normas estúpidas (por que escorregar pelo corrimão era crime tão grave, oras?). O panorama era perfeito, com chão encerado, ginásio coberto, capela e banheiros límpidos. Mas tão enfadonho...

Não tinha campanha de levar saquinho de leite para ajudar os doentes do Hospital do Fogo Selvagem. Não tinha festa do sorvete. Não tinha briga de soco entre moleques. Senti falta do clima descontraído e meio marginal da escola pública. E, até que enfim, voltei pra lá dois anos depois!

Voltei a usar apenas avental branco em vez de uniforme. Voltei a conhecer os funcionários todos pelo nome. Morri de achar bom passar a terceira, quarta, quinta séries no glorioso “E.E.P.G. Anésia Loureiro Gama”. Os corredores eram gelados no inverno e escaldantes no verão, mas quem estava reparando? Era bem melhor do que o estilo nazi-marcial do “Externato Rio Branco”.

Pois não foi que precisei voltar aos domínios fascistas na 6a série? Foi experiência de quase-morte. Mais três anos de garotas nojentas me zoando e meninos empertigados me esnobando. Fora a amizade da Raquel, o lanche de pão com molho vermelho e as aulas de matemática com um professor viciado em Beatles, odiei cada segundo. Sabia que o colégio público era fraco, mas tinha muita saudade da informalidade dele.

Às vezes a vida é assim mesmo: a Áustria tem um ar classudo demais e Bangladesh pode ser complicada – mas fazer muito, muito bem ao coração.

Fla Wonka às 04:10 PM


Aprendendo com o pipoqueiro

Era uma tarde quente de 1987. O sinal da escola já tocara, indicando o fim de mais um dia de aula. Barba, o pipoqueiro, aumentava o fogo da panela para receber os estudantes atraídos pelo barulho do estouro. Era um homem um tanto sisudo, mas de bom coração – tão bom que prometia um saco de pipoca gratuito ao aluno que lhe apresentasse uma prova com nota 10 naquele ano.

Meu estoque de exames com tal valor já havia se esgotado. Caindo na conversa de meus coleguinhas, resolvi adulterar a data de uma avaliação do ano anterior e apresentar com a cara mais inocente do mundo. Ao Barba, velho lobo do mar, bastou ver a mancha de Liquid Paper para notar a fraude. Ele se aproximou de mim e me passou a maior de todas as broncas na frente do pátio cheio. A partir daquele dia, não haveria mais pipoca gratuita para ninguém – e a culpa era toda minha. Eu engoli o choro, esperei o vermelho do rosto ir embora e... mudei minhas atitudes.

Desde então venho baseando todas as minhas ações no que é certo e direito. O engraçado (ou não) é que às vezes essas ações são mal vistas por muita gente. O “jeitinho” brasileiro ainda impera e nós, os não-jeitosos convictos, passamos por um bando de tolos.

Observar isso é a coisa mais fácil: ao atravessar a rua, por exemplo. Eu espero o quanto for necessário para o bonequinho do semáforo de pedestres ficar verde para mim. Enquanto permaneço no meu silencioso aguardo, os espertinhos se atiram entre os carros em um zigue-zague corrido e audacioso. Quem é a bundona que fica parada por cinco minutos? Eu, sempre eu. Pelo menos tenho mais chance de chegar ao outro lado intacta.

No supermercado também acontecem muitos testes de boa educação. Quando minha cesta de compras conta com mais de 12 volumes, eu me recuso a ficar no caixa rápido. Não penso duas vezes em pegar uma fila gigantesca e demorada. O quê, não basta isso para passar como alienígena na frente dos outros? Então tente devolver um troco errado para cima... Nem que seja por dez centavos. Até o atendente do caixa faz cara de espanto quando vê a cliente voltando e entregando-lhe a diferença.

Pegar ônibus é a mesma coisa. Às vezes me sinto uma tonta de pagar o preço da passagem quando vejo turmas inteiras de rapazes de bonés e camisetas de grife pedindo ao cobrador para liberar a catraca. Eles devem fazer isso sempre porque o meu dinheiro suado paga a conta. Fazer o quê, né? Eu é que não vou sujar minha roupa me arrastando no chão por causa de R$ 1,70. Nem vou me fazer de desentendida e fingir uma soneca quando uma pessoa idosa procura por um assento para descansar as pernas. Mas os espertos não pensam assim.

Dias depois do incidente da pipoca, precisei fazer uma prova de inglês no meio da aula normal, pois havia faltado no dia. A professora me colocou no canto e me passou uma folha um tanto usada – era possível, inclusive, olhar as respostas escritas e apagadas com borracha. Levantei a mão e contei para ela que o exame já tinha as soluções. A classe toda cochichou, incrédula com o meu descaso frente a tal oportunidade de ouro. Recebi outra folha limpa, fiz os exercícios e tirei a nota que era minha por direito.

Queria que o Barba tivesse visto como aprendi a lição.

Vivi Griswold às 09:56 AM

quinta-feira, 28 de outubro de 2004

Da terra da garoa

Sabe o Arnesto? E o moço que tinha de pegar o último trem para Jaçanã? E as mariposas que se esquentavam rodando em volta da lâmpada? E o Moacir, que ia casar com a Gabriela? E o policial que foi apartar uma confusão numa pizzaria no Bixiga e mandou todo mundo para as “Crínica”? Não?! Então, o que você está esperando para adentrar no maravilhoso mundo de João Rubinato – ou Adoniran Barbosa?

Ao contrário do que muita gente pensa, o homem que melhor retratou a cidade de São Paulo nasceu em Valinhos, interior do Estado, aos 6 de julho de 1912. Alguns de seus documentos apontam 1910 como o ano em que veio ao mundo. Isso porque o moleque precisava ser mais velho para trabalhar e ajudar a família, de imigrantes venezianos.

O pequeno João não era nada afeito aos bancos escolares. Não me admira nada: para alguém como ele, qual o uso em ficar dando a mão à palmatória? Preferiu trabalhar – e como trabalhou. Foi entregador de marmita, varredor, pintor, tecelão, mascate e garçom, entre outras profissões, nas cidades de Jundiaí e Santo André, onde também morou.

A sorte mudou quando, em 1933, ele ganhou um contrato para cantar na rádio, depois de participar de programas de calouros. Em 1941, já consolidado no ofício de compositor de sambas, ele foi para a Rádio Record, onde criava personagens e participava de programas. Ainda fez cinema e, bem, compôs verdadeiras pérolas que viraram clássicos merecidos.

Imagina quanta inspiração ele não tirou do dia-a-dia servindo mesas e pintando paredes para escrever seus sucessos depois? E, acima de tudo, imagina estar num restaurante e ouvir aquela inconfundível voz rouca perguntando o que você gostaria de beber? Pena que só nasci décadas depois do tempo que sêo Adoniran bateu cartão por aí...

Restou-me “apenas” o legado das músicas dessa figura. Ninguém soube pintar a São Paulo da massa de operários e trabalhadores simples, que pegavam o trem e trabalhavam nas construções, como ele. E com tal maestria que, depois de tempos, as canções continuam cabendo.

É difícil escrever sobre suas composições, que ganham vida somente com o jeitão de falar e o timbre característicos do sambista. Mas vou tentar.

Não resisto à história narrada no “Samba do Arnesto”, em que o pessoal vai para um samba na casa do dito-cujo, que mora no Brás. Chegando lá, dão com a cara na porta e ficam injuriados. Adoniran diz que Arnesto podia, pelo menos, “ter deixado um recado na porta”. E segue, impávido, cantando: “um recado mais ou menos anssim:

‘Ói, turma, num deu prá espera, a vez que isso num tem importância, num faz mar, depois que nóis vai, depois que nóis vorta. Assinado em cruz porque não sei escrever, Arnesto’”.

Como o pobre do Arnesto ia deixar um bilhete, afinal?

Mas o morador furão do Brás não é o único da miríade de tipos criados e cantados por Adoniran. Ainda tem o namorador do Jaçanã, que tinha de deixar sua eleita para pegar o último trem, na famosa “Trem das Onze” – mais tarde transformada em propaganda do Big Trem da Estrela. E a confusão que fez voar bracholas para todo lado narrada na minha favorita, o “Samba do Bixiga”.

Tem o povo que morava num casarão abandonado e foi despejado, de “Saudosa Maloca”, com o delicioso refrão “dindindonde nóis passemo dias feliz de nossas vida”. Tem “As Mariposa”, que gostam de dar beijinhos na “lâmpida” (ou, como canta Adoniran, “oscular-lhe a face”), assim como às mulheres apraz beijar o compositor.

E o Moacir, então? O safado ia casar com a Gabriela na catedral da Vila Ré. Toca a ir toda a vizinhança para lá, de “beca preta” arranjada e “sapato branco apertado no pé”. Mas a cerimônia foi um vexame, depois que o padre fez a tradicional pergunta do fale agora ou cale-se para sempre e alguém levantou-se para dizer, nas palavras de Adoniran:

“Seu padre, apare o casamento
O noivo é casado, pai de sete rebento,
Fora o que está pra ‘vi’
O pai é esse aí, o ‘Moací’”.

Isso sem contar a tragicômica história da “Iracema”, para a qual Adoniran se inspirou numa notícia de jornal. A protagonista morre atropelada ao atravessar a São João. A versão interpretada pela Clara Nunes é toda dramática, mas quando entra o velhinho de chapéu contando que guardou só as meias e sapatos da vítima, que seria sua futura noiva, fica difícil não rir.

Ainda bem que o sambista não encontrou o triste fim da Iracema. Adoniran foi dessa para a melhor em novembro de 1982, com 70 bem vividos anos. Mas sua música continua aí. É só querer ouvir – e se deleitar com as histórias.

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Ele era o cara – e a cara da São Paulo dos “remediados”


Clara McFly às 06:19 PM


Três é bom demais

Se o Garotas hoje faz um certo sucesso, ganha 4.500 pageviews/dia, conta 780 malucos cadastrados no Fórum e é freqüentado até por gente famosa (eu juro), isso se deve aos três textos publicados todo santo dia – ou ao menos de segunda a sexta-feira, que ninguém aqui é forjada em ferro. Não somos eu, Clara e Vivi as estrelas, como cansamos de dizer. São as palavras, as lembranças e vocês aí do outro lado, que viram em nós um trio porreta. Sabem? Eu acho a gente porreta também.

Nunca brigamos. No máximo, um chiliquinho vez por outra, para apimentar a relação. Mas nunca houve desentendimento sério – e até hoje, depois de quase quatro anos de amizade, ainda começamos e-mails todo dia com “oi, lindas”, “olá, fofoletes” ou “e aí, tranqueiras!”. Se o ditado “unidos, venceremos” vale mesmo, este bandinho ainda chegará ao Palácio do Planalto! União com diversão dá muito samba entre a gente – como acontece com vários trios espalhados por aí.

Observando bem, carregamos em três o peso de várias trincas famosas. Um pouquinho de maloqueiras aqui, um pouco de princesas ali, um pouco de justiceiras acolá... Assim formamos não três personalidades, mas uma só. Ou vai dizer que, se publicássemos sem dizer autoria, vocês saberiam dizer quem é quem? Nem nossas mães sabem! Nem a gente mesmo, de vez em quando!

É a tal amálgama formada, eu digo. Junte todos estes trios abaixo, divida por três, desconte um tento e terás Garotas que Dizem Ni.

Josie e as Gatinhas
Não, não tocamos instrumentos algum. Clara deve arranhar uma flauta doce, Vivi até pode domar um pandeiro e eu não faria feio no chocalho (depois de um certo treino). Não podemos formar banda desse jeito, mas tal qual o bando de Josie, somos lesadas o suficiente para subir ao palco (no caso, o grande palco da internet) e garantir sorrisos. Não vestidas de gatinhas, óbvio.

Irmãos Metralha
Lidar com dinheiro não é a nossa. Mesmo quando planejamos enricar e repassamos ponto a ponto o plano com afinco, damos com os jegues n’água. Se hoje nossas contas registram um grande eco, é por causa da falta de espírito para negócios – compensada pela determinação de nunca desistir de rechear a caixa forte. Podíamos até desenhar 167, 761 e 617 nas camisetas...

Meninas Superpoderosas
Sempre que surgimos com a configuração “loira, morena, ruiva” e começamos a conversar falando apenas por delírios, todo mundo compara com as garotinhas mais famosas atualmente nos desenhos. Lindinha, Florzinha e Docinho, confesso, se parecem conosco no modo de agir. E acreditem: matamos um Macaco Louco por dia nessa vida!

Os três mosqueteiros
“Um por todos e todos por um” é lema central por aqui! Se uma de nós é perseguida pelo rato, outra é levada pelo trem recolhendo e a terceira se estatela no chão por balançar no armário, as outras vêm em socorro prontamente. Também acontece quando estamos enroladas com contas, reportagens atrasadas, falta de carro e ameaça de mau humor.

As Panteras
Nem Kelly, Gil e Sabrina são mais raçudas, vão por mim. Claro, não usamos o corpinho para pegar bandidos em armadilha ou espionamos milionários fingindo de garçonete. Nossa área de atuação corre para o sentido de montar uma organização quase sem fins lucrativos (vide item “Irmãos Metralha”...) em defesa da leitura, da graça, da memória. Falta achar um Charlie para nos mimar e manter.

Os três patetas
Ok, é evidente. Não somos meninas que usam sapato de bico fino, cabelos com chapinha, roupa de grife e se portam como ladies. Até podemos fazer isso, porque somos espertas, mas a coisa sempre descamba para risadas incontroláveis, planos mirabolantes, comentários sobre programas de tv e muita, muita bobeira. Se nos dessem tortas, podíamos protagonizar cenas tal qual Moe, Larry e Curly. Tenho certeza, porém, que numa versão mais “mariquinha”.

Hebe Camargo, Lolita Rodrigues e Nair Bello
Taí um grupo que resume bem quem seremos eu, Clarissa e Viviana na casa dos 70 anos! Já viram a trupe reunida, tentando dar entrevista? Vira pastelão em dois minutos. São diferentes à primeira vista, mas muito parecidas nas raízes. Eu já disse que sou Lolita, porque adoro o jeito recatado porém palhaço daquela senhora que canta como o quê. Vivi e Clara brigam para ser a Nair, a mais demente. Clarinha diz que ela, porque é a única que fuma (?). Eu não sei, ela me lembra mais a despirocada Hebe, enquanto Vivi é dona de um humor saliente como o da Nair. Tanto faz, oras... O importante é seguir sempre junto. Não é, fofoletes?

Fla Wonka às 02:39 PM


Vruuum... Vruuum...

Em desenho animado, vale tudo: vale ser um príncipe frutinha que se transforma em uma espécie de Conan, o Bárbaro; vale ser um velhote baixinho que fala frases desconexas e tenta ajudar um bando de crianças pentelhas a encontrarem o caminho de casa; vale até ser uma esponja de cozinha que mora dentro de um abacaxi no fundo do mar! É por isso que eu amo aqueles filminhos coloridos – por mais que tracem um paralelo com a realidade, sempre existirá um ou outro detalhe completamente louco.

Exemplo disso é a quantidade de carros que povoa os desenhos. Enquanto nós, mortais, possuímos automóveis populares sem graça e sem potência, os veículos no mundo da imaginação televisiva são criações das mais malucas. Por fora, ganham pontos no visual diferente de qualquer outra coisa que temos visto nas ruas; por dentro, possuem botões e alavancas capazes de fazer o inimigo comer poeira.

Vai dizer que você não trocaria seu Corsa 98 por qualquer um dos carangos abaixo...

Tanque do Mentor
O bigodudo à lá Magnum era pai de Tila, braço direito do He-Man e uma das poucas pessoas que sabiam da verdadeira identidade do herói (sim, porque o pessoal do reino de Greyscull devia usar muito aquele cabelo de dublador do “Qual é a Música” para haver tanta dúvida). Mentor fazia ainda as vezes de chefe do exército do Bem e de cientista e inventor. Vai que é por isso que ele dirigia aquele tanque maluco: a geringonça tinha umas esteiras no lugar de rodas e não era lá muito veloz. Ainda assim, melhor do que seguir viagem montado na garupa do Gato Guerreiro, certo? Ui!

Impossicar d'Os Impossíveis
Em um dos desenhos mais malucos de todos os tempos, três membros de uma banda de rock formavam também um trio de super-heróis nada convencionais. Homem-Mola, Multi-Homem e Homem-Fluido eram claramente inspirados nos Beatles e em outros músicos da época – fato comprovado pelo cabelo tigela e pelo modo de balançarem a cabeça de lá pra cá enquanto tocavam. Mas, quando o perigo se aproximava, o palco dos shows virava o Impossicar, o automóvel voador que levava os heróis até a missão do dia. Sim, eles inventaram os Transformers!

Carro 5 da Corrida Maluca
É tarefa difícil escolher um dos inúmeros veículos do desenho. Perdoem-me os garotos, mas eu vou ficar com o conversível da Penélope Charmosa. O visual é incrível: o carrinho tem lábios na frente, e os faróis posseum cílios avantajados; na traseira, um rabo-de-peixe amarelo lembra o rabo-de-cavalo de sua dona; uma sombrinha estratégica protege a cútis impecável de Penélope dos nocivos raios solares. Tudo tão fofo que só faltava mesmo o motor ser potente. E é! O cor-de-rosa sempre está entre os favoritos a vencer os obstáculos e cruzar a linha de chegada.

Thundertanque dos Thundercats
Sei não, mas acho que no reino de Thundera todos os habitantes gostam de filmes de gladiador. Menos a Cheetara, que é menina e um tanto deslocada no meio daquele monte de homem (homem?) musculoso que gosta de ver a espada crescendo nas mãos. Pior que o Lion, só mesmo o Panthro: o careca usa uma roupinha sado-masô que é um luuuuxo. Ao mais velho e sábio dos Thundercats sobrou ainda a tarefa inglória de pilotar o tanque de guerra da trupe. O veículo é totalmente blindado, possui braços com garras nas laterais e levanta um pó danado por onde passa.

Utilitário do Freddy Flintstone
Seguindo a lógica, o carro dos Flintstones deu origem a toda a linhagem de automóveis de desenhos animados. Olhando por fora, parece tosco: toda a armação é feita com madeira, as rodas são de pedra e o capô não passa de um pedaço de pano cheio de buracos. Não podemos negar, porém, que o carango dá uma bela lição de ecologia – não polui o ambiente pois não utiliza combustível. Freddy precisa usar os próprios pés para fazê-lo andar pelas ruas. Pode-se afirmar, ainda, que o dinheiro destinado à gasolina é gasto todinho em enormes bifes de pterodátilo.

Mach 5 do Speed Racer
Para todos os apreciadores de carros, reais ou não, o automóvel de Speed Racer é o sonho máximo. Além do branquinho ser lindo e aerodinâmico, ele esconde centenas de funções incríveis sempre à mão do piloto. Apertando um botão no meio do volante, por exemplo, Mach 5 voa baixo sobre os inimigos alcançando 300 quilômetros por hora em questão de segundos. Até mesmo o Corredor X, adversário supremo das corridas, deixa transparecer uma evidente cobiça ao ver a máquina correndo em toda a sua glória. Ô vontade de ter um desse no trânsito de São Paulo!

Máquina do Mistério do Scooby-Doo
Ah, nem mesmo toda a potência do Mach 5, combinada com todo charme do conversível de Penélope, com toda a segurança do Thundertanque e com toda a economia do carro dos Flintstones me fariam deixar de colocar o Mystery Machine no topo dos meus automóveis favoritos de desenhos animados. O furgão transpira anos 60 por dentro e por fora. A pintura psicodélica no melhor estilo flower power e as rodas roxas dão o tom. Tudo bem que o interior do veículo deve ser um grande fumacê alucinógeno – cigarrinho do capeta rola solto ali, sabe como é...

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Vivi Griswold às 10:23 AM

quarta-feira, 27 de outubro de 2004

Quando eu tiver 64

Desde a primeira aula de Ciências e Saúde – ou mesmo antes disso, para os observadores mirins mais perspicazes – sabemos que, como toda matéria que nasce, cresce, se reproduz e morre, vamos ficar velhos um dia. Mas de saber a perceber pode haver uma boa distância. A gente vive fingindo que não vai morrer – e muito pouca gente, acho eu, já se deu conta de que um dia seu corpo (e sua cabeça) não serão mais os mesmos.

Entendi o significado da velhice só lá pelos 19 – e olha que nunca matei uma aula de Ciências, sabendo repetir a ladainha do ciclo de vida desde pequerrucha. Foi quando eu estava bela e folgada dentro do ônibus, sentada perto da porta de desembarque, que aqui em São Paulo e adjacências é a porta de trás.

O motorista parou num ponto e abriu a dita saída para um velhinho subir, gozando de seu privilégio de cidadão em idade avançada. E eis que o senhor levou uns dois minutos para botar, com muito cuidado e tremor, três sacolinhas de supermercado não muito carregadas para dentro do coletivo.

Fui arrebatada pela descoberta: “um dia eu vou ficar assim!”. Estava tão pasma que, até me recobrar e conseguir articular alguma ajuda ao velhote, ele já tinha se sentado. E olha que isso demorou.

Desde então, presto a maior atenção nos velhinhos que andam por aí – e nos da minha família também. Eu não quero passar, como a minha vó, mais de 50 anos casada com um sujeito tosco como o meu avô. De bom coração, mas tosco até dizer êpa. Ele não teve nenhuma oportunidade de educação e por isso não o recrimino. Que Brian o tenha, àquela figuraça que era o sêo Humbertão!

O que eu mais gosto na minha vó é de observar como as mãos delas, por si só, contam histórias e impõem respeito. São bem, bem enrugadas. O tempo também deixou as veias mais aparentes e a pele meio molenga. O derrame deixou-as com mania de repetições – ela fica horas franzindo cobertores. Mas a habilidade que mora ali ficou aparentemente intocada. É de chorar.

Não resisto, na rua, à passagem de casais que, juntos, devem somar uns 170 anos de idade. O andar deles me arrebata – especialmente quando o cavalheiro leva sua dama pelo braço ou oferece apoio que ele mal está certo de ter para ela subir um degrau na calçada.

No metrô, alguns maridos na melhor idade (que tanto pode ser um termo bacana como um eufemismo de desculpas para uma cultura que renega os mais velhos), ao perceberem um assento vago, chamam sua senhora pelo braço e a acomodam ali. É uma cena e tanto.

Imaginar-me velhota é um trabalho em andamento. Não consigo aceitar a idéia de demorar vinte minutos para dar uma volta no quarteirão, ou passar cinco minutos tirando o bilhete de metrô da algibeira. E ainda por cima olhar ao redor e ver aquele monte de moleques me ultrapassando, afoitos, rumo a uma vida toda pela frente.

Mas devo lembrar a mim mesma que, junto ao corpo, o que tem dentro da cachola e o que forma o espírito há de mudar também. Provavelmente, não terei mais essa pressa, tampouco a ansiedade que me atormenta hoje. E atingir essa maturidade e plenitude será muito mais fácil se eu prestar atenção na vida desde agora, e vivê-la com generosidade.

Espero que eu seja capaz. É bem pior viver uma vida errada que levar cinco minutos para passar na catraca do metrô.

Clara McFly às 05:49 PM


A dança das cadeiras

Quando a vida se torna um graaaaande cenário de Malhação, com roteiro e tudo, o jeito é parar, sentar e admirar. Sim, porque mesmo gente de 20 e tantos, 30 anos, é capaz de meter a cara em historinhas a la novela mexicana – ou, muito pior, no supracitado seriado decano. Hoje não há um grupo de amigos meus onde não esteja rolando aquele “X gosta de Y; Y namora com Z mas está a fim de W; W só pensa em pegar a mulherada ou o dia em que finalmente X lhe dará bola”.

A rede de intrigas congrega segredos obscuros – mas também funciona tal qual a 7a série B, quando todos armavam para ficar uns com os outros ou tentavam descobrir quem gostava de quem. Essa mania de fuçar os sentimentos alheios é tachada como coisa de abelhudo, de gente sem ter o que fazer, de perda de tempo. E, ainda assim, diverte pacas!

Os primeiros efeitos da fofoquinha entre amigos são: 1) notícias dadas em tom de voz baixinho, com direito à “nem te conto”, “você não sabe a nova” e “tá sentada?”; 2) telefonemas escusos para contar o último lance ocorrido; 3) diz-que-me-diz com informações atravessadas de Mirteses que aumentam mas não inventam. É uma animação sem fim acompanhar tudo isso, não há como negar.

O caso é que todo ser humano é tarado por uma fofoca. De tiozinhos de bigode e incontáveis netos a molecas de 12 anos, todo mundo sabe fazer intriga – e, mais do que isso, dá um braço para saber os deslizes dos outros.

No meu bairro antigo, por exemplo, o grupo de vizinhos mal pôde se conter ao saber do buxixo: a mulher do cara do 417, um chato de galocha, estava de olho no filho da senhora do 408. O rapaz estava noivo e desmanchou tudo (porque “desmanchar” é típico dessas histórias) pra ficar com a tal mulher. Rendeu dias de falatório. Uns ficaram do lado deles, outros acharam o fim da picada (porque “fim da picada” também é termo básico do assunto).

Aliás, sempre há papéis muito definidos na intriga de grupo. Tem o sujeito que bota lenha na fogueira, apanhando frases e contradições no ar para comprometer os outros. Tem as garotas que ficam com inveja da protagonista da fofoca e definem a moça com “aquela lá”. Tem quem pretenda amenizar as coisas parlamentando e pedindo trégua. E tem aqueles que formam o coro, emitindo opiniões sobre um lado e outro sem escolher partido. É como Malhação ou não é?

É sim. Ainda mais quando se trata de gente novinha. Adultos concretos discorrem sobre assuntos pesados como divórcio, traição, filhos metidos no meio, dinheiro e bens. Isso não tem lá muita graça. Para os mais jovens, daí sim: tudo se resume a quem beijou, quem amassou, quem está pegando, quem não sabe de nada, quem sabe de tudo e quem não pode saber de jeito nenhum. Frivolidades assim podem rechear uma tarde toda de papo.

Ainda outro dia uma turma ficou em polvorosa com acontecimento quase trivial. Para preservar identidades, chamemos o casal central de Leandro e Carol. A dificuldade era saber: Leandro estava ou não xavecando a moça no sopé da escada de um famoso e delirante bar oitentista paulistano?

Uns dizem ter visto a pose clássica “braço apoiado na parede como que bloqueando a fuga da garota”. Outros garantem: menino tão doce jamais seria capaz desse ato bobo, visto que é mais cavalheiro, mais original e mais tímido que isso. E teve gente comentando que rolou foi o maior ciúme dos demais – uma galera que adoraria pegar uns aos outros em público mas não têm coragem.

A dança das cadeiras é assim mesmo: os participantes estão sempre girando de posição e de olho das reações alheias. Brincadeira mais divertida essa, meu deus!!!

Fla Wonka às 02:06 PM


Vestígios de um garrancho

O grande momento de aprender a ler e a escrever pode vir mais cedo para alguns petizes, mais tarde para outros. Para alguns brasileiros, só vem na maioridade; para muitos, nunca vem. No meu caso, aconteceu quando estava cursando a primeira série do ensino fundamental, dos seis aos sete anos: foi como tivessem aberto uma arca do tesouro. Devorar palavras com os olhos como um americano devora um Big Mac é comigo mesmo. Mas hoje vou falar da parte escrita – a leitura fica por sua conta.

Quando consegui segurar o lápis de modo confortável (e não mais com dureza, como se o objeto fosse um graveto qualquer), colocá-lo no papel e arriscar algumas mal-traçadas letras (aquele A completamente tremido e tão severo que muitas folhas seguintes ficavam marcadas), viciei. Mesmo quando a professora não pedia, eu completava um caderno de caligrafia atrás do outro. Caderno de caligrafia... Ainda existe isso? Ou está no mesmo limbo didático do mimeógrafo?

Ao entrar na quinta série, os alunos do meu colégio podiam finalmente escrever com caneta a lição diária. Aí foi a minha perdição. Comprei uma daquelas geringonças de 100 cores e 300 cheiros e caprichava na letra como nunca. Rabiscava palavras e frases nos livros, no canto da prova, na carteira, na sola de borracha do All-Star, na mochila. Minha caligrafia transformou-se na típica feminina: redonda, cuidada, florida, pensada.

A época em que eu enchia quatro folhas duplas de papel almaço (outro item do material escolar que ficou no limbo) com milhares de palavras desenhadas em esferográfica azul bico fino, e o tempo em que eu reconhecia minhas amigas pela letra de cada uma parecem tão distantes de nossa atualidade. Porque eu não escrevo mais daquele jeito. Aliás, quem escreve?

Hoje minha caneta em forma de foguete foi substituída por um monte de teclas e minha folha de caderno virou um arquivo do Microsoft Word. A letra que sai não denota minha pressa ou meu capricho: o A sempre está com cara de A – isso se você escrever em Verdana. Em Arial ou em Times New Roman, é diferente. Ainda assim, não podemos mais reconhecer alguém pela caligrafia. O máximo de pista é um nome no e-mail.

Não que esteja saudosista, pelo contrário! Já pensou o que seria do Garotas se tivéssemos de escrever um texto como este em caderno, xerocá-lo e enviar a todos os leitores? E isso três vezes ao dia, cinco dias da semana? Haja caneta, papel e selo.

Mas não posso negar o fato de que às vezes sinto falta do que era a minha letra. Fico horrorizada de pensar que só escrevo do jeito arcaico para fazer a lista de supermercado, deixar um bilhete à faxineira ou preencher um cheque. A fluência foi-se. Não consigo mais seguir uma linha reta. No meio da ação apressada, olho para o papel e suspiro. Parece com o garrancho que saía quando estava aprendendo a traçar as palavras. É isso mesmo: percorri todo esse caminho para assistir à triste involução do meu traço.

Caderno de caligrafia, onde está você para me socorrer?

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Vivi Griswold às 10:52 AM

terça-feira, 26 de outubro de 2004

Ainda somos os mesmos, sim

Você é desses que têm ojeriza de ser comparado aos pais? É daquela turma que detesta ouvir “é, estamos ficando velhos” e cospe no modo antigo de fazer as coisas? Ah, eu também era... Até perceber, tempos atrás, que os anos chegaram aqui em casa e bateram ali na porta, entrando sem pedir licença. Sim: ainda me visto como uma pós-adolescente-demente e caio na balada com o maior gosto. Mas confesso fazer certas coisas igualzinho Dona Conceição e Seo Luiz, meus adoráveis genitores.

Não tomo conta de quatro netos alucinados, como ela, nem passo dias cuidando de um sítio até que ele fique imaculado, como ele. Outros tiques de comportamento, porém, podem ser facilmente detectados na minha pessoa – sem necessidade de lupa.

Elis Regina cantava arrepiando: “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. Se era para ser um alento ou uma constatação trágica, não sei. No meu entender, guardo os traços dos dois somente porque... diabos, todo mundo guarda traços dos pais! Foram eles que “nos deram uma nova consciência e juventude”. Ou não? Os meus velhinhos, sim.

Como a mãe, ela pica legumes na pia
Para desespero total do rapaz bochechudo com quem casei, eu faço comida feito a Tia Anastácia do Sítio do Picapau Amarelo. Como a minha mãe, aliás! Qualquer sopa ou torta ou bolo abarrota a cozinha de louça e enche o ralinho da cuba com melecas diversas. Eu juro que limpo depois. Quase sempre, como Dona Conceição.

Como o pai, ela pechincha
Não somos mão-de-vaca, somos econômicos. Não somos neuróticos, somos prudentes. O preço da etiqueta não nos diz muita coisa e, sim, pedimos desconto até aos flanelinhas. Aprendi com meu velhinho que comerciantes quase sempre tentam abusar, então não custa nada pedir um abatimento justo. Vai que eles dão, né, pai?

Como a mãe, ela é viciada em filmes velhos
De tanto ver aquela senhora derrotar o sono e ficar até 4h00 da madrugada esperando filmes de John Ford, notei que podia ter algo divertido nessa prática. Do mesmo jeito que ela, não clico o controle remoto no “Desliga” até estar feliz e contente lendo o “The End” daquela produção bacana. Ganhamos um dia seguinte terrível e cheio de bocejos? Evidente.

Como o pai, ela gosta de ficar sozinha
Achava o cúmulo o homem sair sozinho no sábado para comprar na feira ou visitar a parentada. Não acreditava que ele era capaz de dispensar uma festinha na casa de outros para ficar no sofá, vendo futebol sem companhia alguma. Porque hoje faço tudo exatamente igual, tendo esses lampejos de eremita urbana, desconheço. Deve ser genético.

Como a mãe, ela poupa só para viagens
Quem liga para roupa de grife ou objetos decorativos caros? Quem precisa de cabeleireiro toda semana e 30 pares de sapato? Não a mamãe. Nem eu. Nosso dinheirinho suado podia vir com o carimbo “fundo de férias”. Assim, já rodamos cidades encantadoras e paragens distantes. Na última, fomos as duas juntas! E nem brigamos sobre quem pagaria o cappuccino.

Como o pai, ela detesta Jorge Benjor
“Pura implicância do pai”, eu pensava. O líder da Banda do Zé Pretinho cantava hits animados e divertidíssimos de adicionar nas festas. Era popular e poético ao mesmo tempo, até! Depois comecei a prestar mais atenção e repensei: putz música grudenta, chata, repetitiva, sem vergonha! Você pode até dizer que eu estou por fora, ou então que estou inventando. Mas o novo veio, gente... e eu comprei manias dos nossos pais. Vocês também ainda são os mesmos?

Fla Wonka às 07:51 PM


Imagem é tudo

Costumamos não perceber, mas vivemos num mundo onde tudo é comprável. Ou pelo menos é o que querem que a gente acredite. O melhor de tudo é que querem fazer a gente achar que realmente precisa daquele fantástico produto que pica cebolas mais depressa que um chef de cozinha, ou daquele sofá-cama inflável que não estoura nem com dois caminhões passando por cima.

O esquema dessas propagandas é basicamente o mesmo. São como aqueles planos rabiscados pelo Cheiroso a fim de botar o Pai dentro de casa no desenho do Pica-Pau: parecem bons, mas no fim revelam-se uns desastres.

Pensa bem. Aparentemente, não há nada melhor para vender seu peixe do que expor a) a necessidade do seu produto, b) clientes falando do seu produto, c) um especialista testemunhando a favor do seu produto, d) testes que provam quão resistente é seu produto. Soa razoável e sensato costurar todos esses itens num comercial – ou reclame, como diria minha avó.

Mas o resultado é catastrófico. Ou hilariante, depende do ponto de vista. Fico com esse último. Isso porque choro de rir ao ver as propagandas de um estranhíssimo sutiã que deixa você com os peitos da Barbie, sem mamilos e com aparência plástica. Ou da cama inflável que mostra, a certa altura do anúncio, um urso – isso mesmo, um urso – sobre a peça, para provar que a tal cama é muito resistente.

Claro que, até chegar ao urso – que é a prova de resistência –, já passamos primeiro pelas cenas que mostram:

a) gente sendo atacada por simples camas de armar ou cidadãos dormindo sobre edredons dobrados e fazendo caretas de desconforto
Essa é a maneira sutil e bizarra de nos dizerem: “ei, você vive que nem um lixo com essas camas de armar, né? Compre nosso produto que sua vida vai mudar!”.

b) os novos proprietários da sensacional cama inflável declarando que nunca suas vidas foram tão boas como depois da compra
Frases mal-dubladas, como “er... sim... nós sempre tínhamos problemas com os amigos que apareciam aqui e acabavam dormindo no sofá, sabe como é, né?”. Não, não sei. Não tenho amigos assim. Eu sei quando eles vêm dormir na minha casa.

c) um cara de avental branco falando do exclusivo sistema de solda ou qualquer outra coisa que compõe a cama
Basta ter um avental branco e pronto: você está habilitado a garantir a qualidade do produto. Na falta de alguém de avental, pode-se usar gráficos ou esquemas, com flechinhas simbolizando a pressão sobre o colchão, que permanece intacto. Claro! São flechas virtuais! Não tem nada ali de fato!

d) finalmente, o urso.
Sinceramente, se tiver um urso em cima da minha cama, o menor dos meus problemas seria a dita-cuja estourar.

Viram? Todas as fases descritas lá em cima se repetem aqui. Claro que essas propagandas porcas e hilárias são importadas dos Estados Unidos. O mundo todo parece estar com raiva dos tiozões do norte, mas eu tenho de admitir que eles me divertem à vera, especialmente com essas pérolas do reclame e com essa mania de comprar tudo.

Os aparelhos de ginástica passiva, anunciados também através dessas propagandas infames, são para mim a síntese do espírito norte-americano. Ninguém parece estar a fim de mexer o corpanzil pela saúde, para gastar energia, para ter mais disposição – os objetivos do exercício físico, afinal, são esses, certo?

Mas o que eles querem é uma ginástica sem esforço, para modelar a barriga adquirida com os saudabilíssimos hábitos alimentares locais. Mínimo de esforço, máximo da aparência; se me embalarem isso, estou comprando! E como estão.

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Assim já é demais
* * * * * *

Não priemos cânico!

Flá foi ali e já vem. Na verdade, a morena vai trocar de lugar comigo só hoje. Para não criar limo, sabe? Mais tarde, voltamos com nossa programação normal – e ela publicará seu texto sempre ótimo aqui.

Clara McFly às 02:08 PM


Renegados e rejeitados

Quando eu era pequena, ganhei de presente um livro infantil intitulado “O Lápis Branco”. Contava a triste saga do pobrezinho personagem central, o menos amado das caixas de lápis de cor. Enquanto Lápis Azul era usado para fazer céus e Lápis Vermelho dava o tom para flores, Lápis Branco permanecia esquecido e ignorado. Ele não tinha atrativos, muito menos forças para lutar contra os companheiros coloridos e cheios de carisma. Pois não é que me peguei pensando na existência de diversos Lápis Brancos na música pop? “Essa ruiva endoidou”, você deve estar dizendo em voz alta... Não, leitor. Minha teoria faz sentido.

A verdade é que toda boy-band possui seu próprio Lápis Branco. Parece que a fórmula dos grupelhos de rapazes ordena a presença de um integrante fadado ao fracasso. Aquele membro que não tem rosto de modelo, não canta, não sabe dançar e não faz tanto sucesso com as fãs como os comparsas. Normalmente, ele também não aparece em programas, nem estampa capas de revistas especializadas. Aliás, aposto que muita gente já se esqueceu de seus rostos quase-anônimos e não reconheceria suas feições mesmo se trombasse com eles pela rua.

Tudo bem que existe o outro lado: afinal, os rejeitados podem engordar a conta bancária vivendo à sombra dos companheiros de banda, mais talentosos e mais simpáticos. Eles ganham fama por osmose e não devem ser muito ambiciosos para aceitar a posição de apenas backing-vocal nos maiores sucessos do disco. Se souberem fazer um pé-de-meia direitinho, saem é no lucro. Ou será que, além de feiosos, eles também não são lá muito espertos? Tire suas conclusões:

Ricky Melendez, ou A Versão Masculina de “Betty, A Feia”
O “cantor” era um tapado de carteirinha. Apesar de ter ficado anos e anos no Menudo, foi trocado por Ricky Martin em 1984, quando o grupo estava no auge do sucesso. Nem conseguiu sentir o gostinho do frisson que foi o show no Brasil. As únicas provas da existência do rapaz de cabelos encaracolados, olhar de aparvalhado e aparelho nos dentes são capas de discos como o LP “Mania” – aquele mesmo das pranchas de surf e de pérolas como “Não se Reprima” e “Doces Beijos”.

Danny Wood, ou Aquele-que-não-abria-a-boca-ainda-bem
No New Kids on the Block, as coisas eram bem delimitadas: Jordan era o frutinha; Joe era o cara de bebê; Donnie era o bad boy; John era o rapaz direito; Danny era o... Nossa, o que era o Danny? Até hoje não sei. Como se não bastasse o rosto de caveira, ele ainda usava uma trancinha fina que saía da nuca e tinha a manha de escolher os piores trajes em um guarda-roupa já maltratado pelo mau gosto do final dos anos 80. Dizem que o moçoilo era coreógrafo do grupo. Pra você sentir o drama!

Howie D, ou Ricky Martin Depois da SARS
O problema não é apenas ser o membro rejeitado do Backstreet Boys. O problema é ser o membro rejeitado de um grupo que conta com alguém como o AJ, um rapaz que usa camiseta baby-look, pinta as unhas de preto, usa cavanhaque e acha que é moderno. Tem que ser loser elevado à terceira potência, e Howie D o é com louvor. Apesar do nome e sobrenome irlandeses, aquela carinha de latino não nega as raízes fincadas em Porto Rico, mesma terra de Ricky Melendez (repare a coincidência).

Jhean Couto, ou Pura Maldade da Vivi, Essa Megera
E eis que surge a mais nova boy-band nacional. E se o Br’oz fizer jus à tradição como eu acredito que faça, com certeza possui um membro menos bam-bam-bam do que os outros. Vou ser sincera: nunca os vi em ação, não conheço uma música sequer e nem sei quem canta ou quem só faz figuração e volume para encher o palco do programa do Raul Gil. Só de olhar a foto dos rapazes, vou tentar apontar quem é o elemento sofredor, ok? Vejamos... Minhas fichas vão todas para o Jhean! Será que acertei?

Chris Kirkpatrick, ou E Eu, Uma Pedra
O quinto moço do N’Sync conseguiu um feito inédito até agora: foi sumariamente esquecido inclusive da chamada do especial que o E! Entertainment Television fez sobre o grupo. Precisa ser muito renegado, não? Mas Chris conhece os macetes. Enquanto Justin e JC se lançam em carreira solo, Joey faz cinema e Lance tenta ir para o espaço, o coitado vai caindo no buraco negro do esquecimento. A escalação dele tem muita cara de “Opa, falta um? Posso chamar meu amigo que não pega ninguém?”.

Marcos Quintela, ou Quê? Tinha outro no Dominó?
O Dominó era formado por apenas quatro integrantes: Affonso e Nil costumavam dividir os microfones de hits como “Manequim” e “Companheiro”. O terceiro, Marcelo, fazia sucesso com as meninas porque tinha cara de galã de novela do SBT. Já Marcos, pra variar, não apitava nada. Era o famoso não-fede-nem-cheira. Até Gugu, aquele que fizera os testes para o grupo empresariado pela Promoart (pense o que quiser) costumava ignorar o estrupício no palco do “Viva A Noite”. Vida dura.

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Até da foto o mané foi cortado!

Imagem original emprestada do sítio Infância 80.

Vivi Griswold às 10:08 AM

segunda-feira, 25 de outubro de 2004

Desliga esse telefone, pelamordedeus

Ou Quando “Não, obrigada” não é o suficiente

- Boa tarde. Por favor, o senhor Douglas?

- Ele não está.

- Há mais alguém na casa que responda pela linha telefônica?

- Tem, eu.

- A senhora é...

- Mulher dele. Clarissa.

- Ah, sim! Dona Clarissa, aqui é Fulana, da Telefônica Quinze. Nós estamos entrando em contato para apresentar o novo serviço, bloqueador de celulares...

- Hum. (Porque será que eles sempre se apresentam como “Fulano de Tal, da Telefonica Quinze”? Eu sei o número da empresa. Ou eles pensam que depois de ver qualquer propaganda com aquele super-herói bizarro eu vou esquecer disso?).

- ... porque sua conta deve vir pesada devido às ligações para celulares, certo?

- Hum. (Por que diabos a mesma empresa que cobra tarifas escorchantes oferece um serviço para bloquear chamadas – pelas quais eles recebem lucros... bem, escorchantes?)

- E esse novo serviço permite programar seu aparelho para não fazer chamadas para celulares...

- Hum. (E se o rato voltar e eu tiver que ligar para o Douglas no celular?)

- ... e assim você vai economizar muito mais na sua conta...

- Hum. (Chega. Tenho de me livrar dessa mulher) Er... Olha, Fulana, essas coisas aí é meu marido quem decide, viu? Eu não resolvo esses assuntos não. Ele é quem quer. Ele é o homem. Eu sou apenas uma mulher. (Acho que ela não pegou a referência ao Caetano).

- Mas quantas pessoas tem na sua casa?

- Por que você está perguntando isso?

- Porque seria muito vantajoso para a senhora obter esse controle das ligações...

- Olha, eu não quero ter o controle das ligações. Somos só eu e meu marido aqui. E nós mal ligamos para outras pessoas. Não temos amigos. Somos muito sozinhos, sabe? Aliás, eu tava mesmo precisando falar com alguém... Tudo começou quando eu tinha cinco anos e decidi ser bailarina. Eu fazia aulas e tudo, precisava ver meu pas de deux! Era meu sonho dançar no Municipal. Mas meu castelo de areia ruiu quando...

- Senhora? Senhora Clarissa? Eu posso ligar outra hora e...

- ... eu fui atravessar a rua numa manhã de verão, distraída com o vôo das borboletas. E um menino, montado numa Monark BMX, me atropelou. Era o fim. Eu quebrei o dedinho do pé! E o que é uma bailarina sem o dedinho do pé, dona Fulana? ME DIZ O QUE É UMA BAILARINA SEM O DEDINHO DO PÉ?!

- Olha, senhora, eu volto a telefonar...

- NÃO, POR FAVOR! Não me deixe aqui sozinha! Fulana, eu vou ligar o botão do gás. Você tem que conversar comigo. Você é tudo que eu tenho agora! Quer saber? Acho que foi Deus que fez você me ligar, não as metas que vocês têm que bater...

Tuu, tuu, tuu, tuu...


Clara McFly às 05:51 PM


Para nos pegar

Publicitários são gente muito, muito manhosa. Malandros, isso sim! Lá na faculdade eles devem aprender três coisas básicas: usar óculos os mais esquisitos e gel de tonelada; como criar “conceitos”, mesmo que eles não façam sentido para os demais humanos; raptar a atenção do público usando artimanhas perfeitas. Sim, porque certas propagandas são armadilhas prontas para cada fatia da população.

Imagino que a trama consista em apanhar o público pelos pontos fracos. Se velhinhos se encantam sendo chamados de “vovô”, o comercial do plano de aposentadoria irá prever um moleque bem bonitinho dizendo a palavra mágica. É uma tática tão antiga quanto vendedora.

O bom é que não sou tão bobinha e já saquei tudo! Todos nos encaixamos em algum estereótipo – e assim, em grupo, somos facilmente dominados. Preste atenção no próximo intervalo comercial.

Para amantes da birita
Propaganda de cerveja tem sempre atores globais ou as indefectíveis loiras geladas. Mas se a bebida for mais encorpada, é o caso dos marqueteiros montarem festas fictícias onde todos são lindos e modernos. E dançam em câmera lenta enquanto seguram o copo de álcool cheio de gelo. E não ficam de porre, com cara de quem comeu jornal, mesmo bebendo Campari... Gozado, não?

Para fumantes
Se quer prender a atenção dos adeptos de fumacê, o jeito é apelar aos esportes radicais! Não sei quem começou a onda, mas colou. Chaminés adoram se ver no comercial como heróis sarados que pegam onda, esquiam nos Alpes, fazem rali, escalam pedronas. Todas as coisas que fumantes nunca terão fôlego pra fazer, sabe? Vejo muitos deles arfando para subir dois lances de escada. Mas como depois são retratados na tela como ases da emoção, caem direitinho.

Para crianças
O que todo petiz adora? Brinquedo. O que todo petiz adoraria ver de verdade? Brinquedos se mexendo como na propaganda! Então, no comercial, é assim: toca musiquinha de fundo e as bonecas pedalam, jogam bola, cozinham. Os robôs conversam como gente, os G.I.Joe atiram pra valer e até os ursos de pelúcia brincam (em vez de ficar expostos como bichos abatidos em caçada). Depois aparece um aviso de “os brinquedos são apresentados de modo lúdico – pilhas não inclusas”. E a molecada quer saber disso?

Para homens
Gente da propaganda sabe: se for loira, gostosa e usar um biquíni, faz o cidadão comprar até conserva de parafuso. Então dá-lhe garota aparecendo em intervalo ofertando cerveja, bebida, eletrônicos. As feministas podem chiar, mas que dá certo, é certo. O bom é que pode-se contratar qualquer mocinha muda, porque elas só tem mesmo a função de ficar calada e deixar os sujeitos em transe. Vai ver é por isso que homem compra tanto conjunto de ferramenta e não usa depois.

Para mulheres
Quer ver uma moça adquirir saquinho de areia no Saara e pagando caro? Ponha bebês peladinhos para segurar o produto. Comerciais com crianças de colo apanham qualquer uma – e pode-se ouvir os muxoxos de “óóó, que lindo!” há quarteirões de distância. Aliás, também funciona com filhotes de qualquer bicho. Anunciando cremes, panelas, carros ou roupas, captura-se atenção feminina até com bebês de lagarto albino. Se mostrar pezinhos ou a soneca, mais fácil ainda pegar a consumidora. São sabidos esses publicitários de óculos estranhos...

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Moça, quer comprar uma AR-15?
Fla Wonka às 02:49 PM


A sorte chega em tirinhas

Em janeiro deste ano, a Caixa Econômica Federal resolveu investigar 15 ganhadores do concurso 529 da Mega Sena. Todos eles moravam na mesma região do Nordeste e acertaram as seis dezenas com cartelas distintas. Descobriu-se que os felizardos tinham copiado a seqüência vencedora de mensagens encontradas em biscoitos da sorte de uma rede de comida chinesa. Cada um levou 350 mil reais.

A fábrica de biscoitos, propriedade da tal rede nordestina, já colocou no mercado cerca de 29 milhões de unidades desde 1996, com combinações numéricas aleatórias. O irônico é que, segundo o estimado, 170 mil pessoas receberam a mesma seqüência vencedora da Mega Sena – mas apenas 15 acreditaram nela. Em uma tirinha mostrada para a Caixa, a frase “Este será o último ano em que terá alguma agrura financeira” era mais uma faceta dessa história incrível.

Eu dificilmente estaria no grupo vencedor porque não ligo para os números do verso da mensagem. E também porque nunca aposto em concursos desta natureza. Apesar disso, me incluo orgulhosamente na parcela da população mundial que adora receber os biscoitos da sorte e que é pega tentando encontrar alguma conexão entre a frase impressa e o seu dia-a-dia. Sem contar que eu sou louca por aquela massa crocante tão misteriosa e histórica.

Diz a lenda que o famoso quitute nasceu durante a luta da China para conter a persistente invasão dos mongóis, lá pelo século XII. Sentindo que o inimigo estava enfraquecido depois das inúmeras batalhas, o exército chinês preparou uma solução simples e genial para transmitir a estratégia de ataque aos soldados espalhados pelo imenso território do país: colocar os planos dentro de bolos.

Parece que deu certo. Os mongóis foram expulsos, os chineses retomaram o poder e a dinastia Ming começou a reinar com todo o seu esplendor. Para celebrar a supremacia do povo e relembrar o plano inteligente, biscoitos com mensagens positivas e de incentivo passaram a ser confeccionados anualmente, tornando-se parte da cultura do país.

As unidades modernas, apesar de seguirem a tradição, estão tão longe dos exemplares históricos quanto a Grande Muralha está de Copacabana. Hoje em dia os biscoitos que você recebe quando liga para o delivery da esquina são provenientes de uma máquina criada por um coreano nos Estados Unidos. Ou seja, não há chinês algum no meio do sucesso da Fortune Cook Machine, nome comercial da geringonça vendida para os quatro cantos do mundo.

Mensagens como “A graciosidade é necessária a toda união para que esta se realize de forma agradável e não caótica” podem até parecer terem sido criadas por um mestre oriental sábio e severo como o Pai Mei, de “Kill Bill 2” – mas na verdade são traduções mal-feitas de frases sem sentido até no idioma original. É mais ou menos como horóscopo diário: atira-se para todo o lado; se acertar em alguém, melhor.

Desnecessário dizer, portanto, que a sorte não está dentro do biscoito, e sim na predisposição de quem lê a tirinha de papel. Do meu lado, posso afirmar que continuarei botando fé nas mensagens, mesmo com todas as ressalvas. Algum dia vou estar no grupo dos 15 vencedores cheios da grana, rindo dos outros 169.985 incrédulos perdedores? Só o tempo dirá.

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Por favor, eu queria uma porção
de frango agridoce pra viagem
Vivi Griswold às 10:27 AM

sexta-feira, 22 de outubro de 2004

Três caras e uma porção de títulos

Eu já gostei muito de Legião Urbana. Mas muito mesmo. Acho que é uma das bandas de que mais tive álbuns – como não sou muito de comprar os disquinhos furados no meio, contava três deles em minhas posses: o primeiro, o Dois e o As Quatro Estações. Hoje, restou na CDteca apenas o inaugural, intitulado mui criativamente Legião Urbana (eu já mencionei que meus discos e livros somem e aparecem outros no lugar? Não? Então).

Depois que saí da adolescência, esse meu gosto pelos três (outrora quatro) rapazes de Brasília passou um pouco. Ainda gosto de um punhado de músicas e tenho muito respeito pela banda, mas as canções que entoei feito hinos simplesmente não têm mais tanto apelo para mim. É um troço pessoal e intransferível, fazer o quê?

Mesmo assim, qualquer pessoa na minha idade (pouco mais ou pouco menos que isso também) acompanhou a carreira dos caras in loco. Vimos os álbuns saírem e estourarem, um a um, nas rádios. Depois que Renatão se foi dessa pruma melhor, continuamos vendo os álbuns saírem – o que me leva a crer que Elvis morreu, sim, mas Renato Russo não. Tá vivinho da silva, numa ilha do Pacífico, compondo junto com o Tupac Shakur – outro campeão dos lançamentos póstumos.

Enfim. Gostando ou não do Legião, é impossível passar incólume a eles. Os caras tiveram uma carreira variada, se transformaram no decorrer do período (o próprio Renato comentava que ninguém esperava, de uma banda punk de Brasília, uma balada de violão e pandeiro narrando uma história de amor no segundo disco) e entraram para a história, com merecimento.

Porém, podiam ter entrado para a história por outra razão: os títulos nada-a-ver-com-o-resto que ilustravam as faixas da banda. Eu sei que Renato era uma criatura de sensibilidade exacerbada – boa parte da graça das letras se deve a isso – mas daí a arrumar os nomes que eles arrumavam para as canções já é demais.

Tudo bem que ninguém precisa batizar as composições com um trecho do primeiro verso ou do refrão. Seria bem mais fácil associar? Seria, não vou mentir para você. Mas um pouco de subjetividade e brincadeira sempre fazem bem. No entanto, os legionários transcendiam – e muito. Até hoje, não entendi bem porque...

Daniel na Cova dos Leões se chama assim
Álbum: Dois
Primeiros versos: “Aquele gosto amargo do seu corpo/ Ficou na minha boca por mais tempo”
Daniel foi um personagem bíblico que foi lançado numa cova de... bem, leões. E passou a noite lá. Mas sua fé no Senhor o salvou de virar jantar dos felinos. O que isso tem a ver com a letra? Sei lá. Vai ver ambas são uma história de fé e esperança. Mas eu acabei de inventar essa conexão. Ou há mais segredos guardados aí do que sonha nossa vã capacidade interpretativa.

Eu Era um Lobisomem Juvenil se chama assim
Álbum: As Quatro Estações
Primeiros versos: “Luz e sentido e palavra/ Palavra é o que o coração não pensa”
Mais conhecida como “Ontem Faltou Água, Anteontem Faltou Luz”. Mal tem refrão – como a maioria das músicas do disco, e mesmo assim todas viraram hits. Não dá nem para imaginar o que um lobisomem, ainda mais juvenil, tem a ver com a história toda. O único lobisomem juvenil que eu conheço é Michael J. Fox no “Garoto do Futuro”. Talvez a chave de tudo esteja aí. Mas eu cansei de procurar.

Sete Cidades se chama assim
Álbum: As Quatro Estações
Primeiros versos: “Já me acostumei com a tua voz/ Com teu rosto e teu olhar”
Minha sugestão de título para essa peça seria “Quando Não Estás Aqui”. É, eu sei, meio óbvia. Mas quantos leram o nome e já sacaram que canção era? Sete Cidades é um parque no Piauí onde o vento construiu esculturas. Onde está a relação das pedras desenhadas pela ação eólica com a música? Mais uma vez, confesso minha ignorância. Talvez ele compôs os versos por lá...

O Teatro dos Vampiros se chama assim
Álbum: V
Primeiros versos: “Sempre precisei de um pouco de atenção/ Acho que não sei quem sou, só sei do que não gosto”
Eu só sei que também não gosto dessa música – desde que ela foi lançada. Mas isso não importa. O que importa é que, segundo o filme “Entrevista com o Vampiro”, a expressão designava sanguessugas que fingiam não ser sanguessugas, fingindo ser sanguessugas. É uma espécie de blefe duplo, manja? E acho que fomos blefados nessa também.

A Via Láctea se chama assim
Álbum: A Tempestade ou O Livro dos Dias
Primeiros versos: “Quando tudo está perdido/ Sempre existe um caminho”
Foi uma das últimas composições de Renato e não esconde a depressão ampla, geral e irrestrita. Triste pra diabo, é de cortar o coração – especialmente no trecho “não me dê atenção, mas obrigado por pensar em mim”. Sempre associei a Via Láctea com o infinito, o brilho, a beleza. Acho que ele não. Vai ver ele já sabia que estava indo para lá.

* * * * * *

Hoje, só amanhã!

Não vai ter Legião, mas vai ter todos aqueles temas inesquecíveis de filmes oitentistas. “The Goonies R Good Enough”? Tá lá. “Power of Love” também, assim como “The Eye of the Tiger”. Quer dançar e cantar ao som dessas pérolas?

Então chega chegando no Darta Jones amanhã, sábado 23. Nós, garotas que dizem ni, esperamos os leitores que também o fazem para se divertir – e vamos dominar o som, tomando as picapes de assalto! É isso aí: vamos brincar de DJs convidadas mais uma vez, na Festa Autobahn. Quer saber como e onde? Clica aqui – e esteja lá!


Clara McFly às 06:38 PM


Lá onde os sinos dobram

Nos dias atuais, só apareço em igreja para casamento. Batizado é chato que dói e missa de sétimo dia dá calafrios. Não tenho problema com templos de qualquer natureza, mas confesso preferir muito mais sentar na escadaria e tomar sorvete do que adentrar o recinto. Tenho lembranças infantis de igreja. Não são traumas, mas até hoje recordo os dias de missa com um certo incômodo. Vai ver, foi culpa do banco duro.

Quando bem pequenininha, era levada na igreja só em dias comemorativos. Casório de primos, por exemplo. Lembro de babar olhando o vestido da noiva – porque era rodado, mas sempre pensei que tons de roxo ou rosa ficariam bem melhor que aquele branco cândido. Lembro também de ignorar sumariamente o falatório do padre e passar todo o tempo olhando pro teto, tentando entender quem era aquela gente sentada em nuvens e com folhas e lenços cobrindo as vergonhas. Por que não usavam logo um confortável pijama, oras?

Mais crescida, igreja passou a virar um lugar pra lá de aborrecido. Era obrigada a sentar direito, por exemplo, e não podia mais ficar de pé no banco ou naquele apoio dos joelhos – que, pra mim, sempre foi um apoio de pés, nunca de joelhos. Diziam que era pecado se comportar mal em igreja. Há! Meus primos bebês podiam se esgoelar e tudo bem? Sei.

O palavrório bíblico parecia levar 108 bilhões de anos pra acabar e as músicas tinham mais jeito de chororô do que de comemoração pelas graças alcançadas. Repetir as orações, então, era um drama. Como aquela gente decorava o discurso todo, mistério.

E lá seguia eu, de pé, cansada por causa dos sapatos de fivela, tentando falar na hora certa o “Rosana nas alturas”. “Hosana” não fazia o mínimo sentido, então acreditava que estavam invocando alguma santa chamada Rosana. E ainda tinha a parte do “cordeiro de deus que... jhhdf hdsydy tundo... tende piedade de nós”. Repetia aquilo como quem canta em inglês sem saber a letra.

Mas a pior parte, sem sombra de dúvida, era a hora da “paz de Cristo”. Eu lá, caçando imagens com os olhos nas paredes e criando historinhas muito próprias quando, de repente, todo mundo disparava a cumprimentar os vizinhos de banco!

Bicho do mato desde o nascimento, detestava o momento em que desconhecidos sorriam, pegavam nas minhas mãos de modo muito suado e diziam “paz de Cristo”. Ficava sem graça, sei lá... Pensava assim: “por que dentro do ônibus todos se ignoram e me empurram contra as pernas da mamãe e aqui, na igreja, parecem família?”. Eram estranhos do mesmo jeito.

O bode católico só cresceu com o tempo. Aos 9 anos, me mandaram fazer Primeira Comunhão, como já contei aqui. Jesus é que foi feliz, eu pensava. O que foram 12 horas de agonia enquanto o MEU martírio levou dois anos pra acabar!? E ainda tinha a tortura máxima: uma vez formada como cristã adolescente, eu precisaria receber a hóstia toda vez que visitasse uma igreja.

Não tinha coisa mais embaraçosa pra mim. O grupo de jovens cantando “o senhor tem muitos filhos muitos filhos ele tem” e eu lá, numa fila imensa, tentando lembrar se a mão direita ficava sobre a esquerda ou vice-versa. Devia pegar a hóstia com a mão? O padre colocaria na minha boca? Droga, droga, que agonia! Comecei a considerar ir pro inferno, onde balas Soft deviam ser servidas no lugar do tal pedacinho de pão-isopor-católico.

Sem falar que, mais velha, já entendia muito bem as representações aplicadas em teto e parede de igreja. Eram manifestações muito angelicais de carneiros lancetados, homens com coroas de espinho e mulheres apedrejadas. Coisa linda de se ver e ótima para elevar o espírito, não? Dessa época em diante, fugi de igreja como o diabo foge... da igreja.

Mas depois de ler a bíblia todinha e conhecer melhor a história dos fatos, já não fico chocada de colocar os pés ali. Quando viajo, costumo entrar em algumas delas com o maior respeito, em silêncio e me aboletar num banco do fundão para observar o lugar – sempre repleto de obras de arte que dizem muito sobre os tempos passados. O clima é sempre outro, me parece, bem distinto da balbúrdia que segue nas ruas.

Se tiver jeito, até acendo uma velinha e coloco junto às demais. Mas sem fazer pedido, porque deus deve ter muita gente mais desesperada e em dificuldades pra ajudar. Eu me garanto refletindo sobre os acontecimentos enquanto tomo um belo sorvete sentada na escadaria lá de fora. Todo ser é uma igreja nessa vida.

* * * * * *

Peça ao papai do céu pra ir!

Nem quermesse de igreja é mais divertida do que festa do Garotas! E não é que amanhã, 23/10, tem uma? Estaremos no templo Darta Jones comandando as pick-ups do Senhor e contamos com a presença de todos. As músicas que marcaram filmes dos anos 80 serão nosso tema. Amém? Amém!

Fla Wonka às 02:35 PM


Criança não tem vez no "Era uma vez"

Passei a infância ouvindo mamãe contar histórias antes da hora do sono, diariamente. Sagas repletas de princesas, monstros, bruxas e príncipes em cavalos brancos enchiam meu quarto e minha imaginação. Não importava se era a quadragésima sexta vez em que Cinderela ouvia as doze badaladas noturnas – eu escutava com a mesma atenção, fingindo não saber que tudo dava certo no final. Contos de fadas sempre me encantaram, e mesmo crescida continuo atraída por eles.

Com a idade, porém, a gente passa a encarar as coisas ao redor com um olhar mais crítico. E isso aconteceu com as historinhas também. Recentemente, folheando um livro dos geniais irmãos Grimm, percebi o quanto não-inocente podem ser tais narrativas. Apesar de voltadas para o público infantil, as crianças dentro dos contos só se ferram: não possuem voz ativa, correm perigo, padecem na mão das mais terríveis madrastas e chegam até a servir de escambo por hortaliças.

É o que acontece, por exemplo, no clássico "Rapunzel". Um senhor, cuja mulher grávida está com desejo de comer alcachofra (ou rabanete, dependendo da versão), acaba invadindo o quintal da bruxa para roubar o artigo, pois ele era muito pobre e não podia se dar ao luxo de gastar dinheiro a cada capricho da esposa. O cara foi burro o suficiente de cometer o delito na residência mais perigosa do reino, mas quem pagou o pato foi seu bebê – para não perder a vida e levar a alcachofra, ele prometeu entregá-lo à feiticeira. A criança ia sofrer enclausurada em uma torre nos próximos 20 anos? Hmm... beleza!

Em "Rumpelstiltskin", um dos meus contos favoritos, o camponês que falava demais disse ao rei que sua filha conseguia fiar de tal maneira na roca que transformava palha em ouro. O rei, intrigado, pediu a ele levar a garota – se ela provasse o feito, poderia se casar com o príncipe. A moça, no meio da arapuca, fez um pacto com um homenzinho estranho. Caso ele a ajudasse – adivinha? – ela lhe entregaria seu primeiro filho! Depois achou ruim quando o duende voltou para pegar o que era dele de direito... Esse povo não pensa antes não?

O personagem de "João e o Pé de Feijão", enviado para trocar uma vaca, único bem de sua pobre família, por dinheiro ou alimento, acabou sendo ludibriado. Uma alma sem-coração pegou o animal e entregou a João um punhado de feijões, insuficiente para o jantar. Tudo bem que os grãos revelaram-se mágicos e que, no final, o menino conseguiu roubar a galinha dos ovos de ouro, mas... Quem engana uma criança faminta dessa maneira?

Crueldade parecida sofre Branca de Neve. Com a mãe morta desde que a protagonista era bebê, Branca vive horrores nas mãos da madrasta. A malvada chega, inclusive, a ordenar que um caçador leve a garota para a floresta e lhe arranque o coração! E a coitada da Bela Adormecida, que recebeu uma maldição eterna só porque a bruxa não fora chamada para o seu batizado? Por que a furiosa feiticeira não descontou na promoter que fez a lista de convidados?

Nenhuma criança, porém, foi tão maltratada quanto os irmãos João e Maria. Seus pais, desempregados, só conseguiam levar pão velho para casa. Em vez de lutar pela família, eles resolvem abandonar os rebentos na floresta! Assim, sem mais nem menos. Se os bichos os comessem, bem, seriam duas bocas a menos na casa, certo? Mas João e Maria sobreviveram à noite fria e encontraram uma casa feita de doces! Finalmente estariam salvos?

Nãããão... A casa feita de doces era da bruxa, que trancafiou os dois e os colocou em um regime de engorda para... comê-los! Todos os dias, a megera pedia para João mostrar-lhe o dedo mindinho, para ela ver se o menino estava ganhando peso, como um leitãozinho. Tortura psicológica? Imagine!

Quando finalmente é chegada a hora de dizer a máxima "... e eles foram felizes para sempre", eu penso: ninguém merece isso mais do que as crianças dos contos de fadas. Somente elas sabem o quanto custou!

Para ler todas as histórias dos irmãos Grimm, clique aqui! (Em inglês)

Vivi Griswold às 10:04 AM

quinta-feira, 21 de outubro de 2004

Pega pra capar!

No córner esquerdo, com pouca telha e trajando um esquisito vestido preto, um velhote obcecado por pessoinhas azuis; no córner direito, pesando 90 quilos de puro músculo (apesar de ser uma caveira), a criatura de estridente risada maléfica. Senhoras e senhores, preparem-se para o embate entre os grandes vilões dos desenhos!

Primeiro round: Gargamel x Esqueleto
O cientista que perseguia os “Smurfs”, sabe lá Deus para fazer o que, criou a Smurfete – o que leva à velha pergunta jamais respondida: por que ele não fazia um monte de azuizinhos e parava de encher o saco da trupe comandada pelo Papai Smurf? Ah, sim. Porque senão não tinha desenho.

Já o vilão do “He-Man”, embora assessorado por um grupo de cretinos que mais atrapalhavam que ajudavam, queria porque queria se apossar do Castelo de Greyskull. Será que ele era comunista e considerava a propriedade terra improdutiva? E como ele podia ser tão musculoso se era uma caveira?

Resultado: E o vencedor é... Esqueleto! Ainda se o embate fosse entre as vozes mais irritantes dos desenhos, podia dar empate.

garga e esqueleto.JPG

Segundo round: Dick Vigarista x Puxa-Frangos
Sempre achei que, para vencer a “Corrida Maluca”, seria bem mais fácil simplesmente correr, em vez de trocar todas as placas da estrada, serrar os pilares das pontes ou ficar espalhando graxa pela pista. Dick discorda – sempre ao lado do fiel (e hilário) Mutley.

O robô Puxa-Frangos foi um dos poucos a vencer o “Pica-Pau”. Aquele passarinho maldito não perdia uma, pô! Exceto quando procurou abrigo da vindoura tempestade num castelo estranho e topou a lataria que era programada para arrancar penas de aves (?!).

Resultado: E o vencedor é... Puxa-Frangos! Aposto que a máquina ia arrancar os bigodes do Dick fio a fio, enquanto o energúmeno do Mutley ficaria rindo, como sempre.

dick e puxa.JPG

Terceiro round: Vingador x Mumm-Ra
Agora sim, dá jogo! Ambos os vilões são po-de-ro-sís-si-mos (Mumm-Ra, inclusive, em mais de um sentido. Aquelas maneiras afetadas nunca me enganaram). O malvadão de “Caverna do Dragão” me dava medo, com aquela cara branca e aquela determinação em impedir as crianças de voltar para casa. E o dragão dele, o Tiamat? Medo.

Embora pareça gostar de filmes de gladiador, Mumm-Ra, dos “Thundercats”, fica muito macho quando conclama os espíritos a transformar aquela “forma decadente” num saradão cujo epíteto é “o ser eterno”. Só não sei porque ele não ficava direto em versão musculosa. Vai ver dava trabalho.

Resultado: E o vencedor é... Vingador. Embora sua pontaria com os raios fosse horrível, aposto que ele bateria na múmia aficcionada pelo Lion. Será?

vingador e mummra.JPG

Clara McFly às 07:33 PM


Celebridades em órbita

Pensa que só os mortais levam chutes no traseiro e ficam chorando sobre pilhas de fotos, agarrados a um bom copo de gin-tônica e gritando “Por quê, por quê??”? Nada disso. Gente famosa também atravessa amargos pesadelos de rompimento amoroso. Nem sempre eu entendo o motivo da substituição de caras-metades. Parece aquela brincadeira do Seo Silvio, quando a molecada trocava uma bicicleta Caloi lindona por uma chupeta de plástico roxa.

Às vezes o rito de passagem nem acontece assim, de um par de braços direto para outro. Primeiro eles se separam, depois acham outra parceria. Mesmo assim, fica incoerente. Winona Rider dispensou Johnny Depp sem mais explicações para depois namorar um bando de picolés de xuxu e roqueiros desgrenhados. E olha que o moço já tinha até cometido a atrocidade de tatuar “Winona Forever” no braço. Tsc, tsc... Roubar loja chique não é nada perto desse crime.

Claro, tem quem faça “upgrades”. Mesmo assim, o que marca são os “downsizes”. Onde estes aí estavam com a cabeça? Hein?

Trocar Nicole Kidman por Penelope Cruz?
Tom Cruise deve aprender coisas estranhas na Cientologia. Tudo bem, Nicole é meio econômica com as palavras e faz gênero demais como moça recatada. Mas daí a largar da exuberante intérprete de Satine (“Moulin Rouge”) para ficar com a ratinha?

Trocar Dennis Quaid por Russel Crowe?
Podem atirar latinhas, eu nem ligo. Crowe tem o estilo sedutor de antigamente, mas com aquele gênio abominável, dá medo. Já Meg Ryan não pensou nisso, e nas filmagens de “Prova de Vida”, largou o marido angelical pelo brutamontes. Ela deve gostar de filmes de gladiador...

Trocar Michael Vartan por Ben Affleck?
Essa é recente. Jennifer Garner, a voluptuosa protagonista da série “Alias”, achou por bem encostar o doce e elegante Mike pelo teco de isopor já traçado por outra Jennifer, a Lopez. Affleck só pode ser perito em hipnose. Ou magia negra mesmo.

Trocar Melissa Mathison por Lara Flynn Boyle?
O autor da presepada foi o senhor Harrison Ford. De tanto escapar de arapucas nazistas e fugir de nativos encarnando Indiana Jones, Harry podia ter aprendido alguma coisa. Sua esposa de longa data foi a roteirista de “E.T.”, pelamordedeus! Substitui-la por uma moça que vai a festas vestida de bailarina destemperada não dá.

Trocar Mariah Carey por Talia?
O presidente da gravadora Sony, Tommy Motola, fez charme para cima da gritalhona Mariah e garfou a mocinha. Fizeram casamento esbanjador com direito a vestido bufante e clarins. Daí ele cansou e desquitou – para, tempos depois, repetir o processo exato com a mexicana Talia (a Maria do Bairro). Nesse caso, a dúvida é: trocou seis por meia dúzia, vá? Ou por cinco.

Trocar Edward Norton por... quem quer que seja?
Salma Hayek é linda, talentosa, inteligente e discreta. Portanto, só posso acreditar que escorregou na enxurrada e bateu a cabeça no meio-fio. Dizem os tablóides: a moça deixou o namorado Eddie vendo navios e partiu nos braços de um ricaço em 2003. No começo do ano ela namorou o ator Josh Lucas e, hoje, sabe-se lá onde guarda a escova de dentes. Mas, não sendo na casa de Norton, que importa? É como se a Srta. Hayek tivesse ido ao foguete do Silvio Santos e dispensado uma bicicleta feita de ouro com computador de bordo...

SalmaEddie.jpg
Salminha, flor, não quer repensar?
Certeza? Olha bem...
Fla Wonka às 03:32 PM


Eu queria, mas...

Eu queria bater um bolinho, mas a farinha acabou.

Eu queria ouvir um disco novo Beatles, mas cheguei atrasada.

Eu queria tomar sorvete, mas estou com frio.

Eu queria terminar aquele livro, mas fico com sono.

Eu queria ver menos TV, mas vai começar um programa ótimo.

Eu queria fazer mais exercícios físicos, mas tenho preguiça.

Eu queria que fosse sábado, mas ainda é quinta-feira.

Eu queria ser vegetariana, mas não posso ver um bife.

Eu queria andar pelo bairro, mas está chovendo lá fora.

Eu queria entrar de férias, mas acabei de sair delas.

Eu queria ser menos esquentada, mas não tenho sangue de barata.

Eu queria escrever uma longa história, mas não sei por onde começar.

Eu queria tirar o aparelho, mas ainda faltam dois anos.

Eu queria fazer um piquenique, mas não tenho cesta nem toalha xadrez.

Eu queria ir ao zoológico, mas morro de pena dos bichos.

Eu queria comprar um botinão, mas na loja só tem sandalinha.

Eu queria jogar Cara-a-Cara, mas estou sozinha em casa.

Eu queria comer chocolate, mas não posso ir ao mercado agora.

Eu queria ter salário fixo, mas não gosto de emprego fixo.

Eu queria botar em prática todos os projetos do Garotas, mas falta tempo.

Eu queria ter um milhão de amizades, mas não saberia cultivá-las.

Eu queria não depender do computador, mas preciso dele para trabalhar.

Eu queria sair cantando o pneu do carro, mas não gosto de dirigir.

Eu queria uma visita da vó Nena, mas ela não está mais aqui.

Eu queria andar de montanha-russa, mas tenho medo.

Eu queria voltar a estudar, mas não quero voltar a fazer prova.

Eu queria ver “Kill Bill 3”, mas o Tarantino fez só até o 2.

Eu queria ser boa de Matemática e Física, mas só gosto de História e Português.

Eu queria esquecer todas as músicas de axé, mas o vizinho não deixa.

Eu queria doar sangue, mas só peso 45 kg.

Eu queria trazer meus gatos para o apartamento, mas não tenho espaço.

Eu queria ganhar na Mega Sena, mas nunca me lembro de apostar.

Eu queria ir ao cinema, mas não tem nada legal passando.

Eu queria ir pro Nordeste, mas odeio calor.

Eu queria comprar um pogobol, mas a Estrela deixou de fabricar.

Eu queria conversar com a minha mãe, mas a linha só dá ocupada.

Eu queria gravar um disco, mas não tenho uma boa voz.

Eu queria fazer ginástica olímpica, mas passei da idade.

Eu queria pintar o cabelo, mas acabei de lavá-lo.

Eu queria ver um coala, mas a Austrália é longe.

Eu queria saber contar piada, mas sempre começo pelo fim.

Eu queria me entupir de feijoada, mas depois eu passo mal.

Eu queria resgatar todos os animais de rua, mas não tenho onde colocá-los.

Eu queria jogar truco, mas não entendo as regras.

Eu queria ver um OVNI, mas dizem que essas coisas não existem.

Eu queria aprender latim, mas não teria com quem conversar.

Eu queria ter acordado tarde, mas o despertador tocou cedo.

Eu queria arrumar uma idéia melhor para o texto de hoje, mas foi só isso que consegui.

Vivi Griswold às 10:00 AM

quarta-feira, 20 de outubro de 2004

Let’s sing about sex

Não tem jeito: a coisa é parte integrante da vida de todos nós. Ainda bem. Afinal, como diria o Ultraje a Rigor, “como é que eu fico sem sexo?”. Mas como nesse campo sou adepta da máxima “cada um com seu cada um”, não pensem que vou descrever qualquer preferência particular por aqui. Uma dama não comenta (a não ser entre amigos de anos, aditivada por um pouco de vodca-soda).

A proposta, portanto, é borboletear sobre o tratamento dado ao delicado-mas-delicioso tema pela música. Enquanto alguns gostam de escancarar, outros guardam sutilezas a sete chaves. Mas todo mundo adora falar de sexo.

Esses dias fiquei pasma ao descobrir uma discreta referência musical sobre o rala-e-rola, ao ler a segunda edição da Flashback (que está tão boa quanto a primeira e, ao contrário do que parece, nós não recebemos para falar isso. Ainda).

Os primeiros versos da bela “Teorema”, canção do Legião Urbana regravada com maestria pelo Ira, se referem àquela prática que o presidente Clinton não classifica como sexo. “Não vá embora, fique um pouco mais/ Ninguém sabe fazer o que você me faz”. Uhú. Será que Bill cantou Legião para a Monica?

Outra modalidade sexual, mais digamos, independente foi cantada com certa objetividade por Billy Idol. “Dancing With Myself” é uma ode ao saudável hábito de, vez por outra, tratar seu corpo como um parquinho de diversões, como disse a mãe de George Costanza no antológico episódio de “Seinfeld” sobre o tema – exceto pelo fato de que a velhinha não achava o hábito nada saudável e queria que George fosse procurar um psiquiatra. Pfff.

A recomendação de Billy, na letra, é acertadíssima: “quando não há ninguém à vista, na lotada noite solitária (...) estou dançando comigo mesmo”. Se George a tivesse seguido, em vez de se agradar no sofá da casa da mãe dele, teria evitado a fadiga de ser pêgo...

Para as meninas que querem engrossar o coro e ter versos a entoar, o Divinyls apareceu do nada, estourou a bacana “I Touch Myself” e sumiu. O título já sana qualquer dúvida do assunto da canção, mas quem ainda não está convencido pode se ater ao refrão “I don't want anybody else/ When I think about you I touch myself”.

Tem gente discreta, gente direta e... gente sem-noção. Se o Legião passou uma citação quase despercebida e Billy Idol e o Divinyls levantaram bandeiras, Markinhos Moura chutou logo o pau da barraca.

“Sabor de Mim”, gravada não só pelo inesquecível intérprete de “Meu Mel” mas também por uma certa dupla chamada Leandro & Leonardo em início de carreira, tinha os singelos versos que encerram esse texto.

“Sempre que fizer da sua mão
Uma fria companheira de prazer
Pode me telefonar”

Se isso não é o melô do disk-sexo, então eu não sei mais o que é sexo. E durmam com essa – no bom sentido. Ou não.


Clara McFly às 08:51 PM


A corrente do zen

Não é erro de grafia o título acima. Sei que o filme meloso com Haley Joel Osment e Helen Hunt chamava-se “A Corrente do Bem” – e sei que tinha o Bon Jovi em mais uma atuação primorosa, mas isso podemos esquecer. Mas hoje queria imitar aquele garotinho e propor uma ação generalizada. Não em prol do bem, necessariamente, e sim em benefício da calma e da tranqüilidade nas relações humanas. Porque o mundo está ficando neurótico demais, sabem?

A idéia surgiu na semana passada, quando tive uma experiência chocante. Vinha eu guiando por uma das avenidas mais tumultuadas de São Paulo, a famigerada Marginal Pinheiros. Para pegar a pista expressa, dei seta para o acesso e fui me dirigindo para lá. Pelo retrovisor, vejo uma picape acelerar de modo insano, vindo em minha direção feito uma anaconda. O sujeito piscou farol, acelerou mais, colou na traseira como John Baker e Frank Poncherello faziam com os bandidos no seriado Chips.

Como não havia jeito de sair pra lado nenhum, mantive o curso sem pressa. Era perigoso ganhar mais velocidade naquele asfalto nojento e com a noite escura. Pois o moço não se conformou e acelerou mais, tentando cortar meu pobre carrinho mil pela esquerda. Não foi feliz: na passagem, havia uma peça quebrada de caminhão, que rolou sob a picape e quase o fez perder a direção. O cidadão, eu vi pelo espelho, parou sua máquina logo depois, no acostamento, para checar o estrago.

Meu pensamento imediato: “bem feito, quem mandou ser um auto-psicopata?”. Meu pensamento secundário: “que horror dizer ‘bem feito’, Flávia, tsc tsc...”. Fiquei aborrecida pela atitude descontrolada do rapaz, mas não precisava mesmo manifestar quase uma satisfação por ele ter levado dura lição. Então refleti: deve ser assim que a população fica mais histérica a cada dia.

Quando alguém nos maltrata, ficar irado é reflexo. Depois, uns engolem seco, outros retrucam com palavras – e há quem passe a mão num revólver ou cerre os punhos e parta para as “vias de fato”. Por causa de muita situação tola, gente morreu ou acabou no hospital. Então por que não revidar de modo diferente? A partir de hoje, quando for maltratada, vou sorrir, acenar e me determinar a fazer algo agradável por outra pessoa.

Em “A Corrente do Bem”, o moleque abnegado cria a seguinte teoria: cada um faz um favor especial para três pessoas, cada uma delas faz algo por mais três e assim sucessivamente. Na minha proposta, seríamos como uma usina transformadora de energia ruim em ações boas.

O vizinho surtou e decidiu martelar pregos às 7h00 da matina somente porque “o condomínio permite”? A boa pedida: faça um bolo, corte um pedaço bem generoso e ofereça ao porteiro do edifício. Gente magnânima mesmo corta outro pedaço ainda e oferece ao próprio vizinho maleta! Mas esse é estágio avançado da “corrente do zen”.

A idéia é não propagar a intolerância, o desespero e a falta de respeito com o próximo. E de quebra, podemos não entrar na Terceira Guerra Mundial... Pensar antes de agir ajudaria, mas nem todos conseguem a façanha. E se aquele sujeito inebriado de gasolina descrito acima tivesse me feito bater o carro, por exemplo? Poderia machucar uma moça grávida, pessoas a pé com família a sustentar e ele mesmo – que, imagino, não nasceu de chocadeira e seria uma falta sentida por entes queridos. Pra quê? Pra chegar em casa 3 minutos antes?

Em vez de disseminar essa agonia coletiva, a “corrente do zen” poderia nos fazer mais pacientes e felizes. Daqui por diante vou tentar essa maneira. Se levar fechada no trânsito, vou oferecer carona a alguém sem carro. Se amargar horas de espera no telefone para resolver problemas bancários, vou fazer outra ligação mais tarde pra um amigo e dizer como ele é gente boa. Se o bolo solar, como assim mesmo – e depois bato outro, solo de novo e convido amigos gentis e mentirosos pra vir degustar e dizer que está gostoso!

Ter os nervos alterados é comum. Descontar nos demais a pressa ou a frustração, nem pensar. Quem quiser aderir à “corrente do zen” pode acreditar: é mais fácil agir assim do que parece. Como não parei para saber se o mano da picape estava bem ou precisava de ajuda, resolvi me redimir escrevendo esse texto e fazendo a convocação. O bom da proposta é que sempre há tempo para pular do “bem feito” para o “bem, mãos à obra”.

Fla Wonka às 03:14 PM


Arranque isso das minhas mãos!

Lembra de uma propaganda da Elma Chips nos anos 80 que dizia “é impossível comer um só”? Essa é uma verdade que aplico não apenas para os deliciosos salgadinhos da marca, mas também para outras iguarias, doces ou não, que precisam ser arrancadas das minhas mãos para eu me conter e deixar de mandar tudo em direção ao estômago até o fim do estoque.

Não quero saber se engorda, se não é nutritivo, se não é comida de gente grande. Aliás, a melhor coisa de virar independente e morar fora da casa da mãe é poder ingerir bala de café da manhã, sobremesa de almoço ou bolacha de janta. Mas eu tento fugir disso me policiando a fazer as três refeições como elas devem ser – quando não existe no armário qualquer um dos itens abaixo...

1) Frutas secas
Não estou falando de passas, que odeio! Mas daquelas outras iguarias natalinas como nozes, avelãs, amêndoas, castanhas-de-caju, etc. Eu inclusive tento comprar do tipo “com casca”, para ver se me contenho ao lembrar do trabalho e da sujeira que faz a tentativa de buscar o artigo comestível lá de dentro... Não dá muito certo não – em um dia, já foi tudo.

2) Pipoca
Minha perdição. Sou tão viciada em milho estourado que sempre me pego pagando sete reais pelo pacote na fila do cinema. Um absurdo, eu sei. Mas puxa, filme e pipoca foram feitos um para o outro. E o cheiro do artigo fresquinho já na bilheteria? Mesmo que eu tenha jantado um boi inteiro minutos antes, meu estômago sempre encontra lugar para o quitute.

3) Amanditas
Quando me encontro na frente da gôndola de bolachas e chocolates do supermercado, meus olhos são imediatamente atraídos para a prateleira superior, onde costumam estar os pacotinhos do demo. Digo isso porque as Amanditas são bem caras para uma simples casquinha de waffle recheada com chocolate safado. Olha aí, já fiquei com vontade.

4) Tremoço
A explicação só pode ser a parte portuguesa do meu sangue. E o culpado da vez é meu pai, um tremoço-maníaco de carteirinha. O bom desse artigo é o preço, sempre baratíssimo. Há ainda outros fatores positivos: compra-se em grande quantidade (o que não quer dizer que demora pra acabar) e é nutritivo. Bem, pelo menos, vem da natureza, certo?

5) Bis branco
Sempre me punha de bico quando pedia chocolate para minha mãe e ela trazia Bis. Eita sobremesa safada! E doce até não poder mais. Quando chegou a versão branca, porém... Fiquei louca. Troco fácil qualquer Lindt ou Ferrero Rocher da vida por uma caixa daquelas. Dica para os aficionados: coloque um pouquinho no congelador, fica mais crocante ainda!

6) Pão italiano com azeite
Acontece que sou viciada em azeite. Se pudesse, virava no gargalo! Mas tento me conter para sobrar o ingrediente de minha receita-perdição: um pouco de óleo de oliva, uma gotinha de vinagre balsâmico, uma pitada de sal e pão italiano a gosto para “chuchar”. Tendo tudo isso, o mundo pode se acabar em barranco que eu morro encostada e feliz.

7) Piraquê sabor queijo
Por um punhado de moedas de 10 centavos, você pode levar para casa esse vício. Piraquê consegue ser uma marca mais ralé que a própria Ebicen. Não faz mal: o salgadinho de queijo salva a empresa toda. É uma bolachinha estufada e oca por dentro. No final do pacote, o dedo fica gorduroso e dá uma sede danada. Sem falar na sensação de quero-mais!

8) Moça Fiesta Cajuzinho
Cajuzinho é um dos meus doces de festa infantil favorito. Mas ao contrário do brigadeiro, é difícil fazer em casa quando bate aquela fome vespertina. A saída é buscar no fundo da despensa a lata do Moça Fiesta. Além disso, você precisará apenas de uma colher e de muita água no final do processo. Hmm, será que eu ainda tenho um artigo desses por aqui?

9) Froot Loops
Depois dos gatos, o Tucano Sam é meu animal favorito. Isso porque a ave costuma vir acompanhada dos cereais coloridinhos em forma de argola que eu tanto amo. Acredito que o produto contém suco natural de frutas tanto quanto acredito na inocência de Paulo Maluf. Mas serei franca: como viciada em Coca-Cola, a fórmula real é o que menos me importa.

10) Balinha de gelatina Haribo
Elas podem ser em forma de cerejinhas, ou de pequenos ursos, ou de minhocas, ou até de ovos-fritos e dentaduras. Não coloque perto de mim qualquer tipo de balinhas de gelatina, porque não me responsabilizarei pelo resultado. Agora que estou no meio de um tratamento dentário, tenho policiado meu vício – que ficou mais gostoso com o fator “proibição”.

haribo.jpg
Nhami nhami
Vivi Griswold às 10:29 AM

terça-feira, 19 de outubro de 2004

Você tem fome de quê?

Outro dia, batendo papo com os camaradinhas a bordo do intrépido Gigante Branco – Gol quadrado de posse de um amigo e carrinho muito do corajoso mesmo, pois está na ativa há um tempão e já foi guiado por praticamente todo mundo da turma que começou a dirigir – a discussão resvalou no prosaico tema das preferências de cada um no campo do garfo-e-faca. E olha que as discussões com esse pessoal vão da existência de vida extraterrestre às questões nacionais venezuelanas, passando por como é possível existir algo infinito, feito os números e os céus.

O proprietário do Gigante formulou a teoria logo aprovada pelos membros dos bancos (de trás e da frente): o gosto por este ou aquele prato é feito um recipiente limitado, que já nasce com certo tamanho e disposição dentro de você. Por isso a gente gosta tanto de certas coisas quando pequeno e se nega a comê-las anos mais tarde. Por isso e, é claro, também porque depois de uma certa idade sua mãe não consegue mais enganá-lo dizendo que o filé de pescada é frango.

É igual à consumação mínima dos bares, mas não necessariamente obrigatória e, ao contrário dos cartõezinhos recebidos às portas das noitadas, há um limite de ingestão das substâncias. Eu, por exemplo, amava brócolis. Tanto que esperava a trupe lá de casa se servir de humildes porções e apanhava a tigela com o resto do maço todo para mim. Era definitivamente meu prato favorito – e olha que é difícil esta loira magrela reservar favoritismo absoluto para uma coisa ou outra: tenho músicas favoritas, filmes favoritos, cantores favoritos. Sempre no plural.

Mas eis que, belo dia, devoro um maço de brócolis e passo o resto do dia passando mal do estômbro. Quase tive, como disse um colega de trabalho do namorido antes de entrar em campo para o futebol “Firma x Escritório”, “uma combustão”. Sei lá porque. E nunca mais comi brócolis. Confesso que tentei, mas passava mal novamente a cada florzinha deglutida. Ou seja, acabou minha consumação de brócolis!

Já o Dener, dono do possante Gigante, nunca usou a dele. Disse que a cederia com prazer para mim – assim como ele cedia a consumação mínima dos bares que freqüentávamos, sempre mais pesada para meninos que para meninas, e simplesmente invencível para um cara como ele, que só bebe refrigerante.

Eu também devorava cenouras cruas. Apanhava uma na geladeira, puxava a saia da minha mãe para que ela a descascasse e mandava brasa, ao melhor estilo Pernalonga. Hoje, só topo as tais raízes diluídas na sopa de capeletti ou na prática da inevitável culinária de fim de mês, quando procuro algo para servir de acompanhamento e descubro que só restou uma valente Daucus carota no fundo da gaveta da geladeira.

Meu irmão teve uma história mais radical. Ele comia cebolas cruas. Depois, afrescalhou-se consideravelmente e não comia mais a iguaria nem picadinha no arroz. Passava minutos separando os pedacinhos da danada. Também negava-se a ingerir maionese, molhos em geral, polenta, pudins, purês. No Méqui, tarefa inglória era esperar o engraçadinho receber seu lanche “grill” – ele queria só o pão e a carne, e eu nunca entendi porque eles demoram mais para fazer um lanche só com dois ingredientes do que para montar o gigantesco sanduíche que é carro-chefe da lanchonete.

Agora, em plena fase de crescimento (para os lados, creio eu), o João chega a mandar para dentro singelos três lanches – e nada dos minguados hambúrgueres. É de Quarterão para cima. Com cebola, molho especial (ou não), ketchup e tudo que estiver ali no meio, sem preconceito. Se eu bobear, ele ainda come o que restar da minha bandeja, do meu prato, da minha despensa. Nunca vi coisa igual. Minha mãe, a pobre, deve estar ansiosamente aguardando que ao menos algumas das consumações do rapazote cheguem a seu limite.

Enquanto isso, eu não consigo parar de imaginar como seria bacana e útil poder trocar consumações. Já aviso que as minhas de peixe estariam disponíveis – e a de camarão, quase intocada, não fosse por uma meia-dúzia de saquinhos de Ebicen ingeridos inadvertidamente, com conseqüências desastrosas. E bastante determinantes para reforçar minha fé na não-ingestão desse crustáceo.

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Quer procê? Pó levar!


Clara McFly às 09:54 PM


O herói de hoje

Gibis são uma forma de arte tão dinâmica quanto despretensiosa. Muitos trazem o lirismo dos livros misturado com o brilho do cinema, até. Já tive oportunidade de ler muitas edições de Superman, Homem-Aranha, X-Men – e, antes disso, um sem-número de revistas Disney e do Seo Maurício de Sousa. Todos os meus heróis são donos de uma HQ, então não poderia ser diferente com o melhor de todos eles. O insuperável, corajoso, glorioso e inimitável... Overman!

Conheci o paladino da justiça nacional há cerca de oito meses. Foi em um livro emprestado pelo doce amigo Tércio. Como o rapaz estava de mudança para a Inglaterra e espaço na mala era luxo, deixou a brochura aos meus cuidados. “Overman, o Álbum, o Mito” virou livro de cabeceira quando quero me sentir protegida por um herói de verdade. Apesar dele morar numa pensão no Ipiranga...

É, é isso mesmo. Criado pelo hilário e soberbo cartunista Laerte, Overman é um diferenciado defensor dos fracos e oprimidos. Apesar do porte atlético invejável, do uniforme-boiola-padrão e da pinta de macho, ele não se encaixa em outros clichês heróicos. Primeiro, porque é pobre. Segundo, porque é burro. Terceiro... ah, são tantos motivos...

Overman divide um cafofo na supracitada pensão do Ipiranga com o parceiro Ésquilo. Na parte de baixo da casa funciona o estacionamento do cunhado da dona. Deprimente? É porque vocês ainda não sabem que eles meiam um beliche surrado e o fiel-escudeiro faz curso de computação – mas perde muita aula.

Nosso incrível Overman também tem uma grande tendência ao alcoolismo e apanha facilmente de vilãs bem torneadas. Além disso, arrumou uma outra parceira para acompanha-lo nas aventuras. O problema é que Pamela, a Mulher Cachorro, só faz roer as roupas do varal. Mas dá a patinha, muito fofa.

Nosso escrachado super-herói foi inventado por Laerte há pouco mais de seis anos, em tiras do jornal Folha de São Paulo. No ano passado, foi lançado o álbum com 150 histórias reunidas sobre o homem que defende a Terra “da violência, do sexo e da vulgaridade” – além do temível Maníaco Flatulento, pior inimigo de Overman que atua... bem, vocês podem imaginar como.

Nas tirinhas, é bem mais comum o fortão enfrentar a falta de dinheiro para comer risolis do que alguma ameaça real. Por isso Overman é um herói perfeito. Só ele entende o drama mundano de ter ânsia com o palito de madeira do médico ou a chatice que é levar choque ao bater o cotovelo.

Tudo isso é motivo de história para Laerte e seu fantástico personagem. E é impossível não morrer de rir com as sandices de Overman. Certa feita, por exemplo, ele aceitou casar-se com um poderoso homem de negócios em troca de quitar sua dívida no fliperama. Além de usar batom e avental, o herói tinha que cozinhar e fazer todo o serviço da casa para o milionário safado. E ainda travou o seguinte diálogo:

Marido: Que houve, querida?
Overman: Eu não sou sua querida! Sou Overman!! Por causa do vício no fliperama aceitei casar com você, mas chega! Sou um justiceiro, vou partir!
Marido: Então me dá um beijinho, vai?
Overman: ...Tá, só um...

Livre dos vícios, ele voltou aos céus para combater o mal. E voltou também a usar seu lema: “não existem inimigos grandes ou pequenos, trato todos do mesmo jeito. Mas os pequenos voam mais longe com um chute”. Esse é Overman, o meu herói.

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Para Overman, até selecionar
uma secretária é problema
Fla Wonka às 03:35 PM


Super gatas

Comecei a contar ontem como é irônica a relação que temos com artistas de mais idade – costumamos achar os homens grisalhos um charme, enquanto reparamos em quão caídas estão as mulheres contemporâneas a eles. Pensando dessa forma, fica fácil realmente entender o motivo que leva as estrelas a encherem a cara de botox e silicone. Tiozinhos só saem com meninas, e não apenas fora das telas.

Ainda assim, consigo pensar em algumas mulheres que estão sabendo envelhecer de maneira brilhante mesmo dentro do turbilhão de cobranças que é Hollywood. Ainda que um punhado delas deva ter entrado na sala de cirurgia, conseguimos ver rostos que contam uma longa história de vida. Isso é que é bonito – e eu ainda acho que um sorrisão aberto pesa mais a favor do que uma cara esticada que nem consegue sorrir.

Outro fato estranho é que, quando se fala em “tiozinhos”, é comum citar artistas com 50, 60 anos. Quando se fala em “coroas”, a média de idade cai para a casa dos 40 anos! É clichê dizer como a Sharon Stone está maravilhosa com “toda aquela idade!”. Céus, a mulher tem 46 anos! Mais nova que a minha mãe (que, cá entre nós, está tão bem quanto). Por isso, quarentona hoje não tem vez. Vamos explorar a aparência única de mais velas no bolo?

Blythe Danner, 61 anos
Além de ter um nome lindo, Blythe é maravilhosa. A atriz cedeu quase toda a beleza à filha famosa, Gwyneth Paltrow – mas só o tempo dirá se os anos farão tão bem à jovem quanto fizeram a sua mãe. A veterana do cinema, teatro e TV está mais chique e radiante que nunca, e todo esse esplendor da terceira idade pode ser visto em filmes recentes como “Entrando Numa Fria” e em seriados como “Will & Grace”.

Susan Sarandon, 58 anos
Estava vendo um programa sobre Susan e quase caí da cadeira quando vi umas imagens da bonitona quando mais nova: ela não tinha metade da beleza e do sexy-appeal que tem hoje! Impressionante como, em cada aniversário que passa, ela fica melhor. Um dos maiores motivos para eu assistir à cerimônia de entrega dos Oscars todos os anos é poder ver Susan caminhando radiante pelo tapete vermelho. Linda.

Sigourney Weaver, 55 anos
Em 1979, Sigourney fez o coração dos marmanjos palpitar (para não dizer outra coisa) quando apareceu de calcinha no filme “Alien, o 8º Passageiro”. Muitos devem ter achado que estava nascendo ali uma estrela sexy... e só. Mas ela nunca abusou de sua aparência, e sim do talento. Em uma entrevista recente, a atriz disse que morre de medo de plástica porque não suportaria perder sua expressão natural.

Judi Dench, 70 anos
A mais coroa na lista é uma típica lady britânica. Já interpretou duas rainhas no cinema: Elizabeth I em “Shakespeare Apaixonado” e Vitória em “Sua Majestade, Mrs. Brown”. Parece que Judi é sempre a primeira opção quando o papel requer uma atriz veterana com aparência dura, porém doce. Os olhos azuis e o cabelo branco curtinho e moderno a fizeram também encarnar a personagem M, de 007, com todo seu charme.

Sharon Osbourne, 52 anos
Eu queria ser a Sharon quando crescesse, mas sem precisar casar com o Moon-Ra, ups, Ozzy, nem ter aquele bando de filhos delinqüentes. Bem, talvez parte da beleza da senhora Osbourne é realmente pertencer à família de loucos e ainda manter aquele pique incrível – mesmo passando pela experiência do câncer, como passou há alguns meses. Sharon continua com a gente, boca suja e linda como sempre.

Audrey Hepburn, 64 anos
A mais bela das estrelas tornou-se a mais bela das coroas. Também, não tinha como a querida Audrey ficar feia – não com aquele rosto, muito menos com aquele coração do tamanho do mundo. Quando morreu, em 1993, a bonequinha era uma linda sexagenária. Ainda bem que o tempo foi tão amável com ela quanto ela foi com as pessoas. Mesmo doente, Audrey continuou embaixadora da Unicef. E eu continuo a amá-la.

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Precisa mais?
Vivi Griswold às 11:06 AM

segunda-feira, 18 de outubro de 2004

E que Roupa!

Faz um (bom) tempo que eles estão na estrada. Já acompanharam artistas como Gal Costa e Zizi Possi – e também já tiveram a moral de entoar versos simplesmente sensacionais e um pouco incompreensíveis como “entre a cobra e o passarinho/entre a pomba e o gavião/o teu ódio ou teu carinho nos carregam pela mão” (passarinho, pomba e gavião ok: são pássaros. Mas o que a cobra está fazendo aí? Cobra come passarinho?).

O Roupa Nova se formou em 1970. Já se chamou Os Famks e foi criado no Rio de Janeiro. E é daquele tipo de banda que todo mundo diz achar brega, mas sabe cantar todas as músicas – ou pelo menos uma. Também, pudera. Em 34 anos, os caras tinham que emplacar pelo menos um hit. Emplacaram vários, como as inesquecíveis canções que seguem aí. Sei cantar todas elas. E vocês?

Tímida
Essa era uma baladinha bem gosmântica que me dava a maior fome. Também, começava com “Lábios com sabor/de hortelã/Olhos cor do céu/E pele de maçã”. Nhãmi. Acho que fala de uma mocinha “descobrindo o amor”. Aí, a definição da expressão entre aspas fica a critério de cada um, porque eles são uma banda de família.
O refrão: “Tímida/Um jeito tímido ao luar/Mágica/A simples mágica de amar”. Ele adiantava a palavra que seria o centro da frase. Legal, né?

Dona
Bastam os primeiros acordes para a imagem da Regina Duarte na pele da viúva Porcina pipocar na cabeça feito um maldito pop up internético. Não sei se a música foi feita especialmente para a novela “Roque Santeiro”, mas caiu como uma luva para a personagem.
É inesquecível: “Tã, tã, tã, batem na porta, não precisa ver quem é/Prá sentir a impaciência do teu pulso de mulher”. Não dá para cantar sem fazer a mímica das batidas na porta. Eu até me arrepio.

Whisky a Go Go
Mais uma que pegou na novela. “Um Sonho a Mais” tinha a canção como tema de abertura – o que faz com que muita gente ache que esse também era o nome da música. Clássico absoluto de bailes de formatura, geralmente executado quando as Mirtes já tiraram a sandália e estão na pista com os calçados vestidos nas mãos. Irresistível.
Demorei para entender: “Foi numa festa, gelo e cuba libre/E na vitrola, whisky a go go/À meia-luz, o som do Johnny Rivers/Aquele tempo que você sonhou”. Os versos iniciais devem figurar ao lado de “Noite do Prazer” do Cláudio Zoli, aquela do “trocando de biquíni sem parar”, como campeãs dos virunduns.

Volta pra Mim
No quesito dramaticidade, essa é dez! Se o Bon Jovi passasse a letra num tradutor online, podia gravar sem medo. Começava baixinho, com o “Amanheci sozinho/Na cama um vazio/Meu coração que se foi, sem dizer se voltava depois”. Ela deve ter dito para ele que ia comprar cigarros. Depois, seguia num crescendo até o genial...
… ápice: “Eu te amo e vou gritar pra todo mundo ouvir/Ter você é meu desejo de viver/Sou menino e teu amor é que me faz crescer/E me entrego corpo e alma pra você”. Tire essa da cabeça, agora!

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Eu perguntava duiu-uanadens


Clara McFly às 09:58 PM


De garotos e futebol

Não é segredo guardado: eu gosto de futebol. Não entendo muito, não guardo estatísticas, não sei a escalação da seleção turca de 1965. Mas gosto mesmo. Acho até, por causa disso, que acabei tendo simpatia e compreensão para com os garotos apreciadores do esporte. E acredito ainda que algumas mocinhas se equivocam um pouco com a relação deles com a bola.

Muita menina fica aborrecida e frustrada por causa das "horas de bola" dos garotos. Isso porque eles recheiam noites de dia de semana com o evento ou mesmo preciosas manhãs de sábado. Parece estranho que prefiram suar feitos porcos no meio de um monte de homens barbados do que apreciar um cineminha ou um jantar divertido com sua querida... É mesmo. Mas nem tanto.

Lá no retângulo demarcado, eu penso, eles podem colocar para fora o animal interior. Podem xingar nomes horrendos sem levar chamada ou ofender a mamãe alheia sem represálias. Podem usar camiseta com furo no sovaco, mostrar o joelho ralado ou deixar o cabelo virar ninho de rato - sem precisar ver cara de nojo ou escutar críticas. Muitos homens gostam de se assemelhar a um bando de búfalos, o que se há de fazer? Deixa, ué!

Perder o namorado é a coisa mais impossível de acontecer, por sinal. Uma vez misturado aos parceiros de futebol, eles só têm olhos para a bola, a trave, os adversários, o juiz ladrão. O assunto gira em torno apenas daquele golaço feito de cabeça, do amigo que tomou um drible humilhante no meio das canetas, do lazarento do Ferreira que dá entradas duras por trás (no bom sentido, claro. Ou nem tanto...).

Que as garotas acreditem no que eu digo: se a Ana Hickmann aparecer numa pelada dessas e se postar de minissaia na arquibancada, vai passar despercebida. Se a pelota quicar para o lado dela, algum marmanjo há de ignorar os 12 metros de perna da gatona e dizer à ela "filhota, cê pode devolver a bola pra cá?".

Eles se concentram no jogo com nunca se concentraram em mais nada. Muitos devem esquecer a data do início de namoro para poder lembrar o placar da partida da quinta-feira passada, quando "o pessoal do RH perdeu para os caras da Informática por 5 a 3".

É ótimo negócio deixar seu namorado, marido ou namorido aproveitar o futebol. Exercita o corpo, dá liberdade. É como uma creche para rapazes! Lá eles estão seguros e felizes feito bebês. Podem voltar para casa avariados vez por outra, com um tornozelo torcido, um cotovelo inchado ou o ego destruído pela derrota inesperada. Mas tudo bem, porque na semana que vem tem mais. E isso é bom, meninas...

Fla Wonka às 02:35 PM


Tiozinhos brasa, mora?

A querida Agatha Christie deu uma declaração divertidíssima sobre ser casada com um arqueólogo: “quanto mais eu envelheço, mais ele gosta de mim”. A escritora era sortuda mesmo. Pois é só sintonizar qualquer um dos canais de entretenimento para ver o monte de senhoras que não estão sabendo envelhecer com dignidade. Tudo bem aplicar um botox aqui e ali (ainda mais quando o emprego exige mostrar o rosto), mas elas precisam transformar-se em um manequim de loja barata?

Creio que a culpa nem é de todo das mulheres. Você há de concordar comigo que ainda vivemos em um mundo machista. Quando uma atriz ou cantora aparece com pés de galinha, cabelos grisalhos e roupas menos chamativas, todo mundo comenta o quão caída ela está. Quando o mesmo acontece com atores ou cantores, o comentário padrão é “ah, que charmosos!”. Já reparou como a gente, em um modo geral, vê muito melhor a beleza de senhores do sexo masculino?

Eu acho lindo ver pessoas que estão passando da segunda para a terceira idade e encaram isso numa boa. Não digo que elas precisam ficar caídas e parecer um maracujá de gaveta – se cuidar é bom, sim. Mas contar a sua história de vida só com o rosto também é. Vou provar isso mostrando os tiozinhos que fazem meu coração palpitar. As coroas ficam para a próxima.

Al Pacino, 64 anos
Pra começo, ele é italiano, o que sempre ganha pontos no meu gabarito. Al tem aquele jeito de mafioso rude, com o terno bem cortado, cabelo penteado com o dedo, cara fechada e uma voz rouca inconfundível. Esse é um a quem os anos só fizeram bem – pelo menos, na aparência. Afinal, ele anda meio esclerosado no quesito escolha de papéis. Pô, não precisava fazer “S1m0ne” e “Gigli”, né, bonitão?

Mick Jagger, 61 anos
Ok, ok, tá na hora de confessar o inconfessável. Eu faço parte da grande turma de mulheres que acham o líder dos Stones sexy pra chuchu. Como todas as integrantes desse grupo, não me peça para explicar o motivo – eu não sei! A única coisa que posso afirmar com certeza é que dispensaria fácil o Mick jovem por esse 300 vezes mais chique, mais centrado e menos, digamos, frutinha.

Clint Eastwood, 74 anos
Para quem não é fã de filmes de bangue-bangue, como euzinha, fica difícil conhecer Clint dos anos dourados. Sua fama de arrasa-corações naquela época é pra lá de notória, mas continuo achando que o ator e diretor ainda não deve nada ao passado. Ele fez “As Pontes de Madison” com 64 anos. Vai dizer que você não chorou! Meu favorito é “Cowboys do Espaço”, cujo tema vem muito a calhar.

Paul McCartney, 62 anos
Como não morrer de amores por um beatle? Ele poderia ter 100 anos e exibir o rosto do Moon-Ra que eu nem ligaria! Mas Paul não é assim – o sexagenário continua parecendo aquele fofíssimo jovenzinho com cabelo-tigela e cara de sapeca. Até a alguns anos atrás, nem rugas ele carregava. Quando perdeu a mulher Linda, o queridinho ganhou de um dia para o outro tudo o que tinha economizado.

Sean Connery, 74 anos
Alguém aí discorda que o escocês de sotaque fortíssimo foi o melhor James Bond que já existiu? Bem, eu sou obrigada a concordar com esse chavão cinematográfico. E sou obrigada também a confessar que acho o ator mais bonito com cabelo e cavanhaque grisalhos do que na época do agente supersecreto. E ainda por cima ele é nomeado cavaleiro pela coroa britânica! Isso sim é um Sir.

David Bowie, 57 anos
Aposto que muita gente achava que Bowie ia acabar transformando-se de vez em um ser assexuado quando mais velho (tipo o Caby Peixoto). Ele enganou todo mundo aparecendo mais lindo do que nunca. A voz é a mesma, os olhos de cores distintas também. O pique em cima do palco continua a mil (testemunhei ao vivo, ai ai), assim como o talento. Até os camaleões envelhecem – mas não perdem a majestade.

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Que Ziggy o quê!
Vivi Griswold às 09:56 AM

sexta-feira, 15 de outubro de 2004

Ás da fila

Há dois meses, transferi minhas atividades – entenda-se também aí o ganho do pão de cada dia – para os limites de meu lar, doce lar. É isso mesmo: agora, trabalho em casa. E tenho que dizer, depois de dois meses, que ainda estou em adaptação. Mas se tem algo de que não sinto a menor falta é do trânsito.

Incrível como essa praga assola o cotidiano nos grandes centros urbanos e, além de arruinar consideravelmente sua qualidade de vida, pode te transformar num pequeno (e magrelo, no meu caso) psicopata em potencial. Eu xingo ao volante. E tenho uma lei pessoal para dar a preferência – nos casos, é lógico, em que ela não é definida pelas placas. Só deixo passar carros simpáticos.

Entenda-se por carros simpáticos motoristas bacanas, taxistas (que não são exatamente a concepção da palavra, mas convenhamos: eles passam o dia inteiro nesse inferno e eu me compadeço), velhinhos e carros caindo aos pedaços. Importados, nem pensar. Eles já passam na frente em tudo nesse país.

Como todo mundo, eu tenho sérios problemas com trânsito. Começa a me subir um calor pior que o da Cinira, em “Tieta”. Mas não daquele calor que termina numa coisa boa. É uma onda física de irritação. Haja auto-controle para respirar fundo, buscar a calma interior e tentar se concentrar em distrações, como olhar os adesivos dos autos no entorno da buzineira.

Além disso, depois de quatro anos encarando toda sorte de engarrafamentos pela cidade entre minha casa e o trabalho, agora que estou liberta tenho um prazer macabro ao ouvir, do conforto do meu lar, os noticiários sobre a hora do rush em São Paulo. Não consigo evitar uma alegria sádica quando anunciam um número qualquer (sempre acima do tolerável) de quilômetros de congestionamento. Pronto, falei!

Os famigerados noticiários, aliás, não são 100% confiáveis. Isso porque é tecnicamente impossível precisar, em cima da hora, os pontos em que não se passa da segunda marcha na cidade. É que São Paulo é um lugar estranho e a entidade que controla o trânsito (só pode ser uma entidade) prega peças nos pobres e dedicados repórteres que cobrem o tema.

Já cansei de sair de casa à mesma hora e, num dia, levar uma hora e meia para atingir meu destino; no outro, dar o ar da graça no local devido em quarenta parcos minutos. Pelo mesmo caminho.

Comecei a desconfiar que talvez o tráfego de veículos esteja tão comprometido que, se um cristão espirra café na camisa de manhã e se atrasa dois minutos trocando a beca, toda a estrutura se compromete. Ou existem dobras espaço-temporais nas quais adentramos sem querer ou perceber, mas que nos levam direto ao ponto em muito menos tempo.

Manifestações também contribuem. É só juntar três fulanos pedindo o apoio à reprodução dos louva-a-deuses da Malásia ou a intervenção do governo no preço do popeline que a Paulista já se encrenca. Mesmo que os conscienciosos manifestantes fiquem sob o vão livre do Masp. E, quando não ficam, podem acreditar que acabam fazendo propaganda contra o que quer que defendam. O pessoal na fila interminável de possantes fica assim, digamos, puto.

Tem outra: as vias são tão interligadas e estamos tão sobrecarregados de gente e de carros que basta um caminhão derrubar um saco de estopa na Marginal (qualquer uma) para a cidade inteira parar. Fico imaginando o dia em que metade da população vai sair de casa, topar com o congestionamento já na porta e começar a buzinar – ato que, aliás, não entendo.

Buzinar para chamar a atenção do motorista que está quase te fechando, ok. Buzinar quando um folgado faz você esperar meia hora no farol aberto só para fazer uma conversão proibida – ou seja, virar onde ele bem entende –, ok também.

Mas buzinar com o trânsito parado a perder de vista? Vai ver os malucos acham que ali no meio do volante pode haver um botão místico que, pressionado corretamente, vai fazer todo o pessoal da frente sumir. É uma espécie de Santo Graal do tráfego. Embora absurda, a idéia é tão tentadora que eles não resistem a arriscar...

Por essas e outras, me solidarizo com os abnegados jornalistas que cobrem o trânsito. Eles devem viver enlouquecidos. Eu fico imaginando como saber qual diabos é o sentido Penha-Lapa, qual das malditas ruas ultra-arborizadas é a Groenlândia e qual é a Estados Unidos (as duas ficam paralelas à avenida Brasil) e, afinal de contas, o que é o misterioso sentido Bairro-Centro, para mim um tanto genérico por demais.

E isso tudo lá de cima, a bordo de um helicóptero. Não consigo me achar nem em terra, com as placas e etcetera, imagina lá no alto. Se sou eu, mando pintar as avenidas principais e só decolo com a legenda de cores a tiracolo: Paulista, cor-de-rosa; Bandeirantes, verde-musgo; Washington Luís, flicts; Brasil, roxo; Radial, azul.

Ainda assim, não sei se eu seria capaz de me orientar. Mas os aviões poderiam pousar em Congonhas até com chuva de canivete. Não tem como errar: é aquela tirinha amarelo fosforescente entre o verde-musgo e o flicts.


Clara McFly às 06:33 PM


Cadê respeito?

Uma das coisas que mamãe e papai me ensinaram desde cedo foi ser gentil. Sabem, fazer aquelas coisas de sempre: servir bem as visitas, ouvir os mais velhos, tratar bem crianças menores mesmo que elas sejam uns demônios ranhetas. Acho que consigo fazer boa figura nessas horas – até dou passagem no trânsito de vez em quando! Mas, no momento, estou numa situação que me faz ver um panorama nunca dantes sentido no couro. Como gestante, posso notar o outro lado da moeda do respeito civil.

Sempre achei uma beleza aquelas plaquinhas sobre ceder lugares no transporte coletivo a idosos, grávidas, deficientes e gente com criança de colo. Pensava que funcionavam mesmo. Bom, eu usava os tais bancos até ver alguém nessa situação, e depois, na chegada deles, ficava feliz em sair fora e dar espaço. Ou, se não era dona do posto privilegiado, ao menos me oferecia pra segurar uma sacola de compra.

Daí entrei para o time das futuras mamães – e meu mundo de fantasia recebeu a cruel visita da realidade. Ninguém dá lá muita bola aos humanos com dificuldade de locomoção. É triste, mas é verdade. No começo, quando a barriga ainda parecia mais um porre de chopp do que uma gravidez de fato, eu nem me abalava em apanhar filas especiais. Achava bem desnecessário, afinal ainda podia ficar de pé por vários minutos sem cansar.

Hoje, aos seis meses de Sabrina, já não quero ser tão magnânima e, no banco ou no mercado, me encaminho direto para debaixo do sinal com a mulher barrigudinha, o velhote curvado de bengala, o rapaz de muletas e a tia-palitinho com um pequenino garoto-palitinho nos braços. Fico lá na intenção de receber prioridade, já que o contorno abdominal não nega: há bebê a bordo por aqui. Mas tudo o que vejo são caras feias.

Juro a vocês: não aconteceu uma nem duas vezes. Foram várias já. Hoje mesmo estive no banco para pagar uma conta. Caminhei pela salona e parei na fita amarela, esperando logo atrás de uma senhora idosa. Ajeitei o cabelo, ajeitei a jaqueta, ajeitei a bolsa... e, ao olhar em volta, percebi uns 20 pares de pupilas me encarando horrorosamente.

Deu um negócio aqui dentro, quase uma vergonha. Como ato-falho, até arqueei o corpo pra frente como quem diz “sim, eu estou grávida, eu juro, desculpem, por favor...” E em seguida percebi que, oras bolas dos diabos, eu não preciso me sentir mal! Ou será necessário mandar confeccionar uma camiseta com a imagem da filhota no ultrassom ao lado de uma reprodução do jornal datado do dia afim de provar o "estado interessante"?

Ando por dez minutos e logo canso. Estou com 4,5 kg a mais no corpo e isso faz diferença. Já não encontro boas posições para ficar muito tempo em pé ou mesmo sentada. As pessoas sabem o que é isso? Talvez nem todas, infelizmente. E, muito pior: devem observar com a mesma desconfiança velhinhas bem conservadas ou qualquer um com tala branca em braços ou pernas! Não devo ser a única a ver bocas tortas por reivindicar direitos.

Outro dia, numa grande fila de ingressos para um show, fui ao guichê e me apresentei à moça como gestante. Ela disse “xiii... não sei se dá pra te passar na frente... Fala ali com o Giba”. Duvido que na Constituição exista o item “Mulheres grávidas têm direito a atendimento preferencial. Desde que falem com o Giba antes”. Ainda assim, fui lá pedir ao Gibagerente para me receber. Ele fez uma caretinha e disse que tudo bem. Voltamos ao guichê e ele avisou à moça: “faz a venda para ela, mas disfarça”.

Pensei que aquilo era uma bobagem imensa! Quem ali, na fila, ia se achar ludibriado por ver uma garota grávida ser atendida antes? Demorou menos de um minuto, e o cabeludo ao lado questionou a vendedora sobre o porquê de eu receber privilégios. Ela explicou, ele ficou na miúda. Se pensou um bocadinho, deve ter lembrado que, um dia, pode ser a esposa DELE a encarar filas munida de uma barriga rotunda...

Poucos se colocam nos sapatos alheios, acho. Mas mesmo sem ter passado para “o lado de lá”, não há como entender a situação do vizinho? Não preciso bater nos 80 anos pra saber que, nesse dia, seria ótimo conseguir um banco livre no metrô. Nem preciso ter uma perna a menos pra imaginar “hum, deve ser ruim equilibrar-me por tempo demais aguardando um caixa vago de supermercado”.

Pra ser respeitoso com os demais, só precisamos ter um pouquinho de imaginação e senso de cidadania, acredito. Quando a Sabrina nascer, vou explicar para ela o que significam aqueles desenhos na plaquinha de fila preferencial. E ai dessa garota se olhar torto para o pessoal dali!

Fla Wonka às 03:33 PM


Não deu certo – mas foi fascinante

Atualmente fala-se que Marte é a próxima grande conquista da humanidade. Houve uma época, porém, que os maiores mistérios e obstáculos eram encontrados no nosso próprio planeta. Selvas virgens, mares revoltos, tribos de canibais... Tudo isso povoava a mente de pretensos exploradores quando a Internet não existia, muito menos a TV e o avião de passageiros. Homens perderam a vida tentando chegar aos quatro cantos da Terra, enquanto outros conseguiram e tornaram-se heróis.

Uma dessas almas inquietas para saber o que existia além do confortável limite europeu era um irlandês corpulento chamado Ernest Shackleton. Naquele começo de século XX, seu sonho era ser o primeiro homem a cruzar a Antártida. Aos 28, ele participou de uma expedição com esse objetivo, mas teve de retornar para casa por conta do escorbuto. Alguns anos depois, em 1914, ele lançou sua própria empreitada – que ficou famosa por ter sido um grande fracasso expedicionário, porém uma imensa lição de sobrevivência.

Ter em mãos o livro “Endurance”, de Caroline Alexander, é como abrir uma arca de tesouro. E a obra só foi possível graças à esperteza (ou não) de Shackleton. Para financiar seu projeto, ele vendeu os direitos autorais de todos os diários da tripulação bem antes de zarparem. Além disso, levou consigo o talentoso fotógrafo australiano Frank Hurley para registrar tudo em imagens, também já vendidas previamente. Foi a cereja do sorvete de sua ruína financeira mais tarde, mas é por conta dessa decisão que podemos, eu e você, entrar a bordo da ilustre embarcação. E sem enjoar ou passar frio.

A história verídica contada pelos próprios membros da expedição, a minuciosa pesquisa por parte da autora e as dezenas de imagens impressionantes feitas por Hurley colocam uma âncora em qualquer aventura de ficção quando comparada à saga do barco Endurance. Não dá para começar a leitura e largar em seguida, de tão fascinante. Ironicamente, sabemos de antemão o que acontece no final – fato que não tira nem um pouco o suspense e a surpresa dessa história insuperável.

Pouco tempo depois de deixar à ilha da Geórgia do Sul (último ponto antes da imensidão gelada da Antártida), o barco ficou preso no gelo. Os homens não se importaram muito com isso, uma vez que o interior era confortável e aquecido. Eles passaram os dias jogando, cantando, lendo e comendo boas refeições feitas pelo cozinheiro. A esperada abertura, porém, não aconteceu – e a pressão do gelo sobre o casco era cada vez maior. Até que, invariavelmente, a natureza venceu e o Endurance afundou.

A tripulação foi obrigada a montar diversos acampamentos no gelo. Tiveram de sacrificar todos os cachorros e o gato Senhora Chippy, mascote tão querido. Além da depressão que assolou os homens, a comida foi ficando cada vez mais escassa e, logo, o único artigo encontrado era carne de pingüim. Uma viagem de três pequenos barcos para um ponto mais seguro enfraqueceu a todos, que não tinham mais roupa seca ou saco de dormir que estivesse descongelado.

Neste ponto, tudo parece errado. Mesmo com a contracapa me dizendo que a tripulação inteira voltou sã e salva após os dois anos que passaram vencendo as provações, não tinha como acreditar. Eu queria chegar logo à próxima página para ver como diabos eles conseguiram sair dali. O resgate veio suado e através de um dos maiores feitos que a história náutica conta. Mal sabia Shackleton que sua grande aventura não seria mais cruzar a Antártida, mas sair dela levando consigo todos os seus homens – o que ele fez de maneira prodigiosa.

Depois da volta, nenhum dos membros do Endurance encontrou fama além do fotógrafo Hurley. Shackleton recebeu o título de Sir pela coroa britânica, mas não foi reconhecido como herói. A guerra estava tirando vidas de soldados jovens e não havia espaço no panteão para um envelhecido e teimoso lobo do mar. Um deles passou seus dias vagando bêbado pelo porto, outro se casou e nunca contou aos vizinhos o que tinha passado. Houve quem tentasse repetir a aventura, tentando ficar encalhado no gelo de propósito, sem sucesso.

O problema, talvez, foi que o Endurance não levou a recordes, marcos ou bandeiras fincadas onde nenhum ser humano havia pisado. O companheirismo, a lealdade e a vontade de sobreviver não são troféus pesados para se colocar na estante, ou medalhas para se pendurar no pescoço. Mas foi “apenas” isso que a expedição conseguiu.

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O Endurance tombando

Para saber mais e ver as fotos de Frank Hurley, clique aqui.

Vivi Griswold às 10:45 AM

quinta-feira, 14 de outubro de 2004

Quando crescemos

É assim a vida: os anos passam e a gente acumula velas no bolo, experiência a mais e tempo a menos na bagagem. Os seres humanos, como todas as outras criaturas vivas, nascem, crescem, se reproduzem – no caso de pessoas estranhas como o Michael Jackson, provavelmente por cissiparidade – e morrem – ou não, como o Silvio Santos. Mas eles são exceções.

Nós, meros mortais, passamos pela infância, adolescência, vida adulta, temos alguns pimpolhos (ou não) e, cedo ou tarde, topamos com a Indesejada. E, em algum ponto entre da carteira de motorista e a chegada dos netos, bate aquele estalo que diz: “puxa, estou ficando velho”.

Não me senti mais adulta ao terminar a faculdade, nem ao comprar meu primeiro carro. Tampouco me achei uma mulher crescida ao partir para a aventura de dividir uma casa – e todas suas contas – com um garoto. No entanto, percebi que estava ficando velha quando...

Comecei a usar a frase “Fica com Deus” ao me despedir
Essa é típica de tias mais velhas e mais Mirtes. Toda reunião de família terminava com um “vai com Deus” ou “fica com Ele”. Eu achava o dito o maior símbolo de ser uma tiazota gorda, com bigodes aloirados – e pensava que da minha boca aquilo nunca sairia. Mas qual! Pelo jeito, só me faltam uns quilos a mais e um pouco de água oxigenada. A frase, já domino.

Botei na memória do rádio estações de easy-listening
Para mim, Alpha FM e Antena 1 eram a cara da minha mãe, com aquela seqüência de canções que pareciam ser a mesma única música. Imagina se um dia eu ia curtir essas rádios de enfartado! Pfff. Paguei a língua: dirijo longos percursos ao som dos 56 minutos de música da Antena 1. E ainda canto junto “I Should Have Known Better” – mais conhecida por “E Chama o Bombeiro”.

Me peguei explicando para minhas colegas de classe o que foi o Menudo
Essa foi a gota d’água. Outro dia, na aula de espanhol, sabe-se lá porque surgiu o assunto dos cinco rapazes de Puerto Rico. E eis que se instala um ponto de interrogação na cara das minhas camaradinhas de classe, duas mocinhas simpáticas cujas idades não ultrapassam os 20 anos. E toca a explicar a origem das boys-bands contemporâneas e meu mico no Bruno Daniel.

Falando da adolescência, saquei da velha “ah, seu eu soubesse o que sei agora”
Se quem vive de passado é museu, bem, podem me chamar de Louvre. Adoro uma boa conversa regada a momentos inesquecíveis do filminho que é nossa vida. Ainda mais acompanhada de amigas de tão longa data que estiveram lá nos 90 comigo. Num desses papos, sem querer nem pensar, soltei a pérola acima. Foi a prova final de que já me vejo como outra pessoa.

Perdi o pique de viajar no esquema bate-e-volta
Idéias cretinas como viajar até a praia com um amigo recém-habilitado, enfiando seis pessoas num Gol 1000 em pleno Carnaval, sem lugar para dormir, já não me apetecem. Não ligo para instalações nababescas, mas exijo um banheiro próprio – ou com reservado – para o banho. Ficar peladona na frente de gente que nunca vi na vida, mesmo mulheres, não dá mais.

Usei mais de uma vez a fatal “no meu tempo”
Pronto: você pode ter passado incólume por todos os itens acima. Mas se já proferiu, uma vezinha só que seja, a máxima acima... seja bem-vindo ao time das pessoas que cresceram – e perceberam isso. No fim, que mal tem? Claro que ninguém vive exclusivamente do passado, mas jogar sua história fora é besteira.

Ainda mais quando ela inclui coisas tão divertidas quanto pirulitos com pó, lendas sobre bonecos com punhais escondidos, desenhos sobre amigos perdidos em outra dimensão e, é claro, cinco rapazes porto-riquenhos que berravam refrões edificantes como “não se reprima” ou “sabes a chocolate”.

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Vistos da arquibancada do Bruno Daniel,
eles mais pareciam playmobils


Clara McFly às 05:48 PM


Mata ele, mata, mata!

Em geral, não sou muito chegada em filme-sangueira, sabem? Curto bastante ver uma bela troca de sopapos, mas desde que não espirre muito líquido vermelho cenográfico na tela. Dá nojo, embrulha o estômago, é brutal em excesso. Eu sou menina, diabos! Ainda assim… bom, preciso confessar ter certa queda por alguns peso-pesados do jato de sangue. Também não sou santa, poxa.

Aliás, esse traço de agressividade deve estar guardado comigo e em todas as pessoas, em maior ou menor grau. Quem nunca teve ganas de chutar um traseiro por aí? Ou prometeu, sem intenção verdadeira, atropelar fulado com o carro? Ah, sim. Mais dia, menos dia, a besta-fera se apossa do nosso ser por uns segundos. Nessas horas, eu lembro dos nervosinhos sanguinários destes filmes.

Estrada para a Perdição
Fimes de gângsteres são sempre uma festa para olhos que pedem morte por espancamento ou tiro na boca. Os homens de Chicago devia ser mesmo bravos… Neste filme, até o doce Tom Hanks vira matador contratado – e dá cabo de uma dúzia e mais do Jude Law. Tudo na frente do filhinho! Coisa meiga!

O Troco
Que Mel Gilbson reza em casa e dilacera corpos nas telas, todo mundo sabe. Apesar de ser católico fervoroso e pai de uma renca, ele não mede mesmo esforços para produzia poças de sangue. Nem fui ver "A Paixão de Cristo", sabem? Se em "O Troco" um qualquer leva marteladas nos pés, devem ter pegado Jesus pra Cristo de jeito…

A Assassina
Saí do cinema querendo dar uns chutes no ar ou acertar cabeças distantes com minha carabina de mira laser! Influenciável? Imagina. Mas Bridget Fonda surpreendeu mesmo nesta média refilmagem de "Nikita", de Luc Besson. O original é muito mais poético, mesmo matando dezenas de pessoas. Mas franceses não sabem estourar miolos como americanos.

O Clube da Luta
Rinha de galo ou de cachorro é coisa de amadores. Bom mesmo é levar ao cinema um bando de marmanjos que se socam por puro prazer. Partidas de golfe ou reunião no bar? Que boiolagem! Edward Norton e/ou Brad Pitt é que sabem fazem um maxilar balançar. E quando Eddie briga consigo mesmo, então? Ganhou até o prêmio de "Melhor Luta" em algum MTV Movie Awards.

Os Bons Companheiros
Se os gângsteres de Chicago chupam a abelha, e não comem o mel, o que dizer de um grupo com Ray Liotta, Joe Pesci e Robert de Niro? Sobram tacos de beisebol acertando cocos e homens jogados ao mar com os pés ligados à uma bacia de cimento. Não deixe o doce título enganar – em "Goodfellas", o mais bonzinho deve ter enfiado bambu sob as unhas da própria mãe.

Cães de Aluguel
Ri à beça com a distribuição de apelidos-bandidos. Todos queriam ser Mr. Black, ninguém perdoava Steve Buscemi por ele ser Mr. Pink. Então a gracinha acabou e veio a cena do espancamento de Michael Madsen, cuja orelhinha… argh. Deixei o filme pela metade naquele dia e fui tomar uma água. Demorei meses para ver a obra de Quentin Tarantino por inteiro.

Kill Bill 1 e 2
Por falar no rapaz mais psico de Hollywood, tive o prazer de conferir o volume 2 de seu "Kill Bill" no último feriado. Que primor! Não contente em rasgar 88 Malucos com sua espada Hattori Hanzo, a Noiva quis mais briga. Neste segundo existem muito mais explicações, reviravoltas e palavrório – ao contrário do primeiro, onde o esquicho funcionou conectado à um caminhão-pipa de sangue falso. Mesmo assim, tem a briga da protagonista contra Elle Driver (Daryl Hannah), um serviço funerário muito especial e, mais do que tudo, o fabuloso treinamento da Mamba Negra. Agora já decidi: quero aprender kung-fu. Mas só se ensinarem a técnica de cinco pontos que explode o coração da vítima. Perdoem o nervosismo da minha besta-fera interior…

Fla Wonka às 02:50 PM


25 anos de batom borrado

Não, este texto não será sobre aquela sua tia-avó que há 25 anos não consegue acertar o contorno da boca e passa batom vermelho do nariz ao queixo, envergonhando a família em dias de festividades. Na verdade, hoje quero falar sobre um cara – sim, um cara! – que adotou o visual citado anteriormente para fazer um estilo só dele e que, com essas e outras, vem me encantando desde criança.

Em meados dos anos 80, quando eu tinha uns 8 anos, minha mãe ainda cursava a faculdade de medicina. Como aconteceu com muitos pirralhos com pais profissionais, eu praticamente cresci na casa da minha avó. Naquele tempo, morava lá um ser adoravelmente estranho: meu tio, o caçulinha, vivia no Madame Satã e ouvia os melhores discos da época no último volume. Foi por causa dele que eu conheci algumas das minhas bandas mais queridas in loco.

Eu ficava felicíssima quando ele me deixava entrar no quarto sempre trancado e me mostrava o que havia além dos hits infantis. “Chega de Menudo!”, dizia, e botava o bolachão para tocar canções estranhas em uma língua que eu não entendia. Meu favorito era um artista de voz um tanto esganiçada e teatral, cantando melodias que grudavam na minha cabeça. Eu cantava junto – ou melhor, tentava acompanhar os sons formando uma língua totalmente nova – e meu tio, orgulhoso de sua pupila, começava a contar quem era aquele sujeito. O sujeito era Robert Smith e, a banda, The Cure.

Muitos podem dizer que o rock um tanto gótico e sombrio não combinava com uma menininha, certo? Errado. O que mais me fascinava nos ingleses, e continua me fascinando, era a aura de faz-de-conta. A maquiagem de Smith, seu cabelo espetado e sua cara rechonchuda me lembravam de um palhaço que nenhum circo quis porque nem sempre ele fazia as pessoas rirem. Era um palhaço um tanto atormentado, mas que me contava histórias bacanas, como a da garota-lagarta (foi o céu quando meu tio me traduziu a letra de “The Caterpillar”).

Eu cresci, titio se mandou para Londres e minha paixão pelo Cure ficou mais apurada. Comecei a entender sozinha as letras e entrar melhor no mundo que elas abriam. Comecei a ler matérias a respeito, e saber, entre outras maluquices deliciosas, que Robert Smith costumava assistir a sessões longuíssimas de filmes de terror só para ter pesadelos e usá-los como tema de canções. Foi assim que surgiu, por exemplo, o hit “Close To Me” e seu incrível videoclipe – no sonho, ele estava preso dentro de um armário que caía num precipício.

O Cure é uma daquelas bandas que não se pode rotular. Tem a fixação por sombras e criaturas noturnas, mas tem também pelos gatos e por bebês japoneses. Existem letras sobre pesadelos, mas somam-se a elas canções de amor arrebatadoras. Sem falar que Robert Smith, merecidamente, virou ícone pop. Tanto Neil Gaiman quanto Tim Burton já confessaram a inspiração no vocalista parar criarem, respectivamente, Sandman e Edward Mãos de Tesoura. E o episódio de “South Park”, quando Smith salva a Terra da maligna Barbra Streisand?

Agora me eu vontade de ouvir “Just Like Heaven”. Se fosse você, faria o mesmo.

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Vivi Griswold às 10:49 AM

quarta-feira, 13 de outubro de 2004

Toque de novo, Sam

Ou: Abacates milicos, bebidinhas e velhos assados

Tá certo que uma música não deve ser julgada só por sua letra – senão, que fôssemos todos ler poesia. O que vale mesmo é a emoção, a ocasião para a qual a canção se presta e a combinação da personalidade do cantor (ou banda), do arranjo e, por fim, das palavras cantadas. Mas é justamente nesse imbróglio que tem gente que se safa sem juntar trá com lá – ou, como diria a sapientíssima Dona Ivone Lara, rimando boi com abóbora.

Eu não sou crítica musical. Apenas uma humilde apreciadora que busca se despir o máximo possível dos preconceitos para escutar toda sorte de música. Já defendia Claudinho & Buchecha antes mesmo da Adriana Calcanhoto gravar uma canção dos dois e o público pseudopensante dizer “amém”.

Um amigo me ensinou uma excelente tática para notar se a letra de uma canção é boa – ou ao menos faz sentido. Basta recitar os versos, lê-los mesmo, sem som ou ritmo. Mas cuidado: chutar cachorro morto é fácil.

Achar que as músicas do É o Tchan ou do Molejão não dizem muito é barbada, com “Segura o tchan, amarra o tchan, segura o tchan, tchan, tchan, tchan, tchan” e “Diga aonde você vai que eu vou varrendo, vou varrendo, vou varrendo, vou varrendo, vou varrendo” (lembrem-se de recitar as palavras, à la Cid Moreira e suas gravações da Bíblia).

O duro é que, quanto mais aclamado pela crítica for o artista, mais difícil é perceber a folha seca que tomamos com canções cujo entendimento é um desafio – se é que as tais guardam mesmo alguma coisa para ser entendida.

Claro que ainda há a variante de interpretações: o legal de qualquer obra da criatividade humana é a enorme gama de interpretações possíveis. Mas ainda assim, não descobri o que o Excelentíssimo Ministro da Cultura quis dizer com uma das músicas dele que mais gosto, “Refazenda”.

Livre-se da levadinha alegre da canção e repita comigo: “Abacateiro, acataremos teu ato, nós também somos do mato, como o pato e o leão (...) Abacateiro, teu recolhimento é justamente o significado da palavra ‘temporão’. Enquanto o tempo não trouxer teu abacate, amanhecerá tomate e anoitecerá mamão”. Há quem diga que a referida letra era uma mensagem cifrada sobre a ditadura – o verde do abacate ligava a figura aos milicos e seus uniformes.

Posso confessar? Mesmo assim eu não entendi. Que os militares têm a ver com o tomate e o mamão? Mais para frente, Gil segue cantando “Abacateiro, sabes ao que estou me referindo...”. Só a árvore mesmo, Gil. Porque eu ainda não entendi lhufas dessa salada de frutas.

Outro figurão que nos deu uma folha seca genial foi Tim Maia. O que diabos ele quis dizer com “Do Leme ao Pontal”? Era para homenagear o Rio, certo? “Do Leme ao Pontal não há nada igual – sem contar com Calabouço, Flamengo, Botafogo, Urca, Praia Vermelha”. Já seria suficientemente estranho uma música inteira ficar só nisso – e quase fica. Mas ainda tem a parte do “tomo guaraná, suco de caju e goiabada para sobremesa”.

Vai ver o síndico achou por bem reunir sua celebração da Cidade Maravilhosa a uma lista do que ele mais gostava de beber e comer. Mas acho difícil acreditar que Tim gostava mais de suco de caju que da água negada por passarinhos.

Mas a coroa de hoje vai para o Secos & Molhados. A banda é sensacional e fez história, merecidamente. Agora, alguém me explica o que é aquela letra de “Assim Assado”?

A história é tão para lá de Marrakesh que eu duvido que seja mero fruto do uso de substâncias ilegais. O segredo da fórmula da coca-cola ou das pirâmides do Egito deve estar cifrado lá, entre os versos que falam do encontro do guarda belo (talvez seja o do Zé Colméia. Ou não) com um velho assado.

Perdoem minha humilde ignorância e saibam que aceito explicações.


Clara McFly às 06:47 PM


Meu acerto

Um monte de gente escreve diariamente à nós, garotas, elogiando pelo textos e pela postura perante à vida. Dizem que somos boazinhas, acertadas e corretas. Não sabem da missa a metade, os pobres… Falo por mim, claro. Houve um tempo em que não segui as regras da convivência humana. E sabem o que mais? Não me arrependo nem por um segundo, nem por um dia, de ter optado por um moço chamado Marcus.

Quando conheci o rapazinho para o qual olho todo dia ao acordar, ficamos amigos logo. Ele sentava duas mesas à frente e era testador de carros. Isso aí: enquanto eu me desdobrava para atender aos pedidos de leitores numa grande revista automotiva, ele fazia matérias já. Apanhava máquina poderosas e consumidoras de petróleo a rodo, esmerilhava todas elas numa pista e depois escrevia sobre isso.

Era jornalista do bom, era corajoso, era inteligente e divertidíssimo. Como não apaixonar pela criatura assim – e portadora de olhos mais azuis que o céu de Aruba? Pois existia um problema. Ou dois. Eu tinha um namorado há cinco anos. Ele tinha uma garota há seis. Não era certo jogar relacionamentos de tão longa data para o alto, né? Pena que pensar racionalmente não deu certo.

Os namorados foram para o espaço rápido feito foguete – com todo respeito… E logo que demos os primeiros passos lado a lado, eu já sabia: aquele menino não passaria em branco pela minha vida.

Tudo bem: ele gostava de Jota Quest e usava uns tênis chocantemente coloridos, parecendo calçado do Bozo. Ele fazia constrangedoras imitações da dupla ET e Rodolfo e dirigia feito um alucinado dentro de estacionamentos. Ah: pra arrematar, almoçava numa churrascaria e dizimava uma pilha de bistecas em poucos minutos. Por que gostar de um garoto que misturava Speed Racer com o Predador? Porque no meu hoje-marido, os defeitos são qualidades.

Juro por esses olhos que a terra há de tragar: é difícil reclamar do Marcus. Eu reclamo muito, mas logo depois arrependo. Droga, ele não erra! No máximo, se engana um bocadinho. E compensa todos os meus defeitos com defeitos dele mesmo – que, no caso, viram qualidade. Querem ver?

Obsessivo
Dê uma tarefa pro rapaz e veja o mundo parar. Quando gosta de astronomia, lê um livro sobre isso, compra um telescópio e aprende os nomes das constelações em alguns dias. Quando gosta de foto, sabe fazer uma câmera virar pincel de artista. Quando se interessa por tênis, rompe os ligamentos num treino só para buscar a bola difícil. Pra mim, que desisto de muita coisa no terceiro obstáculo, é um mistério como ele consegue ser assim. Mas se hoje nossas tomadas funcionam e os quadros estão pregados, é mérito dele.

Metódico
No momento, minha mesa de escritório em casa conta com uma pilha de revistas velhas, duas caixas de tralhas, centenas de canetas, bloquinhos, brinquedinhos rodeando o computador zoado. Na dele, um laptop e… só. Irrita tamanha organização? Opa se irrita! Mas graças ao Marcus nos livramos de perder passaporte, passagem e documentos em viagens. E em casa também. Podia ser um gênio do mal, de tão maníaco, mas não é.

Previdente
Eu planejo coisas para algumas semana à frente. Uns meses, no máximo. Gosto de viver o presente e imaginar o futuro, quando muito, pra um ano mais. Nem sei quantas brigas tivemos por isso! O Marcus previne os acontecimentos pra anos e anos. Por causa dele, nossa filhinha que vem por aí deverá ter moradia garantida antes de fazer seis anos… De mim ela ganhará o jantar. Dele, uma aposentadoria feliz. Não há competição.

Preguiçoso
Mas Mister Correção também tem momentos de fraqueza. E até nisso ele acerta, diabos! Quando acabam os almoços de fim de semana, parece que jogaram pó chinês no Blue Eyes. Ele fica em letargia pura. Pra mim, pessoa com mania de nunca sentar ou ficar quieta muito tempo, é ótimo. Se vou dormir antes das 2h00 da madrugada, é por causa dele. Me salvou de ser notívaga, o cara.

Diplomático
A fila demora e eu já vou lá na frente encarar a atendente, perguntando "coméquié, vai andar ou não??". Ganho um olhar gélido e nenhuma solução. Ele vai, pergunta delicadamente com voz de travesseiro e ganha o direito de passar na frente. E faz uma amiga. Arranja amizade em qualquer canto, sabem? Um dia vou inscrevê-lo para candidato a vereador. No quesito gentileza, ele vence sempre. E muitos devem dizer por aí "aquele é o Marcus, o moço bonzinho casado com aquela bruxa"… Saco.

Anteontem foi aniversário dele, por isso decidi contar a vocês mais sobre quem é a criatura de 31 anos com quem divido a vida. Querem uma ilustração plena, para arrematar? Lá vai.

Quando fomos negociar nosso atual apartamento, o dono fez sacanagem. Quis receber uma parte do dinheiro "por fora", pra pagar menos imposto de renda e burlar a lei. Fez cena, sapateaou, soltou o desgastado e revoltante "mas todo mundo faz isso". O Marcus, que detesta coisas erradas por convicção, respondeu "mas eu não faço". O velho maldito, então, finalizou: "você quer ir pro céu, cara".

Ele quer. E vai mesmo. Eu não, porque optei por ficar com ele mesmo tendo outro namorado, o que deve ser contravenção lá no paraíso. Que importa? Ainda acho que acertei muito.

Fla Wonka às 02:29 PM


Don’t cry for me, Argentina

Boletim Ushuaia #4

Eu voltei. Mas como em toda boa experiência turística de 30 dias, voltei diferente de como fui. Algo sempre muda, e às vezes nem conseguimos registrar muito bem qual foi a mudança. Desta vez, eu sei: voltei completamente apaixonada por nossa vizinha chamada Argentina, tantas vezes maltratada por birras territoriais bobas feitas por brasileiros que nunca sequer pisaram o pé naquela terra. Pois a partir de agora, defenderei o país com unhas e dentes e explico por que.

Conheço a Argentina melhor do que muito argentino. E mais: conheço a Argentina melhor do que conheço o Brasil. Mas não é de todo minha culpa: turismo aqui em nosso território é feito para gringo (que ganha em dólar ou em euro), ou para quem gosta de praia e calor. Como não me encaixo em nenhuma das duas alternativas, realmente sobram poucas opções a serem exploradas. Na Argentina, não. Lá tem de tudo.

Tem o burburinho incessante de Buenos Aires e o silêncio aterrador da planície patagônica. Tem o sol sempre quente da região vinícola de Mendoza e a neve branca e fofa de Ushuaia. Tem a água abundante da região dos lagos e a seca da Ruta 40. Tem grandes picos nevados e penínsulas apinhadas de baleias, pingüins e elefantes marinhos. Tem a amplitude majestosa do glaciar Perito Moreno e a minúscula cidade de Bajo Caracoles com suas 10 casas. Tem a parte mais bonita das Cataratas do Iguaçu. Tem a paixão pelo cigarro, infelizmente, e pelo Maradona, felizmente. E, mais do que tudo isso, tem o amor pela pátria estampado em azul e branco por onde quer que olhamos.

Foram quase 30 dias rodando por aquelas estradas e enchendo o tanque de uma potente gasolina a pouco mais de 1 real o litro (chegamos a ver um posto que vendia o artigo a 99 centavos). Impossível não abraçar nossa anfitriã – de repente, já estávamos vivendo de alfajores e achando realmente que as Malvinas são argentinas. Quando três de nós quatro ficamos doentes, até pedi para a Difunta Correa e para o Gauchito Gil, patronos sobrenaturais das estradas, uma ajudinha.

Lemos em cada uma das matérias sobre viagens de carro pela Argentina o mesmo aviso por parte dos brasileiros: cuidado com os guardas rodoviários, que são grossos e multam a torto e a direito sem o menor dó. Ou eles foram muito azarados, ou nós fomos sortudos demais. Ou, mais provável, há aí um resquício daquela velha rixa (vai ver, eles mereceram a multa, não?). Porque não fomos punidos uma só vez. Todos os policiais que nos pararam por conta da placa estrangeira foram totalmente amáveis e nos ajudaram muito a encontrar o caminho.

Quando cruzamos a ponte que liga Puerto Iguazu a Foz do Iguaçu, no último sábado, paramos para pensar e recapitular tudo o que aconteceu nessas férias incríveis. Já estávamos com saudades – o que significa que valeu, sim, muito a pena.

Obrigada por tudo, vizinha. Quem sabe eu ainda não desço até aí de novo para a gente conversar mais.

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O Doblô e a Ruta 40
Vivi Griswold às 10:40 AM

sexta-feira, 8 de outubro de 2004

Temos vagas

Serviço de quarto. Café da manhã igual ao de novela. Sabonetinhos embrulhados. Esses são alguns dos artigos encontrados em tudo que é casa de hospedagem. Mas outros itens parecem ser bem mais raros – e aparecem só em hotéis, resorts e afins da telona ou da telinha doméstica.

Tá certo que nem todo hotel corresponde às expectativas dos hóspedes. Alguns chegam mesmo a ser assustadores. Mas ainda não ouvi uma história de férias envolvendo irmãs testudas fantasmas ou gurus naturalistas que meditam pelados. Esses opcionais, só mesmo no cinema ou na tv. E você? Se saísse de férias, preferiria aportar em qual hotel imaginário anunciado aí embaixo?

Overlook Hotel, “O Iluminado”
Instalações luxuosas e localização privilegiada, longe de qualquer alma viva. Já a distância de almas penadas, não garantimos. Muito siso e pouco riso podem fazer suas férias inesquecíveis – especialmente se você for da família do zelador.
Diferenciais: passeios de tonquinha pelos corredores, monitorados por irmãs que já foram dessa para uma melhor, mas cheias de disposição para brincar com você. Para todo o sempre.

Bates Motel, “Psicose”
Precisando de um lugar para passar a noite? Nós temos as melhores acomodações. É como a casa da sua mãe – ou da minha, embora a velhota fique sempre no sótão. Atenção especial aos hóspedes – especialmente se eles estão sozinhos, fugindo com uma maleta de dinheiro.
Diferenciais: duchas literalmente emocionantes. Vai ser o banho da sua vida!

Resort na Flórida, “Férias do Barulho”
Se você procura um reduto de mulheres e belas praias, coroado por uma trilha sonora oitentista, seu lugar é aqui. Entre os hóspedes malucos, temos uma guru meio maluca que curte meditar peladona, repetindo um estranho mantra do tipo “hanna banana, venha a mim”.
Diferenciais: a chance de topar com Johnny Depp fazendo uma ótima besteira de começo de carreira.

Ilha da Fantasia, “Ilha da Fantasia”
Seus desejos mais secretos podem ser realizados nesse pequeno pedaço de terra cercado de água por todos os lados, sob o comando atento do senhor Roarke e do impagável Tattoo. Sempre quis ser rico? Ou quer almoçar com “As Panteras”? Nós resolvemos tudo.
Diferenciais: satisfazer seu desejo já não é o suficiente?

Mon Signor Hotel, “Grande Hotel”
Nossas instalações já foram grandes um dia, mas ainda quebram o galho. Apesar da decadência, nosso mensageiro é o Tim Roth – e ele fará de tudo para proporcionar o maior conforto possível para você e sua família, mesmo que vocês sejam bruxas fazendo estranhos rituais.
Diferenciais: você pode cruzar com Antonio Banderas, Madonna ou Quentin Tarantino – ou topar com um dedo decepado devido a uma aposta idiota na lixeira do hotel.

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A água tá boa, Janet?

Em memória de Janet Leigh (1927-2004)


Clara McFly às 06:49 PM


Não era pra mim? Droga…

Tem gente que pensa assim: para conquistar um coração é preciso gastar uma dinheirama, se comportar muito bregamente contratando seresteiros e fazer papelão em público. Sinceramente, agradeço nunca terem feito isso comigo… Estou com Vivi: demonstrações amorosas típicas de "Domingo Legal" são boas para rir com a tv, mas embaraçosas por demais. Meu coração há muito prefere as canções escritas na calada da noite para um amor secreto. Ai, ai…

Mesmo que não sejam as músicas prediletas para sacudir o esqueleto, as cinco pérolas selecionadas abaixo me fazem parar tudo e seguir escutando e viajando. Quem teria ganho a dádiva de servir como musa para tantas formas lindas de expressar paixão? Sortudas malditas de uma figa… Ai, ai…

Também não sei se os objetos de tamanho desejo caíram no truque e se deixaram embalar pelo som, caminhando até as garras dos tipos bons de cantada. Que importa, no fim? Se emplacaram ou não uma beijoca ou algo mais, é o de menos – o bom é que os inventores dessas canções criaram hinos que, eu confesso sem dó, adoraria que tivessem sido feitos com a Flá no pensamento… Ai, ai…

Minha namorada – Vinicius de Moraes e Carlinhos Lyra
"Se quiser ser somente minha, exatamente essa coisinha/ Essa coisa toda minha/ Que ninguém mais pode ser/ Você tem que me fazer um juramento/ De só ter um pensamento/ Ser só minha até morrer…" Tem coisa mais soco no baço do amor do que pedir pra ficar junto dessa maneira? Derreti na primeira vez em que ouvi a música, derreto igualzinho até hoje. Se essa moça não aceitou namorar com ele, merecia ter os olhos arrancados com uma colher enferrujada!

Michelle – Lennon e McCartney
Com aquela toada de bandinha triste, o beatle canta para Michelle – e, dizem os fofoqueiros, ela seria uma socialite francesa por quem ele arrastou asa um dia. Se tem sorte maior do que ganhar os versos "Michelle ma belle/ Sont les mots qui vont tres bien ensemble/ Tres bien ensemble" (Michelle minha bela/ São palavras que ficam muito bem juntas"), essa sorte é ouvir isso do Paul McCartney. Dá vontade de chamar Michelle só por causa dessa música.

Can’t Take My Eyes Off You – Frankie Valli
Não é só uma letra, é um poema completo. E junta absolutamente tudo o que qualquer garota adoraria saber: você é boa demais pra ser verdade, não consigo tirar os olhos de você, te tocar é como tocar o paraíso, quero te abraçar demais… Mas minha parte preferida é "The sight of you leaves me weak/ There are no words left to speak/ But if you feel like I feel/ Please let me know that it's real" (Ver você me deixa fraco/ Não há palavras pra dizer/ Mas se você sente como eu/ Por favor, me faça ver que é verdade). Chorei aqui.

The Way You Look Tonight – Nelson Riddle
Foi cantada por Billie Holiday, Frank Sinatra, Tony Bennett – mas, se querem saber, minha versão mais querida é com Rod Stewart. Não importa, porém, quem eleva um trecho dessa maravilha: se o Zé do Caixão interpretar "The Way You Look Tonight" fica lindo. O ponto alto: "Lovely ... Never, ever change/ Keep that breathless charm/ Won't you please arrange it ?/ 'Cause I love you/ Just the way you look tonight" (Adorável… Nunca, nunca mude/ Mantenha o charme de tirar o fôlego/ Você pode fazer isso?/ Porque eu te amo/ Do jeito que você está esta noite). Como essa criatura estava?? Eu dou um dedo pra saber…

Gatinha Manhosa – Rei e Tremendão
Só digo uma coisa: "Um dia gatinha manhosa eu prendo você no meu coração/ Quero ver você fazer manha então" é deliciosamente cafona e encantador. Foi escrita para a doce mamãe de uma amiga minha, que teve namorico com Erasmo Carlos! Quanto a esse hino, pelo menos, eu já sei a quem invejar…

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Tá bom, eles davam medo... Mas não na "gatinha manhosa"!
Fla Wonka às 03:50 PM

quinta-feira, 7 de outubro de 2004

Sem saída. Mesmo

Há uma teoria que dá conta da existência de, digamos, várias inteligências diferentes. Assim: um sujeito pode ser muito bom em línguas, por exemplo, e incapaz de resolver um cubo mágico. Pode lembrar de cor as frases de um filme meses depois de vê-lo, mas se perder caso mude uma rua do trajeto que faz todo dia. Enfim, a idéia é que todos têm pontos fortes e pontos fracos na cachola.

A propósito, antes que vocês achem o exemplo absurdo, aviso que essa sou eu. E tenho testemunhas. Sou capaz de guardar na memória detalhes mínimos de acontecimentos passados há anos, mas saio do banheiro do shopping sempre para o lado errado, dando de cara com o beco em vez do corredor que me leva de volta às lojas.

Minha noção de direção é pífia – assim como minha memória espacial, de modo que devo estar entre as piores pessoas do mundo em Geografia – descontados, claro, os americanos, para quem Buenos Aires é a capital do Brasil. Mas confesso que há países que eu não saberia localizar no mapa ou sequer dizer a qual continente pertencem. Tipo Burma. Sempre fico na dúvida se é Ásia ou África.

Tudo bem. Nem sempre se pode ser Deus. Seja por uma bagagem acadêmica não muito consistente – muitas vezes por falta absoluta de condições econômicas – ou por uma defasagem pessoal, não dá para saber tudo, certo? Certo. Mas tem algumas coisas que deveriam fazer parte do senso comum. Exceto para alguns dos participantes do “Sem Saída”, programa que mistura jogo e realidade apresentado por Márcio Garcia.

Eu estou viciada na danada da atração, por duas razões simples: eu caio em qualquer game-show e “Sem Saída” é um dos melhores humorísticos involuntários no ar atualmente. E, como boa apreciadora de game-shows, sei que é muito mais fácil responder tudo no conforto do seu lar do que no estúdio, sob os holofotes. O nervosismo conta – e muito – no curto-circuito temporário dos neurônios.

Ainda assim, não consigo conter as gargalhadas com algumas das respostas fornecidas pelos participantes do espetáculo. Descontei aquelas que podiam ser culpa de uma formação sem muitas oportunidades; considerei o fator nervosismo e, ainda assim, sobraram pérolas dignas de nota. Aí estão elas.

Problemas geográficos
Márcio Garcia: Bagdá é capital de que país?
Participante: Israel!
Eu também sou ruim de geografia, mas por Deus! Isso está no noticiário toda noite! E, como se não bastasse, não dava para ter chutado ao menos outro país árabe?

Anatomicamente difícil
MG: Que parte do próprio corpo o pintor Van Gogh cortou?
P: Ah, sei lá... a cabeça?
Sim, claro. De todas as partes que compõem nosso corpinho, cortar fora a própria cabeça é o mais provável.

E que branco!
MG: Quem descobriu a América?
P: Er... deu branco.
Deve ter sido o nervosismo. Não é possível, não consigo achar outra explicação.

Por eliminação
MG: Os pára-quedistas fazem parte de qual divisão das Forças Armadas: Exército, Aeronáutica ou Marinha?
P: Marinha!
Eu também não sabia ao certo e calculei: bem, pode ser aeronáutica ou exército... Mas antes que eu pudesse decidir por qual chutar, eis que a inquirida confia no impossível.

Tô com ela e não abro
MG: Em que continente fica o Suriname?
P: Er... Asiático?
Eu digo que esse país não existe... Assim sendo, cada um põe o Suriname onde quer. No bom sentido, sempre.

E o gran finale...
MG: Qual o feminino de leitão?
P: Pernil.
É duro de acreditar, eu sei. Mas o referido é verdade e dou fé. Vi com esses próprios olhos castanhos. Aparentemente, a menina achou que era para fazer uma livre associação de idéias a partir da última palavra da frase. Ou não ouviu a pergunta. Ou não sabe o que é “feminino”.

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Aí está a pobre mulher do leitão...
Clara McFly às 06:13 PM


Visita aos medalhões

Ver filme antigo é um bálsamo. Mesmo eu, que adoro ir ao cinema hoje assistir qualquer tranqueira, acabo cansando de estrelinhas e atorezinhos que se acham muito melhores do que são. Atualmente, poucos cantam, dançam ou mesmo interpretam de maneira convincente. Por isso voltar no tempo é tão gostoso.

Na verdade, a temática e os diálogos de produções dos anos 30, 40 e 50 eram muito mais inocentes que agora – mas também podiam ser geniais. Até nos filmes infantis era assim, porque o cinema nunca julgou as crianças bobas. Em "Mary Poppins", por exemplo, eu vibro quando o patrão diz à Mary "o que é esta bagunça, você pode me explicar?". E ela, candidamente, responde: "em primeiro lugar, senhor, vamos deixar algo perfeitamente claro: eu nunca explico nada".

Ontem mesmo tive o prazer imenso de revisitar um filme em preto-e-branco, daqueles que arrancam sorriso da gente a cada boa sacada, seja na imagem ou no roteiro. Por causa dele, lembrei das performances de outros vários atores e atrizes incríveis. Selecionei meus quatro prediletos em seus momentos de glória plena.

Marylin Monroe
E pensar que, faz umas semana, li no jornal que a modelo-atriz-e-anta Elizabeth Hurley proferiu a seguinte pérola: "se eu fosse gorda como foi Marylin Monroe, me mataria". Se isso fosse uma promessa, eu juro que rezaria pra Liz abusar dos doces e ficar obesa logo… Dona de reais curvas, caras e bocas, Marylin sempre foi além disso. Era ótima comediante, uma deusa cantando e um gênio da sedução cinematográfica. Estava perfeita no equilíbrio graça/profissionalismo em "Quanto Mais Quente Melhor". Mas minha visita predileta à loira é em "Como Agarrar um Milionário", onde ela está hilária fazendo uma cegueta caçadora de namorado. Liz Hurley deveria aprender alguma coisa assistindo a esse 3.454 vezes – de preferência, comendo chocolate, pra ver se ocupa aquela boca e evita dizer tanta bobagem.

Gregory Peck
Queridinho da mamãe e meu também, o Senhor Peck encanta a moças de qualquer idade desde a década de 30. Altivo, elegante, com um sorrisinho safado e encantador ao mesmo tempo, ele não tinha habilidades de dançarino como Gene Kelly ou de cantor, como Fred Astaire. Mas era um ator de marca maior no quesito "prender atenção". Fez isso em "As Neves do Kilimanjaro" e "O Ouro de Mackenna". Mas babo mesmo por Greg no mimoso "A Princesa e o Plebeu". E me mato de suspirar quando a princesa Anya diz "esse é o elevador?" e Joe responde com a cara mais espantada: "esse é o meu apartamento!".

James Stewart
Como um homem magrelo e pálido que anda permanentemente curvado pode ser tão incrível na tela, não sei dizer. Sei apenas que James Stewart era o predileto de Alfred Hitchcock por causa de seu ar de mistério com algum traço desastrado. Ele está ótimo em "Um Corpo que Cai", perfeito em "Janela Indiscreta" e soberdo em "Festim Diabólico". Mas, de todos os filmes do mestre do suspense, ele mata a pau de verdade em "O Homem que Sabia Demais". Quem canta como um rouxinol é Doris Day, mas James arrasa na atuação como um pai que teve o filho sequestrado no Marrocos. Existe alguém que me garante: "A Felicidade Não se Compra" é o melhor filme de todos os tempos. Eu não vi, mas se James Stewart está nele, bem pode ser.

Audrey Hepburn
Se o cinema não mostra no cartaz nada de muito bom, eu troco fácil a saída por me aninhar em casa e assistir, com pipocas, "My Fair Lady" ou "Quando Paris Alucina". A princesa Audrey canta bem, dança com leveza, sabe fazer o melhor tipo de drama e comédia com alguns minutos de câmera ligada. Em "Bonequinha de Luxo", ela interpreta com a competência de sempre, mas com um toque de bebum que caiu feito uma luva. Mas é em "Sabrina" que Audrey Hepburn arrasa corações e mostra seu brilho de estrela. Gozado como artistas genuínos não precisam ter voz poderosa ou muito porte… Magrinha feito um esquilo atropelado e retraída no começo, ela desabrocha durante a evolução da personagem. Foi esse que vi ontem, na televisão. E que visita fantástica!

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Ê, Audrey... Te ver com o nome
de "Sabrina" é um prazer e um privilégio!
Fla Wonka às 03:35 PM

quarta-feira, 6 de outubro de 2004

Que mal tem?

Vaidade, inveja, gula, avareza, ira, luxúria e preguiça: os sete pecados capitais definidos pela Bíblia há um bocado de tempo não deviam ter o mesmo peso. Quer dizer, nenhum deles é uma coisa exatamente boa, claro, mas alguns da lista são menos perigosos que outros.

Em “O Advogado do Diabo” o Coisa-Ruim, interpretado por Al Pacino, confessa que seu pecado capital favorito é a vaidade – ou orgulho. Já a inveja – como sabiamente sintetizaram aqueles adesivos automotivos de extremo bom-tom, geralmente colados atrás de uma Variant ou um Passatão – é uma m*rda.

O dito italiano mangia che te fa bene, sempre repetido pela minha avó diante de um prato de macarrão, contradiz os males da gula. É mesmo ruim comer demais, especialmente sabendo que tem gente sofrendo com a fome. Mas qual é a solução? Quem sofre com a fome continua sofrendo, quer você jogue fora um tantinho do que sobrou no prato, quer faça aquela força e mande tudo para dentro. O certo seria redistribuir – mas aí, caímos noutro pecado que não tem nada a ver com a gula: a avareza.

A avareza e a ira são mesmo terríveis, grandes males do mundo, e a luxúria... bem, quando entender de fato o que é a luxúria, poderei dar uma opinião. Por enquanto, fico com a preguiça.

Não considero a preguiça um pecado tão nocivo assim, vá? Claro, estou puxando a sardinha para o meu lado. Do grupinho de perdições mortais estabelecidas no livrão, é definitivamente a que mais me acompanha. Na verdade, de tanto pavor de ser estigmatizada como preguiçosa, fico arranjando mil coisas para fazer ao mesmo tempo.

Coçar o dedão do pé o dia inteiro é mesmo chato. Mas não ter sequer um tempinho do dia para parar e simplesmente ficar ali, deixando alguma coisa acontecer, não há de ser tão capital assim. Mais que isso, é até necessário.

E olha que não sou a única a defender o dolce far niente: sêo Domenico De Masi, professor e estudioso italiano, celebra há tempos o ócio criativo. Isso não quer dizer que todo mundo devia armar uma rede e esperar o maná cair do céu, mas sim ter prazer no que faz e não viver brigando com o relógio.

Tô com ele e não abro. Só não sei quando a humanidade vai perceber... e mudar uma porção de coisas, como obrigar um pobre garoto ou garota, do alto de seus 17 anos, a escolher o que ele quer ser para o resto da vida.

Enquanto isso, vou aprendendo a lidar com a minha afeição à preguiça. E me apóio nos belos versos de Lennon, cantados por ele em “I’m Only Sleeping”: “everybody seems to think I’m lazy/ I don’t mind, I think they’re crazy (…) please don’t wake me, no don’t shake me, leave me where I am – I’m only sleeping” (todos parecem achar que sou preguiçoso/ não me importo, eles são loucos (...) por favor, não me acorde, nem me sacuda, deixe-me onde estou – só estou dormindo!).

Ou nas palavras desenhadas sempre geniais de Quino, um dos meus cartunistas favoritos.

filipepreguica
Clara McFly às 05:41 PM


Concurso de dar em doido

Chega essa época do ano e as bancas de jornais são tomadas de assalto. O fenômeno impressionante faz a Mari Alexandre, seminua na capa de uma revista masculina, ficar relegada ao cantinho da vitrine. O espaço principal é destinado a um assunto bem menos torneado, mas capaz de chocar tanto quando as poses ginecológicas da modelo: vestibular. Ou, se quiserem, podem chamar de "bicho-papão".

Meninas e meninos com cerca de 17 anos ficam rodeados pela síndrome do vestibular quando chega o mês de outubro. A bem da verdade, pelo que andei pesquisando, muitos já começam a ter siricutico seis meses antes da prova chegar! Outros pensam nisso ao raiar de janeiro, graças aos pais e professores exigentes. Passar no teste e adquirir direito a cursar uma faculdade virou cruel obrigação, né?

Desde pequena eu quis ser arquiteta. Quer dizer, tive fases: dos 5 aos 7 anos, queria ser bombeira; dos 7 aos 10, resolvi que viraria aeromoça (ainda não se chamava "comissária de bordo" e ainda parecia ser boa opção para viajar de graça); dos 10 aos 16, mais crescida, estava decidida a ser arquiteta. Quando chegou a hora de escolher de fato, a cabeça revirou. Mas isso conto depois, porque não sou caso-padrão.

A maioria da molecada pós-adolescente não sabe bem o que quer ser na vida, mas sabe o que pretende prestar no vestibular. Sim, tem muita diferença! "Querer ser" envolve sonhos, delírios, vontades. "O que prestar" diz respeito ao tanto de grana que irá entrar na conta corrente todo mês, quanto prestígio tem a profissão, qual é a onda do momento. Ou vocês acham mesmo que todos aqueles candidatos a bacharelando de direito sempre imaginaram como seria divertido viver rodeado por pastinhas de processo?

Ninguém sonha com isso. A mente humana, principalmente a jovem, quer descobrir tesouros no fundo do mar, encontrar a cura pra uma doença grave, erguer edifícios glamourosos, desenhar roupas para vestir a Gisele Bundchen. Queremos ser bailarinas, âncoras de telejornal, pilotos de caça ou arriscar a sorte como magnata. Na hora de jogar a sorte no vestibular, no entanto, isso não vem ao caso. O negócio é avaliar friamente o futuro.

Por isso conheço apenas um geólogo, nenhum oceanógrafo, uma maestrina que virou analista de sistemas e 64 arqueólogos-que-não-o-são – e acabaram virando dentistas, publicitários, administradores. Ninguém consciente escolhe os "cursos esquisitos" ao completar a ficha do vestibular, certo? Mas por que não, poxa? Por que a molecada é impelida a decidir por segurança, dinheiro, poder e estabilidade em vez de sonho?

Não há diversão nenhuma em ser vestibulando. Todo mundo só quer saber das incrições, datas de prova, se está estudando até os olhos saltarem da órbita. É um fardo, é incerto, é angustiante. Porque não existe nesse concurso nenhum objetivo singelo e animador, eu acho. Vestibular virou sinônimo de sucesso de vida. Passou na USP? Vai ser rico e feliz. Não passou em nada?? Vai fazer cursinho?? Xi… tomara que o pai possa sustentar esse condenado burrinho por uns 20 anos… até que ele vire gari.

Fico nervosa por tabela por aqueles que vão fazer a tal prova. É um sem-número de guias e revistas e reportagens dizendo o que fazer no "grande dia". E já sei decor: é para não estudar no dia anterior, tentar relaxar ouvindo música suave, dormir bem na véspera, comer levemente no dia. Tem que vestir roupa confortável, levar uma barrinha de cereais para o local de teste, arrumar uma medalhinha de mandinga para dar sorte. Quanta bobagem!

É simples: não há regra. No dia em que fui fazer a famigerada Fuvest, acordei cedo. Estava com 38 graus de febre e uma gripe daquelas em que a cabeça parece expelir água por todos os buracos. No calorão, vesti blusa de lã para aplacar o mal-estar. Comi pouco e levei comigo uma santinha que a mamãe emprestou. Enchi de ficar naquela sala em meia hora, respondi tudo de qualquer jeito e tomei bomba já na primeira fase. Ainda bem que não tinha estudado muito durante o ano e não deixei de ir a nenhuma festa…

Querem saber? Nem liguei. Estava prestando outras três faculdades: direito, engenharia e jornalismo. Tudo a ver, não? Passei nas duas últimas e, depois de flertar com a primeira por duas semanas, escolhi a outra. Não optei pela minha profissão. Foi ela que optou por mim. Mas se tivesse pensado um pouquinho mais e contasse 27 anos em vez de 17, bem podia ter sido historiadora, professora ou fotógrafa.

Os manuais do estudante que pipocam na revistaria nesta época não dizem isso, mas a loteria de escolher uma profissão não termina após uma longa prova. Leva uns cinco anos até alguém conseguir saber o que vai ser da vida e ficar confortável com isso – e é uma pena a molecada ficar tão estressada por meses a fio, em vez de curtir o último ano colegial como se deve. Vestibular é cascata, sim. Mas vende horrores na banca de jornais. Mari Alexandre que se cuide.

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Preferia ver os moleques falando de loiras boazudas
do que sobre a prova da GV...
Fla Wonka às 02:40 PM

terça-feira, 5 de outubro de 2004

Pelo telefone

Boa tarde! Você ligou para nossa igreja. Não desligue, sua ligação é muito importante para nós. Ainda mais se você paga o dízimo. Aí, então, nem se fala. Er... desculpe. Voltando: para falar com um de nossos pastores, disque 1. Para participar da vigília das 318 fogueiras embebidas em óleo de Sinai no vale do sal, disque 2. Se estiver no fundo do poço, disque 3. Para conversar com uma ex-mãe de encosto, disque 4. Já para falar diretamente com um dos nossos exus, disque 5.

Som de número discado

Você escolheu a opção 1. Se seu problema é medo, disque 1. Se é ansiedade, 2. Se é insônia, 3. Se é depressão, 4. Se é desemprego, bem, mal de muitos é consolo: tem mais 15.226.999 pessoas na mesma situação que você, só na região metropolitana de São Paulo. Tenha um bom dia!

Tuu, tuu, tuu...

* * * * * *

Boa tarde! Você ligou para nossa igreja. Não desligue, sua ligação é muito importante para nós. Para falar com um de nossos pastores, disque 1. Para participar da vigília das 318 fogueiras embebidas em óleo de Sinai no vale do sal, disque 2.

Som de número discado

Você escolheu a opção 2. As 318 fogueiras se realizam todos os sábados, ao meio-dia, no nosso templo central. 318 é maneira de dizer, porque da última vez em que acendemos mesmo 318 fogueiras o templo central pegou fogo. Por isso, substituímos as chamas da purificação por uma simbólica lareira elétrica detrás de um pano, com umas tiras de celofane colorido amarradas e um ventilador embaixo, para dar aquela impressão de labaredas, sabe?

Esse ritual serve para todos os males dos quais você possa estar sofrendo, de unha encravada à síndrome do pânico, passando pela coleção completa dos sintomas da possessão – exceto desemprego. Nesse caso, é melhor procurar logo uma mãe de encosto, que isso só com trabalho forte, viu? Mas não diga que fui eu quem deu o toque. Posso perder meu emprego de voz telefônica na igreja do Bispo.

* * * * * *

Boa tarde! Você ligou para nossa igreja. Para falar com um de nossos pastores, disque 1. Para participar da vigília das 318 fogueiras embebidas em óleo de Sinai no vale do sal, disque 2. Se estiver no fundo do poço, disque 3.

Som de número discado

Você escolheu a opção 3. Se acredita no Senhor Jesus, tecle 1. Se NÃO acredita no Senhor Jesus, tecle 2.

Som de número discado

Tem certeza que apertou o número certo?

Som de número discado

Ok. Sinto muito, mas só ajudamos pessoas que acreditam no Senhor Jesus. Vá pros quintos dos infernos, seu infiel, e tenha um bom dia!

Tuu, tuu, tuu...

* * * * * *

Boa tarde! Para falar com um de nossos pastores, disque 1. Para participar da vigília das 318 fogueiras embebidas em óleo de Sinai no vale do sal, disque 2. Se estiver no fundo do poço, disque 3. Para conversar com uma ex-mãe de encosto, disque 4.

Som de número discado

Você escolheu a opção 4. Desculpe, mas no momento não há ex-mães de encosto disponíveis. Todas elas saíram mais cedo hoje, com pacotes de pipoca à tiracolo e dizendo que tinham um compromisso no cruzamento da rua siclano com a rua beltrano. Gozado. Todas elas tinham compromissos em esquinas! Tente novamente mais tarde.

Tuu, tuu, tuu...

* * * * * *

Boa tarde! Para falar com um de nossos pastores, disque 1. Para participar da vigília das 318 fogueiras embebidas em óleo de Sinai no vale do sal, disque 2. Se estiver no fundo do poço, disque 3. Para conversar com uma ex-mãe de encosto, disque 4. Já para falar diretamente com um dos nossos exus, disque 5.

Som de número discado

Você escolheu a opção 5. Se quiser ser jogado na maconha, disque 1. Se quiser que seu marido arrume uma amante, disque 2. Se quiser que seu marido arrume UM amante, esqueça. Nós achamos que isso é doença.

Som de número discado
Você escolheu ser jogado na maconha. Aguarde um de nossos emissários chegar com um pacote em sua casa. Obrigado por sua ligação!

Tuu, tuu, tuu...
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Baseado em criação coletiva de Denis Sperate, Clara McFly, Dener Gomes e Adriana Neves.


Clara McFly às 05:34 PM


O homem que voôu

A minúscula cidade de Kitty Hawk, no estado americano da Carolina do Norte, teria sido eternamente ignorada não fosse um acontecimento em 17 de dezembro de 1903. Nesse dia, os irmãos Orville e Wilbur Wright teriam feito quatro vôos com uma aeronave mais pesada que o ar, o Flyer. As provas? Além das anotações deles e de um telegrama escrito por seu pai, havia cinco testemunhas – três moradores locais e dois salva-vidas contratados. As fotos do vôo só foram publicadas em 1908, quase dois anos depois de um brasileiro chamar a atenção de toda a não-tão-minúscula Paris. Cômodo, não?

Taí um assunto sobre o qual não me incomodo de arrumar encrenca. Pode vir um exército ianque pressionar: Alberto Santos-Dumont é e sempre será o genuíno Pai da Aviação. Mais do que títulos, porém, esse brasileiro merecia é respeito. Coisa que já caducou faz tempo, porque hoje 9 entre 10 historiadores aceita a versão de que os irmãos Whright foram os pioneiros do ar. Mas aposto que o pequeno Alberto não ligaria pra essa besteirinha.

Isso porque, homem muito à frente de seu tempo e de espírito evoluído, Santos-Dumont nunca reinvindicou rótulo algum. Nascido em 1873 em Santa Luzia do Rio das Velhas, depois chamada de Palmira e hoje cidade de Santos-Dumont, ele já era uma criança diferente. Soube por um livro da brincadeira que Alberto, filho do patrão, fazia com os amigos, filhos dos trabalhadores da fazenda do pai.

O jogo era assim: um escolhido perguntava em voz alta se determinada coisa voava. Os demais tinham que dizer sim ou não. E assim seguia a brincadeira tonta: "elefante voa?", e todos gritavam "não". "Sabiá voa", e diziam "sim". Então vinha o esperado "homem voa?". Só Albertinho, o bocó pego como motivo de chacota pelos outros, respondia um "sim" no meio de tantos "nãos". Além de tudo, parecia ser vidente o garoto…

Santos-Dumont virou um herói para mim por vários motivos. Entre eles, porque poderia ter sido apenas mais um magnata do café, filho de gente rica e determinado a não fazer nada útil na vida além de contar moedas e circular pela high society. Mas ele não fez nada disso. Aproveitou a boa situação e começou a dar asas às suas idéias antes dos 20 anos.

Morando na Europa, ele conheceu a literatura de Julio Verne e os macaquinhos em seu brilhante sótão se assanharam. Em 1898, com só 25 anos, o sujeito já havia construído um balão revolucionário. Uma idéia gerou outra, que gerou outra, que gerou outra. E Santos-Dumont inventou o dirigível.

Em 1901 ele teve a primeira vitória pública: sair de um ponto de partida, voar pela cidade de Paris e voltar ao mesmo local. Pelo feito, ofereceram ao brasileiro uma medalha – que ele não aceitou por não considerar justo, afinal não era francês e essa homenagem cabia aos pesquisadores locais.

O caráter de Santos-Dumont era mesmo irretocável (e eu acho mesmo que esse é um ponto importante para aqueles que alçam fama, apesar de não ser muito comum ultimamente). Em 19 de outubro de 1901, quando venceu o prêmio Deutsch de la Meurthe, que consistia em rodear a Torre Eiffel dentro de 30 minutos, ele recebeu 100 mil francos. A bolada foi dividida por ele entre gente humilde de Paris e os mecânicos que trabalharam na construção do artefato.

Só que o comichão de ir mais e mais além nunca terminava para aquela alma. No ano de 1905, Santos-Dumont começou a pesquisar sobre naves mais pesadas que o ar, e com o 14-Bis, no Campo de Bagatelle, em 12 de novembro de 1906, estabeleceu os primeiros recordes de aviação do mundo. A experiência aconteceu sob controle do Aeroclube da França e na frente de quase mil queixos caídos.

Não aconteceu numa remota fazenda, usando plataforma de lançamento e com testemunho do papai. Foi em público, foi documentado, foi genial! Até hoje há um busto do brasileiro no aeroclube francês, e muita gente da cidade ainda rende homenagens ao "Petit Santos" – como o nanico sonhador e raçudo era chamado pelos franceses.

Em outras paragens, a memória de Alberto Santos-Dumont rende pautas bem menos relevantes. Ele era gay? Não sei por que isso deveria importar, mas parece que o rapaz era, na realidade, tímido até os nervos. Ele teria sido apaixonado por uma moça parisiense – e ela dava bola, participando de seus vôos com descarado interesse –, mas ele nunca chegou a dar o primeiro passo.

Se era gay ou nerd, é provável que nunca se saiba. Sabe-se, isso sim, que era um homem único, inteligentíssimo, vanguardista (ele criou o desenho do relógio de pulso para facilitar a contagem de tempo dos vôos sem precisar pegar o tal no bolso do casaco), consciencioso e desapegado. Não registrou boa parte de suas invenções, mas ficou arrasado porque o avião foi usado na Primeira Guerra.

Dizem até que esse seria um dos motivos pra Santos-Dumont ter cometido suicídio, em 1932. A polêmica com os Wright nunca foi roubou muitos pensamentos dele, apenas uma ou outra consideração sobre o respeito que tinha aos dois.

De qualquer jeito, a História conta: os próprios jornalistas americanos escreveram que os vôos dos Wright não tinham decolagem; eles pediram patente sobre um "planador sem motor" um ano depois de seu vôo famoso – e com motor –, o que parece estúpido; e mais um ano depois, escreveram ao Ministério de Guerra americano pedindo… para construir uma máquina voadora! Santos-Dumont nem deve ter se importado de perder o posto que conquistou com tanta competência. Mas nós devíamos nos importar mais.

dirigiv6.jpg
Isso é documento
Fla Wonka às 02:13 PM


Caminhando e não escrevendo

Boletim Ushuaia #3 1/2

Eu gostaria de dizer que o sumiço dos meus textos nesta semana deve-se a um cardume de baleias que me levou para um passeio bem longe do computador; ou a uma overdose de alfajor com doce de leite que embananou minha visão; ou ainda a mais uma aventura a bordo do nosso já saudoso Doblô. Mas não: o motivo pelo qual estou tendo dificuldades em postar é bem mais prosaico e sem-graça.

Trata-se de uma soma de fatores - correria dos preparativos da viagem que não me deixou adiantar todos os textos, internet cara por aqui, falta de tempo, falta de computador. Eu bem que trouxe o meu laptop da pedra lascada, mas ele deu piti e me deixou na mão. E então torna-se impossível eu entrar em uma lan house diariamente, na hora de sempre, para escrever. Afinal, estou de férias, certo? Perdoem essa ruiva cansada e feliz pela viagem, vá... Tá acabando!

Neste momento, estou em Mendoza. Depois da deliciosa neve de Ushuaia, me encontro finalmente suando em bicas em um calor de 30 graus. Parece que é melhor ir me acostumando com o maldito sol ardido, uma vez que as notícias que me chegam do clima de São Paulo não são nada agradáveis.

Daqui a uma hora seguirei em uma excursão pelas vinículas locais. Já estou preparando o espírito para encher a cara de vinho. Deixaremos o carro no hotel, assim todos nós poderemos nos deliciar com o artigo sem se preocupar em dirigir de volta depois.

Os quatro já estão naquele clima da volta - apesar das saudades de casa, bate uma depressão de abandonar a estrada. E também estou começando a pensar na próxima empreitada pela América do Sul - falta pouco para acabar. Equador, Venezuela, Colômbia. Tudo tão pertinho da gente, esperando ser descoberto. Montanhas nevadas, cachoeiras, lagos, desertos, cidades perdidas no tempo, traços de povos que vieram muito antes de nós, planícies verdinhas, animais estranhos. Só esperando pelo próximo viajante.

Como disse o personagem de Che Guevara em "Diários de Motocicleta", somos uma única raça latina desde o México até o Estreito de Magalhães. E depois de ver o que eu vi nas últimas viagens, eu tenho o maior orgulho disso.

Inté!

Vivi Griswold às 12:09 PM

segunda-feira, 4 de outubro de 2004

Pizzas de duplo sentido...

... cachorros-quentes estranhos e mulheres de leque

Sabe aqueles brindes encartados em toda sorte de produtos, que vêm com a inscrição “tal-coisa é parte integrante deste pacote e não pode ser vendido separadamente”? Então. A obscura, curiosa e saudosa (embora nem sempre) fase da adolescência está cheia de itens do tipo.

Se puberdade vendesse em supermercado, com certeza a embalagem traria uma porção de coisas anexas, embrulhadas em plástico filme. Lógico que as prateleiras seriam divididas: uma gôndola com o produto destinado aos garotos e outra com as caixas preparadas para meninas. Como vimos, as diferenças são enormes...

Entre revistas com muita imagem de gente com pouca roupa, filmes em que o povo troca um bocado de fluidos corporais, carteiras com desenhos fofinhos destinadas a guardar absorventes, diários com chavinha e edições da Capricho, cada qual em seu conjunto, há algo que estaria presente em ambos os pacotes, especialmente nos da geração 80: uma coleção das comédias eróticas-pero-no-mucho da sessão da tarde.

Estes filmes são parte integrante da adolescência oitentista e não podem ser vendidos separadamente

Porky’s
Porky’s, 1982
Grande expoente do gênero, o filme segue as trapalhadas de um grupo de garotos do colegial que, como seria de se esperar, não pensam em nada além “daquilo”. Ah, sim, pensam: eles também querem se vingar do dono de uma casa de tolerância de onde foram expulsos.
É inesquecível: o sensacional e atrapalhado Pee Wee medindo seu instrumento todo orado dia.
Teu passado te condena – ou não: Kim Catrall, a premiada e bonitona Samantha de “Sex and the City”, está no elenco.

O Último Americano Virgem
The Last American Virgin, 1982
A história de um grupo de amigos que tentam dar vazão a seus hormônios em ebulição começa como comédia e vira um baita dramalhão: um dos garotos faz de tudo por sua amada, mas ela o troca por um completo idiota.
É inesquecível: Carmela, uma enorme e fogosa mulher latina (ou espanhola, vai saber), espera o protagonista para o rala-e-rola usando apenas um leque.

Loverboy – Garoto de Programa
Loverboy, 1989
Randy é um estudante (colegial, claro) que entrega pizzas para fazer um pé-de-meia. Mas a pizzaria em que ele trabalha presta outros serviços, além de enviar os discos redondos para as casas dos clientes famintos. Daí o título do filme.
É inesquecível: o código para diferenciar as clientes que queriam um algo-mais: o pedido era feito por pizzas “com muito pepperoni”. No original, eram “extra anchovies”.

A Última Despedida de Solteiro
Bachelor Party, 1984
Quando Rick está para se casar, seus amigos decidem promover uma despedida de solteiro com tudo que se tem direito: hospedagem num hotel caro, muita bebida e, claro, as tais moças de vida não-tão-fácil. Só que tudo sai horrivelmente (e hilariantemente) errado.
É inesquecível: a mãe da noiva vai parar num clube de strip masculino. Um dos garçons, vestido – ou melhor, despido – a caráter, lhe oferece um cachorro-quente com uma salsicha, er, especial.
Teu passado te condena – ou não: o hoje oscarizado e respeitável Tom Hanks não faz apenas uma pontinha no filme: ele o protagoniza.

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Para identificar um filme do gênero, basta ver se o cartaz contém pernas femininas ou garotos em idade colegial
* * * * * *

Ela foi ali e já vem

Os leitores mais fiéis já sabem da empreitada de Vivi: ir até o fim do mundo (ou melhor, deste continente) e voltar, de carro. A ruiva fez o possível para não falhar um dia sequer com suas obrigações de garota-que-diz-ni, mas não é em todo lugar entre Ushuaia e São Paulo que se acha uma lan house ou um computador funcionando.

Enquanto ela não chega, podem matar as saudades no Ushuaia Logo Ali, blog bacana armado pela pequena sereia e seus companheiros de viagem. Quando a gente menos esperar, ela estará de volta.


Clara McFly às 05:53 PM


Não usa mais dizer

Ainda hoje, vi um moço passar aqui pela sala da redação onde trabalho e dizer pra minha colega: "E aí, tudo azul?". Olhei rápido na direção do homem, esperando ver ali uma figura com calças boca de sino, plataforma, óculos em estilo John Lennon e camisa com gola olímpica. Mas que nada, era apenas um executivo comum – com predileção por modos de falar datando de meio século atrás, por certo. Pior que eu concordo: existem expressões que não deviam ter saído de catálogo.

"Tá tudo azul" mesmo é uma delas. Não sei a cor preferida de vocês, mas essa é a minha. Portanto, associá-la com um dia tranquilo e feliz faz todo o sentido. Não que nos dias ruins eu pergunte aos outros se "tá tudo amarelo-ovo", evidente. Mas utilizar o conceito de "azul = legal" vale no meu caso. No meu e no de Baby Consuelo, que um dia se chamou assim e cantou "tuuuuudo azuuuul… Adão e Eva no paraíso". Brega, mas azulzíssimo!

Outra que adoro empregar, mesmo sabendo que nem minha santa avó faz mais isso, é "macacos me mordam". Primeiro, porque tem uma sonoridade engraçadinha. Segundo, porque imaginar a cena de macacos dando com os dentes em quem jura que algo não vai acontecer é surreal. E inserir uns conceitos surreais na vida não há de ser ruim.

Aliás, era nisso que pensam os povos de décadas atrás quando mencionavam que tal artigo era "bom pra chuchu"? O que diabos seria "bom pra chuchu"? Chuto assim: se alguma coisa é boa até para aquele legume sem cheiro, sem gosto, sem cor e sem graça, é porque tem que ser especial.

É o mesmo caso de "nem que vaca tussa". Essa minha vó ainda usa! Não existe a menor possibilidade de acontecer? Então é hora de proferir "nem que vaca tussa". Se o pobre bovino é capaz ou não de se constipar e emitir uns cof cofs, desconheço. Mas a expressão é perfeita – pra mim, mais que perfeita. O povo de São Paulo voltará a eleger Maluf? Dá para segurar o riso na hora de tirar foto 3x4? Eu sou capaz de comer pimentão? NEM QUE A VACA TUSSA!

Minha mãe e algumas tias gostam bastante de envolver a vaca com problemas pulmonares no diálogo, mas preferem um outro bicho ao dizer que algo não pode acontecer. Nem sei quantas vezes já ouvi (e repeti) "quero ser mico de circo se…". Aparentemente, os macaquinhos circenses são a escória, o pior posto que um ser vivo pode ocupar – e perder qualquer aposta deve ser melhor do que "ser mico de circo".

Podíamos adaptar para "quero ser camundongo de esgoto" ou " quero ser funcionário público", mas não. Mico de circo ainda é o mais utilizado por ser bem mais divertido. Sem falar que rima! E rimar ou ser poético é importante ao cunhar uma expressão destinada a perdurar assim.

A molecada, hoje, usa um tal "de boa" que eu não entendo… Pelo pouco compreendido, parece tratar-se de uma mistura de "tipo assim", muito usado nos anos 90, com "numa nice", próprio dos famigerados 80. Inventar modinha é mesmo uma arte exercitada ao longo da História.

Apenas uma delas parece nunca sair de cartaz. "Pombas!" já rivalizou com "oras, bolas!", mas nunca perdeu sua posição de melhor grito de revolta emitido em bom som. Parece claro o motivo. Como os malditos ratos alados proliferam em progressão geométrica, a expressão que usa o nome deles não podia cair em desuso.

De qualquer jeito, ainda é melhor do que usar "cacete", "caraca" ou o chocante "p* que o p*". Expressões velhas são bobas e caducas, mas mantêm a classe e divertem como poucas. Macacos me mordam se elas não são boas pra chuchu. Pombas se são!

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Até o clássico de Hitchcock teria
ficado melhor com o título de "Pombas!"
Fla Wonka às 03:16 PM

sexta-feira, 1 de outubro de 2004

Sobre pêlos e diferenças

Sabe aquela hora em que você olhou para o seu corpo e falou: “ai, Jesus! Isso não estava aqui ontem!”? E quando partes do seu físico começaram a se manifestar de forma involuntária, diante de programas como o extinto “Cocktail”, em que um game-show era a desculpa para garotas peitudas abrirem o sutiã? E os pêlos, meu Deus, os desesperadores pêlos que apareceram nos lugares menos prováveis? Pois é. Tudo isso tentou lhe avisar que sua pubescência havia chegado.

Muita gente fica ignorando tais avisos um tempão. Também, entrar numa fase cujas palavras-chave são tão feias quanto “pubescência”, “masturbação” e “menstruação” não é nada convidativo. Eu mesma fui uma das que quis pular o assunto um tempão. É que era mesmo chato encarar uma mudança dessas na vida e ainda ver sua mãe e suas tias comentando como seu peitinho está crescendo, assim, na mesa do chá.

As meninas costumam ficar mais retraídas quando passam por esse mal necessário. É porque somos educadas para isso: amarrar uma blusa na cintura quando um certo derrière começa a aparecer; usar roupas largas para esconder a nascente comissão de frente e, acima de tudo, passar horas planejando a estratégia para ir ao banheiro trocar o absorvente sem que ninguém perceba que você está menstruada.

Por que temos de esconder tanto o apetrecho que nos permite viver normalmente (e não ficar isolada numa oca) durante os dias do período? As mães não pensam muito nisso e apenas repassam o que aprenderam. A minha – embora tenha, para meu desespero, celebrado a minha entrada no mundo das mulheres com direito a flores e cartão – logo me presenteou com uma carteira para acomodar absorventes.

Já para os meninos, a transformação em adulto é completamente diferente, divertida e muito, muito mais gozada – com duplo sentido. Não pensem que me enganam, não, viram? Eu tenho irmão e uma porção de amigos bocudos...

Então, enquanto o início da adolescência feminina é marcada por constrangedoras carteirinhas de modess e discussões à mesa sobre seu sutiã, os meninos se divertem a valer assistindo à “Sala Especial”, armando planos mirabolantes para alugar filmes que mostrem um pouco mais do que a “Sala Especial” e contrabandeando revistinhas de baixo calão. Isso sem contar a ida a uma casa de burlesco, espécie de ritual de iniciação pelo qual passam 90% dos machos latinos – às vezes, na companhia dos seus próprios pais.

Injusto, não? Eu gostaria de ter histórias para contar, como “pô, nunca me esqueço do Miéle no meio daquelas meninas cantando ‘frio, calor’!” ou “lembra aquela vez em que pegamos um filme pornô e matamos a aula da tarde para assistir?”.

Ei, espera um pouco. Eu não me esqueço mesmo do Miéle e das mocinhas com pouca roupa e um apelido de fruta. E, confesso, já aluguei filme pornô na adolescência, com um bando de amigas, para “ver como era”. Certo, tenho cá minhas memórias...

Mas convenhamos: se eu fosse menino, a frase escrita há pouco seria “pô, nunca me esqueço do Miéle no meio daquelas gostosas cantando ‘frio, calor’!”. As diferenças sempre existirão, e não tem nada de mal nisso. Mas que podiam ser mais justas, ah!, isso lá podiam.

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Tutti frutti, tutti frutti...
tut-ti frut-ti!


Clara McFly às 06:04 PM


Manual para a vida toda

No melhor estilo Pollyana – a garota sebosa que via lado bom em tudo quanto é desgraça –, encontrei motivo para me alegrar com a zona da casa pós-mudança. Na verdade, o processo de trocar residência aconteceu há cinco meses, mas ainda restam caixas pelo caminho. Recentemente, quando o pé-de-meia deixou comprar estantes pro escritório, começamos a colocar os livros de volta em ordem. E eu achei meus tesouros! Inclusive, uma preciosidade da infância.

Na contracapa puída e capenga, a data marcada é 1979. Eu tinha quatro anos, mas meu irmão tinha nove. Suponho, então, que o volume tenha sido comprado pra ele – e eu sabiamente surrupiei para os meus pertences em alguma parte da década de 80. Lançado pela Editora Abril quando a empresa ainda tinha idéias legais, o livrão estampa de cara: “Supermanual do Escoteiro Mirim”.

São 576 páginas de delírio. Era assim na minha meninice, é assim até hoje! Onde mais encontraria tantas informações importantes para rechear uma tarde no quintal, no jardim, na casa da vó?

O manual tem uma capa dura de papelão e outra, sobreposta, contendo inclusive trava com chave. Não sabem que tanto segredo pode conter um livro para escoteiros? Pois eu também levei tempo para entender, mas agora explico.

Há de tudo nesse supercompilado. Tem informações para identificar árvores, frutas e flores. Tem um gráfico para entender “fuso horário”, bandeiras, fenômenos climáticos. Tem esquema para fazer cabana e fogueira de seis modelos diferentes – e eu achando, ainda menina, que era só atear fogo nos gravetos, tolinha! O segredo todo acontece porque o manual também ensina mágica.

Peguei muito tio com aqueles truques baratos. Olhando agora, aqui no índice, lembro de ter feito a brincadeira do barbante que mesmo cortado nunca acaba, da cédula que passa de um lado a outro da carteira sem toque humano, a mágica do copo e do chapéu. Se os parentes caíam de fato ou se era fingimento pra me agradar, não sei. Mas era divertido horrores.

Também li mãos. Pois é, fui uma cigana-mirim... No “Supermanual do Escoteiro Mirim” aprendi a falar quiromancia e descobri que cruzes marcadas na base do dedo médio significam “vida afetiva feliz”. E que estrelas no meio da palma da mão indicam “pessoas estudiosas”. Já círculos são raros, e por isso mesmo aparecem nas mãos de pessoas de muita sorte. É um oráculo para crianças ou não?

Quando viajava para o sítio, levar o manual era ordem. No carro, meu pai pedia pra ler alguma coisa legal pra ele – e lá ia eu falar sobre a história do dinheiro, o significado dos nomes ou das cores. Segundo o guru-encadernado, quem gosta de preto quer atrair atenção, mas de forma discreta; os amantes do amarelo são humoristas natos e confiam em si mesmos; adeptos do azul são poetas e antiinfluências negativas. Dava assunto pra horas de veículo viajante...

Muito bem escrito e ilustrado com os personagens da Disney, o manual hoje é quase carcomido nos cantos, de tanto que folheei estas páginas. Não tinha coisa melhor para impressionar amigos também. Só eu sabia, aos 10 anos, a diferença entre bombordo e estibordo ou a receita para fazer massinha de modelar. Sabem?

É só juntar numa tigela 1 xícara de sal com 1 xícara de farinha de trigo. Daí basta acrescentar água aos pouquinhos, mexendo bem, até soltar da mão. Por essas e outras é que meus sobrinhos gostam de mim. Aprendi a inventar moda com o manual e nunca mais perdi o traquejo!

Nunca fui escoteira de fato, mas o livro que agora está aqui ao lado contribuiu muito para proliferar os macaquinhos no sótão. E se hoje sou uma quimomancista que identifica flores e sabe fazer cata-vento e sombra chinesa com a lanterna, é por causa do “Supermanual do Escoteiro Mirim” – e suas lições para toda a vida.

Fla Wonka às 03:31 PM


A volta começa

Boletim Ushuaia #3

Depois de ter alcançado a Terra do Fogo (sabe a pontinha parecida com uma bota no final da América do Sul?) e de ter tirado uma foto na placa "aqui terminam as estradas" - significando que, para frente, só tínhamos o gelado mar que leva à Antártida -, chegou a hora de regressar. Mas em nossa viagem, a volta é uma expediçao à parte.

Optamos por chegar até Ushuaia pela parte chata. Tirando os momentos espetaculares na Península Valdez (onde vimos as baleias) e em Punta Tombo (onde vimos os pingüins), o objetivo era chegar no fim do mundo o quanto antes, ficarmos felizes com isso e nos prepararmos para o que de melhor esta aventura tem a nos oferecer.

O caminho em direçao ao norte começou no Chile, em uma cidadezinha chamada Puerto Natales, a base para todo turista que nao quer perder o Parque Nacional Torres del Paine - e ninguém gostaria de perder mesmo. É uma infinidade de montanhas nevadas, lagos de todos os tons possíveis de azul e verde, guanacos (uma espécie de lhama, só que menor) correndo soltos e icebergs azuis que se desprendem dos glaciares à distância. Até fiz amizade com dois gatinhos que moravam em uma pousada por lá. Perfeito.

De volta à Argentina, seguimos para El Calafate, um micro Campos do Jordao que também é ponto obrigatório para os visitantes sedentos por ver com os próprios olhos o glaciar Perito Moreno. Eu já havia visto fotos e mais fotos do gelao, mas ficar de cara para aquela imensidao é demais mesmo. Ele é um dos maiores glaciares do mundo e até pouco tempo era o único que continuava avançando lago adentro. O lugar é apinhado de turistas, mas o silêncio respeitoso impera - e é por causa dele que podíamos ouvir os barulhos sinistros de gelo se partindo aqui e acolá, muito parecido com um trovao.

Saindo de El Calafate, pegamos a ilustre Ruta 40, aquela que Che Guevara percorreu na sua própria aventura pela América do Sul, famosa agora pelo filme "Diário de Motocicletas". Ela nos levou de volta ao Chile (preciso dizer que nao agüento mais passar em controles de imigraçao?) para uma única missao: percorrer a Carretera Austral, uma estrada que, dizem, promete a viagem de carro mais bonita do mundo. Nao conheço o mundo todo, mas pior que eu acho que estao certos.

E daí estou aqui em Bariloche hoje, desfrutando de um hotel limpo, quentinho e confortável por menos de 30 reais por pessoa (!) depois de passar por alguns pulgueiros no caminho. A volta continua prometendo, mas mais dela só na semana que vem.

Hasta!

(Para saber mais e ver fotos, clique aqui!)

Vivi Griswold às 11:50 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold