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Da tela para as letras Quem diz que o cinema não presta para nada devia ser condenado a passar 52 horas ininterruptas assistindo ao programa da Kássia Franco sem som, com o capricho perverso de ter Engenheiros do Hawaii tocando num fone de ouvido chumbado à cabeça pelo mesmo período de tempo. Alguns filmes são, sim, lições de vida. Isso soa piegas, mas quem não tem uma película de cabeceira? Ou uma produção capaz de animar o mais enlameado dos dias? A Sétima Arte tem muito a ensinar, mesmo com seus filmes mais despretensiosos. Ou, pelo menos, tem muitas frases de efeito a oferecer – e elas casam com o dia-a-dia que é uma beleza! Olha só. Is that a gun in your pocket or are you just happy to see me? Show me the money! ‘Isms’, in my opinion, are not good Fuck! Fuck! Fuck! The pervert is back! ![]() O pervertido de verdade voltou mesmo e disputou com Schwarzzie o governo da Califórnia. That’s entertainment…
Garotas com gogó Se estão pensando que este é um texto sobre travestis, podem tirar o eqüino da precipitação pluviométrica. O título acima vem apenas descrever o que eu queria ser. Gosto modestamente de tudo na minha pessoa, mas podia trocar uma coisinha aqui e outra ali. A voz, por exemplo. Tem coisa mais encantadora do que ser uma mulher de voz especial? Minhas cantoras preferidas servem para fazer a redenção daquilo que eu sei não conseguir. Apanhar um microfone e dar conta do recado é para poucas. Fazer isso e ser aplaudida, é melhor ainda. Agora, ser uma mulher de voz poderosa e arrebatar a platéia não só pela técnica mas também pelo estilo inconfundível, é para eleitas. Eu trouxe as minhas ao conhecimento de vocês logo ali, abaixo. Fico bastante emburrada quando falam sobre a Sandy e dizem "ah, mas ela é afinada". Só para saber: isso não deveria ser obrigação, em vez de alento? Ela é cantora, céus, claro que precisa ser afinada! Já nos quesitos espírito e desempenho, acho que deixa a desejar. Para o meu gosto, cantoras devem ser como divas no palco, interpretando canções com o coração na garganta. Estas são. Carmen Miranda Janis Joplin Monserrat Caballé Cyndi Lauper Tina Turner Nara Leão Natalie Merchand Aretha Franklin Debbie Harry
Isso é ser linda e talentosa Na cozinha com Banana Delicada como uma gueixa, intensa como um pesadelo. Talvez essa seja a definição que eu daria à escrita de uma das minhas autoras favoritas, Banana Yoshimoto. A garota, que escolheu seu pseudônimo porque acha bonitas as flores da bananeira, lançou seu primeiro livro, "Kitchen", com 20 e poucos anos e causou uma revolução na literatura de seu país natal, o Japão. Conseguiu ingressar no hall dos autores respeitados, mas ao mesmo tempo vendeu milhões de cópias em bancas de jornal. Suas histórias de personagens que vivem entre o peso da tradição e a busca pela identidade conseguiram captar os anseios e as inquietações da geração X japonesa. Foi eleita, mesmo sem querer, a porta-voz de uma juventude dividida entre a ocidentalização e a cultura milenar. Entre o ímpeto consumista de modernos aparelhos eletrônicos e a admiração pelo florescimento das cerejeiras. "Kitchen", lançado no Brasil com esse mesmo título, possui duas histórias. A principal narra um pouco da vida de Mikage, uma garota que se vê totalmente sozinha após a morte da avó, sua única parenta viva. No conto "Moonlight Shadow" (também com o título original preservado, veja só que inédito), conhecemos Satsuki, uma menina melancólica que tenta reconstruir a vida após o trágico acidente de carro que vitimou seu namorado. As narrações versam sobre um único tema: como a perda de uma pessoa querida obriga a amadurecer, mesmo quando não se quer. Mas, apesar da carga de infelicidade que as cercam, as duas garotas são independentes, modernas, otimistas. Elas trabalham, fazem jogging e gostam de música americana. Comem com o mesmo gosto um prato de sashimi e um sanduíche do Kentucky Fried Chiken. É reservado para elas um humor fino e uma visão crítica apurada, não permitindo uma escorregada para o melodrama barato. A autora escreve de forma tão sincera que nada parece pesado ou fora de contexto – nem a morte, nem a transexualidade de um personagem. As histórias, narradas sempre em primeira pessoa, vão se desenvolvendo aos poucos, misturando lembranças, impressões, acontecimentos. A narrativa é construída como um origami: com paciência, dedicação e capricho. Yoshimoto desenvolveu seu livro da maneira mais despretensiosa possível, durante as folgas de seu emprego de garçonete em um restaurante de Tóquio. Assim, o volume tem cara de tudo, menos de um sucesso mundial. Contrariando a premissa, mais de 2 milhões de exemplares foram vendidos no Japão. O fenômeno ganhou até nome: "Bananamania". "Kitchen" conseguiu ultrapassar os pequenos limites do arquipélago, atravessou o planeta (literalmente) e estourou na Europa e nos Estados Unidos. Virou até filme. A moça, porém, parece não ligar para tanto frisson. Em seus prefácios, faz confissões do tipo "quando reli este livro fiquei vermelha de vergonha, nunca mais vou escrever coisa igual", ou se despede de seus leitores avisando que já estava atrasada para um show dos Ramones. Ainda por cima, ela tem bom gosto musical.
Tem programa para o sábado? As tardes e noites de sábado eram muito mais divertidas – e toscas – quando eu contava umas sete ou oito primaveras. Pelo menos foi com essa idade que comecei a observar a variada e curiosa fauna de programas de auditório que estavam à disposição do respeitável público, à distância de um mísero clique no controle remoto. É bom lembrar que, nessa época, não havia tv a cabo e as opções eram exíguas. Pensando bem, a tv por assinatura mais fez diversificar as opções de programas ruins do que oferecer a salvação da lavoura dos espectadores. Ainda assim, sou teleadicta. Não tem jeito, mesmo. Enfim. Tenha participação de um bando de tiazinhas malucas gritando a cada atração apresentada ou não, é impossível esquecer dessas pérolas. Se hoje perco meu tempo com “Detetives Médicos”, “Justiça Final” (com a Erin Brockovich mais gritalhona que já vi) e todos os programas comerciais da Polishop, naquela época eu bem que curtia passar horas entretida com... Perdidos na Noite Qualquer-Coisa do Chacrinha Programa do Bolinha Viva a Noite
Mas o homem, o mito, a lenda... fica para outro texto. Ele merece. ![]() Viu como não inventei? Taí o vencedor do concurso Rambo Brasileiro Não vai dar, não Assim como Raul, eu juro que prefiro ser essa metamorfose ambulante. Ter aquela velha opinião formada sobre tudo, então, nem pensar! Mas existem coisas na vida que a gente sabe não poder fazer. No meu caso, se me permitem, preciso confessar: não consigo gostar do filme "Ghost", não tolero usar chinelo e sou completamente incapaz de dormir de barriga pra baixo. E tem outras coisas que não acontecerão comigo nunquinha. Até queria provar destas experiências um dia, mas tenho quase certeza de não ser capaz. Por exemplo: duvido que pudesse virar uma garota hippie. Acho lindos aqueles casacos de lhama andina, rendo respeito imenso pela filosofia de desapego e me amarro na idéia de existir gente que despreza o tal do materialismo. Mas se entrar no âmbito mais específico, sinto dizer: ia me rebelar contra os rebeldes em pouco tempo. Droga, eu faço questão de visitar a depiladora regularmente, não deixaria meus filhos com nariz escorrendo e cabelinho desgrenhado e adoro comer carne vermelha. Meu nariz coça ao menor contato com incensos também. E se for para ser hippie meia-boca, dessas que parecem ter acabado de sair de uma botique, prefiro ficar na minha. Muito ajuda quem não atrapalha a causa, certo? Ainda tem outras turmas dos quais realmente não me vejo fazendo parte. Fã confessa do vestuário negro-total, eu já tive que responder muitas vezes se sou gótica. Não sou, e nem poderia. Apesar da afeição pelo tom de piche fresco, esse papo de circular por cemitério não atrai. Sexta-feira à noite, calorão pedindo uma bela mesa de boteco… e eu lá, em contato com o reino dos mortos? Poxa, não rola. Melhor pegar um cinema. Ser "geração saúde" também não faz parte das preferências desta moça aqui. À mínima menção da palavra "malhar", já dá uns calafrios na espinha e eu corro deitar no sofá, botar os pés pra cima e apanhar um gibi e uma limonada com gelo. O contrasenso: tenho uma esteira elétrica em casa, usada por poucos meses enquanto ainda contava 10 quilos a mais que hoje. "Elas sempre viram cabide", me avisaram. No meu caso não foi muito diferente, apesar da tentativa de virar maratonista indoor. Até sinto (pouca) inveja de quem pula da cama cedo, faz a mala e parte para o mundo encantado dos halteres e colchonetes. Chegam lá, suam feito doidos e sentem a doce endorfina circular pelo organismo – para depois mandar um Gatorade goela abaixo e ganhar novo vigor com o banho no vestiário. Já frequentei academia. Dormi duas vezes na aula de relaxamento e arranquei a tampa do dedão num azulejo do chuveiro coletivo. Hoje, guardo distância de segurança de qualquer lugar com as palavras "shape", "body" ou "fitness" estampadas no letreiro. Fazer parte de grupos é ótimo, eu acho. Adoro ver a molecada do skate andando junta – e competindo não pela melhor manobra, mas pra ver quem usa a maldita bermuda mais abaixo da bunda. Acho uma graça senhoras que se encontram para fazer curso de culinária, pintura ou cerâmica, como a minha mãe tanto gosta. Pena que certos grupos parecem um oásis tão distante. Se existir uma próxima vida, porém, eu quero vir com todos esse aplicativos baixados! Quero ser uma gótica capaz de pedalar na ergométrica por horas e preparar jantares com meio quilo de broto de bambu! Mas nesta encarnação, não vai dar, não.
Olha a minha turma na próxima vida! O amor segundo o brega "Quem dera ser um peixe/ Para em teu límpido aquário mergulhar/ Fazer borbulhas de amor para te encantar/ Passar a noite em claro dentro de ti". Ah, que coisa linda, profunda, sutil, não? Pois assim são os versos de amor cantados pelos maiores nomes da música brega: exagerados, cheios de insinuações calientes e comparações com a natureza. O cantor dessa pérola é nenhum outro além de Raimundo Fagner. Mas o moço não está sozinho na tentativa de exprimir todo o clima de paixão de um modo, digamos, extremo – ele é apenas mais um no Olimpo dos compositores gosmânticos, termo usado para descrever um romântico além da conta, melado. Letras do gênero pululam na nossa MPB. Verdade seja dita: impossível haver uma música brasileira mais popular do que isso. Ironicamente, ser brega hoje é ser cult, e artistas como Wando (que já até ganhou uma homenagem por aqui) agora desfrutam de um certo reconhecimento. Eu dou maior apoio a eles, viu? Porque tem que ser muito bom para conseguir enfiar as palavras "chão", "suor", "relva" e "sede" em todas as composições. O resultado? Coisas inimagináveis como as que seguem... "Parece que ela enfiou uma espada de aço no meu coração Que mulher teve coragem de machucar tanto um homem de nome Amado? "E a mágica do amor nasceu quando eu olhei você Se isso tivesse sido escrito no século XIX, seria Álvares de Azevedo! "Amor é uma palavra Eu adoro a parte do "vento menino". Seja lá o isso que signifique. "Vou me embrenhar nessa mata só porque Fala aí, esse final truculento arrepia. Não? Ok. "Eu vou levar você pra ficar comigo Não tem pra ninguém: uma prostituta fez Odair escrever os melhores versos gosmânticos.
E ainda é galã, o peste!
Perdeu, playboy! Saber perder é uma arte. Antes que vocês pensem que esse texto discorrerá sobre filosofias de vida, com profundas pérolas de sabedoria a respeito da variada gama das emoções humanas e seu impacto na trajetória da civilização, aviso que esta escriba não chegaria a tal pretensão. Até porque ainda não aprendi muita coisa da vida e do mundo. Quero falar mesmo – e apenas – é dos perdedores da televisão. Gozado que numa cultura competitiva como a nossa (e mais ainda a estadunidense, de onde vêm esses programas), haja espaço de acomodar aqueles tipos para quem nada dá certo, nunca. Alguns se regozijam na sua estupidez – e ganham fãs pelo mundo todo. Outros podem passar quase despercebidos, mas as séries das quais fazem parte não seriam as mesmas sem eles. Bem, eu sempre gostei dos perdedores. Eles têm um charme especial, não conseguem as coisas facilmente e me parecem mais reais. Por isso, juntei um bando deles aqui. Três vivas para os losers! Ross Geller George Costanza Larry David Homer Simpson Al Bundy ![]() Vai sonhando, Al... Corra com eles! Pilotar carros é legal. O trânsito de hoje deixa a atividade aborrecida e desgastante, mas já fui fã disso. Quando cheguei na idade de tomar o volante da Saveiro familiar, por exemplo, tinha comichão só de pensar em domar os cavalos automotivos. Aprendi, gostei e até hoje adoro colocar um som bacana e circular com a minha caixinha de Ortopé possuída por forças do mal. Não sou mais uma car-crazy-person – cresci, me encantei pelo metrô e por segurança pessoal –, mas o cinema ainda alimenta meu sangue com petróleo. Acho bacana ver carros esmerilhando em corridas, porém essa nem é a melhor parte. Divertido mesmo é participar, ainda que aboletada na poltrona, dos pegas entre mocinhos e bandidos. Filme de ação com duelo de forças entre gente quase-boa e gente quase-má precisa ter um rachão! É duro pensar no tanto de dinheiro gasto com carros arrebentados e explosões fajutas? Ô se é. Mas eu aguento. No último fim de semana, por exemplo, fui checar o tal "A Supremacia Bourne". O trailer mostrava uma perseguição com requintes de crueldade, com aço voando pelos ares e um encontro nada gentil com um muro de túnel. "Vale o ingresso", pensei. Aliás, o filme anterior protagonizado por Matt Damon já tinha sido fabuloso nesse aspecto. O novo não decepciona, mas o primeiro da série continua bem melhor no quesito "esmaga-veículos". Junto com ele, estes são ótimos para quem, como eu, não liga de confessar afeição por correria em ruas, estradas e até escadaria abaixo. Operação França (French Connection), 1971 Ronin (Idem), 1998 60 Segundos (Gone in Sixty Seconds), 2000 A Identidade Bourne (The Bourne Identity), 2002 Saída de Mestre (The Italian Job), 2003
Vai, pega! Pipoca com risos A gente já suspirou, já ficou com medo, já chorou e já cansou de entender alguns finais de filmes. Agora chegou a hora da parte mais recompensadora: cuspir a pipoca longe e engasgar no copo de Fanta por conta de algumas das comédias mais engraçadas de todos os tempos. Bem, pelo menos, na opinião desta garota sempre sedenta por uma boa piada – e por uma longa gargalhada. Os atores mais experientes costumam dizer que fazer rir é mais difícil do que fazer chorar. Porque para emocionar uma pessoa bastam histórias de bebês órfãos, cachorrinhos feridos, crianças em campos de concentração e doentes terminais. Mas despertar graça em um espectador é bem complexo, até porque humor é muito mais subjetivo. Aposto, por exemplo, que alguns leitores podem não ter morrido de rir com os filmes aí embaixo. Aposto também que muitos vão falar "puxa, mas você se esqueceu do filme tal!". Tudo bem – cada um com sua lista, mas juntos no melhor dos objetivos: divertir-se! Vamos lá? This is Spinal Tap Apertem os Cintos – O Piloto Sumiu Em Busca do Cálice Sagrado Corra que a Polícia Vem Aí Férias Frustradas Quanto Mais Quente Melhor
Solta o pause Num tempo em que o Rock in Rio ainda era na Cidade Maravilhosa – e existia uma cerveja chamada Malt 90 para patrociná-lo – o ato de coletar suas canções favoritas e perpetuá-las numa mídia reproduzível podia ser uma grande aventura. E bota aventura nisso. Primeiro, porque a tal mídia era uma fita cassete. Desconfio que, em pouco tempo, meus primos mais novos nem vão saber o que diabos é a tal fita. Mas posso atestar que a primeira gravação a gente nunca esquece. Até porque seria difícil esquecer do razoável tempo perdido, ouvindo as paradas de sucesso de rádios como a Transamérica, com o rec engatado e o dedo no botão do pause, torcendo pela sorte de sua canção do desejo estar na lista das mais-mais do dia. E só esta fortuna não bastava: caso a música fosse anunciada, ainda era de vital importância que o maldito locutor calasse a boca desde os primeiros acordes. Eram poucos segundos encharcados de tensão: você tinha de fazer o cálculo para saber se valia a pena soltar o rec enquanto o insistente locutor tagarelava até o primeiro verso, ou se o melhor mesmo seria esperar a próxima execução de "I Got the Power", "Silent Morning" ou "Faroeste Caboclo". Não que elas fossem muito esparsas: tocavam o tempo todo, o que me leva a pensar, retroativamente, por que diabos eu perdia tanto tempo querendo gravá-las... Uma vez que a gravação começava, vinha a segunda parte do martírio – o final da música. A agonia era maior especialmente no caso de "Faroeste Caboclo", que leva uma vida para terminar. A espera angustiada se justificava pela simples razão de que as famigeradas estações mal deixavam a canção acabar para soltar um jingle ou informar as horas. Quantas fitas de minha propriedade não foram salpicadas de sonoros "Transamérica, quinze para as duas!" ao fim de cada faixa! Pronto. Diante do registro das horas, as opções eram três: voltar a fita, acertá-la no ponto novamente e esperar pelo próximo anúncio de "Silent Morning", começando tudo de novo; tentar editar o finalzinho da canção de maneira a apagar o máximo possível do jingle intruso ou, ora bolas, deixar assim mesmo e mandar tudo às favas. A fita é minha, eu faço como quiser! Gravar suas próprias fitas era um acontecimento, um passo dado no sentido de se afirmar como gente, com gostos próprios (embora ainda discutíveis) e tal. Significava que, no carro, você não queria mais ir ouvindo a trilha de Blade Runner com a sua mãe – ou toda a coleção de sons da sua genitora. A dificuldade que o processo envolvia só fazia aumentar o gostinho bom da coisa. Hoje, temos os CDs graváveis e regraváveis, o milagre do mp3 e os abençoados compartilhadores de canções. A variedade e a facilidade de conseguir músicas está maior que nunca – para quem, é claro, pode pagar pelo equipamento todo. Por outro lado, agora o Rock in Rio é em Lisboa, a Malt 90 virou memória e meus primos e irmãos mais novos jamais saberão o quão divertido podia ser ficar horas com o dedo no pause. ![]() Elas existiram mesmo Bate-papo a la Mirtes Depois de mil textos e lá vai pedrada, as valentes e abnegadas Garotas que Dizem Ni podem estar começando a ficar repetitivas, não? Se alguém aí respondeu com um desdenhoso "Começar???", já aviso que magôo com essa ironia… Mas o fato é: fica difícil não lembrar alguns temas mais de uma vez, poxa! Este link e este link, por exemplo, renderam dezenas de e-mails e muitas risadas – inclusive por causa das contribuições enviadas por leitores. Por isso, hoje, eu volto a beber na fonte dos erros de compreenssão. Os textos tratavam daquilo que o povo fala errado, mas que só assim ganha um significado infinitamente mais engraçado. Foram quase 20 expressões listadas – desde a confusão entre "Lei de Murphy" com uma certa "Lei de Smurff" até a forma curiosa de tornar o preocupante "estado de coma" em um hilariante "estado de goma". Pois não é que as Mirtes do mundo ainda conseguem meter esses mal-entendidos em outras frases? É só parar em qualquer bairro residencial, procurar senhoras simpatizantes de conversa de portão e parar para escutar. Em questão de minutos você vai ouvir o que segue – e se fartar de rir, caso consiga entender. "Ela teve a cachorra de dizer…" "Eu fiquei até com o sistema nervoso…" "Foi fazer um exame de NA…" "Eu vi dizer…" Deixe para amanhã Eu tenho um péssimo hábito de acumular tarefas e achar que meu dia pode ter 27 horas se eu assim desejar. Dizem que tem a ver com o meu signo: como uma boa geminiana, adoro começar dezenas de trabalhos ao mesmo tempo, porém sem terminar nenhum. Bem, eu termino – só demoro pela pura falta de noção temporal. Se não sou boa para gerenciar finanças, consigo ser pior para domar a ampulheta. Desde que me recordo possuir prazos, sempre foi assim. No colégio, quando a professora passava um trabalho para entregar dali uma semana, eu, ao invés de chegar em casa, fazer tudo e ficar livre, deixava passar. "Amanhã eu faço". Quando o amanhã chegava, a mesma coisa. No fim-de-semana, pensava "ah, não vou estudar de sábado e domingo, né?". Quando eu via, o trabalho era para ser entregue no dia seguinte e eu precisava correr com ele e ainda estudar para uma prova. "Não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje" é um ditado muito sábio, porém nunca fez parte da minha vida. E juro que não é de propósito! Só vou empurrando com a barriga achando que, quando precisar sentar e me concentrar naquilo, consigo terminar em apenas uns minutinhos. E ainda acho que conseguiria, se imprevistos não acontecessem e eu não precisasse fazer coisas como dormir, comer e tomar banho – o que perde um tempão, cá entre nós. O problema é que essa irritante mania, além de fugir do meu controle, esbarra no meu lado certinha e CDF. Então, enquanto corro contra os ponteiros depois de toda a lenga-lenga, fico me martirizando, me condenando e querendo dar murros em mim mesma só de pensar no monte de dias livres que tive e não aproveitei. "Quem mandou ficar assistindo a 10 horas de maratona ‘Detetives Médicos’, panaca?" diz a anjinha no meu ombro. Ainda bem que só dou ouvidos à diabinha. Mas nem sempre a culpa é minha, uma vez que Murphy também impera neste quesito. Quantas e quantas vezes eu já não passei uma semana moscando completamente à toa e, nos últimos dias, apareceram cinco trabalhos ao mesmo tempo? Pois essa é a vida de free-lancer que eu me arrumei. Fiz a cama, agora tenho de deitar, certo? E deitar significa ser aliada do tempo e tentar ao máximo cumprir os sempre apertados prazos. Com o Garotas é a mesma coisa. Quando começamos a escrever aqui, eu tinha textos guardados para um mês – porque a empolgação de finalmente poder colocar tudo o que queria em um artigo e ainda ser lida por montes de pessoas era inédita e muito forte. Ultimamente, porém, ando fazendo o texto do dia para ser publicado dali a minutos. Se por um lado não é muito saudável, por outro é um desafio mais emocionante. Neste exato momento eu devo estar em algum ponto ao sul da América do Sul. Para você estar lendo isso, tive de escrever com antecedência – e não apenas este texto, mas outros quinze. Preciso dizer que deixei para a última hora e ainda não posso afirmar se terminarei tudo a tempo? Conseguirá Vivi passar a perna no relógio novamente? Aguarde as reveladoras cenas do próximo capítulo.
Barata, óbvia e infame Diz o Aurélio a respeito da feiosa palavra “infâmia”: 1. Má fama 2. Perda de boa fama 3. Dano social ou legal feito à reputação de alguém 4. Caráter daquilo que é infame; torpeza, vileza, abjeção. O substantivo e seu adjetivo relacionado, “infame”, aparecem umas três vezes na condenação de Tiradentes à forca. É... o pessoal do rei ficou bravo à beça com o alferes e declarou não somente o próprio infame, mas também seus filhos e netos. Hoje, ser infame é bem menos passível de punição. A palavra ganhou outra definição quando falamos de piadas. Ninguém vai enforcá-lo em praça pública, picotá-lo, queimar e salgar sua casa se você fizer a piada do pavê numa reunião de família. No máximo, vão dar uns risinhos amarelos e achá-lo um cretino – ou uma pessoa torpe e vil, voltando ao sentido original da palavra. Mas, confessemos, todo mundo tem uma veia infame. Quem nunca sacou de piadinhas bobas e de gosto discutível que... saia andando e não olhe para trás. Porque poucas coisas são mais divertidas que rir impunemente de um gracejo politicamente incorreto, de humor negro ou calão beirando o baixo. Meu gênero favorito de piadas infames são aqueles trocadalhos do carilho do tipo “se comprar uma pizza, dá para vinte comer?”. Juro, eu tento evitar a risada e parecer uma mocinha correta e de humor fino, mas casco o bico toda vez que ouço. Nessa classe ainda estão as inesquecíveis piadas do café de máquina ou de coador; do jacaré que anda no seco; do pessoal que chegou há pouco de fora; do calor e da chuva nas costas. Também sou muito afeita às anedotas de humor negro, curtas e grossas. Minha favorita, se me permitem: “Mãe, por que o papai está branco?” No repertório que conheço, ainda há a da criança que está brincando com a vovó (e depois guarda a velhinha na caixa) e a do menino que reclama não gostar da vovó (sempre ela), ao que ouve da mãe “então come só as batatas”. Ok, fica mais engraçado contado ao vivo. Por fim, ainda temos os inesquecíveis dizeres ginasiais, do tipo “vixi, vixi, vixi”; “se eu fosse você, cuspia no chão e saía nadando” e “olha a ficha”. Estes transbordam infâmia, assim como as piadas de “você é bobo ou...”. Tal frase era completa com toda sorte de situações bisonhas, cujo ponto era provar que... você é bobo. Assim: “você é bobo ou paga ônibus com cheque?” ou “você é bobo ou enxuga gelo?”. Eu gostaria de saber quem foi a criatura que inventou essa série. Precisa ter muita infâmia correndo nas veias para isso. Vai ver foram os descendentes de Tiradentes. Tá, eu sei... essa foi infame.
Eu vou, eu vou! Já diziam os homens de muito antigamente: esse negócio de ficar lendo demais e assistindo televisão bota idéia na cabeça das pessoas! Eles falam isso por achar um horror “gente com muita idéia”. Eu acho delicioso apinhar a cabeça de sonhos – de preferência, até eles ficarem em número tão imenso que comecem a sair pelas orelhas e ganhem a realidade. Tenho vários desses, de tanto buscar informações. Cinco deles, pode-se dizer, são até meio radicais. Já ficou claro para quem acompanha este site mezzo rosado há tempos: nenhuma garota aqui tem grande intimidade com esportes ou aventuras muito loucas da pesada. E como somos incoerentes também, no momento temos duas sonhando com certas atividades desse calibre e outra realizando a empreitada de fato – “Ushuaia é Logo ali”, mas a Terra do Fogo nunca mais será a mesma depois da passagem de Vivi por lá... E apesar de raramente ter embarcado em expedições do gênero, tenho sonhos relacionados com isso – ok: eu já fiz rafting, já explorei cavernas no Vale do Ribeira, já fiz bóia-cross num rio nervoso, já viajei de carro de Bariloche a Buenos Aires, mas foi só. Não são tão radicais nem tão comuns. Mas tenho certeza que, se um dia conseguir fazer o que segue abaixo, vou contar aos netos com prazer. Eu um dia vou, ah se vou... ...Subir até Macchu Picchu ...Saltar de pára-quedas ...Ver uma pingüineira ...Mochilar até as Ilhas Faroe ...Dar um mosh
Eu teria coragem? Ô! O fim do mundo é aqui Boletim Ushuaia #2 Na próxima vez que alguém disser que tal lugar parece o fim do mundo, a expressão terá um significado completamente diferente para mim. Porque não há outro canto no nosso continente mais extremo do que Ushuaia, onde estou agora. Seguindo mais ao sul desta pequena cidade nevada às margens do canal de Beagle e rodeada por majestosas montanhas só existem algumas bases na Antártida. O fim do mundo é aqui. E os locais têm o maior orgulho disso. Todas as camisetas, canecas, bonés e outros souvenires possuem esse fato estampado em letras garrafais. Para o meu espanto, Ushuaia é muito turístico. Na verdade, quando saímos de São Paulo para chegar até aqui a bordo de um carro, não tinha muita idéia do que iria encontrar. E digo com alegria: valeu cada minuto. Para começar, está nevando - o que já é uma atração para qualquer brasileiro não familiarizado com os flocos brancos caindo suavemente e o tempo todo. Já havia visto a neve algumas vezes, mas isso não me impede de ficar como uma criança: de boca aberta para chupar gelinho, com as mãos estendidas para ver os flocos, correndo como tonta para fazer o maior número de pegadas no campo. Hoje eu esculpi até um boneco de neve, o primeiro da minha vida (ele tinha apenas 30 centímetros de altura, mas quem estava contando?). Desde a semana passada, nossa expedição tomou um novo rumo. E um rumo deveras emocionante, devo dizer. Antes de chegar até aqui, por exemplo, eu realizei um dos meus maiores sonhos: ver uma baleia de perto. Acabei vendo dezenas delas - machos, fêmeas e bebês. Algumas pularam, outras mostraram a cauda e deram uma borrifada. E eu feliz da vida. Veja bem: sou uma pessoa de estômago muito chato. Tenho inveja grossa daquelas pessoas com entranhas de caminhoneiro, que conseguem comer uma feijoada completa e depois ir na montanha-russa numa boa. Eu não sou assim. Eu enjoôo em estacionamento de shopping. Portanto, a idéia de entrar em um bote a caminho do alto-mar, sendo levado pelas ondas que o vento forte estava fazendo, me assustava. Mas tínhamos ido até Puerto Piramides só para ver as tais baleias. E o sonho, como fica? Deixei meu estômago para lá e fui. Quando o primeiro bichão colocou a cabeça para fora e nos olhou, agradeci por não ter dado uma de fresca. Tudo bem que o passeio demorou e que, depois de alguns minutos, eu estava quase pulando na água e voltando sozinha para a terra firme. Tudo bem também que eu fiquei péssima nos dias seguintes e não consegui comer muita coisa até hoje. Pois agora, além de dizer por aí que estive no fim do mundo, posso gritar: EU VI UMA BALEIA! Quantos de nós somos tão sortudos?
Meninos, eu vi!
Diz-me o que comes... Como eu disse, adoro cozinhar. Também como já atestei por aí, leio toda sorte de coisas que me caem às mãos – de rótulo de xampu a bula de remédio, passando por placas de rua, manuais de instrução e, eventualmente, alguns livros. Munida dessas duas características, acabei topando com uma descoberta impressionante: não tem côco na maria-mole! Pelo menos não naquelas de caixinha, embora a embalagem estampe um selo nada discreto que diz “Sabor Côco”. Depois dessa, passei a incluir no meu menu de leituras as embalagens de comestíveis. O fato me atormentou. É como se o tang laranja não tivesse... laranja. Peraí. É capaz mesmo que não tenha. Afinal, o sabor daquele refresco é uma delícia, mas não me lembra nem de longe a fruta cítrica da qual diz ser feito. É como a esfiha de queijo do Habib’s – muito boa, mas vamos admitir: aquilo não pode ser queijo. É verde, por Deus! Para minha surpresa, notei que, se por um lado o pó para preparo de maria-mole não se dignou a ter uma raspinha sequer de côco, outros produtos contam com ingredientes inimagináveis – coisas que vão do poético ao enigmático, passando pelo que eu classifico, mui humildemente, de enrolação. Haja nutricionista para explicar... Aroma idêntico ao natural de morango Aroma de fumaça Açúcar invertido DNA vegetal Corante amarelo crepúsculo Se você olhar bem de perto, quem sabe dá para ver o crepúsculo Muito pouco Ando com perguntas saindo pelas orelhas... De repente, tudo parece motivo de questionamento. Será que estamos no caminho certo? De onde viemos? Para onde vamos? Por que algumas mulheres fazem reflexo no cabelo? Não sei dar resposta para quase nada. Mas uma questão freqüente do momento, acho que consegui dissecar. O que a gente precisa para ser feliz? É pouco, muito pouco. Nessa semana passei raiva porque o carro quebrou, o calor está no ponto senegalês de novo, bati o joelho no box do chuveiro e ganhei um hematoma do tamanho do Pará. Fiquei aborrecida com o trabalho em excesso, com o incêndio que exterminou a loja de um pobre vizinho, em saber dos malditos racistas presentes no Orkut. E daí pensei: “que tristeza”. Mas, sabe? Nada disso é motivo para arrancar a felicidade aqui do coração. Atentem para a foto abaixo:
Essa sou eu aos 7 anos. Naqueles idos de 1982, tudo era uma festa. A segunda série era bico, eu tinha uma amiga-fiel-irmã-camarada e dividir o quarto com a minha irmã causava mais riso que choro. Andava descalça desde o fim da aula até dormir. E por volta de junho ganhei o Floco, essa coisa fofa aboletada nos meus braços. As imensas preocupações da minha tenra vida eram estas: como enfrentar a prova de ciências; se o menino de quem eu gostava tinha percebido isso; o que pedir no Natal. Meus tesouros resumiam-se a: um Aquaplay do pescador; uma boneca de pano, a famosa Cezona; uma Suzi noiva; um par de tênis Bubblegummers; cerca de 40 Playmobils; uma máquina fotográfica Love. O dia passava da seguinte maneira: ia pra escola às 7h00 e “estudava” até 12h40. Voava pra casa no ônibus do Tio Abílio e comia a gororoba disponível – em geral, a deliciosa formação arroz-feijão-bife-salada. Assistia o Chaves, ia pra rua encontrar a molecada e ficava lá na praça até 17h30. Voltava pra casa, me divertia com o fim do Daniel Azulay e a Turma do Lambe-Lambe e ia tomar banho. Jantava, via novela e tocava para a cama, dormir. Eu era muito feliz em 1982. Por que? Porque nada era complicado! Não precisava de carro, circulava a pé ou de bicicleta por todo o meu grande Universo. O calor era legal pra tomar banho de mangueira, o trabalho de fazer lição era engolido em questão de duas horas, eu não conhecia gente mesquinha ou malvada – e se conhecesse, não identificava desse jeito. Tudo bem, não é possível esquecer 100% das obrigações e ignorar um rombo no banco ou uma briga feia com o namorado. Mas dá para equilibrar, colocando o peso correto em cima de cada invertida do destino. Ter uma doença incurável é terrível. Bater o joelho e ganhar um hematoma é hilário! Ainda mais tendo percebido que ele se parece com uma joaninha. Melhor encarar as chateações como se tivéssemos 7 anos. Era mais fácil naquele tempo. Espero que as crianças de agora sejam felizes também. Não ter roupa de grife ou um videogame poderoso aparenta ser um problemão hoje em dia, mas não devia. Aliás, acho que nem só os pequeninos precisam desapegar e ficar contentes com pouco. Há muita gente grande merecendo um sorvete escorrendo pelo braço, um dia de preguiça na frente da tv, uma gargalhada besta e sem motivo daquelas que fazem doer a barriga. É pouco, não é? Mas é a resposta mais simples, eu acho. Abre! Abre! Abre! “Querido Silvio Santos. Espero que o senhor escolha a minha cartinha no meio das outras. Gostaria de pedir uma casa pré-fabricada para o sítio do meu avô. Ele não tem dinheiro para comprar uma. Muito obrigada”. Eu devia ter uns 12 anos quando escrevi essa mensagem em um papel de carta, enfiei-a em um envelope e coloquei-a no correio. O destino? O SBT. Sim, eu tentei a sorte para participar do programa “Porta da Esperança” – e me orgulho disso! Está bem, o orgulho não é tanto assim. Mas que diabos, o Garotas me faz confessar cada coisa! De qualquer maneira, eu era uma menina bem-intencionada. Enchi a carta dizendo que meu avô era deficiente, pobre, diabético e muito, muito idoso – tudo mentirinha para amolecer o coração de Sílvio Santos. Como se fosse o Patrão em si que lesse todo aquele bando de correspondência! Apesar de treinar todas as caras de criança carente, não fui escolhida. Droga (ou ainda bem?). No fundo, o objetivo maior era pisar no palco daquele programa que eu simplesmente adorava! Hoje ajudar os mais necessitados virou coqueluche na tevê: a Xuxa o faz, assim como o Gugu, o Sérgio Mallandro, o João Kleber, o Netinho, a Márcia... Naquela época, porém, “Porta da Esperança” era o único de sua espécie. O primeiro exemplar foi ao ar em 30 de dezembro de 1984 e chegou a ser exibido até 1997, porém não de forma ininterrupta. O dominical começava lá pelas 17 horas, logo depois de Jesus falar. Ele (com “E” maiúsculo) aparecia em uma vinheta antecipando a emoção de “Porta da Esperança” e dizendo assim: “Paz, amor, fé, esperança, luz e união não são apenas palavras. Você tem certeza de que fez tudo o que podia pelo seu semelhante? Pense bem, pois um dia vamos nos encontrar. E eu gostaria muito de chamá-lo de meu filho”. Eu morria de medo. Em seguida, sêo Silvio, no auge do sorriso, aparecia no palco principal. Ao fundo, uma porta gigante, parecida com a do Castelo de Greyskull, cheia de luzes em volta como espelhos de camarim. Num palquinho à esquerda da tela, um microfone esperava receber os desejos dos participantes da semana. O apresentador chamava a primeira vítima e lhe perguntava “o que você quer ganhar?”. Daí a mulher respondia: “Ah, Silvio, eu queria uma cadeira de rodas para a minha mãe, que sofre do sistema nervoso, das úlcera, tem as perna cheia de variz e as vista cansada”. E então contava toda a história triste da mamãezinha (que aparecia no auditório chorando de tempos em tempos). Silvio se compadecia e falava, “quem sabe a nossa produção não encontrou alguém para doar a cadeira?”. E, em seguida, o momento máximo: “VAMOS ABRIR A PORTA DA ESPERANÇA!”. Se ninguém aparecesse, o desejo não era realizado, e Silvio Santos falava que “a produção continuaria tentando”. Ô, enganação! Mas, se tivesse um tiozinho parado lá no meio, era porque o sonho havia sido atendido. No caso, a mulher descia até lá e, em prantos, se atracava com o encabulado representante da empresa, enquanto o Roque ia buscar a mãe da participante na platéia. Ao explicar todas as maravilhas da cadeira de rodas, era exibido um filminho sobre a firma benevolente. Terminada a meia hora de pura emoção, outro clássico chegava: a “A Semana do Presidente”, onde Lombardi narrava tudo o que nosso comandante andava fazendo – quando eu era fã de “Porta da Esperança”, o hómi da vez era José Sarney. Bons tempos aqueles, viu? Ah, não estou me referindo ao Sarney, é claro.
Uma garota e tantos bichos Vivi, minha querida companheira que está um pouco longe nesse momento, ama bichinhos. De toda sorte. Ao cúmulo de, quando pequena, ter aparecido em casa com um ratinho de rua para criar. Claro que a relação com o roedor durou bem pouco – só até a mãe dela acabar com a brincadeira da ingênua criança. Já eu tenho de confessar: não sou provida desse espírito de São Francisco. Não que eu amarre latas no rabo dos cachorros (aliás, isso só acontece em gibis. Eu nunca vi um cão com latas amarradas no rabo na vida real), chute gatinhos ou queira mais é que as baleias encalhem mesmo. Gosto de animais, como bem definiu o orkut, nos zoológicos – ou na casa dos outros. Tenho respeito por eles. Abomino crueldade contra animais e sinto o coração apertado quando vejo um cãozinho magro e abandonado, na rua. Só não tenho tino para cuidar deles, acho. No universo dos animais selvagens, por exemplo, não me peça para passar a mão num elefante ou numa foca. Não sou muito chegada a esses contatos com peles paquidérmicas ou aparentemente escorregadias. Já no campo das criaturinhas de Deus domésticas, não dou muito certo com bichos sob o mesmo teto – embora já tenha tentado muitas vezes. Eu sempre caio na ilusão de que seria legal ter um bichinho. E me dou mal com a mesma freqüência, entre papagaios irados, cães tomados por ovelhas e gatos envolvidos num imbróglio de identidade sexual. Pita, o papagaio Minsk, o gato Remon, o sheepdog Sophia, a gata – ou não Realidade pra que te quero Um, dois, três e... já. Arma-se um cenário de residência comum, escolhe-se 12 bobos dispostos a brincar de cobaia, faz-se uma tremenda campanha de mídia, ganha-se um recorde de audiência no último episódio. Assim são montados os reality shows. Sinceramente? Quando o primeiro apareceu por aqui, na forma de “No Limite”, achei o maior barato. Depois vieram o enlatado “Big Brother”, a hilária “Casa dos Artistas” e a coisa foi ficando chatinha. Agora, parece, os programas de realidade voltaram a pescar minha atenção curiosa, intrometida e muito sem noção. De novo estou viciada em um programa dessa cepa. Pior: é apresentado por um magnata safado e usuário de peruca. Donald Trump tinha essa imagem na minha cabeça desde sempre. Hoje penso assim: é magnata, é safado e é peruquento. Mas entrou para a categoria Mestre dos Magos com o reality show “O Aprendiz”. Ele fala como o senhor Myiagi com seus empregados! Na atração, apresentada no glorioso People+Arts, Donald rege o destino de vários jovens carreiristas. Formam-se equipes e eles disputam provas relacionadas com o mundo dos negócios. Quem mostra qualidades ruins, é demitido. Quem vai bem, fica para concorrer a uma vaga de emprego na corporação. É como uma dinâmica de grupo que leva vários dias pra acabar. Doideira! Mas eu acho chocante avaliar como as pessoas se mostram mesquinhas e puxadoras de tapete ao disputar um mísero trabalho... O bom é que, no jogo de Trump, não tem uma soma sem graça de dinheiro em disputa. É muito aborrecido e maçante quando a coisa vira assim, para o lado de “ser mercenário”. Bom é ganhar um prêmio valioso, mas temático. O mesmo People+Arts já anunciou a chegada próxima de um novo show. Chama-se “Fashion House”. Nele, a casa inventada é localizada... em Roma! Os convidados são estilistas em começo de carreira que jogarão dentro do assunto moda. Quem levar a melhor, no final, ganha um emprego na Gucci, a famosa marca de vestuário italiana. Demais, não? Imagina a emoção de quem lida com o metiêr em ir realizar o sonho da vida! Muito melhor do que levar uma bolada em cheque, eu penso. O mesmo sentimento devem ter os participantes de um vindouro programa lançado pelo canal a cabo Animal Planet. O canal bacana, infelizmente, tem um site podre – e por isso não consegui localizar o nome exato da atração. Mas, segundo a propaganda, funcionará assim: moças e rapazes especialistas em biológicas (oceanografia, biologia, veterinária, etc.) irão para o meio da selva viver e cumprir provas arrojadas. Quem se mostrar mais resistente – e, óbvio, capaz de comer bigatos, dormir na chuva e apanhar crocodilo na unha –, vence. O prêmio? A chance de apresentar um programa só seu, educativo e sobre animais e plantas, no próprio canal. Além de ser um “troféu” incrível, ainda é a maneira perfeita de escolher um hostess com pré-requisitos, e não apenas um modelo para abrilhantar o local. Enquanto espero por esses que virão, vou me divertindo com a briga de foice na caixa-forte de Donald Trump e com outro programa do P+A. O dito cujo foi batizado como “Troca de Esposas”. Parece documentário sobre swingue, mas não é, não. Acontece assim: duas mulheres inglesas vão morar uma na casa da outra por 10 dias. Em geral, o negócio é misturar estilos. A moça que trabalha fora e tem só um bebê vai viver numa casa suburbana apinhada de crianças e com serviços de casa bem Mirtes a cumprir. Vira um deus nos acuda... Ninguém acostuma! E olha que, na segunda metade da jornada, elas podem inverter as regras da residência e aplicar suas próprias idéias. Mesmo assim, dá pau. Na minha opinião, “Troca de Esposas” foi inventado por algum produtor do sexo macho que se diverte horrivelmente subjugando mulheres e fazendo as mesmas enlouquecerem. Ainda assim, adoro – porque mostra reações realistas sobre as pessoas, e não maneirismos ensaiados para ganhar público votante e ganhar verdinhas. No programa, aliás, nem existe prêmio, só cachê de participação. Para o espectador, essa é a melhor forma de notar o comportamento de uma dúzia de malucões em recinto lacrado. Três, dois, um... Já! que comece a experiência!
Pedro Bial é bom... Mas Seo Trump mata a pau! Úteis, mas fúteis Você já parou para pensar quantos utensílios a nossa era transformou em itens de primeira necessidade? Eu já. Imagino como viviam as pessoas na Idade Média: sem televisão, chuveiro elétrico, carro, máquina de lavar, telefone. Sinceramente, não sei – só sei que conseguiam seguir em frente (não por muito tempo, porém). Apesar de admitirmos que o ser humano consegue viver livre de todas as comodidades, não podemos negar que a vida ficou mais fácil – ou mais agradável – com as invenções modernas. Hoje em dia, dependo muito do computador. Eu me formei jornalista em pleno boom da Internet no Brasil e não sei como conseguiria fazer o que faço sem essa máquina barulhenta me conectando com o mundo sem me tirar da cadeira. Recebo pautas de matéria pelo e-mail, pesquiso informações em sites, procuro o contato de entrevistados em sistemas de busca e entrego a matéria pronta por e-mail. Sem contar o Garotas, que está aqui graças ao maravilhoso aparelho. Nem tudo o que é novidade, porém, carrega o status de necessidade. Por exemplo: não vivemos sem computador, mas viveríamos sem um monitor de tela plana e cristal líquido. Certo? Bem, eu não tenho um exemplar desse enfeitando minha mesa de trabalho. Mas tenho outros objetos fúteis sem os quais eu até viveria – mas que fazem meu cotidiano mais feliz. Controle remoto Creme para pentear Formato mp3 Ar condicionado Mouse sem fio Celular Wonderbra
Levanta até defunto
Parece que foi ontem Se o calendário marcasse ainda o ano de 2003, ontem eu estaria me mudando oficialmente para a primeira casa montada por mim – claro, ao lado do rapaz que, também oficialmente, estaria passando para o time dos “casados” no futebol semanal. Há um ano e um dia mudei de endereço e de estado civil. Quando cruzamos a porta naquela noite, eu tinha alguma idéia do que era viver sob o mesmo teto. Mas não imaginei que fosse ainda melhor do que pensava. Basicamente, por duas razões: a casa e o caso. Ser dona da sua própria casa é bom demais da conta. Especialmente para alguém como eu, dada a essas coisinhas corriqueiras do tipo cozinhar – como eu disse aqui; cuidar de plantas – como o pé de manjericão e o de pimenta que plantamos há meses e agora fornecem temperos para nossos pratos; definir se vai botar um vaso aqui ou ali – como a orquídea que ganhei da mamãe. Outro prazer é inventar modas para decorar nosso endereço – como a mesa do escritório sobre a qual me apóio agora, criada com dois cavaletes e uma tábua enorme. Nela, repousa uma colagem de fotos, recortes, tíquetes de cinema, shows e partidas de futebol. Meu novo (mas nem tanto) lar-doce-lar tem também a parede da memória, onde afixamos fotos dos avós, pais e irmãos que nos fizeram ser quem somos hoje. O caso é outra parte da alegria de estar casada. Completei bodas de papel (eu acho cômica a seqüência das tais bodas) ontem, mas conheço esse garoto há nove anos. Já sabia muito bem, portanto, em que buraco eu estava me metendo ao dizer “sim” para o moçoilo. Mas ele ainda me surpreende. Isso porque ele é sério, mas engraçado. Esquentado às vezes, mas extremamente simpático sempre. Absolutamente sincero e comprometido com as coisas que faz. Chatíssimo, quando insiste em guardar as meias sujas dentro dos sapatos, deixar a gasolina do carro na reserva ou se negar a jogar no lixo coisas que estão na geladeira há um tempo respeitável. Objetivo, como eu preciso que alguém seja – já que sou o oposto complementar dele nessa parte. E, acima de tudo, corajoso. Muito corajoso. Ah, sim! Ele também ri das minhas piadas e é bobo às vezes, como convém a qualquer pessoa do bem ser. Outro dia mesmo estávamos no sofá assistindo a um documentário sobre mágica, quando apareceu o famoso truque de serrar uma mulher ao meio. Perguntei: “como diabos será que eles fazem isso?”. E ele, deslavadamente: “bom, a mulher entra ali, eles serram e, depois, jogam a vítima no lixo, em dois sacos separados, um para cada parte”. Parece que foi ontem que eu decidi levar a vida, até onde der, ao lado desse cara. E por essas e outras, não me arrependo. Dê um tempo ao Sr. S A bola da vez na pichação cinematográfica é “A Vila”. Tem ao menos três semanas que escuto falar mal do filme, com adjetivos indo de “estúpido” à “enganação”. Isso tudo num tempo em que está em cartaz a pataquada de nome “Alien vs. Predador”! Querem me convencer que o duelo gosmento entre as bestas é mais legal do que o filme de M. Night Shyamalan... Não, não. Fui ver a história do vilarejo e pasmem: é bom, sim! Acho que entendi o problema com a produção depois de ter assistido. Não é mal feita, não é ruim, tem bom roteiro e excelente técnica. O caso é: trata-se de mais um filme do indiano malucão. E, como agravante, foi vendido ao público me maneira bem safada. Esqueça aquele trailer imbecil dizendo “não conte o final deste filme”. É gato! Até onde sei, gente normal não conta o final de nenhum filme, certo? A frase de (d)efeito está ali puramente para servir de isca. Daí muita gente vai ver acreditando tratar-se do mais espetacular desfecho da História e vem a decepção. Claro, ninguém gosta de ser tratado feito peixe burro enganado por uma minhoca de látex. O final é interessante, não desconcertante. É curioso, não o maior cambal já aplicado numa platéia. Tendo isso em mente, fica mais fácil apreciar. Então, ponto superado, vamos ao outro problema. M. Night Shyamalan é um rapaz de 34 anos nascido na Índia e criado desde pequeno nos arredores da Filadélfia, Estados Unidos. Seu laço forte com a cidade e a verve asiática para fundir o mundo dos vivos com o dos mortos deu a idéia para o primeiro grande sucesso nas telas. Eu passei bem mal em “O Sexto Sentido”, de 1999, mas adorei cada segundo. É filme para rir, chorar, deixar o queixo cair, ter ataques de gritos – aquelas obras completas para qualquer pessoa afeita a aboletar o traseiro numa poltrona de cinema. Todo mundo amou, porque há muito tempo nenhuma peça hollywoodiana se aproximava tanto de Alfred Hitchcock. O suspense voltou a ser gênero de primeira necessidade e gente de todas as idades repetia “eu vejo gente morta” em piada de boteco. Shyamalan “enricou”, ganhou prestígio e partiu para a próxima, em 2000. Tratava-se de “Corpo Fechado”. Todo mundo foi ver e decepcionou. Não tinha o final acachapante do outro filme, que horror! Mas, de novo, eu gostei... Bruce Willis era ou não um homem com superpoderes? Achei genial o tratamento de HQ levado daquela maneira. Mas não era “O Sexto Sentido”, então enxovalharam. Dois anos depois os trailers começaram a mostrar a nova obra de M. Night. Chamava-se “Sinais” e mostrava os círculos feitos em plantações, aqueles picados por criativos ETs. Causou frisson de novo, foi aquela expectativa... e todo mundo odiou. Saco, eu gostei mais uma vez! É praga? Só pude confessar ter gostado de “Sinais” falando baixinho, “meio de lado, já saindo, indo embora...” E fico sem entender, até hoje, o que esperavam do filme ou o que acharam faltar nele. Disseram que os alienígenas se pareciam com o Aquaman. Pessoalmente, eu achei ótima a mistura de “Inimigo Meu” com “O Monstro do Pântano”. E, pelamordedeus, quem pode ter certeza sobre a aparência de um ET?? Tudo bem que o indiano apela um pouco ao sentimentalismo. Mas cinema não é para isso também? Li esta semana, em uma revista, que “O Terminal”, de Steven Spielberg, era “piegas”. Parece que vivemos em um tempo onde é proibido ser bobo, romântico, inocente e desprovido de armas. Até no cinema. Pensando em tudo isso, fui ver o novo de Shyamalan, “A Vila”, desprovida de preconceitos – e de pura birra, porque quando a “Folha de São Paulo” diz que é ruim, daí ganho mais vontade. O ponto grave é: dizem que o diretor chupou a idéia de um livro infantil publicado pela escritora Margaret Haddix. Se foi isso mesmo ou não, ainda não está provado. Mas o filme saiu bom, poxa... Eu fiquei com medo “daqueles-que-não-falamos-o-nome”. Vou defender Shyamalan dos maledicentes, sim. Cineasta que prega susto tão bem não pode ser enganador. Podem pichar à vontade.
O da direita é diretor do bom Pipoca com lágrimas A saga da pipoca continua! Desta vez, prepare sua caixa de lenços de papel, pois haverá muita doença, maldade, separação, morte, injustiça, guerra... Todos os artifícios mais usados por Hollywood para alcançar o objetivo esperado: fazer o telespectador chorar. Eu, manteiga derretida na chapa quente que sou, não tenho o mínimo pudor de confessar que sim, derrubo lágrimas no cinema. E olha que a produção nem precisa se encaixar no gênero Drama ou exibir um cachorrinho sendo maltratado. Eu me emociono facilmente – e daí a verter água dos olhos é um pulinho. Por exemplo, chorei pra valer em “De Volta Para o Futuro 3”, quando o DeLorean foi destruído por um trem. Puxa, que coisa mais triste! Era o fim de uma era, entende? Portanto, foi tarefa fácil escolher seis exemplares que me desidrataram, apesar de um monte ter ficado de fora. Deixo aqui então uma menção honrosa a “Bambi” e “Dumbo”, os desenhos animados mais malignos da face da Terra. Dito isso, é chegada a hora... Ah, e não vale engolir o choro, hein? Sociedade dos Poetas Mortos Peixe Grande Filadélfia E.T. – O Extraterrestre Dançando no Escuro Império do Sol
Não chore, menininho...
Alguém me explica? De dois em dois anos, o povo brasileiro é conclamado a participar da grande festa democrática, escolhendo seus representantes para os cargos de prefeito, vereador, deputado, senador e presidente. Além da consolidação da democracia, do exercício da cidadania e todas essas bossas, a época de eleições também me faz refletir – e rir um bocado. Tem uma porção de coisas que não entendo nas eleições. Elas vão das famigeradas pesquisas de opinião aos nomes bizarros de alguns candidatos. Claro que votar é algo para ser levado muito – mas muito mesmo – a sério. Quem acha que é piada acaba elegendo figuras como o Enéas, que agora me saca da tal “senhorita Cássia”. Ainda não ouvi a voz daquela mulher. E por que ele fica segurando a mão dela na propaganda? Cruzes. Mas enfim. Será que sou só eu, ou alguém aí fora também não compreende a lista abaixo? Como pode... ... ter gente que acha legal emporcalhar a cidade? ... ter candidato que usurpa nomes de famosos? ... ter eleitor que deixa as pesquisas influenciarem seu voto? ... ter quem vote no Maluf (fora ele mesmo e a Silvia)? ... ter alguém que espera ser levado a sério com o nome de Rôla? Rôla onde, meu filho?
Os dias de romaria Se hoje sou viciada em café, amo bolinho de chuva como à própria vida e me tornei afeita a um bom bate-papo, é tudo culpa das visitas. Visita na casa dos parentes, sabem? Pois então. Meu pai e minha mãe adoravam nos arrastar para esses eventos quando criança – principalmente eu, dona do cargo caçula-para-mostrar-aos-tios. Não que eu achasse ruim... Passar a casa dos outros em checagem era bastante divertido, eu confesso. Era batata: raiava o sábado, meu pai levantava e fazia o desjejum. Eu acordava quase junto, porque naquela época de 6 ou 7 anos nosso relógio biológico assemelha-se ao das galinhas. Roupa trocada e dente escovado, era hora de sair para passear. Em geral, só havia dois destinos: a casa da vó Emília ou o Mercado Municipal de São Bernardo, onde comprávamos itens de extrema necessidade como massa para pastel e flores. Mas o mais comum era passar rápido no mercado e seguir para a romaria familiar. Metade dos meus parentes mora na ajardinada e dormente São Caetano do Sul, o C do ABC. No mesmo bairro. Em duas ruas, mais precisamente. Visitá-los, por isso, era bem fácil. Depois de pedir a bênção na vó, começava o pinga-pinga na residência dos demais. Na paralela, ficava a casa da Tia Mariquinha. Era uma construção tão grande que moravam ali alguns núcleos familiares, como em novela a la “Terra Nostra”. Era um lugar maluco: para chegar ao terceiro quarto, das minhas primas mais velhas, precisava passar por dentro de outros dois dormitórios. Gente de antigamente não conhecia o conceito de “corredor”. Tia Mariquinha estava sempre com a televisão ligada na finada TVS e um bule de café no fogão. Ela me dava doce antes do almoço e deixava beber Tang! Era um comportamento padrão entre tias usuárias de pó-de-arroz, aventais culinários engraçados e calendários mostrando gatinhos no cesto. Típica senhora de bairro são-caetanense, a tia... Uma das irmãs dela também era visitada na “peregrinação de papai”. Tia Nica era dona de uma morada igual, daquelas antigas, com fachada modesta e milhões de metros de quintal. Nesse espaço – onde, eu juro, caberia uma praça pública –, viviam nobres moradores. Era a única casa onde a comilança não me atraía. O legal, ali, era ver o Negão. Esse era o nome do pássaro preto da Tia Nica. Era um diabo mau-humorado e ranzinza que podia mastigar pontas de dedos à menor bobeada. Mesmo assim, era divertido provocá-lo pela gaiola e ouvir aquela cantoria bonita. Quando enjoava, eu saía pra procurar as tartarugas da tia no meio das folhagens. Era umas... 190, talvez. Mas nada se comparava a visitar minha tia-madrinha. Amiga da mamãe dos tempos de faculdade, Tia Sônia foi alçada ao posto de Godmother para mim. Assim sendo, achava bom me agradar a qualquer custo. O que aprontei na casa daquela mulher não foi brincadeira. Primeiro, chegávamos para o chá da tarde. Ela fazia um balde de mate (gelado ou quente, dependendo do dia) e servia em xícaras verdes. Só porque eu gostava. Daí me entupia de bolacha com patê e manteiga e permitia que eu fosse revirar a sala. Ah, sim... A madrinha era a única pessoa do planeta a me deixar “ver com a mão”! E olha que a prateleira dela contava com frutas de madeira, bibelôs com pedras preciosas falsas e estátuas! Sendo um pequeno demônio, mas capaz de fazer cara de santinha, eu era bem-quista em todas essas casas. Em troca de deixar apertarem minhas bochechas, dar tapinhas na cabeça e abraços esmagadores, os tios me deixavam arreliar com tudo. De tanto ouvir o tal “como você cresceu!”, hoje me vejo como se tivesse 3,54 metros. Sinto falta da romaria familiar, porque hoje a maioria dessa gente maravilhosa já não vive entre nós. Devem estar servindo bolinho de chuva e Tang para uma sortuda criançada lá no céu. Um dia passarei para vê-los, quem sabe. Formanda de 1990 Quando eu fiz 15 anos, não tive uma festa de debutante cheia de fricotes, babados cor-de-rosa e cadetes dançarinos. Quando juntei as escovas de dente com alguém, passei longe de vestidos de noiva, padres e assinaturas em papéis. Veja bem: não é que desgoste de cerimônias. Na verdade, acho tudo muito bonito, desde que eu não esteja incluída nelas. O único evento do tipo a contar com a participação desta que vos fala foi uma formatura. Não me refiro, porém, à formatura do colégio – eu abri mão da colação de grau e do baile por uma viagem a Londres. Tampouco estou falando da formatura da faculdade – eu compareci fugida de um plantão de redação para pegar um canudo vazio, pois o diploma sairia só dali seis meses. Talvez tenha deixado de curtir cerimônias assim por ter vivido na pele a temida formatura do ensino fundamental. Eu tinha 13 anos, acne na cara e cabelo ruim. Naquela época, o pensamento de ser o centro das atenções (ainda que por poucos segundos) me aterrorizava. Sob protestos, tive de vestir a horrenda beca por cima de um não menos horrendo vestido trapézio, último grito da moda dos finados anos 80. Troquei meu All Star cano longo por um incômodo sapato de bico fino e substituí minhas meias grossas por um exemplar fino e fumê. O que eu não entendia era: qual o propósito da firula toda? Afinal, estava apenas passando de ano – coisa que eu já havia feito várias vezes antes sem maiores choques. Mas não, daquela vez era diferente. Daquela vez teve um convite com capa de veludo cor-de-vinho e meu nome escrito em dourado com letra de calígrafo. Lembro-me de que no dia D (de “desastre”) estava um calor senegalês e eu pingava dentro daquele traje negro e comprido, mais para mulheres afegãs do que para uma menina em pleno verão brasileiro. Já na entrada do ginásio de esportes da cidade tivemos de posar para fotografia. Um horror. O único que parecia estar curtindo era o meu avô, dentro de um terno de mil novecentos e bolinha, emocionadíssimo por eu tê-lo escolhido como padrinho. Uma vez começada a cerimônia, professores se revezaram no palco para falarem coisas profundas sobre nós sermos o futuro da nação. Após muita lenga-lenga, eles começaram a chamar os nomes dos formandos. “Ufa, finalmente”, pensei, achando que tudo estaria terminado em 40 minutos. Mas me enganei: eram 15 salas diferentes, cada uma com uns 30 alunos. O negócio demorou horas. Talvez anos. Aliás, talvez eu ainda esteja lá e não tenha me dado conta. Pois bem. Isso foi basicamente a única formatura tradicional que tive em minha vida. Calor, nomes que eu não conhecia, discurso de prefeito... Uma maldita vela que teimava em pingar cera na minha beca, um juramento sobre alguma coisa sem importância e algumas músicas de gosto duvidoso. No final, os alto-falantes tocaram “Somos Quem Podemos Ser” dos Engenheiros do Hawaii e desenhos em raio laser coloriram o teto do recinto. Sério, nem minha família agüentou aquilo – mamãe saiu de fininho sem falar tchau. Só então percebi que a cota de cerimônias já havia esgotado nesta vida. Outra dessa? Talvez em 2098. Isso se abolirem as becas e o Humberto Gessinger tiver virado purpurina.
Eu adoro cozinhar Eu adoro cozinhar. Eu sei, comecei repetindo o título, mas é para enfatizar bem. Sempre achei o máximo misturar quatro ou cinco coisas que não eram nada separadas e, voilà!, viram um molho bacana ou uma carne gostosa. Minha mãe começou a me ensinar o trivial variado de forno & fogão quando eu tinha 17. Achei que nunca ia conseguir me lembrar se devia pôr a cebola, o óleo ou o arroz primeiro na panela – como sempre acontece quando adentramos uma ciência nova do zero e temos a nítida impressão de que tudo é muito complicado e nunca vai dar certo. Isso vale para ocasiões das mais diversas, de aprender a andar de bicicleta a operar um programa de computador. Mas como sempre, também, a prática leva à perfeição – ou quase isso. Queimei muito fundo de comida e às vezes ainda erro o ponto de algumas iguarias. Por isso, continuo praticando. Ainda me embanano bastante se vou cozinhar na casa de outrem. Sabe aquela história de só saber fazer o café com os seus apetrechos, pois você já tem as marcas de açúcar, café e água naquela exata panela, de memória? Então, é verdade. Até porque, como minha mãe e minha avó, só meço os ingredientes a olho. Essa é uma herança das cozinheiras da família – um tanto poética, mas deveras incômoda às vezes. Isso porque, como disse, manjo do riscado básico desde os 17, mas só comecei a fazer algumas exclusividades da minha mãe quando me mudei. Daí, quando bateu vontade de comer panqueca, liguei para a incansável fada, que me disse: “ah, põe assim, um ovo, um pouco de leite e vai acrescentando farinha até dar o ponto”. Mas pouco quanto, mulher de Deus? E quando diabos é o ponto? É algo místico? Vai brilhar quando for a hora? Sai bolhinha? E agora? O resultado é que ainda não sai igual à da mamãe, mas eu chego lá. Aliás, meu sonho de mestre-cuca é chegar lá – na habilidade da dona Sandra com panelas, especiarias e experiências. Como todo mundo, acho minha mãe a melhor cozinheira do planeta – seguida de perto por minha avó, a Nina. Quando ainda estava boa dos parafusos, a Nina deixava qualquer um no chinelo. Para se ter uma idéia, ela fazia macarrão e vinho em casa. Pão, torta, biscoitinhos, pizzas – tudo. Era uma coisa linda de se ver, ela abrindo massa com o tradicionalíssimo pau-de-macarrão. Parecia fácil – e não era. Parecia delicioso – e, isso sim, era. Também, pudera. Ela começou a cozinhar com sete anos, contava para mim. As tias que a ensinaram botavam um banquinho na frente do fogão para que ela alcançasse a lida com as panelas. A italianada somava umas dez famílias aparentadas (imagina o volume das conversas) morando na mesma fazenda. Haja vinho. E macarrão. Atualmente, me viro muito bem na cozinha. Entre meus pratos favoritos (de fazer e de comer) estão a sopa de capeletti, a lasanha e o suflê de couve-flor. Mas ainda hei de inventar muita moda. E se um dia chegar a fazer macarrão caseiro (ou vinho), dou-me por satisfeita.
Nem por um decreto Eu tenho ídolos. Quase todos mortos, ainda bem. Melhor assim, acho, porque não há chance de decepção. Tem coisa mais chata que adorar uma pessoa e seu trabalho e, mais tarde, descobrir que ela tem uma fazenda com trabalho escravo? Ou bate em mulher? Ou balança bebês na janela? Deus me livre. Ademais, acho meio embaraçoso correr atrás de gente famosa com lápis e papel na mão. Que me perdoem os caçadores de autógrafos, mas não acho explicação para isso. Às vezes, na televisão, vejo imagens de gente se espremendo em alambrados pra conseguir atenção de apresentadora de programa infantil, jogador de futebol, atores. Por que? Para ganhar um papel com garranchos rabiscados? Ora, daqui que eu mesma pincelo umas letras aí e digo que foi a Luana Piovani quem fez! Além do mais, já repararam como as celebridades nunca olham no rosto do fã? Nem por um segundo. Reparam nos papéis e assinam com a mesma atenção que meu pai destinava ao boletim – daí eu ter virado uma aluna relapsa. Alguns, como a Xuxa, nem se dão ao trabalho de escrever: apenas emplastram a boca de batom e tascam beijinhos na folha. Argh! Mesmo assim, sempre há gente disposta a correr atrás de famosos nos corredores de aeroporto ou shopping. Correr? Eu faço isso apenas pra salvar minha vida ou apanhar ônibus em movimento. Desabalar carreira no encalço de galã de novela, nem pensar. E isso deve assustar horrores o dito cujo... Imagina o Rodrigo Santoro, magrela daquele jeito, vendo uma horda de meninas avançar em sua direção! Não deve ficar feliz, deve se sentir no estouro da manada de búfalos, coitado! Também tapo o rosto com as mãos ao ver choro copioso na tv. O cidadão lá, cantando suas pérolas, e meninas na platéia (porque quase sempre são meninas mesmo...) desidratando no auditório. Choram feito doidas – como se isso deixasse alguém mais bonitinha e interessante aos olhos do cantor. Que vergonha... Se vir minha filha fazendo isso na tv, vai descascar cebola no porão, pra ver o que é choro. Há ainda os fãs mansos, daqueles que fazem apenas cartazes de cartolina e camisetas. Fica um pouco infantil? Fica, mas passa. As blusas costumam ter a foto do ídolo e a placa normalmente é salpicada por brocado e purpurina. Duro é ver o famoso apanhar o cartaz e dizer que vai “guardar com carinho”, que tem “um quarto só para esses presentes”, etc. Ah, tá. Eles fazem é arquivar no balde preto da lavanderia, isso sim. Desculpem a falta de romantismo, mas tenho dificuldade, hoje, de acreditar em “pessoas públicas”. Enquanto seu show está no ar, imagino que apresentadoras e afins ganham um sem-número de ursinhos, balões e presentes. E aquele rolos de carta com 200 milhões de inscrições “EU TE AMO”? Caramba: se a moça guardar mesmo todos esses como diz, logo pode montar uma usina de reciclagem. Tenho apreço por muitos artistas. Uma vez encontrei o guitarrista Edgar Scandurra num bar e, de tanta emoção, chutei a bolsa dele. E deixei cair a minha. Ele apanhou meus pertences, eu apanhei os dele. Trocamos meio sorriso, ele seguiu conversando com o amigo, eu segui andando – com as bochechas coradas como brasa. Tinha jeito de parar aquele momento e pedir “Edgar, me dá um autógrafo?” De jeito nenhum, ia quebrar a magia! O olhar foi muito melhor, e eu guardo na memória, não numa caixa de sapato. É preciso encaixar aqui, porém, uma confissão. Desde que o Garotas foi ao ar e fez amigos, muitos paparicam Clarissa, Vivi e a mim. Com doces, gracejos, CDs, cartões... É estranho pra esta que vos escreve, mas não deixo de adorar cada um e guardar bem guardado, como tesouro. Hipocrisia dizer que celebridades não fazem isso e depois dizer que eu faço? Nem tanto. Eu não sou famosa. Sou apenas uma escritora com amigos. Mas não me venham com carta de rolo!
Esse é o Cipó, e ele foi presente... Hoje, é amigão 3.500 km depois Boletim Ushuaia #1 Hoje é o sétimo dia de viagem e já percorremos mais de três mil quilômetros de asfalto bom e ruim, vazio e cheio de caminhoes (ups, nao existe til neste teclado). Três mil! Confesso ficar angustiada quando penso que meus amigos, minha família, minha casa, meus gatos estao tao longe agora. Mas é preciso continuar adiante - e ontem a primeira placa apareceu: Ushuaia, a 2.859 km. Estou exatamente em Bahía Blanca, no meio da Argentina. Por enquanto a maior graca (xi, sem cedilha também) tem sido a viagem em si, já que estamos parando nos lugares apenas para dormir. A idéia é chegar até o nosso destino logo e depois voltar pelos cenários realmente bonitos. Saindo de Sao Paulo no sábado, chegamos até Curitiba para um almoco bem pedreiro, do jeito que eu gosto (arroz, bife, farofa, batata frita). Pena que nao pudemos ficar mais tempo. A noite passamos em Lages, já Santa Catarina, em um hotel limpo e com café da manha de encher a panca. No dia seguinte, almocamos em Porto Alegre e dormimos em Pelotas. Era a ultima noite em solo brasileiro. Continuando em direcao ao sul, o ponto mais extremo do país: Chuí. A animacao tomou conta, mas logo foi embora por conta de uma burocracia chata com o carro (duas horas na fila do Banco do Brasil) e da primeira roubada desta excursao! Na praia de Chuí, nosso carro atolou feio. Só conseguimos sair de lá gracas à boa vontade alheia. Ainda assim, depois de centenas de minutos passando frio e tomando areia na cara. Mas o que seria das viagens sem histórias assim para serem contadas? Seguims pelo Uruguai que, para nós, se revelou como um grande papel de parede padrao do Windows XP - sabe aquela paisagem com céu azul e campos verdinhos? Vacas posaram para foto com a gente enquanto os caminhoes passavam curiosos pelo nosso carro. Aliás, a placa de Betim, Minas Gerais, tem causado cada vez mais estranheza. Teve gente que até deu ré de carro para tentar desvendá-la. Jantamos em Montevideu e dormimos em Colonia del Sacramento, esta última muito lindinha. No meio do dia, pegamos a estrada de novo para Buenos Aires - finalmente Argentina! Estávamos na capital desde ontem, quando ficamos com saudade do nosso carrinho. É impressionante isso. Vai ser difícil devolvê-lo, viu? O legal é que nao importa o quao estranho seja o lugar onde estamos, porque aquele furgaozinho prata de quatro portas e muitas malas nos faz sentir em casa. O que faremos hoje? Acho que seguiremos até Porto Madryn, onde poderemos enfim ver alguma coisa da fauna local. Dizem que as orcas chegam perto da costa nesta época. E que os pinguins estao se acasalando. E os albatrozes voam mais baixo com o fim do inverno. Mal posso esperar! Notícias disso, só na próxima semana.
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