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Da tela para as letras Quem diz que o cinema não presta para nada devia ser condenado a passar 52 horas ininterruptas assistindo ao programa da Kássia Franco sem som, com o capricho perverso de ter Engenheiros do Hawaii tocando num fone de ouvido chumbado à cabeça pelo mesmo período de tempo. Alguns filmes são, sim, lições de vida. Isso soa piegas, mas quem não tem uma película de cabeceira? Ou uma produção capaz de animar o mais enlameado dos dias? A Sétima Arte tem muito a ensinar, mesmo com seus filmes mais despretensiosos. Ou, pelo menos, tem muitas frases de efeito a oferecer – e elas casam com o dia-a-dia que é uma beleza! Olha só. Is that a gun in your pocket or are you just happy to see me? Show me the money! ‘Isms’, in my opinion, are not good Fuck! Fuck! Fuck! The pervert is back! ![]() O pervertido de verdade voltou mesmo e disputou com Schwarzzie o governo da Califórnia. That’s entertainment…
Garotas com gogó Se estão pensando que este é um texto sobre travestis, podem tirar o eqüino da precipitação pluviométrica. O título acima vem apenas descrever o que eu queria ser. Gosto modestamente de tudo na minha pessoa, mas podia trocar uma coisinha aqui e outra ali. A voz, por exemplo. Tem coisa mais encantadora do que ser uma mulher de voz especial? Minhas cantoras preferidas servem para fazer a redenção daquilo que eu sei não conseguir. Apanhar um microfone e dar conta do recado é para poucas. Fazer isso e ser aplaudida, é melhor ainda. Agora, ser uma mulher de voz poderosa e arrebatar a platéia não só pela técnica mas também pelo estilo inconfundível, é para eleitas. Eu trouxe as minhas ao conhecimento de vocês logo ali, abaixo. Fico bastante emburrada quando falam sobre a Sandy e dizem "ah, mas ela é afinada". Só para saber: isso não deveria ser obrigação, em vez de alento? Ela é cantora, céus, claro que precisa ser afinada! Já nos quesitos espírito e desempenho, acho que deixa a desejar. Para o meu gosto, cantoras devem ser como divas no palco, interpretando canções com o coração na garganta. Estas são. Carmen Miranda Janis Joplin Monserrat Caballé Cyndi Lauper Tina Turner Nara Leão Natalie Merchand Aretha Franklin Debbie Harry
Isso é ser linda e talentosa Na cozinha com Banana Delicada como uma gueixa, intensa como um pesadelo. Talvez essa seja a definição que eu daria à escrita de uma das minhas autoras favoritas, Banana Yoshimoto. A garota, que escolheu seu pseudônimo porque acha bonitas as flores da bananeira, lançou seu primeiro livro, "Kitchen", com 20 e poucos anos e causou uma revolução na literatura de seu país natal, o Japão. Conseguiu ingressar no hall dos autores respeitados, mas ao mesmo tempo vendeu milhões de cópias em bancas de jornal. Suas histórias de personagens que vivem entre o peso da tradição e a busca pela identidade conseguiram captar os anseios e as inquietações da geração X japonesa. Foi eleita, mesmo sem querer, a porta-voz de uma juventude dividida entre a ocidentalização e a cultura milenar. Entre o ímpeto consumista de modernos aparelhos eletrônicos e a admiração pelo florescimento das cerejeiras. "Kitchen", lançado no Brasil com esse mesmo título, possui duas histórias. A principal narra um pouco da vida de Mikage, uma garota que se vê totalmente sozinha após a morte da avó, sua única parenta viva. No conto "Moonlight Shadow" (também com o título original preservado, veja só que inédito), conhecemos Satsuki, uma menina melancólica que tenta reconstruir a vida após o trágico acidente de carro que vitimou seu namorado. As narrações versam sobre um único tema: como a perda de uma pessoa querida obriga a amadurecer, mesmo quando não se quer. Mas, apesar da carga de infelicidade que as cercam, as duas garotas são independentes, modernas, otimistas. Elas trabalham, fazem jogging e gostam de música americana. Comem com o mesmo gosto um prato de sashimi e um sanduíche do Kentucky Fried Chiken. É reservado para elas um humor fino e uma visão crítica apurada, não permitindo uma escorregada para o melodrama barato. A autora escreve de forma tão sincera que nada parece pesado ou fora de contexto – nem a morte, nem a transexualidade de um personagem. As histórias, narradas sempre em primeira pessoa, vão se desenvolvendo aos poucos, misturando lembranças, impressões, acontecimentos. A narrativa é construída como um origami: com paciência, dedicação e capricho. Yoshimoto desenvolveu seu livro da maneira mais despretensiosa possível, durante as folgas de seu emprego de garçonete em um restaurante de Tóquio. Assim, o volume tem cara de tudo, menos de um sucesso mundial. Contrariando a premissa, mais de 2 milhões de exemplares foram vendidos no Japão. O fenômeno ganhou até nome: "Bananamania". "Kitchen" conseguiu ultrapassar os pequenos limites do arquipélago, atravessou o planeta (literalmente) e estourou na Europa e nos Estados Unidos. Virou até filme. A moça, porém, parece não ligar para tanto frisson. Em seus prefácios, faz confissões do tipo "quando reli este livro fiquei vermelha de vergonha, nunca mais vou escrever coisa igual", ou se despede de seus leitores avisando que já estava atrasada para um show dos Ramones. Ainda por cima, ela tem bom gosto musical.
Tem programa para o sábado? As tardes e noites de sábado eram muito mais divertidas – e toscas – quando eu contava umas sete ou oito primaveras. Pelo menos foi com essa idade que comecei a observar a variada e curiosa fauna de programas de auditório que estavam à disposição do respeitável público, à distância de um mísero clique no controle remoto. É bom lembrar que, nessa época, não havia tv a cabo e as opções eram exíguas. Pensando bem, a tv por assinatura mais fez diversificar as opções de programas ruins do que oferecer a salvação da lavoura dos espectadores. Ainda assim, sou teleadicta. Não tem jeito, mesmo. Enfim. Tenha participação de um bando de tiazinhas malucas gritando a cada atração apresentada ou não, é impossível esquecer dessas pérolas. Se hoje perco meu tempo com “Detetives Médicos”, “Justiça Final” (com a Erin Brockovich mais gritalhona que já vi) e todos os programas comerciais da Polishop, naquela época eu bem que curtia passar horas entretida com... Perdidos na Noite Qualquer-Coisa do Chacrinha Programa do Bolinha Viva a Noite
Mas o homem, o mito, a lenda... fica para outro texto. Ele merece. ![]() Viu como não inventei? Taí o vencedor do concurso Rambo Brasileiro Não vai dar, não Assim como Raul, eu juro que prefiro ser essa metamorfose ambulante. Ter aquela velha opinião formada sobre tudo, então, nem pensar! Mas existem coisas na vida que a gente sabe não poder fazer. No meu caso, se me permitem, preciso confessar: não consigo gostar do filme "Ghost", não tolero usar chinelo e sou completamente incapaz de dormir de barriga pra baixo. E tem outras coisas que não acontecerão comigo nunquinha. Até queria provar destas experiências um dia, mas tenho quase certeza de não ser capaz. Por exemplo: duvido que pudesse virar uma garota hippie. Acho lindos aqueles casacos de lhama andina, rendo respeito imenso pela filosofia de desapego e me amarro na idéia de existir gente que despreza o tal do materialismo. Mas se entrar no âmbito mais específico, sinto dizer: ia me rebelar contra os rebeldes em pouco tempo. Droga, eu faço questão de visitar a depiladora regularmente, não deixaria meus filhos com nariz escorrendo e cabelinho desgrenhado e adoro comer carne vermelha. Meu nariz coça ao menor contato com incensos também. E se for para ser hippie meia-boca, dessas que parecem ter acabado de sair de uma botique, prefiro ficar na minha. Muito ajuda quem não atrapalha a causa, certo? Ainda tem outras turmas dos quais realmente não me vejo fazendo parte. Fã confessa do vestuário negro-total, eu já tive que responder muitas vezes se sou gótica. Não sou, e nem poderia. Apesar da afeição pelo tom de piche fresco, esse papo de circular por cemitério não atrai. Sexta-feira à noite, calorão pedindo uma bela mesa de boteco… e eu lá, em contato com o reino dos mortos? Poxa, não rola. Melhor pegar um cinema. Ser "geração saúde" também não faz parte das preferências desta moça aqui. À mínima menção da palavra "malhar", já dá uns calafrios na espinha e eu corro deitar no sofá, botar os pés pra cima e apanhar um gibi e uma limonada com gelo. O contrasenso: tenho uma esteira elétrica em casa, usada por poucos meses enquanto ainda contava 10 quilos a mais que hoje. "Elas sempre viram cabide", me avisaram. No meu caso não foi muito diferente, apesar da tentativa de virar maratonista indoor. Até sinto (pouca) inveja de quem pula da cama cedo, faz a mala e parte para o mundo encantado dos halteres e colchonetes. Chegam lá, suam feito doidos e sentem a doce endorfina circular pelo organismo – para depois mandar um Gatorade goela abaixo e ganhar novo vigor com o banho no vestiário. Já frequentei academia. Dormi duas vezes na aula de relaxamento e arranquei a tampa do dedão num azulejo do chuveiro coletivo. Hoje, guardo distância de segurança de qualquer lugar com as palavras "shape", "body" ou "fitness" estampadas no letreiro. Fazer parte de grupos é ótimo, eu acho. Adoro ver a molecada do skate andando junta – e competindo não pela melhor manobra, mas pra ver quem usa a maldita bermuda mais abaixo da bunda. Acho uma graça senhoras que se encontram para fazer curso de culinária, pintura ou cerâmica, como a minha mãe tanto gosta. Pena que certos grupos parecem um oásis tão distante. Se existir uma próxima vida, porém, eu quero vir com todos esse aplicativos baixados! Quero ser uma gótica capaz de pedalar na ergométrica por horas e preparar jantares com meio quilo de broto de bambu! Mas nesta encarnação, não vai dar, não.
Olha a minha turma na próxima vida! O amor segundo o brega "Quem dera ser um peixe/ Para em teu límpido aquário mergulhar/ Fazer borbulhas de amor para te encantar/ Passar a noite em claro dentro de ti". Ah, que coisa linda, profunda, sutil, não? Pois assim são os versos de amor cantados pelos maiores nomes da música brega: exagerados, cheios de insinuações calientes e comparações com a natureza. O cantor dessa pérola é nenhum outro além de Raimundo Fagner. Mas o moço não está sozinho na tentativa de exprimir todo o clima de paixão de um modo, digamos, extremo – ele é apenas mais um no Olimpo dos compositores gosmânticos, termo usado para descrever um romântico além da conta, melado. Letras do gênero pululam na nossa MPB. Verdade seja dita: impossível haver uma música brasileira mais popular do que isso. Ironicamente, ser brega hoje é ser cult, e artistas como Wando (que já até ganhou uma homenagem por aqui) agora desfrutam de um certo reconhecimento. Eu dou maior apoio a eles, viu? Porque tem que ser muito bom para conseguir enfiar as palavras "chão", "suor", "relva" e "sede" em todas as composições. O resultado? Coisas inimagináveis como as que seguem... "Parece que ela enfiou uma espada de aço no meu coração Que mulher teve coragem de machucar tanto um homem de nome Amado? "E a mágica do amor nasceu quando eu olhei você Se isso tivesse sido escrito no século XIX, seria Álvares de Azevedo! "Amor é uma palavra Eu adoro a parte do "vento menino". Seja lá o isso que signifique. "Vou me embrenhar nessa mata só porque Fala aí, esse final truculento arrepia. Não? Ok. "Eu vou levar você pra ficar comigo Não tem pra ninguém: uma prostituta fez Odair escrever os melhores versos gosmânticos.
E ainda é galã, o peste!
Perdeu, playboy! Saber perder é uma arte. Antes que vocês pensem que esse texto discorrerá sobre filosofias de vida, com profundas pérolas de sabedoria a respeito da variada gama das emoções humanas e seu impacto na trajetória da civilização, aviso que esta escriba não chegaria a tal pretensão. Até porque ainda não aprendi muita coisa da vida e do mundo. Quero falar mesmo – e apenas – é dos perdedores da televisão. Gozado que numa cultura competitiva como a nossa (e mais ainda a estadunidense, de onde vêm esses programas), haja espaço de acomodar aqueles tipos para quem nada dá certo, nunca. Alguns se regozijam na sua estupidez – e ganham fãs pelo mundo todo. Outros podem passar quase despercebidos, mas as séries das quais fazem parte não seriam as mesmas sem eles. Bem, eu sempre gostei dos perdedores. Eles têm um charme especial, não conseguem as coisas facilmente e me parecem mais reais. Por isso, juntei um bando deles aqui. Três vivas para os losers! Ross Geller George Costanza Larry David Homer Simpson Al Bundy ![]() Vai sonhando, Al... Corra com eles! Pilotar carros é legal. O trânsito de hoje deixa a atividade aborrecida e desgastante, mas já fui fã disso. Quando cheguei na idade de tomar o volante da Saveiro familiar, por exemplo, tinha comichão só de pensar em domar os cavalos automotivos. Aprendi, gostei e até hoje adoro colocar um som bacana e circular com a minha caixinha de Ortopé possuída por forças do mal. Não sou mais uma car-crazy-person – cresci, me encantei pelo metrô e por segurança pessoal –, mas o cinema ainda alimenta meu sangue com petróleo. Acho bacana ver carros esmerilhando em corridas, porém essa nem é a melhor parte. Divertido mesmo é participar, ainda que aboletada na poltrona, dos pegas entre mocinhos e bandidos. Filme de ação com duelo de forças entre gente quase-boa e gente quase-má precisa ter um rachão! É duro pensar no tanto de dinheiro gasto com carros arrebentados e explosões fajutas? Ô se é. Mas eu aguento. No último fim de semana, por exemplo, fui checar o tal "A Supremacia Bourne". O trailer mostrava uma perseguição com requintes de crueldade, com aço voando pelos ares e um encontro nada gentil com um muro de túnel. "Vale o ingresso", pensei. Aliás, o filme anterior protagonizado por Matt Damon já tinha sido fabuloso nesse aspecto. O novo não decepciona, mas o primeiro da série continua bem melhor no quesito "esmaga-veículos". Junto com ele, estes são ótimos para quem, como eu, não liga de confessar afeição por correria em ruas, estradas e até escadaria abaixo. Operação França (French Connection), 1971 Ronin (Idem), 1998 60 Segundos (Gone in Sixty Seconds), 2000 A Identidade Bourne (The Bourne Identity), 2002 Saída de Mestre (The Italian Job), 2003
Vai, pega! Pipoca com risos A gente já suspirou, já ficou com medo, já chorou e já cansou de entender alguns finais de filmes. Agora chegou a hora da parte mais recompensadora: cuspir a pipoca longe e engasgar no copo de Fanta por conta de algumas das comédias mais engraçadas de todos os tempos. Bem, pelo menos, na opinião desta garota sempre sedenta por uma boa piada – e por uma longa gargalhada. Os atores mais experientes costumam dizer que fazer rir é mais difícil do que fazer chorar. Porque para emocionar uma pessoa bastam histórias de bebês órfãos, cachorrinhos feridos, crianças em campos de concentração e doentes terminais. Mas despertar graça em um espectador é bem complexo, até porque humor é muito mais subjetivo. Aposto, por exemplo, que alguns leitores podem não ter morrido de rir com os filmes aí embaixo. Aposto também que muitos vão falar "puxa, mas você se esqueceu do filme tal!". Tudo bem – cada um com sua lista, mas juntos no melhor dos objetivos: divertir-se! Vamos lá? This is Spinal Tap Apertem os Cintos – O Piloto Sumiu Em Busca do Cálice Sagrado Corra que a Polícia Vem Aí Férias Frustradas Quanto Mais Quente Melhor
Solta o pause Num tempo em que o Rock in Rio ainda era na Cidade Maravilhosa – e existia uma cerveja chamada Malt 90 para patrociná-lo – o ato de coletar suas canções favoritas e perpetuá-las numa mídia reproduzível podia ser uma grande aventura. E bota aventura nisso. Primeiro, porque a tal mídia era uma fita cassete. Desconfio que, em pouco tempo, meus primos mais novos nem vão saber o que diabos é a tal fita. Mas posso atestar que a primeira gravação a gente nunca esquece. Até porque seria difícil esquecer do razoável tempo perdido, ouvindo as paradas de sucesso de rádios como a Transamérica, com o rec engatado e o dedo no botão do pause, torcendo pela sorte de sua canção do desejo estar na lista das mais-mais do dia. E só esta fortuna não bastava: caso a música fosse anunciada, ainda era de vital importância que o maldito locutor calasse a boca desde os primeiros acordes. Eram poucos segundos encharcados de tensão: você tinha de fazer o cálculo para saber se valia a pena soltar o rec enquanto o insistente locutor tagarelava até o primeiro verso, ou se o melhor mesmo seria esperar a próxima execução de "I Got the Power", "Silent Morning" ou "Faroeste Caboclo". Não que elas fossem muito esparsas: tocavam o tempo todo, o que me leva a pensar, retroativamente, por que diabos eu perdia tanto tempo querendo gravá-las... Uma vez que a gravação começava, vinha a segunda parte do martírio – o final da música. A agonia era maior especialmente no caso de "Faroeste Caboclo", que leva uma vida para terminar. A espera angustiada se justificava pela simples razão de que as famigeradas estações mal deixavam a canção acabar para soltar um jingle ou informar as horas. Quantas fitas de minha propriedade não foram salpicadas de sonoros "Transamérica, quinze para as duas!" ao fim de cada faixa! Pronto. Diante do registro das horas, as opções eram três: voltar a fita, acertá-la no ponto novamente e esperar pelo próximo anúncio de "Silent Morning", começando tudo de novo; tentar editar o finalzinho da canção de maneira a apagar o máximo possível do jingle intruso ou, ora bolas, deixar assim mesmo e mandar tudo às favas. A fita é minha, eu faço como quiser! Gravar suas próprias fitas era um acontecimento, um passo dado no sentido de se afirmar como gente, com gostos próprios (embora ainda discutíveis) e tal. Significava que, no carro, você não queria mais ir ouvindo a trilha de Blade Runner com a sua mãe – ou toda a coleção de sons da sua genitora. A dificuldade que o processo envolvia só fazia aumentar o gostinho bom da coisa. Hoje, temos os CDs graváveis e regraváveis, o milagre do mp3 e os abençoados compartilhadores de canções. A variedade e a facilidade de conseguir músicas está maior que nunca – para quem, é claro, pode pagar pelo equipamento todo. Por outro lado, agora o Rock in Rio é em Lisboa, a Malt 90 virou memória e meus primos e irmãos mais novos jamais saberão o quão divertido podia ser ficar horas com o dedo no pause. ![]() Elas existiram mesmo Bate-papo a la Mirtes Depois de mil textos e lá vai pedrada, as valentes e abnegadas Garotas que Dizem Ni podem estar começando a ficar repetitivas, não? Se alguém aí respondeu com um desdenhoso "Começar???", já aviso que magôo com essa ironia… Mas o fato é: fica difícil não lembrar alguns temas mais de uma vez, poxa! Este link e este link, por exemplo, renderam dezenas de e-mails e muitas risadas – inclusive por causa das contribuições enviadas por leitores. Por isso, hoje, eu volto a beber na fonte dos erros de compreenssão. Os textos tratavam daquilo que o povo fala errado, mas que só assim ganha um significado infinitamente mais engraçado. Foram quase 20 expressões listadas – desde a confusão entre "Lei de Murphy" com uma certa "Lei de Smurff" até a forma curiosa de tornar o preocupante "estado de coma" em um hilariante "estado de goma". Pois não é que as Mirtes do mundo ainda conseguem meter esses mal-entendidos em outras frases? É só parar em qualquer bairro residencial, procurar senhoras simpatizantes de conversa de portão e parar para escutar. Em questão de minutos você vai ouvir o que segue – e se fartar de rir, caso consiga entender. "Ela teve a cachorra de dizer…" "Eu fiquei até com o sistema nervoso…" "Foi fazer um exame de NA…" "Eu vi dizer…" Deixe para amanhã Eu tenho um péssimo hábito de acumular tarefas e achar que meu dia pode ter 27 horas se eu assim desejar. Dizem que tem a ver com o meu signo: como uma boa geminiana, adoro começar dezenas de trabalhos ao mesmo tempo, porém sem terminar nenhum. Bem, eu termino – só demoro pela pura falta de noção temporal. Se não sou boa para gerenciar finanças, consigo ser pior para domar a ampulheta. Desde que me recordo possuir prazos, sempre foi assim. No colégio, quando a professora passava um trabalho para entregar dali uma semana, eu, ao invés de chegar em casa, fazer tudo e ficar livre, deixava passar. "Amanhã eu faço". Quando o amanhã chegava, a mesma coisa. No fim-de-semana, pensava "ah, não vou estudar de sábado e domingo, né?". Quando eu via, o trabalho era para ser entregue no dia seguinte e eu precisava correr com ele e ainda estudar para uma prova. "Não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje" é um ditado muito sábio, porém nunca fez parte da minha vida. E juro que não é de propósito! Só vou empurrando com a barriga achando que, quando precisar sentar e me concentrar naquilo, consigo terminar em apenas uns minutinhos. E ainda acho que conseguiria, se imprevistos não acontecessem e eu não precisasse fazer coisas como dormir, comer e tomar banho – o que perde um tempão, cá entre nós. O problema é que essa irritante mania, além de fugir do meu controle, esbarra no meu lado certinha e CDF. Então, enquanto corro contra os ponteiros depois de toda a lenga-lenga, fico me martirizando, me condenando e querendo dar murros em mim mesma só de pensar no monte de dias livres que tive e não aproveitei. "Quem mandou ficar assistindo a 10 horas de maratona ‘Detetives Médicos’, panaca?" diz a anjinha no meu ombro. Ainda bem que só dou ouvidos à diabinha. Mas nem sempre a culpa é minha, uma vez que Murphy também impera neste quesito. Quantas e quantas vezes eu já não passei uma semana moscando completamente à toa e, nos últimos dias, apareceram cinco trabalhos ao mesmo tempo? Pois essa é a vida de free-lancer que eu me arrumei. Fiz a cama, agora tenho de deitar, certo? E deitar significa ser aliada do tempo e tentar ao máximo cumprir os sempre apertados prazos. Com o Garotas é a mesma coisa. Quando começamos a escrever aqui, eu tinha textos guardados para um mês – porque a empolgação de finalmente poder colocar tudo o que queria em um artigo e ainda ser lida por montes de pessoas era inédita e muito forte. Ultimamente, porém, ando fazendo o texto do dia para ser publicado dali a minutos. Se por um lado não é muito saudável, por outro é um desafio mais emocionante. Neste exato momento eu devo estar em algum ponto ao sul da América do Sul. Para você estar lendo isso, tive de escrever com antecedência – e não apenas este texto, mas outros quinze. Preciso dizer que deixei para a última hora e ainda não posso afirmar se terminarei tudo a tempo? Conseguirá Vivi passar a perna no relógio novamente? Aguarde as reveladoras cenas do próximo capítulo.
Barata, óbvia e infame Diz o Aurélio a respeito da feiosa palavra “infâmia”: 1. Má fama 2. Perda de boa fama 3. Dano social ou legal feito à reputação de alguém 4. Caráter daquilo que é infame; torpeza, vileza, abjeção. O substantivo e seu adjetivo relacionado, “infame”, aparecem umas três vezes na condenação de Tiradentes à forca. É... o pessoal do rei ficou bravo à beça com o alferes e declarou não somente o próprio infame, mas também seus filhos e netos. Hoje, ser infame é bem menos passível de punição. A palavra ganhou outra definição quando falamos de piadas. Ninguém vai enforcá-lo em praça pública, picotá-lo, queimar e salgar sua casa se você fizer a piada do pavê numa reunião de família. No máximo, vão dar uns risinhos amarelos e achá-lo um cretino – ou uma pessoa torpe e vil, voltando ao sentido original da palavra. Mas, confessemos, todo mundo tem uma veia infame. Quem nunca sacou de piadinhas bobas e de gosto discutível que... saia andando e não olhe para trás. Porque poucas coisas são mais divertidas que rir impunemente de um gracejo politicamente incorreto, de humor negro ou calão beirando o baixo. Meu gênero favorito de piadas infames são aqueles trocadalhos do carilho do tipo “se comprar uma pizza, dá para vinte comer?”. Juro, eu tento evitar a risada e parecer uma mocinha correta e de humor fino, mas casco o bico toda vez que ouço. Nessa classe ainda estão as inesquecíveis piadas do café de máquina ou de coador; do jacaré que anda no seco; do pessoal que chegou há pouco de fora; do calor e da chuva nas costas. Também sou muito afeita às anedotas de humor negro, curtas e grossas. Minha favorita, se me permitem: “Mãe, por que o papai está branco?” No repertório que conheço, ainda há a da criança que está brincando com a vovó (e depois guarda a velhinha na caixa) e a do menino que reclama não gostar da vovó (sempre ela), ao que ouve da mãe “então come só as batatas”. Ok, fica mais engraçado contado ao vivo. Por fim, ainda temos os inesquecíveis dizeres ginasiais, do tipo “vixi, vixi, vixi”; “se eu fosse você, cuspia no chão e saía nadando” e “olha a ficha”. Estes transbordam infâmia, assim como as piadas de “você é bobo ou...”. Tal frase era completa com toda sorte de situações bisonhas, cujo ponto era provar que... você é bobo. Assim: “você é bobo ou paga ônibus com cheque?” ou “você é bobo ou enxuga gelo?”. Eu gostaria de saber quem foi a criatura que inventou essa série. Precisa ter muita infâmia correndo nas veias para isso. Vai ver foram os descendentes de Tiradentes. Tá, eu sei... essa foi infame.
Eu vou, eu vou! Já diziam os homens de muito antigamente: esse negócio de ficar lendo demais e assistindo televisão bota idéia na cabeça das pessoas! Eles falam isso por achar um horror “gente com muita idéia”. Eu acho delicioso apinhar a cabeça de sonhos – de preferência, até eles ficarem em número tão imenso que comecem a sair pelas orelhas e ganhem a realidade. Tenho vários desses, de tanto buscar informações. Cinco deles, pode-se dizer, são até meio radicais. Já ficou claro para quem acompanha este site mezzo rosado há tempos: nenhuma garota aqui tem grande intimidade com esportes ou aventuras muito loucas da pesada. E como somos incoerentes também, no momento temos duas sonhando com certas atividades desse calibre e outra realizando a empreitada de fato – “Ushuaia é Logo ali”, mas a Terra do Fogo nunca mais será a mesma depois da passagem de Vivi por lá... E apesar de raramente ter embarcado em expedições do gênero, tenho sonhos relacionados com isso – ok: eu já fiz rafting, já explorei cavernas no Vale do Ribeira, já fiz bóia-cross num rio nervoso, já viajei de carro de Bariloche a Buenos Aires, mas foi só. Não são tão radicais nem tão comuns. Mas tenho certeza que, se um dia conseguir fazer o que segue abaixo, vou contar aos netos com prazer. Eu um dia vou, ah se vou... ...Subir até Macchu Picchu ...Saltar de pára-quedas ...Ver uma pingüineira ...Mochilar até as Ilhas Faroe ...Dar um mosh
Eu teria coragem? Ô! O fim do mundo é aqui Boletim Ushuaia #2 Na próxima vez que alguém disser que tal lugar parece o fim do mundo, a expressão terá um significado completamente diferente para mim. Porque não há outro canto no nosso continente mais extremo do que Ushuaia, onde estou agora. Seguindo mais ao sul desta pequena cidade nevada às margens do canal de Beagle e rodeada por majestosas montanhas só existem algumas bases na Antártida. O fim do mundo é aqui. E os locais têm o maior orgulho disso. Todas as camisetas, canecas, bonés e outros souvenires possuem esse fato estampado em letras garrafais. Para o meu espanto, Ushuaia é muito turístico. Na verdade, quando saímos de São Paulo para chegar até aqui a bordo de um carro, não tinha muita idéia do que iria encontrar. E digo com alegria: valeu cada minuto. Para começar, está nevando - o que já é uma atração para qualquer brasileiro não familiarizado com os flocos brancos caindo suavemente e o tempo todo. Já havia visto a neve algumas vezes, mas isso não me impede de ficar como uma criança: de boca aberta para chupar gelinho, com as mãos estendidas para ver os flocos, correndo como tonta para fazer o maior número de pegadas no campo. Hoje eu esculpi até um boneco de neve, o primeiro da minha vida (ele tinha apenas 30 centímetros de altura, mas quem estava contando?). Desde a semana passada, nossa expedição tomou um novo rumo. E um rumo deveras emocionante, devo dizer. Antes de chegar até aqui, por exemplo, eu realizei um dos meus maiores sonhos: ver uma baleia de perto. Acabei vendo dezenas delas - machos, fêmeas e bebês. Algumas pularam, outras mostraram a cauda e deram uma borrifada. E eu feliz da vida. Veja bem: sou uma pessoa de estômago muito chato. Tenho inveja grossa daquelas pessoas com entranhas de caminhoneiro, que conseguem comer uma feijoada completa e depois ir na montanha-russa numa boa. Eu não sou assim. Eu enjoôo em estacionamento de shopping. Portanto, a idéia de entrar em um bote a caminho do alto-mar, sendo levado pelas ondas que o vento forte estava fazendo, me assustava. Mas tínhamos ido até Puerto Piramides só para ver as tais baleias. E o sonho, como fica? Deixei meu estômago para lá e fui. Quando o primeiro bichão colocou a cabeça para fora e nos olhou, agradeci por não ter dado uma de fresca. Tudo bem que o passeio demorou e que, depois de alguns minutos, eu estava quase pulando na água e voltando sozinha para a terra firme. Tudo bem também que eu fiquei péssima nos dias seguintes e não consegui comer muita coisa até hoje. Pois agora, além de dizer por aí que estive no fim do mundo, posso gritar: EU VI UMA BALEIA! Quantos de nós somos tão sortudos?
Meninos, eu vi!
Diz-me o que comes... Como eu disse, adoro cozinhar. Também como já atestei por aí, leio toda sorte de coisas que me caem às mãos – de rótulo de xampu a bula de remédio, passando por placas de rua, manuais de instrução e, eventualmente, alguns livros. Munida dessas duas características, acabei topando com uma descoberta impressionante: não tem côco na maria-mole! Pelo menos não naquelas de caixinha, embora a embalagem estampe um selo nada discreto que diz “Sabor Côco”. Depois dessa, passei a incluir no meu menu de leituras as embalagens de comestíveis. O fato me atormentou. É como se o tang laranja não tivesse... laranja. Peraí. É capaz mesmo que não tenha. Afinal, o sabor daquele refresco é uma delícia, mas não me lembra nem de longe a fruta cítrica da qual diz ser feito. É como a esfiha de queijo do Habib’s – muito boa, mas vamos admitir: aquilo não pode ser queijo. É verde, por Deus! Para minha surpresa, notei que, se por um lado o pó para preparo de maria-mole não se dignou a ter uma raspinha sequer de côco, outros produtos contam com ingredientes inimagináveis – coisas que vão do poético ao enigmático, passando pelo que eu classifico, mui humildemente, de enrolação. Haja nutricionista para explicar... Aroma idêntico ao natural de morango Aroma de fumaça Açúcar invertido DNA vegetal Corante amarelo crepúsculo Se você olhar bem de perto, quem sabe dá para ver o crepúsculo Muito pouco Ando com perguntas saindo pelas orelhas... De repente, tudo parece motivo de questionamento. Será que estamos no caminho certo? De onde viemos? Para onde vamos? Por que algumas mulheres fazem reflexo no cabelo? Não sei dar resposta para quase nada. Mas uma questão freqüente do momento, acho que consegui dissecar. O que a gente precisa para ser feliz? É pouco, muito pouco. Nessa semana passei raiva porque o carro quebrou, o calor está no ponto senegalês de novo, bati o joelho no box do chuveiro e ganhei um hematoma do tamanho do Pará. Fiquei aborrecida com o trabalho em excesso, com o incêndio que exterminou a loja de um pobre vizinho, em saber dos malditos racistas presentes no Orkut. E daí pensei: “que tristeza”. Mas, sabe? Nada disso é motivo para arrancar a felicidade aqui do coração. Atentem para a foto abaixo:
Essa sou eu aos 7 anos. Naqueles idos de 1982, tudo era uma festa. A segunda série era bico, eu tinha uma amiga-fiel-irmã-camarada e dividir o quarto com a minha irmã causava mais riso que choro. Andava descalça desde o fim da aula até dormir. E por volta de junho ganhei o Floco, essa coisa fofa aboletada nos meus braços. As imensas preocupações da minha tenra vida eram estas: como enfrentar a prova de ciências; se o menino de quem eu gostava tinha percebido isso; o que pedir no Natal. Meus tesouros resumiam-se a: um Aquaplay do pescador; uma boneca de pano, a famosa Cezona; uma Suzi noiva; um par de tênis Bubblegummers; cerca de 40 Playmobils; uma máquina fotográfica Love. O dia passava da seguinte maneira: ia pra escola às 7h00 e “estudava” até 12h40. Voava pra casa no ônibus do Tio Abílio e comia a gororoba disponível – em geral, a deliciosa formação arroz-feijão-bife-salada. Assistia o Chaves, ia pra rua encontrar a molecada e ficava lá na praça até 17h30. Voltava pra casa, me divertia com o fim do Daniel Azulay e a Turma do Lambe-Lambe e ia tomar banho. Jantava, via novela e tocava para a cama, dormir. Eu era muito feliz em 1982. Por que? Porque nada era complicado! Não precisava de carro, circulava a pé ou de bicicleta por todo o meu grande Universo. O calor era legal pra tomar banho de mangueira, o trabalho de fazer lição era engolido em questão de duas horas, eu não conhecia gente mesquinha ou malvada – e se conhecesse, não identificava desse jeito. Tudo bem, não é possível esquecer 100% das obrigações e ignorar um rombo no banco ou uma briga feia com o namorado. Mas dá para equilibrar, colocando o peso correto em cima de cada invertida do destino. Ter uma doença incurável é terrível. Bater o joelho e ganhar um hematoma é hilário! Ainda mais tendo percebido que ele se parece com uma joaninha. Melhor encarar as chateações como se tivéssemos 7 anos. Era mais fácil naquele tempo. Espero que as crianças de agora sejam felizes também. Não ter roupa de grife ou um videogame poderoso aparenta ser um problemão hoje em dia, mas não devia. Aliás, acho que nem só os pequeninos precisam desapegar e ficar contentes com pouco. Há muita gente grande merecendo um sorvete escorrendo pelo braço, um dia de preguiça na frente da tv, uma gargalhada besta e sem motivo daquelas que fazem doer a barriga. É pouco, não é? Mas é a resposta mais simples, eu acho. Abre! Abre! Abre! “Querido Silvio Santos. Espero que o senhor escolha a minha cartinha no meio das outras. Gostaria de pedir uma casa pré-fabricada para o sítio do meu avô. Ele não tem dinheiro para comprar uma. Muito obrigada”. Eu devia ter uns 12 anos quando escrevi essa mensagem em um papel de carta, enfiei-a em um envelope e coloquei-a no correio. O destino? O SBT. Sim, eu tentei a sorte para participar do programa “Porta da Esperança” – e me orgulho disso! Está bem, o orgulho não é tanto assim. Mas que diabos, o Garotas me faz confessar cada coisa! De qualquer maneira, eu era uma menina bem-intencionada. Enchi a carta dizendo que meu avô era deficiente, pobre, diabético e muito, muito idoso – tudo mentirinha para amolecer o coração de Sílvio Santos. Como se fosse o Patrão em si que lesse todo aquele bando de correspondência! Apesar de treinar todas as caras de criança carente, não fui escolhida. Droga (ou ainda bem?). No fundo, o objetivo maior era pisar no palco daquele programa que eu simplesmente adorava! Hoje ajudar os mais necessitados virou coqueluche na tevê: a Xuxa o faz, assim como o Gugu, o Sérgio Mallandro, o João Kleber, o Netinho, a Márcia... Naquela época, porém, “Porta da Esperança” era o único de sua espécie. O primeiro exemplar foi ao ar em 30 de dezembro de 1984 e chegou a ser exibido até 1997, porém não de forma ininterrupta. O dominical começava lá pelas 17 horas, logo depois de Jesus falar. Ele (com “E” maiúsculo) aparecia em uma vinheta antecipando a emoção de “Porta da Esperança” e dizendo assim: “Paz, amor, fé, esperança, luz e união não são apenas palavras. Você tem certeza de que fez tudo o que podia pelo seu semelhante? Pense bem, pois um dia vamos nos encontrar. E eu gostaria muito de chamá-lo de meu filho”. Eu morria de medo. Em seguida, sêo Silvio, no auge do sorriso, aparecia no palco principal. Ao fundo, uma porta gigante, parecida com a do Castelo de Greyskull, cheia de luzes em volta como espelhos de camarim. Num palquinho à esquerda da tela, um microfone esperava receber os desejos dos participantes da semana. O apresentador chamava a primeira vítima e lhe perguntava “o que você quer ganhar?”. Daí a mulher respondia: “Ah, Silvio, eu queria uma cadeira de rodas para a minha mãe, que sofre do sistema nervoso, das úlcera, tem as perna cheia de variz e as vista cansada”. E então contava toda a história triste da mamãezinha (que aparecia no auditório chorando de tempos em tempos). Silvio se compadecia e falava, “quem sabe a nossa produção não encontrou alguém para doar a cadeira?”. E, em seguida, o momento máximo: “VAMOS ABRIR A PORTA DA ESPERANÇA!”. Se ninguém aparecesse, o desejo não era realizado, e Silvio Santos falava que “a produção continuaria tentando”. Ô, enganação! Mas, se tivesse um tiozinho parado lá no meio, era porque o sonho havia sido atendido. No caso, a mulher descia até lá e, em prantos, se atracava com o encabulado representante da empresa, enquanto o Roque ia buscar a mãe da participante na platéia. Ao explicar todas as maravilhas da cadeira de rodas, era exibido um filminho sobre a firma benevolente. Terminada a meia hora de pura emoção, outro clássico chegava: a “A Semana do Presidente”, onde Lombardi narrava tudo o que nosso comandante andava fazendo – quando eu era fã de “Porta da Esperança”, o hómi da vez era José Sarney. Bons tempos aqueles, viu? Ah, não estou me referindo ao Sarney, é claro.
Uma garota e tantos bichos Vivi, minha querida companheira que está um pouco longe nesse momento, ama bichinhos. De toda sorte. Ao cúmulo de, quando pequena, ter aparecido em casa com um ratinho de rua para criar. Claro que a relação com o roedor durou bem pouco – só até a mãe dela acabar com a brincadeira da ingênua criança. Já eu tenho de confessar: não sou provida desse espírito de São Francisco. Não que eu amarre latas no rabo dos cachorros (aliás, isso só acontece em gibis. Eu nunca vi um cão com latas amarradas no rabo na vida real), chute gatinhos ou queira mais é que as baleias encalhem mesmo. Gosto de animais, como bem definiu o orkut, nos zoológicos – ou na casa dos outros. Tenho respeito por eles. Abomino crueldade contra animais e sinto o coração apertado quando vejo um cãozinho magro e abandonado, na rua. Só não tenho tino para cuidar deles, acho. No universo dos animais selvagens, por exemplo, não me peça para passar a mão num elefante ou numa foca. Não sou muito chegada a esses contatos com peles paquidérmicas ou aparentemente escorregadias. Já no campo das criaturinhas de Deus domésticas, não dou muito certo com bichos sob o mesmo teto – embora já tenha tentado muitas vezes. Eu sempre caio na ilusão de que seria legal ter um bichinho. E me dou mal com a mesma freqüência, entre papagaios irados, cães tomados por ovelhas e gatos envolvidos num imbróglio de identidade sexual. Pita, o papagaio Minsk, o gato Remon, o sheepdog Sophia, a gata – ou não Realidade pra que te quero Um, dois, três e... já. Arma-se um cenário de residência comum, escolhe-se 12 bobos dispostos a brincar de cobaia, faz-se uma tremenda campanha de mídia, ganha-se um recorde de audiência no último episódio. Assim são montados os reality shows. Sinceramente? Quando o primeiro apareceu por aqui, na forma de “No Limite”, achei o maior barato. Depois vieram o enlatado “Big Brother”, a hilária “Casa dos Artistas” e a coisa foi ficando chatinha. Agora, parece, os programas de realidade voltaram a pescar minha atenção curiosa, intrometida e muito sem noção. De novo estou viciada em um programa dessa cepa. Pior: é apresentado por um magnata safado e usuário de peruca. Donald Trump tinha essa imagem na minha cabeça desde sempre. Hoje penso assim: é magnata, é safado e é peruquento. Mas entrou para a categoria Mestre dos Magos com o reality show “O Aprendiz”. Ele fala como o senhor Myiagi com seus empregados! Na atração, apresentada no glorioso People+Arts, Donald rege o destino de vários jovens carreiristas. Formam-se equipes e eles disputam provas relacionadas com o mundo dos negócios. Quem mostra qualidades ruins, é demitido. Quem vai bem, fica para concorrer a uma vaga de emprego na corporação. É como uma dinâmica de grupo que leva vários dias pra acabar. Doideira! Mas eu acho chocante avaliar como as pessoas se mostram mesquinhas e puxadoras de tapete ao disputar um mísero trabalho... O bom é que, no jogo de Trump, não tem uma soma sem graça de dinheiro em disputa. É muito aborrecido e maçante quando a coisa vira assim, para o lado de “ser mercenário”. Bom é ganhar um prêmio valioso, mas temático. O mesmo People+Arts já anunciou a chegada próxima de um novo show. Chama-se “Fashion House”. Nele, a casa inventada é localizada... em Roma! Os convidados são estilistas em começo de carreira que jogarão dentro do assunto moda. Quem levar a melhor, no final, ganha um emprego na Gucci, a famosa marca de vestuário italiana. Demais, não? Imagina a emoção de quem lida com o metiêr em ir realizar o sonho da vida! Muito melhor do que levar uma bolada em cheque, eu penso. O mesmo sentimento devem ter os participantes de um vindouro programa lançado pelo canal a cabo Animal Planet. O canal bacana, infelizmente, tem um site podre – e por isso não consegui localizar o nome exato da atração. Mas, segundo a propaganda, funcionará assim: moças e rapazes especialistas em biológicas (oceanografia, biologia, veterinária, etc.) irão para o meio da selva viver e cumprir provas arrojadas. Quem se mostrar mais resistente – e, óbvio, capaz de comer bigatos, dormir na chuva e apanhar crocodilo na unha –, vence. O prêmio? A chance de apresentar um programa só seu, educativo e sobre animais e plantas, no próprio canal. Além de ser um “troféu” incrível, ainda é a maneira perfeita de escolher um hostess com pré-requisitos, e não apenas um modelo para abrilhantar o local. Enquanto espero por esses que virão, vou me divertindo com a briga de foice na caixa-forte de Donald Trump e com outro programa do P+A. O dito cujo foi batizado como “Troca de Esposas”. Parece documentário sobre swingue, mas não é, não. Acontece assim: duas mulheres inglesas vão morar uma na casa da outra por 10 dias. Em geral, o negócio é misturar estilos. A moça que trabalha fora e tem só um bebê vai viver numa casa suburbana apinhada de crianças e com serviços de casa bem Mirtes a cumprir. Vira um deus nos acuda... Ninguém acostuma! E olha que, na segunda metade da jornada, elas podem inverter as regras da residência e aplicar suas próprias idéias. Mesmo assim, dá pau. Na minha opinião, “Troca de Esposas” foi inventado por algum produtor do sexo macho que se diverte horrivelmente subjugando mulheres e fazendo as mesmas enlouquecerem. Ainda assim, adoro – porque mostra reações realistas sobre as pessoas, e não maneirismos ensaiados para ganhar público votante e ganhar verdinhas. No programa, aliás, nem existe prêmio, só cachê de participação. Para o espectador, essa é a melhor forma de notar o comportamento de uma dúzia de malucões em recinto lacrado. Três, dois, um... Já! que comece a experiência!
Pedro Bial é bom... Mas Seo Trump mata a pau! Úteis, mas fúteis Você já parou para pensar quantos utensílios a nossa era transformou em itens de primeira necessidade? Eu já. Imagino como viviam as pessoas na Idade Média: sem televisão, chuveiro elétrico, carro, máquina de lavar, telefone. Sinceramente, não sei – só sei que conseguiam seguir em frente (não por muito tempo, porém). Apesar de admitirmos que o ser humano consegue viver livre de todas as comodidades, não podemos negar que a vida ficou mais fácil – ou mais agradável – com as invenções modernas. Hoje em dia, dependo muito do computador. Eu me formei jornalista em pleno boom da Internet no Brasil e não sei como conseguiria fazer o que faço sem essa máquina barulhenta me conectando com o mundo sem me tirar da cadeira. Recebo pautas de matéria pelo e-mail, pesquiso informações em sites, procuro o contato de entrevistados em sistemas de busca e entrego a matéria pronta por e-mail. Sem contar o Garotas, que está aqui graças ao maravilhoso aparelho. Nem tudo o que é novidade, porém, carrega o status de necessidade. Por exemplo: não vivemos sem computador, mas viveríamos sem um monitor de tela plana e cristal líquido. Certo? Bem, eu não tenho um exemplar desse enfeitando minha mesa de trabalho. Mas tenho outros objetos fúteis sem os quais eu até viveria – mas que fazem meu cotidiano mais feliz. Controle remoto Creme para pentear Formato mp3 Ar condicionado Mouse sem fio Celular Wonderbra
Levanta até defunto
Parece que foi ontem Se o calendário marcasse ainda o ano de 2003, ontem eu estaria me mudando oficialmente para a primeira casa montada por mim – claro, ao lado do rapaz que, também oficialmente, estaria passando para o time dos “casados” no futebol semanal. Há um ano e um dia mudei de endereço e de estado civil. Quando cruzamos a porta naquela noite, eu tinha alguma idéia do que era viver sob o mesmo teto. Mas não imaginei que fosse ainda melhor do que pensava. Basicamente, por duas razões: a casa e o caso. Ser dona da sua própria casa é bom demais da conta. Especialmente para alguém como eu, dada a essas coisinhas corriqueiras do tipo cozinhar – como eu disse aqui; cuidar de plantas – como o pé de manjericão e o de pimenta que plantamos há meses e agora fornecem temperos para nossos pratos; definir se vai botar um vaso aqui ou ali – como a orquídea que ganhei da mamãe. Outro prazer é inventar modas para decorar nosso endereço – como a mesa do escritório sobre a qual me apóio agora, criada com dois cavaletes e uma tábua enorme. Nela, repousa uma colagem de fotos, recortes, tíquetes de cinema, shows e partidas de futebol. Meu novo (mas nem tanto) lar-doce-lar tem também a parede da memória, onde afixamos fotos dos avós, pais e irmãos que nos fizeram ser quem somos hoje. O caso é outra parte da alegria de estar casada. Completei bodas de papel (eu acho cômica a seqüência das tais bodas) ontem, mas conheço esse garoto há nove anos. Já sabia muito bem, portanto, em que buraco eu estava me metendo ao dizer “sim” para o moçoilo. Mas ele ainda me surpreende. Isso porque ele é sério, mas engraçado. Esquentado às vezes, mas extremamente simpático sempre. Absolutamente sincero e comprometido com as coisas que faz. Chatíssimo, quando insiste em guardar as meias sujas dentro dos sapatos, deixar a gasolina do carro na reserva ou se negar a jogar no lixo coisas que estão na geladeira há um tempo respeitável. Objetivo, como eu preciso que alguém seja – já que sou o oposto complementar dele nessa parte. E, acima de tudo, corajoso. Muito corajoso. Ah, sim! Ele também ri das minhas piadas e é bobo às vezes, como convém a qualquer pessoa do bem ser. Outro dia mesmo estávamos no sofá assistindo a um documentário sobre mágica, quando apareceu o famoso truque de serrar uma mulher ao meio. Perguntei: “como diabos será que eles fazem isso?”. E ele, deslavadamente: “bom, a mulher entra ali, eles serram e, depois, jogam a vítima no lixo, em dois sacos separados, um para cada parte”. Parece que foi ontem que eu decidi levar a vida, até onde der, ao lado desse cara. E por essas e outras, não me arrependo. Dê um tempo ao Sr. S A bola da vez na pichação cinematográfica é “A Vila”. Tem ao menos três semanas que escuto falar mal do filme, com adjetivos indo de “estúpido” à “enganação”. Isso tudo num tempo em que está em cartaz a pataquada de nome “Alien vs. Predador”! Querem me convencer que o duelo gosmento entre as bestas é mais legal do que o filme de M. Night Shyamalan... Não, não. Fui ver a história do vilarejo e pasmem: é bom, sim! Acho que entendi o problema com a produção depois de ter assistido. Não é mal feita, não é ruim, tem bom roteiro e excelente técnica. O caso é: trata-se de mais um filme do indiano malucão. E, como agravante, foi vendido ao público me maneira bem safada. Esqueça aquele trailer imbecil dizendo “não conte o final deste filme”. É gato! Até onde sei, gente normal não conta o final de nenhum filme, certo? A frase de (d)efeito está ali puramente para servir de isca. Daí muita gente vai ver acreditando tratar-se do mais espetacular desfecho da História e vem a decepção. Claro, ninguém gosta de ser tratado feito peixe burro enganado por uma minhoca de látex. O final é interessante, não desconcertante. É curioso, não o maior cambal já aplicado numa platéia. Tendo isso em mente, fica mais fácil apreciar. Então, ponto superado, vamos ao outro problema. M. Night Shyamalan é um rapaz de 34 anos nascido na Índia e criado desde pequeno nos arredores da Filadélfia, Estados Unidos. Seu laço forte com a cidade e a verve asiática para fundir o mundo dos vivos com o dos mortos deu a idéia para o primeiro grande sucesso nas telas. Eu passei bem mal em “O Sexto Sentido”, de 1999, mas adorei cada segundo. É filme para rir, chorar, deixar o queixo cair, ter ataques de gritos – aquelas obras completas para qualquer pessoa afeita a aboletar o traseiro numa poltrona de cinema. Todo mundo amou, porque há muito tempo nenhuma peça hollywoodiana se aproximava tanto de Alfred Hitchcock. O suspense voltou a ser gênero de primeira necessidade e gente de todas as idades repetia “eu vejo gente morta” em piada de boteco. Shyamalan “enricou”, ganhou prestígio e partiu para a próxima, em 2000. Tratava-se de “Corpo Fechado”. Todo mundo foi ver e decepcionou. Não tinha o final acachapante do outro filme, que horror! Mas, de novo, eu gostei... Bruce Willis era ou não um homem com superpoderes? Achei genial o tratamento de HQ levado daquela maneira. Mas não era “O Sexto Sentido”, então enxovalharam. Dois anos depois os trailers começaram a mostrar a nova obra de M. Night. Chamava-se “Sinais” e mostrava os círculos feitos em plantações, aqueles picados por criativos ETs. Causou frisson de novo, foi aquela expectativa... e todo mundo odiou. Saco, eu gostei mais uma vez! É praga? Só pude confessar ter gostado de “Sinais” falando baixinho, “meio de lado, já saindo, indo embora...” E fico sem entender, até hoje, o que esperavam do filme ou o que acharam faltar nele. Disseram que os alienígenas se pareciam com o Aquaman. Pessoalmente, eu achei ótima a mistura de “Inimigo Meu” com “O Monstro do Pântano”. E, pelamordedeus, quem pode ter certeza sobre a aparência de um ET?? Tudo bem que o indiano apela um pouco ao sentimentalismo. Mas cinema não é para isso também? Li esta semana, em uma revista, que “O Terminal”, de Steven Spielberg, era “piegas”. Parece que vivemos em um tempo onde é proibido ser bobo, romântico, inocente e desprovido de armas. Até no cinema. Pensando em tudo isso, fui ver o novo de Shyamalan, “A Vila”, desprovida de preconceitos – e de pura birra, porque quando a “Folha de São Paulo” diz que é ruim, daí ganho mais vontade. O ponto grave é: dizem que o diretor chupou a idéia de um livro infantil publicado pela escritora Margaret Haddix. Se foi isso mesmo ou não, ainda não está provado. Mas o filme saiu bom, poxa... Eu fiquei com medo “daqueles-que-não-falamos-o-nome”. Vou defender Shyamalan dos maledicentes, sim. Cineasta que prega susto tão bem não pode ser enganador. Podem pichar à vontade.
O da direita é diretor do bom Pipoca com lágrimas A saga da pipoca continua! Desta vez, prepare sua caixa de lenços de papel, pois haverá muita doença, maldade, separação, morte, injustiça, guerra... Todos os artifícios mais usados por Hollywood para alcançar o objetivo esperado: fazer o telespectador chorar. Eu, manteiga derretida na chapa quente que sou, não tenho o mínimo pudor de confessar que sim, derrubo lágrimas no cinema. E olha que a produção nem precisa se encaixar no gênero Drama ou exibir um cachorrinho sendo maltratado. Eu me emociono facilmente – e daí a verter água dos olhos é um pulinho. Por exemplo, chorei pra valer em “De Volta Para o Futuro 3”, quando o DeLorean foi destruído por um trem. Puxa, que coisa mais triste! Era o fim de uma era, entende? Portanto, foi tarefa fácil escolher seis exemplares que me desidrataram, apesar de um monte ter ficado de fora. Deixo aqui então uma menção honrosa a “Bambi” e “Dumbo”, os desenhos animados mais malignos da face da Terra. Dito isso, é chegada a hora... Ah, e não vale engolir o choro, hein? Sociedade dos Poetas Mortos Peixe Grande Filadélfia E.T. – O Extraterrestre Dançando no Escuro Império do Sol
Não chore, menininho...
Alguém me explica? De dois em dois anos, o povo brasileiro é conclamado a participar da grande festa democrática, escolhendo seus representantes para os cargos de prefeito, vereador, deputado, senador e presidente. Além da consolidação da democracia, do exercício da cidadania e todas essas bossas, a época de eleições também me faz refletir – e rir um bocado. Tem uma porção de coisas que não entendo nas eleições. Elas vão das famigeradas pesquisas de opinião aos nomes bizarros de alguns candidatos. Claro que votar é algo para ser levado muito – mas muito mesmo – a sério. Quem acha que é piada acaba elegendo figuras como o Enéas, que agora me saca da tal “senhorita Cássia”. Ainda não ouvi a voz daquela mulher. E por que ele fica segurando a mão dela na propaganda? Cruzes. Mas enfim. Será que sou só eu, ou alguém aí fora também não compreende a lista abaixo? Como pode... ... ter gente que acha legal emporcalhar a cidade? ... ter candidato que usurpa nomes de famosos? ... ter eleitor que deixa as pesquisas influenciarem seu voto? ... ter quem vote no Maluf (fora ele mesmo e a Silvia)? ... ter alguém que espera ser levado a sério com o nome de Rôla? Rôla onde, meu filho?
Os dias de romaria Se hoje sou viciada em café, amo bolinho de chuva como à própria vida e me tornei afeita a um bom bate-papo, é tudo culpa das visitas. Visita na casa dos parentes, sabem? Pois então. Meu pai e minha mãe adoravam nos arrastar para esses eventos quando criança – principalmente eu, dona do cargo caçula-para-mostrar-aos-tios. Não que eu achasse ruim... Passar a casa dos outros em checagem era bastante divertido, eu confesso. Era batata: raiava o sábado, meu pai levantava e fazia o desjejum. Eu acordava quase junto, porque naquela época de 6 ou 7 anos nosso relógio biológico assemelha-se ao das galinhas. Roupa trocada e dente escovado, era hora de sair para passear. Em geral, só havia dois destinos: a casa da vó Emília ou o Mercado Municipal de São Bernardo, onde comprávamos itens de extrema necessidade como massa para pastel e flores. Mas o mais comum era passar rápido no mercado e seguir para a romaria familiar. Metade dos meus parentes mora na ajardinada e dormente São Caetano do Sul, o C do ABC. No mesmo bairro. Em duas ruas, mais precisamente. Visitá-los, por isso, era bem fácil. Depois de pedir a bênção na vó, começava o pinga-pinga na residência dos demais. Na paralela, ficava a casa da Tia Mariquinha. Era uma construção tão grande que moravam ali alguns núcleos familiares, como em novela a la “Terra Nostra”. Era um lugar maluco: para chegar ao terceiro quarto, das minhas primas mais velhas, precisava passar por dentro de outros dois dormitórios. Gente de antigamente não conhecia o conceito de “corredor”. Tia Mariquinha estava sempre com a televisão ligada na finada TVS e um bule de café no fogão. Ela me dava doce antes do almoço e deixava beber Tang! Era um comportamento padrão entre tias usuárias de pó-de-arroz, aventais culinários engraçados e calendários mostrando gatinhos no cesto. Típica senhora de bairro são-caetanense, a tia... Uma das irmãs dela também era visitada na “peregrinação de papai”. Tia Nica era dona de uma morada igual, daquelas antigas, com fachada modesta e milhões de metros de quintal. Nesse espaço – onde, eu juro, caberia uma praça pública –, viviam nobres moradores. Era a única casa onde a comilança não me atraía. O legal, ali, era ver o Negão. Esse era o nome do pássaro preto da Tia Nica. Era um diabo mau-humorado e ranzinza que podia mastigar pontas de dedos à menor bobeada. Mesmo assim, era divertido provocá-lo pela gaiola e ouvir aquela cantoria bonita. Quando enjoava, eu saía pra procurar as tartarugas da tia no meio das folhagens. Era umas... 190, talvez. Mas nada se comparava a visitar minha tia-madrinha. Amiga da mamãe dos tempos de faculdade, Tia Sônia foi alçada ao posto de Godmother para mim. Assim sendo, achava bom me agradar a qualquer custo. O que aprontei na casa daquela mulher não foi brincadeira. Primeiro, chegávamos para o chá da tarde. Ela fazia um balde de mate (gelado ou quente, dependendo do dia) e servia em xícaras verdes. Só porque eu gostava. Daí me entupia de bolacha com patê e manteiga e permitia que eu fosse revirar a sala. Ah, sim... A madrinha era a única pessoa do planeta a me deixar “ver com a mão”! E olha que a prateleira dela contava com frutas de madeira, bibelôs com pedras preciosas falsas e estátuas! Sendo um pequeno demônio, mas capaz de fazer cara de santinha, eu era bem-quista em todas essas casas. Em troca de deixar apertarem minhas bochechas, dar tapinhas na cabeça e abraços esmagadores, os tios me deixavam arreliar com tudo. De tanto ouvir o tal “como você cresceu!”, hoje me vejo como se tivesse 3,54 metros. Sinto falta da romaria familiar, porque hoje a maioria dessa gente maravilhosa já não vive entre nós. Devem estar servindo bolinho de chuva e Tang para uma sortuda criançada lá no céu. Um dia passarei para vê-los, quem sabe. Formanda de 1990 Quando eu fiz 15 anos, não tive uma festa de debutante cheia de fricotes, babados cor-de-rosa e cadetes dançarinos. Quando juntei as escovas de dente com alguém, passei longe de vestidos de noiva, padres e assinaturas em papéis. Veja bem: não é que desgoste de cerimônias. Na verdade, acho tudo muito bonito, desde que eu não esteja incluída nelas. O único evento do tipo a contar com a participação desta que vos fala foi uma formatura. Não me refiro, porém, à formatura do colégio – eu abri mão da colação de grau e do baile por uma viagem a Londres. Tampouco estou falando da formatura da faculdade – eu compareci fugida de um plantão de redação para pegar um canudo vazio, pois o diploma sairia só dali seis meses. Talvez tenha deixado de curtir cerimônias assim por ter vivido na pele a temida formatura do ensino fundamental. Eu tinha 13 anos, acne na cara e cabelo ruim. Naquela época, o pensamento de ser o centro das atenções (ainda que por poucos segundos) me aterrorizava. Sob protestos, tive de vestir a horrenda beca por cima de um não menos horrendo vestido trapézio, último grito da moda dos finados anos 80. Troquei meu All Star cano longo por um incômodo sapato de bico fino e substituí minhas meias grossas por um exemplar fino e fumê. O que eu não entendia era: qual o propósito da firula toda? Afinal, estava apenas passando de ano – coisa que eu já havia feito várias vezes antes sem maiores choques. Mas não, daquela vez era diferente. Daquela vez teve um convite com capa de veludo cor-de-vinho e meu nome escrito em dourado com letra de calígrafo. Lembro-me de que no dia D (de “desastre”) estava um calor senegalês e eu pingava dentro daquele traje negro e comprido, mais para mulheres afegãs do que para uma menina em pleno verão brasileiro. Já na entrada do ginásio de esportes da cidade tivemos de posar para fotografia. Um horror. O único que parecia estar curtindo era o meu avô, dentro de um terno de mil novecentos e bolinha, emocionadíssimo por eu tê-lo escolhido como padrinho. Uma vez começada a cerimônia, professores se revezaram no palco para falarem coisas profundas sobre nós sermos o futuro da nação. Após muita lenga-lenga, eles começaram a chamar os nomes dos formandos. “Ufa, finalmente”, pensei, achando que tudo estaria terminado em 40 minutos. Mas me enganei: eram 15 salas diferentes, cada uma com uns 30 alunos. O negócio demorou horas. Talvez anos. Aliás, talvez eu ainda esteja lá e não tenha me dado conta. Pois bem. Isso foi basicamente a única formatura tradicional que tive em minha vida. Calor, nomes que eu não conhecia, discurso de prefeito... Uma maldita vela que teimava em pingar cera na minha beca, um juramento sobre alguma coisa sem importância e algumas músicas de gosto duvidoso. No final, os alto-falantes tocaram “Somos Quem Podemos Ser” dos Engenheiros do Hawaii e desenhos em raio laser coloriram o teto do recinto. Sério, nem minha família agüentou aquilo – mamãe saiu de fininho sem falar tchau. Só então percebi que a cota de cerimônias já havia esgotado nesta vida. Outra dessa? Talvez em 2098. Isso se abolirem as becas e o Humberto Gessinger tiver virado purpurina.
Eu adoro cozinhar Eu adoro cozinhar. Eu sei, comecei repetindo o título, mas é para enfatizar bem. Sempre achei o máximo misturar quatro ou cinco coisas que não eram nada separadas e, voilà!, viram um molho bacana ou uma carne gostosa. Minha mãe começou a me ensinar o trivial variado de forno & fogão quando eu tinha 17. Achei que nunca ia conseguir me lembrar se devia pôr a cebola, o óleo ou o arroz primeiro na panela – como sempre acontece quando adentramos uma ciência nova do zero e temos a nítida impressão de que tudo é muito complicado e nunca vai dar certo. Isso vale para ocasiões das mais diversas, de aprender a andar de bicicleta a operar um programa de computador. Mas como sempre, também, a prática leva à perfeição – ou quase isso. Queimei muito fundo de comida e às vezes ainda erro o ponto de algumas iguarias. Por isso, continuo praticando. Ainda me embanano bastante se vou cozinhar na casa de outrem. Sabe aquela história de só saber fazer o café com os seus apetrechos, pois você já tem as marcas de açúcar, café e água naquela exata panela, de memória? Então, é verdade. Até porque, como minha mãe e minha avó, só meço os ingredientes a olho. Essa é uma herança das cozinheiras da família – um tanto poética, mas deveras incômoda às vezes. Isso porque, como disse, manjo do riscado básico desde os 17, mas só comecei a fazer algumas exclusividades da minha mãe quando me mudei. Daí, quando bateu vontade de comer panqueca, liguei para a incansável fada, que me disse: “ah, põe assim, um ovo, um pouco de leite e vai acrescentando farinha até dar o ponto”. Mas pouco quanto, mulher de Deus? E quando diabos é o ponto? É algo místico? Vai brilhar quando for a hora? Sai bolhinha? E agora? O resultado é que ainda não sai igual à da mamãe, mas eu chego lá. Aliás, meu sonho de mestre-cuca é chegar lá – na habilidade da dona Sandra com panelas, especiarias e experiências. Como todo mundo, acho minha mãe a melhor cozinheira do planeta – seguida de perto por minha avó, a Nina. Quando ainda estava boa dos parafusos, a Nina deixava qualquer um no chinelo. Para se ter uma idéia, ela fazia macarrão e vinho em casa. Pão, torta, biscoitinhos, pizzas – tudo. Era uma coisa linda de se ver, ela abrindo massa com o tradicionalíssimo pau-de-macarrão. Parecia fácil – e não era. Parecia delicioso – e, isso sim, era. Também, pudera. Ela começou a cozinhar com sete anos, contava para mim. As tias que a ensinaram botavam um banquinho na frente do fogão para que ela alcançasse a lida com as panelas. A italianada somava umas dez famílias aparentadas (imagina o volume das conversas) morando na mesma fazenda. Haja vinho. E macarrão. Atualmente, me viro muito bem na cozinha. Entre meus pratos favoritos (de fazer e de comer) estão a sopa de capeletti, a lasanha e o suflê de couve-flor. Mas ainda hei de inventar muita moda. E se um dia chegar a fazer macarrão caseiro (ou vinho), dou-me por satisfeita.
Nem por um decreto Eu tenho ídolos. Quase todos mortos, ainda bem. Melhor assim, acho, porque não há chance de decepção. Tem coisa mais chata que adorar uma pessoa e seu trabalho e, mais tarde, descobrir que ela tem uma fazenda com trabalho escravo? Ou bate em mulher? Ou balança bebês na janela? Deus me livre. Ademais, acho meio embaraçoso correr atrás de gente famosa com lápis e papel na mão. Que me perdoem os caçadores de autógrafos, mas não acho explicação para isso. Às vezes, na televisão, vejo imagens de gente se espremendo em alambrados pra conseguir atenção de apresentadora de programa infantil, jogador de futebol, atores. Por que? Para ganhar um papel com garranchos rabiscados? Ora, daqui que eu mesma pincelo umas letras aí e digo que foi a Luana Piovani quem fez! Além do mais, já repararam como as celebridades nunca olham no rosto do fã? Nem por um segundo. Reparam nos papéis e assinam com a mesma atenção que meu pai destinava ao boletim – daí eu ter virado uma aluna relapsa. Alguns, como a Xuxa, nem se dão ao trabalho de escrever: apenas emplastram a boca de batom e tascam beijinhos na folha. Argh! Mesmo assim, sempre há gente disposta a correr atrás de famosos nos corredores de aeroporto ou shopping. Correr? Eu faço isso apenas pra salvar minha vida ou apanhar ônibus em movimento. Desabalar carreira no encalço de galã de novela, nem pensar. E isso deve assustar horrores o dito cujo... Imagina o Rodrigo Santoro, magrela daquele jeito, vendo uma horda de meninas avançar em sua direção! Não deve ficar feliz, deve se sentir no estouro da manada de búfalos, coitado! Também tapo o rosto com as mãos ao ver choro copioso na tv. O cidadão lá, cantando suas pérolas, e meninas na platéia (porque quase sempre são meninas mesmo...) desidratando no auditório. Choram feito doidas – como se isso deixasse alguém mais bonitinha e interessante aos olhos do cantor. Que vergonha... Se vir minha filha fazendo isso na tv, vai descascar cebola no porão, pra ver o que é choro. Há ainda os fãs mansos, daqueles que fazem apenas cartazes de cartolina e camisetas. Fica um pouco infantil? Fica, mas passa. As blusas costumam ter a foto do ídolo e a placa normalmente é salpicada por brocado e purpurina. Duro é ver o famoso apanhar o cartaz e dizer que vai “guardar com carinho”, que tem “um quarto só para esses presentes”, etc. Ah, tá. Eles fazem é arquivar no balde preto da lavanderia, isso sim. Desculpem a falta de romantismo, mas tenho dificuldade, hoje, de acreditar em “pessoas públicas”. Enquanto seu show está no ar, imagino que apresentadoras e afins ganham um sem-número de ursinhos, balões e presentes. E aquele rolos de carta com 200 milhões de inscrições “EU TE AMO”? Caramba: se a moça guardar mesmo todos esses como diz, logo pode montar uma usina de reciclagem. Tenho apreço por muitos artistas. Uma vez encontrei o guitarrista Edgar Scandurra num bar e, de tanta emoção, chutei a bolsa dele. E deixei cair a minha. Ele apanhou meus pertences, eu apanhei os dele. Trocamos meio sorriso, ele seguiu conversando com o amigo, eu segui andando – com as bochechas coradas como brasa. Tinha jeito de parar aquele momento e pedir “Edgar, me dá um autógrafo?” De jeito nenhum, ia quebrar a magia! O olhar foi muito melhor, e eu guardo na memória, não numa caixa de sapato. É preciso encaixar aqui, porém, uma confissão. Desde que o Garotas foi ao ar e fez amigos, muitos paparicam Clarissa, Vivi e a mim. Com doces, gracejos, CDs, cartões... É estranho pra esta que vos escreve, mas não deixo de adorar cada um e guardar bem guardado, como tesouro. Hipocrisia dizer que celebridades não fazem isso e depois dizer que eu faço? Nem tanto. Eu não sou famosa. Sou apenas uma escritora com amigos. Mas não me venham com carta de rolo!
Esse é o Cipó, e ele foi presente... Hoje, é amigão 3.500 km depois Boletim Ushuaia #1 Hoje é o sétimo dia de viagem e já percorremos mais de três mil quilômetros de asfalto bom e ruim, vazio e cheio de caminhoes (ups, nao existe til neste teclado). Três mil! Confesso ficar angustiada quando penso que meus amigos, minha família, minha casa, meus gatos estao tao longe agora. Mas é preciso continuar adiante - e ontem a primeira placa apareceu: Ushuaia, a 2.859 km. Estou exatamente em Bahía Blanca, no meio da Argentina. Por enquanto a maior graca (xi, sem cedilha também) tem sido a viagem em si, já que estamos parando nos lugares apenas para dormir. A idéia é chegar até o nosso destino logo e depois voltar pelos cenários realmente bonitos. Saindo de Sao Paulo no sábado, chegamos até Curitiba para um almoco bem pedreiro, do jeito que eu gosto (arroz, bife, farofa, batata frita). Pena que nao pudemos ficar mais tempo. A noite passamos em Lages, já Santa Catarina, em um hotel limpo e com café da manha de encher a panca. No dia seguinte, almocamos em Porto Alegre e dormimos em Pelotas. Era a ultima noite em solo brasileiro. Continuando em direcao ao sul, o ponto mais extremo do país: Chuí. A animacao tomou conta, mas logo foi embora por conta de uma burocracia chata com o carro (duas horas na fila do Banco do Brasil) e da primeira roubada desta excursao! Na praia de Chuí, nosso carro atolou feio. Só conseguimos sair de lá gracas à boa vontade alheia. Ainda assim, depois de centenas de minutos passando frio e tomando areia na cara. Mas o que seria das viagens sem histórias assim para serem contadas? Seguims pelo Uruguai que, para nós, se revelou como um grande papel de parede padrao do Windows XP - sabe aquela paisagem com céu azul e campos verdinhos? Vacas posaram para foto com a gente enquanto os caminhoes passavam curiosos pelo nosso carro. Aliás, a placa de Betim, Minas Gerais, tem causado cada vez mais estranheza. Teve gente que até deu ré de carro para tentar desvendá-la. Jantamos em Montevideu e dormimos em Colonia del Sacramento, esta última muito lindinha. No meio do dia, pegamos a estrada de novo para Buenos Aires - finalmente Argentina! Estávamos na capital desde ontem, quando ficamos com saudade do nosso carrinho. É impressionante isso. Vai ser difícil devolvê-lo, viu? O legal é que nao importa o quao estranho seja o lugar onde estamos, porque aquele furgaozinho prata de quatro portas e muitas malas nos faz sentir em casa. O que faremos hoje? Acho que seguiremos até Porto Madryn, onde poderemos enfim ver alguma coisa da fauna local. Dizem que as orcas chegam perto da costa nesta época. E que os pinguins estao se acasalando. E os albatrozes voam mais baixo com o fim do inverno. Mal posso esperar! Notícias disso, só na próxima semana.
Ficou querendo saber mais detalhes, né? E ler as novidades antes também? Entao fique ligado no nosso blog de viagem, Ushuaia Logo Ali, atualizado sempre que a infra permitir! Vivi Griswold às 11:34 AM
Trocando as bolas Quem nunca soltou um push à guisa de “puxe” ao falar inglês que atire o primeiro Michaelis. Não tem jeito: a não ser que você viva num país de língua estrangeira ou não pare de praticar jamais, as escorregadelas ao versar num idioma que não é seu são fatais. Por mais que você estude, sempre escapa uma bobagem. Normal. Afinal, não fomos alfabetizados nessa língua e podemos ter lá os nossos deslizes. Ainda mais com essas ciladas de sonoridade parecida: no inglês, temos o velho push (que na verdade quer dizer “empurre”), o pretend (que na real significa “fingir”, e não “pretender”), o novel (“romance”, e não “novela”). Em espanhol, pelo pouco tempo de estudo, já vi que os vilões são o apellido (que quer dizer “sobrenome”, e não “apelido”), polvo (“pó”, e não... “polvo”) e vaso (que estranhamente significa “copo”). Isso só para citar alguns. Nós, pobres mortais, incorremos nessas às vezes. Porém, as empresas de legendagem e dublagem deviam ser melhores que isso, certo? Afinal, esse é o ganha-pão deles. Mas não são. Ou são e se fingem de mortas. Enfim. Não sei o que acontece, mas volta e meia pego traduções das mais bizarras na televisão. Talvez seja a pressa com que alguns programas são traduzidos. Aqueles telejornais estadunidenses exibidos no A&E Mundo dizem “planta” por plant o tempo todo. Aí, fica uma coisa bonita de se ver: a matéria mostra uma fábrica e, na legenda, aparece “a planta não estava em condições de funcionamento” ou algo do tipo. E nas cadeias, então? Estão cheias de gente “convicta”! Bonito, né? Isso porque convicted significa “condenado”. Mas soa tão poético ver aquele monte de gente de uniforme laranja e a legenda: “os convictos se ocupam com atividades das mais diversas”. Parece que eles são, assim, filosoficamente determinados – convictos! E não gente esperando para ser assassinada num plano minucioso patrocinado pelo governo. Esses são dois exemplos de relaxo, mesmo. Porém, há outras vezes em que os pobres tradutores devem ficar mesmo num mato sem cachorro. “Quase Famosos”, aquela fofura de filme, tem como ponto fundamental as groupies - aqueles tipos que vivem colados nos músicos. Não há uma tradução exata para o termo em português. Na versão do filme exibida pelo A&E Mundo ontem mesmo, Penny Lane e suas amigas viraram... “fanzocas”. Ficou, no mínimo, gozado. Agora, de chorar de rir foi a infame tradução do codinome da Meg Ryan em “Mensagem para Você” exibido pela TNT. Ela passa o filme trocando e-mails com seu arquirrival Tom Hanks – sem saber, é claro, que o cara do outro lado da tela é seu arquirrival. Para isso, usa o apelido “Shop Girl” – “Garota da Loja”, digamos, já que seu personagem tem uma doce loja de livros infantis. Pois não é que eles sacaram do nome “Consumidora” para traduzir o nome-de-net da Meg? Pelamordedeus, basta assistir o filme para notar que não tem nada a ver! Aposto que o tradutor tinha um senso de humor duvidoso – e fez disso uma piada sem-noção. A cena final perde todo o romantismo com o Tom Hanks dizendo “Não chore, Consumidora!”. Ah, façam-me o favor. Mas a melhor de todas as pérolas que já presenciei nessa tela-véia-sem-porteira foi em “Pulp Fiction”. A HBO é uma emissora de família, acho. Porque eles têm os maiores pudores nas legendas. No cult de Quentin Tarantino, Jules (o gângster vivido por Samuel L. Jackson) tem uma carteira onde está escrito “bad motherfucker” – que eu traduziria como “fdp sangue-ruim”, para dar um tempero nacional. Enfim, não importa o que colocariam no lugar do “bad”: o fato é que “motherfucker” é um palavrão. Para não macular a tradução, eis que a legenda exibe “miserável mau”. Ah, ah, ah! Achei a expressão sensacional. Eu gostaria de ser uma miserável má. Mas acho o cúmulo da incoerência exibir um filme em que um cara tem seus miolos estourados, outro é sodomizado e um terceiro morre sentado no vaso sanitário e, na hora de traduzir um palavrãozinho dos mais leves, ficar com frescura. Se eu sou o Jules, venho recitar Ezequiel 25:17 para esses tradutores... ![]() Segundo a HBO, ele é um “miserável mau” Uma carta para ela Olá, querida! Preciso te dizer umas coisas. Lá no fundo, eu sempre quis muito que você chegasse logo. Dizia isso pra todo mundo, sabe? Mas no dia em que soube de fato, comprovado, que a moça estava a caminho... minha espinha gelou, a cabeça revirou feito pião, eu imaginei que tudo fosse ficar uma doideira – e não daquela boa, preciso confessar. Mas não ficou, olha que gozado! Lá para fevereiro a senhorita deve aportar aqui em casa. O quarto amarelo está à sua espera. E nós todos também, viu? Ontem mesmo sonhei contigo. Estava de cabelos clarinhos e olhos também. Eu não sei bem como pensar no seu rosto, mas vejo aqui um semblante lindo e sorridente. Ah, disso eu tenho certeza! Sabe por que? Motivos pra rir não vão te faltar depois da chegada. Numa viagem que fiz há um mês, por exemplo, te comprei um Playmobil. Explico: são homenzinhos e mulherzinhas que trocam de cabelo e acessórios, podem ir da água à terra e causam uma diversão sem fim nas pessoas com imaginação! Se você quiser mesmo brincar com eles, tomara que me convide... Dizem por aí que eu sou boa nisso, viu? Em inventar moda, quero dizer. Uma vez, decidi entrar numa competição, lá no meu antigo bairro, para ver quem dava mais pau na bicicleta. Tudo bem, acabei estendida no meio da rua, com o rosto ralado em parceria com os joelhos e cotovelos. Minha mãe, quando viu, quase desmaiou. Mas nem assim escapei da bronca. Por falar nisso, tenho que te contar sobre dois assuntos, como prevenção. Primeiro, sobre a minha mãe. Ela nem te conhece, mas já te adora, sabe? Pergunta toda vez sobre como você está passando! Meu pai também. Sabe o Marcus, aquele rapaz maravilhoso que sempre conversa contigo antes de dormir? Os pais dele também estão na maior expectativa pela sua vinda, está muito engraçado! É que eles nunca conviveram com uma mocinha assim como você, daí o nervosismo. O outro assunto é menos mimoso. Pode se preparar, menina: assim como levei muita bronca, você vai levar também! Se merecer, evidente. Acho até que não vai, porque conheço seus pais, e eles eram relativamente calminhos quando pequenos. Seu pai... putz, que peça rara! Quando pirralho, ele caçava girino em córrego, dá pra acreditar nessa nojeira? Olhando hoje para aquela carinha de santo, ninguém diria... Mas ele vai te contar isso melhor um dia, pode esperar. Aliás, é bom dar umas explicações sobre esse sujeito, o seu pai, agora – porque ele mesmo não vai fazer isso. Quando o conheci, ele parecia uma ilha de alegria, sabe? Sempre tranqüilo, amável, prudente até os ossos, mas um palhaço quando provocado. E ele é assim mesmo! Nada o abala! Só a menção do seu nome, talvez... Ah, e cookie. Ele ama cookie. Será que você já tem essas preferências também? Hum... Fico pensando: quando você chegar aqui, eu imagino que tudo vá ficar uma baderna. Porque a casa é arrumadinha agora – e multicolorida, disso eu acho que você vai gostar – mas vamos querer fazer todos os seus gostos e te deixar confortável, e aí vai virar bagunça. Posso dizer uma coisa? Eu tô achando divertidíssimo! Não vou ficar brava nem se a garotinha aí decidir desenhar nas paredes. Talvez eu precise te colocar no colo e ensinar umas coisas de vez em quando, mas no geral pretendo que você explore tudo por sua conta, quando quiser, do jeito que preferir. Umas horas vou te puxar pra dançar, cantar ou ler comigo. Não repara, eu me apego bem rápido às pessoas legais. Mesmo elas sendo pequenininhas. Bom, gente para te ensinar coisas não vai faltar... Vivi e Clarissa, eu sei, já estão maquinando um monte de artes em conjunto com você. São doidas e às vezes me dão calafrio, essas duas. Mas confio nelas como em mim mesma para te mostrar as coisas boas do mundo. Meus irmãos e os irmãos do Marcus já estão a postos também. Garantem que vão te “estragar” com doces e truques sujos. Coitados, não sabem o baile que você será capaz de dar em todos antes dos 5 anos! Há! Nossos amigos, essa leva de aloprados, já planejou de tudo também. Em te levar para aprender a tocar guitarra, passear no parque de diversão e um monte de pirações. Tô com medo que você goste mais deles do que de mim... Será? É, porque eu vou ser aquela mala responsável por te fazer comer, ter hora de dormir, não assistir tv o dia inteiro... Os outros vão parecer legais e divertidos, e eu serei a bruxa? Ah, não quero! Prefiro que você olhe pra mim e veja o quanto te amo. Porque eu amo muito, viu? Esquece aquela besteira que disse no começo da cartinha, sobre ter tido um espasmo quando soube da sua vinda... Levou míseros dias pra eu perceber como a sua presença vai ser deliciosa, como a gente vai se divertir junto. Não vai ser fácil sempre, um mar de rosas eterno, eu sei. Quando você completar 15 anos e entrar naquela idade pentelha, por exemplo, talvez me odeie. Mas vai passar, não vai? Vai sim, porque você já deve saber desde agora que eu só quero o seu bem. Até te nomeei pra tomar o meu lugar no Garotas que Dizem Ni quando ficar mais velha! E parei de tomar café, porque explicaram que isso te faria mal! Pior que eu adoro café... Só que adoro muito mais você, viu, Sabrina? Ah, não te contei?? Esse vai ser o seu nome. Cada vez que digo em voz alta, dá vontade de chorar. É a ansiedade pra te ver logo. Mas fevereiro está aí, e a mamãe mal pode esperar pra te ver chegar, filha... Um beijo! Quem poderá nos defender? A resposta a essa pergunta está nas mãos de um super-herói – que de “super” e “herói” não tem nada. Ele é baixinho, mirrado e possui parcos poderes. Ele é confuso, medroso e mais atrapalha do que ajuda. Ele não usa imponentes uniformes ou capas voadoras, e sim um par de ridículas antenas. Ele não nasceu na terra do tio Sam, como 99,99% dos salvadores da humanidade, mas no México. Ele é nosso querido e único... Chapolim Colorado! Vou confessar uma coisa: por mais que eu goste do Chaves, era nos episódios do Chapolim que eu caía do sofá de tanto da risada. Cada programa conseguiu ser melhor que o outro, além de ultrapassar a barreira do nonsense – o vermelhinho já se materializou tanto na época do Renascimento quando no espaço. Sem mencionar, claro, os indescritíveis efeitos especiais que parecem ter sido feitos no fundo do quintal da Televisa. Mambembe em sua mais perfeita tradução. Chapolim chega quando alguma alma aflita profere a frase do título. É a senha para o herói aparecer do nada e começar a sua missão – que está mais para fazer os inimigos rirem do que salvar os necessitados. Mas o personagem não é tão desprevenido assim: suas antenas de vinil captam o menor dos movimentos; sua marreta biônica acaba com qualquer oponente; suas pílulas de nanicolina possibilitam que ele passe por buracos de fechadura e frestas de janela; sua corneta paralisa todos que a escutam; seu conhecimento o faz conversar em vários idiomas. Mesmo com todo esse arsenal (ou, talvez, por causa dele), o desempenho do vermelhinho sempre deixa a desejar – mas nunca no quesito de comédia. Enquanto o herói tenta resolver o dilema da vez, o cenário ajuda a situar o telespectador: florestas de plástico, cadeiras de isopor, cavernas de papel, bichos empalhados e armas de brinquedo. Um teatrinho de escola em rede nacional! Tem como ficar melhor? Tem. Além de ser uma negação para salvador, Chapolim ainda não demonstra muita criatividade na hora de abrir a boca. Para o nosso deleite, o personagem tem frases carimbadas que ficaram célebres: “Não contavam com a minha astúcia” é a mais famosa. Na mesma leva, as inesquecíveis “Não priemos cânico”, “Se aproveitam da minha nobreza”, “Sigam-me os bons” e, lógico, “Suspeitei desde o princípio”. Ficou com saudade, né? Então vou lembrar de cinco episódios clássicos do Chapolim Colorado que são meus favoritos. Se um dia lançarem DVDs contendo qualquer uma dessas pérolas, compro dois de cada – um para guardar, outro para assistir até ficar com câimbra no maxilar de tanto dar risada. 1) O Alma Negra 2) O bebê Jupiteriano 3) A picada de cobra 4) A história de Cleópatra 5) As venusianas
As tramas musicais continuam Antes de tudo, gostaria de começar o texto de hoje fazendo uma menção honrosa a essa figura ímpar da música internacional – e rei das arapucas, pegadinhas e ciladas videomusicais. Falo do grande Jon Bon Jovi, excelente intérprete de pérolas perfeitas para se dublar no carro ou em casa. Jon é o rei dos clipes com historinha, desde “Miracle”, onde aparecia de moto numa cidadela perdida no meio do nada, passando por “Blaze of Glory”, que inclui cenas de outra historinha, desta vez cinematográfica (“Jovens Demais para Morrer”), até chegar no inesquecível “Always” – um melodrama com direito a separação do casal e incêndio final. Mas a superação veio com um vídeo mais recente, cujo nome desconheço. Para variar, tudo começa com um casal brigando. Como a mocinha não quer mais saber do mané, ele decide subir num prédio e ameaça se jogar. Quando já formou-se uma muvuca debaixo do edifício e a menina, inclusive, se encontra por lá, o infiel pula. No meio da queda, abre um pára-quedas. E no pára-quedas tem uma inscrição do tipo “te amo, volta para mim”. Pelamordedeus! Não era mais fácil ligar no Love Songs e pedir para participar do Recado do Coração, coroado com uma balada do Roupa Nova, do Placa Luminosa ou mesmo do próprio Bon Jovi? Não, é claro que não: ele tinha que importunar o mundo todo com esse videoclipe bizarro. Pronto. Depois da menção honrosa (e de um copo de água com açúcar para passar o nervoso de lembrar desse vídeo infernal), vamos ao que interessa: a conclusão da lista dos clipes de historinha inesquecíveis! 5. Hoje eu Acordei Feliz, do Charlie Brown Junior 4. Jeremy, do Pearl Jam 3. November Rain e Don’t Cry, do Guns’n’Roses 2. Crying, do Aerosmith 1. Thriller, do Michael Jackson ![]() Mal sabia eu que Michael viria a ter uma cara (verdadeira) ainda pior que essa O bom do signo Já contei a todos aqui: não topo muito essa coisa de signo. Na verdade, hoje eu acredito muito mais na regência astral, e vejo caracerísticas bem semelhantes em gente nascida na mesma época. O que me aborrece com o assunto é ver pessoas tão apegadas à influência dele. Seria isso uma tremenda jogada? Certamente todos já viram isso acontecer. O cidadão comete uma senhora asneira e depois, arrepedido, larga um "foi mal, mas é que eu sou de (complete aqui com o signo de nascença)". Ah, façameofavor! Ter nascido em março, julho ou setembro não é desculpa para as atitudes! O lado bom dessa "saída pela esquerda" é ter sempre um álibi. Então, pesquisando o modo de ser e viver de cada signo, descobri que podemos avacalhar e cometer atrocidades – para depois, simplesmente, sacar do subterfúgio zodiacal! Querem experimentar? Vão em frente. Peixes Áries Touro Câncer Gêmeos Leão Virgem Libra Escorpião Sagitário Capricórnio Aquário Culinária do fim do mês Eu estou adorando cozinhar. Gosto de bolar receitas, fazer medidas de cabeça e, no final, ser elogiada pelo resultado – mesmo que por mim mesma, uma vez que normalmente estou almoçando sozinha. Abrir a geladeira e ver todas as qualidades de comida esperando para ser digerida é muito bom. Pena que não é sempre assim: a correria às vezes é tanta que fazer supermercado é uma das últimas prioridades. E, enquanto o refrigerador esvazia, a barriga segue a mesma sina. Sabe quando bate aquela vontade de mordiscar um quitute bem no meio da tarde? Pois lembre da sensação de vasculhar os armários em busca de algo do gênero e não encontrar nada... Já passei muitas vezes por isso e passarei sempre – continuarei salivando com um pão que não existe e com um requeijão que há muito venceu e criou fungo. O que fazer em momentos de penúria? Levantar a bunda da cadeira e seguir em direção do mercado é uma saída. A outra é... optar pela culinária alternativa! A culinária alternativa é muito simples e muito fácil de se fazer. E o melhor: por mais mal de fim de mês que sua despensa esteja sofrendo, sempre existem uns ingredientes-chave que estão ali conosco nos momentos mais difíceis. Por exemplo: bolacha água e sal. O impressionante é que eu nunca me lembro de ter comprado aqueles quadradinhos secos e sem gosto, mas eles estão ali todas as vezes em que precisei apelar. Talvez brotem do armário, vai saber. De qualquer maneira, eles são grandes aliados desse tipo especial de culinária. A dica é pegar um resto de mussarela – caso a data de validade esteja ultrapassada, faça vista grossa. O que não mata engorda. E mais vale uma mussarela passada do que um camembert inexistente, certo? Corte quadradinhos do queijo e coloque sobre cada bolacha. Adicione uma rodela de tomate (outro ingrediente eterno) e uns temperinhos (vale qualquer coisa que seja verde e tenha um mínimo parentesco com orégano). Leve tudo ao microondas, programe 30 segundos e... Delícia, um rodízio de pizza de cream cracker! Depois de tal entrada sofisticada, você pode tentar um menu oriental. Como o famoso yakissoba de Miojo. No fim do mês, todo mundo está cansado do gosto do maldito macarrão instantâneo. Então faça o seguinte: ferva a água do Miojo com uma dose generosa de shoyu. Procure em sua geladeira por legumes de qualquer tipo – com certeza existe uma cenourinha fossilizada. Uma lata de ervilha também é coringa. Cozinhe tudo na água e depois acrescente o macarrão. Quando amolecer, coma de palitinhos para valorizar ainda mais o prato. Já experimentei também um gostoso hot-dog feito apenas com meia salsicha e uma bisnaguinha. É seco? É, não vou mentir. Mas colocando umas gotas de mostarda, desce fácil. Outras campeãs de audiência no fim do mês aqui em casa são as sardinhas em lata. Agora existem umas com pimenta, com limão... Um luxo só! De sobremesa, você pode arriscar desenterrar aquele pote de sorvete napolitano do congelador. Tudo bem que só terá restado um sabor (creme, é lógico). Por fim, meu favorito: mousse de leite em pó. Faça uma papa de leite em pó (o que quer dizer muito pó e pouca água). Acrescente algumas colheres do achocolatado de sua preferência. Bata bem até formar uma massa uniforme e pegajosa como piche. Coloque o recipiente no freezer e aguarde alguns minutos. Sirva e saboreie bem – principalmente tentando imaginar que está comendo o petit gateau mais delicioso da sua vida. Aliás, quando o assunto é a culinária de fim de mês, imaginação fértil e bom humor são ingredientes mais importantes do que um esquecido (porém valioso) pacote de bolacha Maria.
Tramas musicais Como uma garotinha magrela e boboca, caio em arapucas das mais diversas: filmes com beijo no final, cinema-catástrofe, hits de verão da Ivete Sangalo e programas ruins de televisão – como já expliquei aqui. Mas ainda não fiz minha confissão completa. Eu caio na maior das ciladas do binômio música + televisão: os famigerados clipes de historinha. Num remoto dia do ano do Senhor de 1992, a quase recém-lançada MTV começou a pegar na minha casa. Naquela época, a emissora ainda fazia jus ao título Music Television. Combinando essa proposta com meus 14 anos adolescentes, estava feita mais uma MTViciada. Eu sabia das paradas de videoclipes, participava de promoções e queria ser igual à Cuca, ainda por cima. Depois, como tudo, isso também passou. Mesmo antes da MTV começar a reformular a programação e virar uma emissora de variedades, eu já tinha largado mão. Até porque meus gostos musicais se consolidaram e, definitivamente, não estavam mais representados no canal 32 UHF. Mas desse tempo (e de umas esporádicas espiadelas atuais) ficaram grudados na minha memória os tais clipes de historinha, onde a banda ou outros atores aparecem encenando um mini-roteiro dramático, emocionante ou escrachado. Como não sou mulher de deixar história pela metade, não consigo desgrudar os olhos da TV até o bendito enredo terminar – por pior que ele seja. Nessas, não me esqueço de... 10. Waterfalls, do TLC 9. Everytime, da Britney Spears 8. Sabotage, dos Beastie Boys 7. A Minha Alma, d’O Rappa 6. Você Pode Ir Na Janela, do Gram E isso não é tudo. Amanhã, caia em mais cinco clipes de historinha. Claro, se você for como eu e não resistir à curiosidade...
Mas eu não quero… Existem dias que já começam lindos, não é mesmo? O sol bate na janela, o vento fresco invade a casa, o café parece mais gostoso que o habitual. Você está dentro do horário previsto para ir trabalhar, não pega muito trânsito, a roupa escolhida fica bonita de cara e a vida funciona lindamente. É, existem muitos dias como esse… E existem os dias como hoje! Saco! Tudo, tudo parece dar errado quanto temos mais pressa, compromissos e obrigações. É o pão se atirando da pia com a mateiga virada pro chão, o leite achocolatado pingando da blusa branca. O computador trava de propósito, a chave do carro se esconde como tatu no mato. Tenho ódio de dias assim, porque parecem feitos de propósito para irritar. E irritam. Eu fico azeda e emburrada feito criancinha mimada. Daí, não quero fazer nada, muito menos cumprir pequenas tarefas enjoadas. Principalmente estas que seguem abaixo. Eu sei que preciso, mas eu não quero… …Escovar a língua …Mastigar 10 vezes de cada lado …Pentear o cabelo …Guardar os sapatos …Dirigir Pipoca com interrogações Existem filmes que nos fazem suspirar. Existem filmes que nos assustam. Outros filmes, porém, propiciam mais do que um mero sorriso ou uma sensação de medo. Os créditos sobem e nós continuamos sem entender o que diabos se passou na tela. Daí, são horas de discussão com o acompanhante de cinema para tentar pensar em qual dica deixamos escapar. Na verdade, muitas vezes nem é culpa da desatenção: algumas produções simplesmente são mestras em enfiar pontos de interrogação em nossa cabeça. Tá certo que um roteiro surpreendente, criativo e inovador é sempre bem-vindo em uma safra hollywoodiana que peca pela superficialidade e pelo entretenimento raso. Sou muito mais assistir a um exemplar que me faça pensar a respeito do que ficar sentada na poltrona duas horas mesmo já tendo descoberto o final nos primeiros minutos de projeção. Apesar disso, tenho alguns títulos que me intrigam até hoje. Não adianta: a ficha ainda está em processo de queda. Se você tiver uma resposta, me escreva. Ou fiquemos todos nós no cômodo mundo da ignorância! Magnólia Cidadão Kane Planeta dos Macacos Vanilla Sky 2001 – Uma Odisséia no Espaço Cidade dos Sonhos Donnie Darko E o coelho ainda vai ao cinema!
Rá rá rá Afinal, o que é ser engraçado? E por que achamos de relaxar certos músculos da cara, contrair outros, mostrar os dentes e fazer um estranho som ao toparmos com certas coisas? Mistério. Diz que senso de humor é uma das coisas que nos diferencia dos chamados animais irracionais... talvez seja a única, pensando melhor. Longe de mim querer explicar o que nos faz rir. No entanto, uma coisa é certa: como dizia Jesus Cristo, é mais fácil um camelo passar pelo buraco duma agulha do que todo mundo achar graça da mesma piada. Peraí. Não era bem isso. Mas serve. Não existe piada absolutamente universal. O que é bom – afinal, se todo mundo gargalhasse diante das mesmas coisas, a quem iríamos irritar rindo em altos brados quando achássemos graça numa piada infame? Tombos em escadas. Tortas na cara. Mal-entendidos homéricos. Trocadalhos do carilho. Porretes de isopor. Ditames baratos. Homens vestidos de mulher. Diálogos afiados. Expressões levadas ao pé-da-letra. Ritmo. Esses são alguns dos ingredientes da comédia – e confesso que sou capaz de me divertir com todos eles. Confesso mais, até: juro que me esforço, mas ainda me pego rindo de algumas videocassetadas. Pronto, falei. Porém, a confissão final ainda está por vir: embora me ache uma pessoa engraçada, não sei contar piadas. Ok, muita gente não sabe. Mas o pior de tudo é que não sei ouvir piadas. É isso mesmo: sou péssima ouvinte de piadas. Já começo a maquinar o final da história logo no início da narrativa. Fico com medo de não achar engraçada e, assim, deixar meu interlocutor sem graça. Então, passo a ensaiar mentalmente uma risada convincente e acabo perdendo a piada em si. Estrago tudo, enfim. Mas também, piadas são quase sempre iguais! Se fôssemos guardá-las naqueles armários de botica, cheios de gavetinhas, bastava escrever uma meia dúzia de etiquetas e pronto: estariam todas categorizadas. Vejamos: temos piadas de loira, de papagaio, de português, de baixo calão e de bêbado. Até agora, as categorias são auto-explicativas. Tais anedotas têm como tema central, respectivamente, as mocinhas cujas madeixas são colegas de cor das minhas; a ave capaz de repetir os fonemas da língua humana; os nossos colonizadores com fama de tapados (assim como as loiras); preconceitos idiotas contra negros e nordestinos (pensou que eu achava sexo coisa de baixo calão? Perto do que se fala nas piadas desse grupo, qualquer perversão é reza) e, finalmente, aquele pessoal chegado num subproduto da cana que não é açúcar. Entendido o tema das piadas, restam as perguntas: por que os papagaios de piada são sempre tão espertos e as loiras, coitadas, umas antas? Papagaios apenas repetem o que a gente fala, por Deus! Isso não quer dizer que eles adquiram estruturas lingüísticas! Outra: que mania é essa de achar que português é burro? Aposto que eles contam piadas de brasileiro por lá. E não é meio cruel mangar de gente com um problema grave de saúde, como o alcoolismo? Bom, se nos guiássemos estritamente pela solidariedade politicamente correta, seríamos o povo mais chato do mundo. Há que se abrir umas exceções. Só que piadas que diminuem o povo preto e o pessoal da porção mais ensolarada do Brasil realmente não me despertam o riso. Mas minha dúvida maior paira mesmo na categoria de piadas, digamos, de meios de transporte – aquelas famigeradas historietas que juntam meia dúzia de manés de nacionalidades ou naturalidades distintas num avião, ônibus ou trem. Elas começam mais ou menos assim: “Tinha um americano, um japonês, um brasileiro, um indiano e um argentino num trem” ou, ainda, assim: “Tinha um mineiro, um paulista, um carioca e um baiano viajando de ônibus”. Algumas tem o upgrade de celebridade, e contam também com uma personalidade famosa entre os gentilícios, do tipo “Estavam um americano, um italiano, um brasileiro e o Ronaldinho num avião”. O problema com essas piadas (sem entrar no mérito da possibilidade de um americano, um italiano, um brazuca e o Ronaldinho dividirem um avião) é que elas sempre juntam nacionalidades carimbadas. Pode ver: é um americano, um argentino, um europeu a escolher, um japonês, um indiano, um argentino e, é claro, um brasileiro. Fica manjado! Queria ouvir uma piada que começasse com “Tinha um somali, um guatemalteco e um javanês num monomotor”, ou algo do tipo. Aí, eu juro que prestaria atenção na anedota. Se alguém souber de uma piada assim, é favor me enviar. Por que eles não podem participar da literatura humorística mundial também?
Em bando Eu fico bem sozinha. Sempre fui alvo de desconfiança por isso, mas é a verdade: uma vez sem companhia, posso ficar feliz, arranjando coisas a fazer sem muito esforço. Leio na rede, bato um bolo, assisto um filme, arrumo os livros, fuço em pilhas de fotos antigas, durmo… Eu fico muito, muito bem sozinha. Mas talvez fique ainda melhor da outra maneira. Como diria aquele poeta, "quem tem amigos nunca está sozinho". Tá bom, quem disse foi o Menudo na melação "Quero Ser"… Mas os guapos de Porto Rico estavam certos. Acho que ter namorado é ótimo e perfeito para fazer o coração se sentir seguro e cuidado. Ter amigos, porém, pode completar todo o setor "Diversão" de uma vida. Haja vista minhas reuniões. Tenho grupos os mais variados pra contar. Com mais quatro moças que trabalharam comigo em uma revista de culinária, vou jantar uma vez por mês. Contamos as fofocas dos conhecidos em comum, reclamamos dos novos empregos, rimos até doer a maçã do rosto por causa de qualquer besteira. E depois pedimos uma sobremesa gigante pra dividir em cinco. Sempre que vejo essas peças, volto pra casa acreditando que garotas com mais de 30 anos não precisam ser criaturas afetadas, fresquinhas. Podem ser hilárias, isso sim! Além delas, tenho também a turma da revista de automóveis. Foi-se o tempo em que vivíamos na redação, tocando a maior publicação do país sobre carros – e contabilizando 33 pirados no mesmo escritório. Ali, contumava-se dizer: "se cercar, vira hospício; se cobrir, vira circo; e se fotografar, é anúncio da Benneton". Nunca foi tão legal sair de casa para trabalhar. Mas hoje nos limitamos a encher a cara e festejar em feijoadas marcadas periodicamente em casas alternadas. Há cerca de dois anos, eu, Vivi, Clara e mais uma colega tínhamos outro bando. Em geral, marcávamos jantar num restaurante de shopping, ríamos lembrando cada passagem de "Monty Python em Busca do Cálice Sagrado" e tínhamos surtos de gargalhadas repassando cada frase anormal proferida pelo antigo chefe que nos demitiu. Bom, esse grupo vocês sabem o que virou – mesmo tendo descontado uma garota no meio do percurso… Ontem mesmo, descobri ter mais um grupo de amigões. Fomos assistir jogo de futebol americano (sim, eu gosto, não me chutem…) na casa de um grande camarada, o Paulo. Lá, a dinâmica acontece ao redor da mesa de salgadinhos, com cada integrante esparramado pelo chão e pelo sofá do rapaz sem sombra de cerimônia. Tem coisa melhor do que se sentir em casa na casa dos outros? Pior que tem. O melhor de formar bandos de amigos é ver como cada indivíduo se entrega à diversão. Sábado, o Garotas comprovou ter mais uma benfeitoria registrada no currículo. Enquanto a gloriosa banda "Quase Nada" se apresentava no palco de um bar, dezenas de meninas e rapazes prestigiavam o feito de um amigo-vocalista-showman-e-membro-do-fórum. Sim, toda essa gente se conheceu pela internet e hoje marca encontros pela cidade de São Paulo, reforçando a amizade. Eu fico impressionada, porque são todos muito diferentes entre si e, ao mesmo tempo, capazes de criar laços estreitos e trocar risadas por horas. Tem uma mocinha muito tímida que quase já não é mais, tem um rapaz hiperativo adora inventar moda pra juntar os companheiros (seja festejando ou dando o sangue). Tem uma anjinha equatoriana que aloja os recém-conhecidos em sua própria casa. Tem uma garota que traz seu sorriso encantador de longe, tem mocinho que traz isso e mais um saco de chocolates deliciosos de muuuuuuuito longe. Tem aquele menino adorável que dá o espetáculo no palco do bar e tem aquele outro que larga seu próprio bar espetacular para reunir com o novo bando. Assim é que o mundo deveria ser: gente diferente encontrando coisas em comum e se divertindo loucamente. Eu fico orgulhosa e chocada por ter a sorte de participar, sabem? E descubro que fico mesmo muito bem sozinha. Mas fico muito melhor entre o bando. Amigos, amigos... ... amores à parte? Há quem diga que homens e mulheres não podem ser amigos. Quer dizer, não que a amizade seja impossível – o difícil, no caso, seria não rolar algum tipo de segundas, terceiras e inclusive quartas intenções de vez em quando, o que descaracterizaria o status de "amigo" e elevaria os dois ao status de "amigos coloridos". Normalmente, quem tem esse pensamento é criticado ferozmente. Imagine, que absurdo! Meninos e meninas podem ser só amigos sim. Ou será que não? Para ser sincera, ainda não fiz a minha cabeça no assunto. Sabe por quê? Porque eu sempre tive ótimos amigos homens e tais amizades nunca passaram da linha, mesmo com insinuações de gente de fora. Cansei de ouvir "ah, e o fulano, hein? Vocês se dão tão bem... Tem certeza que é só isso?". Por outro lado, já passei sim pela perturbadora situação de me apaixonar completamente pelo meu melhor amigo e ficar entre a cruz e a caldeirinha, como se diz. Estava eu sentada na cadeira da classe no primeiro dia de aula da faculdade de jornalismo. CDF até dizer chega, havia preparado antecipadamente um grande fichário – achando que iria escrever de montão, copiar da lousa, fazer lição e essas coisas. Recortei uma matéria de uma revista que publicara todas as capas de todos os LPs lançados pelos Smiths, minha banda favorita, incluindo álbuns e singles. Do meu lado, um rapaz virou-se, apontou uma das capas e disse "esse é meu favorito". Virei-me e começamos a conversar sobre música. Depois, sobre cinema, TV, fast-food, clima, viagens, cultura trash, seriados japoneses, infância e qualquer outro tópico que surgisse. Ele ligava em casa para perguntar sobre um trabalho e ficávamos duas horas conversando sobre amenidades, sem momento algum de silêncio constrangedor. Após alguns papos, ele já foi elevado ao patamar de melhor amigo e de uma das pessoas mais incríveis que tinham passado pela minha vida. Andávamos juntos o tempo inteiro, fazíamos dupla nos trabalhos, listávamos as piores músicas de todos os tempos nos intervalos, adivinhávamos o pensamento do outro sem abrir a boca. Foi uma questão de tempo para que os colegas em volta trocassem aqueles olhares de "esses dois... sei". E eu, indignada, batia na tecla de apenas bons amigos. Até que eu fiz aniversário. Ele passou em casa e fomos ao cinema. Em seguida, me deu um CD dos Smiths (claro), cheio de versões alternativas para as músicas que tanto gostávamos. Dentro, um bilhete escrito à mão em folha de caderno com um poeminha do João Cabral de Melo Neto, o texto de abertura do programa "Além da Imaginação" e um monte de palavras carinhosas sobre mim. No final, assinava "do seu amigo...". Daí a ficha caiu – pô, amigo? Não, eu queria mais! Eis que comecei a perder o sono. E agora, o que fazer? Confessar a paixão e perder a amizade ou deixar tudo como está? Bem, depois de muita enrolação, descobri que ele também sofria da mesma forma. Deixamos os grilos de lado e resolvemos apostar. Se deu certo? Entre altos e baixos, sim, deu. E hoje faz exatos oito anos que o meu melhor amigo virou meu parceiro de risadas, lágrimas, beijos e muito carinho.
Eu encontrei a Mirtes, o Válti... ... e a trupe toda em Tiradentes Na nossa frente, estava um chafariz datado de 1749. Desde tal tempo longínquo, o local é abastecido por um aqueduto de pedra que traz o líquido do Bosque de Mãe D’Água até ali. A peça foi construída pela Câmara Municipal de São José Del Rei – mais tarde rebatizada como Tiradentes – e conta com três bicas, cada qual idealizada, à época, com uma finalidade específica: de-beber para a população, de-lavar para as lavadeiras e de-beber para os cavalos. Diz a lenda que quem toma dessa fonte tem volta garantida à adorável cidadela. Assim sendo, me empenhei em encher o squeeze, companheiro inseparável das caminhadas, com a água do Chafariz de Tiradentes. Depois disso, me aboletei nas pedras para passar os tradicionais cinco ou dez minutos de contemplação e tentativa de compreensão de uma coisa tão grande. Tudo parecia calmo – e estava, de fato. Até que uma picape meio velhusca estacionou defronte ao lugar. De dentro, salta uma criatura sem camisa, trajando apenas calça jeans com cinto e chinelão. Faço questão de ressaltar o detalhe do cinto e já explico o porquê: apesar do acessório, as calças do infiel deixavam em exibição um terço do seu derrière! Aquilo não era um cofrinho. Era uma caixa-forte. Depois de abrir as portas e a caçamba da picapona (deixando aparecer um colchonete disposto ali) e ligar o som no último volume, Válti – não restavam dúvidas de que só podia ser ele – caminhou em direção a um animado grupo de mulheres e crianças ao lado do chafariz. E põe animado nisso. Dentre as mulheres, a mais simpática trajava uma roupa de algum tecido sintético - deveras inadequado para um calor de, digamos, 30 graus. Nos pés, sandálias de salto médio – completamente inadequadas para uma cidade cheia de ladeiras. Parecia aquelas tias que vão jantar fora uma vez a cada seis meses, manja?, e capricham na produção de ocasião. Tinha de ser a Mirtes. Provei a tese quando o comprovado Válti se aproximou da suposta Mirtes, disse alguma coisa e, na seqüência, virou-se de costas para a mulher. E então, o horror: ela começou a cutucar e espremer uma espinha nas costas do cidadão! Juro pelas ladeiras de Ouro Preto. A cena me causou repulsa. Isso é coisa que se faça em público? Pior ainda, em público e diante de um chafariz de 1749? Acho que não! Quis desviar o olhar para o outro lado da fonte, mas ali a irmã mais nova da Mirtes (provavelmente a Dirce ou a Dinorá) pegava uma das crianças, já de cuecas, e a mergulhava dentro do chafariz. Acode, São José de Botas! Tudo fazia sentido agora. Era mesmo a família inteira da Mirtes, com toda a cunhadagem, sobrinhagem e agregados – provavelmente, acomodados em viagem no colchonete da caçamba da picape, com o som no último. O pior? É tudo verdade. O melhor? Ainda bem que encontrei com eles, gente autêntica e divertida, por ali. Só podia ter passado sem a história da espinha... Clara McFly às 07:35 PMSobre habitantes do mundo "Um dia é preciso soltar as amarras e, de algum modo, partir". A frase, bonita de causar lágrimas e muito verdadeira, é autoria do navegador, malucão e meu ex-ídolo Amyr Klink. Perito em cair no mundo para viagens fantásticas – às vezes sozinho, às vezes acompanhado por focas –, o rapaz pode ser acusado de ter várias particularidades esquisitonas. Mas quanto a uma, temos que concordar: haja espírito forte para deixar tudo para trás, do travesseiro aos amigos, e sair por aí vivendo… O texto de hoje é uma ode aos viajantes, este pessoal de brio! À Raquel, minha irmã-quase-gêmea, a quem admiro demais não só por ter decidido ir trabalhar lááá na terra do Tio Sam, mas numa porção dela que fica gelada oito meses por ano. Ao Tércio, que hoje mora na mais charmosa das cidades européias, Londres, e não perde o humor mesmo lavando pratos para patrões asquerosos. À Taís, antiga companheira de apê, que também foi viver entre os súditos da Rainha – e, tenho certeza, vai ficar ainda mais figura do que já é. Também é uma homenagem aos que marcaram dia para voltar. Como o meu irmão, que faz as malas ao menos uma vez por mês para ir trabalhar mundo afora – e larga duas crianças adoráveis para trás com dor no coração. E, mais que todos, para a Vivi, que amanhã terá a pachorra de começar mais uma road trip muito louca da pesada! Viajar rende muitas idéias, faz a cabeça trabalhar e se expandir. Mas, acima de tudo, acho que nos faz bem porque proporciona o conhecimento de outros estilos de vida, outros tipos de cultura. Experiências em viagem, podem ser boas ou más, me fazem aprender muito. E desmistificar algumas bobagens que sempre ouvi. Posso detonar coisas que escuto vez por outra mas são mentira deslavada? Italianos não são grossos Cariocas não são irritantes Franceses não são mal-humorados Ingleses não são frios Paulistas não são viciados em trabalho Norte-americanos não são alienados Argentinos não são encarnações do demo Ushuaia logo ali a.k.a. De volta à estrada Eu adoro esse termo, a.k.a. (do inglês “also known as”, ou “também conhecido por”). Hoje eu resolvi usá-lo porque não me decidi entre um dos dois títulos. Bem, mas isso realmente não importa. O importante é que amanhã, logo após o sol raiar, entrarei em um simpático carro que me levará até a cidade mais ao sul do continente americano – ou melhor, do planeta: Ushuaia, a 5 mil quilômetros de distância de onde estou sentada agora. Alguns leitores mais antigos já tinham até me questionado sobre qual seria a aventura da vez, já que em 2003, nesta mesma época, estive passeando pelo norte do Chile e pelo Peru (o relato breve desta viagem inesquecível pode ser lido aqui). Então agora é hora de dar a notícia. Nos próximos 30 dias, se tudo correr bem, eu, namorido e mais um casal de amigos sairemos de São Paulo rumo ao extremo sul da Argentina e, de lá, de volta a São Paulo. Aventura? Magina. Antes que alguém arranque os cabelos de preocupação, deixe-me explicar. A rota é super conhecida e já foi feita milhares de vezes antes de nós. Teremos um carro bacana e espaçoso gentilmente cedido pela Fiat (ou não, porque a papelada ainda não saiu). As estradas, pelo que apuramos, são ruins mesmo em território nacional. Abasteceremos o tanque sempre que der e teremos duas maletas de primeiros socorros. Estaremos em contato via internet. Além do objetivo maior – chegar até Ushuaia, ali na pontinha da Argentina –, mal posso esperar pelas paisagens no caminho. Só o fato de poder estar na Patagônia me faz querer levantar agora mesmo e sair correndo a pé naquela direção (ok, péssima idéia). Só de pensar que verei colônias intermináveis de pingüins vivendo livres, fora de uma jaula climatizada no zoológico, fico arrepiada. Só de imaginar o quanto de doce de leite e de alfajor comerei já me dá fome. Estou animada pra chuchu por viajar de carro. Não precisarei enjoar em avião nem por um segundo! Ou querer esticar as pernas durante uma viagem de 27 horas de ônibus e não poder. Mas melhor do que parar quando quiser, seguir até onde agüentar e poder ouvir música alta é... não ter limite de bagagem! Claro que não levaremos nosso guarda-roupa, mas também não precisaremos enfiar apenas uma calça e uma camiseta na mala para passar no check-in do aeroporto. O roteiro está programadíssimo, inclusive em uma caprichada planilha: no primeiro dia, seguimos para Curitiba e Florianópolis, dando uma volta pelas duas cidades. Tentaremos chegar até Cambará do Sul, onde dormiremos e, no dia seguinte – se as nuvens deixarem – passearemos pelos Aparados da Serra. A partir dali é só descida. Montevidéu, Buenos Aires e Península Valdez na ida, Torres del Paine, Perito Moreno, Bariloche e Foz do Iguaçu na volta. Quanto ao Garotas? Vamos fazer o seguinte: os textos continuarão como o usual. A cada sexta-feira, porém, tentarei escrever de lá – e serão relatos da viagem. Se eu não aparecer, não se aflijam, ok? Vou levar um laptop e prometo dar as caras de vez em quando! Os leitores mais empolgados podem visitar também este site, que será atualizado religiosamente. No mais, cuide-se daí que eu me cuidarei daqui. E faça companhia à Flá e à Clarinha por mim, hein? Novamente, cuidado para que nehuma outra ruiva fajuta seja colocada em meu lugar. Hasta! ![]() Ah, até que é pertinho, vai?
Eu ri (à beça) em Ouro Preto... ... e adjacências Nem só de passar medo vive uma escriba magrela como eu, ao visitar cidades históricas brasileiras. Como não poderia deixar de ser, o feriado prolongado rendeu também gargalhadas à vera – como diria a Mãe Loura do Funk. Primeiramente, como todo bom viajante inexperiente, pedimos um bocado de informações para os transeuntes. E demos azar: acho que todos tinham a mesma noção de direção que eu tenho, facilmente classificável como... xexelenta. Não teve um – repito: um sequer! – que acertou os conceitos de direita e esquerda. Assim, aprendemos a nos guiar pelo apontamento gestual do informante, e não pelas palavras. Porque todos apontavam para a direita e diziam “pega ali, à esquerda”, ou vice-versa. Também descobrimos que os mineiros dessas cidades têm um ritmo de vida assim, digamos, diametralmente oposto ao de São Paulo. É normal esperar bastante pela comida, fato agravado pela lotação da cidade no feriado. Isso porque as refeições são literalmente fresquinhas – ao ponto de, em Mariana, termos pedido couve e a dona do restaurante dizer: “peraí que eu vou ali na horta pegar”, passando por nós toda serelepe, com um punhado de folhas recém-colhidas na mão, minutos depois. No circuito histórico, sinalização de lombadas é uma coisa que, como diria nosso caro Quevedo, no equi-siste. Pobre da moringa comprada em Tiradentes, que agüentou firme e forte todos os trancos levados no porta-mala por conta disso. Em compensação, coisas estranhíssimas tomam lugar nessas cidades, como um motel chamado “Ô CQSAB” (levei alguns minutos para entender que não era uma sigla) e um candidato a vereador conhecido por “Zé Ruela” (será que lá a expressão tem o mesmo sentido que aqui?). Mas no quesito “acontecimentos bizarros”, fora o encontro com a família completa da Mirtes (ocasião com tanto assunto que fica para outro dia, se assim vocês quiserem), o campeão foi o relacionado a um padre de nome estranhíssimo. Na maratona de visitas às igrejas, topamos com uma onde se realizava um casamento. A noiva estava bem à porta, esperando para fazer sua entrada triunfal. Namorido e eu ficamos, portanto, esperando ali fora. Depois que a moçoila adentrou, corri para dar uma espiadela no templo. Eis que, então, um senhor se aproxima do meu digníssimo (que estava trajado como um típico turista, com câmera na mão e tudo), olha para o padre (visível lá longe, no altar, pela porta ainda aberta), e saca da pergunta: “Viu... esse aí é o padre Marreco?” Num átimo, o rapaz para quem eu disse sim calculou os riscos, não quis desapontar o velhinho e decidiu-se pela resposta: Valha-me deus! Crescer é mesmo uma pena, né? Já não é aceito fazer beicinho, andar vestido com bermuda e camiseta de desenho animado, tomar sorvete babando até os cotovelos. Por outro lado, crescer tem vantagens. Algumas situações adquirem novas perspectivas, fazendo o medo, por exemplo, dar um tempo na nossa vidinha. Eu era uma criança apavorada e chorona. Um susto bastava pra me fazer abrir o berreiro. Exemplo: uma vez, estava vendo tv deitada no chão da sala quando o papai chegou com uma travessa. Mandou eu olhar. "Não é lega!?", ele disse. Levante e espiei por cima do pratão – para encontrar, ali, um peixe imenso, vermelho, com as entranhas de fora e olhos brilhantes paralisados. Tiveram que me dar água com açúcar pra cessar a histeria? Oh, yes… Isso me deu o medão danado por causa, simplesmente, da encarada no bicho morto. Outras imagens faziam a mesma coisa, mas delas eu fugi por muito tempo, até ganhar um pouco mais idade. Eis os meus maiores motivos de pânico infantil. A máquina Zoltar Os bandeirantes O Zé do Caixão mostrando a manicure Aliens do tipo grey Todos os integrantes do Kiss
Levem esse make-up daqui, diabos! Reflexões com a boca aberta Meus dentes sempre me incomodaram. Diz minha mãe que, quando os primeiros começaram a apontar na minha gengiva banguela, eu virei um bebê insuportável: chorava o tempo inteiro, babava e mordia até a perna da mesa para tentar aliviar o incômodo. Depois, quando uma linda arcada de perfeitos e branquinhos dentes de leite se formou, eles começaram a cair, um por um, de forma desesperadora. Tenho arrepios até hoje de lembrar a sensação de dente mole e do gosto de sangue que ficava após a queda. No lugar, novos dentes vieram. Mas nem de longe tinham a aparência delicada daqueles que se foram. Os permanentes eram grandes para uma figura tão mirrada como eu aos 10 anos de idade. Outro problema chato é que um dente trouxe outro, que trouxe outro, que trouxe outro – e, no final, eu carregava mais exemplares do que minha pequena boca poderia suportar. Resultado? Os malandros se encavalaram aqui na frente. Por essas e por outras, tenho passado minha vida em consultórios odontológicos. Mesmo agora, com 27 primaveras no currículo, ainda bato cartão no dentista a cada 15 dias. Conheço muito bem o funcionamento daquelas salas imaculadas e da mente dos profissionais de avental e sorriso brancos. E, enquanto fico sentada na cadeira com a boca aberta, costumo ter reflexões bem profundas. Como, por exemplo... ... por que os dentes possuem terminações nervosas? ... por que não inventam uma televisão de teto? ... por que não fabricam uma broca silenciosa? ... por que a anestesia nunca pega quando precisa? ... por que dentistas chamam “dor” de “sensação”? ... por que eles fazem perguntas se não podemos responder? ... por que não saímos de lá com o sorriso da Ana Paula Arósio? ... por que não arrancar tudo e colocar uma linda dentadura? Eu – e meu aparelho – achamos que sim. Vivi Griswold às 09:21 AM
Eu tive medo de Ouro Preto Cheguei à cidade-histórica-e-patrimônio-da-humanidade depois de escurecer, em algum dia deste feriado prolongado – quando vocês viajam, não ficam uma percepção alterada do tempo e esquecem os dias em que cada coisa aconteceu? Pois eu fico. Mas enfim. Rodei de carro até achar a pousada, com o namorido ao volante. E eu tremendo de medo que El Comandante, nosso corajoso palio vermelho, saísse rolando ladeira abaixo, apesar da insistente argumentação do moçoilo dizendo que isso era impossível acontecer. Já instalados e exauridos pela viagem, deitamos para dormir. Tive pesadelos estranhíssimos – como em todos os dias da nossa jornada. Sonhei que um cavalo me mordia, que uma mulher devorava bebês e com um pai que tinha matado o próprio filho. No dia seguinte, acordei e fiquei olhando para a janela fechada, pensando que ali do outro lado estava uma cidade tão velha que minha parca noção de tempo era incapaz de mensurar. Daí o medo. Esse meu primeiro impulso matinal estava certo. Depois do lendário café da manhã mineiro, que nos hotéis é igual aos de novela (com pão, bolo, queijo, frutas e sucos), ganhamos a rua, as ladeiras, as praças, as calçadas e os casarões de Ouro Preto. E a cidade é deslumbrante, imponente, assustadora. Agora entendo porque o catolicismo ganhava tantos adeptos na era de ouro (literalmente) do lugar. A visão das igrejas é de tal impacto que eu também me converteria a qualquer coisa só para poder ficar ali dentro por alguns minutos. É impossível escrever sobre as pinturas, as esculturas, as imagens e a ostentação dos templos. Há que se ver. Assim como há que se ver, num país de memória curta como o nosso – até pelo pouco tempo de história registrada que conta este Brasil, em seus 504 aninhos, um cisco de tempo em termos históricos – como viviam as pessoas que se fixaram por entre as montanhas há quase 300 anos. A cidade é cheia de igrejas e de museus repletos de peças de arte sacra. Cheguei à conclusão de que esse povo amava uma igreja, viu? E amava ouro também. Quando as duas paixões se juntavam, geravam as obras que fizeram de Ouro Preto patrimônio dos homens e mulheres do mundo. O Museu da Inconfidência fica na praça principal, diante do ponto onde a cabeça de Tiradentes foi espetada. Cem anos depois, foi erguido ali um monumento à memória do alferes. Gozado como mudam de idéia rápido: numa época, enforcam e picotam o sujeito; em outra, ele é um herói. Dentro do tal museu, há restos da forca usada na execução do pobre. Passei mal. Também me senti estranha ao jantar em restaurantes instalados em porões onde outrora funcionaram senzalas. Primeiro, os escravos viveram, sofreram e planejaram fugas ali; depois, lá estou aplacando a fúria de Catarina, a lombriga, no mesmo lugar. Coisa de louco, na falta de palavras melhores. Não sei porque demorei tanto para conhecer Ouro Preto. Devia ser visita obrigatória para os brasileiros, feito ir à Meca para os muçulmanos. Não por questão de fé, mas porque ali sobrevive a memória, desafiando ladeiras e a passagem do tempo. E memória é artigo do qual estamos todos sempre precisados. Clara McFly às 07:25 PMO conto macabro do hambúrguer Tudo bem, eu sei que este texto está atrasado. Tem muitos dias que o filme chegou às telas – e mesmo antes, todo mundo já estava comentando sobre "Super Size Me". No embalo do falatório, fui me aboletar na poltrona do cinema para ver o tal cineasta americano Morgan Spurlock detonar o "abominável mundo do fast-food". Achei que podia ser divertido, um exagero para nos fazer acreditar que comer apenas cenoura é o mais saudável. Querem saber? Estou enojada até hoje. E olha: já tem quatro dias que fui conferir "A Dieta do Palhaço" – tradução do título no Brasil e uma das poucas na história a ficar melhor que o nome original. Durante a projeção, nem sei quantas vezes proferi a interjeição "credo!" e deixei o queixo cair. É possível ficar tão chocada só por ver alguém comer sanduíches? Agora eu acredito que é. O candidato a saco de lixo, Morgan, parecia mesmo um americano atípico. Enamorado por uma chef especializada em culinária vegetariana, ele era saudável, ingeria alimentos de forma balanceada e gastava a energia das vagens em caminhadas pela ilha de Manhattan. Até começar a rodar seu documentário. Em um mês, o sujeito virou um trapo. Claro que há exageros em "Super Size Me". O ponto central era ser exagerado, suponho. O diretor se dispôs a comer apenas McDonald’s durante 30 dias – no café da manhã, almoço e jantar. Até a água que Morgan bebia era feita lá nas catacumbas rubro-amarelas. Findo o mês, ele contabilizava 11 quilos a mais de barrigão, um fígado prestes a ir pro lixo, colesterol no pico. Segundo o McD’s, a teoria do cineasta é imbecil. Ninguém, em sã consciência, come na lanchonete tanto assim. Ademais, se ingerirmos somente um tipo de alimento por 30 dias, qualquer que seja ele, a saúde vai gritar mesmo. Tudo verdade. Mas o porta-voz da resposta não conta com um detalhe: poucos norte-americanos são donos de "sã consciência"… Muitos batem ponto sim, todo santo dia, em fast-food. Vendo aquilo, porém, não cheguei à conclusão de que Ronald McDonald é o capeta em forma de garoto-propaganda. A rede dos arcos dourados não é o besta do apocalipse no setor dos males alimentícios. O grande vilão, na verdade, é nosso próprio cérebro. Eu como porcaria de lanchonete, mais ou menos, uma vez por mês. Quando era criança, lembro de implorar de joelhos pro papai levar no Méqui, na Pizza Hut e nessas coisas todas. Poucas vezes ele caía na dramatização. Hoje, podendo ir com minhas própras pernas e carteira, já não vejo tanta graça. É caro. A fome volta logo. Eu detesto abrir sachês de catchup. Não tolero tomar banho de coca dentro do carro. Daí, o romantismo de apreciar um McChicken se esvai dia a dia. Penso assim porque botei a cachola para trabalhar. Se posso visitar um restaurante gostoso e variado com meu parco dinheirinho, evito gastar com sandubas de frango processado – estou horrorizada até hoje de saber que pés de galinhas e tudo o mais compõe aquela massa do nugget, éca! É gostoso ir lá encher a cara de gordura às vezes? É. Mas não precisamos cultivar como hábito. Isso não quer dizer que sejamos otários por, vez por outra, ir beliscar um hambúrguer suculento (isso quando eles deixam ficar suculento, e não como uma sola de kichute). Ou batatas fritas e salgadinhas, que essa escriba aqui tanto ama. Ou um milk-shake, ou uma pizza de massa grossa. Usar a cabeça e dosar parece ser a escolha inteligente – e foi isso que entendi vendo Morgan Spurlock se acabar em refeições "super size", com lanches gigantes e coca-cola suficiente para encher o tanque do meu carro. Ninguém será tão mais saudável e feliz, eu acho, se roer somente cenouras! Mas também não precisamos devorar pés de galinha, vá? Blérgh…
Este acima é o palhaço... e sua pesquisa Escolha um lado Primeiro, foi a vez de Jason Voorhees e Freddy Krueger colocarem machados e garras a postos e se enfrentarem cara a cara... pelo menos na telona. O resultado seria cômico se não fosse trágico – ali estavam dois dos meus maiores medos infantis sendo avacalhados em um filme safado. Quando achamos que a óbvia idéia de jerico tinha passado, eis que o cinema nos brinda com mais um embate peso-pesado: Alien versus Predador. Novamente, o filme é risível. Como eu sei? Ora, já não disse que caio em todas? Vai ver é por isso que os produtores de Hollywood devem estar achando que encontraram uma mina de ouro com essa história dos encontros cinematográficos. Sempre vai ter quem pague um ingresso para assistir à produção – ainda que o intuito seja apontar erros, dar risada e falar mal na saída. Por isso, o Ni Enterprises vai dar algumas idéias de embates futuros. Não faz mal que sejam ruins, bastam dividir os royalties com a gente. Frodo versus Neo E.T. versus Sloth Cole Sear versus Danny Torrance Yoda versus Miyagi James Bond versus Indiana Jones Gasparzinho versus Sam Wheat Lassie versus Benji ![]() Breve, em um cinema perto de você
Home alone Tragam pinças, plasma e um desfibrilador urgente!!! Bom, também não é pra tanto... Clarissa está doente desde o início da semana e hoje não colocará texto no ar, amigos. Sabemos que a loira já gozou férias semanas atrás e não teria direito a outro recesso. Ei, mas isso aqui não é repartição! Quando uma Garota que Diz Ni fica podrinha de saúde, ela pode SIM retirar o time de campo. Duro é ficar aqui sozinha, sem Vivi (de férias) e sem Clarita (de molho)... Mas pensei em algo para nos alegrar. Que tal uma fast-lista? Já senti isso quando era criança. Ficar sozinha em casa era ruim, porque não tinha com quem conversar e interagir, mas também era ótimo, porque me tornava a Rainha do Castelo. O que eu vou fazer aproveitando o site vazio? Pela ordem: 10. Pintar as paredes com canetinha 9. Comer um prato cheio de Farinha Láctea com leite (e repetir) 8. Assistir televisão bem de perto, pra doer "a vista" mesmo 7. Passar trote telefônico usando o velho "tem um Fusca gelo aí na sua porta?" 6. Usar toda a maquiagem de Vivi e provar todos os sapatos da Clarinha 5. Tomar banho por 50 minutos - 10 destinados à limpeza, 40 aos desenhos no box embaçado 4. Cantar "Girls Just Wanna Have Fun" no espelho usando a colher de pau como microfone 3. Fuçar nos armários e procurar meus presentes de Dia das Crianças 2. Ver filme de terror trash na madrugada e dormir apavorada 1. Chorar de saudades das duas companheiras que me largaram aqui... Chuinf... Ainda bem que, depois do feriado de 7 de setembro, voltamos todas ao ritmo normal. Prometido! Querem nos enganar, meninas! Quando vislumbro um traço da realidade, os ossos endurecem e um frio incandescente corre pela espinha. Ontem isso aconteceu: tive uma revelação em pleno consultório médico. Credo, não é nada disso que vocês pensaram! Ainda estava na sala de espera quando ocorreu. Foi assim: cheguei, entreguei a carteirinha do plano de saúde à secretária emburrada, bebi um trago d’água e me aboletei na cadeira de couro falso. Sem mais o que fazer, apanhei uma revista. E foi então que tudo fez sentido. Não nego que me senti a mais esperta das garotas por finalmente ter descoberto o segredo centenário. Provavelmente, só Lord Carnavon teve a mesma sensação, no dia em que espalhou areia egípcia pra lá e pra cá e descobriu Tutancamôn deitado na tumba. Eu tive a revelação! Juntei A com B, fiz a média e vi a verdade. Descobri a sórdida tática das revistas femininas. Vou me recusar a dizer o nome da tal publicação (mas basta explicar que nada do que está escrito ali é notícia “NOVA”). O fato é que os editores do negócio jogam sujo, mas aqui existe quem não caia na armadilha deles. Explico a todos vocês agora – principalmente às meninas –, e assim podemos nos rebelar. Coloquei a revista puída pelo uso no colo e comecei a folhear. Era velha, já tinha pra lá de oito meses. Na capa, manchete sobre o reveillon, o verão e a papagaiada de sempre – “1.237 biquínis para arrasar na praia”, “saiba o que 2004 reserva para o seu signo”, “deixe de ser trouxa e pare de perder tempo com essa brochura boboca”. Tá bom, isso não estava escrito lá... Mas bem poderia. Ninguém parece ler direito as entrelinhas do que elas dizem! Então, como dizia, parti para a viração de páginas. Batom, bolsa, sapato, homens, sapato, bolsa, batom. Até que encontrei uma matéria. Tinha no título algo interessante como “Você é feliz”. Achei curioso e continuei a ler. A pauta versava sobre mulheres solteiras e como essa condição pode ser boa. Soltei um “UAU!” de espanto e a moça sentada ao lado puxou rápido sua pasta de documentos. Expliquei que não era doida, que a revista é que contava, finalmente, com uma reportagem interessante e digna para elevar o moral. Hum... não era bem assim. Eram 11 itens dizendo por que ser solteira era bom, e não um carma. Alguns itens dos quais me lembro: “você pode sair com quantos homens quiser”; “você pode encher a cara sem dar satisfações”; “você pode comprar algo supérfluo”; “você deve conhecer gente que não tenha nada a ver contigo”. Perceberam? Olha, eu posso ser paranóica, mas o que vi na matéria foi uma jogada abominável. Com esse tipo de conselho, a moça NUNCA vai arrumar um namorado. Vai nas festas e se portará como uma vadia, dando bola para vários caras nada-a-ver. Vai se embriagar e causar asco na maioria dos nada-a-ver. Vai se render a comprar produtos idiotas, ficar sem grana e nunca usar o suado dinheirinho para coisas realmente valiosas, como viajar ou fazer um curso. Vai achar que precisa conhecer gente com idéias contrárias às suas e passar anos e anos perdendo tempo com amigos meia-boca. Nunca vai arrumar um parceiro doce e gentil, uma turma bacana e divertida, um objetivo interessante na vida. E continuará comprando a pérfida revista achando que adquiriu um oráculo capaz de resolver problemas! É um ciclo doente. Elas dão dicas rasas feito o pires de leite do gato da Vivi. Torcem a vida das moças e as fazem ficar dependentes de seus conselhos tortos. Com isso, nunca deixam de vender revista. Claro, é o crime perfeito! Soltar reportagens que digam coisas boas e saudáveis, que ensinem as mulheres a serem seguras e felizes... não, isso faz perder leitoras... Meninas contentes da vida não precisam comprar publicações de preço alto e juízo duvidoso, certo? No restante da revista, tudo pareceu fundamentar minha teoria psicótica. Eram editoriais de moda com garotas aparentando doença ou usando roupas (caríssimas) de quenga. As matérias sobre profissão ensinavam a ser uma verdadeira mala no escritório. Até a enquête era apelativa: “se a família parece não gostar do seu namorado, com qual você passa o Natal?”. Criar intriga por meio de páginas de papel é novidade pra mim... E tudo seguiu conspirando para criar mulheres irritadas e insatisfeitas. Bom, agora que sei o segredo, tive mais certeza ainda de que não vale a pena gastar moedas na banca de jornal com esse martírio. Na verdade, nem valeria ler as barbaridades no consultório médico... Mas é dessa pesquisa que vêm os vislumbres e segredos sobre a realidade.
Pare de fazer sentido... ... e veja o inferno congelar Eu não sei porque as bandas têm tanto esmero (ou não) com a denominação de seus discos. Acho que a maioria do povo só presta atenção no nome da banda ou do cantô e na graça da canção favorita, para poder ligar na rádio e pedir. Pensando melhor, até entendo. Eu adoro reparar nos chamamentos dos álbuns e, se tivesse uma banda, provavelmente passaria mais tempo pensando no título do “novo trabalho” (que eu evitaria de chamar de “novo trabalho”) que nas faixas em si. A bem da verdade, tenho uma microlista de favoritos. Como toda boa lista, essa pode ser mudada da noite para o dia, sem aviso. Basta que eu me lembre de outro nome de álbum genial ou conheça alguns que ainda não ouvi. Mas antes de entrar nos bacanas, um porém – e, como dizia Plínio Marcos, sempre há um porém: em compensação a tantos nomes criativos, inspiradores, poéticos ou engraçados, ao pesquisar para essa lista descobri que (quase) todo artista já cometeu o preguiçoso ato de chamar um álbum com o mesmo nome da banda. Do Cars aos Beatles (o nome oficial do álbum branco era... The Beatles), do Metallica ao Eagles. Isso sem falar nos malucos do Led Zeppelin, que deviam estar tão chapados na hora de intitular os quatro primeiros álbuns que resolveram deixar... Led Zeppelin I, II, III e IV, mesmo! Bem, isto posto, preparem a vitrolinha e, depois da leitura, juntem-se a mim contando lá no Fórum quais são os preferidos de vocês. Se eu tiver me esquecido de muitos, quem sabe não sai outro texto serelepe daí? It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back, Public Enemy It’s Alive!, Ramones Stop Making Sense, Talking Heads Smells Like a Tenda Spírita, Gangrena Gasosa O Sorriso do Gato de Alice, Gal Costa Everybody Else Is Doing It, So Why Can’t We?, Cranberries Hell Freezes Over, Eagles ![]() “Se vocês não abrirem as carteiras, a gente vai cantar Hotel California de novo!”
Limpeza em campanha Está se tornando difícil fazer uma das coisas que mais gosto na vida: olhar o céu. A poluição atrapalha, deixando o firmamento mais cinza, sem-graça e fora de moda. Os fios elétricos viraram praga – e hoje meu bairro parece uma região dada a ligações clandestinas. Nesta época do ano, em especial, outro problema vem incomodar a romântica atividade de fitar as nuvens e aquele mundão azul: campanha eleitoral. Os políticos já empesteiam a cidade mais que os gases tóxicos. Os outdoors são feiosos, mas têm sem lugar demarcado, então passa. Na tv, as propagandas são chatas e repetitivas, mas assiste quem quer. Duro de aturar são os outros meios de incutir no povo o número de votação. Faixas. Cartazes colantes. Muros pintados. Santinhos de papel. Eu poderia fazer, com toda essa tralha, uma grande fogueira capaz de assar dois bilhões de salsichas. As malditas faixas são a praga pior e mais difundida hoje em dia. Trata-se de um teco de plástico de 50 cm por 50 cm fixado com grampos em duas ripas. No alto, fios prendem a bizarrice nos postes do município todo. Quem foi o brilhante designer do aparato, desconheço – mas é um sujeito burro pacas. Com três dias de vento, o plástico solta das madeirinhas e cai no chão, impedindo o curso d’água na sarjeta ou atolando bueiros. No poste, sobram as ripas, aquela coisa porca de se ver. Tem propaganda mais imbecil? Não devíamos votar em quem usa uma lógica tão tapada. Gente assim certamente fará pontes com palitos de sorvete. Nos muros, vê-se quase a mesma tática ruim. O candidato compra o espaço, pinta 50 metros de parede de branco e lá escreve seu nome e número eleitoral. Puxa, quanta imaginação! Todos nós somos tontos o bastante para pensar mesmo “uau, ele pode pagar por esse tantão de muro e ainda rabiscar seu próprio nome em letra tamanho gigante! Será um baita vereador!”. Sério: não seria melhor idéia gastar mais algum dinheiro e contratar um bom grafiteiro? Esses artistas podem fazer desenhos lindos e divertidos sobre, por exemplo, a plataforma eleitoral do aspirante ao cargo. E depois que o pleito passar, não sobrará na cidade um muro besta dizendo “Helinho do Lava-Rápido – 14.600”, mas uma imagem interessante. Levei quase 30 segundos para pensar na alternativa, não é possível que seja algo tão difícil imaginar. O caso, porém, é que criatividade não faz parte do currículo dos candidatos. Fico pensando: em vez de produzir aquele sem-número de cartazes e colá-los porcamente em cada centímetro quadrado do país, não seria mais negócio patrocinar uma boa causa? Raciocinemos: mendigos são andarilhos bacanas que não incomodam ninguém e precisam de muita ajuda. Por que os candidatos não mandam fazer cobertores com suas caretas, nome e número e dão aos caras? Eles andam pela cidade toda, podem ser verdadeiros cabos eleitorais! Além disso, quem se dispõe a aquecer outro ser humano ganha a simpatia os eleitores – a minha, ganha. Outra, outra: catadores de papéis são homens hilários que cantam enquanto trabalham e decoram suas carrocinhas com a maior animação (outro dia vi um com uma Daniele Winits de papelão encaixada no carrinho... Jurei que ele estava carregando a própria...). Os candidatos poderiam contratá-los para cantar seus jingles e decorar os carrinhos com material de campanha. Taí uma verba bem gasta! Sei que é impossível isso tudo acontecer pra já. Gente que concorre a cargo público não gosta de arriscar, não quer mostrar que pode fazer diferente. Acham que, assim, terão pedras jogadas em seus frágeis telhados de vidro, e então podem perder a fatídica eleição e ficar sem emprego por quatro longos anos. É mais provável que continuemos vendo, por anos a fio, mais e mais faixinhas plásticas enfearem e emporcalharem nossas cidades, agregando valor nenhum. Bom é que podemos pensar nisso e evitar votar nos bocós usuários desse esquema de campanha falido e retrógrado. Se algum candidato vai surpreender e botar a cachola para funcionar, criando formas de não detonar nosso ambiente, é esperar para ver – e aplaudir. Eu vou pedir isso aos céus! Assim que conseguir vê-lo de novo...
Ainda não... Incrível como a gente vive tanta experiência diferente em parcos 26 anos. Eu já sustento minha casa. Já viajei de avião. Já dancei forró do tradicionalíssimo, numa fazenda sem energia elétrica, até o amanhecer. Já enterrei pessoas queridas. Já tive caxumba, catapora e coqueluche. Já almocei com o Mario Prata. Já andei de barco a remo e pulei de cama elástica. Já tomei um porre homérico. Já virei a noite conversando e ouvindo música e já peguei carona com desconhecidos. Mas mais incrível ainda é como a gente pode passar uma vida toda sem ter feito certas coisas. Entenda-se pelo “uma vida toda” aí de cima meus dias sobre a Terra até agora. Digamos que a vida siga seu curso natural e eu tope com a Indesejada lá pelos 80 ou 90 anos. Assim sendo, eu ainda não teria vivido sequer um terço do tempo reservado para mim aqui. Logo, a possibilidade de fazer coisas novinhas em folha e singrar por mares nunca dantes navegados é enorme – ainda bem. E entenda pelo “certas coisas” do primeiro parágrafo a lista que desfio a seguir. Vivi já fez a dela aqui e bem observou que “nunca” é palavra das mais perigosas. Por isso, a ruiva ficou especialmente nas memórias de infância. Bem, talvez num dia futuro, mas até hoje eu nunca... ... desmaiei ... repeti de ano ... fiz cursinho ... comi camarão ... assisti “A Lista de Schindler” ![]() Qualquer dia a gente se vê, sêo Schindler… Devemos, não negamos; respondemos quando pudermos! É, nossa caixa de mensagens está lotada. É, estivemos ocupadíssimas (ou de férias, o que é o oposto, mas tão importante quanto) esses dias. É, os e-mails (para nossa alegria) não param de chegar – e já batem os 164. Pedimos desculpas pelo atraso, avisamos que, embora sem tempo para responder, lemos todos eles e reiteramos: a gente tarda, mas não falha. Como diria sêo Silvio, aguardemmmm. ![]()
Românticos de raiz É gozado observar como certas opiniões dominam mentes sem serem realmente processadas. Um inventa a idéia, repassa, o outro absorve e nem contesta. Na música, por exemplo. Um dia inventaram que canção sertaneja não era mais um relato sobre a vida simples do homem do campo. Os cantores apertaram a calça de couro até virar adesivo, subiram em botas com salto, soltaram gritinhos desafinados e, num passe de mágica, viraram “românticos”. Os roqueiros? Esses sempre foram os porcos sujos do meio musical. Mesmo falando de um lindo amor. Não faz muito tempo que comecei a ouvir Ramones com freqüência. Eu conhecia de “ouvir falar” – mas não comprava discos dos cabeludos. Eles cantavam sobre cemitérios, faz favor... Nossa, quanta perda de tempo foi esse pensamento! Há uns meses, ganhei um CD com 25 músicas dos rapazes americanos. Posso dizer, agora, que esses sim falam ao coração. Zezé di Camargo e seu irmão bochechudo, Chitãozinho e o parceiro... todos podem esganiçar o gogó à vontade – a mim, não enganam. Como todas as duplas sertanejas mais recentes, fazem pose de conquistadores e são tratados como arautos da conquista afetiva. Esmiuçando as letras, eles falam mesmo é de sacanagem. De baile onde há um tal de “mexe-mexe” e sobre “fios de cabelos grudados no suor”. Argh! Muita informação, vai? Ainda assim, levaram a tarja de cantar sobre romance. Tudo isso acontece enquanto Joey Ramone e seu bando falam há tempos que “she’s a sensation”, “I tell you I love you” e “I met her at the Burger King/ We fell in love by the soda machine”... No fim das contas, imagem é mesmo tudo. Se sua banda usa guitarras e bateria feroz, é “pauleira”. Se o grupo é formado por dois sujeitos com penteado escovinha, corrente dourada no pescoço, camisa e cinto, só pode ser “romântico”. Mesmo que diga coisas como “entre tapas e beijos/ É ódio, é desejo, é sonho, é ternura/ Um casal que se ama até mesmo na cama provoca loucuras”. Tem áudio-pornô de qualidade mais safada? Ninguém ouve de fato a cantoria para decidir quem são os defensores do amor pleno. De todas as músicas que conheço do Ramones, 80% fala sobre a garota amada ou rock. É tão adolescente e tão adorável que hoje já imagino: a gangue devia dormir com pijama do Homem-Aranha e brincar de Gato Mia nos quartos de hotel. Se você conhece alguém que detesta roqueiros porque eles não são limpinhos e amorosos, mostre este trecho de letra: “Hey little girl, I wanna be your boyfriend/ Sweet little girl, I wanna be your boyfriend/ Do you love me babe? What do you say?”. Abra os horizontes da sua cobaia. Diga a ela que não se trata de uma música entoada por Rick Martin. Não, também não é Frank Sinatra. Tampouco é Fábio Jr. cantando no idioma bretão. É Ramones! Não é que caras desalinhados gostam de pedir meninas em namoro? Surpresa total, quase um choque. Tudo bem: em algum momento tanto os Ramones quanto outros roqueiros dizem que querem ser intoxicados, que chutam esse ou aquele traseiro e coisas assim. Santos não são, eu compreendo. Mas os brutos também amam, como insinuava aquela novela ruim. E como amam... Ainda que cantem isso por trás de uma jaqueta puída, e não de um jeans colado no corpo.
Com estes eu iria até ao Pet Cemetery...
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