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Tristeza do jeca Música sertaneja é mesmo um sofrimento. E não estou falando no sentido figurado, querendo dizer que o gênero hoje dominado pelas duplas de nomes bizarros não presta para nada a não ser afogar mágoas com pouca classe, além de atormentar as pessoas que consideram o estilo um pé bem dado no meio dos bagos. Vamos voltar no tempo e pensar nas origens do cancionato desse Brasil véio sem porteira. Se as composições são mesmo inspiradas pela realidade do compositor, a vida desse povo era das mais trágicas. Afinal, a realidade expressa nas letras sertanejas mais antigas, na era pré-duplas com mullet, é triste para diabo e vai de bois sacrificados ao abandono romântico – mas com muito mais poesia e originalidade do que suas sucessoras. Não espalhem, mas todas essas canções listadas aí debaixo cortaram meu coração – não só quando eu as ouvia de pequena, empoleirada no sofá da casa da minha avó, como ainda hoje, quando me deparo com elas sem querer. As cinco mais lindamente tristes – e mais eficientes em me fazer abrir o berreiro (ou enxugar discretamente uma lagriminha, se estiver em público) – estão aí. 5. Chico Mineiro, Tonico e Tinoco A hora do lencinho: “Fui saber que o Chico Mineiro era meu legítimo irmão”, conclui o infeliz na estrofe final. 4. Menino da Porteira, Sérgio Reis A hora do lencinho: “Quem matou o meu filhinho foi um boi sem coração”, diz a mulher ao boiadeiro, que jura nunca mais tocar o berrante por aquelas bandas. 3. Romaria, Renato Teixeira A hora do lencinho: “Ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida”, implora o homem a Nossa Senhora. 2. Seu Amor Ainda É Tudo, João Mineiro e Marciano A hora do lencinho: “Daquele maldito momento, até hoje, só você”, enfatiza o pobre o quanto tem pensado na donzela. 1. Travessia do Araguaia, Tião Carreiro e Pardinho A hora do lencinho: “Era um boi de aspa grande já roído pelos anos/ O coitado não sabia do seu destino tirano/ Sangrando por ferroadas no Araguaia foi entrando/ As piranhas vieram loucas e o boi foram devorando”. Precisava detalhar tudo, pôxa?
Uma ode a Morfeu Muita gente diz, principalmente os mais velhos, que “deus ajuda quem cedo madruga”. Pois eu devo estar bem mal na fita do senhor... Tenho horror mortal de levantar da cama quentinha antes do sol estar já um tanto alto. Mas esse, sinceramente, não é um traço de personalidade que eu considere defeito. Parece muito mais natural acreditar que as regras do jogo é que estão erradas. Deus ajuda quem cedo madruga? Pois o vizinho de uma amiga minha não acha. Ele acordou cedinho um dia desses e foi conferir se o jornal já estava postado na frente de casa. Saiu pela porta, com sua xícara de café pelando, no mesmo segundo em que o entregador arremessou o periódico – que atingiu a caneca de líquido fumegante, que atingiu o bilau do vizinho da minha amiga. Com o pobre peru chamuscado, o sujeito prometeu nunca mais acordar antes das 10h00. Tá bem, tá bem... É tudo mentira... Esse senhor e sua história triste não existem de fato. Mas bem que poderiam! O episódio é perfeitamente crível – e, se pensarmos bem, veremos que levantar do leito com as galinhas não tem lá muitas vantagens. Os madrugadores defendem que, assim, o dia pode ser melhor aproveitado. Não cola: em vez de acordar às 7h00 e dormir às 22h00, podemos usar o turno das 10h00 às 1h00, e dá tudo no mesmo. Optando por essa troca de horários, ganhamos bastante. Senão, vejamos: a) os programas da madrugada são mais legais que os da manhã; b) o pulso telefônico noturno é mais barato que o matutino; c) há mais silêncio para ler, ver filme ou trabalhar à 1h00 do que às 8h00 (quando a obra aqui ao lado de casa, por exemplo, começa a Sinfonia dos Infernos). E esses são apenas motivos imaginados de bate-pronto. Posso inventar milhares de outros nessa minha cabeça sonolenta! Meu pai é um dos humanos que não entende a teoria. Homem trabalhador que sempre foi, ele acostumou a acordar ainda na escuridão e ir dormir nos meados da novela das oito. Isso é o que 33 anos de emprego em indústria podem fazer com uma pessoa. Como ele consegue, não compreendo: para mim, abrir os olhos e ver que o dia não clareou ainda só suscita a manobra de virar para o lado, puxar a coberta e apagar por mais dois pares de horas. Já precisei levantar antes do raiar do dia, por isso sei como é horrível – e, pelo menos para mim, até hoje, impossível de acostumar. Na minha lista de “Motivos para Desenvolver Depressão Mórbida”, acordar às 6h00 da manhã está na primeira colocação. É revoltante sair do pijama naquele frio da madrugada, por exemplo. Nos tempos de escola, era a morte. Outro dia li que obrigar adolescentes a entrar no colégio às 7h00 era uma crueldade. Segundo os médicos, o organismo dos jovens precisa de muito sono e não funciona bem logo cedo. Então, finalmente entendi porque dormi em TODAS as aulas de física do terceiro colegial! É contra a natureza fazer criaturas de 16 anos acordarem às 6h00 (ou até antes) para ter aula logo em seguida. Algum deputado pode fazer o favor de defender a molecada no congresso e mudar o período de estudo para das 9h30 às 13h30? Talvez tudo isso pareça apenas um grande atestado de preguiça para a maioria. Tudo bem, eu sou mesmo fã demais dos braços de Morfeu, o deus do sono. Pode ser, mas não me arrependo disso quando estou entre os lençóis e edredons e travesseiros, embalada pelo soninho gostoso. E se deus for mesmo contra a opinião de Morfeu e decidir não me ajudar por causa disso... Bom, eu tentarei convencê-lo a fazer isso um bocado mais tarde. Para brincar e passar medo Eu sempre achei bonecas de porcelana assustadoras. Aquela face lívida, aqueles trajes rendados cheios de babados e aquele ar de antigamente me faziam pensar em um defuntinho. Todos os exemplares que eu ganhei na minha vida foram passados adiante na mesma hora – jamais ficaria tranqüila em dividir meu quarto com tamanha assombração inanimada, quiçá com uma coleção delas! Mas não apenas de bonecas genéricas vivia meu medo infantil por brinquedos. O pior deles, como já narrei aqui, foi um pequeno E.T. da Groll que mamãe me deu para tentar “afastar” o pavor que eu tinha daquele alienígena pescoçudo, enrugado e com voz de Dercy Gonçalves. Claro que o boneco só ajudou no trauma, principalmente porque ele ficava me olhando de cima da cômoda. É por isso que tenho uma certa tendência a acreditar que os fabricantes da indústria de brinquedos gostam mesmo é de pregar peças mórbidas nos pequenos. Assim, acabam por empurrar itens que mais assustam do que divertem. Claro que há gosto para tudo. Mas eu não teria bons sonhos ao lado de algum desses bonecos aí embaixo... Fofão Gui-Gui Late Lulu Recém-Nascido Senninha Sandy Fashion Furby ![]() Quer brincar?
Eu era uma criança multimídia Uma das inúmeras vantagens da idade pueril é ter tudo que você faz aplaudido pelos avós, pais, tios e agregados orgulhosos – exceto, é claro, mancadas como trancar seu irmão num baú ou se comportar mal na frente das visitas, essas entidades místicas a quem o melhor da casa era sempre oferecido. Todos esses aplausos irrestritos me levaram a alçar vôos cada vez maiores (leia-se: pagar cada vez mais micos) nas minhas, digamos, experiências midiáticas. Depois de recordar outro dia as tradicionais brincadeiras de rua aqui e aqui, pus-me a pensar no que mais me distraía na infância. Entre algumas atividades não exatamente folclóricas, mas também não muito particulares, lembrei-me das aventuras de escritório, navio e outras bobagens. Foi exatamente aí no “outras bobagens” que recordei da imensa graça que eu via em fazer livrinhos. E revistas. E programas de rádio. E reportagens de TV. E peças teatrais. Ufa! Se essa fase da vida contasse no currículo, eu poderia dizer que sou uma profissional com vasta experiência multimídia. Desenvolvida na infância, claro. Aliás, por isso mesmo, minha vivência com tais veículos foi muito mais divertida – sem as necessidades de explicação do “conceito” da obra (tem coisa mais chata que obra explicada?) nem pressões sobre a “receptividade da crítica” (tem: crítica) ou a viabilidade comercial do projeto (ah, sim: pior que “crítica” e “conceito”, só mesmo os “negócios”). E hoje, no meu currículo, eu poderia registrar... Experiência em ilustração e edição de livros Eu fazia todas as histórias em folhas de sulfite dobradas ao meio (o que já dava uma brochura satisfatória para meus padrões) ou em folhas de linguagem, aquelas furadinhas, presas depois com uma bailarina (esse era, basicamente, meu trabalho de edição). Também ilustrava tudo com minha inseparável caixa de lápis de 36 cores – o verde-água e o rosa-choque, meus favoritos, eram sempre os primeiros a virar toquinhos. Só não me perguntem de onde eu saquei o nome do protagonista. Experiência em redação e edição de revistas e jornais Minha irmã, minha prima e eu tivemos a fase do desenho de moda. Vivíamos inventando modelos com roupinhas diversas. Começamos a nos especializar e produzir roupas de várias categorias, como “moda praia”, “moda festa” e “moda infantil”. Depois, desenhávamos uma capa, juntávamos tudo com grampeador e, voilà!, aí estava a “Gut!”, nossa publicação de moda (mais uma vez, não me perguntem porque esse nome). Que Vogue, que nada! Outra aventura foi o Jornal de Casa, periódico que eu fazia com o requinte de escrever e desenhar sobre um carbono preto, para parecer um jornal de verdade. O conteúdo era basicamente notícias do meu lar-doce-lar, como “Festa de aniversário do João termina com duas crianças arranhadas. Veja a lista de presentes”. Experiência em rádio Quando meu pai chegou em casa com um rádio gravador capaz de captar nossa voz sem usar microfone, já fiquei de pestana comprida para a novidade. Não demorou muito para que eu me apossasse do eletroeletrônico paraguaio e começasse a gravar imitações, piadas e karaokês. Bastou o trio que produzia a “Gut!” pilhar-se numa desocupada tarde de sábado em poder do rádio e pronto! Saiu um programa com entrevistas, músicas e quadros cômicos. Bem, pelo menos nós achávamos hilariante uma mulher chamada Claudia Peixe telefonar e pedir a canção “Borbulhas de Amor”. Ok, não é engraçado. Mas na época, pareceu. Experiência em TV De novo, tudo começou com uma nova aquisição do meu pai: uma câmera filmadora. Tive de esperar um pouco até que minha mãe me deixasse mexer naquela verdadeira geringonça, último modelo da época. Quando tive peso e coordenação suficiente e cartão verde para manuseá-la, pronto! Filmamos uma reportagem dentro das casas em construção na minha rua, no estilo “Comando da Madrugada”. E inventamos um programa chamado “Rumble!”. Dessa vez, não me perguntem do que tratava a tal atração. Não tenho a menor idéia. Só sei que eu gostava de títulos com exclamação. Experiência em teatro Todo ano, minha mãe preparava uma apresentação para celebrar o Natal. Teve jogral e reencenações do nascimento de Cristo. Até que, em 1990, achamos por bem cuidarmos disso – e fizemos uma surpresa para os adultos. Bolamos o roteiro, ensaiamos a primaiada, confeccionamos os adereços. Tinha interação com a platéia, personagens que iam da então Ministra Zélia Cardoso ao Papai Noel, passando por Sebastian, o garoto-propaganda da C&A, e até um número musical no fim. Chique, não? Não. Era um samba do Natal doido, mesmo. Mas que foi divertido, ah, como foi! Clara McFly às 08:19 PMArqueologia ali na esquina Ultimamente, tenho a impressão de que preciso usar chapéu de feltro, roupas e botas resistentes, picareta e lupa para encarar... uma visita ao jornaleiro. Haja espírito aventureiro para encontrar, em meios aos periódicos, algo que valha a pena ler – e que valha, ao mesmo tempo, cerca de R$ 8. Felizmente, ainda há esperança para os exploradores de estantes de banca de jornal. Sendo uma moça, deveria usar o procedimento padrão e ir direto às revistas destinadas ao meu gênero. Mas com qual estômago? Não tenho intenção alguma de passar pela banca e pagar quase 10 mangos por um volume que fale sobre como agarrar homens, maquiagem, como prender homens, biquíni, como amordaçar homens, entrevista com o galã da novela, como achar homem parecido com galã de novela. Chato pacas, credo. Também já não acho graça nas revistas de variedades. A maioria descobriu que capa “vendedora” é aquela trazendo na manchete “maconha” ou “Jesus Cristo”. Um dia conseguirão, finalmente, unir ambos e cobrir os custos de edição do ano inteiro inventando que Jesus fumava o cigarrinho do capeta... Mas chega de tanta depressão e rancor. Existe, sim, possibilidade de fazer uma boa compra quando vou à banca localizada bem ali, no final do quarteirão. Na verdade, confesso: tenho medo que, por serem bacanas, espertas, inteligente e bem escritas, estas três revistas abaixo sumam logo do mercado. É um temor procedente. Revista legal costuma não ter anunciantes, porque o pessoal da publicidade prefere estampar suas marcas em uma edição com a Suzana Vieira recauchutada na capa. Torço para que não aconteça – e, enquanto isso, aproveito a chance de me divirtir bastante lendo esses tesouros escondidos entre estantes. Revista 10 Jornal da História Flashback Eles não servem pra mim Meninos são incríveis. Uma espécie de gente bem menos descomplicada que garotas. Talvez seja por isso que sempre me dei muito bem com eles. Tive (e tenho) bons amigos homens. Divertidos, engraçados, desencanados. Mas quando saímos do terreno “amizade”, a coisa se complica. Meu tipo de homem é um pouco raro de se encontrar – e você vai saber o motivo. Minhas restrições, algumas bem extremas, são facilmente esquecidas em uma roda de bar. Não me importo em ouvir um amigo narrar todos os lances do último jogo do Curingão, por exemplo. Mas não suportaria um namorado fazendo isso ao meu lado, com tantas outras coisas mais importantes para conversar ou fazer. Portanto, quero deixar bem claro que o texto de hoje não tem intenção alguma de ofender algum leitor aí do outro lado. Muito menos generalizar. Afinal, é bom lembrar de que o tal amor costuma chegar nos momentos mais inesperados... Metaleiros Futebol-maníacos Malufistas Sujinhos Mauricinhos Intolerantes Anti-bichos Fumantes Baladeiros Ah, antes que perguntem: sim, encontrei um garoto com bom gosto musical, que ignora futebol, que odeia o Maluf, que é cheiroso, trabalhador, inteligente, talentoso e educado com as pessoas, que é carinhoso com bichos, que não fuma e que gosta de curtir o sofá comigo. Aliás, o nosso sofá, né, Mr. Griswold? Vivi Griswold às 10:06 AM
Ela é muito liule É sabido pelos leitores mais assíduos desse sítio que eu adoro ter irmãos – um monte deles, aliás. Seja para irritá-los ou para falar coisas boas a respeito desses maletas que invadem nossa vida e nos acompanham pela vida toda, sem possibilidade de escolhermos... ou não. Dos meus quatro irmãos, dois meninos e duas meninas, uma eu escolhi. E depois de bem grandinha. A Rê tem um nome difícil de acertar de primeira: Regilaine. Não é Regiane, nem Regislaine. Junte a isso um segundo nome; ela, como eu, tem chamamento duplo – que vai permanecer devidamente secreto. Ela é a criatura mais fiel aos amigos que eu conheço. Também é sincera e muito sociável - o que a torna excelente companhia para qualquer parada, de um encontro de jipeiros a uma festa na casa dum diplomata italiano; de bate-e-voltas para a praia a corriqueiras compras no shopping. Acredite-me, ela já fez tudo isso. Como se não bastasse, a moça cozinha bem para caramba (prepara até brownies – e não daqueles de caixinha), dorme em qualquer superfície horizontal onde encostar, é distraída até dizer chega, acompanha novelas, entende o que eu quero dizer só pelo olhar e sempre me faz morrer de rir. Isso porque, entre outras cumplicidades de irmãs e bobeirinhas internas, a Rê tem um vocabulário muito próprio. E bota próprio nisso. Alguns dos termos são cunhados pelas amigas meio doidas que ela tem, mas ganham uma entonação e um sentido todo especial quando pronunciados pela bela – que aniversaria hoje. Portanto, preparem-se e me digam se vocês já viram alguém sacar de... Liule Oi! Funk loser Paspalho Meeeentira! Tum Eu não disse que ela é sincera e sociável? E que eu adoro essa menina, eu já disse? Pois então, fica dito. Feliz aniversário, liule!
Dobradinha de risadas Música sertaneja não é, nem de longe, a que eu mais gosto. Muita gente ainda defende aquela do estilo raiz, caipira mesmo, acompanhada de viola e sotaque. Tudo bem, essa até acho engraçadinha – mas daí a botar para rolar no som, não mesmo. Ainda assim, confesso nutrir uma grande curiosidade para com o meio. Já notaram o nome daquelas duplas? É riso pra mais de metro, sô! Comecei a perceber esse fenômeno por causa da minha vó. Para a Dona Ondina, era deus no céu, Jânio para prefeito e Sérgio Reis no toca-fitas. Ela adorava o estilo do homenzarrão cantar “Menino da Porteira”, por exemplo. Também ouvia muito a Inezita Barroso – e não perdia um “Som Brasil”, com o Rolando Boldrim sendo embalado pelo “Amanheceu/ Peguei a viola/ Botei na sacola/ E fuuui viajar”. Lá é que reparei, de primeira, nos nomes de duplas sertanejas. Tonico e Tinoco foram os pioneiros. Ainda atuavam no esquema mais simples, de cantar música com história bacana – e não aquela toada de corno feita hoje em dia – e combinar os apelidos pela letra inicial ou sonoridade. Ficava meigo, inocente, engraçado e bastante abobado. Só isso já garantia certo sucesso à dupla, porque essas são qualidades que o povo do campo reconhece. Logo depois vieram outros sujeitos ainda mais brincalhões. Onde já se viu, arrumar um parceiro de cantoria e se auto-intitular João Mineiro e Marciano?! O João, imagino de onde veio. Já o Marciano... Com aquela cara, não duvido que tenha fugido de alguma nave criada pelos homenzinhos verdes de além-espaço. Milionário e José Rico também entraram nessa seara. Provavelmente, queriam chamar o sucesso na marra, já agregando uns cifrões aos nomes. Até onde sei, ganharam mesmo um dinheirinho (bom, pelo menos deu para comprar o monte de cordões dourados que ambos carregavam no pescoço). Um deles partiu desta para uma melhor, mas a nomenclatura da dupla permanece comentada. Viu como deu certo? Nos tempos modernos, a criatividade para escolher os nomes anda rara. Leandro e Leonardo não pensaram mais que quatro segundos ao optar pelo seu. Fizeram até uma “escola do mal”, incentivando a criação de outros insossos Gian e Giovani, Marlon e Maicon... Credo, que chato! O que Pena Branca e Xavantinho diriam sobre isso? Chitãozinho e Xororó também não é nome dos mais inventivos, mas passa. Apelar aos pássaros ainda é melhor do que manipular o próprio chamamento e criar um Frankenstein auditivo como Zezé di Camargo e Luciano! “Di Camargo” por quê, hein? Foi uma tentativa de imitar o Da Vinci? Mas ele não nasceu em Camargo, que eu saiba, e sim em qualquer lugar próximo de Goiânia. Dentre os novatos, Rio Negro e Solimões só não podem ser acusados de cair na mesmice. Ir até a Amazônia buscar nomes de leitos d’água foi corajoso. Ainda mais para um moço que não deve ter mais que 1,50 m de altura! Será que ele é o potente Rio Negro ou o violento Solimões? E de onde teria vindo tanta mania de grandeza? Mas a melhor dupla, aquela que carrega consigo o mais espetacular nome dentre todos, é sem dúvida... Teodoro e Sampaio! Haja criatividade. Teodoro Sampaio, vejam só, foi um célebre engenheiro e explorador dos interiores do Brasil. Construiu hidrelétricas, mapeou regiões, descreveu até fauna e flora por esse mundo velho sem porteira. Daí, como marca na história, virou dupla sertaneja! Para mim, a escolha desse nome é um sintoma de bom humor. Por obra do acaso, pode ser que eles se chamem mesmo Teodoro e Sampaio, vai saber... Mas prefiro acreditar que os tios usaram a máxima de que “o sertanejo é, antes de tudo, um forte piadista”. Preciso começar a ouvir mais essa turma. Eles devem ter ótimas histórias a nos contar.
Não é mesmo 'tudo de bão'? Eu já usei Em todos estes anos nesta indústria vital, como diria Clark Griswold, eu aprendi que modismos são traiçoeiros. Acompanhá-los cegamente implica em um grande risco de arrependimentos futuros – principalmente se houver uma foto como testemunha cruel do seu passado. O problema é que cada um de nós caiu em pelo menos uma arapuca dessa estirpe. Eu já. Em várias. Quando se é criança e adolescente torna-se muito mais fácil aderir a um determinado estilo que todo mundo está usando. Na fase infantil, temos a desculpa de que não fazíamos a menor idéia do que é ou não é bonito. Na fase adolescente, bem, acabamos indo na onda de amigos só para nos camuflarmos na multidão e pertencermos a um grupinho específico. Pois agora só me resta arrumar tais justificativas esfarrapadas por ter usado 10 dos itens mais horrorosos que a moda já viu... 10) Batom paraguaio 24 horas 9) Vestido trapézio 8) Franja 7) Calça baggy 6) Tênis de couro branco 5) Camisa larga xadrez 4) Legging com minissaia 3) Cabelo repicado 2) Ombreiras 1) Sapatilha com solado de pino ![]() O horror, o horror
O livro da discórdia Brigas dramáticas, provocações irônicas, furtos sem razão aparente e distúrbios de toda sorte. É a trama da mais nova novela mexicana? Não, não: estou apenas falando do livro de reclamações do meu condomínio, por cujas páginas, repletas de intrigas, tive o prazer de passear no último sábado – quando fui registrar nos autos a visita do Mickey aqui no lar-doce-lar. Num micro-bairro com 160 casas, qual a chance de todos os moradores serem sensatos e tranqüilos? Menor do que a probabilidade da depilação com aquele creme estranho realmente funcionar. Eu já sabia disso antes de me mudar para cá – e tentei me preparar psicologicamente para minha primeira experiência em moradias mais ou menos coletivas, já que desde que me lembro sempre morei em casas com quintais próprios. Viver em sociedade é uma arte. Imagina viver em condomínio, espécie de sociedade disposta num terreno mais apertadinho. Só podia dar bobagens a rodo, mesmo. Como, por exemplo, o misterioso roubo das torneiras – um dos registros do tal livro, que fica na portaria à disposição dos moradores para reclamações, requisições, avisos (como o de que apareceu um roedor na sua casa) e pitacos na vida alheia (esse último item não estava propriamente entre as funções originais do caderno, aposto). Diz a nota que as torneiras do tanque e da pia da cozinha de duas casotas foram surrupiadas. Quem, por Deus, quereria afanar torneiras? E da pior qualidade, ainda por cima. Depois de ler tais parágrafos, estou sempre de olho nas minhas. Além disso, o bizarro fato fez o sumiço do garfo perder o posto de maior mistério aqui das redondezas. Mas ter sua torneira levada pelos amigos do alheio não é o pior que pode acontecer aos moradores desse condô. Vários outros registros no livro dão minuciosa conta de carros que estavam parados no estacionamento sem o devido crachá de autorização. Detalhe: nenhum dos reclamantes teve um desses veículos estranhos parado na sua vaga. Ou seja, deve haver um grupo de vigilantes do estacionamento, verdadeiros heróis que, em vez de se preocupar com a própria vida, ficam a espionar onde os vizinhos param seus carros. Que gente abnegada, não? A única queixa justificável que encontrei por ali foi a de uma senhora cuja vizinha de cima acreditava ser o gramado em frente às casas um imenso cinzeiro. A pobre contou 17 bitucas de cigarro atiradas à grama – e canetou o ocorrido no livro. Tudo bem que, se fosse comigo, primeiro acharia por bem tentar falar direto com a chaminé ambulante. Depois, caso a conversa não surtisse efeito, aí sim eu apelaria para aquele cadernão. Se ainda assim a sócia da Philip Morris continuasse a tentar cultivar uma plantação de tabaco nos jardins comuns, o próximo passo natural seria conversar com uns contatos e fazer a maledeta acordar ao lado de 20 cigarros decepados – o ideal seria uma cabeça de cavalo, mas acho que a moça não teria um eqüino disponível aqui nos parcos espaços do condô. No entanto, a melhor pérola do Grande Livro da Chiadeira, das Mesquinharias e da Pegação no Pé Alheio é mesmo a discussão sobre a piscina. Aparentemente, tal atrativo só é liberado para os moradores ou para visitantes menores de 12 anos (não me perguntem). Quando um morador deu uma festa no salão, conjugado à piscina, alguns convidados maiores de 12 resolveram molhar o corpinho – é o que afirma outro distinto cavalheiro residente deste conjunto habitacional do barulho. Ao ler a reclamação, o morador responsável pela festa esclareceu que o povo que se jogou na água eram seus familiares, também domiciliados neste endereço. Portanto, tinham direito ao uso da piscina. Mas não deixou por menos e chamou o reclamante de “Zé Povinho”. Achei que o dono do festerê tinha apelado um pouco. Porém, mudei de idéia logo que li a nota seguinte. Lá estava o “Zé Povinho” dando sua tréplica. Afirmava que os banhistas eram visitantes, sim – e ele tinha até fotos (!) para provar. Quer os foliões piscineiros fossem moradores, quer não, dou ganho de causa ao dono da festa. E ainda por cima processo o Zé Povinho por assistir demais ao “Big Brother”. Clara McFly às 06:54 PMCorra do intervalo! Sou portadora da síndrome do zapping. Deu a hora do comercial na televisão, aciono as teclas do controle remoto sem dó nem piedade dos publicitários. Sim, até consigo lembrar boas peças de “reclame”, como diria a minha saudosa vovó. Hoje em dia, porém, é muito mais fácil se aborrecer com o intervalo e ter vontade de jogar uma bigorna na tela ao ver surgir as mais odiosas propagandas. A que me recordo de bate-pronto é aquela estrelada pela top model Ana Hickman. No comercial, ela está ocupadíssima com as colegas dentro de uma loja. A moça atende o celular, fala com sua agente e dispensa um contrato para propagandear carro compacto. Mas não basta dizer “não”. Ela sugere o plano de ação: “ai, diz qualquer coisa, fala que eu fui pra Nova York”. Putz, que chata! E me explica: por que uma garota tão feminina tem aquela voz de travesti? Curioso é que a mesma fábrica de automóveis responsável por essa peça bocó, a Volkswagen, tem outra forma de apresentar o carro. Muito mais divertida, por sinal. Acompanhado de um bando de amigos, um moço (péssimo cantor) entoa os versos da adorável música “Sunny” – mas cantando tudo errado, indo ao fundo do poço no refrão “Mamy... I love you”. Hilário! E daí vemos claramente a bênção das 4 portas, para escapar da mala-cantante. Muito melhor que a pentelha Hickman esnobando trabalho. Outra que me tira do sério é aquela do sabão em pó Ariel, que remove de tudo, até história esportiva. A mãe empresta a camisa da Seleção de 82, que o pai guarda com carinho, para o moleque ir à escola. O peste emporcalha a preciosa, mamãe decide lavar a roupa com o sabão milagroso que elimina até manchas criadas por Chernobyl. E o autógrafo de um craque segue ralo abaixo! Se é meu cônjuge, eu esfolo vivo. Comerciais de produto de limpeza e comida, em geral, apostam na união familiar para nos ludibriar. Enquanto você presta atenção nos bebês e filhotinhos de cachorro, engole a mensagem sorrindo. A tática se estendeu até os cartões de crédito, aliás. Já viram a nova do Credicard? Tão doce! Toca a musiquinha falando “mochila, lancheira, uniforme, calcinha, um pé de cada meia, agasalho, xampu...”. Foi uma graça da primeira vez. Na segunda também, vai. Agora que já vi 324 vezes, mudo de canal assim que ouço “mochil...”. Enjoa rápido, sabe? É como a nova investida do xampu Dove. Usando a música “Diariamente”, de Nando Reis e Marisa Monte, eles fazem uma explicação das propriedades do cosmético. E das filosofias da vida. É uma espécie de propaganda do cigarro Free, com aquelas colocações conceituais e blá blá blá blá blá. Zzzzzz.... Às vezes, é melhor mesmo deixar toda essa enrolação de lado e apostar no humor. Ou não. Os remédios andam apelando tanto ao riso que só conseguem é deixar a todos constrangidos. No cinema, outro dia, vi a peça de um spray para garganta. Um astronauta tinha dificuldade de se comunicar com a central de comando porque seu gogó estava irritado. Ah, faz favor... Cenário tosco, ator ruim, idéia péssima! Metade da sala ficou muda, metade soltou um muxoxo de impaciência. Mas a raiva máxima com propagandas de tv acontece na entrada feita pelo Banco Real ultimamente. A fim de apresentar um tal Serviço Van Gogh, usaram um texto horrendo. Na prática, diz que tem direito a agências bonitas, cafezinho e atendimento personalizado aquele que... possui mais dinheiro. Poxa, coisa mais preconceituosa, indecente, elitista! Safadeza mesmo mostrar na televisão aquilo que 99% dos clientes não pode ter – esta escriba incluída aí. Tenho certeza que Vincent Van Gogh odiaria emprestar seu nome para uma idéia tão esdrúxula. Tendo vendido apenas um quadro durante toda a vida, ele provavelmente não seria convidado a usar o pomposo Serviço Van Gogh. É por isso que eu me recuso a ver esse desfile de bobagem na tv. O melhor amigo do inconformado é o controle remoto. Cola, papel e tesoura Antes de começarmos, anote aí o material para o texto de hoje, leitor: um tubo de cola branca atóxica, daquelas boas para fazer meleca; papéis coloridos de todas as espécies, como papel-espelho e jornal; finalizando, uma tesoura pequena sem ponta para não botar em risco os olhos dos coleguinhas. Ah! Não se esqueça também de pedir sempre a supervisão de um adulto. Eu adorava as listas de material para aulas de educação artística ou quadros de programas infantis que tentavam ensinar arte aos telespectadores mirins. Normalmente, elas eram curtas e simples: não podiam faltar esses três ingredientes, além de outros poucos badulaques. Tenho saudades de passar a tarde compenetrada na deliciosa atividade de recortar e colar. Ou apenas recortar. Ou apenas passar a cola na mão, esperar secar e então tirar as casquinhas como uma segunda pele. É por isso que hoje eu presto uma homenagem a esses produtos baratos que, sozinhos ou acompanhados de outros, me ajudaram a brincar, melecar, criar e ainda por cima receber elogios de parentes! Cola Tem coisa mais gostosa do que fazer colagem? É praticamente uma terapia para crianças, comparável ao tricô para as velhotas. Claro que os pequenos não podem manusear aquelas agulhas grossas e pontudas – mas podem se esbaldar no ato de passar cola em qualquer coisa. Já contei aqui que minha paixão nas aulas de educação artística era a lantejoula. Chegava a enfiava os belos círculos furta-cor não apenas em desenhos, mas em trabalhos de outras matérias “sérias”. Bem, todos eles precisavam de uma capa, certo? Era gostoso também escrever o nome com o bico da cola, jogar pitadas de purpurina em cima e, com o excesso limpo, ver a palavra brilhando em cores. Mais gostoso ainda era fazer um desenho a lápis e depois ir acompanhando o contorno com macarrões. Vai dizer que nunca fez colagem usando esse ingrediente culinário de várias formas e cores? Não sabe o que perdeu! Papel Como viciada em papelaria, não podia ficar indiferente àquelas pilhas de pura celulose! E cada uma tinha a sua característica. O papel-espelho sempre foi a melhor opção para fazer dobraduras. Depois de cortado um quadrado perfeito – por que as dobraduras sempre começam com quadrados perfeitos? – conseguia fazer a folha virar flores, bichos ou objetos, de acordo com minha vontade. A dobradura favorita sempre foi o sapo que pulava. O papel laminado, brilhante que só ele, era ideal para colagens de céus reluzentes de astros. Estrelinhas recortadas em dourado serviam inclusive para a professora da E.E.P.G. enfeitar minhas lições caprichadas. Colando duas estrelas maiores em um canudinho, plim!, tinha uma varinha de condão. Ou poderia fazer uma coroa de princesa cheia de pedras preciosas. O papel favorito da minha infância não era vendido em papelaria, e sim em bancas. Fazer chapéu de jornal era incrivelmente divertido – principalmente porque ele ficava sempre frouxo e torto na minha cabeça, fazendo-me ficar com cara de louca. E soltar barquinhos de jornal na enxurrada, então? As frágeis embarcações tinham pouco tempo de vida útil. Mas valiam cada centésimo de segundo! Tesoura Se eu pudesse, seria uma Viviana-Mãos-de-Tesoura, de tanto que o objeto de corte conseguia me alegrar. Nenhuma revista em casa permanecia inteira. Era só mamãe largar um exemplar em cima do sofá e lá ia eu recortar as gravuras mais bonitas. Cheguei a dizimar uma coleção de National Geographic do meu pai, e isso não é motivo de orgulho. Quando alcancei o feito de recortar as menininhas de mãos dadas, nossa, foi uma glória – capaz de deixar no chinelo a vez em que aprendi a trançar com as franjas do cobertor Parahyba. Era só dobrar uma folha de sulfite várias vezes em forma de sanfona, desenhar uma menina (com o cuidado de deixar um dos braços encostados na extremidade da dobradura), e meter a tesoura. Depois, pintava a carinha de cada uma delas. Minha capacidade com o instrumento, porém, era testada mesmo quando eu ganhava aquelas bonecas de papel. E nossa, como eu ganhava aquilo (hoje desconfio que era desculpa da minha mãe para brincar também). Em um papel cartão, vinha desenhada uma boneca só de lingerie. Ao lado dela, vários modelos de roupas, desde vestidos de festa a trajes de banho. Ainda vende? Eu quero muito uma.
Quem canta um conto... Ah, os 80! Como acontece com todas as décadas, o oitentismo está sendo revivido depois de 20 anos. Com a perspectiva que só o passar do tempo é capaz de dar, voltamos agora os olhos para aqueles anos em que ombreiras eram legais, os Trapalhões estavam na TV e bandas nacionais estouraram contando histórias para lá de bizarras. Sim, sim. O mesmo passar do tempo que dá saudades e faz a gente olhar com carinho para o pogobol e o Detetive também fornece um pouco mais de senso – e nos faz perceber que alguns dos produtos dos anos 80 eram mesmo esquisitos. Especialmente aqueles veiculados pelo rádio. Não sei se era o uso desregulado de tóxicos (lê-se tóchicos) ou daquela água declinada por passarinhos, mas as letras de alguns dos maiores sucessos da década contavam histórias para lá de malucas. A começar pela inesquecível, insubstituível e inestimável “Eu Não Matei Joana D’Arc”. Vai ver era apenas senso de humor – e uma saudável disposição das bandas para não se levar a sério (o que faz falta no cenário atual). No fim, que outra década garantiu histórias musicadas como essas? Acidente de avião legal A Metamorfose metamorfoseada Só pode ser a Mirtes! Uma punk na Alemanha Troca-se batatas fritas por sexo Lavando roupa suja no portão Cosmonautas, nuvens e narizes azuis
Vocação para saco sem fundo Vocês já tiveram a sensação de adorar loucamente uma comida? Eu e meu estômago temos sempre. Com relação a certos artigos, tenho a ligeira impressão de que, se cobrirem um campo de futebol com estas delícias, eu posso comer tudo. Não é exagero, não. Encham o gramado do Maracanã com elas e venham me testar! Pode ser que nem todos concordem com os meus “10 Mais Vícios Para Petiscar” e emitam um sonoro “blé!”. Querem saber? Ainda bem. Se vocês fossem adictos como eu destas coisinhas, o preço de tudo isso ia explodir. O mercado não aturaria tantos viciados atacando em conjunto. 10) Castanha de caju 9) Amendoim 8) Pipoca 7) Tomate seco 6) Pão de queijo 5) Empadinha 4) Baconzitos 3) Pastel 2) Azeitona 1) Leite
Ah, que deleite!!! Obrigada, televisão Eu sempre discordei com a opinião de que a violência mostrada na tevê é a culpada pelos delitos de adolescentes de classes privilegiadas. Foi essa a desculpa encontrada quando dois estudantes norte-americanos abriram fogo em seus colegas na escola Columbine – afinal, disseram, todo o problema dessa geração atormentada vem dos filmes e programas sangrentos da caixa de fazer louco. O caso é que assistir todos os dias a atrações no nível de “Cidade Alerta” não irá me fazer sair pelas ruas metralhando indivíduos ao acaso. Se eu for uma psicopata assassina, posso ter minha ira despertada até por desenhos para crianças em idade pré-escolar, certo? Era o que pensava. Pois agora minha opinião tem mudado. Eu estou sim sofrendo com a influência da televisão e quero dar aqui meu testemunho. Algumas vezes já me peguei completamente fora de mim, testando na frente do espelho como ficaria meu rosto se eu entrasse no bisturi e desse uma levantadinha nas pálpebras. A genética só me pregou peças, e um leve excesso de pele sobre os olhos é uma delas. Imagine como será quando chegar nos 50! Para não correr o risco até chequei, disfarçadamente, se meu plano de saúde inclui tal procedimento. Juro! Culpa de quem? Minha? Ou de programas como o “Extreme Makeover”?. Propagandas, então... Outro dia vi uma do sabonete Dove com mulheres de várias idades. Uma delas, para meu espanto, tinha 27 anos! Busquei no meu rosto qualquer sinal de rugas e tratei de ligar para minha mãe dermatologista me arrumar uns cremes batutas. Só para garantir. Sem falar nos comerciais de produtos da Polishop – acredita que eu realmente pensei como aquela mangueira pode ser útil? Mas a maior vítima da televisão aqui em casa não sou eu. Mesmo tendo terminado a decoração do nosso apartamento, namorido não dá folga. Ele simplesmente não pode assistir a programas de bricolagem que já vem com idéias de mudar algo – mudança que vai, é claro, a) gastar dinheiro, b) dar trabalho e c) fazer sujeira. Certa vez, vimos uma atração onde a decoradora pintava tetos de cores berrantes. Assim que os créditos subiram, lá foi ele buscar dois galões de tinta. Na mesma noite, pintou o teto do banheiro e da cozinha. Algum tempo se passou depois disso, até a estréia da série “Entre 4 Paredes”, do canal People + Arts. Nele, quatro casais precisam reformar do zero um apartamento caindo aos pedaços com uma verba estabelecida previamente. Os olhinhos do doce rapaz brilhavam de ver aquele monte de poeira e material de construção. Resultado? Ah, vamos trocar o piso do banheiro! Cá estou eu, com dois pedreiros marretando o cômodo antes imaculado, para colocar um piso de pastilhas. Vai ficar lindo, aposto. Mas enquanto não fica, tome barulho e sujeira. Sem falar na necessidade de se usar o toalete da academia do prédio para qualquer eventualidade – e passar um pouco mais de 24 horas sem tomar um bom banho. Tudo bem. Melhorias para a casa são sempre bem-vindas. Mas bem que ele poderia assistir a um programa de culinária e ficar com vontade de me fazer um enorme bolo cremoso! Ou ver uma atração sobre as ilhas gregas e sugerir quinze dias em um cruzeiro. Que tal? Isso sim seria influência da boa. Vivi Griswold às 09:48 AM
Cada um com o seu Num episódio antológico de “Seinfeld”, George é pego como veio ao mundo por uma amiga da moçoila que ele está namorando – mas com quem ainda não trocou fluidos corporais, digamos. Como ele havia acabado de voltar de um banho de mar, alega ter sido prejudicado, pois o dito-cujo sofreria um encolhimento significativo ao ser imerso na água fria. Jerry tenta convencê-lo de que o encolhimento é um fato sabido por todos, inclusive pelo time feminino. Para tirar a prova, eles consultam a amiga Elaine a fim de saber se as mulheres estão familiarizadas com o assunto, ao que ela responde “que encolhimento? De roupas na lavanderia?”. Desesperos masculinos à parte, confesso que eu tampouco estava por dentro do tema. Sério que encolhe?! Pensando nisso, promovi um rápido debate sobre o pinto, esse desconhecido, e descobri coisas realmente bizarras – além de comprovar, pelos testemunhos de amigos, que o moçoilo diminui mesmo em ambientes gelados. E olha que estou longe de ser uma mocinha ingênua, criada na clausura por aquelas famílias que acham sexo ser o maior tabu. Sem mais nem menos, garotos podem acordar certas manhãs com seu coleguinha já de pé. Isso eu havia notado, mas não imaginava que alguns pobres coitados também despertam de uma soneca qualquer – no ônibus, por exemplo – ligados no 220. Que mico. Minha pesquisa apontou ainda que, postos nessa delicada situação, homens costumam disfarçar colocando as mãos no bolso e puxando as calças para a frente. Ou lançam mão de uma bolsa, quando a têm, para tampar o impertinente e desembarcar sem causar constrangimento. Aparentemente, fazer xixi com o ditoduro (não foi erro de digitação) também é um problema. As opções são sentar-se no vaso e brigar para a mangueirinha ficar virada para baixo, ou postar-se diante da privada numa posição esquisitíssima, com os joelhos meio dobrados e o tronco levemente torto. Que puxa. Ainda por cima, me disseram que dói à beça visitar o WC quando o serelepe teima em se retesar. Acho que esse é o problema de ter uma, digamos, modelagem econômica, e precisar contar com um único canal para múltiplas funções. Os meninos nunca vão saber como é ter de submeter-se, semestralmente, a um exame em que a gente deita numa mesa com as pernocas para cima e é avaliada por um especialista, sem nada a nos tapar as vergonhas – aliás, o exame é justamente ali. Não é muito agradável. Mas acabamos lançando mão do grande trunfo humano da adaptabilidade e, bem, nos acostumamos ao fato de visitar o ginecologista periodicamente. Assim como nos habituamos com as cólicas e as inconveniências de passar um período mensal munidas de absorventes na bolsa e em outros lugares. Mas, sinceramente, descobri que ser menina tem mais vantagens do que eu imaginava. Como não ter de dar uma de Dama (ou “Damo”, no caso) do Lotação involuntariamente...
Saudades da Júlia Hoje não moro mais na Vila Sem Graça. Meu bairro – também o bairro da doce Vivi, por sinal – é repleto de lojinhas boas e outras porqueiras, casas de empada, padarias gostosas, bares e restaurantes a granel. Mesmo assim, ainda não achei por aqui uma alma-gêmea da Venda da Júlia. Explico o motivo da nostalgia por aquele local escuro, poeirento e, vá lá, com larga possibilidade de ser credenciado pelo Clube do Mickey. Júlia era uma senhora japonesa que vivia no bairro onde eu morava lá em São Bernardo, quando criança. No andar de cima, juntava-se a numerosa família dela (ou a dona tinha 15 filhos, ou eu confundia um bocado aqueles olhinhos puxados). Embaixo, ficava a quitanda administrada pelo clã. E como supermercado era apenas para fazer despesa nos meus tempos de menina, visitar a Júlia quase diariamente garantia o feitio dos almoços e jantares pela mamãe. Em termos de frutas, legumes e verduras, a venda era uma vergonha para os descendentes de japoneses – sempre reconhecidos por cuidar tão bem dos seus negócios e prezar bastante a qualidade de produtos. Quando me mandava buscar tomate para a pizza, por exemplo, a mãe sempre fazia ressalva: “escolhe só três, tenta achar os não muito batidos...”. Impossível: hortifrutigranjeiros, ali, pareciam ter sido usados como sparring em aula de boxe. Mas qual criança achava graça maior em comprar maçãs, bananas, um pé de alface e inhame pra sopa? Não eu. Na Júlia, queria mesmo era saber das tranqueiras. Caramba, como quitandinhas juntam guloseimas baratas e deliciosas! Quanto mais perto do balcão de pagamento, mais dava para achar as tralhas. Dos picolés de fruta – não tenho limite com sorvete de palito de uva, coco, chocolate e limão – aos chocolates, sempre arrematava gostosuras com o troco da compra. Sim: a obrigação era adquirir farinha, ovos ou uma lata de qualquer coisa. Mas, sobrando dinheiro, aquilo podia ficar mais emocionante ao paladar. Entre os chocolates, o campeão era o Batom. Na falta do bastão (ou quando ele estava derretido demais), podia comprar os fabulosos Cigarrinhos Pan. Afinal, tudo tinha o mesmo adorável gosto de vela. Também apreciava o Deditos (como podia curtir um doce parecido com dedos mortos?) e o tal de Stick, barrinha recheada de morango. Se o dinheiro não desse para um chocolate, podia gastar as moedas com chiclete. Ping-Pong e Ploc eram os líderes de mercado, ao lado do caríssimo Bubaloo, mas o meu predileto era um chamado Gummy. Na hora de fazer bola, esse não grudava no rosto. E todos conhecem a minha habilidade em grudar a goma no nariz desde criança. Em meio ao balcão zoado da Júlia, havia muito artigo caseiro também – lembrando o tanto de pó que a nipo-senhora deixava acumular nas prateleiras e vitrines de comida, fomos crianças sobreviventes. A maria-mole era boa, os salgadinhos valiam a pena. Minha paixão, porém, eram os doces cristalizados. Deixa ver: tinha de abóbora, batata-doce, beterraba... mas não faço idéia do sabor contido naquele verde. Argh, parecia horrível. Os demais, em formato de coração ou estrela, eram deliciosos! A sensação da Venda da Júlia, no entanto, era um quadradinho feito com amendoim moído e açúcar pacas. Se ficasse 20 minutos dentro da quitanda, era possível ouvir ao menos 20 vezes “Dona Júlia, vê uma Paçoca Amor?”. Nem guarda-chuvinhas de chocolate, nem Dadinho. Nem mesmo chiclé de bola com transfer, pirulito que virava apito ou as chupetas de caramelo. Nada era tão popular quanto a paçoca. Precisava ter muito cuidado com ela, porque uma vez desembalada, a Amor virava rapidamente um amontoado de poeira no chão da venda! Mas tudo bem, a Júlia não ligava. Seu saudoso estabelecimento já era cheio disso mesmo...
Eu queria construir uma casa só com elas! S.O.S. narinas É tarefa das mais fáceis afiar o olfato e dar as boas-vindas a cheiros bons, como pipoca estourando na panela ou aroma da mãe da gente. Mas, como tudo na vida, até a atividade de reparar no que chega às narinas carrega seu lado ruim: fedores estão aí por todos os lados – e, quando eles se aproximam, fica duro de respirar. Existem cheiros que não são tão ruins assim, mas que nos fazem lembrar de experiências desagradáveis. Outros, cruzes, são ruins mesmo. E haja oxigênio (ou spray de Bom Ar) quanto eu me deparo com qualquer uma das fragrâncias abaixo... 1) Jaula do búfalo 2) Bafo de cerveja 3) Inseticida 4) Fumaça de cigarro 5) Cecê de ônibus 6) Pinho Sol 7) Fralda suja 8) Barraca de peixe 9) Merthiolate 10) Fritura de boteco ![]() Vai um "risóleo" aí?
E viva o Clube do Mickey! Sabe aquele desenho do Pica-Pau em que um urso invade o trailer de dois campistas? E a mulher fica histérica lá dentro, berrando aos quatro ventos “Alfreeeedo, tem um urso no trailer!”? Pois então. Foi bem assim que me senti assim anteontem. E o pior é que não tinha nenhum Alfredo para me socorrer. Antes que você pergunte, leitor: não, não entrou nenhum urso aqui – mas sim um rato quase do tamanho de um Andy Panda. Tá, talvez de um pônei. Ok, de uma capivara. Certo, certo: era só um camundongo pretinho – igual ao Mickey, mas sem aquela voz afrescalhada e luvas nas patinhas. Pois o bicho pestilento se alojou atrás do tanque, por entre uns tapetes que estavam para lavar. Na verdade, só percebi que era um rato quando o namorido chegou em casa. Aliás, quem percebeu foi ele. Tudo que eu vi ao adentrar a cozinha foi uma mancha escura, rápida e faceira, correr para o tal cantinho. Pensei com meus macaquinhos: “putaqueopariu, tem um bicho na cozinha!”. Meu coração disparou. Corri de volta para a sala. Respirei fundo. Me acalmei. E voltei, matutando com meus botões: “deve ser: a) uma aranha, o que não seria tão ruim; b) uma barata, o que seria nojento, mas fácil de matar com inseticida; c) um rato, o que significaria meu completo desespero e danação eterna”. (Abro um parêntese para dois esclarecimentos: sim, eu penso em itens. E sim, eu tenho paúra de ratos. Eu sei, é deprimente ver uma mulher do meu tamanho, independente e emancipada, gritando com o mais profundo pavor e sapateando em cima do sofá – ou de qualquer objeto escalável mais à mão – ao topar com um desses roedores. Mas é mais forte que eu. Rato é uma criatura pestilenta. Não sei quanto tóxico sêo Walt tomou ao transformar um bicho repulsivo desses num mascote docinho e sorridente – e o pior é que o mundo todo comprou a idéia! Ratos não riem. Apenas se esgueiram para dentro da sua casa, comem suas coisas, transmitem doenças e, quando dá, matam um terço da população européia numa epidemia – devemos ser gratos por não ter vivido na Europa durante a Peste Negra. Pronto). Voltando. Depois de considerar as três possibilidades – e descartar a da aranha, pois as tecedeiras de oito patas não se movem tão rápido quanto a mancha se moveu –, decidi pegar o inseticida, me empoleirar estrategicamente sobre a máquina de lavar (para caso a criatura, ao sentir o veneno, tentasse correr para cima de mim e me atacar) e borrifar o bagulho na direção do tanque. Dito e feito. E nada de aparecer o bicho – o que diminuiu ainda mais minhas esperanças dele ser uma barata. Baratas correm quando tomam uma chuva de veneno. Nisso, tocou o telefone. Desempolerei, atendi e respirei aliviada: era um colega, leitor e jornalista. Falei: “olha, tem alguma coisa aqui em casa, se você ouvir um grito e o telefone ficar mudo, chama a polícia”. Diante do espanto do moço, tive de completar: “não, não. É uma barata ou um rato, acho”. Fui conversando de olho no cantinho do tanque. No meio do papo, eis que a mancha corre de novo para outro lado. Dei um grito gutural, o que fez com que meu interlocutor se calasse por uns segundos. Corei e expliquei que o bicho tinha aparecido de novo. Pedi desculpas; descartei por completo a possibilidade de ser uma aranha e achei que, para uma barata, parecia meio grande. Só podia ser um pestilento maldito. Nisso, feito num filme, a Sétima Cavalaria – ou o namorido – chegou. Desliguei o telefone, respirei aliviada e expliquei a situação. Disse que provavelmente era um rato – que entrou às escondidas, tomou conta do lugar, comeu o bolo que estava em cima do balcão, me expulsou da cozinha e só faltou tirar o controle remoto da minha mão, me botar para fora e gritar “e não me apareça mais aqui!”, batendo e trancando a porta. Depois de rir da minha cara por uns cinco minutos, especialmente quando mencionei a escalada na máquina de lavar, ele se dirigiu calmamente para o lado do tanque, chutou os tapetes e sentenciou calmamente: “é um rato mesmo. Um camundongo”. Corri, fechei as portas dos quartos, subi no sofá e me neguei a descer. Ele abriu a porta e, munido da vassoura, espantou o indesejado visitante para fora. Ainda bem que não teve de matá-lo. Onde diabos eu iria desovar o cadáver de um rato? E imagina só para limpar o local da morte? Eu ia ter de me mudar! Oficialmente, agora faço parte do Clube do Mickey – feito Justin Timberlake, Britney Spears e Flá Wonka. Mas podia ter passado sem essa. Ainda mais porque o meu Clube do Mickey – assim como o de Flá – não dá direito a contratos milionários, shows superproduzidos ou videoclipes hilários, vestindo a roupa do Leão da Montanha. Droga. Clara McFly às 05:27 PMFamília, á! Dias atrás, tomei a liberdade de comparar meus parentes e entes queridos – que não são necessariamente as mesmas pessoas – com as famílias de desenho animado. Muito mais do que a animação, porém, o cinema é capaz de traduzir costumes e manias dos meus em película. Ah, mas não são só os meus que dão as caras ali, não! Aposto que vocês aí também já reconheceram muitos tios, primos e irmãos na telona. Lembram da Tia Voula? Aquela senhora de “Casamento Grego” que jurava ter extirpado um caroço do pescoço formado pela coluna vertebral de um irmão gêmeo não-nascido? Haja estômago para aturar tal conversa... Mas eu tenho umas tias assim, se tenho! Pior: tenho muito mais. Nestes filmes, eu reconheço uma porção deles. Divinos Segredos – pelas brigas Casamento Grego – pelas reuniões Os Excêntricos Tenembauns – pela esquisitice Férias Frustradas – pelos ‘holiday roads’ Parente é Serpente – pela essência Fla Wonka às 02:00 PM Crenças com data de validade Desde um monstro morando debaixo da cama até um livro mágico capaz de atrair pesadelos: quando eu era criança, acreditava em muitas coisas. Algumas dessas crenças foram despertadas em mim por terceiros, outras – as melhores – eu mesma criei na minha cabeça. Hoje já não boto tanta fé na maioria delas, apesar de dar risada sozinha ao relembrá-las. E você, quer entrar um pouco na mente perturbada e pueril da pequenina Vivi? A culpa da imaginação fértil dos infantes deve-se em grande parte aos adultos. São eles os contadores da história do tal velhote que mora no Pólo Norte e que sai de casa uma vez por ano para presentear as crianças do mundo todo. Depois, quando crescemos, percebemos que nada daquilo é verdade. E não vemos a hora de encontrar um pirralho para passar a balela adiante! Eu até acreditei em Papai Noel. Achava que uma mentira não poderia ser tão famosa e duradoura assim. A prova cabal da existência dele foi no ano em que ganhei uma bicicleta. Eu havia seguido o conselho da Xuxa (?) e havia pedido o presente antes de dormir para o bom velhinho com toda a força do meu pensamento. Na noite de Natal, bling, lá estava minha Monark com cestinha. Mas eu nutria fé mesmo pelo coelhinho da Páscoa. Claro, se um senhor de cabelos brancos não poderia distribuir milhares de presentes, um coelho poderia. E eram ovos de chocolate! E vinham embrulhados em lindos papéis coloridos! Minha mãe incentivava a crença com requintes de crueldade. Ela chegava a me dizer para deixarmos uma cestinha com um punhado de grama e com uma cenoura para o coelhinho ficar feliz. No dia seguinte, lá estava meu prêmio dentro da cesta. A cenoura havia desaparecido, e só restara um pequeno rastro de capim. Era para acreditar ou não, oras bolas? Outras crenças, contudo, eu mesma criei. Chegava a acreditar, por exemplo, que toda a nossa vida era composta por dias de azar e sorte, intercalados. Quando o dia estava bom – cheio de surpresas, brincadeiras, notas boas na escola, programas legais na TV, podia esperar um amanhã chato a seguir. Mas tudo bem, porque depois viria outro momento de sorte, e assim sucessivamente para todo o sempre. Acreditava também que os meus brinquedos, ao soar as doze badaladas noturnas, ganhavam vida própria. Toda manhã olhava atentamente para a prateleira cheia de bonecas Moranguinho e bichos de pelúcia e tentava reparar o mínimo traço de movimento que escapou sem querer. Tipo brincadeira de estátua, sabe? O pior é que eu encontrava. No dia em que um urso gigante pendeu a cabeça para o lado sozinho (claro, ela estava solta), quase tive um treco. Aliás, tinha a maior crença de que um universo paralelo se desenrolava quando nós, humanos, não estávamos olhando. Sempre achei que cachorros e gatos latiam e miavam entre eles para disfarçar, na verdade, todo o conhecimento e linguagem avançados que tinham. Acreditava que a caixa d’água de formato engraçado que dava para ser vista ao longe era na verdade um disco voador disfarçado e pronto para voar assim que déssemos as costas. Ou que baratas e lagartixas eram seres espiões que se infiltravam em nossas casas para... ah, sei lá pra quê! Acreditava que o livro sobre mitologia grega da estante da minha avó era mágico: só de olhar o horrendo retrato da Medusa, pronto, os pesadelos iriam perseguir meu sono. Mas se eu fizesse o sinal da cruz, teria sonhos mais agradáveis. Minha mãe que falava, quando via meus irmãos dormindo e dando risadinha, que eles estavam sonhando com anjinhos. Hoje já não carrego nenhuma dessas crenças – mas isso não quer dizer que seja uma incrédula. Tenho outras! Afinal, olhar a vida e o mundo com criatividade é divertido. E não apenas quando se é criança! Vivi Griswold às 10:52 AM
Brinco, não nego O cardápio de brincadeiras disponíveis quando a gente conta de três a treze anos (não espalhem, mas eu ainda sacava das velhas Barbies e playmobils e topava uns embates de taco com a dita idade) é mesmo interminável. Caetano, meu afilhado de três invernos recém-completos, se diverte à beça rodando no próprio eixo de sua pequena pessoa, por exemplo. Viu só? Não precisa nada para se divertir! Claro que Barbies, playmobils e acquaplays do Bob Esponja podem ajudar um bocado. Mas, como vimos ontem, há uma série de atividades que dependem tão-somente de nossa cachola e da companhia de amigos – ou, no máximo, de uma disputa de dedos iguais ou par-ímpar a fim de tirar os times. Foram admitidas aqui apenas as brincadeiras populares, quase folclóricas, que existem em todo o país (ou ao menos em boa parte dele, talvez com nomes diferentes). Como combinamos, aí vai a continuação das distrações favoritas de rua. Ficam para outros dois dedinhos de prosa aquelas atividades de crianças urbanas e mais específicas da geração 80, como escritório, escolinha e, er, Changeman (eu já confessei que brincava de Esquadrão Relâmpago, com direito a Power Bazuca e tudo, por aí). Pega-pega Barra-manteiga Mãe da Rua Taco Mês Castigo Claro que, no auge dos 80, as opções eram quase sempre as mesmas. Se o dito cujo quisesse uma bicicleta, sacávamos de "BMX ou Cecizinha?"; se almejasse um carro, a pergunta era "Escort XR3 ou Monza?"; no caso do videogame, lá vinha "Atari ou Odissey?". Nesse caso, havia que ser rápido para escolher ser o Atari, que sempre ganhava... Quem não queria um desses?
Eu, a avestruz Quem me conhece, hoje, não saca de primeira. Muitos não sacam nem de segunda – e a maioria fica sem acreditar mesmo quando conto com todas as letras. Eu sou envergonhada. Tímida, contida, um bicho-do-mato desde criancinha. Isso já me causou muitos problemas de sociabilidade, mas atualmente estou quase curada. Disfarço bastante bem, esse é o segredo e a verdade. Quando pequenina, qualquer atividade estranha virava um trauma. Nas festas de aniversário dos primos e amigos, por exemplo, ficava no canto até alguém me resgatar do sedutor cachorro-quente para dançar ou brincar. Se não acontecesse, podia muito bem passar todo o evento muda, apenas balançando o pé discretamente nas minhas músicas prediletas do Balão Mágico. Já na escola, estar entre crianças da mesma idade... não ajudou em nada. Por causa da vergonha, fazia sempre uma amiga ou duas apenas na classe – e olhe lá. O esporte, tão comemorado por unir pessoas e promover entrosamento, falhou comigo. Isso porque nunca era escolhida na seleção de times. Diabos: em jogos com bola, tenho mais ou menos a habilidade de um orangotango (e alguns símios dessa espécie, suponho, ainda podem me dar um baile no pingue-pongue). Na ginástica olímpica, que eu adorava e onde me enfiaram para liberar energia, tudo era vexame para minha mente. Para começo, eu preferia praticar usando calça e camiseta, mas a professora exigia colan. Ficar com as pernas de fora, sem meia-calça, na frente de um bando de outras crianças, enquanto dava piruetas? Toda aula, antes de sair do vestiário, eu sentia vontade de chorar e morria um pouquinho... Roupas sempre foram uma carapaça de aço para quem, como eu, era tão avexada. No ginásio, para ir à escola, sempre amarrava usava calça larga, tênis e amarrava o agasalho na cintura – providencial para meninas que não querem admitir ter uma bunda. Andava um pouco arqueada também, assim menos gente notaria o busto em crescimento. Putz, como é sofrido passar de criança a garota na frente dos outros humanos! Não podiam nos enviar à uma caverna entre os 11 e os 18 anos? Vocês podem imaginar, então, o que senti quando uma tia achou de me presentear com um sutiã no aniversário de 12 anos. Eu já tinha outros, mas foram comprados com a minha mãe, sem que o assunto virasse pauta sequer em família. Ganhar “aquilo” ante os olhos de amigos foi tortura chinesa. Se a solícita mulher tivesse me presenteado com pedacinhos de bambu para colocar debaixo da unha, teria doído menos. Com o tempo, a blusa na cintura deixou de ser um cinto chumbado ao meu corpo e circular entre os meninos do colegial já não era (tanto) problema. Mesmo assim, a vergonha ainda morava aqui dentro. Ser chamada pela professora a ler minha redação alto fazia as bochechas ficarem vermelhas. Ouvir de outra menina que fulano gostava de mim, quase transformava a cabeça numa panela de pressão – e disso independia o fato de eu gostar do garoto ou não. Equilibrar a timidez com uma certa cara-de-pau foi a solução. Passei a combater a vergonha com uma falsa expansividade e/ou mau-humor. Entre amigos, fazia piadas e dizia coisas absurdas, por isso sempre me achavam a engraçadinha, a extrovertida. Já para contato com gente nova, vestia uma máscara sisuda e decidida, quase de uma garota bem nojenta e emburrada. Assim, talvez, eles me respeitassem logo de início e eu não precisaria passar vergonha fazendo papel de boba. O problema sempre foi esse: passei anos confundindo ser receptiva com parecer boba. Achava que, se eu me apresentasse e me dispusesse a fazer amizade, os demais me tomariam por uma otária babaca. Olha que perda de tempo? Ainda bem que repensei esse comportamento. Já faz alguns anos, deixei de lado a alternativa da postura “quase-mala”. Alguns ainda me conhecem e acreditam que sou brava – ouço tanto isso... me sinto uma sargenta! Cada vez mais, tento ser descontraída e sorridente ao conhecer pessoas novas. E, principalmente, tento me lançar em situações antes embaraçosas e encarar tudo sem corar. Nem sempre dá certo. Ainda fujo loucamente de ser o centro das atenções e detesto quando fazem chacota com a minha cara. Mas aprendi que dar a timidez à tapa tem compensações. Bom, eu consegui vir aqui hoje e contar tudo isso! Usei até a palavra “bunda” aí acima! Ai, céus, que vergonha... O lado B de viajar Salvando as proporções, viagem é como parto: ficam na memória todos os momentos felizes, enquanto sensações ruins, lágrimas e dor são armazenadas no esquecimento. Como ainda nem penso em entrar na fila para pegar uma senha da cegonha, não posso falar muito sobre dar à luz. Mas viajar... Dessa alegria eu entendo bem. Olhar a primeira vez para Machu Picchu é completamente diferente de olhar para a Torre Eiffel. Assim como pisar em areias egípcias não pode ser comparado a pisar na Oxford Street. Cada viagem é única, e cada experiência é única: menos as más. Pois essas costumam se repetir incessantemente, seja qual for o seu destino – o outro lado do mundo ou o outro lado da cidade. Portanto, se você pensa em tirar alguns dias longe de seu ambiente cotidiano, prepare-se para as situações chatas que vão acompanhar sua folga. Mesmo que você não queira. Já chegou? E agora? A vida própria do seu cabelo Mala, essa estranha Saudades do banheiro lá de casa Com que roupa eu vou? Quero meu dinheiro de volta Pelo menos experiências ruins não saem na foto. Vivi Griswold às 11:05 AM
Correrias, cores e anéis Brincar é tudo. Aliás, competir e se divertir, em maior ou menor grau, é tão bacana e tão parte da natureza humana que a gente faz isso a vida inteira – só mudam os brinquedos, conforme a idade. Na aurora da nossa vida, as atividades são mais claramente, er, digamos, brincadeiras. Mais tarde, brincamos de ir ao cinema, de passear de carro, de dançar com os amigos, de escrever em sítios que-eram-rosa-e-agora-são-listradinhos. Qual a diferença no olhar daquele seu primo que ganhou um Pégasus de controle remoto no Natal, ao abrir o pacote, e do seu amigo que, depois de muito suor e financiamento, buzina na frente da sua casa de dentro do primeiro carro adquirido? E entre aquela vizinha que obriga todos os menorezinhos da rua a servir de alunos para a escolinha improvisada na calçada e as professoras que aturaram a gente no primário? Pode-se dizer que brincar, de maneira geral, fica cada vez mais caro. Basta ver que um carro de verdade custa beeeeem mais que um Pégasus (que já não era nada barato) e ensinar 30 crianças enlouquecidas é mais difícil que meia dúzia de vizinhos. Isso sem contar que ir a uma danceteria ou pegar um cinema a dois não sai por menos de 40 pilas, ao menos cá em São Paulo. Embora eu ainda drible a facada aplicada pelo ramo do entretenimento paulistano reunindo amigos em casa, para conversar, comer, beber e jogar, tenho saudades de quando brincar custava literalmente nada. A não ser tempo, coisa que a gente tinha de sobra. Era só escolher – muito provavelmente entre uma das brincadeiras abaixo ou entre as que continuarão a lista amanhã – e correr para o abraço. Ou, melhor dizendo, para a rua. Alerta Sela Elefantinho Colorido Esconde-esconde Passa Anel Brincar é tão legal que, uma vez começado, a gente não tem mais vontade de parar... Por isso, amanhã a lista segue – quem sabe com opiniões e sugestões publicadas no Fórum. Quem quiser brincar, põe o mouse aqui! Família, ê! Podemos achar os membros das nossas famílias estranhos, malucos, desajustados. Mas só nós podemos dizer isso! Ai de quem fala mal dos meus parentes... É como nas famílias de desenho animado: eles não regulam nada bem e são pra lá de esquisitos. União, porém, não escolhe apenas gente tranqüila e coerente. E digo mais: eu queria fazer parte das linhagens mais piradas da animação. Se são pés-rapados, monstruosos ou perseguidos por forças malignas universais, não importa. Ver o lado bom das famílias é o essencial – sejam elas de verdade ou criadas na base da tinta e do grafite. Sempre haverá um irmão como Bart, uma mãe como Morticia, um cachorro como Chuchu... ou não. Mas ainda bem que alguém tomou substâncias bem fortes para nos brindar com esses núcleos familiares muito loucos da pesada. Jetsons: os moderninhos Simpsons: os incorretos Família Buscapé: os lesados Herculóides: os elos-perdidos Chan: os trapalhões Família Adams: os doces monstros Muzzarelas: os arruinados ![]() Que tal se chamar Flavias Decimus Meridius? Hã? Tudo bem: desenhos animados e substâncias alucinógenas parecem caminhar de mãos dadas desde que a televisão surgiu. Partindo desse pressuposto, tudo o que vemos a cores em programas infantis e em emissoras especializadas faz sentido. Peraí, vá... Quase tudo. Porque nem um caminhão de tóchico tomado de uma só vez conseguiria explicar algumas das atrações infantis mais estapafúrdias do mundo da telinha. Quando assistimos a um desenho, tão engraçadinho, colorido e cheio de aventuras, dificilmente paramos para pensar com mais afinco sobre o que nos é mostrado – com isso, acabamos aceitando um mote completamente absurdo sem ao menos notar. Na lista que segue, alguns exemplos de desenhos “hã?”. Para compor o ranking, pensei apenas nas histórias, sem me ater se o produto final é bacana ou não – portanto, há títulos de que eu gosto muito e outros que recebem de mim uma careta. Deixando isso de lado, veja só se não tenho razão! 1) Tutubarão 2) Herculóides 3) Ursinhos Carinhosos 4) Super Globetrotters 5) Snorks | ||||||||||