sexta-feira, 30 de julho de 2004

Tristeza do jeca

Música sertaneja é mesmo um sofrimento. E não estou falando no sentido figurado, querendo dizer que o gênero hoje dominado pelas duplas de nomes bizarros não presta para nada a não ser afogar mágoas com pouca classe, além de atormentar as pessoas que consideram o estilo um pé bem dado no meio dos bagos.

Vamos voltar no tempo e pensar nas origens do cancionato desse Brasil véio sem porteira. Se as composições são mesmo inspiradas pela realidade do compositor, a vida desse povo era das mais trágicas. Afinal, a realidade expressa nas letras sertanejas mais antigas, na era pré-duplas com mullet, é triste para diabo e vai de bois sacrificados ao abandono romântico – mas com muito mais poesia e originalidade do que suas sucessoras.

Não espalhem, mas todas essas canções listadas aí debaixo cortaram meu coração – não só quando eu as ouvia de pequena, empoleirada no sofá da casa da minha avó, como ainda hoje, quando me deparo com elas sem querer. As cinco mais lindamente tristes – e mais eficientes em me fazer abrir o berreiro (ou enxugar discretamente uma lagriminha, se estiver em público) – estão aí.

5. Chico Mineiro, Tonico e Tinoco
A história de uma viagem feita para negociar gado terminou para lá de mal: além de ter seu parceiro – o Chico do título – assassinado em Ouro Fino, nosso aventureiro ainda descobriu, só depois da desgraça, que o presunto era irmão dele. Miséria pouca é bobagem.

A hora do lencinho: “Fui saber que o Chico Mineiro era meu legítimo irmão”, conclui o infeliz na estrofe final.

4. Menino da Porteira, Sérgio Reis
Ouro Fino é o palco favorito de tragédias sertanejas. Foi lá que um boiadeiro deu falta do garoto que sempre abria a porteira para ele e, ao perguntar para a mãe do petiz o que acontecera, descobriu que um boi mandou o moleque dessa para a melhor.

A hora do lencinho: “Quem matou o meu filhinho foi um boi sem coração”, diz a mulher ao boiadeiro, que jura nunca mais tocar o berrante por aquelas bandas.

3. Romaria, Renato Teixeira
Embora tenha ficado famosa em arranjos mais moderninhos, a música descreve a vida miserável de um certo caipira. A criatura diz que nunca viu sorte, perdeu os irmãos na vida e foi filho de um peão e da solidão.

A hora do lencinho: “Ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida”, implora o homem a Nossa Senhora.

2. Seu Amor Ainda É Tudo, João Mineiro e Marciano
Ok, essa é a mais antiga canção de corno conformado da qual me lembro. Mas quer saber? Acho ótima. Dramática como tem de ser, conta as agruras de um coitado que ainda ama a mulher de quem se separou há tempos. Ele gosta tanto da moça que, às vezes, ainda se pega discando o telefone dela.

A hora do lencinho: “Daquele maldito momento, até hoje, só você”, enfatiza o pobre o quanto tem pensado na donzela.

1. Travessia do Araguaia, Tião Carreiro e Pardinho
Se o boi era o vilão em “Menino da Porteira”, aqui ele é vítima. Pelo menos um deles, que é mandado para as piranhas. O inexperiente ponteiro, praticamente o estagiário da comitiva, fica chocado com a ordem dada pelo boiadeiro mais velho de sacrificar um bovino. Só depois ele entende que essa é a única maneira de passar a boiada pelo rio infestado. Parece a história da sogra do Dino, mas sem humor algum. E sem final feliz.

A hora do lencinho: “Era um boi de aspa grande já roído pelos anos/ O coitado não sabia do seu destino tirano/ Sangrando por ferroadas no Araguaia foi entrando/ As piranhas vieram loucas e o boi foram devorando”. Precisava detalhar tudo, pôxa?


Clara McFly às 09:07 PM


Uma ode a Morfeu

Muita gente diz, principalmente os mais velhos, que “deus ajuda quem cedo madruga”. Pois eu devo estar bem mal na fita do senhor... Tenho horror mortal de levantar da cama quentinha antes do sol estar já um tanto alto. Mas esse, sinceramente, não é um traço de personalidade que eu considere defeito. Parece muito mais natural acreditar que as regras do jogo é que estão erradas.

Deus ajuda quem cedo madruga? Pois o vizinho de uma amiga minha não acha. Ele acordou cedinho um dia desses e foi conferir se o jornal já estava postado na frente de casa. Saiu pela porta, com sua xícara de café pelando, no mesmo segundo em que o entregador arremessou o periódico – que atingiu a caneca de líquido fumegante, que atingiu o bilau do vizinho da minha amiga. Com o pobre peru chamuscado, o sujeito prometeu nunca mais acordar antes das 10h00.

Tá bem, tá bem... É tudo mentira... Esse senhor e sua história triste não existem de fato. Mas bem que poderiam! O episódio é perfeitamente crível – e, se pensarmos bem, veremos que levantar do leito com as galinhas não tem lá muitas vantagens. Os madrugadores defendem que, assim, o dia pode ser melhor aproveitado. Não cola: em vez de acordar às 7h00 e dormir às 22h00, podemos usar o turno das 10h00 às 1h00, e dá tudo no mesmo.

Optando por essa troca de horários, ganhamos bastante. Senão, vejamos: a) os programas da madrugada são mais legais que os da manhã; b) o pulso telefônico noturno é mais barato que o matutino; c) há mais silêncio para ler, ver filme ou trabalhar à 1h00 do que às 8h00 (quando a obra aqui ao lado de casa, por exemplo, começa a Sinfonia dos Infernos). E esses são apenas motivos imaginados de bate-pronto. Posso inventar milhares de outros nessa minha cabeça sonolenta!

Meu pai é um dos humanos que não entende a teoria. Homem trabalhador que sempre foi, ele acostumou a acordar ainda na escuridão e ir dormir nos meados da novela das oito. Isso é o que 33 anos de emprego em indústria podem fazer com uma pessoa. Como ele consegue, não compreendo: para mim, abrir os olhos e ver que o dia não clareou ainda só suscita a manobra de virar para o lado, puxar a coberta e apagar por mais dois pares de horas.

Já precisei levantar antes do raiar do dia, por isso sei como é horrível – e, pelo menos para mim, até hoje, impossível de acostumar. Na minha lista de “Motivos para Desenvolver Depressão Mórbida”, acordar às 6h00 da manhã está na primeira colocação. É revoltante sair do pijama naquele frio da madrugada, por exemplo. Nos tempos de escola, era a morte.

Outro dia li que obrigar adolescentes a entrar no colégio às 7h00 era uma crueldade. Segundo os médicos, o organismo dos jovens precisa de muito sono e não funciona bem logo cedo. Então, finalmente entendi porque dormi em TODAS as aulas de física do terceiro colegial! É contra a natureza fazer criaturas de 16 anos acordarem às 6h00 (ou até antes) para ter aula logo em seguida. Algum deputado pode fazer o favor de defender a molecada no congresso e mudar o período de estudo para das 9h30 às 13h30?

Talvez tudo isso pareça apenas um grande atestado de preguiça para a maioria. Tudo bem, eu sou mesmo fã demais dos braços de Morfeu, o deus do sono. Pode ser, mas não me arrependo disso quando estou entre os lençóis e edredons e travesseiros, embalada pelo soninho gostoso. E se deus for mesmo contra a opinião de Morfeu e decidir não me ajudar por causa disso... Bom, eu tentarei convencê-lo a fazer isso um bocado mais tarde.

Fla Wonka às 02:00 PM


Para brincar e passar medo

Eu sempre achei bonecas de porcelana assustadoras. Aquela face lívida, aqueles trajes rendados cheios de babados e aquele ar de antigamente me faziam pensar em um defuntinho. Todos os exemplares que eu ganhei na minha vida foram passados adiante na mesma hora – jamais ficaria tranqüila em dividir meu quarto com tamanha assombração inanimada, quiçá com uma coleção delas!

Mas não apenas de bonecas genéricas vivia meu medo infantil por brinquedos. O pior deles, como já narrei aqui, foi um pequeno E.T. da Groll que mamãe me deu para tentar “afastar” o pavor que eu tinha daquele alienígena pescoçudo, enrugado e com voz de Dercy Gonçalves. Claro que o boneco só ajudou no trauma, principalmente porque ele ficava me olhando de cima da cômoda.

É por isso que tenho uma certa tendência a acreditar que os fabricantes da indústria de brinquedos gostam mesmo é de pregar peças mórbidas nos pequenos. Assim, acabam por empurrar itens que mais assustam do que divertem. Claro que há gosto para tudo. Mas eu não teria bons sonhos ao lado de algum desses bonecos aí embaixo...

Fofão
É batido – mas não dá para pensar em brinquedos do medo sem citar o boneco. Como se já não bastasse ele ser confeccionado à imagem e semelhança de um personagem por si só assustador, ainda carregava uma famosíssima lenda urbana: para obter sucesso, o ator que interpretava o bicho fizera um pacto com o Coisa Ruim. Em troca, foram enfiadas dentro do boneco velas de macumba – ou punhais.

Gui-Gui
Uma bonequinha linda – pelo menos, na aparência. Ela tinha uma carinha de criança e era vendida como a última moda em tecnologia. Bastava a menina juntar os bracinhos rechonchudos que ela “gargalhava”. Ou melhor: soltava uma risada estridente, assustadora e demoníaca! Toda a inocência ia para o ralo, e de repente a doce boneca soava como uma psicopata com planos sangrentos em mente.

Late Lulu
Esse também foi uma carinhosa cortesia da Estrela. Apesar de ser envolto por pelúcia fofinha, o cachorro em questão era duro feito pedra – já que escondia um mecanismo complicado. Colocando pilha na barriga do bicho (o que já era horrível), ele começava a andar, sentar, latir e... dar uma pirueta! Assustador! Lembro bem que o negócio fazia um barulho de robô para funcionar. Ele foi aposentado loguinho.

Recém-Nascido
De todas as bonecas que a Estrela já lançou, com certeza essa era a mais aterrorizante de todas. Posso falar porque ganhei uma de Natal. Algum gênio teve a brilhante idéia de fazer um bonequinho idêntico a um bebê recém-nascido. E pior: conseguiu! Ele não sabia que bebês assim só são bonitos para a mãe que os pariu? O negócio era feio, enrugado e magricela. Sem falar no umbigo do medo, né? Piada de mau gosto.

Senninha
Meu irmão tinha um e fez questão de doá-lo depressa. Antes da morte do piloto, era apenas um bonecão cabeçudo que falava. Após a morte do piloto, ele era um bonecão ressurgido nos infernos. Imagine que coisa mórbida era olhar para aquilo! Ainda por cima, o troço falava... Bastava apertar a mãozinha para que ele soltasse frases do tipo “Acelera, amiguinho”! Hmmm, melhor mudar de idéia, né, Ayrton?

Sandy Fashion
Quase caí pra trás durante uma visita recente a uma loja de brinquedos. Uma boneca da Sandy já carrega sozinha elementos de terror. Mas este exemplar em questão é demais! É gigantesca – com certeza do mesmo tamanho de uma criança de 10 anos. Já pensou? O mais estranho, contudo, é que ela vem dentro de uma caixona retangular... Ah, desculpe, mas para mim aquilo é uma menina morta. Só falta enterrar.

Furby
Uma mistura de Gremlin com Corujito. Para piorar, o boneco é interativo. Na caixa, uma frase pavorosa: “Furby quer brincar com você”. Eu colocaria o adendo “para todo o sempre”. De qualquer maneira, o bicho dava sustos mesmo em quem o achava bonitinho. Sem mais nem menos, ele soltava um grito – e podia ser no meio da noite. Dica: não tenha brinquedo que fala. Pelo menos não antes de você falar com ele.

grayspotfurby.gif
Quer brincar?
Vivi Griswold às 10:59 AM

quinta-feira, 29 de julho de 2004

Eu era uma criança multimídia

Uma das inúmeras vantagens da idade pueril é ter tudo que você faz aplaudido pelos avós, pais, tios e agregados orgulhosos – exceto, é claro, mancadas como trancar seu irmão num baú ou se comportar mal na frente das visitas, essas entidades místicas a quem o melhor da casa era sempre oferecido. Todos esses aplausos irrestritos me levaram a alçar vôos cada vez maiores (leia-se: pagar cada vez mais micos) nas minhas, digamos, experiências midiáticas.

Depois de recordar outro dia as tradicionais brincadeiras de rua aqui e aqui, pus-me a pensar no que mais me distraía na infância. Entre algumas atividades não exatamente folclóricas, mas também não muito particulares, lembrei-me das aventuras de escritório, navio e outras bobagens.

Foi exatamente aí no “outras bobagens” que recordei da imensa graça que eu via em fazer livrinhos. E revistas. E programas de rádio. E reportagens de TV. E peças teatrais. Ufa! Se essa fase da vida contasse no currículo, eu poderia dizer que sou uma profissional com vasta experiência multimídia. Desenvolvida na infância, claro.

Aliás, por isso mesmo, minha vivência com tais veículos foi muito mais divertida – sem as necessidades de explicação do “conceito” da obra (tem coisa mais chata que obra explicada?) nem pressões sobre a “receptividade da crítica” (tem: crítica) ou a viabilidade comercial do projeto (ah, sim: pior que “crítica” e “conceito”, só mesmo os “negócios”).

E hoje, no meu currículo, eu poderia registrar...

Experiência em ilustração e edição de livros
Títulos: A História de um Rei Mandão Chamado Hadibre, entre outros

Eu fazia todas as histórias em folhas de sulfite dobradas ao meio (o que já dava uma brochura satisfatória para meus padrões) ou em folhas de linguagem, aquelas furadinhas, presas depois com uma bailarina (esse era, basicamente, meu trabalho de edição). Também ilustrava tudo com minha inseparável caixa de lápis de 36 cores – o verde-água e o rosa-choque, meus favoritos, eram sempre os primeiros a virar toquinhos. Só não me perguntem de onde eu saquei o nome do protagonista.

Experiência em redação e edição de revistas e jornais
Títulos: Gut! e Jornal de Casa

Minha irmã, minha prima e eu tivemos a fase do desenho de moda. Vivíamos inventando modelos com roupinhas diversas. Começamos a nos especializar e produzir roupas de várias categorias, como “moda praia”, “moda festa” e “moda infantil”. Depois, desenhávamos uma capa, juntávamos tudo com grampeador e, voilà!, aí estava a “Gut!”, nossa publicação de moda (mais uma vez, não me perguntem porque esse nome). Que Vogue, que nada!

Outra aventura foi o Jornal de Casa, periódico que eu fazia com o requinte de escrever e desenhar sobre um carbono preto, para parecer um jornal de verdade. O conteúdo era basicamente notícias do meu lar-doce-lar, como “Festa de aniversário do João termina com duas crianças arranhadas. Veja a lista de presentes”.

Experiência em rádio
Programas humorísticos diversos

Quando meu pai chegou em casa com um rádio gravador capaz de captar nossa voz sem usar microfone, já fiquei de pestana comprida para a novidade. Não demorou muito para que eu me apossasse do eletroeletrônico paraguaio e começasse a gravar imitações, piadas e karaokês. Bastou o trio que produzia a “Gut!” pilhar-se numa desocupada tarde de sábado em poder do rádio e pronto! Saiu um programa com entrevistas, músicas e quadros cômicos. Bem, pelo menos nós achávamos hilariante uma mulher chamada Claudia Peixe telefonar e pedir a canção “Borbulhas de Amor”. Ok, não é engraçado. Mas na época, pareceu.

Experiência em TV
Rumble! e algumas reportagens

De novo, tudo começou com uma nova aquisição do meu pai: uma câmera filmadora. Tive de esperar um pouco até que minha mãe me deixasse mexer naquela verdadeira geringonça, último modelo da época. Quando tive peso e coordenação suficiente e cartão verde para manuseá-la, pronto! Filmamos uma reportagem dentro das casas em construção na minha rua, no estilo “Comando da Madrugada”. E inventamos um programa chamado “Rumble!”. Dessa vez, não me perguntem do que tratava a tal atração. Não tenho a menor idéia. Só sei que eu gostava de títulos com exclamação.

Experiência em teatro
Peça de Natal

Todo ano, minha mãe preparava uma apresentação para celebrar o Natal. Teve jogral e reencenações do nascimento de Cristo. Até que, em 1990, achamos por bem cuidarmos disso – e fizemos uma surpresa para os adultos. Bolamos o roteiro, ensaiamos a primaiada, confeccionamos os adereços. Tinha interação com a platéia, personagens que iam da então Ministra Zélia Cardoso ao Papai Noel, passando por Sebastian, o garoto-propaganda da C&A, e até um número musical no fim. Chique, não? Não. Era um samba do Natal doido, mesmo. Mas que foi divertido, ah, como foi!

Clara McFly às 08:19 PM


Arqueologia ali na esquina

Ultimamente, tenho a impressão de que preciso usar chapéu de feltro, roupas e botas resistentes, picareta e lupa para encarar... uma visita ao jornaleiro. Haja espírito aventureiro para encontrar, em meios aos periódicos, algo que valha a pena ler – e que valha, ao mesmo tempo, cerca de R$ 8. Felizmente, ainda há esperança para os exploradores de estantes de banca de jornal.

Sendo uma moça, deveria usar o procedimento padrão e ir direto às revistas destinadas ao meu gênero. Mas com qual estômago? Não tenho intenção alguma de passar pela banca e pagar quase 10 mangos por um volume que fale sobre como agarrar homens, maquiagem, como prender homens, biquíni, como amordaçar homens, entrevista com o galã da novela, como achar homem parecido com galã de novela. Chato pacas, credo.

Também já não acho graça nas revistas de variedades. A maioria descobriu que capa “vendedora” é aquela trazendo na manchete “maconha” ou “Jesus Cristo”. Um dia conseguirão, finalmente, unir ambos e cobrir os custos de edição do ano inteiro inventando que Jesus fumava o cigarrinho do capeta...

Mas chega de tanta depressão e rancor. Existe, sim, possibilidade de fazer uma boa compra quando vou à banca localizada bem ali, no final do quarteirão. Na verdade, confesso: tenho medo que, por serem bacanas, espertas, inteligente e bem escritas, estas três revistas abaixo sumam logo do mercado.

É um temor procedente. Revista legal costuma não ter anunciantes, porque o pessoal da publicidade prefere estampar suas marcas em uma edição com a Suzana Vieira recauchutada na capa. Torço para que não aconteça – e, enquanto isso, aproveito a chance de me divirtir bastante lendo esses tesouros escondidos entre estantes.

Revista 10
Está na segunda edição, me parece, mas promete ser um oásis para que aprecia esporte. A rigor, a 10 trata de futebol – só que não se mantém naquele nicho besta de apenas dar resultado de jogo e explorar a mente de jogador cabeça-de-bagre. Já no primeiro número, tive a oportunidade de ver uma matéria com o cidadão que descobriu Diego Armando Maradona, uma bela (sem duplo sentido) reportagem sobre Kaká e várias outras pautas bem sacadas e charmosas. Talvez aquele meu tio barrigudo e cervejeiro, que torce aos berros estatelado no sofá, não goste da 10. Ele pode achá-la “muito enjoada”. Mas eu acho que vale a pena pagar para ter bom texto, ótimas imagens resgatadas e histórias brilhantes do esporte bretão contadas de forma tão genial.

Jornal da História
Para quem acompanha os bastidores da vida de umas tais Garotas que Dizem Ni, isso vai parecer uma tremenda e descarada auto-promoção. Não é, juro. Como jornalistas que precisam juntar alguma bufunfa no final do mês, fazemos matérias para várias publicações – mas a mais querida, verdade seja dita, é o Jornal da História. O motivo? A revista traz bom conteúdo e espírito didático sem se tornar sonífera. Ela nasceu como um filhote da revista Terra, também muito boa. E não é que o bebê superou mamãe? Quer dizer: os apreciadores de história, pelo menos, devem gostar muito. A idéia não é usar aquele texto chato e professoral, mas contar sobre acontecimentos que foram capazes de mudar o mundo. Não é aborrecido, é como ter aulas com um mestre muito bm humorado. E eu adorei saber umas fofocas sobre a vida de Napoleão Bonaparte.

Flashback
É a mais novinha das três – e também aquela com mais chances de vingar, suponho. Afinal, a julgar pelo tanto de malucos que vêm aqui ao nosso site ler sobre o passado não muito distante, a nostalgia está em alta. Como o nome anuncia, a Flashback (cria da revista Superinteressante, que já teve dias mais gloriosos) resgata lindamente os anos 70 e 80. A edição que suguei com os olhos trazia nada menos que os Trapalhões na capa! A matéria, perfeita, relembrou os 30 melhores momentos de Didi, Dedé, Zacarias e do saudoso Mussa. Tem ainda um artigo sobre a Corrida Maluca, mostrando quem mais venceu as carreteiras alucinadas entre Penélope, Dick Vigarista, Rufus Lenhador e companhia. Não é superficial ou fútil como pode parecer a alguns: reportagens sobre a Ilha da Fantasia, Playmobils, a coelhinha Magda Cotrofe e etc são, isso sim, entretenimento inteligente e agregador de alguma sabedoria. E esse é um ótimo motivo para insistir na aventura de explorar os domínios da banca de jornal.

Fla Wonka às 02:55 PM


Eles não servem pra mim

Meninos são incríveis. Uma espécie de gente bem menos descomplicada que garotas. Talvez seja por isso que sempre me dei muito bem com eles. Tive (e tenho) bons amigos homens. Divertidos, engraçados, desencanados. Mas quando saímos do terreno “amizade”, a coisa se complica. Meu tipo de homem é um pouco raro de se encontrar – e você vai saber o motivo.

Minhas restrições, algumas bem extremas, são facilmente esquecidas em uma roda de bar. Não me importo em ouvir um amigo narrar todos os lances do último jogo do Curingão, por exemplo. Mas não suportaria um namorado fazendo isso ao meu lado, com tantas outras coisas mais importantes para conversar ou fazer.

Portanto, quero deixar bem claro que o texto de hoje não tem intenção alguma de ofender algum leitor aí do outro lado. Muito menos generalizar. Afinal, é bom lembrar de que o tal amor costuma chegar nos momentos mais inesperados...

Metaleiros
É fato: não consigo me dar bem com um parceiro que tenha gosto musical diferente do meu. Não apenas diferente – se eu gostar de Beatles e ele de Rolling Stones, beleza. O problema é se eu gostar de Beatles e ele de Megadeth! Não rola, né? Imagine a briga pelo botão do dial no rádio do carro... Aliás, todo o “pacote metaleiro” me dá cócegas: camiseta do Áááááiron, cabelo maior que o meu, calça jeans suja e botinão. Mas calma, queridos roqueiros. Tem coisa muito pior. Como pagodeiros.

Futebol-maníacos
Olha aí uma restrição que lima 95% dos meninos sobre o nosso solo nacional, para a minha tristeza. Um relacionamento com alguém que não fala “oi” quando encontra um amigo, e sim “e aí, perdedor” ou “e o seu time, hein” ou “fala, corinthiano”, teria uma validade muito curta. E dividir o mesmo recinto que ele durante um jogo de futebol, então? Algumas meninas podem até achar excitante ver o parceiro ali, berrando como o homem das cavernas, xingando o juiz ou dando socos no ar. Eu, não.

Malufistas
Daí você me diz: mas Vivi, malufistas são senhores idosos que acham que no tempo dos militares é que era bom! Nananinanão. Há malufistas entre jovens esclarecidos. Na minha classe da faculdade de jornalismo havia um punhado deles. Todos bonitões, bem vestidos, inteligentes. Bem, nem tanto. O fato é que o gosto político conta muito para mim. Não que eu seja super politizada ou algo parecido. Só tento não dar meu voto a picaretas – e teria insônia de saber que meu namorado o faz.

Sujinhos
Gosto de meninos desencanados com moda. Mas isso não quer dizer que gosto de meninos completamente alheios ao visual. Ser desencanado é usar camiseta branca, calça jeans e tênis All Star. Porém, tudo limpo e cheiroso – inclusive o próprio. Não precisa usar roupa de grife, fazer manicure (credo!) ou ficar checando o visual em todos os espelhos que encontrar pela frente. Basta gostar de um bom banho. E fazer questão de tomar um antes de se encontrar comigo, é claro.

Mauricinhos
Meninos nascidos em berço esplêndido, com carro importando ganho do pai ao entrar na faculdade, emprego garantido na empresa da família, dinheiro saindo por todos os poros, cabelo e roupas engomadas, sorry. Gosto de rapazes trabalhadores, que sabem direitinho quanto significa o salário no fim do mês. Que suaram para garantir um bom emprego e comprar um carro legal. Que consigam encontrar valor em pequenas coisas. Gente que tem tudo de mão beijada dificilmente consegue.

Intolerantes
Nessa panela de intolerância entra tudo de ruim. Como um cara que tenha preconceito de qualquer espécie. Ou que tenha aquela mentalidade de “bandido bom é bandido morto” e “direitos humanos para humanos direitos”. Ou que carregue qualquer arma de fogo e xingue no trânsito. Arrisco colocar aqui também os extremistas religiosos, seja qual for a crença. Como eu não tenho religião formada, seria um alvo fácil para ser “convertida” pelo namorado. Já pensou? Cruz credo!

Anti-bichos
Está fora de questão tentar ter um relacionamento saudável com um garoto que acha divertido atirar pau no gato, literalmente falando. Ou chutar cachorro. Ou atirar em passarinho. Não exijo que o cara ame os animais como eu amo, mas que não maltrate e respeite o meu posicionamento quanto a isso. Há poucas coisas que conseguem me ganhar mais do que ver um namorado fazendo festa a um cachorrinho, ou brincando e acariciando qualquer um dos meus gatos.

Fumantes
Tenho muitos amigos fumantes, entre eles uma bem querida. Tudo fica às mil maravilhas, até que um resolve acender aquele cigarrinho dos infernos. Eu consigo tolerar um ou outro. Mas conviver com alguém que fuma seria impossível para mim. Imagino a cena: eu chegando a um encontro, de banho tomado, toda perfumada. O cara abre a porta do carro para eu entrar e vum! sai aquela névoa de fumaça fedida. Agora pense em dividir uma casa (e uma vida) com um fumante. Não dá.

Baladeiros
Aí vamos entrar em um estilo de vida completamente diferente. Assim como baladeiros seriam um pesadelo para mim, eu sou o maior pesadelo para eles. Odeio trocar o dia pela noite. Odeio passar horas em um lugar cheio de gente, de barulho, de fumaça. Fazer isso uma vez ou outra, ok. Mas todo fim-de-semana... Gosto de curtir minha casinha, de alugar um filme e comer pipoca no sofá aconchegante. E sair para jantar num restaurante tranqüilo e pegar um cinema. Diz aí: tem coisa melhor?

Ah, antes que perguntem: sim, encontrei um garoto com bom gosto musical, que ignora futebol, que odeia o Maluf, que é cheiroso, trabalhador, inteligente, talentoso e educado com as pessoas, que é carinhoso com bichos, que não fuma e que gosta de curtir o sofá comigo. Aliás, o nosso sofá, né, Mr. Griswold?

Vivi Griswold às 10:06 AM

quarta-feira, 28 de julho de 2004

Ela é muito liule

É sabido pelos leitores mais assíduos desse sítio que eu adoro ter irmãos – um monte deles, aliás. Seja para irritá-los ou para falar coisas boas a respeito desses maletas que invadem nossa vida e nos acompanham pela vida toda, sem possibilidade de escolhermos... ou não. Dos meus quatro irmãos, dois meninos e duas meninas, uma eu escolhi. E depois de bem grandinha.

A Rê tem um nome difícil de acertar de primeira: Regilaine. Não é Regiane, nem Regislaine. Junte a isso um segundo nome; ela, como eu, tem chamamento duplo – que vai permanecer devidamente secreto.

Ela é a criatura mais fiel aos amigos que eu conheço. Também é sincera e muito sociável - o que a torna excelente companhia para qualquer parada, de um encontro de jipeiros a uma festa na casa dum diplomata italiano; de bate-e-voltas para a praia a corriqueiras compras no shopping. Acredite-me, ela já fez tudo isso.

Como se não bastasse, a moça cozinha bem para caramba (prepara até brownies – e não daqueles de caixinha), dorme em qualquer superfície horizontal onde encostar, é distraída até dizer chega, acompanha novelas, entende o que eu quero dizer só pelo olhar e sempre me faz morrer de rir. Isso porque, entre outras cumplicidades de irmãs e bobeirinhas internas, a Rê tem um vocabulário muito próprio.

E bota próprio nisso. Alguns dos termos são cunhados pelas amigas meio doidas que ela tem, mas ganham uma entonação e um sentido todo especial quando pronunciados pela bela – que aniversaria hoje. Portanto, preparem-se e me digam se vocês já viram alguém sacar de...

Liule
Ainda não consegui definir se é um substantivo masculino ou feminino. Quiçá um adjetivo ou advérbio, ou mesmo uma interjeição. Na linguagem da moçoila, “liule” serve para chamar alguém (ex.: ô, liule!) ou para definir um estado de espírito (ex.: eu estava lá, toda liule).

Oi!
Regi transcendeu o sentido desse cumprimento e utiliza a minúscula palavra para responder a teoricamente qualquer pergunta. Você pode estar conversando com ela e perguntar “e aí, foi lá na 25 de Março comprar as coisas?”, ao que ela exclamará: “oi!”. Então tá.

Funk loser
Sabe Deus de onde veio essa. Mas o fato é que pegou – pelo menos no nosso círculo de amizades. Agora, quando queremos falar que alguém fez uma trapalhada ou bobeou em alguma coisa, a expressão natural é classificá-lo como um “perdedor do funk”. Vai entender...

Paspalho
Tá certo que essa palavra existe, está nos autos do Aurélio e tudo. Mas convenhamos: quanto tempo faz que você não ouve nenhum ser humano lançar mão desse verbete? Pois Rê é mestra em desenterrar expressões do “arco da velha” – provavelmente ela usa essa última também.

Meeeentira!
Outra palavra comum, mas dita com uma entonação toda particular por minha irmã de fé, amiga camarada. Servia como interjeição de espanto, porém depois de um tempo foi tão repetida que podia ser a resposta às mais simples frases, como “Rê, hoje eu fui trabalhar de metrô”.

Tum
Espécie de blá-blá-blá. Serve para resumir as histórias ou enfatizar um movimento, como por exemplo: “aí eu fui e, tum!, já falei tudo mesmo”. Ou “cheguei lá e não conhecia ninguém, mas – tum! – já me enfiei num grupinho”.

Eu não disse que ela é sincera e sociável? E que eu adoro essa menina, eu já disse? Pois então, fica dito. Feliz aniversário, liule!


Clara McFly às 06:23 PM


Dobradinha de risadas

Música sertaneja não é, nem de longe, a que eu mais gosto. Muita gente ainda defende aquela do estilo raiz, caipira mesmo, acompanhada de viola e sotaque. Tudo bem, essa até acho engraçadinha – mas daí a botar para rolar no som, não mesmo. Ainda assim, confesso nutrir uma grande curiosidade para com o meio. Já notaram o nome daquelas duplas? É riso pra mais de metro, sô!

Comecei a perceber esse fenômeno por causa da minha vó. Para a Dona Ondina, era deus no céu, Jânio para prefeito e Sérgio Reis no toca-fitas. Ela adorava o estilo do homenzarrão cantar “Menino da Porteira”, por exemplo. Também ouvia muito a Inezita Barroso – e não perdia um “Som Brasil”, com o Rolando Boldrim sendo embalado pelo “Amanheceu/ Peguei a viola/ Botei na sacola/ E fuuui viajar”. Lá é que reparei, de primeira, nos nomes de duplas sertanejas.

Tonico e Tinoco foram os pioneiros. Ainda atuavam no esquema mais simples, de cantar música com história bacana – e não aquela toada de corno feita hoje em dia – e combinar os apelidos pela letra inicial ou sonoridade. Ficava meigo, inocente, engraçado e bastante abobado. Só isso já garantia certo sucesso à dupla, porque essas são qualidades que o povo do campo reconhece.

Logo depois vieram outros sujeitos ainda mais brincalhões. Onde já se viu, arrumar um parceiro de cantoria e se auto-intitular João Mineiro e Marciano?! O João, imagino de onde veio. Já o Marciano... Com aquela cara, não duvido que tenha fugido de alguma nave criada pelos homenzinhos verdes de além-espaço.

Milionário e José Rico também entraram nessa seara. Provavelmente, queriam chamar o sucesso na marra, já agregando uns cifrões aos nomes. Até onde sei, ganharam mesmo um dinheirinho (bom, pelo menos deu para comprar o monte de cordões dourados que ambos carregavam no pescoço). Um deles partiu desta para uma melhor, mas a nomenclatura da dupla permanece comentada. Viu como deu certo?

Nos tempos modernos, a criatividade para escolher os nomes anda rara. Leandro e Leonardo não pensaram mais que quatro segundos ao optar pelo seu. Fizeram até uma “escola do mal”, incentivando a criação de outros insossos Gian e Giovani, Marlon e Maicon... Credo, que chato! O que Pena Branca e Xavantinho diriam sobre isso?

Chitãozinho e Xororó também não é nome dos mais inventivos, mas passa. Apelar aos pássaros ainda é melhor do que manipular o próprio chamamento e criar um Frankenstein auditivo como Zezé di Camargo e Luciano! “Di Camargo” por quê, hein? Foi uma tentativa de imitar o Da Vinci? Mas ele não nasceu em Camargo, que eu saiba, e sim em qualquer lugar próximo de Goiânia.

Dentre os novatos, Rio Negro e Solimões só não podem ser acusados de cair na mesmice. Ir até a Amazônia buscar nomes de leitos d’água foi corajoso. Ainda mais para um moço que não deve ter mais que 1,50 m de altura! Será que ele é o potente Rio Negro ou o violento Solimões? E de onde teria vindo tanta mania de grandeza?

Mas a melhor dupla, aquela que carrega consigo o mais espetacular nome dentre todos, é sem dúvida... Teodoro e Sampaio! Haja criatividade. Teodoro Sampaio, vejam só, foi um célebre engenheiro e explorador dos interiores do Brasil. Construiu hidrelétricas, mapeou regiões, descreveu até fauna e flora por esse mundo velho sem porteira. Daí, como marca na história, virou dupla sertaneja!

Para mim, a escolha desse nome é um sintoma de bom humor. Por obra do acaso, pode ser que eles se chamem mesmo Teodoro e Sampaio, vai saber... Mas prefiro acreditar que os tios usaram a máxima de que “o sertanejo é, antes de tudo, um forte piadista”. Preciso começar a ouvir mais essa turma. Eles devem ter ótimas histórias a nos contar.

TeodoroESampaio.jpg
Não é mesmo 'tudo de bão'?
Fla Wonka às 02:33 PM


Eu já usei

Em todos estes anos nesta indústria vital, como diria Clark Griswold, eu aprendi que modismos são traiçoeiros. Acompanhá-los cegamente implica em um grande risco de arrependimentos futuros – principalmente se houver uma foto como testemunha cruel do seu passado. O problema é que cada um de nós caiu em pelo menos uma arapuca dessa estirpe. Eu já. Em várias.

Quando se é criança e adolescente torna-se muito mais fácil aderir a um determinado estilo que todo mundo está usando. Na fase infantil, temos a desculpa de que não fazíamos a menor idéia do que é ou não é bonito. Na fase adolescente, bem, acabamos indo na onda de amigos só para nos camuflarmos na multidão e pertencermos a um grupinho específico.

Pois agora só me resta arrumar tais justificativas esfarrapadas por ter usado 10 dos itens mais horrorosos que a moda já viu...

10) Batom paraguaio 24 horas
O tubo era verde com uns desenhos em dourado. O batom, em si, também era verde! A gente passava e... nada. Só depois de um certo tempo que o vermelho escarlate aparecia com tudo – assim como o borrado em volta da boca. Afinal, como acertar o contorno de um batom transparente? Ficar parecido com o Bozo não tinha graça alguma.

9) Vestido trapézio
Ah, que idéia genial do final dos anos 80. Como ninguém pensou nisso antes? Um vestido que te deixa com aparência de botijão de gás! Pelo menos o da minha avó, que tem roupinha. Era um traje que simplesmente não contava com aquela coisa saudável e de bom gosto chamada “cintura”. Até eu, um palito ambulante, ficava imensa.

8) Franja
Não que eu vá falar mal de franja. Aliás, tenho a maior dor de cotovelo do mundo por não ter tido uma decente. Acho a coisa mais linda aqueles cabelos lisérrimos, escorridos, com uma franjinha moleca. Acontece que todas as minhas tentativas foram frustradas. Eu cortava, e as pontas das madeixas enrolavam. Ficava muito, muito feio.

7) Calça baggy
Um dos terrores dos anos 80: uma calça jeans cuja cintura chegava até perto do busto. Como se não bastasse essa característica pavorosa, a peça tinha pernas largas, porém barras justas. Ou seja, ficávamos parecendo uns palhacinhos. E eu, para completar o visu dos infernos, ainda usava camiseta largona por dentro. Que noção!

6) Tênis de couro branco
O tênis, em si, não era tão terrível. Pensando bem, posso dizer que até o achava simpático, com aquele couro branco que só permanecia assim no momento da compra. O negócio entornava quando mamãe me presenteou com um Nike desses dois números maiores que o meu, para “eu crescer e não perder”. Pior que usei assim mesmo.

5) Camisa larga xadrez
Chegamos nos anos 90, com o movimento grunge a mil por hora. Engraçado é que eu nunca gostei de Nirvana, muito menos de Pearl Jam e todas as outras bandas da panelinha. Mas que eu usei as camisonas de flanela xadrez, bem, eu usei. Ficava suuuuper linda, principalmente combinando com um par de coturno pesado. Chiquérrimo.

4) Legging com minissaia
Mais um hit dos anos 80 que pegou como catapora no jardim de infância. E eu que achava que a combinação pouco atrativa tinha sido enterrada pelas areias do tempo, me enganei: o legging surgiu do purgatório novamente! Copiar um erro é ruim, mas repeti-lo... Terrível. E eu duvido que alguma sobrevivente da primeira leva vai voltar a exibir o conjuntinho.

3) Cabelo repicado
Meu cabelo é um troço estranho. Quando nasci, ele era liso e preto. Nos meus primeiros anos de vida, ele era liso e loiro. Na pré-adolescência, ele era crespo e escuro. Agora deu uma alisada novamente. E qual foi a época em que escolhi repicá-lo? No momento crespo e rebelde, lógico! Olha, não ficou bom nem na cabeleireira, só para dar idéia.

2) Ombreiras
Ao lado das calças baggy, as ombreiras foram as piores pragas dos anos 80. Não entendo o que há de atrativo em uma mulher que fica com o pescoço consideravelmente mais curto e ombros de jogador de futebol americano. Bem, alguém devia concordar, porque as almofadinhas estavam em todos os lugares. Até em camisetas!

1) Sapatilha com solado de pino
Nenhum dos itens acima me envergonha mais do que este. Porque não era moda. Nunca foi. É apenas um sapato extremamente feio. E nem confortável, pois eu me lembro bem de ter de usar meias com ele. Agora imagine esse calçado, com aquele solado e aqueles “sininhos” enfeitando a parte de cima, combinados com meia florida.

sapato.jpg
O horror, o horror
Vivi Griswold às 10:13 AM

terça-feira, 27 de julho de 2004

O livro da discórdia

Brigas dramáticas, provocações irônicas, furtos sem razão aparente e distúrbios de toda sorte. É a trama da mais nova novela mexicana? Não, não: estou apenas falando do livro de reclamações do meu condomínio, por cujas páginas, repletas de intrigas, tive o prazer de passear no último sábado – quando fui registrar nos autos a visita do Mickey aqui no lar-doce-lar.

Num micro-bairro com 160 casas, qual a chance de todos os moradores serem sensatos e tranqüilos? Menor do que a probabilidade da depilação com aquele creme estranho realmente funcionar. Eu já sabia disso antes de me mudar para cá – e tentei me preparar psicologicamente para minha primeira experiência em moradias mais ou menos coletivas, já que desde que me lembro sempre morei em casas com quintais próprios.

Viver em sociedade é uma arte. Imagina viver em condomínio, espécie de sociedade disposta num terreno mais apertadinho. Só podia dar bobagens a rodo, mesmo. Como, por exemplo, o misterioso roubo das torneiras – um dos registros do tal livro, que fica na portaria à disposição dos moradores para reclamações, requisições, avisos (como o de que apareceu um roedor na sua casa) e pitacos na vida alheia (esse último item não estava propriamente entre as funções originais do caderno, aposto).

Diz a nota que as torneiras do tanque e da pia da cozinha de duas casotas foram surrupiadas. Quem, por Deus, quereria afanar torneiras? E da pior qualidade, ainda por cima. Depois de ler tais parágrafos, estou sempre de olho nas minhas. Além disso, o bizarro fato fez o sumiço do garfo perder o posto de maior mistério aqui das redondezas.

Mas ter sua torneira levada pelos amigos do alheio não é o pior que pode acontecer aos moradores desse condô. Vários outros registros no livro dão minuciosa conta de carros que estavam parados no estacionamento sem o devido crachá de autorização. Detalhe: nenhum dos reclamantes teve um desses veículos estranhos parado na sua vaga. Ou seja, deve haver um grupo de vigilantes do estacionamento, verdadeiros heróis que, em vez de se preocupar com a própria vida, ficam a espionar onde os vizinhos param seus carros. Que gente abnegada, não?

A única queixa justificável que encontrei por ali foi a de uma senhora cuja vizinha de cima acreditava ser o gramado em frente às casas um imenso cinzeiro. A pobre contou 17 bitucas de cigarro atiradas à grama – e canetou o ocorrido no livro. Tudo bem que, se fosse comigo, primeiro acharia por bem tentar falar direto com a chaminé ambulante. Depois, caso a conversa não surtisse efeito, aí sim eu apelaria para aquele cadernão.

Se ainda assim a sócia da Philip Morris continuasse a tentar cultivar uma plantação de tabaco nos jardins comuns, o próximo passo natural seria conversar com uns contatos e fazer a maledeta acordar ao lado de 20 cigarros decepados – o ideal seria uma cabeça de cavalo, mas acho que a moça não teria um eqüino disponível aqui nos parcos espaços do condô.

No entanto, a melhor pérola do Grande Livro da Chiadeira, das Mesquinharias e da Pegação no Pé Alheio é mesmo a discussão sobre a piscina. Aparentemente, tal atrativo só é liberado para os moradores ou para visitantes menores de 12 anos (não me perguntem). Quando um morador deu uma festa no salão, conjugado à piscina, alguns convidados maiores de 12 resolveram molhar o corpinho – é o que afirma outro distinto cavalheiro residente deste conjunto habitacional do barulho.

Ao ler a reclamação, o morador responsável pela festa esclareceu que o povo que se jogou na água eram seus familiares, também domiciliados neste endereço. Portanto, tinham direito ao uso da piscina. Mas não deixou por menos e chamou o reclamante de “Zé Povinho”.

Achei que o dono do festerê tinha apelado um pouco. Porém, mudei de idéia logo que li a nota seguinte. Lá estava o “Zé Povinho” dando sua tréplica. Afirmava que os banhistas eram visitantes, sim – e ele tinha até fotos (!) para provar. Quer os foliões piscineiros fossem moradores, quer não, dou ganho de causa ao dono da festa. E ainda por cima processo o Zé Povinho por assistir demais ao “Big Brother”.

Clara McFly às 06:54 PM


Corra do intervalo!

Sou portadora da síndrome do zapping. Deu a hora do comercial na televisão, aciono as teclas do controle remoto sem dó nem piedade dos publicitários. Sim, até consigo lembrar boas peças de “reclame”, como diria a minha saudosa vovó. Hoje em dia, porém, é muito mais fácil se aborrecer com o intervalo e ter vontade de jogar uma bigorna na tela ao ver surgir as mais odiosas propagandas.

A que me recordo de bate-pronto é aquela estrelada pela top model Ana Hickman. No comercial, ela está ocupadíssima com as colegas dentro de uma loja. A moça atende o celular, fala com sua agente e dispensa um contrato para propagandear carro compacto. Mas não basta dizer “não”. Ela sugere o plano de ação: “ai, diz qualquer coisa, fala que eu fui pra Nova York”. Putz, que chata! E me explica: por que uma garota tão feminina tem aquela voz de travesti?

Curioso é que a mesma fábrica de automóveis responsável por essa peça bocó, a Volkswagen, tem outra forma de apresentar o carro. Muito mais divertida, por sinal. Acompanhado de um bando de amigos, um moço (péssimo cantor) entoa os versos da adorável música “Sunny” – mas cantando tudo errado, indo ao fundo do poço no refrão “Mamy... I love you”. Hilário! E daí vemos claramente a bênção das 4 portas, para escapar da mala-cantante. Muito melhor que a pentelha Hickman esnobando trabalho.

Outra que me tira do sério é aquela do sabão em pó Ariel, que remove de tudo, até história esportiva. A mãe empresta a camisa da Seleção de 82, que o pai guarda com carinho, para o moleque ir à escola. O peste emporcalha a preciosa, mamãe decide lavar a roupa com o sabão milagroso que elimina até manchas criadas por Chernobyl. E o autógrafo de um craque segue ralo abaixo! Se é meu cônjuge, eu esfolo vivo.

Comerciais de produto de limpeza e comida, em geral, apostam na união familiar para nos ludibriar. Enquanto você presta atenção nos bebês e filhotinhos de cachorro, engole a mensagem sorrindo. A tática se estendeu até os cartões de crédito, aliás. Já viram a nova do Credicard? Tão doce! Toca a musiquinha falando “mochila, lancheira, uniforme, calcinha, um pé de cada meia, agasalho, xampu...”. Foi uma graça da primeira vez. Na segunda também, vai. Agora que já vi 324 vezes, mudo de canal assim que ouço “mochil...”. Enjoa rápido, sabe?

É como a nova investida do xampu Dove. Usando a música “Diariamente”, de Nando Reis e Marisa Monte, eles fazem uma explicação das propriedades do cosmético. E das filosofias da vida. É uma espécie de propaganda do cigarro Free, com aquelas colocações conceituais e blá blá blá blá blá. Zzzzzz....

Às vezes, é melhor mesmo deixar toda essa enrolação de lado e apostar no humor. Ou não. Os remédios andam apelando tanto ao riso que só conseguem é deixar a todos constrangidos. No cinema, outro dia, vi a peça de um spray para garganta. Um astronauta tinha dificuldade de se comunicar com a central de comando porque seu gogó estava irritado. Ah, faz favor... Cenário tosco, ator ruim, idéia péssima! Metade da sala ficou muda, metade soltou um muxoxo de impaciência.

Mas a raiva máxima com propagandas de tv acontece na entrada feita pelo Banco Real ultimamente. A fim de apresentar um tal Serviço Van Gogh, usaram um texto horrendo. Na prática, diz que tem direito a agências bonitas, cafezinho e atendimento personalizado aquele que... possui mais dinheiro. Poxa, coisa mais preconceituosa, indecente, elitista! Safadeza mesmo mostrar na televisão aquilo que 99% dos clientes não pode ter – esta escriba incluída aí.

Tenho certeza que Vincent Van Gogh odiaria emprestar seu nome para uma idéia tão esdrúxula. Tendo vendido apenas um quadro durante toda a vida, ele provavelmente não seria convidado a usar o pomposo Serviço Van Gogh. É por isso que eu me recuso a ver esse desfile de bobagem na tv. O melhor amigo do inconformado é o controle remoto.

Fla Wonka às 02:16 PM


Cola, papel e tesoura

Antes de começarmos, anote aí o material para o texto de hoje, leitor: um tubo de cola branca atóxica, daquelas boas para fazer meleca; papéis coloridos de todas as espécies, como papel-espelho e jornal; finalizando, uma tesoura pequena sem ponta para não botar em risco os olhos dos coleguinhas. Ah! Não se esqueça também de pedir sempre a supervisão de um adulto.

Eu adorava as listas de material para aulas de educação artística ou quadros de programas infantis que tentavam ensinar arte aos telespectadores mirins. Normalmente, elas eram curtas e simples: não podiam faltar esses três ingredientes, além de outros poucos badulaques. Tenho saudades de passar a tarde compenetrada na deliciosa atividade de recortar e colar. Ou apenas recortar. Ou apenas passar a cola na mão, esperar secar e então tirar as casquinhas como uma segunda pele.

É por isso que hoje eu presto uma homenagem a esses produtos baratos que, sozinhos ou acompanhados de outros, me ajudaram a brincar, melecar, criar e ainda por cima receber elogios de parentes!

Cola

Tem coisa mais gostosa do que fazer colagem? É praticamente uma terapia para crianças, comparável ao tricô para as velhotas. Claro que os pequenos não podem manusear aquelas agulhas grossas e pontudas – mas podem se esbaldar no ato de passar cola em qualquer coisa.

Já contei aqui que minha paixão nas aulas de educação artística era a lantejoula. Chegava a enfiava os belos círculos furta-cor não apenas em desenhos, mas em trabalhos de outras matérias “sérias”. Bem, todos eles precisavam de uma capa, certo?

Era gostoso também escrever o nome com o bico da cola, jogar pitadas de purpurina em cima e, com o excesso limpo, ver a palavra brilhando em cores. Mais gostoso ainda era fazer um desenho a lápis e depois ir acompanhando o contorno com macarrões. Vai dizer que nunca fez colagem usando esse ingrediente culinário de várias formas e cores? Não sabe o que perdeu!

Papel

Como viciada em papelaria, não podia ficar indiferente àquelas pilhas de pura celulose! E cada uma tinha a sua característica. O papel-espelho sempre foi a melhor opção para fazer dobraduras. Depois de cortado um quadrado perfeito – por que as dobraduras sempre começam com quadrados perfeitos? – conseguia fazer a folha virar flores, bichos ou objetos, de acordo com minha vontade. A dobradura favorita sempre foi o sapo que pulava.

O papel laminado, brilhante que só ele, era ideal para colagens de céus reluzentes de astros. Estrelinhas recortadas em dourado serviam inclusive para a professora da E.E.P.G. enfeitar minhas lições caprichadas. Colando duas estrelas maiores em um canudinho, plim!, tinha uma varinha de condão. Ou poderia fazer uma coroa de princesa cheia de pedras preciosas.

O papel favorito da minha infância não era vendido em papelaria, e sim em bancas. Fazer chapéu de jornal era incrivelmente divertido – principalmente porque ele ficava sempre frouxo e torto na minha cabeça, fazendo-me ficar com cara de louca. E soltar barquinhos de jornal na enxurrada, então? As frágeis embarcações tinham pouco tempo de vida útil. Mas valiam cada centésimo de segundo!

Tesoura

Se eu pudesse, seria uma Viviana-Mãos-de-Tesoura, de tanto que o objeto de corte conseguia me alegrar. Nenhuma revista em casa permanecia inteira. Era só mamãe largar um exemplar em cima do sofá e lá ia eu recortar as gravuras mais bonitas. Cheguei a dizimar uma coleção de National Geographic do meu pai, e isso não é motivo de orgulho.

Quando alcancei o feito de recortar as menininhas de mãos dadas, nossa, foi uma glória – capaz de deixar no chinelo a vez em que aprendi a trançar com as franjas do cobertor Parahyba. Era só dobrar uma folha de sulfite várias vezes em forma de sanfona, desenhar uma menina (com o cuidado de deixar um dos braços encostados na extremidade da dobradura), e meter a tesoura. Depois, pintava a carinha de cada uma delas.

Minha capacidade com o instrumento, porém, era testada mesmo quando eu ganhava aquelas bonecas de papel. E nossa, como eu ganhava aquilo (hoje desconfio que era desculpa da minha mãe para brincar também). Em um papel cartão, vinha desenhada uma boneca só de lingerie. Ao lado dela, vários modelos de roupas, desde vestidos de festa a trajes de banho. Ainda vende? Eu quero muito uma.

bonecasdepapel.jpg
Vivi Griswold às 09:56 AM

segunda-feira, 26 de julho de 2004

Quem canta um conto...

Ah, os 80! Como acontece com todas as décadas, o oitentismo está sendo revivido depois de 20 anos. Com a perspectiva que só o passar do tempo é capaz de dar, voltamos agora os olhos para aqueles anos em que ombreiras eram legais, os Trapalhões estavam na TV e bandas nacionais estouraram contando histórias para lá de bizarras.

Sim, sim. O mesmo passar do tempo que dá saudades e faz a gente olhar com carinho para o pogobol e o Detetive também fornece um pouco mais de senso – e nos faz perceber que alguns dos produtos dos anos 80 eram mesmo esquisitos. Especialmente aqueles veiculados pelo rádio.

Não sei se era o uso desregulado de tóxicos (lê-se tóchicos) ou daquela água declinada por passarinhos, mas as letras de alguns dos maiores sucessos da década contavam histórias para lá de malucas. A começar pela inesquecível, insubstituível e inestimável “Eu Não Matei Joana D’Arc”.

Vai ver era apenas senso de humor – e uma saudável disposição das bandas para não se levar a sério (o que faz falta no cenário atual). No fim, que outra década garantiu histórias musicadas como essas?

Acidente de avião legal
Em “Perdidos na Selva”, a Gang 90 narrava as delícias de embarcar numa aeronave que dá pane e cai no meio do mato. O que pode ter de legal nisso? Ah, sim: o rala-e-rola no matagal, depois. Acho que eu não gostaria nada de estar num avião em queda. Quanto mais num avião onde pessoas cantem “eu e minha gata rolando na relva/ rolava de tudo”.

A Metamorfose metamorfoseada
Só mesmo os Inimigos do Rei para transformar o pesado e delirante “A Metamorfose” (clássico de Franz Kafka em que um homem acorda transformado numa enorme barata) em algo leve e... mais delirante ainda. “Uma Barata Chamada Kafka” descreve o delicioso episódio do encontro entre um homem e uma cucaracha cheios de coisas em comum – do gosto por batida de limão ao mesmo signo.

Só pode ser a Mirtes!
Imagina aquela tiazona de subúrbio que sai na rua de bob com lenço por cima e desconfia que o filho do vizinho anda “cheirando maconha”. Pois essa, além de ser a Mirtes, também é a protagonista de “Mamma Maria” – aquela canção que parece ter sido gravada numa churrascaria, assinada pelo Grafite. Os versos falam da tal Mamma, que nunca deixa a filha namorar em paz – ela até manda a menina levar o irmão quando sai com o paquerinha!

Uma punk na Alemanha
Supla, o rebelde mais bem-educado e gente boa do mundo, pisou na Alemanha e topou com uma misteriosa garota – capaz de desaparecer numa piscadela – na capital do país. A história do encontro ficou registrada em “Garota de Berlim”. Se a menina era mesmo a Nina Hagen, eu correria três dias e três noites sem olhar para trás. Eu morria de medo dessa mulher de cabelo estranho, que passou boa parte da estadia no Rio mostrando a língua na janela do hotel.

Troca-se batatas fritas por sexo
Deixa ver se entendi: a excelente “Você Não Soube me Amar” conta a história de um casalzinho que se conhece por aí e sai para trocar umas idéias numa mesinha de bar. A certa altura, depois de pagar batatas fritas para a moça, o rapazote saca de algo do tipo “olha, o papo tá bom, mas seria bem mais legal se você tirasse a roupa”. É isso?! Por essas e outras que nunca haverá uma trupe como a Blitz...

Lavando roupa suja no portão
Sabe a clássica narrativa sobre a mocinha que acaba “prestando serviços” para o patrão, digamos, fora do ambiente de trabalho? Então. Dr. Silvana e Cia. imortalizaram tal crônica em “Serão Extra”. Os versos explicam como a senhorita se viu em maus lençóis ao chegar em casa depois da “hora extra” e encontrar sua mãe esperando no portão, cercada por toda a vizinhança – que tentava defender a moçoila cantando em coro “ela foi dar, mamãe!”. Surreal.

Cosmonautas, nuvens e narizes azuis
Aproveitar um acidente de avião para dar uns malhos, ser defendida pela vizinhança quando você saiu com o chefe ou topar com uma barata estranhamente semelhante a você são casos surreais, mas a esquisita viagem espacial cantada pelo Nenhum de Nós em “Astronauta de Mármore” bate todas – e, desconfio, não era para ser engraçada. Mas é. O cara voltou tão puro do céu que solta frases desconexas, como “as nuvens queimam o céu, nariz azul-ul-ul”. Melhor viajar de volta, filho. E parar de abusar do oxigênio puro.


Clara McFly às 06:09 PM


Vocação para saco sem fundo

Vocês já tiveram a sensação de adorar loucamente uma comida? Eu e meu estômago temos sempre. Com relação a certos artigos, tenho a ligeira impressão de que, se cobrirem um campo de futebol com estas delícias, eu posso comer tudo. Não é exagero, não. Encham o gramado do Maracanã com elas e venham me testar!

Pode ser que nem todos concordem com os meus “10 Mais Vícios Para Petiscar” e emitam um sonoro “blé!”. Querem saber? Ainda bem. Se vocês fossem adictos como eu destas coisinhas, o preço de tudo isso ia explodir. O mercado não aturaria tantos viciados atacando em conjunto.

10) Castanha de caju
Descobri recentemente essa sanha consumista pela castanha da fruta gostosa. Meu pai esteve morando em Natal, Recife e São Luís do Maranhão nos últimos anos, e toda viagem de volta era acompanhada por quitutes das terras de lá. A castanha vinha em sacos de 2 kg – e, mesmo assim, têm curta duração quando eu os alcanço. É compulsão, eu sei.

9) Amendoim
Mas não serve qualquer um. Cru, nem pensar. Com casca, é só por diversão de assoprar longe aquelas partículas com cheiro de terra e cor de vinho. O mais gostoso é o torrado, salgado, de preferência em estilo japonês. Do que será feita aquela carapaça? Uma massinha com temperos e substância controlada por farmacêuticos?

8) Pipoca
Acontece mais no cinema, claro. Mas mesmo tendo acabado de almoçar, é sentir o cheiro da pipoca e morrer de vontade. Em outros lugares, porém, o problema é igual. Em um antigo emprego, as meninas da redação esperavam bater 18h00 para correr ao microondas com aquele saco de pipoca pronta. E daí que eu ia jantar logo? Passa a branquela pra cá!

7) Tomate seco
O produto natural já me atiça o paladar. De noite, quando dá um princípio de fome, é satisfação garantida apanhar um tomate na gaveta da geladeira, lavar, cortar em gomos e lascar sal no danado! A versão mais em moda, seco e cheio de azeite, também é bastante atraente. Mas nessa eu regulo um pouco, senão a dor de barriga se tornará iminente.

6) Pão de queijo
Antigamente, minha mãe fazia em casa. Era uma meleca sem fim unindo polvilho e mais um monte de ingredientes. Daí uns senhores espertões inventaram o modelo congelado, para preguiçosos gulosos como eu aqui. Coloca-se as bolinhas no forno, espera-se 30 minutos e voilá! Bem podiam fabricar pacotes com 350 unidades, não?

5) Empadinha
Eu sei fazer torta de frango desfiado e de palmito. É quase a mesma coisa que vai na empadinha. Não entendo por que, no entanto, as porções reduzidas e cobertas de massa são tão espetacularmente mais apetitosas. Aqui perto de casa existe um templo dedicado ao quitute. Se pudesse, morava lá dentro, abraçada no forno...

4) Baconzitos
Batatas fritas, eu adoro. Cebolitos? Amo, principalmente se puder comer espetando nos dedos. Já o salgadinho sabor bacon é paixão de uma vida inteira. Lembro de implorar para o papai comprar um saquinho, ainda que pequeno, para matar minhas lombrigas. Gozado é que não passa o vício: aos 29 anos, já era tempo de desenvolver resistência, mas não há jeito.

3) Pastel
Não existe trash food mais incrível. É frito e condenado por nutricionistas? Diz que é, mas eu nem ligo. Minha avó abria massa no cilindro, recheada e fritava – tudo em casa. Sou tão fanática por pastéis (sejam de carne, queijo ou outra coisa, não tenho preconceito) que, um dia, vou virar pasteleira como a vovó. Meus netos estão fritos. Com o perdão do trocadilho.

2) Azeitona
Deixa um vidro desta gostosura dando sopa na minha frente, deixa. Se for daquela sem caroço, que sequer dá trabalho de ir até o lixo dispensar dejetos, é capaz de eu me alimentar só disso até os 78 anos. Tudo começou na feira, quando eu era pequena. O moço me dava azeitonas do tamanho de pêras gratuitamente. Maldito traficante de frutinhas! Agora não vivo sem elas!

1) Leite
Neste momento, sei que corro o risco de perder muitos leitores. Incrível como, a cada dia, sei de novas pessoas que abominam leite! Parece tão natural que nós, mamíferos crescidos, gostemos de um leitinho puro e branco mandado goela abaixo... Eu, pelo menos, amo. Às vezes até troco por água, bebendo gelado e sem aditivos achocolatados. Deu nojo? Desculpe. Vícios costumam chocar as demais pessoas mesmo.

Leitinho.jpg
Ah, que deleite!!!
Fla Wonka às 01:38 PM


Obrigada, televisão

Eu sempre discordei com a opinião de que a violência mostrada na tevê é a culpada pelos delitos de adolescentes de classes privilegiadas. Foi essa a desculpa encontrada quando dois estudantes norte-americanos abriram fogo em seus colegas na escola Columbine – afinal, disseram, todo o problema dessa geração atormentada vem dos filmes e programas sangrentos da caixa de fazer louco.

O caso é que assistir todos os dias a atrações no nível de “Cidade Alerta” não irá me fazer sair pelas ruas metralhando indivíduos ao acaso. Se eu for uma psicopata assassina, posso ter minha ira despertada até por desenhos para crianças em idade pré-escolar, certo? Era o que pensava. Pois agora minha opinião tem mudado. Eu estou sim sofrendo com a influência da televisão e quero dar aqui meu testemunho.

Algumas vezes já me peguei completamente fora de mim, testando na frente do espelho como ficaria meu rosto se eu entrasse no bisturi e desse uma levantadinha nas pálpebras. A genética só me pregou peças, e um leve excesso de pele sobre os olhos é uma delas. Imagine como será quando chegar nos 50! Para não correr o risco até chequei, disfarçadamente, se meu plano de saúde inclui tal procedimento. Juro! Culpa de quem? Minha? Ou de programas como o “Extreme Makeover”?.

Propagandas, então... Outro dia vi uma do sabonete Dove com mulheres de várias idades. Uma delas, para meu espanto, tinha 27 anos! Busquei no meu rosto qualquer sinal de rugas e tratei de ligar para minha mãe dermatologista me arrumar uns cremes batutas. Só para garantir. Sem falar nos comerciais de produtos da Polishop – acredita que eu realmente pensei como aquela mangueira pode ser útil?

Mas a maior vítima da televisão aqui em casa não sou eu.

Mesmo tendo terminado a decoração do nosso apartamento, namorido não dá folga. Ele simplesmente não pode assistir a programas de bricolagem que já vem com idéias de mudar algo – mudança que vai, é claro, a) gastar dinheiro, b) dar trabalho e c) fazer sujeira. Certa vez, vimos uma atração onde a decoradora pintava tetos de cores berrantes. Assim que os créditos subiram, lá foi ele buscar dois galões de tinta. Na mesma noite, pintou o teto do banheiro e da cozinha.

Algum tempo se passou depois disso, até a estréia da série “Entre 4 Paredes”, do canal People + Arts. Nele, quatro casais precisam reformar do zero um apartamento caindo aos pedaços com uma verba estabelecida previamente. Os olhinhos do doce rapaz brilhavam de ver aquele monte de poeira e material de construção. Resultado? Ah, vamos trocar o piso do banheiro!

Cá estou eu, com dois pedreiros marretando o cômodo antes imaculado, para colocar um piso de pastilhas. Vai ficar lindo, aposto. Mas enquanto não fica, tome barulho e sujeira. Sem falar na necessidade de se usar o toalete da academia do prédio para qualquer eventualidade – e passar um pouco mais de 24 horas sem tomar um bom banho.

Tudo bem. Melhorias para a casa são sempre bem-vindas. Mas bem que ele poderia assistir a um programa de culinária e ficar com vontade de me fazer um enorme bolo cremoso! Ou ver uma atração sobre as ilhas gregas e sugerir quinze dias em um cruzeiro.

Que tal? Isso sim seria influência da boa.

Vivi Griswold às 09:48 AM

sexta-feira, 23 de julho de 2004

Cada um com o seu

Num episódio antológico de “Seinfeld”, George é pego como veio ao mundo por uma amiga da moçoila que ele está namorando – mas com quem ainda não trocou fluidos corporais, digamos. Como ele havia acabado de voltar de um banho de mar, alega ter sido prejudicado, pois o dito-cujo sofreria um encolhimento significativo ao ser imerso na água fria.

Jerry tenta convencê-lo de que o encolhimento é um fato sabido por todos, inclusive pelo time feminino. Para tirar a prova, eles consultam a amiga Elaine a fim de saber se as mulheres estão familiarizadas com o assunto, ao que ela responde “que encolhimento? De roupas na lavanderia?”. Desesperos masculinos à parte, confesso que eu tampouco estava por dentro do tema. Sério que encolhe?!

Pensando nisso, promovi um rápido debate sobre o pinto, esse desconhecido, e descobri coisas realmente bizarras – além de comprovar, pelos testemunhos de amigos, que o moçoilo diminui mesmo em ambientes gelados. E olha que estou longe de ser uma mocinha ingênua, criada na clausura por aquelas famílias que acham sexo ser o maior tabu.

Sem mais nem menos, garotos podem acordar certas manhãs com seu coleguinha já de pé. Isso eu havia notado, mas não imaginava que alguns pobres coitados também despertam de uma soneca qualquer – no ônibus, por exemplo – ligados no 220. Que mico.

Minha pesquisa apontou ainda que, postos nessa delicada situação, homens costumam disfarçar colocando as mãos no bolso e puxando as calças para a frente. Ou lançam mão de uma bolsa, quando a têm, para tampar o impertinente e desembarcar sem causar constrangimento.

Aparentemente, fazer xixi com o ditoduro (não foi erro de digitação) também é um problema. As opções são sentar-se no vaso e brigar para a mangueirinha ficar virada para baixo, ou postar-se diante da privada numa posição esquisitíssima, com os joelhos meio dobrados e o tronco levemente torto. Que puxa.

Ainda por cima, me disseram que dói à beça visitar o WC quando o serelepe teima em se retesar. Acho que esse é o problema de ter uma, digamos, modelagem econômica, e precisar contar com um único canal para múltiplas funções.

Os meninos nunca vão saber como é ter de submeter-se, semestralmente, a um exame em que a gente deita numa mesa com as pernocas para cima e é avaliada por um especialista, sem nada a nos tapar as vergonhas – aliás, o exame é justamente ali. Não é muito agradável. Mas acabamos lançando mão do grande trunfo humano da adaptabilidade e, bem, nos acostumamos ao fato de visitar o ginecologista periodicamente.

Assim como nos habituamos com as cólicas e as inconveniências de passar um período mensal munidas de absorventes na bolsa e em outros lugares. Mas, sinceramente, descobri que ser menina tem mais vantagens do que eu imaginava. Como não ter de dar uma de Dama (ou “Damo”, no caso) do Lotação involuntariamente...


Clara McFly às 05:52 PM


Saudades da Júlia

Hoje não moro mais na Vila Sem Graça. Meu bairro – também o bairro da doce Vivi, por sinal – é repleto de lojinhas boas e outras porqueiras, casas de empada, padarias gostosas, bares e restaurantes a granel. Mesmo assim, ainda não achei por aqui uma alma-gêmea da Venda da Júlia. Explico o motivo da nostalgia por aquele local escuro, poeirento e, vá lá, com larga possibilidade de ser credenciado pelo Clube do Mickey.

Júlia era uma senhora japonesa que vivia no bairro onde eu morava lá em São Bernardo, quando criança. No andar de cima, juntava-se a numerosa família dela (ou a dona tinha 15 filhos, ou eu confundia um bocado aqueles olhinhos puxados). Embaixo, ficava a quitanda administrada pelo clã. E como supermercado era apenas para fazer despesa nos meus tempos de menina, visitar a Júlia quase diariamente garantia o feitio dos almoços e jantares pela mamãe.

Em termos de frutas, legumes e verduras, a venda era uma vergonha para os descendentes de japoneses – sempre reconhecidos por cuidar tão bem dos seus negócios e prezar bastante a qualidade de produtos. Quando me mandava buscar tomate para a pizza, por exemplo, a mãe sempre fazia ressalva: “escolhe só três, tenta achar os não muito batidos...”. Impossível: hortifrutigranjeiros, ali, pareciam ter sido usados como sparring em aula de boxe.

Mas qual criança achava graça maior em comprar maçãs, bananas, um pé de alface e inhame pra sopa? Não eu. Na Júlia, queria mesmo era saber das tranqueiras. Caramba, como quitandinhas juntam guloseimas baratas e deliciosas!

Quanto mais perto do balcão de pagamento, mais dava para achar as tralhas. Dos picolés de fruta – não tenho limite com sorvete de palito de uva, coco, chocolate e limão – aos chocolates, sempre arrematava gostosuras com o troco da compra. Sim: a obrigação era adquirir farinha, ovos ou uma lata de qualquer coisa. Mas, sobrando dinheiro, aquilo podia ficar mais emocionante ao paladar.

Entre os chocolates, o campeão era o Batom. Na falta do bastão (ou quando ele estava derretido demais), podia comprar os fabulosos Cigarrinhos Pan. Afinal, tudo tinha o mesmo adorável gosto de vela. Também apreciava o Deditos (como podia curtir um doce parecido com dedos mortos?) e o tal de Stick, barrinha recheada de morango.

Se o dinheiro não desse para um chocolate, podia gastar as moedas com chiclete. Ping-Pong e Ploc eram os líderes de mercado, ao lado do caríssimo Bubaloo, mas o meu predileto era um chamado Gummy. Na hora de fazer bola, esse não grudava no rosto. E todos conhecem a minha habilidade em grudar a goma no nariz desde criança.

Em meio ao balcão zoado da Júlia, havia muito artigo caseiro também – lembrando o tanto de pó que a nipo-senhora deixava acumular nas prateleiras e vitrines de comida, fomos crianças sobreviventes. A maria-mole era boa, os salgadinhos valiam a pena. Minha paixão, porém, eram os doces cristalizados. Deixa ver: tinha de abóbora, batata-doce, beterraba... mas não faço idéia do sabor contido naquele verde. Argh, parecia horrível. Os demais, em formato de coração ou estrela, eram deliciosos!

A sensação da Venda da Júlia, no entanto, era um quadradinho feito com amendoim moído e açúcar pacas. Se ficasse 20 minutos dentro da quitanda, era possível ouvir ao menos 20 vezes “Dona Júlia, vê uma Paçoca Amor?”. Nem guarda-chuvinhas de chocolate, nem Dadinho. Nem mesmo chiclé de bola com transfer, pirulito que virava apito ou as chupetas de caramelo. Nada era tão popular quanto a paçoca.

Precisava ter muito cuidado com ela, porque uma vez desembalada, a Amor virava rapidamente um amontoado de poeira no chão da venda! Mas tudo bem, a Júlia não ligava. Seu saudoso estabelecimento já era cheio disso mesmo...

PacocaAmor.jpg
Eu queria construir uma casa só com elas!
Fla Wonka às 02:00 PM


S.O.S. narinas

É tarefa das mais fáceis afiar o olfato e dar as boas-vindas a cheiros bons, como pipoca estourando na panela ou aroma da mãe da gente. Mas, como tudo na vida, até a atividade de reparar no que chega às narinas carrega seu lado ruim: fedores estão aí por todos os lados – e, quando eles se aproximam, fica duro de respirar.

Existem cheiros que não são tão ruins assim, mas que nos fazem lembrar de experiências desagradáveis. Outros, cruzes, são ruins mesmo. E haja oxigênio (ou spray de Bom Ar) quanto eu me deparo com qualquer uma das fragrâncias abaixo...

1) Jaula do búfalo
Dessa eu escapei desde a decisão de não mais comparecer ao zoológico de São Paulo. Mas o cheiro daquele cercadinho é tão pavoroso que nem preciso estar lá para me lembrar dele. É uma mistura de bicho, com cocô de bicho, com comida de bicho, com água de bicho... Precisa de uma máscara como a do Michael Jackson!

2) Bafo de cerveja
Eu poderia ter dito "bafo de pinga", que é pior. O problema é que bafo de cerveja é bem mais comum – e, portanto, me faz sofrer mais. Já disse aqui o que eu acho dessa bebida diurética que mais se parece o próprio xixi com gás. E o quanto eu admiro os publicitários que teimam em colocar, lado a lado, cerveja e mulher.

3) Inseticida
Eu não gosto de matar bichinho. Só formiga, se ela estiver me atacando (ou a meu doce). É impossível, porém, conviver com pernilongos dentro de casa, ou aquelas moscas verdes horrorosas que invadiam meu quarto quando eu morava com a minha mãe. O jeito é passar Baygon no ambiente – e tentar sobreviver mais que os insetos.

4) Fumaça de cigarro
Desculpem os fumantes, mas cheiro de cigarro é insuportável. Deviam inventar um exemplar que não tivesse um fedor tão ruim – assim os não-fumantes não passariam por frescos. Pois é, ainda acham frescura permanecer em um ambiente esfumaçado e amaldiçoá-lo por conta do seu recém-lavado cabelo ou de suas roupas antes perfumadas.

5) Cecê de ônibus
Acompanhe meu raciocínio: você está tomando um ônibus daqueles bem visados, às seis hora da tarde de uma sexta-feira (quando todo mundo entra em desespero para chegar logo em casa), tentando arrumar um espaço para ficar de pé. Qual o cheirinho que chega? Cecê, claro. Ainda mais com o povo todo de braço levantado!

6) Pinho Sol
Peço desculpas ao fabricante de um produto tão conceituado por tê-lo colocado numa lista tão, hã, desrespeitosa. É que não consigo nem começar a sentir aquele perfume de eucalipto – e por pura lembrança olfativa. É que mamãe era usuária pesada de tal item. Quando eu "passava mal", ela limpava o chão com isso. Impossível dissociar.

7) Fralda suja
Chega a ser engraçado: de todas as coisas fofinhas que meus irmãos faziam quando eram bebês, quase nada ficou na minha memória. A única coisa de que ainda me lembro bem é o cheirinho vindo das fraldas. Céus, o que era aquilo? Bebês só tomam leite e comem papa de legumes! O urubu entrou exatamente onde nessa dieta?

8) Barraca de peixe
Os feirantes que precisam permanecer na barraca de peixe desde as cinco horas da manhã são uns heróis. Ou, então, uns mutantes cujas narinas foram atrofiadas pela genética. Eu não consigo evitar a cara de nojo quando passo por uma dessa. E não gostaria de estar na pele do morador da casa que cede seu teco de rua à barraca em questão.

9) Merthiolate
Outra memória olfativa desagradável. Ou alguém aqui achava legal ralar o joelho até o osso? Eu abria o maior berreiro sofrendo por antecipação, já que em seguida lá vinha aquela lenga-lenga do merthiolate. "Vai tirar os bichinos", mamãe dizia. Mas precisava arder como o inferno para tirar os micróbios? Vai ver que precisava. Droga.

10) Fritura de boteco
Poucas coisas conseguem me alegrar mais do que estar caminhando pela rua de manhã e sentir a apetitosa fragrância de coxinha fritando no óleo de anteontem. Hmmm! Nada melhor para começar um bom dia! Quando eu trabalhava no centro da cidade, oba, todo dia era presenteada por um cheirinho desses. Pena que nunca parei para comprar....

salgado.jpg
Vai um "risóleo" aí?
Vivi Griswold às 10:07 AM

quinta-feira, 22 de julho de 2004

E viva o Clube do Mickey!

Sabe aquele desenho do Pica-Pau em que um urso invade o trailer de dois campistas? E a mulher fica histérica lá dentro, berrando aos quatro ventos “Alfreeeedo, tem um urso no trailer!”? Pois então. Foi bem assim que me senti assim anteontem. E o pior é que não tinha nenhum Alfredo para me socorrer.

Antes que você pergunte, leitor: não, não entrou nenhum urso aqui – mas sim um rato quase do tamanho de um Andy Panda. Tá, talvez de um pônei. Ok, de uma capivara. Certo, certo: era só um camundongo pretinho – igual ao Mickey, mas sem aquela voz afrescalhada e luvas nas patinhas.

Pois o bicho pestilento se alojou atrás do tanque, por entre uns tapetes que estavam para lavar. Na verdade, só percebi que era um rato quando o namorido chegou em casa. Aliás, quem percebeu foi ele. Tudo que eu vi ao adentrar a cozinha foi uma mancha escura, rápida e faceira, correr para o tal cantinho.

Pensei com meus macaquinhos: “putaqueopariu, tem um bicho na cozinha!”. Meu coração disparou. Corri de volta para a sala. Respirei fundo. Me acalmei. E voltei, matutando com meus botões: “deve ser: a) uma aranha, o que não seria tão ruim; b) uma barata, o que seria nojento, mas fácil de matar com inseticida; c) um rato, o que significaria meu completo desespero e danação eterna”.

(Abro um parêntese para dois esclarecimentos: sim, eu penso em itens. E sim, eu tenho paúra de ratos. Eu sei, é deprimente ver uma mulher do meu tamanho, independente e emancipada, gritando com o mais profundo pavor e sapateando em cima do sofá – ou de qualquer objeto escalável mais à mão – ao topar com um desses roedores. Mas é mais forte que eu.

Rato é uma criatura pestilenta. Não sei quanto tóxico sêo Walt tomou ao transformar um bicho repulsivo desses num mascote docinho e sorridente – e o pior é que o mundo todo comprou a idéia! Ratos não riem. Apenas se esgueiram para dentro da sua casa, comem suas coisas, transmitem doenças e, quando dá, matam um terço da população européia numa epidemia – devemos ser gratos por não ter vivido na Europa durante a Peste Negra. Pronto).

Voltando. Depois de considerar as três possibilidades – e descartar a da aranha, pois as tecedeiras de oito patas não se movem tão rápido quanto a mancha se moveu –, decidi pegar o inseticida, me empoleirar estrategicamente sobre a máquina de lavar (para caso a criatura, ao sentir o veneno, tentasse correr para cima de mim e me atacar) e borrifar o bagulho na direção do tanque.

Dito e feito. E nada de aparecer o bicho – o que diminuiu ainda mais minhas esperanças dele ser uma barata. Baratas correm quando tomam uma chuva de veneno. Nisso, tocou o telefone. Desempolerei, atendi e respirei aliviada: era um colega, leitor e jornalista. Falei: “olha, tem alguma coisa aqui em casa, se você ouvir um grito e o telefone ficar mudo, chama a polícia”. Diante do espanto do moço, tive de completar: “não, não. É uma barata ou um rato, acho”.

Fui conversando de olho no cantinho do tanque. No meio do papo, eis que a mancha corre de novo para outro lado. Dei um grito gutural, o que fez com que meu interlocutor se calasse por uns segundos. Corei e expliquei que o bicho tinha aparecido de novo. Pedi desculpas; descartei por completo a possibilidade de ser uma aranha e achei que, para uma barata, parecia meio grande. Só podia ser um pestilento maldito.

Nisso, feito num filme, a Sétima Cavalaria – ou o namorido – chegou. Desliguei o telefone, respirei aliviada e expliquei a situação. Disse que provavelmente era um rato – que entrou às escondidas, tomou conta do lugar, comeu o bolo que estava em cima do balcão, me expulsou da cozinha e só faltou tirar o controle remoto da minha mão, me botar para fora e gritar “e não me apareça mais aqui!”, batendo e trancando a porta.

Depois de rir da minha cara por uns cinco minutos, especialmente quando mencionei a escalada na máquina de lavar, ele se dirigiu calmamente para o lado do tanque, chutou os tapetes e sentenciou calmamente: “é um rato mesmo. Um camundongo”.

Corri, fechei as portas dos quartos, subi no sofá e me neguei a descer. Ele abriu a porta e, munido da vassoura, espantou o indesejado visitante para fora. Ainda bem que não teve de matá-lo. Onde diabos eu iria desovar o cadáver de um rato? E imagina só para limpar o local da morte? Eu ia ter de me mudar!

Oficialmente, agora faço parte do Clube do Mickey – feito Justin Timberlake, Britney Spears e Flá Wonka. Mas podia ter passado sem essa. Ainda mais porque o meu Clube do Mickey – assim como o de Flá – não dá direito a contratos milionários, shows superproduzidos ou videoclipes hilários, vestindo a roupa do Leão da Montanha. Droga.

Clara McFly às 05:27 PM


Família, á!

Dias atrás, tomei a liberdade de comparar meus parentes e entes queridos – que não são necessariamente as mesmas pessoas – com as famílias de desenho animado. Muito mais do que a animação, porém, o cinema é capaz de traduzir costumes e manias dos meus em película. Ah, mas não são só os meus que dão as caras ali, não! Aposto que vocês aí também já reconheceram muitos tios, primos e irmãos na telona.

Lembram da Tia Voula? Aquela senhora de “Casamento Grego” que jurava ter extirpado um caroço do pescoço formado pela coluna vertebral de um irmão gêmeo não-nascido? Haja estômago para aturar tal conversa... Mas eu tenho umas tias assim, se tenho! Pior: tenho muito mais. Nestes filmes, eu reconheço uma porção deles.

Divinos Segredos – pelas brigas
Quando passou no cinema, não me abalei a ver. Drama de mãe e filha que se desentendem por bobagem? Ai, que chato... Mas daí chegou à tv a cabo – e que graça de filme. Para começo, vi as imagens de trailer mostrando quatro amigas que eram quase irmãs. A história do tal quiprocó entre mãe (a excepcional Ellen Burstyn) e filha (a espevitada Sandra Bullock) era muito mais interessante do que parecia. Só quem já trocou uns berros com seus entes queridos vai encontrar nesse roteiro uma emocionante redenção. Ya-ya!

Casamento Grego – pelas reuniões
Não sei a família de vocês, mas a minha tem muito do que foi descrito neste filme. Não somos gregos, mas italianos – só que, no fim, é tudo a mesma baderna. Na primeira vez em que levei o namorido na casa da minha avó paterna, alertei que ele poderia sair de lá estufado de comida e meio surdo. Batata: felizmente, meus parentes gritalhões não têm qualquer preconceito com procedência familiar ou religiosa. Senão, aquele rapaz loirinho descente de suíços estaria mais frito que Ian Miller nas mãos da trupe Portokalos.

Os Excêntricos Tenembauns – pela esquisitice
De perto, ninguém é mesmo normal. Fico pensando o que meus amigos imaginam quando conto que meu pai envelhece pinga por hobby, minha irmã é uma bibliotecária que sabe fazer velas, minha mãe faz guerra de bonecos com meus sobrinhos... Com o clã de Royal Tenembaum também era assim, um maluco em cada cômodo. O bom é que no meu núcleo, pelo menos, a gente sorri um bocadinho mais. E não fumamos, nos drogamos, simulamos estar à beira da morte ou tentamos suicídio...

Férias Frustradas – pelos ‘holiday roads’
Tenho impressão de que nenhuma família se assemelha mais ao estilo de viagem dos Griswold do que a minha. Para registro: quando eu era pequena, viajamos por oito anos consecutivos ao sul do país. A cada verão, a trajetória saía de um jeito diferente – pelo litoral, pelo interior, só as capitais, só cidades obscuras e assim por diante. No interior do veículo, rolava a mesma dinâmica existente entre Clark e companhia. “Pai, ele relou a mão em mim!!” era um apelo constante. “Se vocês não fecharem o bico eu arranco suas cabeças e faço elas rolarem pelo asfalto” era a resposta padrão...

Parente é Serpente – pela essência
É uma pérola italiana tão reconhecida por mim que até dói. Na superfície, somos todos sorridentes, brincalhões e unidos – principalmente em torno de travessas de macarronada e carne de panela. Felizmente, nossos arranca-rabos são bem menos problemáticos do que com aquela família retratada no filme. Mas carcamanos são todos iguais, não há como negar: a tia virou as costas, lá está uma cunhada malhando levemente o tempero ou o gosto dela para decoração. Fazer o quê? Devem ser os genes... E, mais uma vez, reitero: não ousem criticar a minha gangue!

Fla Wonka às 02:00 PM


Crenças com data de validade

Desde um monstro morando debaixo da cama até um livro mágico capaz de atrair pesadelos: quando eu era criança, acreditava em muitas coisas. Algumas dessas crenças foram despertadas em mim por terceiros, outras – as melhores – eu mesma criei na minha cabeça. Hoje já não boto tanta fé na maioria delas, apesar de dar risada sozinha ao relembrá-las. E você, quer entrar um pouco na mente perturbada e pueril da pequenina Vivi?

A culpa da imaginação fértil dos infantes deve-se em grande parte aos adultos. São eles os contadores da história do tal velhote que mora no Pólo Norte e que sai de casa uma vez por ano para presentear as crianças do mundo todo. Depois, quando crescemos, percebemos que nada daquilo é verdade. E não vemos a hora de encontrar um pirralho para passar a balela adiante!

Eu até acreditei em Papai Noel. Achava que uma mentira não poderia ser tão famosa e duradoura assim. A prova cabal da existência dele foi no ano em que ganhei uma bicicleta. Eu havia seguido o conselho da Xuxa (?) e havia pedido o presente antes de dormir para o bom velhinho com toda a força do meu pensamento. Na noite de Natal, bling, lá estava minha Monark com cestinha.

Mas eu nutria fé mesmo pelo coelhinho da Páscoa. Claro, se um senhor de cabelos brancos não poderia distribuir milhares de presentes, um coelho poderia. E eram ovos de chocolate! E vinham embrulhados em lindos papéis coloridos! Minha mãe incentivava a crença com requintes de crueldade. Ela chegava a me dizer para deixarmos uma cestinha com um punhado de grama e com uma cenoura para o coelhinho ficar feliz. No dia seguinte, lá estava meu prêmio dentro da cesta. A cenoura havia desaparecido, e só restara um pequeno rastro de capim. Era para acreditar ou não, oras bolas?

Outras crenças, contudo, eu mesma criei. Chegava a acreditar, por exemplo, que toda a nossa vida era composta por dias de azar e sorte, intercalados. Quando o dia estava bom – cheio de surpresas, brincadeiras, notas boas na escola, programas legais na TV, podia esperar um amanhã chato a seguir. Mas tudo bem, porque depois viria outro momento de sorte, e assim sucessivamente para todo o sempre.

Acreditava também que os meus brinquedos, ao soar as doze badaladas noturnas, ganhavam vida própria. Toda manhã olhava atentamente para a prateleira cheia de bonecas Moranguinho e bichos de pelúcia e tentava reparar o mínimo traço de movimento que escapou sem querer. Tipo brincadeira de estátua, sabe? O pior é que eu encontrava. No dia em que um urso gigante pendeu a cabeça para o lado sozinho (claro, ela estava solta), quase tive um treco.

Aliás, tinha a maior crença de que um universo paralelo se desenrolava quando nós, humanos, não estávamos olhando. Sempre achei que cachorros e gatos latiam e miavam entre eles para disfarçar, na verdade, todo o conhecimento e linguagem avançados que tinham. Acreditava que a caixa d’água de formato engraçado que dava para ser vista ao longe era na verdade um disco voador disfarçado e pronto para voar assim que déssemos as costas. Ou que baratas e lagartixas eram seres espiões que se infiltravam em nossas casas para... ah, sei lá pra quê!

Acreditava que o livro sobre mitologia grega da estante da minha avó era mágico: só de olhar o horrendo retrato da Medusa, pronto, os pesadelos iriam perseguir meu sono. Mas se eu fizesse o sinal da cruz, teria sonhos mais agradáveis. Minha mãe que falava, quando via meus irmãos dormindo e dando risadinha, que eles estavam sonhando com anjinhos.

Hoje já não carrego nenhuma dessas crenças – mas isso não quer dizer que seja uma incrédula. Tenho outras! Afinal, olhar a vida e o mundo com criatividade é divertido. E não apenas quando se é criança!

Vivi Griswold às 10:52 AM

quarta-feira, 21 de julho de 2004

Brinco, não nego

O cardápio de brincadeiras disponíveis quando a gente conta de três a treze anos (não espalhem, mas eu ainda sacava das velhas Barbies e playmobils e topava uns embates de taco com a dita idade) é mesmo interminável. Caetano, meu afilhado de três invernos recém-completos, se diverte à beça rodando no próprio eixo de sua pequena pessoa, por exemplo. Viu só? Não precisa nada para se divertir!

Claro que Barbies, playmobils e acquaplays do Bob Esponja podem ajudar um bocado. Mas, como vimos ontem, há uma série de atividades que dependem tão-somente de nossa cachola e da companhia de amigos – ou, no máximo, de uma disputa de dedos iguais ou par-ímpar a fim de tirar os times.

Foram admitidas aqui apenas as brincadeiras populares, quase folclóricas, que existem em todo o país (ou ao menos em boa parte dele, talvez com nomes diferentes). Como combinamos, aí vai a continuação das distrações favoritas de rua. Ficam para outros dois dedinhos de prosa aquelas atividades de crianças urbanas e mais específicas da geração 80, como escritório, escolinha e, er, Changeman (eu já confessei que brincava de Esquadrão Relâmpago, com direito a Power Bazuca e tudo, por aí).

Pega-pega
Nunca fui muito fã desse arranca-rabo da velocidade infantil. É que eu era meio mirradinha, tinha bronquite e, se corresse muito, desatava a tossir feito uma condenada. Além do mais, me dava profunda aflição ter alguém nos calcanhares (devidamente calçados com Bubble Gummers). Mesmo assim, participei de muitas rodadas da distração, sempre mais animada quando o quórum de velocistas era maior.

Barra-manteiga
Até hoje, não entendo direito qual era a dessa modalidade de passatempo infantil. Tinha algo a ver com corrida e com bater na mão de algum dos infiéis enfileirados diante do chefe da rodada. Como envolvia velocidade e tal quesito nunca foi meu forte, só topava participar dessa quando minhas outras sugestões, como brincar de Changeman, eram completamente vetadas.

Mãe da Rua
Essa também era de correr, mas só um pouquinho. O escolhido para ser o personagem-título da brincadeira se posicionava no meio. Dois grupos ficavam em lados opostos. O lance era atravessar correndo, tentando escapar de ser pego pela suposta matriarca do logradouro. Gozado como premissas completamente toscas são capazes de manter um bando de petizes barulhentos ocupados por um tempo razoável.

Taco
Em outros estados, a brincadeira tem nomes diversos. Precisa ter duas latinhas ou garrafas, dois pedaços de pau que sirvam para rebater uma bola e, bem, uma bola. Espécie de beisebol mais simples e rasteiro, o jogo de taco só tem um problema: a profusão de regras diferentes, dependendo da cidade, do bairro ou mesmo da rua em que se morava. E a frase obrigatória "Licença para pegar no taco!", que hoje soa um pouco estranha.

Mês Castigo
Eis a minha favoritíssima de todos os tempos! A primeira parte da brincadeira é bem idiota: uma dupla se destaca do grupo e pensa num mês. Os outros vão chutando meses, até acertar. Aí vem a parte bacana: a dupla perguntava para o acertador "o que você quer do mundo?". Amplo, não? Em seguida, voltava a se reunir reservadamente para combinar duas marcas do objeto do desejo do cidadão, para que esse pudesse escolher.

Claro que, no auge dos 80, as opções eram quase sempre as mesmas. Se o dito cujo quisesse uma bicicleta, sacávamos de "BMX ou Cecizinha?"; se almejasse um carro, a pergunta era "Escort XR3 ou Monza?"; no caso do videogame, lá vinha "Atari ou Odissey?". Nesse caso, havia que ser rápido para escolher ser o Atari, que sempre ganhava...

Atari box
Quem não queria um desses?


Clara McFly às 06:27 PM


Eu, a avestruz

Quem me conhece, hoje, não saca de primeira. Muitos não sacam nem de segunda – e a maioria fica sem acreditar mesmo quando conto com todas as letras. Eu sou envergonhada. Tímida, contida, um bicho-do-mato desde criancinha. Isso já me causou muitos problemas de sociabilidade, mas atualmente estou quase curada. Disfarço bastante bem, esse é o segredo e a verdade.

Quando pequenina, qualquer atividade estranha virava um trauma. Nas festas de aniversário dos primos e amigos, por exemplo, ficava no canto até alguém me resgatar do sedutor cachorro-quente para dançar ou brincar. Se não acontecesse, podia muito bem passar todo o evento muda, apenas balançando o pé discretamente nas minhas músicas prediletas do Balão Mágico.

Já na escola, estar entre crianças da mesma idade... não ajudou em nada. Por causa da vergonha, fazia sempre uma amiga ou duas apenas na classe – e olhe lá. O esporte, tão comemorado por unir pessoas e promover entrosamento, falhou comigo. Isso porque nunca era escolhida na seleção de times. Diabos: em jogos com bola, tenho mais ou menos a habilidade de um orangotango (e alguns símios dessa espécie, suponho, ainda podem me dar um baile no pingue-pongue).

Na ginástica olímpica, que eu adorava e onde me enfiaram para liberar energia, tudo era vexame para minha mente. Para começo, eu preferia praticar usando calça e camiseta, mas a professora exigia colan. Ficar com as pernas de fora, sem meia-calça, na frente de um bando de outras crianças, enquanto dava piruetas? Toda aula, antes de sair do vestiário, eu sentia vontade de chorar e morria um pouquinho...

Roupas sempre foram uma carapaça de aço para quem, como eu, era tão avexada. No ginásio, para ir à escola, sempre amarrava usava calça larga, tênis e amarrava o agasalho na cintura – providencial para meninas que não querem admitir ter uma bunda. Andava um pouco arqueada também, assim menos gente notaria o busto em crescimento. Putz, como é sofrido passar de criança a garota na frente dos outros humanos! Não podiam nos enviar à uma caverna entre os 11 e os 18 anos?

Vocês podem imaginar, então, o que senti quando uma tia achou de me presentear com um sutiã no aniversário de 12 anos. Eu já tinha outros, mas foram comprados com a minha mãe, sem que o assunto virasse pauta sequer em família. Ganhar “aquilo” ante os olhos de amigos foi tortura chinesa. Se a solícita mulher tivesse me presenteado com pedacinhos de bambu para colocar debaixo da unha, teria doído menos.

Com o tempo, a blusa na cintura deixou de ser um cinto chumbado ao meu corpo e circular entre os meninos do colegial já não era (tanto) problema. Mesmo assim, a vergonha ainda morava aqui dentro. Ser chamada pela professora a ler minha redação alto fazia as bochechas ficarem vermelhas. Ouvir de outra menina que fulano gostava de mim, quase transformava a cabeça numa panela de pressão – e disso independia o fato de eu gostar do garoto ou não. Equilibrar a timidez com uma certa cara-de-pau foi a solução.

Passei a combater a vergonha com uma falsa expansividade e/ou mau-humor. Entre amigos, fazia piadas e dizia coisas absurdas, por isso sempre me achavam a engraçadinha, a extrovertida. Já para contato com gente nova, vestia uma máscara sisuda e decidida, quase de uma garota bem nojenta e emburrada. Assim, talvez, eles me respeitassem logo de início e eu não precisaria passar vergonha fazendo papel de boba.

O problema sempre foi esse: passei anos confundindo ser receptiva com parecer boba. Achava que, se eu me apresentasse e me dispusesse a fazer amizade, os demais me tomariam por uma otária babaca. Olha que perda de tempo? Ainda bem que repensei esse comportamento.

Já faz alguns anos, deixei de lado a alternativa da postura “quase-mala”. Alguns ainda me conhecem e acreditam que sou brava – ouço tanto isso... me sinto uma sargenta! Cada vez mais, tento ser descontraída e sorridente ao conhecer pessoas novas. E, principalmente, tento me lançar em situações antes embaraçosas e encarar tudo sem corar. Nem sempre dá certo.

Ainda fujo loucamente de ser o centro das atenções e detesto quando fazem chacota com a minha cara. Mas aprendi que dar a timidez à tapa tem compensações. Bom, eu consegui vir aqui hoje e contar tudo isso! Usei até a palavra “bunda” aí acima! Ai, céus, que vergonha...

Fla Wonka às 02:34 PM


O lado B de viajar

Salvando as proporções, viagem é como parto: ficam na memória todos os momentos felizes, enquanto sensações ruins, lágrimas e dor são armazenadas no esquecimento. Como ainda nem penso em entrar na fila para pegar uma senha da cegonha, não posso falar muito sobre dar à luz. Mas viajar... Dessa alegria eu entendo bem.

Olhar a primeira vez para Machu Picchu é completamente diferente de olhar para a Torre Eiffel. Assim como pisar em areias egípcias não pode ser comparado a pisar na Oxford Street. Cada viagem é única, e cada experiência é única: menos as más. Pois essas costumam se repetir incessantemente, seja qual for o seu destino – o outro lado do mundo ou o outro lado da cidade.

Portanto, se você pensa em tirar alguns dias longe de seu ambiente cotidiano, prepare-se para as situações chatas que vão acompanhar sua folga. Mesmo que você não queira.

Já chegou? E agora?
Eu preciso confessar uma mancha no meu currículo de mochileira: odeio viajar de avião. Pra começo, o ar é gelado e estranho. Depois de um certo tempo, suas narinas estão dormentes. A comida é pouca e ruim. O viajante, mesmo desembolsando a quantia absurda da passagem, se sente uma vaca em carro de boi: sem espaço, sem ar, sem cuidado. Não importa se a travessia durará 30 minutos ou 15 horas. Piso dentro de um daqueles e já vou querendo saber se vai demorar muito para descer. Viajar de ônibus é bacana, mas não tem um banheiro muito confiável. Eu falo isso de experiência (ruim) própria, de quem já encarou um dia e meio em um chacoalhante coletivo em alguma quebrada do Peru. Carro é a melhor opção, se houver escolha: você pára onde quiser para esticar as pernas e comer um quitute.

A vida própria do seu cabelo
Só quem se preocupa com esses fios no topo da cabeça já percebeu um fato que a ciência ainda não explorou: é só você sair do perímetro cotidiano que seu cabelo começa a ter vida própria. Ainda que você, como eu, se preocupe em levar os mesmos xampu e condicionador, e tratá-lo do mesmo jeito de sempre, ele não obedecerá. Daí, quando você menos espera, uma estranha massa disforme e rebelde tomará o lugar de suas madeixas, antes domadas. É impressionante! Mesmo o meu, composto por uma quantidade de fios como a do Cebolinha (e mais curtos), esquece de seguir a saudável lógica da escovação e da gravidade. Cada fio, por sua vez, resolve tomar uma direção distinta e independente dos coleguinhas. O resultado? Sabe a Diana Ross? Pois é. Dizem que é a diferença de umidade. Eu não acredito.

Mala, essa estranha
Parece que os espíritos que moram no meu armário também gostam de entrar de férias comigo. A primeira mala que eu monto, ainda aqui em casa, é um primor: as camisetas são enroladas em tubinhos, as meias formam bolinhas, os pares de sapatos são guardados dentro de sacos individuais, as calças e casacos mais pesados são dobrados em cima de tudo. Mas algo acontece assim que eu fecho o zíper. Quando chega a hora de abri-la, já no destino das férias, o que antes estava arrumado com carinho agora revela-se um ninho de ratos. Como isso pode acontecer, já que ninguém mexeu lá dentro? Chama o Padre Quevedo! O problema maior é que, uma vez bagunçada, não há estímulo para ajeitá-la novamente. No final do passeio, difícil é saber qual meia está usada ou qual calcinha está limpa. Um nojo.

Saudades do banheiro lá de casa
Se eu pudesse escolher um item caseiro, de qualquer natureza, para me acompanhar, eu escolheria o banheiro. Porque só quem é menina e só quem já precisou de um na hora do aperto (literalmente falando) sabe da dificuldade de encarar o vaso de estranhos. Há também outros motivos para eu querer levar meu lindo banheirinho: o chuveiro. É preciso tomar pelo menos um banho gelado ou fervente para você aprender a usar chuveiro de hotel/pousada/albergue. Aquilo devia vir com manual! Nenhum se comporta da mesma maneira, ou como deveria – abrir a água quente, por exemplo, não garante que água quente sairá dos furinhos. E você, na situação mais desprevenida possível, nem tem como gritar por socorro. Ainda mais nas viagens econômicas que eu faço, ficando em quartos sem banheiro... Cruzes.

Com que roupa eu vou?
Acontece em qualquer viagem programada para durar 30 dias – vai chegar uma hora em que você enjoará do próprio visual. É que quando viajamos, não podemos levar uma bagagem muito grande. A ordem é “ir com o mínimo para voltar com o máximo” (ou seja, lembrancinhas legais compensam o saco que é levar apenas um casaco). Ocorre que acabamos optando por duas calças, três camisetas, uma blusa de lã e algo um pouco mais pesado para alguma frente fria. Parece simples, não? O difícil, passadas duas semanas, é conviver com tanta falta de opção. Olhar-se no espelho vira um martírio. Sem falar na dor-de-cabeça de arrumar um jeito para lavar as poucas peças disponíveis. Eu, por exemplo, já tive de esfregar calça jeans em pia de albergue e botá-la para secar no aquecedor do quarto. Um fato para cair no esquecimento.

Quero meu dinheiro de volta
O avião, o cabelo espaventado, a mala revirada, a vontade de fazer pipi em um lugar limpo, o guarda-roupa escasso: tudo isso é deixado de lado quando chegamos na maior atração de nossa viagem. Mas quem garante que ela estará lá? Eu sou a rainha de pegar monumentos na fase de restauração – quando horríveis lonas e andaimes tampam a maior parte da visão. Na primeira vez que fui para Roma, o teto da Capela Sistina estava coberto bem na cena mais importante de todas (o encontro dos dedinhos). O que fazer? Pedir o dinheiro de volta? Sentar e chorar? E não preciso ir longe não. Quando fui para Tiradentes, há poucas semanas, peguei justamente o dia do encontro nacional de Harley Davidson. Velhotes vestidos de couro nas ruas de paralelepípedo acelerando motocicletas envenenadas? Tudo a ver.

Pelo menos experiências ruins não saem na foto.

Vivi Griswold às 11:05 AM

terça-feira, 20 de julho de 2004

Correrias, cores e anéis

Brincar é tudo. Aliás, competir e se divertir, em maior ou menor grau, é tão bacana e tão parte da natureza humana que a gente faz isso a vida inteira – só mudam os brinquedos, conforme a idade. Na aurora da nossa vida, as atividades são mais claramente, er, digamos, brincadeiras. Mais tarde, brincamos de ir ao cinema, de passear de carro, de dançar com os amigos, de escrever em sítios que-eram-rosa-e-agora-são-listradinhos.

Qual a diferença no olhar daquele seu primo que ganhou um Pégasus de controle remoto no Natal, ao abrir o pacote, e do seu amigo que, depois de muito suor e financiamento, buzina na frente da sua casa de dentro do primeiro carro adquirido? E entre aquela vizinha que obriga todos os menorezinhos da rua a servir de alunos para a escolinha improvisada na calçada e as professoras que aturaram a gente no primário?

Pode-se dizer que brincar, de maneira geral, fica cada vez mais caro. Basta ver que um carro de verdade custa beeeeem mais que um Pégasus (que já não era nada barato) e ensinar 30 crianças enlouquecidas é mais difícil que meia dúzia de vizinhos. Isso sem contar que ir a uma danceteria ou pegar um cinema a dois não sai por menos de 40 pilas, ao menos cá em São Paulo.

Embora eu ainda drible a facada aplicada pelo ramo do entretenimento paulistano reunindo amigos em casa, para conversar, comer, beber e jogar, tenho saudades de quando brincar custava literalmente nada. A não ser tempo, coisa que a gente tinha de sobra. Era só escolher – muito provavelmente entre uma das brincadeiras abaixo ou entre as que continuarão a lista amanhã – e correr para o abraço. Ou, melhor dizendo, para a rua.

Alerta
Bem popular onde eu morava, consistia em reunir umas cinco ou seis crianças que respondiam cada qual por um número. Uma delas ficava com uma bola, gritava um dos numerais e jogava a tal bem alto. O escolhido tinha que correr para agarrar a pelota, enquanto o resto debandava para mais longe quanto possível – visto que, em seguida, o portador da bola tentaria “queimar” quem ficasse mais perto. Eu sei, parece estúpido. Mas eu era capaz de passar horas entretida nisso.

Sela
Essa era uma boa pedida para a saída da escola – até algum fraco começar a chorar, atrair professoras e inspetores e acabar com a brincadeira. Isso porque os estilos de pulo podiam mesmo ficar bem cruéis, do tipo “unha de gavião” (em que a gente pulava cravando as tais nas costas da pobre sela) ou “pastelão” (que consistia em dar um tapão de mão aberta no mesmo local). Depois eu digo que criança pode ser bem má e ninguém acredita...

Elefantinho Colorido
Eis uma das brincadeiras folclóricas mais esquisitas que eu já vi. Deve ter sido inventada por alguém que abusava da água que passarinho não bebe. Afinal, que sentido tem deixar uma criança passar e outra não, dependendo das cores que ela portar nas roupas e acessórios? E por que perseguir o coitado que não tem a cor? E, acima de tudo, por que diabos “elefantinho colorido”? Tá mais para viagem de lucy-in-the-sky-with-diamonds que para brincadeira infantil.

Esconde-esconde
Essa era uma das minhas favoritas. Porque não era simplesmente correr e se esconder em algum lugar, com a chance, ainda, de salvar todos seus camaradas se a modalidade jogada fosse a “último-salva-todos”. Para minha imaginação infantil, a emoção era a mesma que eu teria se estivesse me escondendo do diabão d’“A Lenda” – uma das figuras que mais me apavorava à época – ou do Homem do Saco. E salvar todos fazia com que eu me sentisse uma verdadeira heroína.

Passa Anel
Aqui, era só contar com um anel – podia ser aqueles de doce ou o de uma tia mais desapegada das bijouterias (a chance do objeto rolar para o bueiro era sempre considerável). A criança da vez guardava o adereço entre as mãos e ia passando por todo mundo, até deixar o bagulho com alguém, imperceptivelmente. Que aula para fazer avião, hein? E eu não estou me referindo exatamente a aeronaves.

Brincar é tão legal que, uma vez começado, a gente não tem mais vontade de parar... Por isso, amanhã a lista segue – quem sabe com opiniões e sugestões publicadas no Fórum. Quem quiser brincar, põe o mouse aqui!

Clara McFly às 07:08 PM


Família, ê!

Podemos achar os membros das nossas famílias estranhos, malucos, desajustados. Mas só nós podemos dizer isso! Ai de quem fala mal dos meus parentes... É como nas famílias de desenho animado: eles não regulam nada bem e são pra lá de esquisitos. União, porém, não escolhe apenas gente tranqüila e coerente. E digo mais: eu queria fazer parte das linhagens mais piradas da animação.

Se são pés-rapados, monstruosos ou perseguidos por forças malignas universais, não importa. Ver o lado bom das famílias é o essencial – sejam elas de verdade ou criadas na base da tinta e do grafite. Sempre haverá um irmão como Bart, uma mãe como Morticia, um cachorro como Chuchu... ou não. Mas ainda bem que alguém tomou substâncias bem fortes para nos brindar com esses núcleos familiares muito loucos da pesada.

Jetsons: os moderninhos
Andam dizendo que eles vão finalmente chegar ao cinema. Até eu defendia essa possibilidade, olha só! Mas a verdade é que dá um pouco de medo. Ficaria bom ou ruim ver, na telona, os tubos de transporte e o hidratador de comida do clã de George? Não sei. Basta não virem com um Astro digital, já está bom demais. Porque o cachorrão era o meu predileto na família. Ele tinha voz de barítono, que encanto.

Simpsons: os incorretos
Desajustados? Magina... Trata-se de uma gangue onde o pai dá à filha bebê um brinquedo de cachorro e diz “não faz mal, ela não sabe ler a embalagem”. A esposa tem chiliques periódicos (e quem pode culpar Marge, tadinha?), a filha mais velha passa crises existenciais, o garoto do meio é projeto de delinqüente. Ajuizado, só o Ajudantezinho do Papai Noel, o vira-lata da família. Isso porque, quando escuta os donos, ele entende apenas “blá blá blá senta”, “blá blá blá come”.

Família Buscapé: os lesados
Se fosse para morar no campo, porque não dividir o casebre com eles? O maior motivo de estresse, entre os Buscapé, é quando o bode do vizinho resolve comer os nabos plantados pela Mãe. Tudo o mais acontece da maneira mais leeeenta possível. Em se tratando de ursos, até dá para compreender. De tão bobos, nem os filhos Florzinha e Chapeuzinho dão trabalho. A não ser quando apanham o banjo para atrapalhar a soneca do indolente Zé.

Herculóides: os elos-perdidos
Como Vivi disse hoje, ainda não entendemos: eles viviam no passado ou no futuro, pô? Aqueles animais eram pré-históricos ou evoluídos pra caramba? Enfim... a estrutura do núcleo funcionava, de qualquer maneira. Papai Zandor era um homem corajoso e protetor capaz de prover não só Dorno e Zara, mas também suas aberrações. Digo, seus bichos de estimação. Se é que a terminologia se aplica a um rinoceronte que atira bolinhas.

Chan: os trapalhões
Lembram da Família Chan? Os chineses eram peritos em desvendar crimes – desde que liderados pelo pai, Charlie Chan, e não pelo bando de filhos dementes. A molecada (eram dez rebentos, no total) vivia querendo ajudar a solucionar os mistérios, mas só criava problema. O ponto alto era o Chuchu, cachorrinho-com-jeito-de-pano-de-chão da trupe. Ah! E, claro, o caminhão que podia se transformar em qualquer meio de transporte. Eu queria aquilo!

Família Adams: os doces monstros
O amor de Gomez e Morticia transcendia a névoa em que era imerso o casarão dos Adams. De tão carinhosos e delicados, eles atraíam todos os membros da família para seu ninho – enquanto espantavam os demais humanos preconceituosos. Tanto é que os empregados, ali, se sentem sangue do sangue... sem duplo sentido. Tropeço, por exemplo: que outra família trata tão bem um mordomo-motorista-zumbi? Desconheço. Ainda bem.

Muzzarelas: os arruinados
Disparada, a família que eu queria ter! Para começo, porque adoraria usar um nome em estilo Roma Antiga – tipo Precócia, como se chamava a filha caçula. Zecas era o patriarca da turma, gente classe-média que só se ferrava nas mãos do senhorio, o Chatus, e do chefe, Gambázius (esses nomes não caem mesmo como luvas??). Os problemas dos Muzzarellas eram os mesmos de sempre: falta de dinheiro, confusão com vizinhos, mal-entendidos generalizados. Para zoar ainda mais o cenário, eles tinham um animalzinho clandestino, o Brutus. Era um leão? Era. Cada família esquisita reúne os membros que acha por bem, ora! E deixe a minha turma em paz!

Muzzarellas.jpg
Que tal se chamar Flavias Decimus Meridius?
Fla Wonka às 02:17 PM


Hã?

Tudo bem: desenhos animados e substâncias alucinógenas parecem caminhar de mãos dadas desde que a televisão surgiu. Partindo desse pressuposto, tudo o que vemos a cores em programas infantis e em emissoras especializadas faz sentido. Peraí, vá... Quase tudo. Porque nem um caminhão de tóchico tomado de uma só vez conseguiria explicar algumas das atrações infantis mais estapafúrdias do mundo da telinha.

Quando assistimos a um desenho, tão engraçadinho, colorido e cheio de aventuras, dificilmente paramos para pensar com mais afinco sobre o que nos é mostrado – com isso, acabamos aceitando um mote completamente absurdo sem ao menos notar.

Na lista que segue, alguns exemplos de desenhos “hã?”. Para compor o ranking, pensei apenas nas histórias, sem me ater se o produto final é bacana ou não – portanto, há títulos de que eu gosto muito e outros que recebem de mim uma careta. Deixando isso de lado, veja só se não tenho razão!

1) Tutubarão
Já vimos, em “Scooby-Doo”, um cachorro detetive – e até engolimos. Mas um tubarão? E fora d’água? Sem mencionar o fato de que, quando não está resolvendo mistérios ao lado de sua turma humana e descolada, ele toca bateria em uma banda de rock! Ah, e também tem uma voz parecida com a do Roberto Carlos!

2) Herculóides
Clara me contou o desentendimento que ela nutre por esse desenho, e daí caiu a ficha. Eles estão no passado ou no futuro? Porque há claramente elementos dos dois! De um lado, temos bichos pré-históricos, cavernas e tangas de pelúcia. De outro, temos raios laser, pistolas e naves espaciais! Crossover da pesada.

3) Ursinhos Carinhosos
Um bando de ursos açucarados e assexuados. Cada um tem um tema estampado na barriga, o que passa a comandar seu modo de vida. Por falar em vida, eles vivem nas nuvens – até seus carros são feitos disso. Morreram e foram para o céu? Sem falar no vilão, que implica com eles por não suportar tanto amor... Argh!

4) Super Globetrotters
Você se lembra? Era uma equipe de jogadores de basquete. Até aí, ok. Equipes de basquete fazem parte do mundo real, não? Mas existem jogadores chamados Multi-Homem, Homem-Esfera, Homem-Gizmo, Homem-Espaguete e Homem-Fluído? Ou uma pessoa com uma bola no lugar da cabeça? Ou com corpo de macarrão?

5) Snorks
Eles viviam no fundo do mar e eram seres estranhamente coloridos. Para completar a estranheza, respiravam por um tubo que saía