sexta-feira, 30 de julho de 2004

Tristeza do jeca

Música sertaneja é mesmo um sofrimento. E não estou falando no sentido figurado, querendo dizer que o gênero hoje dominado pelas duplas de nomes bizarros não presta para nada a não ser afogar mágoas com pouca classe, além de atormentar as pessoas que consideram o estilo um pé bem dado no meio dos bagos.

Vamos voltar no tempo e pensar nas origens do cancionato desse Brasil véio sem porteira. Se as composições são mesmo inspiradas pela realidade do compositor, a vida desse povo era das mais trágicas. Afinal, a realidade expressa nas letras sertanejas mais antigas, na era pré-duplas com mullet, é triste para diabo e vai de bois sacrificados ao abandono romântico – mas com muito mais poesia e originalidade do que suas sucessoras.

Não espalhem, mas todas essas canções listadas aí debaixo cortaram meu coração – não só quando eu as ouvia de pequena, empoleirada no sofá da casa da minha avó, como ainda hoje, quando me deparo com elas sem querer. As cinco mais lindamente tristes – e mais eficientes em me fazer abrir o berreiro (ou enxugar discretamente uma lagriminha, se estiver em público) – estão aí.

5. Chico Mineiro, Tonico e Tinoco
A história de uma viagem feita para negociar gado terminou para lá de mal: além de ter seu parceiro – o Chico do título – assassinado em Ouro Fino, nosso aventureiro ainda descobriu, só depois da desgraça, que o presunto era irmão dele. Miséria pouca é bobagem.

A hora do lencinho: “Fui saber que o Chico Mineiro era meu legítimo irmão”, conclui o infeliz na estrofe final.

4. Menino da Porteira, Sérgio Reis
Ouro Fino é o palco favorito de tragédias sertanejas. Foi lá que um boiadeiro deu falta do garoto que sempre abria a porteira para ele e, ao perguntar para a mãe do petiz o que acontecera, descobriu que um boi mandou o moleque dessa para a melhor.

A hora do lencinho: “Quem matou o meu filhinho foi um boi sem coração”, diz a mulher ao boiadeiro, que jura nunca mais tocar o berrante por aquelas bandas.

3. Romaria, Renato Teixeira
Embora tenha ficado famosa em arranjos mais moderninhos, a música descreve a vida miserável de um certo caipira. A criatura diz que nunca viu sorte, perdeu os irmãos na vida e foi filho de um peão e da solidão.

A hora do lencinho: “Ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida”, implora o homem a Nossa Senhora.

2. Seu Amor Ainda É Tudo, João Mineiro e Marciano
Ok, essa é a mais antiga canção de corno conformado da qual me lembro. Mas quer saber? Acho ótima. Dramática como tem de ser, conta as agruras de um coitado que ainda ama a mulher de quem se separou há tempos. Ele gosta tanto da moça que, às vezes, ainda se pega discando o telefone dela.

A hora do lencinho: “Daquele maldito momento, até hoje, só você”, enfatiza o pobre o quanto tem pensado na donzela.

1. Travessia do Araguaia, Tião Carreiro e Pardinho
Se o boi era o vilão em “Menino da Porteira”, aqui ele é vítima. Pelo menos um deles, que é mandado para as piranhas. O inexperiente ponteiro, praticamente o estagiário da comitiva, fica chocado com a ordem dada pelo boiadeiro mais velho de sacrificar um bovino. Só depois ele entende que essa é a única maneira de passar a boiada pelo rio infestado. Parece a história da sogra do Dino, mas sem humor algum. E sem final feliz.

A hora do lencinho: “Era um boi de aspa grande já roído pelos anos/ O coitado não sabia do seu destino tirano/ Sangrando por ferroadas no Araguaia foi entrando/ As piranhas vieram loucas e o boi foram devorando”. Precisava detalhar tudo, pôxa?


Clara McFly às 09:07 PM


Uma ode a Morfeu

Muita gente diz, principalmente os mais velhos, que “deus ajuda quem cedo madruga”. Pois eu devo estar bem mal na fita do senhor... Tenho horror mortal de levantar da cama quentinha antes do sol estar já um tanto alto. Mas esse, sinceramente, não é um traço de personalidade que eu considere defeito. Parece muito mais natural acreditar que as regras do jogo é que estão erradas.

Deus ajuda quem cedo madruga? Pois o vizinho de uma amiga minha não acha. Ele acordou cedinho um dia desses e foi conferir se o jornal já estava postado na frente de casa. Saiu pela porta, com sua xícara de café pelando, no mesmo segundo em que o entregador arremessou o periódico – que atingiu a caneca de líquido fumegante, que atingiu o bilau do vizinho da minha amiga. Com o pobre peru chamuscado, o sujeito prometeu nunca mais acordar antes das 10h00.

Tá bem, tá bem... É tudo mentira... Esse senhor e sua história triste não existem de fato. Mas bem que poderiam! O episódio é perfeitamente crível – e, se pensarmos bem, veremos que levantar do leito com as galinhas não tem lá muitas vantagens. Os madrugadores defendem que, assim, o dia pode ser melhor aproveitado. Não cola: em vez de acordar às 7h00 e dormir às 22h00, podemos usar o turno das 10h00 às 1h00, e dá tudo no mesmo.

Optando por essa troca de horários, ganhamos bastante. Senão, vejamos: a) os programas da madrugada são mais legais que os da manhã; b) o pulso telefônico noturno é mais barato que o matutino; c) há mais silêncio para ler, ver filme ou trabalhar à 1h00 do que às 8h00 (quando a obra aqui ao lado de casa, por exemplo, começa a Sinfonia dos Infernos). E esses são apenas motivos imaginados de bate-pronto. Posso inventar milhares de outros nessa minha cabeça sonolenta!

Meu pai é um dos humanos que não entende a teoria. Homem trabalhador que sempre foi, ele acostumou a acordar ainda na escuridão e ir dormir nos meados da novela das oito. Isso é o que 33 anos de emprego em indústria podem fazer com uma pessoa. Como ele consegue, não compreendo: para mim, abrir os olhos e ver que o dia não clareou ainda só suscita a manobra de virar para o lado, puxar a coberta e apagar por mais dois pares de horas.

Já precisei levantar antes do raiar do dia, por isso sei como é horrível – e, pelo menos para mim, até hoje, impossível de acostumar. Na minha lista de “Motivos para Desenvolver Depressão Mórbida”, acordar às 6h00 da manhã está na primeira colocação. É revoltante sair do pijama naquele frio da madrugada, por exemplo. Nos tempos de escola, era a morte.

Outro dia li que obrigar adolescentes a entrar no colégio às 7h00 era uma crueldade. Segundo os médicos, o organismo dos jovens precisa de muito sono e não funciona bem logo cedo. Então, finalmente entendi porque dormi em TODAS as aulas de física do terceiro colegial! É contra a natureza fazer criaturas de 16 anos acordarem às 6h00 (ou até antes) para ter aula logo em seguida. Algum deputado pode fazer o favor de defender a molecada no congresso e mudar o período de estudo para das 9h30 às 13h30?

Talvez tudo isso pareça apenas um grande atestado de preguiça para a maioria. Tudo bem, eu sou mesmo fã demais dos braços de Morfeu, o deus do sono. Pode ser, mas não me arrependo disso quando estou entre os lençóis e edredons e travesseiros, embalada pelo soninho gostoso. E se deus for mesmo contra a opinião de Morfeu e decidir não me ajudar por causa disso... Bom, eu tentarei convencê-lo a fazer isso um bocado mais tarde.

Fla Wonka às 02:00 PM


Para brincar e passar medo

Eu sempre achei bonecas de porcelana assustadoras. Aquela face lívida, aqueles trajes rendados cheios de babados e aquele ar de antigamente me faziam pensar em um defuntinho. Todos os exemplares que eu ganhei na minha vida foram passados adiante na mesma hora – jamais ficaria tranqüila em dividir meu quarto com tamanha assombração inanimada, quiçá com uma coleção delas!

Mas não apenas de bonecas genéricas vivia meu medo infantil por brinquedos. O pior deles, como já narrei aqui, foi um pequeno E.T. da Groll que mamãe me deu para tentar “afastar” o pavor que eu tinha daquele alienígena pescoçudo, enrugado e com voz de Dercy Gonçalves. Claro que o boneco só ajudou no trauma, principalmente porque ele ficava me olhando de cima da cômoda.

É por isso que tenho uma certa tendência a acreditar que os fabricantes da indústria de brinquedos gostam mesmo é de pregar peças mórbidas nos pequenos. Assim, acabam por empurrar itens que mais assustam do que divertem. Claro que há gosto para tudo. Mas eu não teria bons sonhos ao lado de algum desses bonecos aí embaixo...

Fofão
É batido – mas não dá para pensar em brinquedos do medo sem citar o boneco. Como se já não bastasse ele ser confeccionado à imagem e semelhança de um personagem por si só assustador, ainda carregava uma famosíssima lenda urbana: para obter sucesso, o ator que interpretava o bicho fizera um pacto com o Coisa Ruim. Em troca, foram enfiadas dentro do boneco velas de macumba – ou punhais.

Gui-Gui
Uma bonequinha linda – pelo menos, na aparência. Ela tinha uma carinha de criança e era vendida como a última moda em tecnologia. Bastava a menina juntar os bracinhos rechonchudos que ela “gargalhava”. Ou melhor: soltava uma risada estridente, assustadora e demoníaca! Toda a inocência ia para o ralo, e de repente a doce boneca soava como uma psicopata com planos sangrentos em mente.

Late Lulu
Esse também foi uma carinhosa cortesia da Estrela. Apesar de ser envolto por pelúcia fofinha, o cachorro em questão era duro feito pedra – já que escondia um mecanismo complicado. Colocando pilha na barriga do bicho (o que já era horrível), ele começava a andar, sentar, latir e... dar uma pirueta! Assustador! Lembro bem que o negócio fazia um barulho de robô para funcionar. Ele foi aposentado loguinho.

Recém-Nascido
De todas as bonecas que a Estrela já lançou, com certeza essa era a mais aterrorizante de todas. Posso falar porque ganhei uma de Natal. Algum gênio teve a brilhante idéia de fazer um bonequinho idêntico a um bebê recém-nascido. E pior: conseguiu! Ele não sabia que bebês assim só são bonitos para a mãe que os pariu? O negócio era feio, enrugado e magricela. Sem falar no umbigo do medo, né? Piada de mau gosto.

Senninha
Meu irmão tinha um e fez questão de doá-lo depressa. Antes da morte do piloto, era apenas um bonecão cabeçudo que falava. Após a morte do piloto, ele era um bonecão ressurgido nos infernos. Imagine que coisa mórbida era olhar para aquilo! Ainda por cima, o troço falava... Bastava apertar a mãozinha para que ele soltasse frases do tipo “Acelera, amiguinho”! Hmmm, melhor mudar de idéia, né, Ayrton?

Sandy Fashion
Quase caí pra trás durante uma visita recente a uma loja de brinquedos. Uma boneca da Sandy já carrega sozinha elementos de terror. Mas este exemplar em questão é demais! É gigantesca – com certeza do mesmo tamanho de uma criança de 10 anos. Já pensou? O mais estranho, contudo, é que ela vem dentro de uma caixona retangular... Ah, desculpe, mas para mim aquilo é uma menina morta. Só falta enterrar.

Furby
Uma mistura de Gremlin com Corujito. Para piorar, o boneco é interativo. Na caixa, uma frase pavorosa: “Furby quer brincar com você”. Eu colocaria o adendo “para todo o sempre”. De qualquer maneira, o bicho dava sustos mesmo em quem o achava bonitinho. Sem mais nem menos, ele soltava um grito – e podia ser no meio da noite. Dica: não tenha brinquedo que fala. Pelo menos não antes de você falar com ele.

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Quer brincar?
Vivi Griswold às 10:59 AM

quinta-feira, 29 de julho de 2004

Eu era uma criança multimídia

Uma das inúmeras vantagens da idade pueril é ter tudo que você faz aplaudido pelos avós, pais, tios e agregados orgulhosos – exceto, é claro, mancadas como trancar seu irmão num baú ou se comportar mal na frente das visitas, essas entidades místicas a quem o melhor da casa era sempre oferecido. Todos esses aplausos irrestritos me levaram a alçar vôos cada vez maiores (leia-se: pagar cada vez mais micos) nas minhas, digamos, experiências midiáticas.

Depois de recordar outro dia as tradicionais brincadeiras de rua aqui e aqui, pus-me a pensar no que mais me distraía na infância. Entre algumas atividades não exatamente folclóricas, mas também não muito particulares, lembrei-me das aventuras de escritório, navio e outras bobagens.

Foi exatamente aí no “outras bobagens” que recordei da imensa graça que eu via em fazer livrinhos. E revistas. E programas de rádio. E reportagens de TV. E peças teatrais. Ufa! Se essa fase da vida contasse no currículo, eu poderia dizer que sou uma profissional com vasta experiência multimídia. Desenvolvida na infância, claro.

Aliás, por isso mesmo, minha vivência com tais veículos foi muito mais divertida – sem as necessidades de explicação do “conceito” da obra (tem coisa mais chata que obra explicada?) nem pressões sobre a “receptividade da crítica” (tem: crítica) ou a viabilidade comercial do projeto (ah, sim: pior que “crítica” e “conceito”, só mesmo os “negócios”).

E hoje, no meu currículo, eu poderia registrar...

Experiência em ilustração e edição de livros
Títulos: A História de um Rei Mandão Chamado Hadibre, entre outros

Eu fazia todas as histórias em folhas de sulfite dobradas ao meio (o que já dava uma brochura satisfatória para meus padrões) ou em folhas de linguagem, aquelas furadinhas, presas depois com uma bailarina (esse era, basicamente, meu trabalho de edição). Também ilustrava tudo com minha inseparável caixa de lápis de 36 cores – o verde-água e o rosa-choque, meus favoritos, eram sempre os primeiros a virar toquinhos. Só não me perguntem de onde eu saquei o nome do protagonista.

Experiência em redação e edição de revistas e jornais
Títulos: Gut! e Jornal de Casa

Minha irmã, minha prima e eu tivemos a fase do desenho de moda. Vivíamos inventando modelos com roupinhas diversas. Começamos a nos especializar e produzir roupas de várias categorias, como “moda praia”, “moda festa” e “moda infantil”. Depois, desenhávamos uma capa, juntávamos tudo com grampeador e, voilà!, aí estava a “Gut!”, nossa publicação de moda (mais uma vez, não me perguntem porque esse nome). Que Vogue, que nada!

Outra aventura foi o Jornal de Casa, periódico que eu fazia com o requinte de escrever e desenhar sobre um carbono preto, para parecer um jornal de verdade. O conteúdo era basicamente notícias do meu lar-doce-lar, como “Festa de aniversário do João termina com duas crianças arranhadas. Veja a lista de presentes”.

Experiência em rádio
Programas humorísticos diversos

Quando meu pai chegou em casa com um rádio gravador capaz de captar nossa voz sem usar microfone, já fiquei de pestana comprida para a novidade. Não demorou muito para que eu me apossasse do eletroeletrônico paraguaio e começasse a gravar imitações, piadas e karaokês. Bastou o trio que produzia a “Gut!” pilhar-se numa desocupada tarde de sábado em poder do rádio e pronto! Saiu um programa com entrevistas, músicas e quadros cômicos. Bem, pelo menos nós achávamos hilariante uma mulher chamada Claudia Peixe telefonar e pedir a canção “Borbulhas de Amor”. Ok, não é engraçado. Mas na época, pareceu.

Experiência em TV
Rumble! e algumas reportagens

De novo, tudo começou com uma nova aquisição do meu pai: uma câmera filmadora. Tive de esperar um pouco até que minha mãe me deixasse mexer naquela verdadeira geringonça, último modelo da época. Quando tive peso e coordenação suficiente e cartão verde para manuseá-la, pronto! Filmamos uma reportagem dentro das casas em construção na minha rua, no estilo “Comando da Madrugada”. E inventamos um programa chamado “Rumble!”. Dessa vez, não me perguntem do que tratava a tal atração. Não tenho a menor idéia. Só sei que eu gostava de títulos com exclamação.

Experiência em teatro
Peça de Natal

Todo ano, minha mãe preparava uma apresentação para celebrar o Natal. Teve jogral e reencenações do nascimento de Cristo. Até que, em 1990, achamos por bem cuidarmos disso – e fizemos uma surpresa para os adultos. Bolamos o roteiro, ensaiamos a primaiada, confeccionamos os adereços. Tinha interação com a platéia, personagens que iam da então Ministra Zélia Cardoso ao Papai Noel, passando por Sebastian, o garoto-propaganda da C&A, e até um número musical no fim. Chique, não? Não. Era um samba do Natal doido, mesmo. Mas que foi divertido, ah, como foi!

Clara McFly às 08:19 PM


Arqueologia ali na esquina

Ultimamente, tenho a impressão de que preciso usar chapéu de feltro, roupas e botas resistentes, picareta e lupa para encarar... uma visita ao jornaleiro. Haja espírito aventureiro para encontrar, em meios aos periódicos, algo que valha a pena ler – e que valha, ao mesmo tempo, cerca de R$ 8. Felizmente, ainda há esperança para os exploradores de estantes de banca de jornal.

Sendo uma moça, deveria usar o procedimento padrão e ir direto às revistas destinadas ao meu gênero. Mas com qual estômago? Não tenho intenção alguma de passar pela banca e pagar quase 10 mangos por um volume que fale sobre como agarrar homens, maquiagem, como prender homens, biquíni, como amordaçar homens, entrevista com o galã da novela, como achar homem parecido com galã de novela. Chato pacas, credo.

Também já não acho graça nas revistas de variedades. A maioria descobriu que capa “vendedora” é aquela trazendo na manchete “maconha” ou “Jesus Cristo”. Um dia conseguirão, finalmente, unir ambos e cobrir os custos de edição do ano inteiro inventando que Jesus fumava o cigarrinho do capeta...

Mas chega de tanta depressão e rancor. Existe, sim, possibilidade de fazer uma boa compra quando vou à banca localizada bem ali, no final do quarteirão. Na verdade, confesso: tenho medo que, por serem bacanas, espertas, inteligente e bem escritas, estas três revistas abaixo sumam logo do mercado.

É um temor procedente. Revista legal costuma não ter anunciantes, porque o pessoal da publicidade prefere estampar suas marcas em uma edição com a Suzana Vieira recauchutada na capa. Torço para que não aconteça – e, enquanto isso, aproveito a chance de me divirtir bastante lendo esses tesouros escondidos entre estantes.

Revista 10
Está na segunda edição, me parece, mas promete ser um oásis para que aprecia esporte. A rigor, a 10 trata de futebol – só que não se mantém naquele nicho besta de apenas dar resultado de jogo e explorar a mente de jogador cabeça-de-bagre. Já no primeiro número, tive a oportunidade de ver uma matéria com o cidadão que descobriu Diego Armando Maradona, uma bela (sem duplo sentido) reportagem sobre Kaká e várias outras pautas bem sacadas e charmosas. Talvez aquele meu tio barrigudo e cervejeiro, que torce aos berros estatelado no sofá, não goste da 10. Ele pode achá-la “muito enjoada”. Mas eu acho que vale a pena pagar para ter bom texto, ótimas imagens resgatadas e histórias brilhantes do esporte bretão contadas de forma tão genial.

Jornal da História
Para quem acompanha os bastidores da vida de umas tais Garotas que Dizem Ni, isso vai parecer uma tremenda e descarada auto-promoção. Não é, juro. Como jornalistas que precisam juntar alguma bufunfa no final do mês, fazemos matérias para várias publicações – mas a mais querida, verdade seja dita, é o Jornal da História. O motivo? A revista traz bom conteúdo e espírito didático sem se tornar sonífera. Ela nasceu como um filhote da revista Terra, também muito boa. E não é que o bebê superou mamãe? Quer dizer: os apreciadores de história, pelo menos, devem gostar muito. A idéia não é usar aquele texto chato e professoral, mas contar sobre acontecimentos que foram capazes de mudar o mundo. Não é aborrecido, é como ter aulas com um mestre muito bm humorado. E eu adorei saber umas fofocas sobre a vida de Napoleão Bonaparte.

Flashback
É a mais novinha das três – e também aquela com mais chances de vingar, suponho. Afinal, a julgar pelo tanto de malucos que vêm aqui ao nosso site ler sobre o passado não muito distante, a nostalgia está em alta. Como o nome anuncia, a Flashback (cria da revista Superinteressante, que já teve dias mais gloriosos) resgata lindamente os anos 70 e 80. A edição que suguei com os olhos trazia nada menos que os Trapalhões na capa! A matéria, perfeita, relembrou os 30 melhores momentos de Didi, Dedé, Zacarias e do saudoso Mussa. Tem ainda um artigo sobre a Corrida Maluca, mostrando quem mais venceu as carreteiras alucinadas entre Penélope, Dick Vigarista, Rufus Lenhador e companhia. Não é superficial ou fútil como pode parecer a alguns: reportagens sobre a Ilha da Fantasia, Playmobils, a coelhinha Magda Cotrofe e etc são, isso sim, entretenimento inteligente e agregador de alguma sabedoria. E esse é um ótimo motivo para insistir na aventura de explorar os domínios da banca de jornal.

Fla Wonka às 02:55 PM


Eles não servem pra mim

Meninos são incríveis. Uma espécie de gente bem menos descomplicada que garotas. Talvez seja por isso que sempre me dei muito bem com eles. Tive (e tenho) bons amigos homens. Divertidos, engraçados, desencanados. Mas quando saímos do terreno “amizade”, a coisa se complica. Meu tipo de homem é um pouco raro de se encontrar – e você vai saber o motivo.

Minhas restrições, algumas bem extremas, são facilmente esquecidas em uma roda de bar. Não me importo em ouvir um amigo narrar todos os lances do último jogo do Curingão, por exemplo. Mas não suportaria um namorado fazendo isso ao meu lado, com tantas outras coisas mais importantes para conversar ou fazer.

Portanto, quero deixar bem claro que o texto de hoje não tem intenção alguma de ofender algum leitor aí do outro lado. Muito menos generalizar. Afinal, é bom lembrar de que o tal amor costuma chegar nos momentos mais inesperados...

Metaleiros
É fato: não consigo me dar bem com um parceiro que tenha gosto musical diferente do meu. Não apenas diferente – se eu gostar de Beatles e ele de Rolling Stones, beleza. O problema é se eu gostar de Beatles e ele de Megadeth! Não rola, né? Imagine a briga pelo botão do dial no rádio do carro... Aliás, todo o “pacote metaleiro” me dá cócegas: camiseta do Áááááiron, cabelo maior que o meu, calça jeans suja e botinão. Mas calma, queridos roqueiros. Tem coisa muito pior. Como pagodeiros.

Futebol-maníacos
Olha aí uma restrição que lima 95% dos meninos sobre o nosso solo nacional, para a minha tristeza. Um relacionamento com alguém que não fala “oi” quando encontra um amigo, e sim “e aí, perdedor” ou “e o seu time, hein” ou “fala, corinthiano”, teria uma validade muito curta. E dividir o mesmo recinto que ele durante um jogo de futebol, então? Algumas meninas podem até achar excitante ver o parceiro ali, berrando como o homem das cavernas, xingando o juiz ou dando socos no ar. Eu, não.

Malufistas
Daí você me diz: mas Vivi, malufistas são senhores idosos que acham que no tempo dos militares é que era bom! Nananinanão. Há malufistas entre jovens esclarecidos. Na minha classe da faculdade de jornalismo havia um punhado deles. Todos bonitões, bem vestidos, inteligentes. Bem, nem tanto. O fato é que o gosto político conta muito para mim. Não que eu seja super politizada ou algo parecido. Só tento não dar meu voto a picaretas – e teria insônia de saber que meu namorado o faz.

Sujinhos
Gosto de meninos desencanados com moda. Mas isso não quer dizer que gosto de meninos completamente alheios ao visual. Ser desencanado é usar camiseta branca, calça jeans e tênis All Star. Porém, tudo limpo e cheiroso – inclusive o próprio. Não precisa usar roupa de grife, fazer manicure (credo!) ou ficar checando o visual em todos os espelhos que encontrar pela frente. Basta gostar de um bom banho. E fazer questão de tomar um antes de se encontrar comigo, é claro.

Mauricinhos
Meninos nascidos em berço esplêndido, com carro importando ganho do pai ao entrar na faculdade, emprego garantido na empresa da família, dinheiro saindo por todos os poros, cabelo e roupas engomadas, sorry. Gosto de rapazes trabalhadores, que sabem direitinho quanto significa o salário no fim do mês. Que suaram para garantir um bom emprego e comprar um carro legal. Que consigam encontrar valor em pequenas coisas. Gente que tem tudo de mão beijada dificilmente consegue.

Intolerantes
Nessa panela de intolerância entra tudo de ruim. Como um cara que tenha preconceito de qualquer espécie. Ou que tenha aquela mentalidade de “bandido bom é bandido morto” e “direitos humanos para humanos direitos”. Ou que carregue qualquer arma de fogo e xingue no trânsito. Arrisco colocar aqui também os extremistas religiosos, seja qual for a crença. Como eu não tenho religião formada, seria um alvo fácil para ser “convertida” pelo namorado. Já pensou? Cruz credo!

Anti-bichos
Está fora de questão tentar ter um relacionamento saudável com um garoto que acha divertido atirar pau no gato, literalmente falando. Ou chutar cachorro. Ou atirar em passarinho. Não exijo que o cara ame os animais como eu amo, mas que não maltrate e respeite o meu posicionamento quanto a isso. Há poucas coisas que conseguem me ganhar mais do que ver um namorado fazendo festa a um cachorrinho, ou brincando e acariciando qualquer um dos meus gatos.

Fumantes
Tenho muitos amigos fumantes, entre eles uma bem querida. Tudo fica às mil maravilhas, até que um resolve acender aquele cigarrinho dos infernos. Eu consigo tolerar um ou outro. Mas conviver com alguém que fuma seria impossível para mim. Imagino a cena: eu chegando a um encontro, de banho tomado, toda perfumada. O cara abre a porta do carro para eu entrar e vum! sai aquela névoa de fumaça fedida. Agora pense em dividir uma casa (e uma vida) com um fumante. Não dá.

Baladeiros
Aí vamos entrar em um estilo de vida completamente diferente. Assim como baladeiros seriam um pesadelo para mim, eu sou o maior pesadelo para eles. Odeio trocar o dia pela noite. Odeio passar horas em um lugar cheio de gente, de barulho, de fumaça. Fazer isso uma vez ou outra, ok. Mas todo fim-de-semana... Gosto de curtir minha casinha, de alugar um filme e comer pipoca no sofá aconchegante. E sair para jantar num restaurante tranqüilo e pegar um cinema. Diz aí: tem coisa melhor?

Ah, antes que perguntem: sim, encontrei um garoto com bom gosto musical, que ignora futebol, que odeia o Maluf, que é cheiroso, trabalhador, inteligente, talentoso e educado com as pessoas, que é carinhoso com bichos, que não fuma e que gosta de curtir o sofá comigo. Aliás, o nosso sofá, né, Mr. Griswold?

Vivi Griswold às 10:06 AM

quarta-feira, 28 de julho de 2004

Ela é muito liule

É sabido pelos leitores mais assíduos desse sítio que eu adoro ter irmãos – um monte deles, aliás. Seja para irritá-los ou para falar coisas boas a respeito desses maletas que invadem nossa vida e nos acompanham pela vida toda, sem possibilidade de escolhermos... ou não. Dos meus quatro irmãos, dois meninos e duas meninas, uma eu escolhi. E depois de bem grandinha.

A Rê tem um nome difícil de acertar de primeira: Regilaine. Não é Regiane, nem Regislaine. Junte a isso um segundo nome; ela, como eu, tem chamamento duplo – que vai permanecer devidamente secreto.

Ela é a criatura mais fiel aos amigos que eu conheço. Também é sincera e muito sociável - o que a torna excelente companhia para qualquer parada, de um encontro de jipeiros a uma festa na casa dum diplomata italiano; de bate-e-voltas para a praia a corriqueiras compras no shopping. Acredite-me, ela já fez tudo isso.

Como se não bastasse, a moça cozinha bem para caramba (prepara até brownies – e não daqueles de caixinha), dorme em qualquer superfície horizontal onde encostar, é distraída até dizer chega, acompanha novelas, entende o que eu quero dizer só pelo olhar e sempre me faz morrer de rir. Isso porque, entre outras cumplicidades de irmãs e bobeirinhas internas, a Rê tem um vocabulário muito próprio.

E bota próprio nisso. Alguns dos termos são cunhados pelas amigas meio doidas que ela tem, mas ganham uma entonação e um sentido todo especial quando pronunciados pela bela – que aniversaria hoje. Portanto, preparem-se e me digam se vocês já viram alguém sacar de...

Liule
Ainda não consegui definir se é um substantivo masculino ou feminino. Quiçá um adjetivo ou advérbio, ou mesmo uma interjeição. Na linguagem da moçoila, “liule” serve para chamar alguém (ex.: ô, liule!) ou para definir um estado de espírito (ex.: eu estava lá, toda liule).

Oi!
Regi transcendeu o sentido desse cumprimento e utiliza a minúscula palavra para responder a teoricamente qualquer pergunta. Você pode estar conversando com ela e perguntar “e aí, foi lá na 25 de Março comprar as coisas?”, ao que ela exclamará: “oi!”. Então tá.

Funk loser
Sabe Deus de onde veio essa. Mas o fato é que pegou – pelo menos no nosso círculo de amizades. Agora, quando queremos falar que alguém fez uma trapalhada ou bobeou em alguma coisa, a expressão natural é classificá-lo como um “perdedor do funk”. Vai entender...

Paspalho
Tá certo que essa palavra existe, está nos autos do Aurélio e tudo. Mas convenhamos: quanto tempo faz que você não ouve nenhum ser humano lançar mão desse verbete? Pois Rê é mestra em desenterrar expressões do “arco da velha” – provavelmente ela usa essa última também.

Meeeentira!
Outra palavra comum, mas dita com uma entonação toda particular por minha irmã de fé, amiga camarada. Servia como interjeição de espanto, porém depois de um tempo foi tão repetida que podia ser a resposta às mais simples frases, como “Rê, hoje eu fui trabalhar de metrô”.

Tum
Espécie de blá-blá-blá. Serve para resumir as histórias ou enfatizar um movimento, como por exemplo: “aí eu fui e, tum!, já falei tudo mesmo”. Ou “cheguei lá e não conhecia ninguém, mas – tum! – já me enfiei num grupinho”.

Eu não disse que ela é sincera e sociável? E que eu adoro essa menina, eu já disse? Pois então, fica dito. Feliz aniversário, liule!


Clara McFly às 06:23 PM


Dobradinha de risadas

Música sertaneja não é, nem de longe, a que eu mais gosto. Muita gente ainda defende aquela do estilo raiz, caipira mesmo, acompanhada de viola e sotaque. Tudo bem, essa até acho engraçadinha – mas daí a botar para rolar no som, não mesmo. Ainda assim, confesso nutrir uma grande curiosidade para com o meio. Já notaram o nome daquelas duplas? É riso pra mais de metro, sô!

Comecei a perceber esse fenômeno por causa da minha vó. Para a Dona Ondina, era deus no céu, Jânio para prefeito e Sérgio Reis no toca-fitas. Ela adorava o estilo do homenzarrão cantar “Menino da Porteira”, por exemplo. Também ouvia muito a Inezita Barroso – e não perdia um “Som Brasil”, com o Rolando Boldrim sendo embalado pelo “Amanheceu/ Peguei a viola/ Botei na sacola/ E fuuui viajar”. Lá é que reparei, de primeira, nos nomes de duplas sertanejas.

Tonico e Tinoco foram os pioneiros. Ainda atuavam no esquema mais simples, de cantar música com história bacana – e não aquela toada de corno feita hoje em dia – e combinar os apelidos pela letra inicial ou sonoridade. Ficava meigo, inocente, engraçado e bastante abobado. Só isso já garantia certo sucesso à dupla, porque essas são qualidades que o povo do campo reconhece.

Logo depois vieram outros sujeitos ainda mais brincalhões. Onde já se viu, arrumar um parceiro de cantoria e se auto-intitular João Mineiro e Marciano?! O João, imagino de onde veio. Já o Marciano... Com aquela cara, não duvido que tenha fugido de alguma nave criada pelos homenzinhos verdes de além-espaço.

Milionário e José Rico também entraram nessa seara. Provavelmente, queriam chamar o sucesso na marra, já agregando uns cifrões aos nomes. Até onde sei, ganharam mesmo um dinheirinho (bom, pelo menos deu para comprar o monte de cordões dourados que ambos carregavam no pescoço). Um deles partiu desta para uma melhor, mas a nomenclatura da dupla permanece comentada. Viu como deu certo?

Nos tempos modernos, a criatividade para escolher os nomes anda rara. Leandro e Leonardo não pensaram mais que quatro segundos ao optar pelo seu. Fizeram até uma “escola do mal”, incentivando a criação de outros insossos Gian e Giovani, Marlon e Maicon... Credo, que chato! O que Pena Branca e Xavantinho diriam sobre isso?

Chitãozinho e Xororó também não é nome dos mais inventivos, mas passa. Apelar aos pássaros ainda é melhor do que manipular o próprio chamamento e criar um Frankenstein auditivo como Zezé di Camargo e Luciano! “Di Camargo” por quê, hein? Foi uma tentativa de imitar o Da Vinci? Mas ele não nasceu em Camargo, que eu saiba, e sim em qualquer lugar próximo de Goiânia.

Dentre os novatos, Rio Negro e Solimões só não podem ser acusados de cair na mesmice. Ir até a Amazônia buscar nomes de leitos d’água foi corajoso. Ainda mais para um moço que não deve ter mais que 1,50 m de altura! Será que ele é o potente Rio Negro ou o violento Solimões? E de onde teria vindo tanta mania de grandeza?

Mas a melhor dupla, aquela que carrega consigo o mais espetacular nome dentre todos, é sem dúvida... Teodoro e Sampaio! Haja criatividade. Teodoro Sampaio, vejam só, foi um célebre engenheiro e explorador dos interiores do Brasil. Construiu hidrelétricas, mapeou regiões, descreveu até fauna e flora por esse mundo velho sem porteira. Daí, como marca na história, virou dupla sertaneja!

Para mim, a escolha desse nome é um sintoma de bom humor. Por obra do acaso, pode ser que eles se chamem mesmo Teodoro e Sampaio, vai saber... Mas prefiro acreditar que os tios usaram a máxima de que “o sertanejo é, antes de tudo, um forte piadista”. Preciso começar a ouvir mais essa turma. Eles devem ter ótimas histórias a nos contar.

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Não é mesmo 'tudo de bão'?
Fla Wonka às 02:33 PM


Eu já usei

Em todos estes anos nesta indústria vital, como diria Clark Griswold, eu aprendi que modismos são traiçoeiros. Acompanhá-los cegamente implica em um grande risco de arrependimentos futuros – principalmente se houver uma foto como testemunha cruel do seu passado. O problema é que cada um de nós caiu em pelo menos uma arapuca dessa estirpe. Eu já. Em várias.

Quando se é criança e adolescente torna-se muito mais fácil aderir a um determinado estilo que todo mundo está usando. Na fase infantil, temos a desculpa de que não fazíamos a menor idéia do que é ou não é bonito. Na fase adolescente, bem, acabamos indo na onda de amigos só para nos camuflarmos na multidão e pertencermos a um grupinho específico.

Pois agora só me resta arrumar tais justificativas esfarrapadas por ter usado 10 dos itens mais horrorosos que a moda já viu...

10) Batom paraguaio 24 horas
O tubo era verde com uns desenhos em dourado. O batom, em si, também era verde! A gente passava e... nada. Só depois de um certo tempo que o vermelho escarlate aparecia com tudo – assim como o borrado em volta da boca. Afinal, como acertar o contorno de um batom transparente? Ficar parecido com o Bozo não tinha graça alguma.

9) Vestido trapézio
Ah, que idéia genial do final dos anos 80. Como ninguém pensou nisso antes? Um vestido que te deixa com aparência de botijão de gás! Pelo menos o da minha avó, que tem roupinha. Era um traje que simplesmente não contava com aquela coisa saudável e de bom gosto chamada “cintura”. Até eu, um palito ambulante, ficava imensa.

8) Franja
Não que eu vá falar mal de franja. Aliás, tenho a maior dor de cotovelo do mundo por não ter tido uma decente. Acho a coisa mais linda aqueles cabelos lisérrimos, escorridos, com uma franjinha moleca. Acontece que todas as minhas tentativas foram frustradas. Eu cortava, e as pontas das madeixas enrolavam. Ficava muito, muito feio.

7) Calça baggy
Um dos terrores dos anos 80: uma calça jeans cuja cintura chegava até perto do busto. Como se não bastasse essa característica pavorosa, a peça tinha pernas largas, porém barras justas. Ou seja, ficávamos parecendo uns palhacinhos. E eu, para completar o visu dos infernos, ainda usava camiseta largona por dentro. Que noção!

6) Tênis de couro branco
O tênis, em si, não era tão terrível. Pensando bem, posso dizer que até o achava simpático, com aquele couro branco que só permanecia assim no momento da compra. O negócio entornava quando mamãe me presenteou com um Nike desses dois números maiores que o meu, para “eu crescer e não perder”. Pior que usei assim mesmo.

5) Camisa larga xadrez
Chegamos nos anos 90, com o movimento grunge a mil por hora. Engraçado é que eu nunca gostei de Nirvana, muito menos de Pearl Jam e todas as outras bandas da panelinha. Mas que eu usei as camisonas de flanela xadrez, bem, eu usei. Ficava suuuuper linda, principalmente combinando com um par de coturno pesado. Chiquérrimo.

4) Legging com minissaia
Mais um hit dos anos 80 que pegou como catapora no jardim de infância. E eu que achava que a combinação pouco atrativa tinha sido enterrada pelas areias do tempo, me enganei: o legging surgiu do purgatório novamente! Copiar um erro é ruim, mas repeti-lo... Terrível. E eu duvido que alguma sobrevivente da primeira leva vai voltar a exibir o conjuntinho.

3) Cabelo repicado
Meu cabelo é um troço estranho. Quando nasci, ele era liso e preto. Nos meus primeiros anos de vida, ele era liso e loiro. Na pré-adolescência, ele era crespo e escuro. Agora deu uma alisada novamente. E qual foi a época em que escolhi repicá-lo? No momento crespo e rebelde, lógico! Olha, não ficou bom nem na cabeleireira, só para dar idéia.

2) Ombreiras
Ao lado das calças baggy, as ombreiras foram as piores pragas dos anos 80. Não entendo o que há de atrativo em uma mulher que fica com o pescoço consideravelmente mais curto e ombros de jogador de futebol americano. Bem, alguém devia concordar, porque as almofadinhas estavam em todos os lugares. Até em camisetas!

1) Sapatilha com solado de pino
Nenhum dos itens acima me envergonha mais do que este. Porque não era moda. Nunca foi. É apenas um sapato extremamente feio. E nem confortável, pois eu me lembro bem de ter de usar meias com ele. Agora imagine esse calçado, com aquele solado e aqueles “sininhos” enfeitando a parte de cima, combinados com meia florida.

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O horror, o horror
Vivi Griswold às 10:13 AM

terça-feira, 27 de julho de 2004

O livro da discórdia

Brigas dramáticas, provocações irônicas, furtos sem razão aparente e distúrbios de toda sorte. É a trama da mais nova novela mexicana? Não, não: estou apenas falando do livro de reclamações do meu condomínio, por cujas páginas, repletas de intrigas, tive o prazer de passear no último sábado – quando fui registrar nos autos a visita do Mickey aqui no lar-doce-lar.

Num micro-bairro com 160 casas, qual a chance de todos os moradores serem sensatos e tranqüilos? Menor do que a probabilidade da depilação com aquele creme estranho realmente funcionar. Eu já sabia disso antes de me mudar para cá – e tentei me preparar psicologicamente para minha primeira experiência em moradias mais ou menos coletivas, já que desde que me lembro sempre morei em casas com quintais próprios.

Viver em sociedade é uma arte. Imagina viver em condomínio, espécie de sociedade disposta num terreno mais apertadinho. Só podia dar bobagens a rodo, mesmo. Como, por exemplo, o misterioso roubo das torneiras – um dos registros do tal livro, que fica na portaria à disposição dos moradores para reclamações, requisições, avisos (como o de que apareceu um roedor na sua casa) e pitacos na vida alheia (esse último item não estava propriamente entre as funções originais do caderno, aposto).

Diz a nota que as torneiras do tanque e da pia da cozinha de duas casotas foram surrupiadas. Quem, por Deus, quereria afanar torneiras? E da pior qualidade, ainda por cima. Depois de ler tais parágrafos, estou sempre de olho nas minhas. Além disso, o bizarro fato fez o sumiço do garfo perder o posto de maior mistério aqui das redondezas.

Mas ter sua torneira levada pelos amigos do alheio não é o pior que pode acontecer aos moradores desse condô. Vários outros registros no livro dão minuciosa conta de carros que estavam parados no estacionamento sem o devido crachá de autorização. Detalhe: nenhum dos reclamantes teve um desses veículos estranhos parado na sua vaga. Ou seja, deve haver um grupo de vigilantes do estacionamento, verdadeiros heróis que, em vez de se preocupar com a própria vida, ficam a espionar onde os vizinhos param seus carros. Que gente abnegada, não?

A única queixa justificável que encontrei por ali foi a de uma senhora cuja vizinha de cima acreditava ser o gramado em frente às casas um imenso cinzeiro. A pobre contou 17 bitucas de cigarro atiradas à grama – e canetou o ocorrido no livro. Tudo bem que, se fosse comigo, primeiro acharia por bem tentar falar direto com a chaminé ambulante. Depois, caso a conversa não surtisse efeito, aí sim eu apelaria para aquele cadernão.

Se ainda assim a sócia da Philip Morris continuasse a tentar cultivar uma plantação de tabaco nos jardins comuns, o próximo passo natural seria conversar com uns contatos e fazer a maledeta acordar ao lado de 20 cigarros decepados – o ideal seria uma cabeça de cavalo, mas acho que a moça não teria um eqüino disponível aqui nos parcos espaços do condô.

No entanto, a melhor pérola do Grande Livro da Chiadeira, das Mesquinharias e da Pegação no Pé Alheio é mesmo a discussão sobre a piscina. Aparentemente, tal atrativo só é liberado para os moradores ou para visitantes menores de 12 anos (não me perguntem). Quando um morador deu uma festa no salão, conjugado à piscina, alguns convidados maiores de 12 resolveram molhar o corpinho – é o que afirma outro distinto cavalheiro residente deste conjunto habitacional do barulho.

Ao ler a reclamação, o morador responsável pela festa esclareceu que o povo que se jogou na água eram seus familiares, também domiciliados neste endereço. Portanto, tinham direito ao uso da piscina. Mas não deixou por menos e chamou o reclamante de “Zé Povinho”.

Achei que o dono do festerê tinha apelado um pouco. Porém, mudei de idéia logo que li a nota seguinte. Lá estava o “Zé Povinho” dando sua tréplica. Afirmava que os banhistas eram visitantes, sim – e ele tinha até fotos (!) para provar. Quer os foliões piscineiros fossem moradores, quer não, dou ganho de causa ao dono da festa. E ainda por cima processo o Zé Povinho por assistir demais ao “Big Brother”.

Clara McFly às 06:54 PM


Corra do intervalo!

Sou portadora da síndrome do zapping. Deu a hora do comercial na televisão, aciono as teclas do controle remoto sem dó nem piedade dos publicitários. Sim, até consigo lembrar boas peças de “reclame”, como diria a minha saudosa vovó. Hoje em dia, porém, é muito mais fácil se aborrecer com o intervalo e ter vontade de jogar uma bigorna na tela ao ver surgir as mais odiosas propagandas.

A que me recordo de bate-pronto é aquela estrelada pela top model Ana Hickman. No comercial, ela está ocupadíssima com as colegas dentro de uma loja. A moça atende o celular, fala com sua agente e dispensa um contrato para propagandear carro compacto. Mas não basta dizer “não”. Ela sugere o plano de ação: “ai, diz qualquer coisa, fala que eu fui pra Nova York”. Putz, que chata! E me explica: por que uma garota tão feminina tem aquela voz de travesti?

Curioso é que a mesma fábrica de automóveis responsável por essa peça bocó, a Volkswagen, tem outra forma de apresentar o carro. Muito mais divertida, por sinal. Acompanhado de um bando de amigos, um moço (péssimo cantor) entoa os versos da adorável música “Sunny” – mas cantando tudo errado, indo ao fundo do poço no refrão “Mamy... I love you”. Hilário! E daí vemos claramente a bênção das 4 portas, para escapar da mala-cantante. Muito melhor que a pentelha Hickman esnobando trabalho.

Outra que me tira do sério é aquela do sabão em pó Ariel, que remove de tudo, até história esportiva. A mãe empresta a camisa da Seleção de 82, que o pai guarda com carinho, para o moleque ir à escola. O peste emporcalha a preciosa, mamãe decide lavar a roupa com o sabão milagroso que elimina até manchas criadas por Chernobyl. E o autógrafo de um craque segue ralo abaixo! Se é meu cônjuge, eu esfolo vivo.

Comerciais de produto de limpeza e comida, em geral, apostam na união familiar para nos ludibriar. Enquanto você presta atenção nos bebês e filhotinhos de cachorro, engole a mensagem sorrindo. A tática se estendeu até os cartões de crédito, aliás. Já viram a nova do Credicard? Tão doce! Toca a musiquinha falando “mochila, lancheira, uniforme, calcinha, um pé de cada meia, agasalho, xampu...”. Foi uma graça da primeira vez. Na segunda também, vai. Agora que já vi 324 vezes, mudo de canal assim que ouço “mochil...”. Enjoa rápido, sabe?

É como a nova investida do xampu Dove. Usando a música “Diariamente”, de Nando Reis e Marisa Monte, eles fazem uma explicação das propriedades do cosmético. E das filosofias da vida. É uma espécie de propaganda do cigarro Free, com aquelas colocações conceituais e blá blá blá blá blá. Zzzzzz....

Às vezes, é melhor mesmo deixar toda essa enrolação de lado e apostar no humor. Ou não. Os remédios andam apelando tanto ao riso que só conseguem é deixar a todos constrangidos. No cinema, outro dia, vi a peça de um spray para garganta. Um astronauta tinha dificuldade de se comunicar com a central de comando porque seu gogó estava irritado. Ah, faz favor... Cenário tosco, ator ruim, idéia péssima! Metade da sala ficou muda, metade soltou um muxoxo de impaciência.

Mas a raiva máxima com propagandas de tv acontece na entrada feita pelo Banco Real ultimamente. A fim de apresentar um tal Serviço Van Gogh, usaram um texto horrendo. Na prática, diz que tem direito a agências bonitas, cafezinho e atendimento personalizado aquele que... possui mais dinheiro. Poxa, coisa mais preconceituosa, indecente, elitista! Safadeza mesmo mostrar na televisão aquilo que 99% dos clientes não pode ter – esta escriba incluída aí.

Tenho certeza que Vincent Van Gogh odiaria emprestar seu nome para uma idéia tão esdrúxula. Tendo vendido apenas um quadro durante toda a vida, ele provavelmente não seria convidado a usar o pomposo Serviço Van Gogh. É por isso que eu me recuso a ver esse desfile de bobagem na tv. O melhor amigo do inconformado é o controle remoto.

Fla Wonka às 02:16 PM


Cola, papel e tesoura

Antes de começarmos, anote aí o material para o texto de hoje, leitor: um tubo de cola branca atóxica, daquelas boas para fazer meleca; papéis coloridos de todas as espécies, como papel-espelho e jornal; finalizando, uma tesoura pequena sem ponta para não botar em risco os olhos dos coleguinhas. Ah! Não se esqueça também de pedir sempre a supervisão de um adulto.

Eu adorava as listas de material para aulas de educação artística ou quadros de programas infantis que tentavam ensinar arte aos telespectadores mirins. Normalmente, elas eram curtas e simples: não podiam faltar esses três ingredientes, além de outros poucos badulaques. Tenho saudades de passar a tarde compenetrada na deliciosa atividade de recortar e colar. Ou apenas recortar. Ou apenas passar a cola na mão, esperar secar e então tirar as casquinhas como uma segunda pele.

É por isso que hoje eu presto uma homenagem a esses produtos baratos que, sozinhos ou acompanhados de outros, me ajudaram a brincar, melecar, criar e ainda por cima receber elogios de parentes!

Cola

Tem coisa mais gostosa do que fazer colagem? É praticamente uma terapia para crianças, comparável ao tricô para as velhotas. Claro que os pequenos não podem manusear aquelas agulhas grossas e pontudas – mas podem se esbaldar no ato de passar cola em qualquer coisa.

Já contei aqui que minha paixão nas aulas de educação artística era a lantejoula. Chegava a enfiava os belos círculos furta-cor não apenas em desenhos, mas em trabalhos de outras matérias “sérias”. Bem, todos eles precisavam de uma capa, certo?

Era gostoso também escrever o nome com o bico da cola, jogar pitadas de purpurina em cima e, com o excesso limpo, ver a palavra brilhando em cores. Mais gostoso ainda era fazer um desenho a lápis e depois ir acompanhando o contorno com macarrões. Vai dizer que nunca fez colagem usando esse ingrediente culinário de várias formas e cores? Não sabe o que perdeu!

Papel

Como viciada em papelaria, não podia ficar indiferente àquelas pilhas de pura celulose! E cada uma tinha a sua característica. O papel-espelho sempre foi a melhor opção para fazer dobraduras. Depois de cortado um quadrado perfeito – por que as dobraduras sempre começam com quadrados perfeitos? – conseguia fazer a folha virar flores, bichos ou objetos, de acordo com minha vontade. A dobradura favorita sempre foi o sapo que pulava.

O papel laminado, brilhante que só ele, era ideal para colagens de céus reluzentes de astros. Estrelinhas recortadas em dourado serviam inclusive para a professora da E.E.P.G. enfeitar minhas lições caprichadas. Colando duas estrelas maiores em um canudinho, plim!, tinha uma varinha de condão. Ou poderia fazer uma coroa de princesa cheia de pedras preciosas.

O papel favorito da minha infância não era vendido em papelaria, e sim em bancas. Fazer chapéu de jornal era incrivelmente divertido – principalmente porque ele ficava sempre frouxo e torto na minha cabeça, fazendo-me ficar com cara de louca. E soltar barquinhos de jornal na enxurrada, então? As frágeis embarcações tinham pouco tempo de vida útil. Mas valiam cada centésimo de segundo!

Tesoura

Se eu pudesse, seria uma Viviana-Mãos-de-Tesoura, de tanto que o objeto de corte conseguia me alegrar. Nenhuma revista em casa permanecia inteira. Era só mamãe largar um exemplar em cima do sofá e lá ia eu recortar as gravuras mais bonitas. Cheguei a dizimar uma coleção de National Geographic do meu pai, e isso não é motivo de orgulho.

Quando alcancei o feito de recortar as menininhas de mãos dadas, nossa, foi uma glória – capaz de deixar no chinelo a vez em que aprendi a trançar com as franjas do cobertor Parahyba. Era só dobrar uma folha de sulfite várias vezes em forma de sanfona, desenhar uma menina (com o cuidado de deixar um dos braços encostados na extremidade da dobradura), e meter a tesoura. Depois, pintava a carinha de cada uma delas.

Minha capacidade com o instrumento, porém, era testada mesmo quando eu ganhava aquelas bonecas de papel. E nossa, como eu ganhava aquilo (hoje desconfio que era desculpa da minha mãe para brincar também). Em um papel cartão, vinha desenhada uma boneca só de lingerie. Ao lado dela, vários modelos de roupas, desde vestidos de festa a trajes de banho. Ainda vende? Eu quero muito uma.

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Vivi Griswold às 09:56 AM

segunda-feira, 26 de julho de 2004

Quem canta um conto...

Ah, os 80! Como acontece com todas as décadas, o oitentismo está sendo revivido depois de 20 anos. Com a perspectiva que só o passar do tempo é capaz de dar, voltamos agora os olhos para aqueles anos em que ombreiras eram legais, os Trapalhões estavam na TV e bandas nacionais estouraram contando histórias para lá de bizarras.

Sim, sim. O mesmo passar do tempo que dá saudades e faz a gente olhar com carinho para o pogobol e o Detetive também fornece um pouco mais de senso – e nos faz perceber que alguns dos produtos dos anos 80 eram mesmo esquisitos. Especialmente aqueles veiculados pelo rádio.

Não sei se era o uso desregulado de tóxicos (lê-se tóchicos) ou daquela água declinada por passarinhos, mas as letras de alguns dos maiores sucessos da década contavam histórias para lá de malucas. A começar pela inesquecível, insubstituível e inestimável “Eu Não Matei Joana D’Arc”.

Vai ver era apenas senso de humor – e uma saudável disposição das bandas para não se levar a sério (o que faz falta no cenário atual). No fim, que outra década garantiu histórias musicadas como essas?

Acidente de avião legal
Em “Perdidos na Selva”, a Gang 90 narrava as delícias de embarcar numa aeronave que dá pane e cai no meio do mato. O que pode ter de legal nisso? Ah, sim: o rala-e-rola no matagal, depois. Acho que eu não gostaria nada de estar num avião em queda. Quanto mais num avião onde pessoas cantem “eu e minha gata rolando na relva/ rolava de tudo”.

A Metamorfose metamorfoseada
Só mesmo os Inimigos do Rei para transformar o pesado e delirante “A Metamorfose” (clássico de Franz Kafka em que um homem acorda transformado numa enorme barata) em algo leve e... mais delirante ainda. “Uma Barata Chamada Kafka” descreve o delicioso episódio do encontro entre um homem e uma cucaracha cheios de coisas em comum – do gosto por batida de limão ao mesmo signo.

Só pode ser a Mirtes!
Imagina aquela tiazona de subúrbio que sai na rua de bob com lenço por cima e desconfia que o filho do vizinho anda “cheirando maconha”. Pois essa, além de ser a Mirtes, também é a protagonista de “Mamma Maria” – aquela canção que parece ter sido gravada numa churrascaria, assinada pelo Grafite. Os versos falam da tal Mamma, que nunca deixa a filha namorar em paz – ela até manda a menina levar o irmão quando sai com o paquerinha!

Uma punk na Alemanha
Supla, o rebelde mais bem-educado e gente boa do mundo, pisou na Alemanha e topou com uma misteriosa garota – capaz de desaparecer numa piscadela – na capital do país. A história do encontro ficou registrada em “Garota de Berlim”. Se a menina era mesmo a Nina Hagen, eu correria três dias e três noites sem olhar para trás. Eu morria de medo dessa mulher de cabelo estranho, que passou boa parte da estadia no Rio mostrando a língua na janela do hotel.

Troca-se batatas fritas por sexo
Deixa ver se entendi: a excelente “Você Não Soube me Amar” conta a história de um casalzinho que se conhece por aí e sai para trocar umas idéias numa mesinha de bar. A certa altura, depois de pagar batatas fritas para a moça, o rapazote saca de algo do tipo “olha, o papo tá bom, mas seria bem mais legal se você tirasse a roupa”. É isso?! Por essas e outras que nunca haverá uma trupe como a Blitz...

Lavando roupa suja no portão
Sabe a clássica narrativa sobre a mocinha que acaba “prestando serviços” para o patrão, digamos, fora do ambiente de trabalho? Então. Dr. Silvana e Cia. imortalizaram tal crônica em “Serão Extra”. Os versos explicam como a senhorita se viu em maus lençóis ao chegar em casa depois da “hora extra” e encontrar sua mãe esperando no portão, cercada por toda a vizinhança – que tentava defender a moçoila cantando em coro “ela foi dar, mamãe!”. Surreal.

Cosmonautas, nuvens e narizes azuis
Aproveitar um acidente de avião para dar uns malhos, ser defendida pela vizinhança quando você saiu com o chefe ou topar com uma barata estranhamente semelhante a você são casos surreais, mas a esquisita viagem espacial cantada pelo Nenhum de Nós em “Astronauta de Mármore” bate todas – e, desconfio, não era para ser engraçada. Mas é. O cara voltou tão puro do céu que solta frases desconexas, como “as nuvens queimam o céu, nariz azul-ul-ul”. Melhor viajar de volta, filho. E parar de abusar do oxigênio puro.


Clara McFly às 06:09 PM


Vocação para saco sem fundo

Vocês já tiveram a sensação de adorar loucamente uma comida? Eu e meu estômago temos sempre. Com relação a certos artigos, tenho a ligeira impressão de que, se cobrirem um campo de futebol com estas delícias, eu posso comer tudo. Não é exagero, não. Encham o gramado do Maracanã com elas e venham me testar!

Pode ser que nem todos concordem com os meus “10 Mais Vícios Para Petiscar” e emitam um sonoro “blé!”. Querem saber? Ainda bem. Se vocês fossem adictos como eu destas coisinhas, o preço de tudo isso ia explodir. O mercado não aturaria tantos viciados atacando em conjunto.

10) Castanha de caju
Descobri recentemente essa sanha consumista pela castanha da fruta gostosa. Meu pai esteve morando em Natal, Recife e São Luís do Maranhão nos últimos anos, e toda viagem de volta era acompanhada por quitutes das terras de lá. A castanha vinha em sacos de 2 kg – e, mesmo assim, têm curta duração quando eu os alcanço. É compulsão, eu sei.

9) Amendoim
Mas não serve qualquer um. Cru, nem pensar. Com casca, é só por diversão de assoprar longe aquelas partículas com cheiro de terra e cor de vinho. O mais gostoso é o torrado, salgado, de preferência em estilo japonês. Do que será feita aquela carapaça? Uma massinha com temperos e substância controlada por farmacêuticos?

8) Pipoca
Acontece mais no cinema, claro. Mas mesmo tendo acabado de almoçar, é sentir o cheiro da pipoca e morrer de vontade. Em outros lugares, porém, o problema é igual. Em um antigo emprego, as meninas da redação esperavam bater 18h00 para correr ao microondas com aquele saco de pipoca pronta. E daí que eu ia jantar logo? Passa a branquela pra cá!

7) Tomate seco
O produto natural já me atiça o paladar. De noite, quando dá um princípio de fome, é satisfação garantida apanhar um tomate na gaveta da geladeira, lavar, cortar em gomos e lascar sal no danado! A versão mais em moda, seco e cheio de azeite, também é bastante atraente. Mas nessa eu regulo um pouco, senão a dor de barriga se tornará iminente.

6) Pão de queijo
Antigamente, minha mãe fazia em casa. Era uma meleca sem fim unindo polvilho e mais um monte de ingredientes. Daí uns senhores espertões inventaram o modelo congelado, para preguiçosos gulosos como eu aqui. Coloca-se as bolinhas no forno, espera-se 30 minutos e voilá! Bem podiam fabricar pacotes com 350 unidades, não?

5) Empadinha
Eu sei fazer torta de frango desfiado e de palmito. É quase a mesma coisa que vai na empadinha. Não entendo por que, no entanto, as porções reduzidas e cobertas de massa são tão espetacularmente mais apetitosas. Aqui perto de casa existe um templo dedicado ao quitute. Se pudesse, morava lá dentro, abraçada no forno...

4) Baconzitos
Batatas fritas, eu adoro. Cebolitos? Amo, principalmente se puder comer espetando nos dedos. Já o salgadinho sabor bacon é paixão de uma vida inteira. Lembro de implorar para o papai comprar um saquinho, ainda que pequeno, para matar minhas lombrigas. Gozado é que não passa o vício: aos 29 anos, já era tempo de desenvolver resistência, mas não há jeito.

3) Pastel
Não existe trash food mais incrível. É frito e condenado por nutricionistas? Diz que é, mas eu nem ligo. Minha avó abria massa no cilindro, recheada e fritava – tudo em casa. Sou tão fanática por pastéis (sejam de carne, queijo ou outra coisa, não tenho preconceito) que, um dia, vou virar pasteleira como a vovó. Meus netos estão fritos. Com o perdão do trocadilho.

2) Azeitona
Deixa um vidro desta gostosura dando sopa na minha frente, deixa. Se for daquela sem caroço, que sequer dá trabalho de ir até o lixo dispensar dejetos, é capaz de eu me alimentar só disso até os 78 anos. Tudo começou na feira, quando eu era pequena. O moço me dava azeitonas do tamanho de pêras gratuitamente. Maldito traficante de frutinhas! Agora não vivo sem elas!

1) Leite
Neste momento, sei que corro o risco de perder muitos leitores. Incrível como, a cada dia, sei de novas pessoas que abominam leite! Parece tão natural que nós, mamíferos crescidos, gostemos de um leitinho puro e branco mandado goela abaixo... Eu, pelo menos, amo. Às vezes até troco por água, bebendo gelado e sem aditivos achocolatados. Deu nojo? Desculpe. Vícios costumam chocar as demais pessoas mesmo.

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Ah, que deleite!!!
Fla Wonka às 01:38 PM


Obrigada, televisão

Eu sempre discordei com a opinião de que a violência mostrada na tevê é a culpada pelos delitos de adolescentes de classes privilegiadas. Foi essa a desculpa encontrada quando dois estudantes norte-americanos abriram fogo em seus colegas na escola Columbine – afinal, disseram, todo o problema dessa geração atormentada vem dos filmes e programas sangrentos da caixa de fazer louco.

O caso é que assistir todos os dias a atrações no nível de “Cidade Alerta” não irá me fazer sair pelas ruas metralhando indivíduos ao acaso. Se eu for uma psicopata assassina, posso ter minha ira despertada até por desenhos para crianças em idade pré-escolar, certo? Era o que pensava. Pois agora minha opinião tem mudado. Eu estou sim sofrendo com a influência da televisão e quero dar aqui meu testemunho.

Algumas vezes já me peguei completamente fora de mim, testando na frente do espelho como ficaria meu rosto se eu entrasse no bisturi e desse uma levantadinha nas pálpebras. A genética só me pregou peças, e um leve excesso de pele sobre os olhos é uma delas. Imagine como será quando chegar nos 50! Para não correr o risco até chequei, disfarçadamente, se meu plano de saúde inclui tal procedimento. Juro! Culpa de quem? Minha? Ou de programas como o “Extreme Makeover”?.

Propagandas, então... Outro dia vi uma do sabonete Dove com mulheres de várias idades. Uma delas, para meu espanto, tinha 27 anos! Busquei no meu rosto qualquer sinal de rugas e tratei de ligar para minha mãe dermatologista me arrumar uns cremes batutas. Só para garantir. Sem falar nos comerciais de produtos da Polishop – acredita que eu realmente pensei como aquela mangueira pode ser útil?

Mas a maior vítima da televisão aqui em casa não sou eu.

Mesmo tendo terminado a decoração do nosso apartamento, namorido não dá folga. Ele simplesmente não pode assistir a programas de bricolagem que já vem com idéias de mudar algo – mudança que vai, é claro, a) gastar dinheiro, b) dar trabalho e c) fazer sujeira. Certa vez, vimos uma atração onde a decoradora pintava tetos de cores berrantes. Assim que os créditos subiram, lá foi ele buscar dois galões de tinta. Na mesma noite, pintou o teto do banheiro e da cozinha.

Algum tempo se passou depois disso, até a estréia da série “Entre 4 Paredes”, do canal People + Arts. Nele, quatro casais precisam reformar do zero um apartamento caindo aos pedaços com uma verba estabelecida previamente. Os olhinhos do doce rapaz brilhavam de ver aquele monte de poeira e material de construção. Resultado? Ah, vamos trocar o piso do banheiro!

Cá estou eu, com dois pedreiros marretando o cômodo antes imaculado, para colocar um piso de pastilhas. Vai ficar lindo, aposto. Mas enquanto não fica, tome barulho e sujeira. Sem falar na necessidade de se usar o toalete da academia do prédio para qualquer eventualidade – e passar um pouco mais de 24 horas sem tomar um bom banho.

Tudo bem. Melhorias para a casa são sempre bem-vindas. Mas bem que ele poderia assistir a um programa de culinária e ficar com vontade de me fazer um enorme bolo cremoso! Ou ver uma atração sobre as ilhas gregas e sugerir quinze dias em um cruzeiro.

Que tal? Isso sim seria influência da boa.

Vivi Griswold às 09:48 AM

sexta-feira, 23 de julho de 2004

Cada um com o seu

Num episódio antológico de “Seinfeld”, George é pego como veio ao mundo por uma amiga da moçoila que ele está namorando – mas com quem ainda não trocou fluidos corporais, digamos. Como ele havia acabado de voltar de um banho de mar, alega ter sido prejudicado, pois o dito-cujo sofreria um encolhimento significativo ao ser imerso na água fria.

Jerry tenta convencê-lo de que o encolhimento é um fato sabido por todos, inclusive pelo time feminino. Para tirar a prova, eles consultam a amiga Elaine a fim de saber se as mulheres estão familiarizadas com o assunto, ao que ela responde “que encolhimento? De roupas na lavanderia?”. Desesperos masculinos à parte, confesso que eu tampouco estava por dentro do tema. Sério que encolhe?!

Pensando nisso, promovi um rápido debate sobre o pinto, esse desconhecido, e descobri coisas realmente bizarras – além de comprovar, pelos testemunhos de amigos, que o moçoilo diminui mesmo em ambientes gelados. E olha que estou longe de ser uma mocinha ingênua, criada na clausura por aquelas famílias que acham sexo ser o maior tabu.

Sem mais nem menos, garotos podem acordar certas manhãs com seu coleguinha já de pé. Isso eu havia notado, mas não imaginava que alguns pobres coitados também despertam de uma soneca qualquer – no ônibus, por exemplo – ligados no 220. Que mico.

Minha pesquisa apontou ainda que, postos nessa delicada situação, homens costumam disfarçar colocando as mãos no bolso e puxando as calças para a frente. Ou lançam mão de uma bolsa, quando a têm, para tampar o impertinente e desembarcar sem causar constrangimento.

Aparentemente, fazer xixi com o ditoduro (não foi erro de digitação) também é um problema. As opções são sentar-se no vaso e brigar para a mangueirinha ficar virada para baixo, ou postar-se diante da privada numa posição esquisitíssima, com os joelhos meio dobrados e o tronco levemente torto. Que puxa.

Ainda por cima, me disseram que dói à beça visitar o WC quando o serelepe teima em se retesar. Acho que esse é o problema de ter uma, digamos, modelagem econômica, e precisar contar com um único canal para múltiplas funções.

Os meninos nunca vão saber como é ter de submeter-se, semestralmente, a um exame em que a gente deita numa mesa com as pernocas para cima e é avaliada por um especialista, sem nada a nos tapar as vergonhas – aliás, o exame é justamente ali. Não é muito agradável. Mas acabamos lançando mão do grande trunfo humano da adaptabilidade e, bem, nos acostumamos ao fato de visitar o ginecologista periodicamente.

Assim como nos habituamos com as cólicas e as inconveniências de passar um período mensal munidas de absorventes na bolsa e em outros lugares. Mas, sinceramente, descobri que ser menina tem mais vantagens do que eu imaginava. Como não ter de dar uma de Dama (ou “Damo”, no caso) do Lotação involuntariamente...


Clara McFly às 05:52 PM


Saudades da Júlia

Hoje não moro mais na Vila Sem Graça. Meu bairro – também o bairro da doce Vivi, por sinal – é repleto de lojinhas boas e outras porqueiras, casas de empada, padarias gostosas, bares e restaurantes a granel. Mesmo assim, ainda não achei por aqui uma alma-gêmea da Venda da Júlia. Explico o motivo da nostalgia por aquele local escuro, poeirento e, vá lá, com larga possibilidade de ser credenciado pelo Clube do Mickey.

Júlia era uma senhora japonesa que vivia no bairro onde eu morava lá em São Bernardo, quando criança. No andar de cima, juntava-se a numerosa família dela (ou a dona tinha 15 filhos, ou eu confundia um bocado aqueles olhinhos puxados). Embaixo, ficava a quitanda administrada pelo clã. E como supermercado era apenas para fazer despesa nos meus tempos de menina, visitar a Júlia quase diariamente garantia o feitio dos almoços e jantares pela mamãe.

Em termos de frutas, legumes e verduras, a venda era uma vergonha para os descendentes de japoneses – sempre reconhecidos por cuidar tão bem dos seus negócios e prezar bastante a qualidade de produtos. Quando me mandava buscar tomate para a pizza, por exemplo, a mãe sempre fazia ressalva: “escolhe só três, tenta achar os não muito batidos...”. Impossível: hortifrutigranjeiros, ali, pareciam ter sido usados como sparring em aula de boxe.

Mas qual criança achava graça maior em comprar maçãs, bananas, um pé de alface e inhame pra sopa? Não eu. Na Júlia, queria mesmo era saber das tranqueiras. Caramba, como quitandinhas juntam guloseimas baratas e deliciosas!

Quanto mais perto do balcão de pagamento, mais dava para achar as tralhas. Dos picolés de fruta – não tenho limite com sorvete de palito de uva, coco, chocolate e limão – aos chocolates, sempre arrematava gostosuras com o troco da compra. Sim: a obrigação era adquirir farinha, ovos ou uma lata de qualquer coisa. Mas, sobrando dinheiro, aquilo podia ficar mais emocionante ao paladar.

Entre os chocolates, o campeão era o Batom. Na falta do bastão (ou quando ele estava derretido demais), podia comprar os fabulosos Cigarrinhos Pan. Afinal, tudo tinha o mesmo adorável gosto de vela. Também apreciava o Deditos (como podia curtir um doce parecido com dedos mortos?) e o tal de Stick, barrinha recheada de morango.

Se o dinheiro não desse para um chocolate, podia gastar as moedas com chiclete. Ping-Pong e Ploc eram os líderes de mercado, ao lado do caríssimo Bubaloo, mas o meu predileto era um chamado Gummy. Na hora de fazer bola, esse não grudava no rosto. E todos conhecem a minha habilidade em grudar a goma no nariz desde criança.

Em meio ao balcão zoado da Júlia, havia muito artigo caseiro também – lembrando o tanto de pó que a nipo-senhora deixava acumular nas prateleiras e vitrines de comida, fomos crianças sobreviventes. A maria-mole era boa, os salgadinhos valiam a pena. Minha paixão, porém, eram os doces cristalizados. Deixa ver: tinha de abóbora, batata-doce, beterraba... mas não faço idéia do sabor contido naquele verde. Argh, parecia horrível. Os demais, em formato de coração ou estrela, eram deliciosos!

A sensação da Venda da Júlia, no entanto, era um quadradinho feito com amendoim moído e açúcar pacas. Se ficasse 20 minutos dentro da quitanda, era possível ouvir ao menos 20 vezes “Dona Júlia, vê uma Paçoca Amor?”. Nem guarda-chuvinhas de chocolate, nem Dadinho. Nem mesmo chiclé de bola com transfer, pirulito que virava apito ou as chupetas de caramelo. Nada era tão popular quanto a paçoca.

Precisava ter muito cuidado com ela, porque uma vez desembalada, a Amor virava rapidamente um amontoado de poeira no chão da venda! Mas tudo bem, a Júlia não ligava. Seu saudoso estabelecimento já era cheio disso mesmo...

PacocaAmor.jpg
Eu queria construir uma casa só com elas!
Fla Wonka às 02:00 PM


S.O.S. narinas

É tarefa das mais fáceis afiar o olfato e dar as boas-vindas a cheiros bons, como pipoca estourando na panela ou aroma da mãe da gente. Mas, como tudo na vida, até a atividade de reparar no que chega às narinas carrega seu lado ruim: fedores estão aí por todos os lados – e, quando eles se aproximam, fica duro de respirar.

Existem cheiros que não são tão ruins assim, mas que nos fazem lembrar de experiências desagradáveis. Outros, cruzes, são ruins mesmo. E haja oxigênio (ou spray de Bom Ar) quanto eu me deparo com qualquer uma das fragrâncias abaixo...

1) Jaula do búfalo
Dessa eu escapei desde a decisão de não mais comparecer ao zoológico de São Paulo. Mas o cheiro daquele cercadinho é tão pavoroso que nem preciso estar lá para me lembrar dele. É uma mistura de bicho, com cocô de bicho, com comida de bicho, com água de bicho... Precisa de uma máscara como a do Michael Jackson!

2) Bafo de cerveja
Eu poderia ter dito "bafo de pinga", que é pior. O problema é que bafo de cerveja é bem mais comum – e, portanto, me faz sofrer mais. Já disse aqui o que eu acho dessa bebida diurética que mais se parece o próprio xixi com gás. E o quanto eu admiro os publicitários que teimam em colocar, lado a lado, cerveja e mulher.

3) Inseticida
Eu não gosto de matar bichinho. Só formiga, se ela estiver me atacando (ou a meu doce). É impossível, porém, conviver com pernilongos dentro de casa, ou aquelas moscas verdes horrorosas que invadiam meu quarto quando eu morava com a minha mãe. O jeito é passar Baygon no ambiente – e tentar sobreviver mais que os insetos.

4) Fumaça de cigarro
Desculpem os fumantes, mas cheiro de cigarro é insuportável. Deviam inventar um exemplar que não tivesse um fedor tão ruim – assim os não-fumantes não passariam por frescos. Pois é, ainda acham frescura permanecer em um ambiente esfumaçado e amaldiçoá-lo por conta do seu recém-lavado cabelo ou de suas roupas antes perfumadas.

5) Cecê de ônibus
Acompanhe meu raciocínio: você está tomando um ônibus daqueles bem visados, às seis hora da tarde de uma sexta-feira (quando todo mundo entra em desespero para chegar logo em casa), tentando arrumar um espaço para ficar de pé. Qual o cheirinho que chega? Cecê, claro. Ainda mais com o povo todo de braço levantado!

6) Pinho Sol
Peço desculpas ao fabricante de um produto tão conceituado por tê-lo colocado numa lista tão, hã, desrespeitosa. É que não consigo nem começar a sentir aquele perfume de eucalipto – e por pura lembrança olfativa. É que mamãe era usuária pesada de tal item. Quando eu "passava mal", ela limpava o chão com isso. Impossível dissociar.

7) Fralda suja
Chega a ser engraçado: de todas as coisas fofinhas que meus irmãos faziam quando eram bebês, quase nada ficou na minha memória. A única coisa de que ainda me lembro bem é o cheirinho vindo das fraldas. Céus, o que era aquilo? Bebês só tomam leite e comem papa de legumes! O urubu entrou exatamente onde nessa dieta?

8) Barraca de peixe
Os feirantes que precisam permanecer na barraca de peixe desde as cinco horas da manhã são uns heróis. Ou, então, uns mutantes cujas narinas foram atrofiadas pela genética. Eu não consigo evitar a cara de nojo quando passo por uma dessa. E não gostaria de estar na pele do morador da casa que cede seu teco de rua à barraca em questão.

9) Merthiolate
Outra memória olfativa desagradável. Ou alguém aqui achava legal ralar o joelho até o osso? Eu abria o maior berreiro sofrendo por antecipação, já que em seguida lá vinha aquela lenga-lenga do merthiolate. "Vai tirar os bichinos", mamãe dizia. Mas precisava arder como o inferno para tirar os micróbios? Vai ver que precisava. Droga.

10) Fritura de boteco
Poucas coisas conseguem me alegrar mais do que estar caminhando pela rua de manhã e sentir a apetitosa fragrância de coxinha fritando no óleo de anteontem. Hmmm! Nada melhor para começar um bom dia! Quando eu trabalhava no centro da cidade, oba, todo dia era presenteada por um cheirinho desses. Pena que nunca parei para comprar....

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Vai um "risóleo" aí?
Vivi Griswold às 10:07 AM

quinta-feira, 22 de julho de 2004

E viva o Clube do Mickey!

Sabe aquele desenho do Pica-Pau em que um urso invade o trailer de dois campistas? E a mulher fica histérica lá dentro, berrando aos quatro ventos “Alfreeeedo, tem um urso no trailer!”? Pois então. Foi bem assim que me senti assim anteontem. E o pior é que não tinha nenhum Alfredo para me socorrer.

Antes que você pergunte, leitor: não, não entrou nenhum urso aqui – mas sim um rato quase do tamanho de um Andy Panda. Tá, talvez de um pônei. Ok, de uma capivara. Certo, certo: era só um camundongo pretinho – igual ao Mickey, mas sem aquela voz afrescalhada e luvas nas patinhas.

Pois o bicho pestilento se alojou atrás do tanque, por entre uns tapetes que estavam para lavar. Na verdade, só percebi que era um rato quando o namorido chegou em casa. Aliás, quem percebeu foi ele. Tudo que eu vi ao adentrar a cozinha foi uma mancha escura, rápida e faceira, correr para o tal cantinho.

Pensei com meus macaquinhos: “putaqueopariu, tem um bicho na cozinha!”. Meu coração disparou. Corri de volta para a sala. Respirei fundo. Me acalmei. E voltei, matutando com meus botões: “deve ser: a) uma aranha, o que não seria tão ruim; b) uma barata, o que seria nojento, mas fácil de matar com inseticida; c) um rato, o que significaria meu completo desespero e danação eterna”.

(Abro um parêntese para dois esclarecimentos: sim, eu penso em itens. E sim, eu tenho paúra de ratos. Eu sei, é deprimente ver uma mulher do meu tamanho, independente e emancipada, gritando com o mais profundo pavor e sapateando em cima do sofá – ou de qualquer objeto escalável mais à mão – ao topar com um desses roedores. Mas é mais forte que eu.

Rato é uma criatura pestilenta. Não sei quanto tóxico sêo Walt tomou ao transformar um bicho repulsivo desses num mascote docinho e sorridente – e o pior é que o mundo todo comprou a idéia! Ratos não riem. Apenas se esgueiram para dentro da sua casa, comem suas coisas, transmitem doenças e, quando dá, matam um terço da população européia numa epidemia – devemos ser gratos por não ter vivido na Europa durante a Peste Negra. Pronto).

Voltando. Depois de considerar as três possibilidades – e descartar a da aranha, pois as tecedeiras de oito patas não se movem tão rápido quanto a mancha se moveu –, decidi pegar o inseticida, me empoleirar estrategicamente sobre a máquina de lavar (para caso a criatura, ao sentir o veneno, tentasse correr para cima de mim e me atacar) e borrifar o bagulho na direção do tanque.

Dito e feito. E nada de aparecer o bicho – o que diminuiu ainda mais minhas esperanças dele ser uma barata. Baratas correm quando tomam uma chuva de veneno. Nisso, tocou o telefone. Desempolerei, atendi e respirei aliviada: era um colega, leitor e jornalista. Falei: “olha, tem alguma coisa aqui em casa, se você ouvir um grito e o telefone ficar mudo, chama a polícia”. Diante do espanto do moço, tive de completar: “não, não. É uma barata ou um rato, acho”.

Fui conversando de olho no cantinho do tanque. No meio do papo, eis que a mancha corre de novo para outro lado. Dei um grito gutural, o que fez com que meu interlocutor se calasse por uns segundos. Corei e expliquei que o bicho tinha aparecido de novo. Pedi desculpas; descartei por completo a possibilidade de ser uma aranha e achei que, para uma barata, parecia meio grande. Só podia ser um pestilento maldito.

Nisso, feito num filme, a Sétima Cavalaria – ou o namorido – chegou. Desliguei o telefone, respirei aliviada e expliquei a situação. Disse que provavelmente era um rato – que entrou às escondidas, tomou conta do lugar, comeu o bolo que estava em cima do balcão, me expulsou da cozinha e só faltou tirar o controle remoto da minha mão, me botar para fora e gritar “e não me apareça mais aqui!”, batendo e trancando a porta.

Depois de rir da minha cara por uns cinco minutos, especialmente quando mencionei a escalada na máquina de lavar, ele se dirigiu calmamente para o lado do tanque, chutou os tapetes e sentenciou calmamente: “é um rato mesmo. Um camundongo”.

Corri, fechei as portas dos quartos, subi no sofá e me neguei a descer. Ele abriu a porta e, munido da vassoura, espantou o indesejado visitante para fora. Ainda bem que não teve de matá-lo. Onde diabos eu iria desovar o cadáver de um rato? E imagina só para limpar o local da morte? Eu ia ter de me mudar!

Oficialmente, agora faço parte do Clube do Mickey – feito Justin Timberlake, Britney Spears e Flá Wonka. Mas podia ter passado sem essa. Ainda mais porque o meu Clube do Mickey – assim como o de Flá – não dá direito a contratos milionários, shows superproduzidos ou videoclipes hilários, vestindo a roupa do Leão da Montanha. Droga.

Clara McFly às 05:27 PM


Família, á!

Dias atrás, tomei a liberdade de comparar meus parentes e entes queridos – que não são necessariamente as mesmas pessoas – com as famílias de desenho animado. Muito mais do que a animação, porém, o cinema é capaz de traduzir costumes e manias dos meus em película. Ah, mas não são só os meus que dão as caras ali, não! Aposto que vocês aí também já reconheceram muitos tios, primos e irmãos na telona.

Lembram da Tia Voula? Aquela senhora de “Casamento Grego” que jurava ter extirpado um caroço do pescoço formado pela coluna vertebral de um irmão gêmeo não-nascido? Haja estômago para aturar tal conversa... Mas eu tenho umas tias assim, se tenho! Pior: tenho muito mais. Nestes filmes, eu reconheço uma porção deles.

Divinos Segredos – pelas brigas
Quando passou no cinema, não me abalei a ver. Drama de mãe e filha que se desentendem por bobagem? Ai, que chato... Mas daí chegou à tv a cabo – e que graça de filme. Para começo, vi as imagens de trailer mostrando quatro amigas que eram quase irmãs. A história do tal quiprocó entre mãe (a excepcional Ellen Burstyn) e filha (a espevitada Sandra Bullock) era muito mais interessante do que parecia. Só quem já trocou uns berros com seus entes queridos vai encontrar nesse roteiro uma emocionante redenção. Ya-ya!

Casamento Grego – pelas reuniões
Não sei a família de vocês, mas a minha tem muito do que foi descrito neste filme. Não somos gregos, mas italianos – só que, no fim, é tudo a mesma baderna. Na primeira vez em que levei o namorido na casa da minha avó paterna, alertei que ele poderia sair de lá estufado de comida e meio surdo. Batata: felizmente, meus parentes gritalhões não têm qualquer preconceito com procedência familiar ou religiosa. Senão, aquele rapaz loirinho descente de suíços estaria mais frito que Ian Miller nas mãos da trupe Portokalos.

Os Excêntricos Tenembauns – pela esquisitice
De perto, ninguém é mesmo normal. Fico pensando o que meus amigos imaginam quando conto que meu pai envelhece pinga por hobby, minha irmã é uma bibliotecária que sabe fazer velas, minha mãe faz guerra de bonecos com meus sobrinhos... Com o clã de Royal Tenembaum também era assim, um maluco em cada cômodo. O bom é que no meu núcleo, pelo menos, a gente sorri um bocadinho mais. E não fumamos, nos drogamos, simulamos estar à beira da morte ou tentamos suicídio...

Férias Frustradas – pelos ‘holiday roads’
Tenho impressão de que nenhuma família se assemelha mais ao estilo de viagem dos Griswold do que a minha. Para registro: quando eu era pequena, viajamos por oito anos consecutivos ao sul do país. A cada verão, a trajetória saía de um jeito diferente – pelo litoral, pelo interior, só as capitais, só cidades obscuras e assim por diante. No interior do veículo, rolava a mesma dinâmica existente entre Clark e companhia. “Pai, ele relou a mão em mim!!” era um apelo constante. “Se vocês não fecharem o bico eu arranco suas cabeças e faço elas rolarem pelo asfalto” era a resposta padrão...

Parente é Serpente – pela essência
É uma pérola italiana tão reconhecida por mim que até dói. Na superfície, somos todos sorridentes, brincalhões e unidos – principalmente em torno de travessas de macarronada e carne de panela. Felizmente, nossos arranca-rabos são bem menos problemáticos do que com aquela família retratada no filme. Mas carcamanos são todos iguais, não há como negar: a tia virou as costas, lá está uma cunhada malhando levemente o tempero ou o gosto dela para decoração. Fazer o quê? Devem ser os genes... E, mais uma vez, reitero: não ousem criticar a minha gangue!

Fla Wonka às 02:00 PM


Crenças com data de validade

Desde um monstro morando debaixo da cama até um livro mágico capaz de atrair pesadelos: quando eu era criança, acreditava em muitas coisas. Algumas dessas crenças foram despertadas em mim por terceiros, outras – as melhores – eu mesma criei na minha cabeça. Hoje já não boto tanta fé na maioria delas, apesar de dar risada sozinha ao relembrá-las. E você, quer entrar um pouco na mente perturbada e pueril da pequenina Vivi?

A culpa da imaginação fértil dos infantes deve-se em grande parte aos adultos. São eles os contadores da história do tal velhote que mora no Pólo Norte e que sai de casa uma vez por ano para presentear as crianças do mundo todo. Depois, quando crescemos, percebemos que nada daquilo é verdade. E não vemos a hora de encontrar um pirralho para passar a balela adiante!

Eu até acreditei em Papai Noel. Achava que uma mentira não poderia ser tão famosa e duradoura assim. A prova cabal da existência dele foi no ano em que ganhei uma bicicleta. Eu havia seguido o conselho da Xuxa (?) e havia pedido o presente antes de dormir para o bom velhinho com toda a força do meu pensamento. Na noite de Natal, bling, lá estava minha Monark com cestinha.

Mas eu nutria fé mesmo pelo coelhinho da Páscoa. Claro, se um senhor de cabelos brancos não poderia distribuir milhares de presentes, um coelho poderia. E eram ovos de chocolate! E vinham embrulhados em lindos papéis coloridos! Minha mãe incentivava a crença com requintes de crueldade. Ela chegava a me dizer para deixarmos uma cestinha com um punhado de grama e com uma cenoura para o coelhinho ficar feliz. No dia seguinte, lá estava meu prêmio dentro da cesta. A cenoura havia desaparecido, e só restara um pequeno rastro de capim. Era para acreditar ou não, oras bolas?

Outras crenças, contudo, eu mesma criei. Chegava a acreditar, por exemplo, que toda a nossa vida era composta por dias de azar e sorte, intercalados. Quando o dia estava bom – cheio de surpresas, brincadeiras, notas boas na escola, programas legais na TV, podia esperar um amanhã chato a seguir. Mas tudo bem, porque depois viria outro momento de sorte, e assim sucessivamente para todo o sempre.

Acreditava também que os meus brinquedos, ao soar as doze badaladas noturnas, ganhavam vida própria. Toda manhã olhava atentamente para a prateleira cheia de bonecas Moranguinho e bichos de pelúcia e tentava reparar o mínimo traço de movimento que escapou sem querer. Tipo brincadeira de estátua, sabe? O pior é que eu encontrava. No dia em que um urso gigante pendeu a cabeça para o lado sozinho (claro, ela estava solta), quase tive um treco.

Aliás, tinha a maior crença de que um universo paralelo se desenrolava quando nós, humanos, não estávamos olhando. Sempre achei que cachorros e gatos latiam e miavam entre eles para disfarçar, na verdade, todo o conhecimento e linguagem avançados que tinham. Acreditava que a caixa d’água de formato engraçado que dava para ser vista ao longe era na verdade um disco voador disfarçado e pronto para voar assim que déssemos as costas. Ou que baratas e lagartixas eram seres espiões que se infiltravam em nossas casas para... ah, sei lá pra quê!

Acreditava que o livro sobre mitologia grega da estante da minha avó era mágico: só de olhar o horrendo retrato da Medusa, pronto, os pesadelos iriam perseguir meu sono. Mas se eu fizesse o sinal da cruz, teria sonhos mais agradáveis. Minha mãe que falava, quando via meus irmãos dormindo e dando risadinha, que eles estavam sonhando com anjinhos.

Hoje já não carrego nenhuma dessas crenças – mas isso não quer dizer que seja uma incrédula. Tenho outras! Afinal, olhar a vida e o mundo com criatividade é divertido. E não apenas quando se é criança!

Vivi Griswold às 10:52 AM

quarta-feira, 21 de julho de 2004

Brinco, não nego

O cardápio de brincadeiras disponíveis quando a gente conta de três a treze anos (não espalhem, mas eu ainda sacava das velhas Barbies e playmobils e topava uns embates de taco com a dita idade) é mesmo interminável. Caetano, meu afilhado de três invernos recém-completos, se diverte à beça rodando no próprio eixo de sua pequena pessoa, por exemplo. Viu só? Não precisa nada para se divertir!

Claro que Barbies, playmobils e acquaplays do Bob Esponja podem ajudar um bocado. Mas, como vimos ontem, há uma série de atividades que dependem tão-somente de nossa cachola e da companhia de amigos – ou, no máximo, de uma disputa de dedos iguais ou par-ímpar a fim de tirar os times.

Foram admitidas aqui apenas as brincadeiras populares, quase folclóricas, que existem em todo o país (ou ao menos em boa parte dele, talvez com nomes diferentes). Como combinamos, aí vai a continuação das distrações favoritas de rua. Ficam para outros dois dedinhos de prosa aquelas atividades de crianças urbanas e mais específicas da geração 80, como escritório, escolinha e, er, Changeman (eu já confessei que brincava de Esquadrão Relâmpago, com direito a Power Bazuca e tudo, por aí).

Pega-pega
Nunca fui muito fã desse arranca-rabo da velocidade infantil. É que eu era meio mirradinha, tinha bronquite e, se corresse muito, desatava a tossir feito uma condenada. Além do mais, me dava profunda aflição ter alguém nos calcanhares (devidamente calçados com Bubble Gummers). Mesmo assim, participei de muitas rodadas da distração, sempre mais animada quando o quórum de velocistas era maior.

Barra-manteiga
Até hoje, não entendo direito qual era a dessa modalidade de passatempo infantil. Tinha algo a ver com corrida e com bater na mão de algum dos infiéis enfileirados diante do chefe da rodada. Como envolvia velocidade e tal quesito nunca foi meu forte, só topava participar dessa quando minhas outras sugestões, como brincar de Changeman, eram completamente vetadas.

Mãe da Rua
Essa também era de correr, mas só um pouquinho. O escolhido para ser o personagem-título da brincadeira se posicionava no meio. Dois grupos ficavam em lados opostos. O lance era atravessar correndo, tentando escapar de ser pego pela suposta matriarca do logradouro. Gozado como premissas completamente toscas são capazes de manter um bando de petizes barulhentos ocupados por um tempo razoável.

Taco
Em outros estados, a brincadeira tem nomes diversos. Precisa ter duas latinhas ou garrafas, dois pedaços de pau que sirvam para rebater uma bola e, bem, uma bola. Espécie de beisebol mais simples e rasteiro, o jogo de taco só tem um problema: a profusão de regras diferentes, dependendo da cidade, do bairro ou mesmo da rua em que se morava. E a frase obrigatória "Licença para pegar no taco!", que hoje soa um pouco estranha.

Mês Castigo
Eis a minha favoritíssima de todos os tempos! A primeira parte da brincadeira é bem idiota: uma dupla se destaca do grupo e pensa num mês. Os outros vão chutando meses, até acertar. Aí vem a parte bacana: a dupla perguntava para o acertador "o que você quer do mundo?". Amplo, não? Em seguida, voltava a se reunir reservadamente para combinar duas marcas do objeto do desejo do cidadão, para que esse pudesse escolher.

Claro que, no auge dos 80, as opções eram quase sempre as mesmas. Se o dito cujo quisesse uma bicicleta, sacávamos de "BMX ou Cecizinha?"; se almejasse um carro, a pergunta era "Escort XR3 ou Monza?"; no caso do videogame, lá vinha "Atari ou Odissey?". Nesse caso, havia que ser rápido para escolher ser o Atari, que sempre ganhava...

Atari box
Quem não queria um desses?


Clara McFly às 06:27 PM


Eu, a avestruz

Quem me conhece, hoje, não saca de primeira. Muitos não sacam nem de segunda – e a maioria fica sem acreditar mesmo quando conto com todas as letras. Eu sou envergonhada. Tímida, contida, um bicho-do-mato desde criancinha. Isso já me causou muitos problemas de sociabilidade, mas atualmente estou quase curada. Disfarço bastante bem, esse é o segredo e a verdade.

Quando pequenina, qualquer atividade estranha virava um trauma. Nas festas de aniversário dos primos e amigos, por exemplo, ficava no canto até alguém me resgatar do sedutor cachorro-quente para dançar ou brincar. Se não acontecesse, podia muito bem passar todo o evento muda, apenas balançando o pé discretamente nas minhas músicas prediletas do Balão Mágico.

Já na escola, estar entre crianças da mesma idade... não ajudou em nada. Por causa da vergonha, fazia sempre uma amiga ou duas apenas na classe – e olhe lá. O esporte, tão comemorado por unir pessoas e promover entrosamento, falhou comigo. Isso porque nunca era escolhida na seleção de times. Diabos: em jogos com bola, tenho mais ou menos a habilidade de um orangotango (e alguns símios dessa espécie, suponho, ainda podem me dar um baile no pingue-pongue).

Na ginástica olímpica, que eu adorava e onde me enfiaram para liberar energia, tudo era vexame para minha mente. Para começo, eu preferia praticar usando calça e camiseta, mas a professora exigia colan. Ficar com as pernas de fora, sem meia-calça, na frente de um bando de outras crianças, enquanto dava piruetas? Toda aula, antes de sair do vestiário, eu sentia vontade de chorar e morria um pouquinho...

Roupas sempre foram uma carapaça de aço para quem, como eu, era tão avexada. No ginásio, para ir à escola, sempre amarrava usava calça larga, tênis e amarrava o agasalho na cintura – providencial para meninas que não querem admitir ter uma bunda. Andava um pouco arqueada também, assim menos gente notaria o busto em crescimento. Putz, como é sofrido passar de criança a garota na frente dos outros humanos! Não podiam nos enviar à uma caverna entre os 11 e os 18 anos?

Vocês podem imaginar, então, o que senti quando uma tia achou de me presentear com um sutiã no aniversário de 12 anos. Eu já tinha outros, mas foram comprados com a minha mãe, sem que o assunto virasse pauta sequer em família. Ganhar “aquilo” ante os olhos de amigos foi tortura chinesa. Se a solícita mulher tivesse me presenteado com pedacinhos de bambu para colocar debaixo da unha, teria doído menos.

Com o tempo, a blusa na cintura deixou de ser um cinto chumbado ao meu corpo e circular entre os meninos do colegial já não era (tanto) problema. Mesmo assim, a vergonha ainda morava aqui dentro. Ser chamada pela professora a ler minha redação alto fazia as bochechas ficarem vermelhas. Ouvir de outra menina que fulano gostava de mim, quase transformava a cabeça numa panela de pressão – e disso independia o fato de eu gostar do garoto ou não. Equilibrar a timidez com uma certa cara-de-pau foi a solução.

Passei a combater a vergonha com uma falsa expansividade e/ou mau-humor. Entre amigos, fazia piadas e dizia coisas absurdas, por isso sempre me achavam a engraçadinha, a extrovertida. Já para contato com gente nova, vestia uma máscara sisuda e decidida, quase de uma garota bem nojenta e emburrada. Assim, talvez, eles me respeitassem logo de início e eu não precisaria passar vergonha fazendo papel de boba.

O problema sempre foi esse: passei anos confundindo ser receptiva com parecer boba. Achava que, se eu me apresentasse e me dispusesse a fazer amizade, os demais me tomariam por uma otária babaca. Olha que perda de tempo? Ainda bem que repensei esse comportamento.

Já faz alguns anos, deixei de lado a alternativa da postura “quase-mala”. Alguns ainda me conhecem e acreditam que sou brava – ouço tanto isso... me sinto uma sargenta! Cada vez mais, tento ser descontraída e sorridente ao conhecer pessoas novas. E, principalmente, tento me lançar em situações antes embaraçosas e encarar tudo sem corar. Nem sempre dá certo.

Ainda fujo loucamente de ser o centro das atenções e detesto quando fazem chacota com a minha cara. Mas aprendi que dar a timidez à tapa tem compensações. Bom, eu consegui vir aqui hoje e contar tudo isso! Usei até a palavra “bunda” aí acima! Ai, céus, que vergonha...

Fla Wonka às 02:34 PM


O lado B de viajar

Salvando as proporções, viagem é como parto: ficam na memória todos os momentos felizes, enquanto sensações ruins, lágrimas e dor são armazenadas no esquecimento. Como ainda nem penso em entrar na fila para pegar uma senha da cegonha, não posso falar muito sobre dar à luz. Mas viajar... Dessa alegria eu entendo bem.

Olhar a primeira vez para Machu Picchu é completamente diferente de olhar para a Torre Eiffel. Assim como pisar em areias egípcias não pode ser comparado a pisar na Oxford Street. Cada viagem é única, e cada experiência é única: menos as más. Pois essas costumam se repetir incessantemente, seja qual for o seu destino – o outro lado do mundo ou o outro lado da cidade.

Portanto, se você pensa em tirar alguns dias longe de seu ambiente cotidiano, prepare-se para as situações chatas que vão acompanhar sua folga. Mesmo que você não queira.

Já chegou? E agora?
Eu preciso confessar uma mancha no meu currículo de mochileira: odeio viajar de avião. Pra começo, o ar é gelado e estranho. Depois de um certo tempo, suas narinas estão dormentes. A comida é pouca e ruim. O viajante, mesmo desembolsando a quantia absurda da passagem, se sente uma vaca em carro de boi: sem espaço, sem ar, sem cuidado. Não importa se a travessia durará 30 minutos ou 15 horas. Piso dentro de um daqueles e já vou querendo saber se vai demorar muito para descer. Viajar de ônibus é bacana, mas não tem um banheiro muito confiável. Eu falo isso de experiência (ruim) própria, de quem já encarou um dia e meio em um chacoalhante coletivo em alguma quebrada do Peru. Carro é a melhor opção, se houver escolha: você pára onde quiser para esticar as pernas e comer um quitute.

A vida própria do seu cabelo
Só quem se preocupa com esses fios no topo da cabeça já percebeu um fato que a ciência ainda não explorou: é só você sair do perímetro cotidiano que seu cabelo começa a ter vida própria. Ainda que você, como eu, se preocupe em levar os mesmos xampu e condicionador, e tratá-lo do mesmo jeito de sempre, ele não obedecerá. Daí, quando você menos espera, uma estranha massa disforme e rebelde tomará o lugar de suas madeixas, antes domadas. É impressionante! Mesmo o meu, composto por uma quantidade de fios como a do Cebolinha (e mais curtos), esquece de seguir a saudável lógica da escovação e da gravidade. Cada fio, por sua vez, resolve tomar uma direção distinta e independente dos coleguinhas. O resultado? Sabe a Diana Ross? Pois é. Dizem que é a diferença de umidade. Eu não acredito.

Mala, essa estranha
Parece que os espíritos que moram no meu armário também gostam de entrar de férias comigo. A primeira mala que eu monto, ainda aqui em casa, é um primor: as camisetas são enroladas em tubinhos, as meias formam bolinhas, os pares de sapatos são guardados dentro de sacos individuais, as calças e casacos mais pesados são dobrados em cima de tudo. Mas algo acontece assim que eu fecho o zíper. Quando chega a hora de abri-la, já no destino das férias, o que antes estava arrumado com carinho agora revela-se um ninho de ratos. Como isso pode acontecer, já que ninguém mexeu lá dentro? Chama o Padre Quevedo! O problema maior é que, uma vez bagunçada, não há estímulo para ajeitá-la novamente. No final do passeio, difícil é saber qual meia está usada ou qual calcinha está limpa. Um nojo.

Saudades do banheiro lá de casa
Se eu pudesse escolher um item caseiro, de qualquer natureza, para me acompanhar, eu escolheria o banheiro. Porque só quem é menina e só quem já precisou de um na hora do aperto (literalmente falando) sabe da dificuldade de encarar o vaso de estranhos. Há também outros motivos para eu querer levar meu lindo banheirinho: o chuveiro. É preciso tomar pelo menos um banho gelado ou fervente para você aprender a usar chuveiro de hotel/pousada/albergue. Aquilo devia vir com manual! Nenhum se comporta da mesma maneira, ou como deveria – abrir a água quente, por exemplo, não garante que água quente sairá dos furinhos. E você, na situação mais desprevenida possível, nem tem como gritar por socorro. Ainda mais nas viagens econômicas que eu faço, ficando em quartos sem banheiro... Cruzes.

Com que roupa eu vou?
Acontece em qualquer viagem programada para durar 30 dias – vai chegar uma hora em que você enjoará do próprio visual. É que quando viajamos, não podemos levar uma bagagem muito grande. A ordem é “ir com o mínimo para voltar com o máximo” (ou seja, lembrancinhas legais compensam o saco que é levar apenas um casaco). Ocorre que acabamos optando por duas calças, três camisetas, uma blusa de lã e algo um pouco mais pesado para alguma frente fria. Parece simples, não? O difícil, passadas duas semanas, é conviver com tanta falta de opção. Olhar-se no espelho vira um martírio. Sem falar na dor-de-cabeça de arrumar um jeito para lavar as poucas peças disponíveis. Eu, por exemplo, já tive de esfregar calça jeans em pia de albergue e botá-la para secar no aquecedor do quarto. Um fato para cair no esquecimento.

Quero meu dinheiro de volta
O avião, o cabelo espaventado, a mala revirada, a vontade de fazer pipi em um lugar limpo, o guarda-roupa escasso: tudo isso é deixado de lado quando chegamos na maior atração de nossa viagem. Mas quem garante que ela estará lá? Eu sou a rainha de pegar monumentos na fase de restauração – quando horríveis lonas e andaimes tampam a maior parte da visão. Na primeira vez que fui para Roma, o teto da Capela Sistina estava coberto bem na cena mais importante de todas (o encontro dos dedinhos). O que fazer? Pedir o dinheiro de volta? Sentar e chorar? E não preciso ir longe não. Quando fui para Tiradentes, há poucas semanas, peguei justamente o dia do encontro nacional de Harley Davidson. Velhotes vestidos de couro nas ruas de paralelepípedo acelerando motocicletas envenenadas? Tudo a ver.

Pelo menos experiências ruins não saem na foto.

Vivi Griswold às 11:05 AM

terça-feira, 20 de julho de 2004

Correrias, cores e anéis

Brincar é tudo. Aliás, competir e se divertir, em maior ou menor grau, é tão bacana e tão parte da natureza humana que a gente faz isso a vida inteira – só mudam os brinquedos, conforme a idade. Na aurora da nossa vida, as atividades são mais claramente, er, digamos, brincadeiras. Mais tarde, brincamos de ir ao cinema, de passear de carro, de dançar com os amigos, de escrever em sítios que-eram-rosa-e-agora-são-listradinhos.

Qual a diferença no olhar daquele seu primo que ganhou um Pégasus de controle remoto no Natal, ao abrir o pacote, e do seu amigo que, depois de muito suor e financiamento, buzina na frente da sua casa de dentro do primeiro carro adquirido? E entre aquela vizinha que obriga todos os menorezinhos da rua a servir de alunos para a escolinha improvisada na calçada e as professoras que aturaram a gente no primário?

Pode-se dizer que brincar, de maneira geral, fica cada vez mais caro. Basta ver que um carro de verdade custa beeeeem mais que um Pégasus (que já não era nada barato) e ensinar 30 crianças enlouquecidas é mais difícil que meia dúzia de vizinhos. Isso sem contar que ir a uma danceteria ou pegar um cinema a dois não sai por menos de 40 pilas, ao menos cá em São Paulo.

Embora eu ainda drible a facada aplicada pelo ramo do entretenimento paulistano reunindo amigos em casa, para conversar, comer, beber e jogar, tenho saudades de quando brincar custava literalmente nada. A não ser tempo, coisa que a gente tinha de sobra. Era só escolher – muito provavelmente entre uma das brincadeiras abaixo ou entre as que continuarão a lista amanhã – e correr para o abraço. Ou, melhor dizendo, para a rua.

Alerta
Bem popular onde eu morava, consistia em reunir umas cinco ou seis crianças que respondiam cada qual por um número. Uma delas ficava com uma bola, gritava um dos numerais e jogava a tal bem alto. O escolhido tinha que correr para agarrar a pelota, enquanto o resto debandava para mais longe quanto possível – visto que, em seguida, o portador da bola tentaria “queimar” quem ficasse mais perto. Eu sei, parece estúpido. Mas eu era capaz de passar horas entretida nisso.

Sela
Essa era uma boa pedida para a saída da escola – até algum fraco começar a chorar, atrair professoras e inspetores e acabar com a brincadeira. Isso porque os estilos de pulo podiam mesmo ficar bem cruéis, do tipo “unha de gavião” (em que a gente pulava cravando as tais nas costas da pobre sela) ou “pastelão” (que consistia em dar um tapão de mão aberta no mesmo local). Depois eu digo que criança pode ser bem má e ninguém acredita...

Elefantinho Colorido
Eis uma das brincadeiras folclóricas mais esquisitas que eu já vi. Deve ter sido inventada por alguém que abusava da água que passarinho não bebe. Afinal, que sentido tem deixar uma criança passar e outra não, dependendo das cores que ela portar nas roupas e acessórios? E por que perseguir o coitado que não tem a cor? E, acima de tudo, por que diabos “elefantinho colorido”? Tá mais para viagem de lucy-in-the-sky-with-diamonds que para brincadeira infantil.

Esconde-esconde
Essa era uma das minhas favoritas. Porque não era simplesmente correr e se esconder em algum lugar, com a chance, ainda, de salvar todos seus camaradas se a modalidade jogada fosse a “último-salva-todos”. Para minha imaginação infantil, a emoção era a mesma que eu teria se estivesse me escondendo do diabão d’“A Lenda” – uma das figuras que mais me apavorava à época – ou do Homem do Saco. E salvar todos fazia com que eu me sentisse uma verdadeira heroína.

Passa Anel
Aqui, era só contar com um anel – podia ser aqueles de doce ou o de uma tia mais desapegada das bijouterias (a chance do objeto rolar para o bueiro era sempre considerável). A criança da vez guardava o adereço entre as mãos e ia passando por todo mundo, até deixar o bagulho com alguém, imperceptivelmente. Que aula para fazer avião, hein? E eu não estou me referindo exatamente a aeronaves.

Brincar é tão legal que, uma vez começado, a gente não tem mais vontade de parar... Por isso, amanhã a lista segue – quem sabe com opiniões e sugestões publicadas no Fórum. Quem quiser brincar, põe o mouse aqui!

Clara McFly às 07:08 PM


Família, ê!

Podemos achar os membros das nossas famílias estranhos, malucos, desajustados. Mas só nós podemos dizer isso! Ai de quem fala mal dos meus parentes... É como nas famílias de desenho animado: eles não regulam nada bem e são pra lá de esquisitos. União, porém, não escolhe apenas gente tranqüila e coerente. E digo mais: eu queria fazer parte das linhagens mais piradas da animação.

Se são pés-rapados, monstruosos ou perseguidos por forças malignas universais, não importa. Ver o lado bom das famílias é o essencial – sejam elas de verdade ou criadas na base da tinta e do grafite. Sempre haverá um irmão como Bart, uma mãe como Morticia, um cachorro como Chuchu... ou não. Mas ainda bem que alguém tomou substâncias bem fortes para nos brindar com esses núcleos familiares muito loucos da pesada.

Jetsons: os moderninhos
Andam dizendo que eles vão finalmente chegar ao cinema. Até eu defendia essa possibilidade, olha só! Mas a verdade é que dá um pouco de medo. Ficaria bom ou ruim ver, na telona, os tubos de transporte e o hidratador de comida do clã de George? Não sei. Basta não virem com um Astro digital, já está bom demais. Porque o cachorrão era o meu predileto na família. Ele tinha voz de barítono, que encanto.

Simpsons: os incorretos
Desajustados? Magina... Trata-se de uma gangue onde o pai dá à filha bebê um brinquedo de cachorro e diz “não faz mal, ela não sabe ler a embalagem”. A esposa tem chiliques periódicos (e quem pode culpar Marge, tadinha?), a filha mais velha passa crises existenciais, o garoto do meio é projeto de delinqüente. Ajuizado, só o Ajudantezinho do Papai Noel, o vira-lata da família. Isso porque, quando escuta os donos, ele entende apenas “blá blá blá senta”, “blá blá blá come”.

Família Buscapé: os lesados
Se fosse para morar no campo, porque não dividir o casebre com eles? O maior motivo de estresse, entre os Buscapé, é quando o bode do vizinho resolve comer os nabos plantados pela Mãe. Tudo o mais acontece da maneira mais leeeenta possível. Em se tratando de ursos, até dá para compreender. De tão bobos, nem os filhos Florzinha e Chapeuzinho dão trabalho. A não ser quando apanham o banjo para atrapalhar a soneca do indolente Zé.

Herculóides: os elos-perdidos
Como Vivi disse hoje, ainda não entendemos: eles viviam no passado ou no futuro, pô? Aqueles animais eram pré-históricos ou evoluídos pra caramba? Enfim... a estrutura do núcleo funcionava, de qualquer maneira. Papai Zandor era um homem corajoso e protetor capaz de prover não só Dorno e Zara, mas também suas aberrações. Digo, seus bichos de estimação. Se é que a terminologia se aplica a um rinoceronte que atira bolinhas.

Chan: os trapalhões
Lembram da Família Chan? Os chineses eram peritos em desvendar crimes – desde que liderados pelo pai, Charlie Chan, e não pelo bando de filhos dementes. A molecada (eram dez rebentos, no total) vivia querendo ajudar a solucionar os mistérios, mas só criava problema. O ponto alto era o Chuchu, cachorrinho-com-jeito-de-pano-de-chão da trupe. Ah! E, claro, o caminhão que podia se transformar em qualquer meio de transporte. Eu queria aquilo!

Família Adams: os doces monstros
O amor de Gomez e Morticia transcendia a névoa em que era imerso o casarão dos Adams. De tão carinhosos e delicados, eles atraíam todos os membros da família para seu ninho – enquanto espantavam os demais humanos preconceituosos. Tanto é que os empregados, ali, se sentem sangue do sangue... sem duplo sentido. Tropeço, por exemplo: que outra família trata tão bem um mordomo-motorista-zumbi? Desconheço. Ainda bem.

Muzzarelas: os arruinados
Disparada, a família que eu queria ter! Para começo, porque adoraria usar um nome em estilo Roma Antiga – tipo Precócia, como se chamava a filha caçula. Zecas era o patriarca da turma, gente classe-média que só se ferrava nas mãos do senhorio, o Chatus, e do chefe, Gambázius (esses nomes não caem mesmo como luvas??). Os problemas dos Muzzarellas eram os mesmos de sempre: falta de dinheiro, confusão com vizinhos, mal-entendidos generalizados. Para zoar ainda mais o cenário, eles tinham um animalzinho clandestino, o Brutus. Era um leão? Era. Cada família esquisita reúne os membros que acha por bem, ora! E deixe a minha turma em paz!

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Que tal se chamar Flavias Decimus Meridius?
Fla Wonka às 02:17 PM


Hã?

Tudo bem: desenhos animados e substâncias alucinógenas parecem caminhar de mãos dadas desde que a televisão surgiu. Partindo desse pressuposto, tudo o que vemos a cores em programas infantis e em emissoras especializadas faz sentido. Peraí, vá... Quase tudo. Porque nem um caminhão de tóchico tomado de uma só vez conseguiria explicar algumas das atrações infantis mais estapafúrdias do mundo da telinha.

Quando assistimos a um desenho, tão engraçadinho, colorido e cheio de aventuras, dificilmente paramos para pensar com mais afinco sobre o que nos é mostrado – com isso, acabamos aceitando um mote completamente absurdo sem ao menos notar.

Na lista que segue, alguns exemplos de desenhos “hã?”. Para compor o ranking, pensei apenas nas histórias, sem me ater se o produto final é bacana ou não – portanto, há títulos de que eu gosto muito e outros que recebem de mim uma careta. Deixando isso de lado, veja só se não tenho razão!

1) Tutubarão
Já vimos, em “Scooby-Doo”, um cachorro detetive – e até engolimos. Mas um tubarão? E fora d’água? Sem mencionar o fato de que, quando não está resolvendo mistérios ao lado de sua turma humana e descolada, ele toca bateria em uma banda de rock! Ah, e também tem uma voz parecida com a do Roberto Carlos!

2) Herculóides
Clara me contou o desentendimento que ela nutre por esse desenho, e daí caiu a ficha. Eles estão no passado ou no futuro? Porque há claramente elementos dos dois! De um lado, temos bichos pré-históricos, cavernas e tangas de pelúcia. De outro, temos raios laser, pistolas e naves espaciais! Crossover da pesada.

3) Ursinhos Carinhosos
Um bando de ursos açucarados e assexuados. Cada um tem um tema estampado na barriga, o que passa a comandar seu modo de vida. Por falar em vida, eles vivem nas nuvens – até seus carros são feitos disso. Morreram e foram para o céu? Sem falar no vilão, que implica com eles por não suportar tanto amor... Argh!

4) Super Globetrotters
Você se lembra? Era uma equipe de jogadores de basquete. Até aí, ok. Equipes de basquete fazem parte do mundo real, não? Mas existem jogadores chamados Multi-Homem, Homem-Esfera, Homem-Gizmo, Homem-Espaguete e Homem-Fluído? Ou uma pessoa com uma bola no lugar da cabeça? Ou com corpo de macarrão?

5) Snorks
Eles viviam no fundo do mar e eram seres estranhamente coloridos. Para completar a estranheza, respiravam por um tubo que saía de suas cabeças. O tubo tinha também a função de impulsioná-los na água. Os Snorks andavam em cavalos-marinhos, tinham polvos de estimação e um deles... era mudinho!

6) A Vaca e o Frango
Demorou um pouco para eu assimilar esse desenho – e confesso que ainda não consegui. Uma vaca (chamada Vaca) é irmã de um frango (chamado Frango). Eles moram em uma casa normal, e seus pais são humanos. Ou parecem ser. Existe ainda o primo Desossado (um frango molenga) e um diabão meio gay.

7) Capitão Planeta
Quando eu falei desse desenho aqui, sofri retaliações de alguns leitores. Então não vou me ater no fato de ser a atração mais desanimada do mundo, mas na história. Cinco jovens do mundo inteiro recebem um anel do espírito da Terra. Quando colocam o anel e unem os seus poderes, se transformam no herói ecológico!

8) Smurfs
Eles são seres azuis que vivem em cogumelos na floresta. Aparentemente, são assexuados – porém, há o Papai Smurf, um senhor, e Smurfete, uma donzela. Gargamel é o vilão que vive querendo capturá-los, apesar de ele próprio ter criado a Smurfete para servir de espiã infiltrada. Entendeu? Eu também não.

9) Bob Esponja
Bob é uma esponja marinha mais parecida com um Assolan. Ele usa roupa de escoteiro e mora no fundo do oceano, dentro de um abacaxi. Seu vizinho, uma lula mal-humorada, mora dentro de um Moai da Ilha de Páscoa. Seu amigo, uma estrela-do-mar burra, mora debaixo de uma pedra. E tem também o Gary!

10) As Tartarugas Ninja
São quatro tartarugas adolescentes. Como se não bastasse, elas são mutantes e ninjas. É pouco? Seus nomes são inspirados nos quatro grandes mestres da Renascença italiana. Pouco ainda? Elas se alimentam de pizza. Acabou? Não: os heróis também têm um amigo, um rato sábio que mora nos esgotos... Só em desenho.

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Vivi Griswold às 10:26 AM

segunda-feira, 19 de julho de 2004

De quantias e Garotas

Há alguns números míticos – acho que no momento seria mais moderno dizer “cabalísticos” – que pontuam a existência humana e dão as caras quando queremos expressar uma miséria, um exagero, uma conta redonda. Um, três, sete, dez, cem e mil são alguns deles.

Ninguém comemora com tanta ênfase a virada de um ano “quebrado”, como 1997 para 1998. Já o ano novo do milênio – que, ao contrário do que muitos pensam, era tão “quebrado” quando o reveillon citado, já que não existe ano zero e a tal virada foi quando o calendário abandonou 2000 para 2001 – foi a maior festa.

Casamento é outra bela prova dessa fascinação que nós, pobres mortais, temos por números fechadinhos. Aniversário de 50 anos de enlace é o tipo de festa capaz de reunir a família toda – inclusive aquelas perigosas tias que apertam suas bochechas e sacam da frase “e aí, e o namorado?” (se você é livre-leve-e-solta) ou “e o bebê, vai ser para quando?” (caso você já apareça com alguém a tiracolo). São as chamadas bodas de ouro. E aniversário de três anos de casório, é boda de alguma coisa? Deve ser de qualquer porcaria, tipo papel.

Três é mais importante na religião. A divindade cristã admite a existência de uma trinca de poderosos: o Pai, o Filho e o Espírito Santo – que na verdade são um só. Olhaí outro número de peso (apesar de expressar uma quantidade mirradinha): um!

Sete, então, nem se fala. É o número dos pecados capitais, dos anões, das mulheres de Zeus e das pessoas chamadas Fernanda que estudavam na minha classe. Dez são os mandamentos (isso porque concordo com Mel Brooks e desconfio que Moisés quebrou mesmo uma das tábuas), as pragas do Egito e boa parte das listas produzidas aqui no Garotas – e no resto do mundo (por que ninguém faz listas com os seis melhores qualquer-coisa?).

Porém, o mais pesado dos números redondos é mesmo o milhão. Só perde para o zilhão (que deve ter sido inventado por alguém. Não existe mesmo, existe?). A quantia cheia de zeros à direita expressa tudo que queremos dizer aos montes, com folga ou com exagero. A gente pode afirmar ter um milhão de razões para gostar dos Beatles, passar uma manhã chuvosa debaixo das cobertas ou não votar no Maluf. Peraí. Nesse caso, acho que existem mesmo um milhão de razões – literalmente.

Um milhão ainda é o número de amigos que o sêo Roberto Carlos queria ter (para cantar bem mais forte), o sonho em dinheiro de todo pé-rapado feito a gente e o milho gigante que o sêo Silvio trocava por um tênis Montreal naquela cabine em forma de foguete do “Domingo no Parque”.

Agora, um milhão ganhou um novo sentido para as três desmioladas que comparecem diariamente por aqui. Não é mais apenas uma quantia que, se paga em barras de ouro, valeria muito mais que dinheiro. Nem o nome do hotel habitado por Milla Jovovich no filme com Mel Gibson, dirigido por Wim Wenders.

Hoje, ultrapassamos a marca de um milhão de pageviews. Desde 19 de maio do ano passado, pouco mais de um mês depois do começo do sítio, as páginas do Garotas foram acessadas 1.002.394 vezes (até o exato momento em que escrevo estas linhas) por gente muito mais bacana do que jamais imaginávamos quando botamos no ar nosso projeto.

Pensei em agradecer – em nome dessa trindade loira-morena-ruiva, que de santíssima não tem muito - com um milhão de obrigadas. Mas ia ficar meio óbvio. Então, leitores, recebam nossos 1.567 obrigadas pelo acontecimento. Isso é que é show de milhão.

Clara McFly às 08:54 PM


Ultraje de verdade

O rock brasileiro, eu acredito, nunca teve uma época tão feliz e produtiva quanto nos anos 80. Foi naquele período que moços e moças de Rio de Janeiro, São Paulo e da jovem Brasília tiraram os carros de seus pais da garagem para enchê-las com instrumentos barulhentos. E de moquifos assim surgiram Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Barão Vermelho, Titãs e uma série de outros. Estão vendo? Na hora de enumerar as pérolas roqueiras oitentistas, até eu sou injusta! Mas o Ultraje a Rigor foi, com certeza, uma das melhores aparições do Rock Brasil.

Lá no comecinho da década, a banda já era bastante conhecida no país – e contava com o bacana Roger nos vocais e ninguém menos que Edgar Scandurra, hoje do Ira!, na guitarra. Lembro que meu irmão era liberado para ir nos shows do Ultraje, mas eu só podia ouvir em casa, na vitrola. E, mesmo assim, quando meu pai não estivesse olhando, porque ele tirava o maior barato da letra de “Inútil”. Dizia que era uma música bem apropriada para nós, seus filhos... Droga.

A bem da verdade, parece que tivemos primeiro um compacto do Ultraje a Rigor, e não um disco todo. O pequenino vinha com os sucessos “Rebelde sem Causa” e “Eu Me Amo”. Começaram bem os sujeitos ou não? É verdade: as letras eram sarristas e meio adolescentes, mas também eram geniais.

Num tempo em que imagem de revoltado era tudo, quem mais teria a cara de pau de cantar “eu me amo, não posso mais viver sem mim”? E a outra, então: “não vai dar, assim não vai dar/ pra eu amadurecer sem ter com quem me rebelar”. Muitas outras bandas famosas podiam ter entendido o recado de Roger e gangue.

Conta o site do próprio grupo (www.ultraje.com.br) que, no início, eles se juntaram para ser uma banda de covers – principalmente de Beatles, rock dos anos 60, punk e new wave. Logo eles viram que se ater às letras dos outros era complicado, e a banda decolou. O primeiro álbum grande, “Nós Vamos Invadir Sua Praia”, quase furou no toca-discos lá de casa. A bem dizer, quase furou no bairro todo, porque festinha de garagem sem Ultraje, não dava pé.

Também, olha a seleção: “Ciúme”, “Inútil”, “Zoraide”, “Independente Futebol Clube”. Foi tão cantando pela molecada que “Nós Vamos...” tornou-se a primeira produção nacional a levar disco de ouro e platina. Os pais achavam uma besteira sem fim. Os filhos achavam bom de dançar, de cantar, de imitar. Ah, sim: toda banda de garagem lá do ABC fazia cover do Ultraje. Sim, porque todo garoto oitentista queria mesmo é transgredir e usar palavras quase-de-baixo-calão como fazia o Roger.

E olha que os rapazes da banda ainda nem tinham apelado tudo que podiam. Depois do “Nós Vamos Invadir Sua Praia”, que arriscou versar sobre uma galinha com cara de babaca e que soltava ovos pela... oh, céus... cloaca, eles lançaram “Sexo!!”. Além da canção-título, transformada em hino para muito marmanjo safado, o set list ainda contava com uma tal “Pelado”.

Uma das minhas tias jurava que aquilo era uma pouca-vergonha e seria banida das rádios. Pois tocou na abertura de “Brega e Chique”, a novela das sete... Titia teve que aturar não só a letra “indecente” dos meninos, mas também aquele moço desfilando com a bunda de fora (e depois uma parreira)!

Desse disco, porém, a minha predileta era “Terceiro”. Ora bolas, eu era a caçula de três irmãos, ser terceira em tudo – de escolher a cama no hotel a tomar banho – eu era sempre sempre sempre a retardatária. Não era a toa que me identificava tanto com as letras do Ultraje. Aliás, eles também se identificam com essa música, certamente. Na lembrança geral, eles sempre são “terceiros”. Que pena!

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Faz tempo que estão na estrada, hein, caras?
Fla Wonka às 02:44 PM


Ele é mais ele

Qual de nós gosta realmente de acordar de manhã cedo? Ou consegue encarar com entusiasmo a chegada de mais uma segunda-feira? Ou escolhe feliz duas horas de exercícios físicos a um tempo similar na frente da TV? Ou, ainda, prefere comer uma refeição diet a um prato calórico de comida italiana? Nenhum de nós. E, por isso, somos todos um pouco Garfield.

Um gato laranja gordo e preguiçoso é colírio para os olhos dos amantes dos felinos. Mas Garfield consegue ultrapassar as barreiras das preferências sobre animais domésticos por ser terrivelmente humano – na verdade, todo gato tem um quê de gente, mas isso só quem tem um pode saber.

Enquanto seu “rival” de quatro patas Snoopy é uma tirinha sisuda, atormentada e politizada, as histórias de Garfield versam basicamente sobre comer, dormir e brincar de vez em quando. Ele não está nem aí com o sistema de governo – a presença do cão Odie lhe é uma questão bem mais importante. Ele não faz filosofias além de “minha paixão por lasanha só é comparável à minha raiva pelas segundas-feiras”. Ele só tem compaixão pelo dono por este ser provedor da casa e da televisão. Garfield é mais... Garfield.

Jim Davis, seu criador, passou a infância em uma fazenda em Indiana junto com os pais, o irmão, algumas vacas e 25 gatos que aproveitavam a hospitalidade de sua mãe, uma cat-lover declarada. Um belo dia, porém, Jim teve um súbito ataque de asma e foi forçado a ficar recluso e longe dos animais. Foi aí que ele começou a desenhar.

Em 19 de junho de 1978, Garfield saiu pela primeira vez estampando 41 jornais. Ironicamente, ele é o único gato da vida de Jim – além da asma, o cartunista casou-se com uma mulher alérgica a pêlo de felinos. Ainda assim, Jim consegue passar para os desenhos todas as agruras da vida dos semelhantes de Garfield: o problema constante de queda capilar, a vontade de gastar as unhas no sofá do dono, a certeza de que é o ser intelectualmente superior da casa, etc.

A melhor sacada das tirinhas, na minha modesta opinião, é não dar voz ao personagem – e sim balões de pensamento. Enquanto o humano e o cão estão de olhos esbugalhados e feições idiotas, Garfield acaba com ambos silenciosamente. Para John, o dono, ele é apenas mais um gato preguiçoso e mau-humorado. Sua lerdeza humana é tanta que Garfield consegue, com o ar mais cândido do mundo, empurrar a culpa de um jantar estragado a seu urso de pelúcia, Pooky.

Garfield é considerada a tirinha que mais rapidamente se espalhou pelo mundo. Estima-se que são cerca de 220 milhões de leitores diariamente em jornais espalhados pelos quatro cantos do globo. Em meio a diversos produtos com sua marca, séries animadas para TV e livros comemorativos, só havia uma mídia que o gato não alcançou: o cinema. Quer dizer, até agora.

Estreou no último fim-de-semana o longa-metragem “Garfield”. O personagem, entre humanos, cachorros e gatos de carne e osso, é digital. Por mais que teria sido melhor um filme inteiro na base da animação, o Garfield computadorizado é bem superior a outra tentativa, “Scooby-Doo”. A produção, apesar de infantil demais para o cinismo que é peculiar ao personagem, encanta e faz rir. Sem falar que Bill Murray está impagável na a voz do gato.

Seja em qual formato for, a verdade é que os ensinamentos de Garfield permeiam a minha vida. Eu também sou mais ele. Agora peço licença, pois vou amaldiçoar mais esta segunda-feira.

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Bom dia, parceiro
Vivi Griswold às 09:57 AM

sexta-feira, 16 de julho de 2004

Ork-o-quê?

Ele surgiu como quem não quer nada, com um nome para lá de esquisito e uma proposta logo acusada de não passar de uma coleta maquiada de dados pessoais de seus usuários. Aos poucos virou mania, ganhou vulto e manchetes de jornais e revistas: todo mundo já falou no diacho do Orkut. Menos eu - até agora.

A brincadeira consiste em participar de uma rede de amigos. Você só pode entrar na roda se convidado por alguém que já está dentro. Através de um link gerado pelo e-mail de convite, você se registra e cria sua página lá. Pode pôr fotos, informações das mais diversas sobre sua pessoa e meios de contato - como endereços de sítios na web, identidade do MSN e outras bossas.

Uma vez registrado, eis que um mundo novo de pessoas (representadas por figurinhas, devido ao tamanho das fotos) se descortina à sua frente. Você pode ficar amiga delas, mandá-las para a cadeia ou juntar-se a comunidades com interesses em comum.

Aliás, as comunidades vão dos temas mais triviais, como as formadas por ex-alunos de determinados colégios que querem se reecontrar, às mais, digamos, específicas - como a "Era Jesus um X-Man?" (para discutir a possibilidade do filho do Hômi ter sido o primeiro mutante) e a "Eu Prefiro Melão" (destinada à lembrança das melhores frases de novela).

Depois de ficar amigo de alguém, você também pode escrever testemunhos a respeito das pessoas - elogiosos, espera-se. Bom, comigo o pessoal foi bem generoso até agora!

E não é só. Dá para aferir aos seus camaradinhas virtuais alguns conceitos, dizendo se eles são confiáveis, bacanas ou sexies. Ainda não entendi bem qual o critério do Orkut para julgar suas "notas", que são expressas em porcentagens.

Minha confiabilidade, por exemplo, está em 80%. Não sei se isso quer dizer que sou 80% confiável ou se tal porcentagem dos meus amigos me considera confiável. Mas, enfim… quem se importa?

A utilidade disso tudo ainda não está muito clara para mim - nem para a comunidade orkuteira, usuária de um programa Beta (sim, o Orkut é um sistema em fase de teste).

Tem gente que conheço reestabelecendo contato com amigos da época do ginásio. Outros se divertem participando de comunidades com propósitos que oscilam do cômico ao duvidoso. Eu estou curtindo tudo: desde reencontrar figuras do passado a discutir toda sorte de assuntos, passando, em especial, pela diversão de ficar amiga de gente como o Papai Smurf, Bill Gates e Zé Pequeno.

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Eles também estão no orkut!
Clara McFly às 07:01 PM


Chance para ser criança

Adolescente é mesmo um porre, não? Nessa fase desgraçada onde o cabelo não obedece, a pele fica um lixo e tudo na figura parece esquisito, ainda tem o mau humor para atrapalhar. Nos meus 15 anos, achava quase tudo “coisa de babaca” – e olha que, sinceramente, eu não era das criaturas mais chatas. Tinha bode de ficar com a família, achava festa de debutante um horror e mencionar a palavra “Disneylândia” me causava engulhos. Esse último emburramento, porém, passou à força.

Metade da minha escola juntou dinheiro, por essa época, e se mandou para a Disney. Eu cuspi no imperialismo, praguejei contra os vendidos, rendi homenagens ao Nordeste brasileiro e até decretei em público: “só piso nesse parquinho sofrível quando o cidadão vestido de Mickey criar asas”. Céus, como a gente faz papel ridículo na adolescência...

Pois relutei mesmo em visitar a terra da magia inventada por Seo Walt. Apesar de devorar os gibis de Donald, Tio Patinhas e companhia todo mês, nunca me imaginava passeando por entre a casa do Pateta ou o carrinho de bater do Pluto. Ah, que mico, hein? Imagine eu, uma garota engajada e tão esperta, me humilhar frente aos costumes e invenções americanóides? Nem pensar!

Felizmente, aplicou-se a mim a velha fórmula de cuspir pra cima e, mais tarde, o dejeto despencar de volta em plena testa. Caiu mesmo, mas foi ótimo.

Em 1994, uma amiga me convidou para passar alguns meses na casa da irmã dela, em Los Angeles. De férias da faculdade e sem nada interessante para fazer – já que ainda não tinha um emprego fixo, só bicos –, aceitei de bate-pronto. Fiz a mala, juntei a cuia e parti para a aventura de sobreviver por mais de dois meses com 500 dólares. Sem pagar estadia, daria certo.

A rotina era a maior farra. O apartamento da Elaine era na praia, pertinho da animada Manhattan Beach, e tranqüilo à beça. Era como viver dentro do “Barrados no Baile”, basicamente (mas sem nos preocuparmos com amigos intoxicados). O dia-a-dia era resumido em andar de bicicleta e patins, cair na piscina, assistir o Brasil faturar a Copa do Mundo pela tv – lembrem-se, não havia verba para estar mais perto que isso – e comer uma porção de tranqueiras. Também tinha a fase de ser mimada pela hospedeira, uma moça pra lá de amável.

Ela nos levava passear de carro, vez por outra, nas imediações. Fomos à Malibu, Venice Beach e até para a cidade de San Diego, uma delícia de lugar. Então, chegou o dia: Elaine queria nos levar para passar horas e horas... na Disney. Nem relutei, pra dizer a verdade. Depois de vários dias convivendo com o “american way of life”, a gente acaba se entregando um pouco, vou confessar a vocês.

Chegando ao parque, não conseguia parar de pensar em Clark Griswold, o homem que atravessou o país em “Férias Frustradas” para encontrar diversão em Walley World (se aquilo não é paródia da Disneyland, eu corto minha língua fora). Bastou pagar o ingresso e entrar na área, alguma coisa mudou aqui dentro. De 19 anos completos, passei a ter, se muito, 9.

A mistura de calor, música de alto-falante, cheiro de waffle e objetos coloridos por todo lado teve esse poder. Em questão de minutos, eu estava rindo pacas no brinquedo do Roger Rabbit. Mais uma hora, e já andava pelas ruas da Disney saltitando e escolhendo a próxima atração no mapa. Um pouco mais tarde, tirei foto atracada ao Mickey e com um sorriso de orelha a orelha.

O dia passou feito um tiro. Mas deu tempo de azucrinar americanos nas filas, comer hambúrguer, cantar (sem sucesso) o motorista do bondinho, voar pela montanha-russa e até assistir à parada e ao show “Fantasia” no lago.

Fico pensando que, se tivesse ido à Disneylândia quando pequena, não teria aproveitado muitos brinquedos ou entendido tudo. Se tivesse vencido o preconceito e ido aos 15 anos, teria curtido como todos os adolescentes – e se éramos capazes de armar zoeira tanto lá quanto no saguão do prédio ou na rua, por que gastar tanto? Foi bom ter entrado no mundo encantado de Walt Disney mais velha. Voltar no tempo e ter a chance de ser criança mais um pouco é um privilégio.

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Eles sabem nos transportar ao mundo infantil...
Fla Wonka às 02:50 PM


Snif, snif

Em desenhos animados, quando alguém coloca uma torta de amora na janela para esfriar, uma nuvem de aroma em formato de mão sai e vai buscar o personagem. Quando este sente o cheirinho bom, fica imediatamente hipnotizado e acaba se deixando levar, flutuando, até o quitute. Na vida real, nenhuma mãozinha daquelas veio me buscar... Só se eu usar de imaginação quando sinto meus cheiros favoritos.

Já escrevemos no Garotas (aqui e aqui) o quanto o olfato é importante, principalmente para marcar um evento e fazê-lo ficar sempre na memória. Muita coisa que aconteceu na infância, por exemplo, consegue vir à tona apenas com um cheirinho específico. Mas não é só para recordar algo que eu gosto de afiar as narinas. Existem cheiros atemporais – e cotidianos – que me fazem ficar contente. Ó:

1) Gasolina
Assim que aporto em um posto de abastecimento, começo a fungar para pegar uma nuvenzinha de aroma de combustível. Droga, sou muito estranha? Mesmo? É que adoro o cheiro de gasolina. Não que passaria no pulso como um perfume não. Tento mesmo é aproveitá-lo até o frentista devolver a chave e chegar a hora de partir.

2) Bebê
Cheiro de bebezinho é muito bom. Claro que me refiro a bebê de banho tomado, e não à fralda suja, substâncias azedas e outros fedores que acompanham o rebento. Aquele misto de talco, amaciante, sabonete e pele cor-de-rosa! Por isso é importante ser bebê dos outros, que costuma estar limpo para visitas.

3) Pipoca estourando
Toda vez que entro em um cinema, sinto a mão imaginária chegando e me arrastando até o balcão. A maldita é tão poderosa que me faz gastar mais de seis reais em um saco de pipoca! Acontece que não posso com esse cheiro. Já tentei até me empanturrar de comida antes. Basta a pipoquinha dar as caras, pronto.

4) Lápis novo
É só comigo ou tem mais louco no mundo segurando o lápis debaixo do nariz assim que o item chega da papelaria? Ah, aposto que somos vários apreciadores do cheiro de lápis novo... Chego até a dizer que o tipo com grafite 2B tem um aroma diferenciado dos demais. Tá certo, acabei de assinar minha declaração de insana.

5) Alho, cebola e azeite na panela
Às vezes eu faço arroz apenas pelo prazer de ficar com o nariz em cima da panela enquanto frito cebola e alho no azeite... Dificilmente um aroma de cozinha conseguiria derrubar esse da minha lista de favoritos. Minha vontade é de desligar o fogo, pegar um pão italiano e chuchar naquele sumo. Engordante? Magina!

6) Terra molhada pela chuva
Quando as nuvens negras se formam no céu, já fico de sobreaviso. Se começar a pingar, corro para a janela para sentir um cheirinho que mescla água de chuva com terra e mato – dura pouco tempo, mas vale à pena. Principalmente em chuvas de verão: dias quentes fazem o aroma ficar mais forte e mais gostoso de sentir.

7) Sabão em pó
Odeio lavar roupa. Definitivamente, não entendo as regras. Não sei mexer na máquina. Não sei separar colorido do branco (é mais difícil do que parece). Não sei medir a quantidade de produtos. No meio do pesadelo doméstico, uma coisa se salva: cheirinho de sabão em pó! Tinha de haver algo de bom, não?

8) Dama-da noite
Nunca deixei em segredo aqui minha predileção por dias frios de inverno. Mas eu tenho de admitir que, em noites quentes, há pouca coisa que consegue me alegrar instantaneamente do que pegar de repente o aroma de um pé de dama-da-noite. Tanto que eu plantei um desses na varanda. Melhor que incenso!

9) Mãe
Minha mãe me conta que, quando eu era pequena, tinha mania de pegar o braço dela e ficar cheirando. Eu dizia que estava “sentindo o cheiro da mamãe”. Porque mãe tem cheiro. Elas podem até dar as mesmas broncas e ter as mesmas frases, mas cada uma tem seu aroma especial e único. Só os filhos sentem.

10) Meu perfume favorito
Eu já decidi qual é meu aroma industrializado favorito. Gosto tanto dele que o frasco permanece quase intocado. É, sou daquelas tontas que têm dó de “gastar”. Daí o negócio evapora e ninguém acaba usando. De qualquer maneira, gosto de usá-lo em ocasiões especiais. Em outras, só tiro a tampa e dou uma fungada.

Vivi Griswold às 10:56 AM

quinta-feira, 15 de julho de 2004

O perigo mora ao lado

Se os vizinhos da TV eram no máximo fofoqueiros e intrometidos, mas nunca muito nocivos, seus colegas de função (no bom sentido) criados para a telona costumam causar um pouco mais de problemas: entre eles, temos terroristas, vampiros e velhos estranhos portando uma pá.

Um caso clássico dos distúrbios causados por vizinhos de cinema é o filme de cujo título adaptei o nome para esse texto. Em "O Pecado Mora ao Lado", a tentação na verdade mora em cima. Um pobre editor interpretado por Tom Ewell passa a ter como vizinha no apê superior ninguém menos que Marilyn Monroe.

Na pérola, dirigida pelo impossível Billy Wilder, a família do até então fiel pai-e-marido sai em viagem ao mesmo tempo em que a belíssima loira chega para ocupar temporariamente uma unidade vazia no prédio. O infeliz passa por 105 minutos de tentação (e quem não passaria?).

Mas uma potencial e involuntária destruidora de lares é a menor das ameaças entre os vizinhos da Sétima Arte. Vai por mim: é bem melhor morar perto da Marilyn que de uma dessas figuras aí.

Melvin Udall, o misantropo
Em "Melhor É Impossível", Simon (Greg Kinnear) tinha de dividir andar com a irresistível maleta interpretada por Jack Nicholson. Não bastava xingar a empregada latina, menosprezar as preferências sexuais do pintor e surtar num restaurante: Melvin, ainda por cima, roubou os afetos do cãozinho Verdell de seu pobre vizinho, usando bacon.

Jerry Dandridge, o sanguessuga
Chris Sarandon é um sexy e misterioso vizinho que acaba de se mudar para a casa ao lado do lar-doce-lar de Charley. O garoto, viciado em histórias de terror B, começa a desconfiar que o cara é um chupa-sangue. Claro que ninguém acredita. Claro que, no fim, é tudo verdade. Claro que essa história só seria possível nos anos 80, no inesquecível "A Hora do Espanto".

Oliver/William e Cheryl, os terroristas
"O Suspeito da Rua Arlington" tem a família de criminosos mais improvável do mundo: o quase-sempre bonzinho Tim Robbins e Joan Cusack, a melhor-amiga-malucona honorária dos filmes à la sessão da tarde. E o pior é que os dois convencem como o casal cheio de segredinhos (mortais) que passa a morar ao lado de um incauto professor. Medo.

Marley, o assustador
Kevin, além de ser esquecido em casa, teve de enfrentar a aranha de estimação do irmão, dois bandidos meio burros e um vizinho absolutamente apavorante, que vivia carregando uma pá. O bom é que o garotinho de "Esqueceram de Mim" acaba descobrindo, em tempo, que o ancião era gente boa e só gostava de limpar a neve da calçada.

Kurt Dussander, o criminoso de guerra
Qual a chance de um ex-oficial nazista mudar-se para o lado da sua casa? Bom, nem todos foram mortos ou julgados. Os que fugiram tinham de mudar para algum lugar - porque não uma vizinhança agradável? Pois é isso o que acontece com Todd em "O Aprendiz". Ele é um estudante que descobre que o velhinho ao lado (Ian McKellen) foi um exímio matador em massa.

Coronel Frank Fitts, o morador do armário
"Beleza Americana" é daqueles filmes que todo mundo sabe o final, já que é contado em flashback. Mas se você não assistiu e não quer saber a surpresa, pare de ler aqui! Afinal, o responsável pelo fim de Lester é ninguém mais senão seu vizinho, um milico reprimido que dá cabo dele depois de descobrir que o personagem interpretado por Kevin Spacey não era gay.

Sid, o psicopata-mirim
Tudo bem que todo mundo gostava de fazer umas experiências com os brinquedos quando pequeno. A minha Susi, coitada, acabou com um cabelo ao melhor estilo leão-do-norte depois de vários cortes e lavagens. Mas essa criatura do "Toy Story" era um verdadeiro projeto de Chico Picadinho, mutilando todos os brinquedinhos que lhe caíam à mão.

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Eu não disse que ele era uma peste?


Clara McFly às 07:00 PM


O verdadeiro carimbador maluco

Se eu ganhasse um Real para cada humano triste que soube superar obstáculos e produzir maravilhas... Estaria bem rica, por certo. Pois existe mesmo gente capaz de vencer o sofrimento (físico ou emocional), ultrapassar tempos difíceis e usar a cabeça para gerar obras artísticas impressionantes. Foi assim com Aleijadinho, Frida Khalo, Vincent Van Gogh – e com um holandês não tão conhecido pelo público quanto esses, mas especial para quem aprecia a genialidade.

O nome do homem era Maurits Cornelis Escher. Ele nasceu em 1898, na cidade de Leeuwaeden, e era o filho mais novo de um engenheiro. Logo cedo começou para o garoto a mesma toada que assolou mentes brilhantes como Einstein e Da Vinci. Aos 13 anos, Escher ingressou numa escola secundária e foi considerado um péssimo aluno, sendo reprovado duas vezes pelos professores.

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Em 1919, foi para Haalem estudar na Escola de Arquitetura e Artes Decorativas, mas não durou na pretensa carreira. Mas foi lá que Samuel Jesserun de Mesquita, professor de técnicas de gravura artística, notou o talento do moço e o convenceu a mudar para o curso de Artes Decorativas. Mesquita incentivou as viagens maluconas de Escher por muitos anos. Com o início da Segunda Guerra Mundial, a vida se tornou difícil para os holandeses – e o mestre, sua mulher e o filho foram assassinados pelos alemães em um campo de concentração.

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Apesar da forte ligação com o professor e da depressão que sofreu pela morte dele, Escher não deixou de trabalhar. Refugiado na Itália, ele desenvolveu suas primeiras xilogravuras de paisagens – aquela técnica na qual o desenho é esculpido em madeira e, depois, marcado no papel com tinta. Em 1941, ele mudou-se para a Holanda de novo e teve, afinal, sossego para desenvolver os trabalhos mais ricos da sua carreira artística.

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Os desenhos que salpiquei pelo texto são uma amostra do que esse homenzinho praticava (para ver mais, clica aqui). Com pinturas desconcertantes, ele criava formas infinitas. Nas imagens piradas de M.C. Escher, a água corre para cima, mas também cai da cachoeira. Os soldadinhos sobem a escada, mas descem ao mesmo tempo. Uma mão desenha a outra numa mesma folha de papel.

Dá para permanecer horas olhando os quadros desse senhor e encontrar cada vez mais motivos para ficar ali, tentando entender. Mas não é só arte pela arte: Escher era um estudioso da divisão de superfícies, perspectiva, distorção e ilusões espaciais. Para isso tudo, usou bastante a xilogravura, e também o carvão e o giz.

Em 1962, Escher ficou muito doente, passou por uma grave operação e, daí em diante, produziu poucas obras. Em 1970, mudou-se para a Casa Rosa Spier, em Laren, um lugar onde artistas idosos podiam ter os seus próprios estúdios enquanto eram cuidados por médicos e enfermeiras. Lá mesmo ele faleceu, em 27 de março de 1972. Quando perguntavam a M.C. Escher de onde ele tirava suas criações mirabolantes, ele respondia sempre o mesmo: “Vieram-me as idéias na cabeça, eu não relacionava com arte”. Gênio sofrido existem muitos. Mas sofrido, único e ainda modesto, são poucos.

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Nem o auto-retrato de Escher é padrão
Fla Wonka às 02:12 PM


Um Oscar para Daniel

Tudo o que poderia ser comentado sobre o filme “Cazuza – O Tempo Não Pára” já foi dito, e creio que eu não conseguiria acrescentar nada de novo à cobertura dada a ele – ou à figura do músico que o inspirou. As inúmeras matérias de jornais e Internet apontaram os acertos e erros da produção, bem como seus exageros, suas faltas, sua pressa. Portanto, chega de falar de Cazuza por enquanto. Agora é a vez de Daniel.

Enquanto o público da sala de cinema saía de olhos marejados pelo personagem, eu deixava a poltrona de queixo no chão pelo ator. Antes de assistir ao filme, tinha ouvido falar que a interpretação de Daniel Oliveira – ou melhor, a encarnação dele – fazia lembrar Val Kilmer, um Jim Morrison assustadoramente perfeito. Mas meu voto vai para o brasileiro.

Eu não conheci Jim Morrison. Aliás, nem do rosto dele eu me lembro muito (fato complicado ainda mais com a semelhança ao ator que o interpretou). Não gosto de The Doors e a trajetória do astro não me é familiar. Mas com Cazuza é diferente. Videoclipes estão por aí, assim como suas fotos. Lembro-me do Cazuza vivo e o dia de sua morte ainda está na minha cachola com todas as cores. Se houvesse um fator a dificultar a atuação de Daniel, seria essa proximidade com alguém ainda muito presente.

Imagine o que foi o peso de aceitar e compor um papel de alguém cujos amigos, conhecidos, amantes, fãs e familiares ainda estão por aí prontos a julgar. Pior do que tudo isso, ter a própria mãe do cara acompanhando cada gesto, cada respiro, tentando encontrar nele seu filho único morto prematuramente. É de pirar qualquer um, mas Daniel manteve a coragem na cova dos leões. A mesma coragem que é tão atribuída ao músico.

A partir disso, as semelhanças saltam aos olhos. Não apenas a semelhança física, mas os gestos e a fala. Vale lembrar que Daniel é mineiro e teve de aprender a não apenas falar com o carregado sotaque carioca, mas também a prender a língua um pouco, sibilando os “esses” como Cazuza fazia. Chega um momento em que o ator pode ficar parado quieto: você olha e identifica, ainda assim, o personagem.

Minha cena favorita do filme, aquela em que tive certeza do talento do ator, pode passar despercebida por sua falta de importância. Cazuza, internado em um hospital de Boston, mostra a nova letra que escreveu ao amigo Zeca. Ele lê os versos e explica como gostaria que a melodia fosse. É tão natural que arrepia.

O lance do Oscar não é brincadeira. Claro que há as barreiras culturais. Mas se o filme fosse americano, Daniel poderia já sonhar em sentir o peso do homenzinho dourado nas mãos. Além de sua interpretação magistral, ele teria dezenas de outros motivos para levar o prêmio. É só pensar na história da Academia.

Primeiro, eles adoram premiar atores que fazem pessoas reais. Vide Russel Crowe em “Uma Mente Brilhante” e Adrien Brody em “O Pianista”, só para citar casos mais recentes. Se morrer com sofrimento, então, melhor ainda. Depois, a transformação. Daniel ganhou 7 quilos para o Cazuza sarado e perdeu 14 para o Cazuza doente – isso no período das filmagens. Uai, não foi justificado assim o prêmio à bela Charlize Theron, que levou por “Monster”?

Não que eu seja baba-ovo de premiozinho ianque comprado não. É que faz tanto tempo que os brasileiros almejam trazer a estátua... Se for para acontecer, que seja para esse grande garoto.

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Qual dos dois?
Vivi Griswold às 10:17 AM

quarta-feira, 14 de julho de 2004

Olá, vizinho!

Eu tenho que confessar: sou meio anti-social. Por isso, sempre dei sorte com vizinhos. Porque vizinhos de pessoas anti-sociais são bons quando a gente sabe o nome e dá bom-dia – e só. Nada de pedir uma xícara de açúcar no meio da receita. Nem de ficar reparando na hora que fulano chega ou sai. Nenhum vizinho que tive foi desses de incomodar – no máximo, tem o moço que mora aqui em cima e eventualmente decide praticar cavaquinho de madrugada. Mas tudo bem, já que geralmente estou acordada nessas horas bizarras, mesmo.

Pensando melhor, tive uns amigos de muro na praia que fugiram ao meu tratado geral de procedimentos com vizinhos. Ficamos camaradíssimos e passávamos as férias de verão grudados. De volta à vida real em São Paulo, nos encontrávamos de quando em quando nas casas alheias. Mas conheço umas histórias escabrosas, de verdadeiros joselitos-sem-noção que habitam a casa ao lado.

Alguns destes tipos foram habilmente retratados na telinha. Ou vai dizer que você nunca identificou nos arredores da sua casa um vizinho como os da lista que segue aí embaixo?

Mamie e Vicki Dubcek, as intrometidas
Mãe e filha alugavam o sótão para os amalucados aliens de "3rd Rock From the Sun". Adentravam a casa dos Solomon sem bater, tampouco com o menor pudor. A intimidade era tanta que Vicki acabou dando uns catos no Harry, o mais estranho dos inquilinos.

Cosmo Kramer, o dono da casa (alheia)
Ele rouba as cenas de "Seinfeld" com suas maneiras, digamos, pouco convencionais. Pense numa má idéia. Kramer já a teve. E fez questão de tentar colocá-la em prática. O moço já usou o liquidificador de Jerry para fazer cascalho e transformou a cozinha do pobre numa fábrica de lingüiças. Precisa mais?

Ned Flanders, o religioso
Flanders divide a cerca com Homer. E embora qualquer pessoa normal reclamaria de ser vizinho de uma criatura tosca como o pai da família Simpson, Ned consegue ser tão chato que se torna o vizinho mala da história. Isso sem contar as lições de moral religiosas que ele sempre tenta pregar.

Sra. Kravitz, a fofoqueira
Nada melhor para uma mexeriqueira feito a senhora acima do que morar ao lado de uma casa onde coisas para lá de estranhas acontecem. A dona era vizinha de Samantha, d’"A Feiticeira", e vivia de olho por entre as cortinas da janela para ver o que se passava do outro lado do gramado. Sorte de Sam que ninguém acreditava nas fofocas da coitada.

Harriet, a soma de todos os males
Lembrar dos saudosos programas oitentistas é sempre um prazer, mas a simples menção a essa garotinha ruiva que ia além das definições do pentelhismo me põe doida. Acho que nunca vi ninguém ser mais inconveniente do que Harriet, a vizinha da família de "Super Vicki". Pensando bem, nada naquela série batia muito bem – embora eu não perdesse um episódio. Quando a garota-robô tinha uma pane era assustador. Mas não pior do que ver a chata da Harriet, suas sardas e aquela franja estúpida.

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É ou não é uma maleta
sem-alça?


Clara McFly às 05:59 PM


Quem quer passear de carro?

Mais um ditado no qual eu levo fé: "entre um burro e um canalha, não passa o fio de uma navalha". Fico imaginando, assim, quem são os burros e/ou canalhas responsáveis por meter minha cidade em um centenário caos de trânsito. Adoro dirigir, sabem? Mas ando perdendo o gosto pela atividade rapidinho, rapidinho.

Meu primeiro carro familiar foi uma Variant azul-piscina. Os bancos plásticos grudavam na perna em dias de calor e gelavam a alma em dias de frio. Mesmo assim, eu amava passear naquele carrinho. Depois veio o Fiat 147 marrom-metálico (à álcool, que precisava ser ligado com meia hora de antecedência), a Brasília café-com-leite, a Caravan gigante, o Monza "da firma" e tantos outros. Cada automóvel desses foi amado por nós, porque nos levou para aventuras maneiras.

Quando fiz 18 anos e um dia, corri para a auto-escola. Quatro aulas e um teste depois – meu irmão me ensinou a dirigir muito antes disso, no bairro, como toda família irresponsável fazia – estava eu com a carteira na mão. E tudo relacionado a veículos automores virou uma diversão sem fim.

Viajei com as amigas e sozinha, percorri a região toda do ABC Paulista com o braço na janela e som ligado, tomei gosto por mostrar como era competente na baliza. Então, comecei a trabalhar. Em uma empresa localizada a 33 km de casa. Em outro município. Em São Paulo! O trajeto, camaradas, consumia 1h30 pela manhã e quase 2 horas no fim da tarde.

De tanto estresse, decidi abandonar São Bernardo e mudar para a capital. O problema do trânsito estava, por aqueles tempos, resolvido – e mesmo hoje já não fico assim tanto tempo atrás do volante para ir e vir da labuta. Mas esse mal nunca acaba para quem, como eu, não consegue ignorar o que se passa do lado de fora do carango. Dirigir não é divertido. Faz tempo.

O problema é que milhares de pessoas, todo dia, usam a alternativa do carro. Sinceramente? Eu adoraria apanhar sempre trem ou metrô e me movimentar por aí sem poluir o ar, sem ter que procurar estacionamento, sem ser xingada por gente que nem me conhece. Eu também não os conheço e não deveria me importar com a falta de educação… Mas magôo que é uma beleza.

Longe de mim fazer aqui apologia "ao estrangeiro", mas vejam se dá para engolir. A miúda Nova York tem 471 km de linhas de metrô. Londres tem 415 km, 12 ramais e 3.983 trens. Paris inaugurou sua primeira linha em 1900 – e olha que lá, hoje, vivem 2 milhões de pessoas apenas. Em São Paulo vivem cerca de 15 milhões de abnegados. E nós temos ridículos 60 km de trilhos…

Os senhores que resolvem para onde vai o dinheiro dos impostos, suponho, circulam por aí de helicóptero ou a bordo de carrões com telefone, internet e uísque à vontade. Não ligam se o cidadão precisa acordar com três horas de antecedência para amargar ruas abarrotadas de carros – ou, o que é muito pior, ônibus mamulengos e também superlotados. Ou não notam que algo precisa começar a ser feito bem rápido, senão, daqui a pouco, ninguém mais conseguirá atravessar a cidade e voltar para casa em um único dia.

A solução está longe de chegar para a circulação nesse reduto, parece. Nós podíamos deixar de ser tão apegados aos automóveis e exigir, nem que fosse na base da passeata, mais transporte coletivo rápido, limpo e ordeiro, não? Quem sabe, assim, os homens lá da limusine com uísque deixarão de se fazer de burros. E de ser tão canalhas.

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Londres tem mais estações de metrô que
dias no ano... A gente não merece o mesmo?
Fla Wonka às 02:52 PM


Um achado imperdível

De tempos em tempos chegam notícias sobre itens importantes sendo leiloados em Nova York ou Londres. Relíquias como músicas escritas de próprio punho por John Lennon, um quadro mais obscuro de Picasso, um objeto pessoal de John F. Kennedy, etc. Sempre me perguntei onde estavam guardados tais itens até chegarem aos olhos públicos, e qual foi a trajetória que fizeram desde o falecimento de seus donos originais. Agora eu tenho como saber.

Minha paixão pela História (gosto assim, com H maiúsculo) já me fez escrever alguns textos aqui no Garotas – como este, por exemplo. E, felizmente, hoje eu posso contar com uma aliada forte: a televisão. Claro que não me refiro aos canais nacionais, que se empenham em esquecer o passado e estragar o futuro. Mas a tevê por assinatura consegue me fazer grudar os olhos em verdadeiras aulas não apenas de História, mas de como ela pode ser interessante e divertida.

Um dos meus programas favoritos – e que explica aquela dúvida sobre as relíquias – chama-se “Achados e Perdidos da História” e é exibido pelo The History Channel. Se você possui o canal em seu plano de TV a cabo e pensa que nada de útil sairá daquela caixa de fazer louco que é o seu aparelho televisivo, não perca esse achado.

O programa pode passar despercebido e dura apenas 30 minutos. Cada curto bloco apresenta a historinha escondida por trás de objetos do nosso passado. O bacana é que tais objetos podem ser de suma importância ao curso da Humanidade ou podem ser algo aparentemente inútil que ninguém jamais ouviu falar. Em ambos os casos, a narrativa interessante, os fatos curiosos, as imagens da época, os depoimentos de especialistas e, claro, a exibição do próprio, fazem os “causos” deliciosos. No final do bloco, um mapa aparece mostrando a exata localização atual do item.

Um exemplo? Os óculos de Buddy Holly. No início da carreira, Buddy odiava ter de usar lentes corretivas. Ele se apresentou várias vezes sem elas, e se deu mal: além de não enxergar a banda e a platéia, não podia se mexer muito no palco sem tropeçar em cabos e amplificadores. Decidiu ceder aos óculos, que acabaram virando marca registrada de seu sucesso. O par mais famoso foi trazido do México pelo próprio oftalmologista do astro.

O músico, de 22 anos, estava usando o presente quando o avião em que viajava caiu. Aquele 3 de fevereiro de 1959 ficou conhecido como “o dia em que a música morreu”, pois além de Buddy, faleceram Ritchie Valens (cantor de “La Bamba”), aos 17 anos, e The Big Bopper, aos 28. Os três eram a sensação da música na época e iriam fazer uma turnê juntos.

Quando o corpo de Buddy foi resgatado, ele estava sem os óculos. Anos se passaram e, um belo dia, um fazendeiro local achou o objeto quebrado e arranhado. O homem reconheceu os óculos na hora e eles foram entregues à viúva do músico que, por sua vez, doou o simbólico item ao Buddy Holly Center, em Lubbock, Texas, onde pode ser visto por fãs até hoje.

E cada um dos casos é mais interessante que o outro. Já vi onde está o dedo de Galileu Galilei (isso mesmo, há um dedo preservado do grande cientista), o elefante Jumbo, o Cadillac roxo de Elvis Presley, o cérebro de Albert Einstein, o mais velho par de jeans, a cabine da tripulação da Challenger, o diário de Malcom X (com o buraco da bala que o matou)... A lista, extensa, é música para os ouvidos de nerds curiosos como eu.

O que o programa ainda não explicou é onde estão as canetas Bic e os guarda-chuvas perdidos ao longo da História... Mas a produção está perdoada.

Vivi Griswold às 10:36 AM

terça-feira, 13 de julho de 2004

Parabéns para menores

Tudo era milimetricamente planejado por mães, tias e avós conscienciosas de que só se faz X anos uma vez (troque X por todas as idades que você completou na vida). Os preparativos começavam dias, às vezes semanas antes – especialmente no meu tempo, quando “buffet infantil” era coisa de rico. Os doces cozinhando na panela e a carne louca para os sanduichinhos só podiam significar uma coisa: cheiro de aniversário no ar!

Eu tive uma relação de amor e ódio com festinhas infantis ao longo da minha (até agora breve) vida. Nos primórdios da infância, eu adorava – as minhas e as dos outros. Aniversário significava, caso fosse meu ou do meu irmão, uma semana de agito em casa: minha mãe preparava tudo com esmero, com a valiosa ajuda das tias.

Minha função principal era passar os brigadeiros no granulado. A mãe me deixava comer uma certa cota, que obviamente terminava antes da minha vontade. A solução era aplacar a voraz Catarina, então uma lombriga-bebê ensinada, com alguns docinhos extras, quando ninguém estava olhando.

Eu ganhava uma roupa especial para usar no dia; esperava os convidados toda faceira e, gradualmente, depositava os presentes ganhos sobre a cama, com o cuidado de enfiar os embrulhos desfeitos debaixo dela – segundo minha avó, isso garantiria mais presentes no ano seguinte.

Depois, tudo o que eu tinha a fazer era armar correrias e brincadeiras na garagem e na rua, comer um bocado e, finalmente, permanecer imóvel e constrangida atrás do bolo para o tão esperado “Parabéns a Você”, com o opcional do “Com-quem-será-que-a-Clarissa-vai-casar” engatado na seqüência.

Ao fim e ao cabo, as vizinhas, tias e convidadas não saíam sem um popular “pratinho”, preparado nos recipientes de papelão onde fora servido o bolo e contendo uma fatia da iguaria cercada por beijinhos e brigadeiros – tudo coberto com um guardanapo, que invariavelmente grudava na cobertura do bolo e a arrancava ao ser retirado, na degustação do dia seguinte.

Quando cresci mais um pouco, passei a achar aniversários infantis – agora dos primos mais novos – um saco e um mico. Um saco porque qualquer aborrecente odeia se ver enredado numa comemoração que não é da sua turma; um mico porque sempre apareciam, do nada, aquelas ameaçadoras tias que a gente só vê duas vezes por ano, apertando as bochechas alheias e falando “nossa, como você cresceu, está uma moça!”. Humpf.

Passada a fase da chatice hormonal e com Catarina cada vez maior, voltei a curtir festas de crianças. Isso porque aprendi a me divertir com as manifestações tipicamente suburbanas que pipocam nesses locais e, acima de tudo, percebi que tais comemorações são verdadeiras minas de ouro para criaturas esfomeadas como eu.

Afinal, onde mais eu teria a chance, com 26 primaveras completas, de comer mini-pães recheados com carne desfiada, docinhos enrolados como manda o figurino e coxinhas ou risoles fritos há umas duas décadas e requentados no microondas, ao som de crianças sapateando sobre brigadeiros caídos e gritando ensandecidamente, interrompido por eventuais balões estourando e petizes abrindo o berreiro por isso?

Ah! Nada como uma boa festinha infantil.

Clara McFly às 07:18 PM


De cartola e bengala, ele vai voltar!

Foi dada a partida para o remake da década. Conforme avisou a assessoria de imprensa da Warner Brothers, a nova versão de "A Fantástica Fábrica de Chocolate" já está em produção – tendo o talentoso, criativo e malucão Tim Burton no comando do projeto. Desde que o Garotas entrou no ar, muitos me perguntam coisas sobre o filme e, mais recentemente, sobre o que eu acho de refilmarem o clássico. Hoje, eu digo.

Não é segredo para ninguém: "A Fantástica Fábrica de Chocolate" é meu filme predileto no mundo todo. Pode não ser a melhor comédia, o melhor infantil ou coisa assim, mas é o que mais me traz boas lembranças – e isso importa na hora de escolher sua produção preferida. Por isso mesmo, assim que soube da intenção de uns e outros em reeditar o dito-cujo, gelei. Torci o nariz e enfiei na cabeça que isso não ia acabar bem. Sou a favor de deixar o que é bom descansar em paz, sabem?

Mas, com a notícia ganhando vulto, mudei radicalmente de idéia. Inventar é bom, reiventar pode ser melhor ainda! Afinal de contas, essa é uma das premissas do próprio Sr. Willy Wonka, o gênio máximo. Meu drama interno era: como conseguirão os produtores resgatar tanta magia e atores que sejam, no mínimo, tão bons quanto os antigos? Como achar alguém no mesmo patamar doce-pirado-de-carteirinha como Gene Wilder??

Pois acharam. Acharam tudo. Tim Burton sabe encontrar o ponto certo entre fantasia, delírio e realidade crua. Veja o currículo: "Peixe Grande", "A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça", "O Estranho Mundo de Jack", "Marte Ataca", "Edward Mãos de Tesoura" e dezenas de outros. Lá no mundo da imaginação, ele é um visitante consagrado e, suponho, costumaz.

A notícia de que Tim seria o comandante-em-chefe me animou bastante. Faltava ter certeza sobre alguns outros pontos. O dono da fábrica, por exemplo. Nicholas Cage, o primeiro cogitado, seria um Wonka deprimente – me arrepiou a espinha. O segundo nome que apareceu, porém, acendeu uma luz aqui: Johnny Depp era (é) a escolha mais que perfeita.

Desde o romancezinho "Benny e Joon" (1993), eu sou fã desse moço. Claro, já achava bom ator antes, mas ali ele conquistou meu pequeno coração – principalmente quando, imitando Carlitos, faz a dança dos pãezinhos espetados nos garfos. Como Willy Wonka, Depp deverá render tão bem quanto o Mestre Wilder, pois é ator perfeito para fazer graça ou drama (e para misturar ambos) como o antecessor.

Também fiquei feliz em saber que o roteiro não seria uma continuação do original. O adorável livro de Roald Dahl será de novo a base da história. Portanto, as mesmas crianças maliciosas e mesquinhas estarão lá – como ver a fábrica sem contar com as ilustres e nojentas presenças de Augustus, Violet, Veruca e Mike Teevee? O Charlie, é claro, teria que comparecer. Afinal, é herdeiro daquele empreendimento cheio de homenzinhos verdes operários.

Para arrematar, foi acertado que a mãe do garotinho loiro e pobre de dar dó será interpretada pela fofa Helena Bohram Carter. É a mulher do diretor? É, não dá pra mentir. Mas se é para colocar seus parentes no elenco, que eles tenham a graça e a competência dessa moça. Os diretores de novela da Globo fazem isso o tempo todo, oras. E olha que suas garotas não são lá uma Helena...

Agora que sei disso tudo, durmo imaginando o que Burton fará com os cenários e os diálogos. Terá um rio de chocolate? Se tiver, ele parecerá mais com o doce em si ou com aquela água suja usada no filme de 1971? E vai haver a minha fala predileta? Tomara que o Sr. Wonka diga, mais uma vez, que "se o bom deus quisesse que andássemos, não teria inventado os patins de roda".

Mal posso esperar. De novo.

Johnny.jpg
Ele está cada dia mais anormal...
Um perfeito Wonka, hã?
Fla Wonka às 02:39 PM


Arrastão no passado

Engenhocas que possibilitam viagens no tempo e no espaço não existem na vida que acontece fora das telas de cinema ou das páginas dos livros. Mas eu serei a última da raça humana a perder a esperança. Ainda tenho fé de um dia poder embarcar em uma cápsula e, entre todos aqueles vapores característicos, digitar uma data a ser revisitada. Em seguida, puf!, lá estou eu. E adivinhe só qual seria a minha primeira parada?

Quem respondeu “ah, os anos 80” ganhou um saco de Monstrinhos Crec! Ok, não ganhou, porque aquelas bolachinhas que já vinham “mordidas” pelos personagens não são mais fabricadas... Mas pense bem: se tivéssemos como voltar ao passado, poderíamos fazer compras em qualquer supermercado de 1984 e trazer a 2004 um estoque completo! Quer mais? Poderíamos, inclusive, abrir uma loja só de produtos saudosistas. Imagine o quanto ganharíamos de dinheiro às custas do revival...

Mas a minha vontade de fazer uso dos serviços de uma máquina do tempo é bem menos mercadológica que isso. Outro dia, por exemplo, enfiei na minha cabeça que queria resgatar a minha Menina Flor – para quem não lembra, uma boneca de pano lançada com a novela “Mandala” que se transformava em um vaso florido. Liguei para a minha mãe, que ligou para minha avó, que me disse ter doado a preciosidade junto a outros brinquedos esquecidos no quartinho da bagunça.

O problema é que a gente não dá valor a itens novos. Naquela época, a Biloca (esse era o nome dela) era apenas mais uma bonequinha da moda. Eu, no auge dos meus 11 anos, nunca poderia imaginar que um dia aquele pedaço de pano fofo ganharia o status de cult. E que, com 27, toparia inclusive ser cobaia de uma viagem no tempo só para resgatá-la do passado.

Partindo da premissa, a Menina Flor seria apenas o começo de um saudável e divertido arrastão no passado. Além de adquirir alguns Pogobol(s) novinhos em folha e outros artigos deixados de lado pela indústria de brinquedos, daria preferência também a itens do coração.

Olhando em volta nas minhas coisas, hoje, só vejo o Hirohito, que está comigo já há mais de 20 anos. Ele é a única testemunha viva aqui – tá bom, não tão viva assim – da época em que ia na escolinha para depois brincar na rua. Da época em que eu era cheia de relíquias e nem sabia.

Um dos primeiros lugares na minha lista seria o armário do meu tio. Quando eu era criança, aquele retângulo de madeira e vidro já guardava itens que faziam meus olhinhos brilharem. Imagine então agora! Nossa, se eu pudesse voltar até lá, traria uma mala só de gibi. Sem contar que ele tinha a revistinha do Cebolinha número 1. E de pensar que eu já a segurei nas minhas mãos... Não sei que fim levou a relíquia, mas ela teria um fim certo se eu pudesse voltar: minha estante!

Passaria ainda em Piracicaba – ei, dá para viajar no tempo e no espaço, certo? – e traria muita coisa do armário de brinquedo dos meus primos. Todos os Playmobil(s), os Comandos em Ação, os Transformers e outras coisinhas de meninos que adoraria ter. Pegaria também o Atari com todos os 50 cartuchos que colecionávamos.

Isso sem falar no monte de fitas VHS que gravaria... Capítulos da “Armação Ilimitada”, “TV Pirata”, programas do Sílvio Santos, Trapalhões, Bambalalão, Enigma...

Pronto. Vou aproveitar o tempo que tenho enquanto a tal engenhoca não é desenvolvida e arrumar um quarto especialmente capacitado para agüentar tanta quinquilharia empoeirada e preciosa.

E você, o que resgataria do passado?

Vivi Griswold às 10:46 AM

segunda-feira, 12 de julho de 2004

Se não fosse, não era

Quando minha mãe foi me matricular na primeira série, as diretoras da escola (que então não ocupava mais que um sobradinho mínimo e depois virou uma dupla de prédios de meio quarteirão) fizeram um teste comigo. Ao ver que eu já sabia ler e escrever, perguntaram à minha sapiente progenitora se ela não estaria interessada em me deixar pular direto para a segunda série, ao que ela respondeu... “não”.

Caso dona Sandra tivesse dito “sim”, minha vida seria com-ple-ta-men-te diferente. Curioso como apenas uma palavrinha teria mudado tudo. A começar pelas amizades que fiz na escola, com meninos e meninas da minha própria classe. Minha melhor amiga não seria a Roberta, uma doidivanas do bem que me fez trocar a timidez por aulas de teatro. Eu não conheceria a Carla e não seria madrinha do bebê mais fofo do mundo, o filho dela, que faz três anos hoje.

Eu não teria apresentado uma amiga da escola a um amigo da turma, já que a adiantadinha aqui não teria conhecido a moça; eles não teriam namorado e se casado este ano. E mais: eu terminaria o colégio um ano mais cedo; por conseguinte, entraria na faculdade antes também e talvez não estaria em tempo de estagiar no site de entretenimento/prêmios onde conheci Flá e Vivi.

Conseqüentemente, o Garotas não existiria como é hoje. Talvez seria um site comandado por um monstro de duas cabeças, apenas. Ou a terceira seria outra garota, possivelmente nem sequer loira. Uau.

Tampouco eu estudaria com o Jarbas, minha paixão platônica-pero-no-mucho da adolescência. Assim, talvez eu tivesse começado a namorar o atual namorido antes e, como boa parte de namoricos iniciados em tenra juventude, talvez a coisa não fosse adiante – e eu não teria me casado com o moço, nem moraria nesta casa colorida deste condô muito louco da pesada.

Claro que muitas coisas poderiam ter acontecido por outros meios, mas não consigo imaginar minha vida sem os amigos que tenho, sem o Garotas, sem este namorido, sem esta casa construída à custa de muito suor, financiamento e lágrimas (ok, esse último é mentira. Risos, na verdade). Mas nada disso seria como é hoje se a mamãe tivesse trocado uma palavrinha de três letras por outra.

Portanto, cuidado com simples-palavrinhas-de-três-letras ditas por aí. Sua vida pode mudar por completo por causa delas. Mas você ainda vai ter sempre a bendita da imaginação para matar o tempo pensando como as coisas seriam num universo paralelo, onde você disse “não” quando poderia ter falado “sim” – ou vice-versa.

Clara McFly às 07:00 PM


A magia sobe o morro

Há meses estou adiando este texto porque queria vê-lo no ar acompanhado por uma foto. Bom, não achei a dita-cuja. Então acredito que é melhor contar, de qualquer maneira, sobre o sítio do meu pai. Foi – e ainda é – um antro de diversão para a família. Lá, vivemos uma realidade paralela. Que Sítio do Picapau Amarelo, que nada! Nosso rancho, esse sim, é coberto de magia.

Meu pai comprou aquele pedaço de terra no meio do nada em 1979, se não me engano. Junto com meus dois tios, irmãos dele, formou uma sociedade para adquirir o sítio – composto de seus dois morros, o açude com nascente d’água e… só. Era um descampado lunar, sem árvore alguma pra fazer sombra no verão. No inverno, em compensação, o frio se abatia sobra a região (próxima da cidadela de Piedade, no interior paulista). E daí parecia a Sibéria.

Eles cercaram a propriedade com arame-farpado, abriram uma estradinha e ergueram, com a ajuda do meu avô sabichão, uma casa. No cafofo, espaço para uma salona comunal, cozinha com fogão de lenha e três quartos. Um para cada família. Cada família tinha três filhos, em média. Imaginem o forrobodó quando todo mundo decidia rumar para o sítio no fim de semana…

Eu nem me abalava com o aperto e desconforto. Não ficava quase dentro de casa mesmo. A idéia era chegar no sítio sábado de madrugada (meu pai é um senhor que adora sair para viajar às 6h00), encontrar minha prima Cássia e partir para a arrumação das brincadeiras de casinha, castelo ou coisa assim. Era só saquear a horta para buscar "comidinhas" e afanar objetos da cozinha, para aborrecimento das tias e da mamãe. Perdemos muito talher no mato? Sim, não vou mentir.

Os meninos da família, por outro lado, contavam com um campinho de futebol para sua diversão. No começo, era tudo terra. Daí minha paciente mãe achou de comprar mudas de grama e, em alguns anos, toda a "área social" em volta da casa virou um grande tapete verde. O campo também, mas nem isso evitou as caneladas dos garotos – ou a fita do meu irmão, o cara que é tão bom de bola quanto de cavar falta mentirosa.

Quando acabava a brincadeira de casinha ou o jogo deles, a gente era liberado para pular no lago. Na época, eu não ligava para a possibilidade de pegar 124 doenças diferentes por nadar naquele açude barrento onde as vacas bebiam água. Argh! Anda bem que meu corpinho era protegido por algum anjo da guarda curandeiro.

A boa alma, porém, não atuava no setor dos acidentes. Por exemplo: o anjo não me fez desviar das pedras que meu irmão e meu primo atiravam na brincadeira da guerriha. A regra era usar só torrões de barro do campo recém-arado, mas os dois eram nazistas e ignoravam o regulamento. Assim, ganhei dez roxos na perna e um na testa. Também não vi a cor do anjinho ao brincar de esconde-esconde e, distraída, sentar em um formigueiro. Droga… além da dor, teve a vergonha…

Lá no sítio eu fui picada duas vezes por abelhas, torci o pé fazendo um barranco de tobogã, luchei um dedo ao prendê-lo no arreio do cavalo. O mesmo eqüino bacana também me derrubou na estrada e me fez entortar um osso da bacia. Pisei numa cobra, fui mordida por um ganso, cortei a testa na cabana do milharal. Êita tempo bom! Fez-me imune a muitos tipos de dor!

Também ganhei saúde por comer ovo de galinha caipira, frango sem hormônio, frutas, legumes e verduras sem agrotóxicos. No fim de semana que passou, provei tudo isso de novo, e mais o delicioso e quentinho chá de cidreira colhido na hora.

Hoje em dia, o sítio está mudado. Cada família já tem sua casa – e eu até tenho um quarto! O gramado se expandiu ainda mais, surgiu uma piscina comunitária e um quiosque com churrasqueira. Meu pai ergueu ainda um barracão para envelhecer pinga e outro para trabalhar com seus projetos mirabolantes de marcenaria. E abriu espaço para minha mãe e minha irmã formarem seu ateliê de produção de velas, mosaicos e afins.

No verão, o sol quente chama para brincar com a sobrinhada debaixo dos pinheiros gigantes. No inverno, a lareira, o cobertor e a tv a cabo são mais atraentes que o Brad Pitt sem camisa.

A magia? Tá nisso tudo: nas lembranças engraçadas, nas fofocas trocadas com as tias entre um bolo de fubá e outro, nas possibilidades que o sítio dá de trabalhar com a mente e com as mãos. Espero que, mesmo sem a foto, vocês tenham conseguido ver o que eu tanto queria mostrar.

Fla Wonka às 02:50 PM


73 a menos

Começo pedindo desculpas ao leitor pelo texto da vez. Normalmente buscamos expor no Garotas temas leves, divertidos e saudosos para despertarem sensações boas em quem se dá ao trabalho de entrar aqui a cada dia – mas hoje não. Hoje o artigo não foi baseado em sentimentos nobres, até porque a vida é feita de amor e fúria. E eu quero falar sobre o segundo item.

Mais um fim-de-semana se passou. Um fim-de-semana em plenas férias de julho, com a garotada puxando a barra da saia da mãe e agarrando a perna do pai para tentar garantir um dia de passeios e aventuras. Pelo menos aqui em São Paulo, terra gelada nessa época do ano e sem muita opção para divertir as crianças ao ar livre, uma saída é certa: o zoológico. Aposto que muitos pimpolhos tiveram destino certo nos últimos sábado e domingo.

E não é para menos. O zoológico da cidade tem a fama de ser um dos melhores do mundo. Fundado em 1958, ele está construído em uma área que beira os 830 mil metros quadrados de Mata Atlântica. Os visitantes podem conhecer os animais de pertinho – cerca de 3.200 deles –, caminhar pelos bosques, fazer piqueniques na sombra das árvores. Aliás, estima-se que já passaram por lá 70 milhões de pessoas. Uma delas fui eu.

A primeira vez que eu estive no complexo foi uma experiência incrível. Como devoradora voraz da enciclopédia “Os Bichos”, livrões pertencentes à estante da casa da minha avó, fiquei absolutamente maravilhada em presenciar tudo ao vivo. Porque uma coisa é ver a foto ou a imagem de um rinoceronte. Outra coisa é ver o rinoceronte de perto – tão de perto que até o cheiro dele chega até você.

Lembro-me, porém, de ter me assustado com o tamanho de algumas jaulas. Dava para reparar que, há duas décadas, a consciência ecológica do zôo não era das melhores. O lobo-guará, por exemplo, morava em um local escuro do tamanho de uma caixa de margarina. Isso me marcou porque eu sempre tive medo de lobos (“Chapeuzinho Vermelho”, lembra?) e, olhando para aquele pobre bichinho preso, o medo foi embora. Não entendia nadica de direito dos animais mas, de alguma forma, reparei que algo estava errado.

Voltei ao zoológico algumas vezes depois. Deu para reparar nas melhorias visíveis que o parque adotou. Os grandes felinos, leões e tigres, moram em um espaço enorme que até dificulta a visualização por parte das crianças, que permanecem o tempo todo berrando “cadê ele, mãe?”. Os macaco-pregos, primeiros habitantes que avistamos após a bilheteria, balançam felizes entre árvores, casas de palha e um lago bem grande. Tudo muito bonito e correto. Certo?

Hmmm, não. Desculpe, mas eu não gosto de zoológico. Até entendo a importância educacional de um parque daqueles – despertar (espero) o respeito aos animais nas crianças da cidade grande, sendo que muitas delas não viram sequer uma galinha solta. E sei que muitos daqueles animais nasceram e cresceram em cativeiro, e são até contentes vivendo assim. Com tudo isso em mente, ainda torço o nariz para o passeio por convicções particulares.

O “torcer o nariz” passou a “vontade de torcer pescoços” quando começaram a chegar notícias de mortes misteriosas dos animais em um curto espaço de tempo. O número chegou a vergonhosos 73. Setenta e três bichos tiveram um fim trágico em poucas semanas, muito provavelmente por envenenamento, mais provavelmente ainda por pessoas que possuem acesso a eles. Entre os coitadinhos, quatro dromedários, quatro micos-leões-dourados, três antas, três chimpanzés, um orangotango, um bisão e um elefante. Café pequeno.

Além do veredicto sobre as mortes estar longe ser finalizado, os culpados – se aparecerem – pegarão, no máximo, um ano de detenção em regime aberto. Isso mesmo, o caso é caracterizado como maus-tratos, um crime levezinho segundo nossa legislação.

Eu não vou mais ao zoológico. E só mudarei de opinião no dia em que arrumarem por lá uma jaula para o bicho homem, o mais irracional de todos.

Vivi Griswold às 10:24 AM

quinta-feira, 8 de julho de 2004

Pula a fogueira, iaiá

Gozado como nossos gostos vão mudando conforme o tempo, implacável, passa. Aos sete anos, você poderia me ver colecionando figurinhas do Menudo e doida para ter um conjunto de short e camiseta verde-abacate com lilás. Aos doze, eu dançava ao som de Technotronic e aguardava os acordes iniciais de “Cinema”, do Ice MC, para gravar da Transamérica – aliás, eu ouvia a Transamérica. Aos dezessete, não perdia um Rock’n’Roll Party no Resumo da Ópera e gastava toda minha consumação (que não era pouca) em tequila.

Eu poderia passar a noite inteira aqui, listando coisas de toda sorte sobre as quais mudei de opinião conforme a folhinha ia perdendo papel. Boa parte delas passei a gostar ou a desgostar por razões que só Deus sabe – e ainda não me revelou. Mas vou me ater a uma que sei exatamente porque não gostava e porque passei a adorar: os folguedos juninos!

Quando eu era pequena, simplesmente odiava a aproximação dos dias de Antônio, Pedro e João. O motivo é bem simples. Minha mãe, mal estourava a primeira biribinha, achava por bem me levar a todos os arraiás possíveis com aquele traje – que, aos meus olhos da época, não podia ser mais estúpido: uma calçola rendada por baixo e um vestido muito, muito rodado e armado por cima.

Como eu não era nada chegada a essas firulas de menina, tinha paúra do vestidão (que ainda por cima cutucava), do chapéu (que não ficava atrás no quesito “estorvo no cocoruto”) e, acima de tudo, do momento em que minha mãe se aproximava com o estojo de maquiagem.

Era o suplício final: hora de fazer duas bolotas de rouge nas maçãs do rosto e, depois, tentar resistir à marcação das pintinhas com o lápis de olho, que quase varavam a minha bochecha. Não sei porque minha mãe calcava tanto o danado. Para “pegar”, acho.

Quando cresci e me libertei das obrigações de ser uma caipirinha, aí pude dar o devido valor à festança do meio de ano. E percebi como são divertidas as tradições juninas – bem mais, aliás, que as do Carnaval. As razões são múltiplas e achei melhor listá-las. Passe a mão no vinho quente e no pinhão e siga a quadrilha!

As brincadeiras
Em que outro evento você pode mandar prender um amigo mala por módicos centavos – ou, no máximo, um reá? Em que outra festa é possível mandar torpedos – verdadeiros ou só para causar – para qualquer pessoa do local, sem pudor algum? E, acima de tudo, onde mais podemos nos esmerar tentando pescar peixinhos de papelão ou plástico, numa tina cheia de água ou areia, em troca de um prêmio tão doce como uma caixa de biribas?

Os quitutes e bebericagens
Nenhuma outra época do ano é tão generosa para com Catarina, minha lombriga ensinada. Que Natal, que nada! Aquele monte de comida doce com salgada não desce (chester com abacaxi, inclusive, é contra minha religião). Já pé-de-moleque, bolo de fubá, paçoca e pinhão podiam estar no menu o ano todo. Além disso, ainda tem a manifestação da minha porção heleninha-roitmann diante de qualquer caneca de vinho quente.

O som e a dança
Outro dia, ao forçar a cachola para listar o maior número possível de cantigas juninas, percebi que são todas animadas e bonitinhas. Entre versinhos como “o céu fica todo iluminado, fica todo estrelado, pintadinho de balão” e “com a filha de João/ Antônio ia se casar, mas Pedro fugiu com a noiva/ na hora de ir pro altar” me divirto imensamente. Só não mais que na hora da quadrilha, única dança de dupla que adoro praticar.
O bom é que, depois de participar de tantas na escola, sabemos todos os movimentos: cavalheiro cumprimenta dama, dama cumprimenta cavalheiro, túnel e aquela confusão generalizada por causa de uma ponte e uma cobra...

Além disso tudo, agora também acho o máximo topar com caipirinhas e caipirinhos, com aquele bigode de rolha queimada e roupas típicas improvisadas pela mãe. Se eles gostam? Sabe-se lá. Mas eu já superei o trauma – e um dia eles também vão superar.

Clara McFly às 08:00 PM


Injeção de perfeito lirismo

Muita gente considera "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" não o melhor álbum lançado pelos Beatles, mas o mais-mais de todos os tempos, de todas as bandas. Não é o meu caso. Mas o problema é que, em se tratando dos moços, como é possível escolher o melhor? Bom, "Sgt. Pepper’s" pode não ser meu álbum predileto do grupo, mas pensando em letras de música, acredito que ali estão algumas das maiores pérolas dos quatro fofuxos de Liverpool.

Adoro "Please, Please Me", porque, afinal, foi o primeiro. Gosto demais de "Let It Be" e "Rubber Soul", mas talvez cante muito mais as composições de "A Hard Day’s Night". Ah! E ainda preciso juntar dinheiro e comprar "Revolver", onde também constam algumas das canções mais queridas por mim. Já o "Sgt. Peppers" repousa lá na estante, discreto e marcante ao mesmo tempo. E é sempre acessado quando decido prestar atenção em uma letra sensacional.

Dizem que o álbum foi concebido sob efeito de muitas substâncias ilícitas. Os Beatles já eram consagrados, não precisavam fazer muitos shows para garotinhas gritalhonas e podiam, afinal, desenvolver melhor suas canções. Se tinha cigarrinho do capeta ou pilulinhas caleidoscópicas na jogada, eu não sei (mas descofio…). O certo é: a inspiração das composições é inegável.

Estas cinco mostram um pouco do que o disco é capaz. Concentrando a mente bem forte, dá para ouvir cada uma tocado aqui no ouvido… e no coração.

With a Little Help From My Friends
Nem precisa explicar. Fala sobre os amigos, e de como eles são importantes para a gente não se sentir sozinho no mundo. Além da letra singela e que dá uma alegria danada ao fazer pensar nos camaradas todos, ainda combinou perfeitamente com a voz meio tonta do Ringo. Com jeito de conversa entre compadres, é uma das mais doces músicas dos Fab Four.

Lucy in the Sky With Diamonds
Sempre disseram que era uma ode velada ao LSD. Os Beatles sempre negaram. Até umas semanas atrás, quando Paul finalmente declarou que a letra era, oh yes, uma alusão aos baratinhos alucionógenos. A letra faz viajar? Faz. Se tem ou não LSD envolvido, eu não quero saber. Gosto de imaginar barbaridades como flores de celofane e céu de marmelada.

Fixing a Hole
Enquanto acertam os defeitos de uma casa imaginária, eles pensam na vida, avaliam o que anda errado, questionam os acontecimentos. Lá no fundo, incentiva a ocupar a cabeça para não remoer bobagens demais. E, na história toda, parece que não importa quem está certo ou errado. É meu trecho preferido: "And it really doesn’t matter if I’m wrong, I’m right".

Getting Better
É uma tremenda ironia, na verdade. O homem é um maldito ser violento e psicótico que barbarizava a escola e batia na mulher. Mas ele diz que está melhorando. É um jeito bem interessante de falar sobre hipocrisia, não? A esposa do dito cujo também deve achar ótima essa melhora toda…

When I'm Sixty Four
Se eu tivesse que descrever minha situação desejada para os 64 anos, essa música seria usurpada inteiramente. Não, claro que não quero ficar careca, mas queria passear no domingo, praticar jardinagem e ceder meus joelhos aos netos Vera, Chuck e Dave (ou como quer que eles venham a chamar). Ah! E também queria um rádio sempre disponível para ouvir os Beatles entoando suas letras encantadoras pra mim. Isso seria ótimo.

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Desde a capa, tudo é divertido e desconcertante


Fla Wonka às 02:55 PM


Lambe-lambe

Se hoje eu for convidada a sair em uma fotografia, passo até perfume. Tento colocar um sorriso agradável no rosto, inclinar a cabeça ligeiramente para o lado direito – uma vez que o esquerdo é o meu melhor ângulo –, ajeitar os fios rebeldes do meu projeto de franja (aqueles que os produtos capilares chamam de frizz) e passar a mão rapidamente pela roupa, tirando qualquer amassado. Fora o quesito “cenário da imagem”, que precisa ser bacana. Se não for, pode facilmente anular toda as preocupações anteriores.

Por que tanta neura? Porque eu tenho um álbum de família. E só quem conta com tal artigo na estante sabe a importância de uma foto sair favorecida.

Não há nada pior do que olhar para cliques passados pensando “ai, meus sais, que cara é essa!”, “o que eu estava fazendo empoleirada no balanço” e “bem que eu podia ter trocado a camiseta manchada”. Pois uma imagem impressa no papel, por mais desbotada que ela seja, fica para a posteridade – e, claro, pode cair em mãos erradas. Momentos vão, mas fotografias ficam, lembre-se da propaganda da Kodak.

Tenho diversos exemplares totalmente comprometedores nesse álbum, o que acabou contando a meu favor. Quando preciso chantagear meus irmãos, por exemplo. Não há nada que irmãozinho não faça sob a ameaça de mostrar a foto dele vestido de coelhinho da páscoa para a namorada. Ou tornar pública a foto da irmãzinha bebê, trajando um maiô da Mônica cinco números menor. Isso sim é “super trunfo”.

Mas não apenas em fotos-mico os cuidados com a imagem são esquecidos. Parece que o pessoal do passado gostava tanto de tirar fotografias que qualquer oportunidade para tal já valia um sorriso e uma pose.

Digo isso vendo algumas fotos guardadas que eu simplesmente não entendo. E pergunto para minha mãe: “por que alguém se importou em apertar o botão da máquina nesta hora?”. Ela nunca sabe responder. A única coisa que sabemos é que hoje temos registros de familiares com lenço na cabeça estendendo roupa. Juro. A imagem está aí para provar, mas vou poupar minha tia.

Até entendo aquela antiga mania de empilhar latas de leite em pó como fundo para a criança, tão comum na geração anterior à minha. Mas clicar uma parenta cheia de bóbi na cabeça, com o olho semi-aberto e boca escancarada, por favor (novamente, situação real e anônima).

Outra evidência muito encontrada no álbum da minha família era a noção nula de proporções. Uma viagem dos meus avós a Vila Velha ilustra perfeitamente o problema. Dizem que são eles à sombra da tal taça de pedra, mas poderia ser qualquer casal – uma vez que só dá para ver duas formigas com cabelos e roupas coloridas. Isso, claro, quando não se cortava uma pessoa ao meio, ou se esquecia de incluir pés e cabeças no quadro (enquanto céus e gramados aparecem em fartura).

E os cenários... São um caso à parte. Até hoje eu não entendo o por quê de se bater uma foto dos netos reunidos tendo como pano de fundo a lavadora de roupas (pior que nessa eu me incluo). Ou mostrar a primeira laranja colhida na safra de 1978 de frente à parede mais mofada da casa do sítio. Ou exibir o novo bebê da família diante das fraldas penduradas no varal.

Essa gente tinha um grande senso de humor – e uma pequena vontade de sair bem na foto.

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Meus avós, eu, a lavanderia e a gaiola
Vivi Griswold às 10:44 AM

quarta-feira, 7 de julho de 2004

Lavoisier, um visionário

Já dizia Lavoisier que nada se cria, tudo se transforma. E olha que a visão do homem ia além da biologia: basta ligar a TV e ver as intermináveis franquias de “CSI”, as novelas das oito e os Mighty Morphin Power Rangers, dentre outras atrações mais recicláveis que formação de boy band. Mas o pior é que a lei do “vamos fazer sempre igual” chegou também, e faz tempo, aos intervalos comerciais.

As propagandas parecem seguir uma mesma fórmula, salvo raras e honrosas exceções, dependendo do produto que empurram para nós. Acho que os publicitários se reúnem numa sala, jogam conversa fora, tomam umas bebidinhas e depois consultam um volume secreto chamado Grande Livro de Receitas de Reclames (assim intitulado porque as fórmulas já estão lá desde que propaganda chamava “reclame”).

E o conteúdo da tal brochura deve ser o seguinte, de acordo com cada verbete:

Sabão em pó
Apenas mulheres casadas lavam roupa. De preferência, aliás, só as que têm filhos. E elas só descobrem as maravilhas deste ou daquele produto depois que seu pimpolho, repentinamente, decidiu rolar na lama ou esmagar um sorvete contra o próprio peito.

Margarina
Aparentemente, pessoas que moram sozinhas não comem margarina, nem consomem o ingrediente em bolos, refogados e molhos. O potinho só existe na casa de famílias que acordam sorrindo e tomam café junto todas as manhãs.

Operadora de telefonia
Aqui, o segredo é martelar o maldito número da empresa nos ouvidos incautos – não importa como. Pode ser através de uma atriz bonitona (com o opcional de uma espécie de “mini-me” acompanhando), um super-herói meio ridículo ou muitos cartazes berrantes.

Loja de móveis
Pegue um personagem ou personalidade pentelha. Faça-o anunciar a plenos pulmões as 472 prestações em que o móvel pode ser pago. Corte para o móvel em si, disposto num ambiente de gosto duvidoso. Feche com o slogan da loja e voilà!

Perfume importado
Essa é a receita mais bizarra. Todas as outras, embora repetitivas, fazem sentido e são claramente baseadas em pesquisas de mercado (muito mais mulheres casadas que solteiras lavam roupa, por exemplo; daí os comerciais serem dirigidos às “esposas”).

As propagandas do tal item, no entanto, só podem ser dirigidas a alguém que perdeu muito tutano. Afinal, não juntam trá com lá. Começam com imagens desconexas, como um homem andando pelado numa casa muito moderna ou uma mulher emergindo da água, feito uma Garota do Fantástico.

As imagens, impecavelmente fotografadas, continuam seguindo: o homem passa por um monte de troféus ou um carrão; a mulher rola entre panos esvoaçantes – ambos com uma cara bem blasé. Até então, nada de perfume. Só na última cena aparece o frasco. E uma voz sussurrante diz o nome do dito-cujo, carregada de sotaque – francês, inglês ou de qualquer outra natureza, dependendo da procedência do produto.

Acho que prefiro as donas de casa de aliança, viu? Pelo menos, elas existem.

sensi-advale.jpg
O slogan desse é algo como “sinto, logo existo”. Ainda bem que não usaram a máxima original...
Clara McFly às 09:08 PM


Sempre a mesma sabatina

Dia de prova, na escola, era uma chatice. Quer dizer: eu adorava as provas de história e geografia, porque nesse setor me sinto em casa até hoje. Mesmo assim, sabia logo cedo que, além de ficar nervosa esperando o teste chegar, ainda iria ouvir a mesma papagaiada de sempre antes do processo começar de fato. A molecada nunca decorou as regras de fazer prova, incrível.

Eram perguntas as mais bobas – e cujas respostas já sabíamos de cor. Claro, havia exceções. A professora podia estar boazinha demais naquele dia, por exemplo, então até valia a pena mesmo dar uma de joão-sem-braço e pedir para usar o livro como apoio.

Mas em geral não dava certo. Fico pensando, então, porque tantos estudantes tinham a mania de fazer as mesmas perguntas toda vez que chegava dia de prova. Eram elas:

Pode fazer a lápis?
Assim que a caneta esferográfica entrava na vida escolar, lá pela terceira série, nenhuma prova podia ser respondida com grafite. Claro, pois já éramos espertinhos o suficiente para apagar os erros depois da correção e, na maior cara-de-pau, ir dizer à professora que "estava certo, sim!". Por que, então, sempre tinha um manezinho para perguntar se podia usar lápis? Eram projetos de estelionatários, isso sim.

Quem acabar, pode sair?
A nota poderia definir todo o restante do ano escolar. Podia render bronca em casa ou prova grudada na porta da geladeira. Mas a informação essencial que alguns queriam ter, naquele momento, era sobre a liberdade prematura. Algumas professoras eram até legais mesmo: terminado teste, o aluno podia entregar a folha e se mandar para o pátio. E disputar figurinhas no bafo era mais importante para muitos do que a nota de português.

Para qual lado abre a folha?
O capcioso papel-almaço cometia pegadinhas em todas as provas. Sempre tinha um bobão que começava a escrever na página errada, causando o maior problema na seqüência lógica das respostas. E faziam isso mesmo tendo ouvido a tia dizer, no começo da avaliação, que "o papel abre para o lado da janela". As mestras bem podiam se rebelar e só dar prova em papel-sulfite. Mas daí ia certamente ter um para questionar se podia escrever no verso.

Pode ser em grupo?
Esta era a última tábua de salvação para aqueles que tinham esquecido de estudar – ou para quem não sacava nada da matéria mesmo. Se a professora aceitasse o golpe e permitisse a formação de duplas, os fraquinhos uniam-se aos mais crânios e a nota boa estaria garantida! Era raro de acontecer, porém. E o "não" decretado pela boa preceptora causava gelo na espinha. Pobres golpistas…

Tem consulta?
Funcionava quase como na situação acima, mas era ainda mais difícil receber uma resposta afirmativa da professora sobre esse pedido. Quem provaria alguma coisa, afinal, vasculhando os livros e cadernos na busca pela luz do saber? Se fosse desse jeito, podíamos responder tudo em casa e trazer o teste pronto. Mesmo assim, sempre havia um condenado para apelar. E, com a negativa, tentar fazer o mesmo "não-oficialmente". Se a cola era permitida, ninguém queria saber…

Fla Wonka às 02:18 PM


Quero ser multi-tarefas

Por mais que a gente saiba que tudo o que se passa na tela grande é mentirinha, fica impossível não sonhar com cenas de cinema na vida real. Ou vai me dizer que você não pensou, nem por um segundo, em como seria divertido passear pelos prédios da cidade usando uma teia de aranha produzida pelo seu próprio organismo? Eu pensei muito.

Um artifício da sétima arte em específico, porém, poderia mudar a minha vida – e desde quando o vi, ele não sai da minha cabeça. No primeiro episódio da trilogia “Matrix”, é desenvolvido um programa de interatividade que, a partir de um simples download, o cérebro da pessoa pode aprender qualquer coisa em segundos. Neo, por exemplo, vira mestre em artes marciais, mesmo tendo passado a vida atrás de uma mesa de escritório. Trinity, devido às circunstâncias de uma fuga, torna-se piloto de helicóptero só com um piscar de olhos.

Pense nessa maravilha da tecnologia a serviço do nosso cotidiano! Digamos que você só saiba fazer miojo no jantar, e todos os seus amigos se divertem com sua total inabilidade culinária. Agora imagine poder surpreendê-los com uma farta ceia composta apenas por pratos complexos e deliciosos. Nesse caso, vingança seria um prato que se comeria quente – seguido por sobremesa e cafezinho.

Apesar de me virar muito bem na cozinha, ainda consigo enumerar centenas de ocasiões em que adoraria fazer uso da artimanha tecnológica. E, em todas elas, poderia enfim me ver livre da dependência dos temidos serviços terceirizados.

Mecânico, por exemplo. Devido a um problema no carro em outro estado brasileiro, um dos meus feriados prolongados foi quase arruinado por completo no começo deste ano. Enquanto estava em São Paulo, o automóvel se comportou muito bem. Foi só estar a 600 quilômetros de casa (e numa estrada deserta à noite), o pequeno utilitário resolveu dar piti. Toca ligar para o seguro, esperar um guincho, achar uma assistência... Se, naquele momento, tivesse baixado em mim o programa específico, teria resolvido tudo em pouco tempo.

Eu sei que o princípio básico de se viver em uma sociedade é a simbiose: cada um de nós depende do outro para sobreviver plenamente. “É impossível ser feliz sozinho”, já dizia Tom Jobim – e eu sou obrigada a concordar. Muitas vezes, porém, eu gostaria de poder resolver tudo comigo mesma, sem precisar de assistência especializada.

Senti isso na pele com um lustre da sala. Estava quase desistindo e chamado o Padre Quevedo também para averiguar o maquinário em questão. A certa altura, eu poderia jurar que minhas lindas luzinhas dicróicas estavam possuídas. Após alguns dias de funcionamento, o transformador estourou. Chamei um eletricista e ele consertou. Estourou de novo. Chamei outro eletricista. Estourou. Chamei outro. Estourou novamente. E em um desses apaga-acende, o computador por pouco não foi para o beleléu.

Juro que chegou uma hora em que pensei em colocar uma lâmpada normal presa pelos fios e pronto. Que se dane a boniteza, quero é ter luz na sala! Mas o lustre virou uma questão de honra. O problema maior foi encontrar um eletricista que conhecia seu ofício um pouco além dos habituais plafons. Pelo que pude apurar, é tão difícil encontrar um profissional do ramo realmente capacitado quanto achar pepitas de ouro cavando no Largo da Batata.

E tem muito mais: consertar o aquecedor a gás que melindrou; saber quais as plantas corretas a usar dentro de casa e na sacada; saber o que fazer quando o discador não está conectando à rede; encontrar o caminho de ruas sem apelar ao Guia de Ruas; fazer ajustes nas roupas...

Se alguém estiver testando o mecanismo, me ofereço de cobaia.

Vivi Griswold às 10:38 AM

terça-feira, 6 de julho de 2004

Delitos infantis

Sei lá se é por falta de noção, coisa que só adquirimos muito tempo depois (em alguns casos, bota muito tempo nisso) ou por pura crueldade pueril, mas todos temos uma lista de pequenos crimes cometidos nos áureos anos de infância. Tais histórias geralmente acabam em choro ou castigo. Passa rápido, mas a memória vive para contar pelo resto da vida.

Minha comadre de fé, irmã camarada, por exemplo, surrupiou um Bam-Bam da bandeja de danoninho. Foi na época em que o queijinho (ah, tá!) trazia encartadas figuras dos Flintstones. Só faltava o Bam-Bam na coleção da pobre, cujo pai se negou a comprar o produto naquele dia. A solução foi simples: a mocinha rasgou o plástico, deu a elza no garotinho de plástico e escondeu-o debaixo da blusa.

No caixa, o ciente pai percebeu que havia um volume suspeito na roupa da filhota – nem era preciso muito, já que crianças não costumam esconder as coisas muito bem e ficam com aquela cara de quem tirou o papelzinho do matador no Assassino e Detetive. Ela foi obrigada a devolver o Bam-Bam e escapou do enquadramento por furto, mas passou tamanha vergonha que nunca mais agiu como amiga do alheio.

Eu mentia a rodo pro meu irmão. A maioria das lorotas não eram muito nocivas, como quando eu dizia que a chuva caía porque o Papai do Céu estava lavando o quintal, e o barulho do trovão era porque os santos ajudavam arrastando os móveis.

Porém, quando eu começava a explicar que minha mãe, que havia saído para rápidas compras no mercado, tinha sido seqüestrada por ETs – e insistia na história – ele não gostava muito. O João podia me processar por calúnia, se fosse hoje em dia.

Mas o danado foi muito pior comigo. Certo dia, fazendo guerrinha de bolas de lama num terreno baldio perto de casa, ele deu a volta por trás do campo de batalha, soltou um grito de combate e arremessou uma bolota na minha direção.

O problema é que, dentro da artilharia aparentemente inofensiva, tinha uma pedra. As conseqüências? Um talho na minha cabeça, bem onde ele acertou o projétil. Clama meu irmão que não foi intencional, mas digamos que ele poderia responder um processo por danos corporais.

No mesmo campo, tenho um amigo que, brincando de “Combate no Vietnã” (que saudável, não?), tinha por costume arremessar granadas – na verdade, pedras que eram atiradas para o alto. Quando caíam, correspondiam a uma explosão (quem teve a idéia genial?).

Claro que uma das granadas caiu no lugar errado: o cocoruto de um dos combatentes mirins. E o lançador foi justamente esse meu camaradíssimo. A vítima saiu correndo para casa, aos berros, e o algoz, assustado... também.

Chegando ao lar, doce lar, meu amigo se escondeu debaixo da cama. Lá fora, ouvia-se o coro das crianças testemunhas do incidente a gritar: “as-sas-si-no! As-sas-si-no! As-sas-si-no!”, alta e compassadamente.

Nem preciso dizer o delito pelo qual ele poderia responder a um processo. Tampouco que nunca mais os terrenos da vizinhança foram transformados em selvas vietnamitas.

Clara McFly às 05:18 PM


Quem faz o gênio

Ele é um homenzinho com pouco mais de 1,60 m, cabelo em estilo bebum, rosto deprimido e voz engraçada. Rodou dezenas de filmes desde os anos 70, quase sempre usando os mesmos atores, seus camaradas, e baixo orçamento. Raramente suas produções saem do cenário nova-iorquino. Pelo panorama, Woody Allen bem podia ter se tornado um Zé Mané qualquer, um fã de cinema portanto apenas câmeras e idéias. Mesmo assim, deram a ele o título de gênio. A crítica faz o que quer com a nossa cachola...

O nome de batismo do homenzinho supracitado é Allan Stewart Konigsberg. Ele nasceu em 1935, na mesma cidade que mais tarde viria a usar para milhares de locações. Logo cedo, pelo que se conta, não teve nada de prodígio: começou a faculdade mas não terminou; escrevia para jornais, não tinha lá muito reconhecimento; casou com a namoradinha da adolescência, divorciou-se seis anos depois. Com um currículo bocó desses, Woody estaria fadado ao anonimato. Não fosse o fato de alguém ter dado início ao mito.

A idéia de que o sujeito era um gênio começou com “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” (1977). Não era seu primeiro roteiro, mas a crítica caiu babando em cima do filme – engraçado e recheado de ótimos diálogos –, fazendo Allen entrar na categoria “diretores americanos polêmicos, espertos e hilariantes”. Vencer quatro categorias do Oscar naquele ano não foi nada. Dose mesmo é ver que ele tirou o peladão dourado de “Guerra nas Estrelas”!

Não é por nada, mas entre Annie Hall e Darth Vader, eu sou mais o pai maligno de Luke. Muito mais. Entendo o mérito de alguém que pega situações cotidianas e transforma em algo que possa ser reconhecido e assimilado por centenas de outras pessoas – é isso que eu tento fazer quando sento aqui para escrever, oras bolas. Mas daí a ser gênio?

Posso dizer que assisti a uma quantidade significativa dos filmes de Woody Allen. Curti pouco “Hannah e Suas Irmãs” porque a temática não encaixa muito comigo. Adorei “A Rosa Púrpura do Cairo” porque sempre tive o sonho de penetrar na telona do cinema. Achei bons “Na Era do Rádio”, “Tiros nas Boradway” e “Poderosa Afrodite”. Odiei loucamente “Desconstruindo Harry”, “Todos Dizem Eu Te Amo” e “Trapaceiros”. Mas achei bastante divertido (para a Sessão da Tarde) o recente “O Escorpião de Jade”.

Para todos esses, vai ter gente concordando e discordando da minha abelhuda opinião. Talvez aí mesmo é que resida o poder de Woody Allen: ninguém sabe ao certo se o que ele produz é bom ou é um lixo. Sendo cinema fora do padrão – porque se baseia num blábláblá sem fim – fica difícil classificar. Então, provavelmente na preguiça de pensar, a crítica “especializada” decidiu que o cidadão era fantástico, sublime, um gênio. Engraçado é que nunca vi o próprio nanico se portar assim ou falar de si próprio como alguém que sabe mais que a maioria. A mídia cria sobre ele uma postura que nem o próprio defende.

Woody Allen nunca dá entrevistas. Não apareceu no teatro do Oscar ao receber indicações e pouco se fala dele hoje. Em geral, só se ouve o nome do cineasta quando lembram que o demente traçou a enteada (mas casou depois, ah tá) ou ao lembrar suas incontáveis excentricidades, como largar todo e qualquer compromisso para tocar clarinete, religiosamente às segundas-feiras, no Cafe Carlyle, em Nova York.

Respeito Woody Allen por manter seus rituais, seus gostos e por ser discreto (exceto quando traça a enteada e sai nos tablóides...). Respeito como cineasta também – mas da mesmíssima proporção que respeito meus amigos aspirantes (eles querem filmar “o último dia de um homem bomba”, e eu acho uma baita idéia). Não é gênio. É um homem com idéias e câmeras, só isso. Tirando ambos, sobra apenas o poder da mídia.

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Dêem um tempo, ele é só um tiozinho cineasta...
Fla Wonka às 01:21 PM


Você se lembra da minha voz?

Nenhuma das três garotas deste sítio é fã de atrações dubladas. Fiquei altamente decepcionada, por exemplo, quando o canal People+Arts, da tevê por assinatura, resolveu transmitir o premiado seriado britânico “The Office” sem a opção segura de legendas. O resultado beira o insuportável: as vozes em português parecem vir de pessoas deitadas na rede debaixo de um coqueiro, tamanha é a falta de vontade para arriscar qualquer entonação. Não dá sequer para começar a assistir.

Temos de tirar o chapéu, porém, para algumas atrações dubladas que conseguem inclusive superar as originais. Você já assistiu a “Curtindo a Vida Adoidado” com o áudio americano? Ou a voz real de Eddie Murphy em “Um Tira da Pesada” e “O Rapto do Menino Dourado”? Ambas as atrações em inglês não chegam nem aos pés da graça transmitida em nossa boa e velha língua pela Sessão da Tarde.

Mas é claro que há exceções. Aliás, o único quesito em que a dublagem brasileira está sempre a anos-luz da estrangeira é mesmo desenho animado (de televisão, não de cinema – tipo Bussunda versus Mike Myers).

E quando se fala em dublagem brasileira para desenho animado, o primeiro nome que me vem à cabeça é Orlando Drummond – um senhor que já passou a marca das 80 primaveras e que continua na ativa emprestando sua voz na telinha. Você pode não estar ligando o nome à pessoa, mas uma coisa é certa: se este texto tivesse áudio, o talento de Drummond seria reconhecido de primeira.

É certo que hoje o dublador número 1 do país é conhecido apenas como Seu Peru, um velhote purpurinado que nasceu na extinta “Escolinha do Professor Raimundo”. Segundo o próprio Drummond, há até uma certa estranheza do público quando ele passeia de mãos dadas com sua esposa Glória, com quem é casado há mais de 50 anos. Todo mundo acha que ele é gay – e Drummond entra na brincadeira dizendo que, a esta altura, nem ele mais sabe com certeza.

A carreira do ator e comediante na dublagem começou em 1958, quando aportaram no Brasil os originais do desenho “Popeye”. Drummond foi escalado para dar a fala em português ao marinheiro rabugento. No original, Popeye falava com uma voz arranhada, característica que foi mantida na versão nacional.

A partir do comedor de espinafre, os trabalhos só cresceram. É de Drummond a voz de Gargamel, o vilão que vive para capturar os pequeninos e azulados Smurfs – ainda que ele mesmo tenha feito um deles, a Smurfete. Tanto o medroso Pacato quanto o audacioso Gato Guerreiro, de “He-Man”, contam com as cordas vocais do dublador para o toque final. É impossível esquecer ainda a assustadora voz de trovão do Vingador, do desenho “Caverna do Dragão”, um dos favoritos da geração anos 80. Contando “Hong Kong Fu” e “Bionicão”, pode-se perceber que a lista vai longe.

O trabalho animado mais conhecido de Drummond, contudo, continua sendo o cachorro Scooby-Doo. Tanto que, mesmo na versão do desenho para o cinema, sua dublagem foi requisitada. Aliás, esse foi o único motivo que me levou a dar uma espiada no filme quando a televisão o transmitiu. Drummond continua ótimo como uma das vozes mais familiares da minha infância.

Mas espere! Não dá para escrever um texto sobre ele sem citar o meu favorito: “Alf, o É Teimoso”. Tá certo que não era desenho, e sim um seriado que passava aos domingos, “coladinho” no McGyver (opa!). Tá certo, também, que o título em português exibe o trocadilho mais infame que a raça humana já testemunhou. Tá certo, ainda, que o alienígena peludo gostava de comer gatos. Para mim, Drummond e Alf combinaram tanto que eu chego até no ponto de... achá-los parecidos.

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Cara um, focinho (principalmente focinho) do outro
Vivi Griswold às 10:18 AM

segunda-feira, 5 de julho de 2004

Ritual de lo habitual

Segundo o Aurélio, meu amor, ritual é um “conjunto de práticas consagradas pelo uso e/ou por normas, e que devem ser observadas de forma invariável em ocasiões determinadas; cerimonial, etiqueta”. E eu acrescento: ritual também é algo do qual não adianta fugir. Todo mundo tem os seus, particulares ou coletivos.

O ritual a que fui submetida para entrar neste trio, por exemplo. Fiquei pendurada de cabeça para baixo, feito um Santo Antônio de véspera, enquanto Flá e Vivi dançavam à minha volta usando capas de fantasias de super-heróis adquiridas no Wal-Mart (um pouco pequenas para elas), despejando sobre a minha cabeça litros e litros de Brown Cow, enquanto cantavam “ainda encontro...”, ao que eu respondia: “a fórmula do amor!”.

Ok, é mentira. Não teve ritual de iniciação no Garotas, simplesmente porque ele foi formado pelas três ao mesmo tempo. Mas que nos aguardem os candidatos ao primeiro posto que abrir na futura Ni Corporations... (Ua-rá-rá-rá!).

Besteirinhas à parte, eu tenho vários ritos de praxe. Faço o sinal da cruz ao entrar no mar (mas não falo “odoyá, minha mãe”). Gosto de montar árvore de Natal e acender velas. Como as sete uvinhas de Ano Novo e, às vezes, nhoque no dia 29. Ei, não riam. Cada um com o seu!

No âmbito dos rituais conjuntos já não sou muito assídua. É que, vamos convir, esse tipo de atividade foi feita para a prática solitária – pelo menos em minha modesta opinião. Eu não me sinto bem compactuando algo tão privado com um bocado de gente que não conheço. E, como observadora de fora, acabo sempre achando engraçada a pantomima toda.

É que os ritos são encenados como símbolos de alguma coisa maior – tão maior que não caberia numa igreja, por exemplo. Mas o tiro sai pela culatra quando tais coisas são repetidas à exaustão e as pessoas começam a agir mecanicamente, esquecendo-se do que tudo aquilo simboliza.

Na missa católica, por exemplo. Um monte de gente aperta a mão do outro e diz, sorridente, “paz de Cristo!”. Depois, no estacionamento, surta com o pobre manobrista que está tentando entregar os carros de todos os cristãos ao mesmo tempo.

Os rituais também podem ser bem engraçados por si sós. Adoro aquela hora da missa em que alguém fala “palavra da salvação”. Me divirto respondendo “Ele está no meio de nós” quando o padre diz “o Senhor esteja convosco” (é a única parte que sei de cor, já que, como disse, minha assiduidade é bem parca). E acho meio chato levantar e sentar toda hora, automaticamente, copiando os outros (nunca sei quando fazer o quê).

Católicos comem um circulozinho achatado de pão para se purificar. Judeus passam a mão numa espécie de tubinho ao entrar e sair dos lugares. Muçulmanos ajoelham num tapetinho e oram quatro vezes por dia. Budistas ficam um bocado de tempo parados, sem pensar em nada. Não é gozado? E, no entanto, cada um desses atos, aparentemente bobos quando enunciados assim, esconde uma história e um significado – mesmo que mais ou menos obsoleto e repetido com mais ou menos significância para o fiel.

No quesito comédia, porém, ninguém bate os televangelistas. É uma novidade atrás da outra: tem a aliança-para-quebra-de-todo-mal (assim é fácil), o banho-com-água-do-rio-Jordão (como eles trazem isso até aqui?), a lâmpada ungida (não pega fogo, esse negócio?) e a cerimônia dos 318 pastores (por que 318? Tem algum significado ou foi tudo o que deu para arrumar?).

Isso sem falar no insuperável “fundo do poço”, que consiste num programa que tem em seu palco um poço cênico, daqueles com baldinho pendurado e tudo. A câmera fica dentro do tal poço, e você vê o pastor lá em cima, com a mão estendida. Ele conversa com uma “Amiga”, por telefone, e pergunta se ela está no fundo do poço e se crê no senhor Jesus. Ela diz que sim e, dessa forma, está aprovada para a salvação.

Então, o pastor diz: “segura minha mão e vamos contar até três, que eu vou te tirar do fundo do poço”. A gente continua vendo tudo como se estivesse lá embaixo, no buraco. Ele conta: “um... dois... e três!” e, juque!, a câmera do poço é cortada e uma outra diante do palco é acionada – passamos a ver o pastor como se estivéssemos na platéia, de fora do poço. O homem garante que a Amiga, agora, está liberta do mal.

Não é sensacional salvar alguém apenas com um corte de câmera?


Clara McFly às 07:53 PM


Uma boa redenção

Não que eu seja fãs dos caras ou coisa assim. Para dizer a verdade, quando o tal “Pânico na TV” foi lançado, meses atrás, eu passei longe. Achava o programa veiculado do rádio uma besteira, logo a versão televisiva devia ser bomba semelhante. Mas vendo o show ontem – não, a tv a cabo não estava fora do ar, foi opção mesmo – confirmei o pensamento das outras vezes em que assisti: eles fazem algo que eu acho se suma importância.

A parte denominada “Hora da Morte” é um imbecilidade sem fim. No quadro, dois babacas vestidos como a ameaça assassina da trilogia “Pânico” assolam a cidade espalhando sacanagem gratuita. Chutam caixas de pizza das mãos de entregadores, jogam lixo em carros que acabaram de sair do lava-rápido, baixam as calças de senhores de idade na praia. É uma cópia descarada do que foi inventado pelo “Jackass”. E olha que, mesmo no original, os trotes eram muitas vezes sem-graça. Estúpido, enfim.

Mas isso é detalhe no programa – basta mudar de canal por uns 10 minutos ou aproveitar para ir fazer um sanduíche. Voltar é bom, mais tarde. Acontece que celebridades fajutas ou valorizadas demais penam nas mãos de um certo Repórter Vesgo e de um Silvio Santos cover.

A especialidade dos dois é desancar famosos. Passo mal de rir, juro mesmo. Onde mais se vê um repórter dizer à Preta Gil “poxa, seu CD é legal... Mas não vendeu nada, né?”. Ou entrevistar o Raul Gazolla e colocar como legenda, abaixo do nome do sujeito, a descrição “ator desempregado”? Vão reclamar como? Mentira não é!

A melhor entrevista que vi do Vesgo foi com a Beth Guzzo. A cantora, reconhecida integrante do segundo (ou terceiro) escalão das celebridades, foi toda feliz dar depoimento do moço. Ele pediu para ela cantar, dar uma palhinha. Ela deu. Ele disse que a música era ruim pacas – e ainda emendou “a Vovó Mafalda era bem mais legal e famosa que você”.

Nada pior do que ser filha de Valentino Guzzo e ainda cair nas mãos de quem fala a verdade na tv... Mas pelo menos a moça levou na brincadeira. Já conta pontos pra ela não ter tido ataque histérico como a Luana Piovanni. Bom, o Vesgo beijou pegajosamente o braço dela, mas podia ter aceito como piada e pronto, não precisava dar gritinho, né? Já devia ter percebido que isso é combustível para o cidadão.

O melhor do programa é que só ali vem à tona a realidade nua e crua sobre muita figurinha carimbada em revista de fofoca. A verdade é: ninguém agüenta mais jornalistas bajulando cantores meia-boca e fingindo interesse pela peça teatral de atrizes medíocres (quando querem perguntar, de verdade, quem ela anda beijando na boca). Já era hora de alguém fazer o Dia da Verdade no ramo do entretenimento.

O “Pânico na TV” faz. Como bônus, ainda é possível ver um pouco da confusão mental que se abate sobre as pessoas diante de uma câmera. Ontem, um dos membros da turma foi até uma academia de ginástica querendo provar que muita gente prefere exercitar o corpo e largar a mente às traças. Perguntou para um bando quem era o vice-presidente do Brasil. Ninguém soube. Questionou o que era Faixa de Gaza. Uma respondeu que era um “artigo de origem indígena”. Ele apelou, pediu o resultado de 9 X 7. Trinta e seis foi a resposta de duas tias...

Indispor gente perante a câmera é jeito de conquistar atenção do público? Pelo visto, sim. O programa, até onde se sabe, virou sucesso. Espero que seja menos pelo ataque dos fantasiados babacas e mais pela escancarada na hipocrisia televisiva de achar que todo mundo que põe a cara na telinha é cheio de conteúdo, esperto e desprovido de defeitos.

Famosos ou anônimos, todos são gente como a gente – falam besteira, são desinformados, pensam que são grande coisa porque apareceram na tv. Eu acho ótimo nivelar as estrelas com os humanos.

Fla Wonka às 01:51 PM


Aos leitores, com carinho

Hoje eu sei como o doutor Frankstein sentiu-se quando viu sua criação caminhando com as próprias pernas e ganhando o mundo. Sim, porque Frank era o cientista e não a criatura, como muitos pensam. Mas isso não vem ao caso: o fato é que nos enche de orgulho ver o nosso monstrinho – ou pelo menos uma parte dele – começando a andar sozinho.

Aposto que muita gente acha hipocrisia quando afirmamos com todas as letras que, quando criamos o Garotas, não esperávamos nada em troca. Simplesmente começamos a fazê-lo pela própria necessidade interior de escrever livremente. Os leitores poderiam nunca vir, como acontece com um monte de sites nessa sopa de letrinhas que é a Internet. Ou poderíamos cansar e desistir de tudo no primeiro mês. Estávamos (e estamos) no espírito de “o que vier é lucro”.

Claro que eu não me refiro a lucro financeiro, como você já deve saber. Ultimamente ando lendo em muitos blogs pequenas insatisfações a respeito do trabalho não-remunerado. Quem mantém um espaço com textos de qualidade acaba tendo a mesma indagação cedo ou tarde: qual o propósito em rachar a cachola à procura de um tema legal, escrever uma crônica bacana e publicar em um espaço bem cuidado com uma certa periodicidade se não ganhamos nenhuma lasca em troca? Olha, se dissermos que a dúvida nunca passou pelos macaquinhos no nosso sótão, estaríamos mentindo.

Principalmente pela insanidade de colocar uma trinca de textos diariamente. Confesso que a idéia foi minha – mas ei, lembre-se de que eu e as meninas não contávamos com sua presença aí do outro lado. É, você. Você veio e nos obrigou a seguir cumprindo essa rotina pauleira que ainda assusta muita gente. “Como vocês conseguem?”, todos perguntam. Não sei. Agora é tarde para sequer pensar, quanto mais voltar atrás.

Após dez meses na ativa apenas com o Garotas, decidimos criar um fórum de discussão. Novamente, o complexo de “ah, se tiver um ou outro participante, já está bom” – principalmente porque o funcionamento do espaço é complicado (e nós complicamos ainda mais, enchendo de categorias específicas) e... bem, ler é uma coisa, escrever e trocar idéias é outra. Muitos leitores entram no site e saem em seguida, sem vontade de discutir o assunto. Mas muitos outros resolvem embarcar na brincadeira – até o momento, 584 malucos, para ser exata.

A esta altura, alcançamos o objetivo: o fórum já não nos pertence. Como a criatura do doutor Frank, ele tem vida própria – só é mais bonito e menos lerdo que o monstro de retalhos. Aliás, lerdo é o que o monstrinho não é. O danado é tão rápido que há muito eu mesma já não consigo acompanhar. Culpa da comuNIdade, como apelidou a Clara, que não deixa o espaço ficar parado. Jamais.

Outra conseqüência, porém, aconteceu. Para a nossa imensa alegria, os participantes ficaram amigos de verdade. Gente de todas as idades e de todos os lugares: São Paulo, Florianópolis, Estados Unidos, Fortaleza, Alemanha, Campinas, Salvador e até Finlândia! Hoje, conversam dentro e fora daquele espaço e estão formando um laço bem bonito entre eles.

A celebração disso tudo aconteceu no último sábado. O trio parada dura composto por Rafaella, Monica e Muta organizou um encontro entre os usuários. A nós três, cabia a única responsabilidade de comparecer. O monstrinho é tão independente que eu precisei descobrir inclusive qual o local da festa antes de sair de casa. Das 22h às 2h30 da manhã, período em que fiquei de bobeira por lá, fui testemunha de cenas emocionantes.

O que mais vi foi gente que nunca tinha se encontrado pessoalmente conversando como se todos fossem velhos camaradas. Coisinhas particulares também me comoveram. Monica nos convidando para um almoço equatoriano na casa dela, Raquel dizendo o quanto o Garotas e o fórum ajudam a suportar a saudade do Brasil enquanto está em Michigan, Quinho pedindo com as mãos unidas para a gente não parar de escrever – entre outros momentos de outros presentes.

Por isso é que decidi que meu texto de hoje seria um agradecimento – de nós três, com certeza.

Obrigada.

Vivi Griswold às 10:56 AM

sexta-feira, 2 de julho de 2004

Diversão (trash) gastronômica

Quando você acha que já viu ou já sabe tudo que há para ver e saber sobre a misteriosa lanchonete dos arcos dourados, cuja turma de personagens conta com uma suspeitíssima batata roxa e um milk shake resistente feito adamantium, eis que recebo da cabine do dráive-trú, depois de confirmar meu pedido e recusar educadamente as propostas de "seria- o- número- um- com- mais- cinqüenta- centavos- batata- e- refrigerante- médios- ou- cobertura- extra- no- sundae?", um folheto colorido.

Ao ler a capa do tal, não agüentei. O título era "Guia Nutricional do McDonald's - Nova Edição". Rá! - e digo de novo: rá! (como sabiamente exclamava o Bichinho da Maçã). Difícil imaginar as palavras "nutricional" e "McDonald's" na mesma frase. Mas lá estavam elas, ilustradas pelo traço bacana e inconfundível do Ziraldo. Claro que guardei o papel dobrado com carinho, pois sabia que ele renderia boas risadas mais tarde.

E como rendeu, viu? Durou mais que a faixa branca do sorvete napolitano! Sempre com desenhos do mestre Ziraldo (pai, aliás, do "Bichinho da Maçã", também chamado Isaquenilton), a grande lanchonete vai explicando os procedimentos de qualidade adotados para a confecção de cada item do cardápio, com as regras estabelecidas para o trabalho dos produtores aos atendentes (menos do funcionário do mês que, como eu já disse, no equi-siste. Continuo procurando um).

No precioso documento, fiquei sabendo que o McFish usa filé de merluza - o que na verdade não me importa nem um pouco, já que eu não como peixe. Mas outras coisas são mais interessantes: diz o folheto que "a goma xantana pode soar artificial" - daí, em vez de continuar dizendo "mas não é", segue com a frase "mas... está presente nos molhos das saladas, tornando-os 100% naturais"! Mas afinal, o que diabos é a goma xantana? Ela é artificial ou não? Para mim, isso é folha-seca do redator!

Ainda segundo o tratado, os pães usados pela lanchonete "derretem na boca e não esfarelam". Eu devo estar comendo o pão errado, então. Ou todo Méqui a que vou está usando pão do mercado negro. O meu pão não derrete na boca e esfarela, sim. Que o diga o velho Deep Purple, palco de tantas comilanças feitas maleporcamente sobre seu volante, na pressa de chegar à faculdade...

Mas calma. As informações ficam ainda melhores. A matriz do Méqui atende pelo nome de "Cidade do Alimento"! Ah, ah, ah, ah! Que senso de humor, né? Bom, dependendo da sua definição de alimentação, a graça da firma pode até passar. Meu irmão, por exemplo, ao viajar com os amigos, sobrevive à base de miojo, salsichas e frituras. Para alguém assim, uma refeição de pão, carne, alface e suco (ou o que dizem ser suco) é o supra-sumo dos bons hábitos alimentares.

No conteúdo do catálogo, encontrei também pérolas como "Os hambúrgueres são feitos com pura carne 100% bovina" (arrã. E o funcionário do mês existe) e "Os ingredientes básicos da sua refeição são os mesmos que você tem em casa" (ah, tá. E o Shaky não é uma batata roxa). Além de contribuir quase mensalmente para o enriquecimento da Cidade do Alimento (quem consegue ficar longe?), também me divirto um bocado com eles.

Portanto, se a mocinha do dráive-trú lhe oferecer um folheto colorido, agarre correndo! Você vai ver que tudo isso é verdade. Pelo menos no papel.

Clara McFly às 06:00 PM


Show de feltro, arame e riso

Eu era só uma garotinha, mas lembro muito bem. Toda semana, um grupo de artistas precisava mover mundos e fundos para apresentar seu show de variedades na televisão. O problema era: tudo o que podia dar errado, dava. O dono do teatro criava caso, os convidados se perdiam no texto e os próprios artistas não conseguiam se portar como gente normal para o trabalho. Mas também, como poderiam? Não eram gente. Eram bichos, eram de espuma, eram marionetes! Eram Muppets!

Curioso é que, mesmo sendo somente bonecos feitos de feltro, recheio fofinho e atados com arames, podiam interpretar e nos fazer gargalhar mais do que muito ator de carne e osso. Ainda podem, se vocês se propuserem a assistir os longas-metragens dos Muppets. São ótimos – mas ainda não equivalem ao tanto de diversão trazida pelo Muppet Show.

Exibido nos Estados Unidos entre 1976 e 1981, o programa era simplesmente hilário. Por aqui, lembro de ter passado na tv no mesmo período, e reprisado algumas vezes mais tarde. Naquele tempo, o bando de bonecos e seus inventores (Jim Henson e sua companhia) já sabiam que televisão tinha muito a ver com guerra de vaidades, desorganização, críticos pentelhos. Tudo isso aparecia no Muppet Show e era engraçado demais.

A começar pela banda residente do programa. É difícil lembrar de todos os integrantes, mas recordar apenas o baterista já ajuda. Animal era um ser grotesco que só falava aos grunhidos e esmerilhava caixas e pratos como um demente. Igualzinho fazem as bandas de metal! Incrível! Aposto que o sonho de muito baterista, ainda hoje, é tocar como o Animal. E talvez ter aquela cabeleira rosada e usar algemas.

A rigor, os apresentadores do show eram o sapo magrelinha Caco e a voluptuosa Miss Piggy. A porca era apaixonada pelo batráquio, e ambos viviam naquela divertida perseguição romântica. Bom mesmo, porém, era quando Piggy dava um tempo no cargo de hostess para fazer o seriado “Porcos no Espaço”. Deve ser a melhor ficção científica produzida até hoje para a tv.

Também faziam parte do espetáculo um cientista carequinha e seu ajudante Jairo. Não lembro bem a incumbência do pesquisador em um show de variedades, mas pouco importa: corria de onde estivesse para ouvir o Jairo, de olhos arregalados e cabelo ruivo espetado, dizer apenas seu “mimimimi”. Qualquer pergunta era respondida com “mimimimi”. Eu ainda imito o Jairo quando quero me esquivar de questionamentos chatos...

Assistindo ao Muppet Show, também éramos brindados com o cozinheiro que passava o programa todo correndo atrás de uma galinha com o cutelo, do Fozzie e suas piadas imbecis, do assustador saxofonista azul do Electric Mayhem (a banda do Animal), do alienígena trapalhão chamado Gonzo e de dois velhos sensacionais. Eles eram os críticos de tv. Ácidos, rabugentos, palpiteiros! Ficavam sentados no balcão da platéia botando defeito em tudo. Conheço muita gente parecida com aqueles tiozinhos.

Por levarem à telinha tipos tão comuns – só que completamente retardados – os Muppets conquistaram o mundo. Viraram desenho animado, participaram de um adorável videoclipe da banda Weezer, licenciaram os produtos bacanas, como os bastões de balinha PEZ. Pena terem perdido o melhor, seu show de variedades semanal na televisão. Ainda faria qualquer um de nós torcer as tripas de dar risada, isso é certo.

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Não era uma gangue animada?
Fla Wonka às 01:30 PM


Garota em reforma

Reformar uma casa até que é fácil: se existem dois quartos pequenos, pode-se derrubar a parede e fazer um grande; se o banheiro tem um vitrozinho, dá para abrir o buraco e fazer uma janela maior; se o piso de carpete está mofado, nada impede de arrancar tudo e colocar outro revestimento. Consome dinheiro, é claro, e também muita poeira sendo respirada. Mas reformar gente é mais complicado.

Quando uma casa é totalmente torta, podemos ir arrumando tudo de uma só vez. Quando uma pessoa é torta, porém, é preciso seguir com cautela – afinal, casas não têm aquele lance de auto-estima. E eu sempre fui uma garota que não veio muito certinha da fôrma. São os tais pequenos defeitos de fabricação.

Aos sete anos de idade, minha mãe me levou no ortopedista e ele tirou a conclusão óbvia de que eu tinha pé chato. As solas me fazem pisar torto para dentro, o que não é muito normal. A única conseqüência disso até hoje foi um punhado de pares de sapatos jogados fora por conta do solado gasto de forma desigual. As dores nas costas, maldição que o médico especialista jogou no meu futuro, nunca chegaram.

Mas na infância eu fui obrigada a usar aquelas horrendas botas ortopédicas. Não sei se o pior era ficar parecendo um soldado (quando se é uma meninininha miúda) ou ver as amigas usando lindas Melissinhas. Aliás, uma das minhas maiores frustrações era não poder usar a sandália colorida de plástico – isso eu consigo compensar atualmente, com vários pares. É trauma.

Os anos com aquele chumbo nos pés ajudaram? Não sei. Continuo pisando torto. E costumo virar o pé ao andar com uma irritante freqüência.

Outro item que eu tive de encarar por conta de uma má herança genética foi o par de óculos. O pior é que a miopia sempre foi um defeito anunciado: meu pai e minha mãe não possuem boa visão e costumavam me preparar para dias embaçados. Demorou, mas aconteceu. No cursinho reparei que não estava enxergando bem. Descobri meu 1,75 grau em cada olho míope. Não posso reclamar, pois o número nunca aumentou e hoje eu sou uma feliz consumidora de lentes de contato.

Com tudo isso, minha seqüência de DNA ainda resolveu me sacanear feio na dentição. Na época dos dentes de leite, eles eram lindos e branquinhos e certinhos. Ao começarem a cair e nascer novamente, algo muito errado aconteceu. Acho que ao invés de 32 exemplares, fui premiada com uns 56. Ou, segundo os dentistas pelos quais passei, a culpa é da minha pequena boca (ah, vá).

A opinião dos especialistas era de que meus pais deviam esperar eu crescer totalmente (o que não demorou muito) para depois colocar o temível... aparelho. Tão temível que, depois de crescida, me recusei totalmente a usar. Ter um sorriso metálico era mil vezes mais trágico do que ter um sorriso um pouco torto. Acontece que agora... mudei de opinião.

Devido ao recém-adquirido “plano de saúde odontológico”, coisa que eu achava estar no patamar do chupa-cabra – diziam que existia, mas eu nunca havia visto –, decidi fazer uma reforma geral. Troquei as terríveis obturações metálicas por branquinhas e me submeti ao aparelho. Já estou ostentando essa maravilha há dois dias e tentando me acostumar. Minha dentista disse que ficou um charme e que vai, na próxima consulta, colocar borrachinhas pink. Gostei da idéia.

Como toda reforma, de casa ou de gente, é preciso enfeiar um pouco para embelezar totalmente. Ana Paula Arósio, me aguarde daqui a 2 anos. Há!

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Vivi Griswold às 10:25 AM

quinta-feira, 1 de julho de 2004

Crônica de um comércio anunciado

Como todo mundo, nasci com alguns talentos e também com uma lista de habilidades que, se dependesse delas para o pão-nosso-de-cada-dia, já teria morrido seca. Me dou bem ao escrever, cozinhar o trivial variado e sou boa ouvinte. Por outro lado, me perco dentro de shoppings, não sei calcular de cabeça multiplicações decimais e não tenho o menor tino para vendas - nem para vender meu próprio peixe, como Flá contou hoje, tampouco para comercializar qualquer tipo de objeto.

Por isso tenho a maior admiração curiosa (quando não uma irritação latente) com vendedores. Eles povoam todas as camadas da sociedade e vão desde os engravatados que fecham negócios de milhões de dólares, escrevendo valores obscenos em papeizinhos que são passados para seu interlocutor sobre a mesa, aos camelôs que gritam "ó o relógio, só seis reá; dois por déi reá!" na calçada.

Ainda tem as crianças que oferecem balas recitando versinhos na janela do carro, cena de cortar o coração, além dos incansáveis distribuidores de víveres tão díspares quanto pamonhas, produtos de limpeza, ovos, pães e pintinhos, que passeiam diariamente nos subúrbios em carros que dão a impressão de desmanche espontâneo iminente.

Esses últimos me lembram imediatamente a infância, numa espécie de túnel do tempo aberto pela audição das gravações que os acompanham desde que o mundo é mundo. Na minha versão da história do planeta, primeiro houve uma grande explosão. Depois, vieram a Hebe e o carro das pamonhas de Piracicaba. Só a seguir é que surgiram os organismos unicelulares, os dinossauros e tudo o mais.

Meu favorito, embora não seja o clássico da iguaria de milho, era o homem da água de lavadeira que passava lá nas ruas do bairro Assunção, a vizinhança mais Mirtes em que já morei. Ele gritava "água de lavadeeeeeeeira-iersh". Ainda não concluí se essa interjeição final era chiado do microfone ou moda inventada pelo vendedor.

Depois, o moço disparava uma lista interminável de produtos de limpeza para o lar: "detergente-desinfetante-sabão-de-coco-amaciante-
pasta-de-brilho-cera-cloro-removedor-óleo-de-peroba-sabão-em-pedra". Era espantoso. Eu nem sabia que existiam tantos insumos para a limpeza do lar. Após o anúncio, pipocavam ao redor da caminhoneta senhoras que atendiam pela ocupação "prendas domésticas", munidas de baldinhos e garrafas, para fazer o refil dos vasilhames.

Já a kombi dos bichinhos de estimação atraía a clientela mais vulnerável - a criançada da rua. Os apelos do vendedor eram irresistíveis: bastava chegar lá com ferro-velho para receber em troca pintinhos, peixinhos ou gelinhos (também conhecidos por saquinhos ou chup-chups, dependendo da região), estes últimos feitos de uma mistura de proporções duvidosas usando ki-suco ou água com toddy.

A proposta parecia tão boa que minha mãe, desconfiada de engambelações de toda sorte, não me deixava adquirir um dos brindes diminutivos. Também, nunca tinha ferro-velho dando sopa lá em casa...

Hoje, fico feliz quando ouço algum dos ambulantes motorizados às voltas na vizinhança. Além do flashback que eles me proporcionam, acho confortante saber que essa cultura suburbana persiste bravamente - ao contrário dos pintinhos e peixinhos distribuídos pela kombi, que encontravam seu destino final nas bem-intencionadas mas estabanadas mãos dos meus amigos de rua, no máximo uma semana depois da passagem do veículo recolhedor de ferro-velho nos arredores...

Clara McFly às 06:05 PM


Is (not so) good to be...

Existe um programa do canal a cabo E! chamado “Is Good To Be”. Ele conta “como é bom ser” várias celebridades – por causa de sua ascensão monetária. Por exemplo: Demi Moore foi garçonete, Jennifer Lopez era pobre de marré-marré-marré... Mais tarde, porém, elas aumentaram em alguns milhões suas contas. Mas se o trio hoje conhecido como Garotas Que Dizem Ni ficasse famoso a ponto de aparecer no E!, um novo show precisaria ser lançado: “Is Not So Good To Be”. Nosso gráfico financeiro só mingua, impressionante.

Passado um mês e meio do fatídico Prêmio iBest, finalmente eu me sinto à vontade para dizer: cruzes, como foi decepcionante! Muitos nos perguntaram por que tanta sanha de conquistar um prêmio considerado marmelada pelo mundo afora. Eram vários motivos: o site ganharia mais visitas, ficaria mais conhecido, traria novas possibilidades. E ainda tinha o dinheiro, muito bem vindo para três moças que vendem o almoço para comprar o jantar.

Não foi daquela vez. Após oito meses de campanha, reuniões para traçar metas e imaginação voando alto, o concurso rendeu... menos 15 reais em conta. Esse era o preço exorbitante para estacionar o carro no evento. Vou contar para vocês: somos mesmo muito cuca-fresca, porque só assim para rir do ocorrido como fizemos (depois de um dia de emburramento meu e da Clarinha, evidente. A Vivi superou quase imediatamente o baque, mas a gente acha que ela é monja).

O caso iBest, porém, é só a ponta do iceberg quando se trata das finanças de nossa “mico-empresa”. Já virou tradição comentar entre nós mesmas como esse desapego é violento. A Época nos contratou para fazer uma coluna, mas sempre atrasamos para levar a nota fiscal – e, conseqüentemente, eles atrasam o pagamento. Devem pensar, lá no Departamento de Bufunfa da Editora Globo, que somos milionárias e escrevemos por esporte...

Negociar aumento é outro problema. Quando se trata de valorizar o próprio esforço, Garotas Que Dizem Ni costumam voltar vinte anos no tempo e se comportar como menininhas de pré-primário. Torcemos as mãos, reviramos os olhos, ficamos de bochechas coradas. Devemos ter sangue de pobre, porque querer dinheiro parece pecado no nosso jeito de ser e viver.

Só depois de superar um pouquinho a vergonha, começamos o discurso “bom, o senhor veja bem, quem sabe não seria o caso de... não entenda mal, mas... talvez, se for possível, queríamos uma verba extra... Nós somos três, entende?”. A essa altura, o interlocutor já se cansa e diz logo “tá bom”. E qualquer valor equivalente a um saco de amendoins nos deixa nas nuvens!

Ninguém faz idéia de quanto tempo precisamos parlamentar até decidir, meses atrás, quanto pedir de cachê por uma palestra no interior de São Paulo. Depois de consultar deus e o mundo, fazer conta, somar, dividir e checar o preço do hotel, passamos o valor para a contratante. Existe a possibilidade de ela estar rindo da nossa cara até hoje? Existe. Mas fazer o quê? Pecamos pela modéstia, mas nunca por sermos mercenárias.

“Cobrar” é quase palavrão para mais alguém além de nós? Porque vários amigos ficaram surpresos ao saber sobre a festa de um ano do site, em abril. Todas as invencionices – como saquinhos-surpresa, balões de gás hélio e faixa de saudação na porta – saíram do nosso bolso. Custou caro, mas nossas mães já diriam: mais vale um gosto que dinheiro no bolso. E isso nós entendemos e assinamos embaixo.

Como diz o irônico título deste texto, pode “não ser tão bom assim” ser parte das Garotas Que Dizem Ni. Não recheia cofres, isso é certo. Mas traz diversão e contentamento em tamanha quantidade que nem sei medir. E do dia que inventarem um programa mostrando quem tem mais riqueza de satisfação no show-business, daí sim nós queremos estar lá.

Fla Wonka às 01:54 PM


Sacanagem com açúcar

Bolar o nome para um produto costuma ser uma das etapas mais importantes da criação do mesmo. Os marqueteiros ficam horas e horas reunidos com empresários para chegarem a um título que seja, ao mesmo tempo, definidor da marca e atraente para o consumidor. Afinal, ninguém aqui seria louco de comprar uma pasta de dente intitulada “moça banguela” ou um sabão em pó chamado “sujinho” ou uma bala nomeada “gruda-no-dente”. Certo? Então alguém explica isso para as doceiras!

Quando penso na confecção de um novo doce, imagino uma senhora bem rechonchuda (elas nunca são magras – bem, não as boas), com avental sujo de farinha e ovo, óculos redondos na ponta do nariz, com as mãos gordinhas amassando ferozmente uma massa ou batendo violentamente um creme na tigela. Após tanto trabalho e criatividade, é chegada a hora da doceira inventar um chamamento para seu quitute. E é aí que elas adoram sacanear.

Por conta do humor deliciosamente duvidoso de algumas delas, é melhor você não querer saber o nome do que come. Mas pode experimentar todos os doces listados – as doceiras podem não ser boas em dar títulos, mas são ótimas em dar sabor.

1) Bolo formigueiro
Formigueiro é um troço cheio de terra e insetos nojentinhos que adoram picar o seu pé sem motivo aparente. Até entendo que as pequeninas manchas marrons no meio da massa branca tenham lembrado formigas para alguém. Mas se eu não sou tamanduá, como vou achar atraente comer algo com esse nome?

2) Barriga-de-freira
Com todo respeito às religiosas, barriga de freira não deve ser um negócio muito atraente. Além de viverem cobertas pelos hábitos e não verem a luz do sol por 50 anos, as panças das senhoras devem ser um pouco flácidas – além de comerem bem o dia todo, não podem exercitar corretamente aquela região abdominal.

3) Papo-de-anjo
Já esse doce eu não entendo muito bem. É “papo” de “conversa” ou “papo” de “gordurinha abaixo do queixo”? Levando em conta a procedência do mesmo (Portugal, para quem não sabe) e a época em que foi criado (há muito, muito tempo), fico com a segunda opção. E anjinhos barrocos são bem roliços mesmo.

4) Quebra-queixo
Por que uma pessoa fica com vontade de degustar um quitute cujo próprio nome mostra a possibilidade de danos à saúde? Quebrar o queixo deve ser bem ruim. E, pelo título, pode-se pensar que ou o treco é duro ou é deveras pegajoso. O negócio é botar para dentro sem perguntar nem como chama, nem de onde veio.

5) Baba-de-moça
Baba é um líquido nojento que espera-se sair da boca de bebês em fase de dentição ou de pessoas como o Homer Simpson, que babam muito no travesseiro enquanto dormem. Em ambos os casos, convenhamos, a baba não é algo atrativo. Sendo ela de moça, muito pior: qual será o motivo da secreção nas garotinhas?

6) Bolo peteleco
Peteleco é uma grande invenção para irmãos mais velhos e uma péssima idéia aos caçulas. Eu, na primeira condição, adorava açoitar os familiares lá de casa que chegaram depois de mim – principalmente na orelha. Portanto, essa espécie de bolo é atraente para pessoas como eu, mas traumatizantes para irmãozinhos.

7) Toucinho do céu
Eu não acredito que haja toucinhos no céu. Ou você acha que, junto às nuvens brancas e fofas repletas de anjinhos de cabelos encaracolados, estejam voando pedaços de gordura e couro de porco morto? Espero que não. De qualquer forma, não dá para entender o que o suíno tem a ver com o doce, que é feito de ovos.

8) Olho-de-sogra
Os doces mais populares de festas são brigadeiros, beijinhos e cajuzinhos – reparem que graça os nomes. Daí, na bandeja ao lado, tem um monte de olhos-de-sogra. O pior de tudo é que o quitute se parece mesmo com um olho, culpa da fatia de ameixa preta bem no meio. Agora, botar sogra no meio, é sacanagem.

9) Orelhas-de-abade
Há quem coma orelha de porco em feijoada – eu me recuso. Agora imagine comer orelhas de abade! O engraçado (ou não) é que “abade” pode tanto definir um superior na ordem religiosa como ser o figurativo para um homem muito, muito gordo e pançudo. Seja qual for o caso, só como se não souber o nome.

10) Pé-de-moleque
Toda vez em que ouço falar nesse doce, apreciado principalmente na época junina, lembro-me do pé do meu primo quando éramos crianças. O negócio era preto como piche de tanta sujeira, e não saía no banho nem com palha de aço. Ele nem deixava cortar as unhas, sempre cheias de terra. Agora diga: dá para engolir?

moleque.jpg
Pensando bem, parece mesmo o pé do Thiago


(*) Nota da autora: Na pesquisa sobre os nomes dos doces, encontrei o melhor de todos: Bolo Não Comas que Não Presta. Para quem duvida, a receita está aqui.

Vivi Griswold às 10:04 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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