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Bisturi? Não, obrigada Há nem tanto tempo assim, cirurgia plástica era um troço de outro mundo. Lembro-me de uma das muitas minisséries enlatadas assistidas por mim, empoleirada na cama da minha mãe, lá no sobrado onde vivi os gloriosos anos 80. A trama tratava de uma mulher que foi atirada aos crocodilos pelo marido. Acho que ele queria ficar com o seguro de vida ou algo assim. Ela sobrevive, faz um monte de cirurgias, muda de rosto (!) e volta para a vingança. O argumento incrível parece não ser mais tão absurdo hoje. É mais fácil, aliás, trocar completamente sua cara do que sobreviver a jacarés cênicos. Daqui a pouco, estamos transplantando caras inteiras, feito o que acontece no ainda pouco crível “A Outra Face” (continuo afirmando que só um mestre como John Woo para fazer a gente permanecer duas horas sentada diante da tela a partir de uma premissa tão bizarra e pífia). Nada mais em voga (como dizia-se na época em que usar tal expressão estava... em voga) do que cirurgias plásticas. Na telinha da máquina de fazer doudos, pipocam programas de “antes e depois”, mas o que outrora só cobria um tapa no visual da vítima – como uma mudança no penteado, uma maquiagem mais potente e uma renovada no guarda-roupa – agora acompanha um infiel do trauma de infância à mesa de operações, sem esquecer, é claro, do retorno triunfante do recém-transformado ao seio da sociedade. Acho que esticar, puxar e melhorar (o que nem sempre acontece) é de direito de quem se sente marginalizado por causa de um narigão, de uns quilinhos a mais ou de marcas acentuadas do tempo. Claro que, quando vira obsessão, já é discutível. Mas de qualquer maneira, cada um tem que poder mexer no seu próprio corpinho como bem entender. Eu, por exemplo, adoraria usar um sutiã maior e tiraria um pouco do nariz italiano – isso se o procedimento envolvesse, em vez de anestesia e bisturi, uma varinha de condão e uma fada mágica. Estou longe da perfeição, mas prefiro meu bom e velho corpinho a alguém me cortando. Fujo de intervenções cirúrgicas de qualquer natureza como o diabo da cruz. Aliás, já dei instruções para, se um dia sofrer um acidente que me ponha desacordada, aproveitarem para pedir aos médicos que tirem um cisto de digitação do meu punho esquerdo e façam a extração dos quatro dentes do siso que venho adiando há anos. Por essa medida, dá para perceber que eu só iria atrás de uma cirurgia de necessidade discutível se tivesse nascido com um olho no meio da testa. Mas a maioria dos plasticamente cirurgiados não nasceu assim. Querem apenas melhorar algum aspecto físico, rejuvenescer um pouco ou tentar uma vaga a atriz-modelo-e-apresentadora duplicando seu, digamos, air bag original de fábrica. A não ser os participantes do “I Want a Famous Face”, programa que estreou semana passada na MTV brazuca, produzido pela matriz norte-americana. No reality-show, os infiéis passam por uma bateria de operações, mudanças de cabelo e figurino para, pasmem, ficar parecidos com seus ídolos. No primeiro episódio, dois gêmeos em plenas desfigurações hormonais causadas pela adolescência vão tentar ganhar o naipe do Brad Pitt. Parece um programa fictício, apresentado em algum episódio do “South Park”, mas não é. E o que é pior: ao receber as informações sobre o programa, fui direto na foto que acompanhava a mensagem. Vi duas imagens: uma com dois adolescentes típicos, cheios de espinhas na cara e cabelo indefinido, e outra de dois rapazes que pareciam algo entre um provável boneco do David Beckhan, o Bon Jovi velho e a Lacraia. O resultado devia fazer as pessoas que vêem a foto, mesmo as que não sabem do que se trata, pensarem: “nossa, como eles parecem com o Brad Pitt, não?” – o que não aconteceu. Na boa? Eu era mais o original. A despeito do que a incômoda fase da adolescência insiste em fazer parecer, uma hora os hormônios se acalmam e você vai ficando mais ajeitado – física e socialmente. Melhor esperar passar do que ficar parecendo... algo que não se parece com nada.
Vamos precisar de outro Jimmy... Hora do lanche, que hora tão feliz! Quando se é criança e está rolando aula de matemática, nada no mundo parece mais lento que o relógio. O maldito quase anda para trás – de propósito, porque sabe o quando esperamos soar o sinal. Naqueles tempos, não tem período mais aguardado que o recreio (intervalo só existe depois da 5a série, antes é recreio mesmo). Claro, pois é ali que vamos encher a barriga de comida e a cachola com memórias. A minha mente vive relembrando o tempo do recreio. Recordo bem das partidas de basquete que tirava com os meninos, da fofoquinha com as meninas, da troca de papéis de carta e figurinha. Mais que tudo, porém, lembro dos artigos que compunham minha lancheira e dos quitutes adquiridos nas cantinas por onde passei. No início de tudo, mamãe ainda preparava o lanche pra mim e alojava tudo na sacolinha apropriada. Em geral, era um pão de fôrma com queijo prato e, para acompanhar, suco de laranja colocado na garrafa térmica. Vez por outra, em geral na semana da despesa, ganhava como bônus Lanche Mirabel ou Danone. Tudo era delícia, exceto pelo suco de laranja: ninguém notava, além de mim, que o líquido ficava amargo feito corrimão de quartel depois de duas horas na lancheira? Nojo! Passados dois anos de carreira escolar, fui enviada para uma escola pública. Lá, quase tudo transcorria de modo diferente. Colégio estadual não tem mãe fazendo fila dupla no portão porque a maioria da garotada chega para estudar a pé ou de ônibus. Também não há verba para muita opulência acadêmica – como mapas novos e apostilas explicativas – ou salas de aula recém-pintadas. Mas há merenda! As tias cozinheiras do saudoso “E.E.P.S.G. Anésia Loureiro Gama” eram feiticeiras pós-graduadas em multiplicação de recursos. Mesmo quando safados políticos metiam a mão no dinheiro público e atrasavam o envio de comida às escolas, como tanto fez Seo Paulo Maluf, aquelas mulheres abnegadas conseguiam forrar nossas barrigas com algo decente. Lembro vagamente do cardápio. Segunda e sexta eram dias de sopa (uma de feijão, outra de macarrãozinho). Terça, se bem recordo, tinha macarrão com manteiga e queijo ralado. O lanche de quarta consistia em pão com alguma coisa gostosa, como mortadela e coisas do gênero. Mas bom mesmo era esperar pela merenda de quinta-feira: um delicioso prato de arroz, batatinhas e salsicha com molho! Era incrível, mas mesmo tendo de cozinhar panelaços gigantes para 400 pivetes, as tias deixavam a comida gostosa. Dá água na boca só de pensar. Em alguns dias, porém, dava bode apanhar o prato de alumínio e a fila da merenda. O jeito era contar o dinheiro no bolsinho da mochila e concluir se dava ou não para apelar à cantina. Lá, meu predileto era um enroladinho de presunto e queijo. Quente, derretido por dentro e com cheiro ótimo, o salgado atiçava o paladar há milhas de distância. Claro, metade da classe pedia “um teco”. E apesar do lanche ter cerca de 10cm x 10cm, nunca tinha coragem de negar a lasquinha. De volta aos bancos escolares particulares, lá pela 6a série, acabou a minha mamata de levar lanche feito pela mamãe ou ter uma merenda governamental para usufruir. Era questão de improvisar: ou afanava um pacote de bolachas antes de sair e casa, ou checava os bolsos para comprar na cantina. Malditos mafiosos! Tudo lá era gostoso, mas caro pacas! Meu predileto, felizmente, era um lanche “de pobre”, mais baratinho. Em vez do cachorro-quente tradicional, a moça do refeitório fazia uma versão editada, contando apenas com pão francês e molho de tomate. Quem precisava da salsicha? O que sobrava do dinheiro ainda dava para comprar balas Banda, de canela, de leite ou mesmo um Chicabon. Juntos, eles me davam a força necessária para encarar as aulas de matemática, química ou física – outras que faziam o ponteiro do relógio andar para trás. E me deixam ainda mais ansiosa pela próxima deliciosa hora do recreio. Eu quero uma casa no campo Na volta de Ouro Preto para São Paulo, resolvemos parar o carro em uma chácara e comprar os quitutes indispensáveis àqueles que, como nós, querem prolongar o gostinho do interior de Minas Gerais por algumas semanas mesmo na cidade grande – lê-se queijo meia-cura, doce de leite, doce de abóbora com coco, geléias. A placa anunciando o local dizia “atendimento vip”, mas não estava preparada para o que viria. Em primeiro lugar, eu passava um grande apuro para ir ao toalete de damas e estava disposta a comprar o que o moço quisesse me empurrar em troca apenas de um vaso sanitário limpo e uma pia com sabonete. Ah, e papel higiênico, claro. Depois de dizer “oi” ao senhor sorridente, fui logo perguntando pelo banheiro. Ele me mostrou uma portinha ao lado da churrasqueira, e eu fiz uso do recinto enquanto galinhas ciscavam e cacarejavam do outro lado do vitrô. Mas não é só pela trilha sonora na hora do xixi que eu cismei com uma casa no campo não. Tem mais. Enquanto escolhíamos os vidros coloridos e repletos de delícias, o senhor foi passar um cafezinho para nós. Queria que experimentássemos, à vontade, cada uma das compotas que a filha dele fazia. Quando pegamos um doce de leite, ele apontou para fora da janela e disse “Esse veio daquela vaquinha ali”. Quando pegamos uma geléia, ele apontou novamente o amplo quintal e disse “A fruta é daquela árvore”. Ouvir coisas desse tipo é muito estranho para uma garota da cidade acostumada a pensar que o princípio de todos os produtos é a prateleira do supermercado. Mas eu ainda tive a sorte de ter avós da roça que ainda cultivam os bons hábitos: passei minha infância na horta do meu avô caçando joaninhas e segurando a barra do vestido da minha avó enquanto ela fazia doce de goiaba vinda do sítio deles. Existem casos mais graves que o meu, pois aposto que muita criança de hoje nunca viu uma galinha – e não vale em peças congeladas. Estou começando agora a entender o que o sábio Sr. Justino queria expressar quando dizia que tinha pena das crianças de hoje, que não contam com um gramado imenso para correrem descalças e uma árvore para subirem, uma vez que os quintais estão cada vez mais escassos na cidade e as áreas comuns de condomínios fechados não dão muito espaço para uma molecagem sadia. Não que eu fosse me adaptar maravilhosamente em uma casa no campo. Só como verdura quando minha mãe me força. Adoro dormir tarde e acordar tarde. Gosto de freqüentar um cinema amplo para assistir aos últimos lançamentos. Sou viciada em Coca-Cola. Não tomo leite, nem suco de fruta natural que não seja coado. Mesmo assim, já incluí na minha lista de desejos um lugar do tipo. E, na minha cabeça, minha casa no campo é linda. Uma espaçosa residência térrea, branquinha por fora e colorida por dentro. Coloridas também são as janelas e as portas, essas últimas com fechadura artesanal. Todos os tapetes e mantas serão feitos por tear manual, usando fibra e pigmentos naturais. O piso, de taco – tirando o da cozinha, que será hidráulico e formando uma trama complicada e bela. Os móveis, todos rústicos, mas não country (que eu odeio). Quero ter dois fogões: um à lenha para enfeitar (e usar só no Natal) e um industrial. Em cima deles, panelas de cobre penduradas ao lado de réstias de alho e de pimenta. Na cama imensa e aconchegante, uma colcha de retalhos. E um quintal verdinho que se desenrola até onde a vista alcança. E gatos, muitos gatos. Sem mencionar a sala com uma tevê gigante e canais por assinatura. Ok, a casa é de campo. Mas nem por isso eu preciso mudar tanto, certo? ![]() Uma dessas já estava bom...
Ícones, sabão e o caso da camisa xadrez Lavar roupas pode ser uma verdadeira aventura. E olha que eu tenho máquina de lavar – um aparelho que supostamente devia fazer tudo. Pelo menos é o que eu achava: basta jogar lá dentro, despejar um tanto de sabão e um pouco de amaciante e voilà!, tirar e pendurar no varal ou enfiar na secadora. Ledo engano. Lavanderia é uma arte muito, mas muito complexa. Vão por mim. Primeiro, tem a indecifrável separação das roupas por lavar. Minha mãe resumiu: “uma pilha de peças pretas, uma de brancas, outra de coloridas; toalhas e panos de cozinha sempre separadamente, assim como panos de chão; peças delicadas, lavar na mão”. Parecia tudo mais ou menos simples, até que topei com uma camisa de estampa xadrez preto-e-branco, com quadradinhos escuros no mesmo número e área que os claros. E agora? Isso é preto ou branco? Caiu por terra a aparente simplicidade da explicação. Mas, como diriam aquelas propagandas de venda pela TV, não é só! Ainda tem a questão das peças delicadas. Quem já esfregou roupa na mão sabe que saco é a tarefa – a não ser que você esteja tentando fortalecer os músculos abdominais e os braços num tratamento de choque. Por isso, quero que o conceito de “peça delicada” fique claramente definido: assim, posso enfiar na máquina tanta roupa quanto possível. O jeito é fazer testes – e, é claro, estragar algumas coisinhas no longo caminho do aprendizado via tentativa-e-erro. Ou acerto. E a história da roupa de cozinha ir separada? Tem idéia do impasse que isso pode virar numa casa com dois moradores? O máximo que consigo ter acumulado no final de semana é uma toalha de mesa e uns dois ou três panos de prato. Dá dó (e é um desperdício) gastar água num ciclo da máquina para meia dezena de peças. Por outro lado, tirar gordura e manchas de shoyu (tempero de saladas favorito aqui em casa) na mão é missão para super-heroínas do lar, patamar que não alcancei. Tentei buscar alguma luz nas etiquetas das roupas, que deviam servir para algo além de cutucar impiedosamente nossa nuca ou o ladinho da barriga. Diz que tem instruções ali. E tem mesmo; o problema é decifrá-las. Quando as regras de lavagem não vêm enunciadas por extenso – coisa que só é possível quando as etiquetas são enormes e, portanto, estorvam ainda mais –, estão codificadas em estranhos ícones misteriosos. Trata-se, portanto, de escolher entre a perturbação de um etiquetão e instruções claras de lavagem ou uma discreta etiquetinha e a eterna ignorância de como tratar aquela peça, já que as regras para lavá-la virão na forma de desenhos em sua maioria indecifráveis. A figura de um ferrinho de passar eu entendo: pode passar a ferro. Um ferrinho com um xis em cima, ok também: não pode passar a ferro. Uma tininha com a inscrição 40o sobreposta, tá beleza: lavar em água até 40o centígrados. Agora, por Deus, o que diabos quer dizer quando a etiqueta tem uma bolinha? E um triângulo? E um quadradinho com uma bolinha dentro? Fica parecendo uma folha de atividade do pré! Atormentada por tais questões, apelei ao sêo Gúgol e, como sempre, encontrei uma resposta. Baixei o Manual do Consumidor Hering, onde mui solicitamente eles listam todos os símbolos de etiquetas e os desvendam. Então percebi que eu sabia ainda menos do que imaginava: há ferrinhos de passar diferenciados, de acordo com o número de pontinhos que está impresso dentro deles! É melhor imprimir uma cópia e pregar na lavanderia. E passar a reverenciar as lavadeiras como verdadeiras artistas. ![]() Será o nome do namoradinho de pré-adolescência, escrito em código no diário? Não, são só os símbolos das etiquetas de lavagem O tesouro do 414 Quando a década de 80 chegou aos seus meados, minha família contava com: uma casa térrea de três quartos não-quitada, um carro “da firma”, um Fiat 147, um poodle psicótico, um pai, uma mãe, três filhos. Além dessas modestas poses, contudo, tínhamos em nosso poder algo capaz de arregalar olhos na rua. Meu videocassete foi o primeiro exemplar do tipo a desembarcar do caminhão das Casas Bahia no Jardim Hollywood! Claro, ele não foi novidade por muito tempo, porque logo outras famílias acharam que o tal do vídeo podia mesmo ser uma boa idéia e adquiriram os seus em prestações a perder de vista. Nosso modelo era Sharp, com duas cabeças (o que quer que fosse isso, porque ninguém sabia) e controle remoto... com fio! Isso mesmo: a facilidade contava com três míseros botões de Play, Rewind e Forward. Nem Stop tinha, coisa mais esquisita. Mesmo assim, o videocassete logo se mostrou uma preciosidade. Imaginem vocês que, com ele, pudemos achar a MTV no canal 32 UHF e ver clipes! Antes disso, a música de assistir só tinha vez nos programas “Realce” e “Clip Trip”. Com o advento da Music Television, encontramos astros ainda em ascensão por aqui, como um rapaz com cara de menina e uma garota de cabelos multicor. Evidente que foram devidamente gravados em VHS para a posteridade. E depois passados e repassados no velho Sharp para a moçada da rua e para a própria diversão caseira. Lá na Rua Copacabana, 414, quase gastamos a fita magnética assistindo às apresentações desta gente que segue. Paul McCartney e Michael Jackson – Say Say Say Paul de novo – No More Lonely Nights B-52’s – Private Idaho Bruce Springsteen – Dancing in the Dark Cyndi Lauper – Time After Time Boy George – Karma Chameleon Blitz – Weekend Toda a máfia – We Are The World Footloose
A cena dava briga lá na Copacabana, 414 O que acontece com a tevê? Costuma-se dizer que a televisão faz as vezes de babá dos pobres – já que é bem mais fácil comprar o aparelho à prestação nas Casas Bahia e largar o filho na frente dele o dia todo do que contratar alguém para cuidar do rebento. Apesar de minha mãe jamais ter deixado a telinha tomar conta de mim durante a infância, posso dizer que a babá daquela época era bem mais capacitada do que a de hoje. Não é novidade nas discussões sobre a qualidade da tevê o fato da nossa programação aberta estar pela hora da morte. Bumbuns passeiam pelos programas em horas familiares e pessoas do povo são humilhadas com pegadinhas. Há ainda a degradação do status de "artista" – ou a popularização, uma vez que qualquer mané bombado é rapidamente alçado à condição de estrela. Mas é sobre outra coisa que eu quero falar. E não vou escrever um manifesto sobre a perdição da televisão brasileira. Pensando bem, a programação nunca foi de qualidade. Apenas piorou horrores ao longo dos últimos anos. Ei, mas a humanidade também não tem piorado? Então. Contudo, o que eu vejo atualmente é a perda da diversão – o que, ao meu ver, é tão ruim quanto a perda da qualidade. Não sei se é porque eu era mais nova e mais deslumbrada, mas a questão é que assistir à tevê ficou chato. Na maioria das vezes, beira o insuportável. E vou provar! Peguemos a tal da novelinha das oito que acabou na última sexta-feira. Ao que parece, o autor não faz a mínima questão de esconder o fato de que o folhetim teve a trama requentada de "Vale Tudo". Agora botemos "Celebridade" e "Vale Tudo" na balança: tem comparação? Ah, por favor! Não faço a menor idéia de quem era o tal de Lineu, mas não esqueço quem foi Odete Roitmann – e olha que eu tinha 11 anos e nem seguia a novela tanto assim. Programa para jovens hoje. O que temos? "Malhação", um monstro de sete cabeças oxigenadas. O troço começou mostrando as agruras dos adolescentes dentro de uma academia (hã?). Depois, quando a idéia gastou, eles transformaram o local em escola, cursinho, lanchonete e sei lá mais o quê. Agora "Malhação" deve ser uma estação lunar cheia gente bonita. Pois quando eu era o público-alvo disso, assistia à "Armação Ilimitada" – aquilo sim um programão, que mostrava gente bronzeada, surfe e praia, mas com um pé no nonsense e (por que não?) na inteligência. O que era melhor, "Viva a Noite" ou "Domingo Legal"? Em qualidade, ambos ficam devendo feio. Mas enquanto o mais novo abusa de recursos para fazer televisão ruim, o primeiro fazia essa mesma televisão ruim de um jeito despretensioso e engraçado. E "Perdidos na Noite" ou "Domingão do Faustão"? O apresentador é o mesmo. O que mudou foi o salário, a verba e a audiência – estranho, pois a grana que entrou deveria melhorar ao invés de piorar, certo? Outro que eu não entendo é o "Globo Repórter". Quando eu era pequena e morria de medo do tema de abertura do jornalístico, lembro-me de assistir a umas matérias investigativas, contestadoras, misteriosas, obscuras. Agora... Dá-lhe tuiuiú! Não tem uma sexta-feira que o programa não nos brinda com imagens do pôr-do-sol do Pantanal. Ok, é bonito, mas não está acontecendo nada de mais interessante no mundo não? Por fim, vejam os humorísticos... Alguém aí agüenta assistir a cinco minutos de "Zorra Total" ou "A Praça É Nossa"? Nunca gostei do Chico Anysio, mas o programa dele era bem melhor que tudo isso. E os "Trapalhões" então... Agora temos "Turma do Didi", que chega a ser vergonhoso. Coroando o exemplo vem Jô Soares, antes um cara cômico, hoje um mala que gosta de aparecer mais que o entrevistado em seu programa. Veja bem: meu discurso não é "ah, na minha época é que era bom", porque não era. Nunca foi. Mas que o pessoal das antigas sabia entreter muito mais, ah, isso sabia. Babá mais chata essa atual, viu. Vivi Griswold às 09:54 AM
Acaba logo com essa novela! Como eu já disse por aí, sou uma garota de finais. Não tenho disposição suficiente para ver um jogo de futebol inteiro – nem durante a Copa –, a não ser que a partida em questão seja final de campeonato. Assim como não tenho paciência suficiente para ver uma novela inteira desde “Vamp”, a última que “acompanhei” (como dizia minha avó, que não assistia novelas, mas sim as acompanhava). Porém, último capítulo das tais é comigo mesmo! Não sei se fui eu que encontrei novos interesses e horizontes e desenvolvi um bocadim mais de senso crítico ou se a qualidade desse produto de exportação nacional caiu mesmo. Mas o fato é que desde a divertida avacalhação vampiresca escrita por Antonio Calmon e dirigida por Jorge Fernando não encontro saco disponível para ver toda aquela enrolação – que, como é sabido, vai terminar do mesmo jeito. Assim, desenvolvi a portátil técnica de assistir alguma coisa dos primeiros dias, pular todo o recheio e esperar até chegar logo o que interessa: o último capítulo. O problema com essa tática é o distúrbio que causo na minha irmã, noveleira de carteirinha, ao ficar perguntando o tempo todo coisas do tipo “mas por que ele está casando com ela?” e “de quem é esse bebê que a moça tá esperando?”. Apliquei esse truque com “Celebridade”, a embromação mais recente do horário das oito, que fechou sua trama sexta passada – com a tradicional reprise no sábado, claro. A semana inteira houve um bombardeio da mídia para fazer pegar a pergunta “quem matou Lineu?”, reciclada da inesquecível “quem matou Odette Roitmann?”, surgida na época da genuinamente notável “Vale Tudo” – não por coincidência, novela do mesmo autor, Gilberto Braga. Pensei com meus macaquinhos: “bem, ‘Vale Tudo’ terminou com um vilão se dando bem (quem se esquece do Reginaldo Faria a se mandar, despedindo-se do Brasil com uma banana?). Quem sabe o sêo Gilberto não repete a corajosa tática e se redime dessa encheção de lingüiça?”. Má quê! “Celebridade” terminou como todas as outras: dois casamentos, dois vilões mortos, um preso e as personagens de valores duvidosos, mas não malvadas o suficiente para serem categorizadas como vilãs, encontrando a redenção e a recompensa depois de muito sofrimento. Resumidamente, a Laura matou o Lineu; o Renato matou a Laura e o Marcio Garcia; o Guma ficou com a Duda (aka Maria Clara); o bombeiro casou com a Deborah Secco e a Juliana Paes se arranjou bem com um dos primeiros negros de novela que não era mordomo nem motorista; o roitmann da vez Alexandre Borges casou com a mulher que, bem, já é mulher dele mesmo. Que bela porcaria. Se sou eu a responsável por essa novela, mato o Guma e faço a Maria Clara e a Laura se apaixonarem, dividindo a casa, a fama e a filha para criar. Mando o Renato acabar como apresentador do “Fama” (o programa, não a revista. Não imagino castigo pior) e o Marcio Garcia fugir com as duas alpinistas sociais gostosas para o Caribe. E deixo o bombeiro bonitão virar pivô da separação de uma modelo-e-atriz dos anos 80, agora casada há anos com um empresário e cuja ocupação maior é ser madrinha de bateria no Carnaval. Ôpa. Peraí. Acho que isso já aconteceu.
Tem festa no gueto! Tudo bem: eu não morava exatamente em um gueto. Nasci e cresci em um conjunto habitacional classe-média destes com casas iguaizinhas desde o portão de ferro até o muro chapiscado. Por isso mesmo, vai ver, quase todas as famílias ali tinham o mesmo estilo de ser e viver. Tanto que eventos climáticos ou acontecimentos populares viravam sempre para o mesmo rumo. Nem era preciso trocar muitas informações: a gente apenas sabia como agir em termos de comunidade. Por exemplo: quando a Copa do Mundo se aproximava, ninguém precisava fazer abaixo-assinado de casa em casa pedindo autorização para pintar o asfalto com motivos futebolísticos e patrióticos. Era só um dos moleques passar a mão nas latas de tinta sobradas da última pintura da sala e reproduzir na rua uma bandeirona. Um bando de palpiteiros ia ajudar, outra turma ia apenas apontar os erros – e mandar tirar aquelas 14 estrelas a mais colocadas na bola azul. Bairro proletário sempre tem desses tipos mesmo. Na época da poda das árvores, era a mesma coisa. O caminhão da prefeitura passava tesourando as acácias, e na cola dos trabalhadores iam as donas-de-casa palpitando “deixa esse galho que é bonito, tira aquele mais feioso, filho!”. Elas tratavam o paisagismo público como seu próprio jardim. Folgadas, mas bem intencionadas, vá? Melhor ainda eram para a criançada, que podia apanhar os galhos e inventar as mais absurdas brincadeiras. Eu tinha uma, como já contei antes. A molecada da vila, aliás, também tinha sua própria dinâmica estabelecida. Quando o céu pretejava e começava a chuva forte, era batata: a enxurrada se formava nas sarjetas e, para a gente, tinha a violência e a diversão das Cataratas do Iguaçu! Formado o aguaceiro, todo mundo corria para dentro de casa e pedia à mãe para brincar no toró. Nem bem ganhávamos resposta positiva, lá estava a turba pisando nas poças. A gangue sabia também que, para ser legal de verdade, o chuvaréu tinha que ser tomado de roupa completa, com tênis e tudo, e não valia frescura de “não posso entrar debaixo da calha que senão minha mãe briga”. Estava na chuva, era pra se molhar, diabo! Outra época de farra absoluta para a criançada da vizinhança era o período de eleições. Naquele tempo das recém-conquistadas “diretas já”, havia uma briga de foice entre vereadores e deputados para uma vaguinha no poder legislativo. Para agradar, além do comício com música, eles faziam sempre a mesma coisa: enchiam um caminhão de santinhos e saiam largando sacos e mais sacos de papéis ao vento nos bairros classe-média. Para mim e para os meus amigos (não responsáveis pela limpeza urbana) era uma glória! Teve um ano em que algum gênio achou de estampar, no verso do santinho, uma nota de dólar (que espécie de plataforma política tinha o maldito, não me lembro). Imaginem como as brincadeiras de casinha e banco se tornaram mais profissionais naquele ano! A rua ficou literalmente forrada de papel – e as caixas de sapato imitando registradoras inflacionaram, de tantas notas bacanas para armazenar. Comunidades organizadas em bairros também sabiam fazer uma bela festa junina onde cada um levava seu pratinho de doce ou salgado e montar belos esquemas de “tranca-rua” para transformar a rua em quadra de vôlei, futebol ou pista de ciclismo. Não que fôssemos unidos, não. Era mais fácil ver um vizinho brigando por causa do carro estacionado na guia baixa do outro do que pardais empoleirados no fio de luz. Mesmo assim, a dinâmica funcionava para festanças de chuva ou Copa. Era a lei do gueto. Molecagem em sentidos Lembranças de nosso tempo de crianças alegres (e birrentas e arteiras) não ficam armazenadas apenas na cachola. Vez ou outra um fato da minha infância, até o mais obscuro, chega sem aviso incentivado por um gosto ou um toque. Pois a memória não seria tão completa sem a ajuda dos cinco sentidos essenciais – eles estão aí para que momentos simples e preciosos não escapem com o passar dos dias, meses e anos. Como bem descreveu a Clara em seu último texto, um cheiro vindo de algum lugar é capaz de despertar uma série de sentimentos e cenas antes apagadas. Outro dia, por exemplo, fui atingida pelo aroma de pipoca doce de carrocinha. Instantaneamente, me veio à cabeça o sêo Gênio, um velhote de 105 anos que empurrava um carrinho repleto de guloseimas vendidas de porta em porta na rua da minha avó. Não se fazem mais pipocas doces como a do sêo Gênio. Nem velhotes como ele. Tudo isso chegou à minha cabeça em questão de segundos – e por culpa de um vento que bateu na panela do pipoqueiro e veio de encontro a mim. Ainda bem tenho meus cinco (às vezes, seis) sentidos para manterem vivas algumas chaminhas da infância. Audição A frase “olha o carro!” Panela de pressão O relógio de Dona Diva Paladar Groselha Bubaloo de tutti-frutti Cachorro-quente de rua Tato Melancia Cama-de-gato Permanente Visão Caipirinhas Realejo Dente-de-leão Olfato Desodorante Alfazema Bacalhau Sabonete Phebo
Isso está me cheirando a... Memória olfativa é o termo usado pelos sapientes cientistas e estudiosos para definir aquelas lembranças detonadas por um cheiro. Eu sei, parece estranho, mas pense comigo: quando você sente cheiro de massinha ou giz de cera, não se lembra do pré? E cheiro de feijão cozinhando ou frango no forno, não lembra almoço de domingo? A memória olfativa é muito poderosa – pelo menos no meu caso. Desinfetantes baratos me lembram a escola. Naftalina me lembra a casa da minha avó, que guardava essas misteriosas bolinhas brancas (principal exemplo do fenômeno da sublimação nos livros didáticos de Ciências e Saúde) em tudo que é gaveta. E aquele cheiro de química de revelação fotográfica me lembra o dia em que perdi uma amiga querida – eu estava no laboratório de foto da faculdade quando recebi a notícia. Incrível como o olfato é capaz de marcar uma lembrança e torná-la indelével na cachola. Mais impressionante ainda é a verdadeira viagem no tempo que um simples cheiro é capaz de causar. Quando meu nariz se depara com um desses odores, aquela técnica televisiva da “fumacinha da memória” parece acontecer na vida real. É como se eu vivesse de novo nos dias do pré ou escarafunchada no quarto de costura da casa da minha vó, alinhavando botões. Notei também que cada momento do dia tem um cheiro, pelo menos quando você circula entre as casas da vizinhança – estejam elas grudadinhas umas às outras, feito aqui no condô, ou perfiladas na rua. As manhãs costumam cheirar a café e novidade, pelo menos cá em casa e no ao-redor dela. Na casa da minha infância, também cheiravam a sabão em pó e amaciante – era a hora em que minha mãe ou a nossa inesquecível secretária do lar Berenice lavava roupas. O almoço chega com cheiro de feijão cozido e crianças perfumadas e uniformizadas indo à escola. Às vezes, a fumaça de um bife frito e cebolas tinindo num refogadinho com manteiga também atingem a minha janela. O fim da tarde tem um cheiro de sabonete, mas não aquele odor da peça em si: o esquema é o cheiro de banho; sabonete misturado a xampu, os dois embalados nos vapores da ducha quentinha. Noites de verão, para mim, têm cheiro de baunilha ou flores. Não espanta minha preferência por essa estação – da qual já sinto saudades. E a madrugada me cheira a mistérios, cigarro e idéias malucas. As pessoas também têm um cheiro específico – não só as que usam perfumes, tampouco só as que não conhecem aquele facilitador da convivência chamado desodorante. As casas, então, nem se fala! Afiem o nariz e descubram. O olfato pode ser um sentido muito útil para quem gosta de lembrar, como eu. É amanhã! A Campanha de Doação de Sangue, bolada pelos queridos leitores do Fórum, rola amanhã. Tudo que você tem de fazer é estar lá no Pró-Sangue do Hospital das Clínicas para ajudar gente que precisa - e muito - da sua força. Mais detalhes, aqui. Vamos todos sentir um pouco daquele cheiro de hospital, mas é por uma óóótima razão! Clara McFly às 07:39 PMOnde diabos foram parar? Às vezes eu perco coisas em casa e não há meios de encontrar as danadas. Parece o mesmo tipo de efeito que assola os talheres da Clarinha e o armário da Vivi – eu queria mesmo uma explicação do Padre Quevedo sobre como esses mistérios acontecem. Mas tem situação pior. Lembro de vários itens que fizeram parte da infância, mas desapareceram da minha casa e de todas as demais como por encanto. Teriam sido tragados pela terra ou confiscados por órgãos do governo? Sobre as miudezas, eu compreendo totalmente o sumiço. Não vejo um dedal, por exemplo, há mais de ano. Existiam às dezenas em casa, mas um dia desapareceram todos. Algum sabichão aí pode dizer que ninguém mais costura, daí a resposta para os dedais terem sumido. Eu ainda acho que foram roubados por duendes colecionadores de artigos de cerzir. Outro exemplo: nos anos 80, todo mundo no mundo (na verdade, toda a minha rua lá em São Bernardo, que era basicamente o meu mundo) fazia uso do xampu do Bozo. A embalagem do palhaço era figurinha certa de se encontrar em 9 a cada 10 banheiros. O líquido eu concordo ter seguido pelo ralo após usado. Mas e os frascos? Onde foram parar os tubos de xampu do Bozo, meu deus? Ok, vai ver eles também caíram nas fornalhas de reciclagem e se transformaram em variados modelos de tupperware. O mistério maior é saber onde estão escondidos os itens grandões. Eram tão úteis, como foram se esvair em fumaça assim? Só pode ser conspiração, pois eram todos populares demais mesmo. Eu queria saber: onde estarão... ... os bidês? ... os filtros de barro? ... as cadeiras de balanço? ... as máquinas de escrever portáteis? ... as vassourinhas mágicas? PS: Procurei loucamente uma imagem da vassoura mágica para colar aqui, mas cadê que achei? Os homens do governo estão fazendo um belo trabalho... Onde estão os doadores? Gente disposta a abrir mão de uns minutinhos e uns saquinhos do próprio sangue... Isso também anda sumindo do mercado. Mas não se depender de nós, usuários do Fórum do Garotas! A idéia começou lá, mas mesmo quem não faz parte da turma pode vir nos encontrar no Pró-Sangue do Hospital das Clínicas neste sábado, dia 26. Faça parte da Campanha de Doação de Sangue amanhã e serás sempre lembrado por uma pessoa necessitada. Para saber mais, clique aqui! Daqui ninguém me tira O plano estava perfeito: sairia de férias na quarta-feira rumo a Ouro Preto, Minas Gerais, para cinco dias de passeios históricos e chiliques de fotografia (este último por conta do namorido). Para isso, precisava apenas adiantar três textos do Garotas e ir despreocupada. Faltou um – o de hoje, que eu prometi escrever de alguma lan house perdida entre as ladeiras. Por que o plano foi por água abaixo? Porque eu não consigo escrever direito aqui. Olhando para fora deste local pequenino com quatro computadores, uma bancada de doces e internet a cinco reais a hora, vejo uma rua de paralelepípedos e um casarão iluminado por alguns lampiões – são 18h de quinta-feira, 24 de junho, dia de São João. Conhecer Ouro Preto estava entre os itens da minha lista “coisas para se fazer antes de morrer”. Apesar de paracer tarefa das mais fáceis, curiosamente acabei conseguindo ver um show do Morrissey e ir ao Egito (outros itens essenciais) antes. Toda vez em que eu planejava vir até a cidadezinha mineira alguma coisa dava errado. Desta vez, nada deu errado. E, até agora, tem dado certo até demais. Quando chegamos ao hotel ontem à noitinha quase caí de joelhos ao ver a vista do quarto, nada menos que a uma panorâmica do centro histórico, incluindo a praça Tiradentes. A janelinha do chuveiro acompanha o visual, e eu nem consigo me ensaboar direito com tudo aquilo para ser admirado. O café-da-manhã teve cada um de seus componentes devidamente apresentados pelo dono do hotel, com aquele sotaque inimitável. Como estamos em baixa estação, somos o único casal do lugar. Haja mimo. E haja bolo de fubá, geléia de pitanga, queijo fresco, pão sovado. “Tudo da roça”, disse o senhor, um artista plástico que vive com um cão chihuahua debaixo do braço. Depois de encher a pança e planejar minha fuga rolando as escadas, lá veio ele novamente tentando empurrar “mais um queijinho”. Após a caminhada e a visita em todos os monumentos, saiu um sol quentinho e eu me sentei voltada às montanhas. Naquele momento, pensei: “daqui ninguém me tira”. Pronto, não quero ir embora. Vou comprar uma casa caindo aos pedaços e passar o resto da vida olhando a vizinhança passar pelo janelão de vidro grosso (aparentemente, é o que fazem todas as Mirtes da cidade). Vou comer só feijão tropeiro e torresminho, em porções capazes de satisfazer um refugiado de Kosovo. Com essa espécie de pensamento em vista, meu texto de hoje foi para o beleléu. Ficou em São Paulo, talvez. O clima em Ouro Preto está mais para ficar com a perna para cima e olhar o pôr-do-sol. Aliás, o que estou fazendo nessa lan house mesmo? Até a volta, leitor. Ou não.
Vá fazer uma visitinha! Tudo bem: vai ver visitar o banco de sangue em pleno sabadão não seja tão divertido quanto passear pelas vielas de uma linda cidade histórica... Mas faz uma diferença danada na vida de muitas pessoas. Por isso que amanhã, sábado, dia 26 estaremos participando da Campanha de Doação de Sangue criada por adoráveis cidadãos participantes do Fórum do Garotas. Clique aqui e venha fazer um passeio pra lá de importante! Vivi Griswold às 09:47 AM
Somos amigos, amigos do peito Quantas pessoas será que a gente conhece na vida toda? Lembro-me de ter lido alguma estatística do gênero por aí há algum tempo. Mas penso na questão há muito mais anos, desde que eu era uma pirralha engraçadinha e meio insegura, de aparelho nos dentes, no colegial (é, aparentemente eu não tenho muito o que fazer desde essa época). Acho que o número chega aos milhares fácil, mas daí é preciso filtrar os muito amigos, os amigos, os colegas, os conhecidos e os oi-e-tchau. Tais categorias, na verdade, teriam de ser bem melhor definidas. Quando alguém é elevado do time dos “conhecidos” para o dos “amigos”? E dali para os “amigos-sem-os-quais-não-vivo”? Conta mais a freqüência com que a gente vê a pessoa ou o que a gente sente por ela? Gozado como nos primeiros anos da vida a gente tem sempre um “melhor amigo” à tiracolo, daqueles para quem a gente diz “só vou se você for” e coisas do tipo. Além disso, o posto tem alta rotatividade: a cada ano, renovamos seu ocupante. Em compensação, depois de uma certa idade (isso soou quase geriátrico), aparentemente perdemos a disposição de fazer novos amigos. Eu, por exemplo, tenho uma preguiça danada de conhecer a pessoa, descobrir as coisas das quais ela gosta, passar por aquele breve constrangimento ao saber que ela adora Jota Quest ou não se lembra do Bozo, aparar as arestas, telefonar, apresentar sua mãe, seu pai e seus velhos amigos, imaginando se todo mundo vai se dar bem... Enfim. A minha primeira melhor amiga foi a Lenislei, coleguinha de classe do primeiro ano da Pré-Escola. É um nome que eu normalmente acharia esdrúxulo, um daqueles transgênicos duvidosos feito Wandercleison. Mas por ela ter sido, como eu disse, minha primeira melhor amiga (depois do tio Badépi, claro), guardo essa graça com o maior apreço e acho até simpática. No ano seguinte, ainda nos domínios do Pré, minha melhor amiga foi a Lilian. O pai dela viajava a trabalho e ela tinha umas botas sensacionais que ele havia trazido de algum país nórdico. Isso é basicamente tudo que eu lembro a respeito – e que ela era boazinha, também, claro. Na primeira série, minha melhor amiga foi a Fernanda Marson – assim mesmo, de nome e sobrenome, porque aparentemente a minha geração chegou atrasada no Banco de Nomes e só sobrou esse (tinha umas quatro Fernandas na minha classe). Depois, na segunda série, o cargo passou para a Juliana Nishizaki (dou nome e sobrenome pelo mesmo motivo). Nos anos subseqüentes, meu escopo aumentou e eu passei a ter um “grupo”. Conheci o Ricardo Mattiuz (será que eu só arrumo amigos de nomes populares?), um menino chato e rebeldezinho que entrou na minha escola no ginásio. Numa enquete da época, na tradicionalíssima pergunta “quem você deixaria numa ilha deserta?”, tasquei o nome dele seguido de uma série de impropérios infantis. Ele fez o mesmo comigo. Em março desse ano, estive no casamento dele. Ainda estou devendo o presente, mas anos depois da quinta série chegamos num tal nível de intimidade (no bom sentido, claro) que isso não é problema. Ele é padrinho da minha irmã e um daqueles amigos indefectíveis, faça chuva ou faça sol. A vida escreve certo por linhas tortas – mesmo que seja nas tortas linhas de um caderno de enquete. Amigo de fé, irmão camarada Quem honra a descrição do título pode provar sua capacidade de ser amigo – mesmo de quem a gente nem conhece – passando lá no Pró-Sangue do Hospital das Clínicas neste sábado, dia 26 (também conhecido como depois de amanhã), para participar da Campanha de Doação de Sangue agitada pelos nobres participantes do Fórum do Garotas. Saiba de tudinho clicando aqui - e sigam-me os bons! Atenção: homens trabalhando A reforma aqui em casa não acaba nunca. Já disse e repito: me sinto como a protagonista de “Um Dia a Casa Cai”, pedido a pasta de dente ou o saco de pão ao mais próximo moço da obra. E são tantos moços da obra! Ao todo, devem ter passado pelo meu “lar, poeirento lar” uns 20 especialistas em piso, elétrica, sinteco, marcenaria. Sabem do que mais? Não há como deixar de adorar a turma. Sempre achei pedreiros os tipos mais engraçados do mundo. Primeiro, porque há aquela união natural entre os membros da profissão: todo pedreiro-chefe tem um assistente meio mudo e tímido. Trata o rapazinho duramente, mas não vive sem o tal. Este, por sua vez, tem a função de aprender o serviço e fazer as tarefas mais chatinhas. É como um treinamento jedi! Mas em vez de sabres de luz, eles operam com pás e talhadeiras. Também me mato de rir com as conversas. Da sala, onde montei um QG improvisado para trabalhar – entre o sofá coberto com lona preta e os sacos de cimento, que delícia – ouço os papos mais hilários. Fofocas sobre fulano e beltrano são comuns (parecem um bando de Mirtes falando da vida alheia, mas cobertas de tinta e pó). Já futebol, por incrível que pareça, rende pouco assunto. Vai ver é medo que a discussão acabe em guerra de azulejos... Na hora do almoço é quando eu sinto inveja dos pedreiros. Ao som das 12 badaladas vespertinas, eles largam o serviço no ponto em que estiver para apanhar a marmita. Céus, como aquela comida cheira bem!!! Nem os chefes de cozinha de luxentos restaurantes franceses resistiram, eu tenho certeza. Pior: eles trazem sempre a composição de prato que eu mais gosto, com arroz, feijão, carne e, vez por outra, dois ovos fritos. Dá vontade de avançar na cumbuca de um, juro. Passada a refeição, chega a hora da folguinha. Quem disse que no Brasil não há siesta, como na Espanha? Pedreiros usam muito essa tática de relaxamento – se bem que um pouco adaptada. Chupam uma laranja, largam o corpo todo na calçada, colocam o boné na cara e puxam um ronco. Daí acordam, mexem com toda e qualquer menina que passa das maneiras mais desclassificadas (e divertidas, eu assumo), riem um bocado e voltam ao batente. Esses sabem aproveitar o expediente. Curioso é que a rotina não muda mesmo nos dias frios de inverno. O termômetro marca 18 graus, mas os cidadãos teimam em usar chinelo de dedo, bermuda e camiseta das eleições de 1984 com buracos. Nem ligam para os meus apelos de “Antônio, por deus, tenha amor pela sua saúde e veste uma meia, homem!”. Eles dizem que incomoda para trabalhar, então eu acredito. Mas ofereço chá quente ou café, para ver se afasto a ameaça de pneumonia da área. Nem sempre foi assim, porém. Quando eu era pequena, o senhor que reformou a cozinha da mamãe usava calças de prega, sapato social, camisa (puída, mas na estica), relógio brilhante e... chapéu de feltro marrom! Esse era o meu Vô Mário, pedreiro de mão-cheia, senhor das precisas técnicas de alvenaria, dono de um estilo único de vestimenta profissional. Meu avô pode não ter sido o melhor pedreiro do mundo, mas foi ele quem primeiro me mostrou como essa turma pode ser tão animada quanto trabalhadeira. A reforma não acaba nunca, para meu divertimento pessoal. O misterioso túmulo do amasso Desde que me mudei para o novo apartamento, tenho dedicado pelo menos um dia da semana para caminhar pelo bairro. Nas minhas andanças, descobri uma loja que só vende embalagens, um depósito de roupas de grife a menos de 10 reais cada, um restaurante indiano vegetariano bom e barato, uma casa estranha que mais se parece museu ao ar livre. Mas de todos os mistérios de Pinheiros, o maior até agora foi o do túmulo do amasso. Sempre trato de espiar comprido quando passo por um cemitério. Não acho locais assim feios ou assustadores – pelo contrário: vejo tranqüilidade e uma certa tristeza serena, além de ficar cheia de curiosidade por saber quem foram aquelas pessoas em vida. Hoje moro perto de um cemitério, o da Cardeal Arco Verde, e é cortesia de dois dos “moradores” de lá nossa história de hoje. Há algum tempo, ao caminhar pela calçada do longo muro branco, espiei um túmulo que me deixou completamente intrigada. Do ponto onde eu estava dava para ver uma estátua de um homem nu em cima de uma mulher, erguendo sua cabeça em um beijo ávido. Quase tropecei com a visão e pensei “Caramba! Eles estão fazendo sécho em cima da cova!”. Nos dias em que caminhei naquele trecho, me pegava olhando para o estranho túmulo e sua estátua erótica, tentando pensar em alguma teoria que explicasse o motivo da homenagem. Por que alguém da família optou pela escultura, no mínimo, estranha? Quem estava enterrado ali? Quando contei a história às meninas, elas zombaram de mim. Desacreditaram na minha narração e acharam que eu estava vendo coisas no cemitério – cá entre nós, um bom lugar para ver coisas. Certa vez, porém, ao me trazer para casa, fiz Clara desacelerar o finado Deep Purple e olhar para o tal túmulo do amasso. Por sorte, ele é a primeira coisa que capta o olhar em um portãozinho menor, ao lado da entrada principal. Quando o viu, a loira deu um grito de “ai, meu Deus, é mesmo!” e eu fiquei satisfeita por ter limpado o meu nome na praça. A partir daí, tentamos imaginar teorias que justificassem o pega-lá-que-eu-pego-aqui perpétuo. A melhor de todas sugeria que a morta era uma tia idosa, virgem e chata, além de rica e pão-dura. Os sobrinhos, que queriam a herança e torciam pela sua morte, descobriram que a idosa deixara todo seu dinheiro para o cão pequinês. Cegos de ódio e querendo se vingar da mulher – ela estar morta não bastava – a sobrinhada fez uma vaquinha e reuniu dinheiro para a estátua. Na lápide, um dizer ácido como “aí está o que ela nunca teve”. Vendo que nossa imaginação passou a tomar rumos estranhos, eu e Clara decidimos ir tirar a dúvida visitando o tal túmulo. Chegando lá, duas surpresas. Para começar, o casal não estava, hã, acasalando. De outro ponto de vista, a coisa mudava um pouco: a mulher estava vestida, e o homem nu permanecia ao lado dela. Bem encostado, é verdade. Mas ao lado. Ali estão Nino e Maria. Nino morreu em algum ano da década de 40 (faltam números na data). Maria, a esposa inconsolável, enterrou-o sob a frase “Ó Nino, meu esposo, meu guia e motivo eterno de minha saudade e de meu pranto”. Já Maria viveu mais quarenta anos. Na lápide dela, os dizeres “Aqui repousa Maria ao lado de seu inseparável esposo”. Para nosso espanto, o túmulo do amasso escondia uma bela história de amor. Desfeito o mistério, prometemos voltar um dia ali para deixar flores aos pombinhos.
Sem a sorte de um amor tranqüilo Agenor de Miranda Araújo Neto nasceu em 4 de abril de 1958, filho único de um casal de posses não lá muito enormes, mas também nada modestas. Foi uma criança quieta, porém a chegada da adolescência revelou um garoto rebelde. Debaixo da proteção da supermãe Lucinha, ele parecia um pirralho mimado, mas esfuziante. Assim é o astro da primeira hora do filme “Cazuza – O Tempo Não Pára”. Cheguei-me à salona escura ontem, para ver a produção, impulsionada pelo namorido – fã do Barão Vermelho. Entrei gostando de Cazuza e com a opinião de que seu papel no cenário musical dos 80 fora bem mais interessante que o de outro chamado “poeta do rock” da geração, o imortal (literalmente, já que não pára de lançar discos) Renato Russo. Saí da projeção com certeza disso. Alerto quem pretende pagar umas lascas numa sessão do filme: a produção não é uma cinebiografia. Se “Frida”, por exemplo, é como uma fotografia da vida da pintora mexicana – para citar uma peça do gênero -, “Cazuza” é mais uma, digamos, ilustração. Claro, baseada na história do cantor e compositor – mas com passagens e roteiro bem romanceados. Aceito esse ponto, é um filme bem bacana. Descobri que tudo aconteceu muito rápido na vida desse cara autêntico – até demais, tanto que vivia desafiando qualquer atitude que fosse razoável e socialmente aceitável. Toda a energia de Cazuza parecia ser dirigida a uma vida sem limites, regada ao trinômio hoje clichê de sexo, drogas e rock’n’roll. Essa fase rendeu algumas das letras mais poderosas do rock da época – e que ainda têm punch. Cazuza gravou três discos com o Barão, que conheceu através do Léo Jaime e, no auge da banda, começou a se sentir infeliz com as limitações impostas por ser o vocal de uma “banda de rock”. Ele queria cantar Cartola e outras vertentes da música brasileira. O que fez? Se mandou para a carreira-solo, em julho de 1985 – poucos meses depois da brilhante apresentação no Rock in Rio (que nessa época ainda era no... Rio). Dois anos depois, ele já tinha dois álbuns como artista solo na bagagem – e a consciência da doença que contraíra. Talvez por isso já tivesse se transformado numa pessoa mais madura – sem, no entanto, abandonar o autêntico inconformismo. É impressionante, ao menos no filme, como o rebelde Cazuza passa por tal mudança rápido. Acredito que tenha sido assim mesmo, porque tudo na vida dele foi assim, depressa demais. Inclusive a chegada da indesejada: Cazuza morreu com 32 anos, depois de assumir muito corajosamente sua condição (eu não disse que, a despeito da personalidade mais tranqüila dos anos derradeiros, a autenticidade permanecera?). No show que ele fez no Canecão, já muitíssimo afetado pelo HIV, cantou a bela “O Tempo Não Pára”, minha preferida do seu extenso e variado repertório. Essa gravação ao vivo ficou famosa e ainda é muito executada nas rádios. É aquela em que ele termina com um pontual “obrigado” – e é também a canção que embala o trecho mais tocante do filme. Afinal, durante a apresentação, Cazuza já estava num estado que o fazia tomar oxigênio no palco, durante o solo da música. Mas continuava lá. Em julho de 1990, o meteórico pirralho mimado e esfuziante encerrou sua participação por aqui – já como um verdadeiro poeta (e não só do rock). A mesma energia e coragem que alimentava a rebeldia da juventude foi usada por Cazuza para enfrentar o processo irreversível e implacável de sua morte anunciada. Para nós, sobrou uma produção tão eclética, crua e verdadeira que é impossível não gostar de pelo menos uma música – da pop “Maior Abandonado” à chocante “Só as Mães São Felizes”, passando pela delicada “Eu Preciso Dizer que Te Amo” e a matadora “O Tempo Não Pára”. Acho que Agenor (ele não gostava muito do nome, até descobrir que essa também era a graça de Cartola, seu ídolo) sabia disso como poucas pessoas.
![]() Isso é que é amor de mãe: Lucinha preserva a memória do filho com a Sociedade Viva Cazuza
Mexa esse traseiro gordo! Se tem um ditado sob o qual eu aplico feliz minha assinatura, é o bom e velho “cabeça vazia é oficina do diabo”. Todo mundo sabe o que significa: quando a mente não é ocupada com coisas interessantes, há tempo de sobra para o cultivo de minhocas. Ando vendo tanta gente sem nada a fazer, pensando bobagem... Cruzes, dá vontade de sair distribuindo idéias de tarefas! Talvez eles precisem disso mesmo. Aparentemente, apenas a faixa etária que engloba os 30 e os 50 anos está livre da falta do que fazer (já que trabalham feito burros de carga). Existem exceções dentro e fora desses limites, claro, mas são poucos. Em geral, as pessoas não conseguem pensar em nada de bom para preencher o vazio das horas – e dá-lhe pensar besteira. Posso ser um bocadinho presunçosa e um bocadão bem-intencionada e sugerir umas alternativas? Para senhoras Para senhores Para mocinhas Para rapazes Para a molecada E.E.P.G., saudades de você Em cada uma das edições diárias de telejornais sensacionalistas e sangrentos da tevê brasileira há histórias horríveis sobre alguma escola pública. Ao que parece, os ambientes de ensino gratuito viraram campos de batalha ou point de tráfico de drogas – principalmente aqueles localizados na periferia. Pena. Além de sofrerem com a violência quando deveriam estar aprendendo, os alunos de hoje não vão sentir saudades de sua E.E.P.G. como eu sinto da minha. Tinha seis para sete primaveras quando fui matriculada na Escola Estadual de Primeiro Grau Marechal Bittencourt. Eu não via a hora de dar início à minha vida de estudante, uma vez que as atividades anteriores às da primeira séria estavam mais para brincadeiras de creche do que para algum templo do aprendizado. A partir dali, eu me tornara uma aluna. Uma futura profissional. No comando da 1ª série A da escola, naquele ano de 1984, estava a sorridente e rechonchuda tia Daizil. Como eu era a menor da turma e uma das mais caprichosas, a professora logo me adotou como “queridinha”. Acabava, portanto, sendo a primeira da fila para entrar na sala de aula, ação que fazia de mãos dadas com Daizil. Sentava na frente e era tão aplicada quanto uma aluna da primeira série pode ser. Para as aulas, usava-se a cartilha “Caminho Suave” que eu simplesmente amava. Tá certo que ficava com ódio da página da letra V, ilustrada pela vaquinha Vivi, mas de resto o livro era simplesmente uma delícia. A cada tarefa feita corretamente, tia Daizil colava nas folhas uma estrelinha dourada feita de papel espelho. Eu passei a colecionar os pequeninos astros de mentira. Em dado dia da semana, era obrigatório cantar o Hino Nacional, em fila, com mão no coração, enquanto a bandeira era hasteada. Aposto que muitos alunos desse novo século torceriam o nariz e achariam a prática quase militar. Mas eu digo que foi bom. Aprendi a cantar a canção-e-símbolo-nacional, mesmo com aquele monte de virunduns. E, de alguma forma, aprendi também que aquilo era para ser respeitado. Só não captava o motivo da proibição de se bater palmas após a execução. Pôxa, é uma música tão bonita! Outra recordação nítida que eu tenho dos tempos de E.E.P.G. era a hora da merenda. Não estou falando do sanduíche de mortadela que recebia na escola particular que passei a freqüentar em seguida – lá na escola pública tinha refeição completa. Arroz, feijão, macarrão. Cozinheiras de avental mexendo panelas borbulhantes enormes e servindo cada um dos pratos. Pratos de plástico azul, se não me falha a memória. Falando na memória, lembrei-me de uma ocasião específica. Certa vez, quando o sinal tocou, a professora pediu para que eu ficasse um pouquinho mais. Voltei a sentar na carteira e esperei toda a enxurrada de crianças deixarem a sala de aula. Quando estávamos a sós, tia Daizil me chamou até a lousa e me disse que desconfiava que eu já sabia escrever. Fiquei completamente encabulada, pois isso era segredo. Ela me pediu então para escrever “casa”. Escrevi. Pediu para eu escrever “carro”. Escrevi. Pediu para eu escrever “cachorro”. Eu virei e perguntei “é com x ou com ch?”. Ela me disse “com o que você souber”. Escrevi com ch. Ela me deu os parabéns. Um dia de glória custava tão pouco na E.E.P.G.!
Tem que ter Algumas décadas são capazes de marcar um conjunto de estilos e expressões tão peculiares que fica fácil distinguir qualquer produção da época. Basta olhar, por exemplo, para a combinação de ombreiras, figuras geométricas e cores berrantes (muito comuns ainda nos ternos do Stevie Wonder, tadinho) para a fumacinha da memória se espalhar na cabeça, trazendo de pronto as palavras-chave “anos 80”. As músicas desse decênio inesquecível (apesar das ombreiras) são facilmente identificáveis se atentarmos a cinco pontos simples, catalogados humildemente por essa escriba. Preste atenção nesse guia, especialmente útil para os brotinhos que não viveram o oitentismo in loco. Ao ouvir uma canção por aí, saiba que ela não é dos anos 80 se não tiver... ... introdução com sons futuristas ... programação de bateria de teclado ... paradinha repentina ... ápice emocionante … solo de sax
Não disse que eles amam um saxofone?
Foto retirada do Kid Abelha Rulez. Clara McFly às 06:51 PMViagem por tabela Na última vez em que arrisquei checar, minha conta bancária acusava cinco dezenas de lascas. Com contas e mais contas acumulando, já não consigo guardar bufunfa sequer para comprar um pastel na feira – que dirá planejar o que mais amo na vida, viajar. Mesmo assim, a cabeça é capaz de sonhar com destinos maravilhosos e acalmar a sanha de passear pelo mundo. Na tarefa gloriosa, o cinema me ajuda. Existem filmes cujos cenários valem mais do que a história. Ou nos quais o fundo da tela consegue exaltar ainda mais o roteiro bom. Quando bate uma vontade enorme de sair pelo mundo observando torres, rios, praças, campos e igrejas, eu apelo sem dó à sétima arte. Veja como é possível. Para ver Nova York Para ver Paris Para ver Roma Para ver Londres Para ver San Francisco Para ver Viena Deixo aqui uma dica final (mas não digam por aí que veio de mim, porque eu nego). Sabem as gêmeas Olsen – Ashley e Mary-Kate, as atrizes-patricinhas mais rentáveis do cinema? Pois elas já estiveram rodando suas aventuras por quase todo o mundo. Fizeram “When in Rome”, “Londres com Tudo Pago”, “Passaporte para Paris” e, em breve, sairão na telona com “No Pique de Nova York”. Todos mostram as cidades onde se passam em detalhes, por muitos minutos, num show de imagem. Basta ignorar os diálogos toscos que dizem coisas como “eu já vi o Coliseu, assisti ‘Gladiador’ três vezes”. É difícil, mas pode valer a viagem.
Eu conheço Viena... Fui com Ethan e Julie! Só para iniciados Imagine você tentando ser aceito em um clube fechado onde é permitida a entrada apenas para sócios com carteirinhas e iniciados – principalmente os que entendem a língua estranha e os termos incompreensíveis que são falados durante encontros secretos. Pois é assim que eu me sinto ao abrir o jornal e ler as matérias sobre a São Paulo Fashion Week: uma intrusa na festa dos outros. E olha que eu gosto de moda e até que entendo um pouco do chamado "mundinho". Como jornalista – sim, eu tenho essa profissão-fachada quando não estou dando uma de super-heroína pelos prédios da cidade – já tive a missão de cobrir os vários dias do evento. Isso incluía não apenas desvendar os desfiles, mas bater na porta do clubinho e dar uma espiada. Uma coisa é certa: fiz dezenas de matérias sobre moda. Mas jamais meu texto soou tão pretensioso quanto a cobertura que acompanhei (bem, ao menos tentei acompanhar) nas últimas edições do festival da afetação. Pois eu acho que a função de um jornalista é explicar o que viu a um público geral que não é necessariamente especialista naquele assunto e fazê-lo se interessar por algo que, às vezes, não iria captar sua atenção de outra forma. Então me explica o que andaram tomando os redatores dos textos que eu li. Alguns, auto-intitulados fashionistas, chegam a extrapolar o bom senso, dar punhaladas no bom texto e asfixiar o bom português. Veja bem: jamais serei uma defensora ávida da não-utilização de termos em inglês – acho que nosso idioma é tão rico e belo especialmente por adotar outras línguas e transformá-las em expressões também nacionais. Mas esse povo extrapola. Uma famosa jornalista – ups, fashionista – de São Paulo se recusa a falar "camiseta", por exemplo. Diz "t-shirt". No mesmo balaio, não há mais trabalhos em "retalhos", mas "patchwork". Também a "mistura" de estampas cedeu lugar ao "crash" de estampas. Gostou? Então dê uma olhada em 10 frases que eu garimpei na cobertura da última edição da SPFW pelos jornais e pela Internet. É tudo verdade. 1) "Triton girl é wannabe Vivienne" 2) "É um look bem dasluish" 3) "Depois da ferveção fashion da Bienal, a after-party da Cavalera" 4) "O estilista propõe um cruzamento da Bahia com Beirute" 5) "A minha mulher é enlouquecidamente fora do contexto" 6) "Burlesco é tendência" 7) "Acho-o supercênico. Para mim, o Lino já transcendeu John Galliano" 8) "Afinal, não-amigos, lurex e absurdinhos já deixaram de ser novidade" 9) "Cultura zen e pescadores solitários levaram o estilista a usar estampas" 10) "E o trench-coat, hein?"
Estranhos no ninho Como diria meu vô, esse povo não tem mais o que inventar. Está cada vez mais difícil encontrar nas prateleiras dos supermercados alguma coisa, digamos, normal. E as seções que mais padecem dos insumos incrementados são as de higiene pessoal e limpeza. Sabão em pó, por exemplo. Não existe mais. Não em sua forma pura e simples, de... sabão em pó. Temos produtos com “cristais de alvejante seguro”, “partículas de ação seletiva” ou “cápsulas de poder azul” – este último, o mais assustador de todos, na minha modesta opinião. A caixa do sabão que tenho aqui em casa diz que as “partículas de ação seletiva” identificam cada tipo de mancha e de tecido, dando a melhor solução para cada caso. Puxa vida. Partículas presas dentro de uma caixinha aparentam ter vontade própria (olha só, elas decidem estratégias de limpeza!) e prometem ser mais espertas na hora de lavar roupa do que a minha senhora avó, que jogava água fervendo nos lençóis brancos e botava tudo para coarar na grama. No campo da higiene pessoal também estamos perdendo para a sapiência de produtos. Outro dia vi uma propaganda de um creme dental que jura continuar funcionando (e protegendo os dentinhos) mesmo depois que a gente come alguma coisa. O tal anúncio ainda desprezava as outras pastas de dentes, cuja ação termina quando você ingere algum alimento ou bebe um drinquezinho. Mas espera aí. Não seria isso o natural? Senão, porque toda aquela história de escovar os dentes a cada refeição (e visitar seu dentista regularmente)? Que beleza. Se comprarmos a idéia desse revolucionário produto, enfim podemos nos dar ao luxo de perder tempo escovando os dentes só uma vez por dia (e talvez visitar o dentista uma vez por semana). No entanto, quando falamos de substâncias estranhas, ninguém bate as trash foods. Os saudosos pacotes de salgadinhos preenchidos apenas com aqueles deliciosos (e nutricionalmente duvidosos) tequinhos de isopor amarelo já eram. Agora, as embalagens guardam muito mais que um punhado de felicidade crocante: a toda hora aparecem sachês com temperos, que podem ser líquidos e terem a assustadora alcunha de “molhoucos” ou, pasmem, em pó – e atenderem por nomes mais estranhos ainda. Os últimos salgadinhos que comprei, para acompanhar uma sessão de “Shrek” rodeada de amigos aqui em casa, vieram com um saquinho de “Frango pirado” e “Cheddar gela” dentro. Lendo atentamente o engordurado sachê, descobri que aquilo era um tempero em pó destinado a incrementar o acepipe. Que gosto tem? Não me perguntem. Eu encaro hot dog de rua e até churrasquinho de estação metroviária, mas preferi embrulhar cuidadosamente os tais temperos numa sacola plástica e enfiá-los bem no fundo do saco de lixo. Se Chernobyl ligar pedindo a fórmula, digo que não sei de nada. Clara McFly às 06:15 PMFoi-se o tempo do esporte... Com o texto a seguir, sei que estou me arriscando a levar latas de cerveja ou chaves de roda contra a testa. Sei que muitos vão se ressentir e até se aborrecer. Posso receber hate-mails ensandecidos enviados de todo lado por gente com gasolina Premium correndo nas veias. O problema é que não posso mais ficar calada: Fórmula 1 não é mais esporte, vá? E olha que já faz uns anos. No fim de semana passado, o piloto alemão Michael Schumacher comemorou 80 pontos completos. Durante toda a temporada, ele deixou de marcar os 10 tentos destinados ao primeiro colocado apenas uma vez – em Mônaco, há cerca de um mês, porque caiu bobamente fora da corrida. Do jeito como a história segue, é bem capaz do moço sagrar-se campeão de 2004 daqui a três ou quatro provas. É como os CDFs da escola, que passavam de ano ainda em agosto. Tem graça? Antes de mais nada, informo não fazer parte da gangue que execra o alemão e adoraria dar um belo soco naquele queixo em formato de arquivo. Não o acho simpático mesmo, mas nem me abalo em ir além disso, nutrindo qualquer ódio do sujeito. Ora: ele faz a parte dele atrás do volante, não faz? Que culpa tem? O caso é que a Fórmula 1 já não reúne as características que definem uma atividade como esporte. Segundo o grande Aurélio, esporte é a prática de exercícios que envolve divertimento ou distração. Bom, eu vejo as corridas de Fórmula 1 pela tv. Ninguém, naquele momento, está se esforçando muito fisicamente. E desde que a temporada começou, não há mais diversão ou distração na jogada. Sabemos como tudo vai terminar, então nem existe surpresa ou torcida capaz de dar jeito no destino. Schumacher tem um carro tão à frente dos demais que podia dar duas voltas de lambuja aos colegas e, ainda assim, venceria. Parece o conto da Lebre e a Tartaruga – com a diferença que, no caso, só existe um coelho para uns 22 quelônios... Para piorar, os dirigentes acham por bem mudar as regras ano a ano para ver se a mamata da Ferrari finalmente cai por terra. Não sei se eles notaram, mas não está dando certo. E fica chato mudar o jogo só para que o menino mais forte dê chance aos demais. Ultimamente, os tios vêm tentando de tudo para equilibrar a disputa, como limitar treinos, troca de pneus, abastecimento. Logo vão escrever no regulamento: “carros vermelhos devem largar do box, de ré e com pilotos vendados”. Assim daria certo? Tenho dúvidas. Certamente um engenheiro da escuderia italiana acharia jeito de fazer a Ferrari render ainda mais na contra-mão. Nunca subestime um carcamano louco por velocidade e com dinheiro no bolso... As medidas todas não adiantam porque a verdade é uma só: Fórmula 1 não é mais esporte, é competição tecnológica. O campeonato, aliás, deveria ser veiculado no caderno de Informática dos jornais – o importante mesmo não são os homens ali envolvidos, mas as máquinas, só elas. Longe de mim virar aquelas velhinhas ranhetas que só sabem repetir as virtudes do que acontecia “antigamente”. Os espectadores da Fórmula 1, porém, não podem discordar: há tempos não se vê um lance emocionante em prova, uma ultrapassagem incrível ou uma superação de limites – como acontecia muito nos tempos de Senna, Prost, Mansell, Piquet, e mais ainda nos anos que precederam estes. Outro dia, um garoto que eu conheço, fanático por automobilismo, dizia estar assistindo as corridas esperando por um acidente espetacular, porque só assim sentiria de novo emoção na pista. E eu pensei: que espécie de competição nos faz esperar por um desastre? Alguém assiste provas de atletismo querendo ver o corredor ter fratura exposta? E isso lá é conduta esportiva? Nunca foi.
Ganhou nos EUA? Não brinca??? Conhece a Nise? Informações sobre famosos chegam até nossos ouvidos com facilidade. Se ligarmos a TV, saberemos tudo o que a atriz siliconada da novela das oito fez na última festa de que participou. Ou quem é a nova vítima do atorzinho mulherengo que coleciona conquistas. O difícil é encontrar, no meio desse monte de notícias sem relevância, algo sobre alguém realmente importante. Pois muitas pessoas especiais não aparecem no horário nobre, e acabamos perdendo oportunidades de conhecê-las. Você respondeu “não” à pergunta do título? Então vou apresentar dona Nise. No começo do século XX, mais precisamente em 1906, Nise da Silveira estava nascendo em Maceió. Começou a romper barreiras quando decidiu entrar para a faculdade de medicina na época em que as moças só saíam da casa do pai para entrar na casa do marido e, de lá, para o cemitério. Quando ela se formou médica na Bahia, em 1926, destacou-se como a única mulher entre os 156 alunos homens. No ano seguinte, Nise pegou o navio para o Rio de Janeiro e começou sua carreira como médica psiquiatra no hospício da Praia Vermelha – além de trabalhar lá, morava no local também. Em uma faxina pelo quarto da jovem médica, a enfermeira encontrou livros comunistas. Como estavam em plena ditadura de Getúlio Vargas, Nise acabou sendo presa e, na cadeia, conheceu Olga Benario e Graciliano Ramos. Em 1944 ela voltou à prática no Centro Psiquiátrico Pedro II e ficou chocada com o que viu: doentes mentais sendo medicados excessivamente, recebendo insulina a torto e a direito e, claro, sendo vítimas do eletrochoque. Recusando-se a participar daquilo, Nise foi afastada para uma ala esquecida do hospício, intitulada de “terapia ocupacional” – o que, naquele tempo, limitava-se a colocar os pacientes para limpar os banheiros. Isso, claro, até Nise chegar. A médica pegou aquele local abandonado e transformou-o em um espaço para a criatividade e o respeito. Fundou-o como Seção Terapêutica Ocupacional e Reabilitação. Ali, Nise abriu diversos tipos de ateliês para os internos, que passaram a ter aulas de música, modelagem, teatro, pintura. Os monitores contratados foram instruídos a apenas auxiliar nas atividades, jamais interferir. Pela primeira vez, os internos tinham voz – e Nise os escutava. Em 1952 foi criado por ela o incrível Museu de Imagens do Inconsciente, um acervo único no mundo composto dos trabalhos daquelas pessoas. Para a maioria delas, um quadro ou um desenho era o único modo que tinham para se comunicar com o mundo exterior. Mas, para nós que olhamos aqueles trabalhos, não dá para pensar em outro título a eles além do de artistas. Hoje, o local conta com 350 mil obras. Um dos mais ilustres integrantes do acervo do museu é Arthur Bispo do Rosário, um sergipano que ficou internado no Rio de Janeiro. A partir do trabalho de Nise, Bispo encontrou seu melhor modo de expressão: transformar sucata em arte. O ex-marinheiro, diagnosticado esquizofrênico, teve cerca de 900 obras catalogadas praticamente desconhecidas em sua terra natal, mas cobiçadas no exterior – críticos de arte o comparam com René Magritte e Marcel Duchamp, artistas europeus vanguardistas. Como eu conheci a Nise? No ano em que ela morreu, em 1999. Ganhei de presente um livro dela, intitulado “Gatos, a Emoção de Lidar”. Além de tudo, ela arrumava tempo para os bichanos e passou a sua vida como uma gateira de mão cheia. Devido ao amor em comum, agora eu conheço a Nise – e você também. ![]() Nise com o gato Carlinhos
Hoje, não Há uma série de perguntas que são feitas com certa recorrência a minha pequena e magrela pessoa – “você não acha ótimo poder comer de tudo e não engordar?”, “mas você pesa a mesma coisa desde 17 anos?” e “você não sai voando com a ventania?” são algumas delas. Outra que tenho ouvido bastante desde que começamos esse hercúleo projeto de escrever todo dia aqui no ex-site rosado é “mas não falta assunto?” Sempre digo que “não, imagina!”, abrindo um sorriso mezzo confiante, mezzo misterioso. E me convenço das palavras que escapuliram quase por si só da boca pensando: se a gente prestar bastante atenção nas coisas diárias da vida, vemos que há assunto para mais de metro, esperando por ganhar um texto. Na TV, as bizarrices são quase infindáveis. No som, músicas de ontem e de hoje disputam espaço entre nossa preferência. No cinema, a cada final de semana há um punhado de estréias cheias de novidades para se comentar. Na literatura, a estante cheia me garante tema a granel. Na memória, o exercício diário da lembrança sempre acrescenta algo a dizer. Mas, no fundo mais profundo, morro de medo de sofrer o que as pessoas que trabalham inventando história chamam de “bloqueio criativo”. Eu achava que era papo furado de gente metida a estrela. No entanto, começo a desconfiar que pode ser verdade. Desde que o Garotas foi ao ar, foram catorze meses sem sair de cima. Do teclado, claro. Todo santo e orado dia (útil, que ninguém é de ferro) comparecemos cada uma com um post quentinho, saído de cacholas com grande tendência a tagarelice – virtual ou real. E esse exercício diário tem sido uma delícia das mais deliciosas. No entanto, confesso que já fiquei uns pares de vezes sentada por minutos diante da tela vazia do Word – aquele branco absoluto, acachapante e incômodo -, pensando no que iria escrever aquele dia. E toca a cavar assunto, passeando mentalmente pelas últimas peças lidas, vistas ou ouvidas; pelas mais recentes aventuras cotidianas ou pelas figurinhas indeléveis na memória. Alguma coisa tem que sair. Tenho uma vantagem, sendo a última a publicar no dia: leio os textos das comparsas para ganhar alguma inspiração. Mas mesmo as verves de Flá e Vivi nem sempre bastam. O relógio segue implacável, a tarde cai. E eu começo a ficar nervosa. O problema complica quando nada parece bacana ou fluente o suficiente para ganhar um espaço no site. Um princípio de pânico é sentido. “Meu Deus, sobre o que vou escrever hoje?”, penso mal contendo a agonia nascente. Lembro-me das pessoas que perguntam: “mas não falta assunto para escrever todo dia?”, e eu posando de bacana: “não, imagina!”. Pensando bem, acho que eu estava certa. Tudo, absolutamente tudo, é material em potencial para virar um texto – até mesmo uma crise de inspiração. Talvez no futuro eu sofra um completo bloqueio criativo ou algo que o valha, e falte assunto para segurar o rojão de escrever todo dia. Mas hoje, não.
O que eles têm e nós não temos? Um dos seriados mais famosos, populares e bem sacados da tv está em vias de cantar para subir. Depois de dez anos, Chandler, Joey, Mônica, Phoebe, Rachel e Ross vão deixar a telinha e levar consigo suas criancices tão divertidas. Carregarão, também, a amizade enorme que existe entre eles. Se bem que, vou dizer: não conheço gente de verdade que tenha aquele tipo de relação, não. Desde pequeninos nossas mães nos mandam ser comportados em casa alheia e educados com os coleguinhas. Vez por outra escapa um beliscão aqui ou um brinquedo afanado ali, mas em geral o conselho é seguido. As genitoras dos personagens de “Friends” não usavam essa cartilha, por certo. Os sujeitos são espaçosos, sarristas, capazes de invadir a privacidade alheia em um minutinho. Adoravelmente, escapam do limite utilizado pela Humanidade em geral. Vai ver foi daí mesmo que veio o imenso sucesso da série. Ninguém tem amigos viscerais como aqueles, então aproveitamos da situação para nos sentir parte da gangue. Bom, eu me incluo nesse grupo: eu juro que tento, mas ninguém aqui em casa se dispõe a abrir uma vez a geladeira e reclamar do conteúdo! Além disso, meus amigos bem podiam apostar nas demais premissas de “Friends” que só existem na realidade da televisão. Não ter cerimônia Nunca se magoar com bobeira Fazer problemas passarem em 30 minutos Pensando bem, essas coisas não acontecem entre amigos, mas acontecem entre irmãos. Uau! Quando “Friends” acabar, Chandler, Joey, Mônica, Phoebe, Rachel e Ross bem poderiam começar a gravar “Brothers”! Não? Que pena...
Você tira foto assim com seus amigos??? Opa! Quintal versus sacada Durante toda a minha infância, morei em casa. A última, um sobrado suburbano com direito à garagem ampla para dar festinhas, quintal com lajota vermelha e alguns metros quadrados de grama, quartinho da bagunça nos fundos, portão de ferro dando para a rua. Só não tive laje, porque mamãe sempre foi anti-reforma (lê-se anti-poeira e anti-barulho). Depois, com 16 anos, mudei para um apartamento – e tive de me acostumar a viver nessas residências nas alturas. No começo não foi tão difícil. Afinal, nosso apê era bonito (sem carpete, olha que maravilha), localizado em um bairro legal, com um quarto só para mim e com uma vista linda – o que é bem raro em cidades. Abrir a janela e olhar para um imenso campo de golfe me afastou das coisas chatas de uma mudança drástica. Porque é drástico sair de uma casa, por menor e mais caída que ela seja, e se meter em um apartamento. A primeira coisa a ser notada é espaço: uma vez dividindo um dos 10 andares de um prédio com mais três famílias, você nota que os limites ficaram menores . Todas as coisas que você trouxe da casa não vão caber na nova moradia, e se faz necessária uma reciclagem de objetos, roupas, móveis. Trombar com irmãos algumas vezes por dia também acaba sendo mais comum. Outra coisa é precisar descer até o térreo para respirar um pouco de ar. O que eu mais tive – e tenho – dificuldade em aceitar é o processo de se viver em uma comunidade. Sua casa é seu reino. Se você quiser pintar a fachada de roxo com bolinhas amarelas, pode. Se você quiser pregar um quadro às cinco da manhã, pode. Se você quiser criar um avestruz de estimação, pode. Já em apartamento a coisa muda de figura. E como muda! Colocar um vaso ou pendurar um quadro no hall do seu andar, ao lado da porta da sua unidade, pode virar uma batalha com o síndico. Ah, o síndico. Aquele ser que, em muitos casos, você nem conhece a cara e mete o nariz em tudo o que você deve ou não fazer. Síndicos não merecem o meu respeito. Pelo menos todos os que conheci. Outro dia, por exemplo, meu apartamento foi invadido por um síndico, um pedreiro, uma supervisora e mais algumas pessoas não-identificadas pois, do lado de fora do prédio, constataram um vazamento no meu banheiro. "Ué, você não viu?", me perguntaram. Eu disse que não, mas gostaria de ter respondido "não, eu não tenho tempo de ficar olhando para cima sentando num banco o dia todo". O motivo de tanta algazarra? Meu chuveiro estava com um dos seus míseros jatinhos de água voltados para fora da janela. Não pode. Chover, pode. Quando o sêo Jura veio colocar os armários da cozinha foi outra luta. Além de sobreviver ao clone de Marlene Mattos/Roque que não regulava bem da cabeça, tive de agüentar a ladainha do síndico. Isso porque o marceneiro marcava um horário X para começar o trabalho e só chegava em X + 5. Aí, é claro que o serviço acabava ultrapassando a marca das 18h, tempo limite para reformas. O interfone, então, tocava de 10 em 10 minutos – não por causa do barulho (que não existia), mas pelo simples fato de haver um marceneiro aqui. Mas justiça seja feita: há coisas boas de se viver em apartamentos. Adoro estar pertinho do céu – ainda mais agora, no 14º andar. Tenho uma sacada bem avantajada onde pude fazer até uma pequena horta. De lá, posso olhar para as estrelas ou para a cidade – imediatamente embaixo, a Teodoro Sampaio. À direita, vejo a Faria Lima e, à esquerda, consigo enxergar até o prédio da Editora Abril, lá na Marginal Pinheiros. É como uma página do guia de ruas de São Paulo em 3D. Fora, é claro, a mordomia de deixar entrar no seu mundo só quem é autorizado. Não há testemunhas de Jeová ou vendedores da Barsa batendo na sua porta nos momentos mais inconvenientes. E é fácil dispensar alguém pela mocinha séria que opera o interfone lá na portaria. Também há segurança. E bem menos barulho – seja da gritaria por conta da pelada na rua, seja dos carros passando em alta velocidade. Gosto da sensação de reclusão, de um universo à parte. Meu apartamento ainda é meu reino. Um reino com horário para martelar, é verdade. Mesmo assim, um reino. ![]() Não é um quintal, mas é legal
O mundo vegetal Já reparou como existem algumas coisas que fazem você levar um tempo até perceber que gosta? Aconteceu comigo um bocado de vezes – especialmente depois que me mudei da casa da mamãe. Percebi, por exemplo, que gosto de limpeza – apesar de ser desorganizada por natureza. Também notei que adoro plantas – embora deixasse todas morrerem lá na minha antiga casa, quando a mamãe viajava e me deixava na incumbência de regá-las. Estou longe de ser uma expert no assunto. Aliás, logo que inaugurei novo endereço, comecei a suspeitar que tinha um toque de Midas às avessas para cuidar dos vasinhos. Ao notar o quanto uma casa sem plantas parecia árida e desagradável, adquiri meia-dúzia de espécies vegetais para o meu próprio lar. E pastei nas mãos (ou nos galhinhos) delas. As danadas simplesmente não queriam viver, apesar dos meus cuidados de pôr no sol (de vez em nunca) e regar (quase todo dia, ou quando sobrava tempo – ou seja, muito ou pouco demais). Primeiramente achei que tinha escolhido logo uma leva de vegetais suicidas. Depois percebi que estava afogando algumas coitadas e deixando outras secarem à míngua. Comecei a prestar mais atenção na freqüência com que eu regava, comprei um adubo e até passei a conversar com as plantas, para completa diversão do namorido, que ria às pampas quando me pegava trocando idéias com as violetas e kalanchoes que vivem por aqui. Decidi por estender os dedos de prosa só quando ele não estava. Também passei a me informar melhor sobre as preferências das espécies, se elas eram “de sol”, “de sombra” ou “de meia-luz”, como se diz por aí. E vi que nenhuma das kalanchoes ia viver muito mesmo, se não tomassem sol pleno. Nesse meio tempo, trouxe para casa mais dois vasos grandes dessa espécie, mas isso foi bem numa semana corrida por demais, em que não parei em casa. Resultado? As pobres ficaram a semana toda só dentro de casa, longe do alcance do astro-rei e bem perto da lâmpada da sala. Mas, para minha surpresa, não murcharam – o que me levou a concluir que as ingênuas flores foram enganadas pela luz artificial provida por sêo Osram. Compartilhei a teoria com o namorido e alertei-o para não falar a respeito na frente das engambeladas kalanchoes. Afinal, se elas percebessem o golpe, podiam voltar atrás e se desfolhar inteiras... No fim das contas, acertei a mão: já cuido bem das kalanchoes, dos crisântemos, das marias-sem-vergonha, dos cactos, da árvore da felicidade, da comigo-ninguém-pode e de outras flores e folhagens que vivem aqui comigo. Até plantei manjericão e pimenta, desde a semente, e o primeiro está de tal tamanho que virou condimento de umas pizzas e molhos preparados por mim. Agora, o grande desafio vai ser a orquídea-sapatinho, presente da dona Sandra trazido no último final de semana. Quando minha mãe se casou e ganhou sua própria casa, esse foi o primeiro vaso que minha avó deu para ela. Espero saber honrar a tradição familiar.
O mestre dos magos Diretor de cinema, por definição, é um sujeito pirado e de muita sorte. Sorte e ousadia, porque convencer 400 pessoas alojadas em uma sala escura de que sua obra é especial, e não mais uma bobagem cinematográfica, é tarefa para poucos. Existiu um membro dessa classe capaz não só de abismar multidões, mas também de nos fazer crer que ele era um verdadeiro mágico. Alfred Hitchcock nunca tirou coelhos da cartola, que eu saiba – fez, sim, muito melhor do que isso. Tio Hitch, na verdade, não era só um habilidoso contador de casos. Era um perito em técnica de cinema. Sabia como funcionava todo e qualquer equipamento de seu set de filmagem e, por isso mesmo, como extrair o melhor efeito deles. Foi assim que seus filmes ganharam multidões: não era apenas uma questão de bom roteiro, mas também de apresentá-lo em um formato perfeito. Originalidade era o lema de Alfred. O homem não poderia ter nascido em outra data: 13 de agosto de 1899 (tem o espírito do “cachorro louco” ou não?). Trinta anos depois, ele já era conhecido em altas rodas de cinema inglês, considerado o jovem diretor mais promissor e bem pago do mercado. Não é isso, porém, que importa quando se botam os olhos sobre os filmes do meu diretor predileto. Mesmo que você aí do outro lado não seja um admirador (ainda), tenho certeza que o estilo de Hitchcock pode te conquistar. Para quem presta atenção em detalhes de cenário ou em cortes da edição, o estilo do gorducho senhor fica ainda mais apetitoso. Mas quem não dá a menor pelota para esse tipo de fixação –cine-nerd também pode se divertir nas obras. Uns morrem de medo dos acontecimentos, outros acham tudo aquilo balela, um exagero. É mesmo exagerando! Daí a graça: parece que estamos em um sonho, acompanhando situações bizarras mas perfeitamente possíveis de acontecer. Ou você não acredita que seu vizinho de fundo pode dar cabo da própria esposa? É isso o que acontece em “Janela Indiscreta” (1954), um dos melhores momentos de Alfred H. O fotógrafo interpretado por James Stewart está entrevado em casa com a perna engessada. Pela janela, ele observa mexeriqueiramente tudo o que se passa com a vizinhança. Até que sua pseudo-namorada (Grace Kelly, mais linda do que em toda a vida) sugere: o homem que vive no prédio em frente está com comportamento suspeito e parece ter passado a esposa desta para uma melhor. O que poderia ser uma história boba, de telefilme safado exibido no Corujão, virou um clássico. Na minha opinião, por causa da mão do diretor. É só reparar no clima de terror e agonia que vai crescendo durante a trama. O aleijado descrente passa a ficar atormentado, a garota rica e fútil mostra-se corajosa e leal. Tudo acontece aos poucos, e quando você vê está mordendo a almofada de desespero. Poucos conseguem fazer isso com o público, eu acho. O bom é que Hitchcock não pára por aí. Se quiser suar frio e ter uma noite de cinema com C maiúsculo, sugiro que vá buscar essas pérolas. Andam em baixa nas locadoras, mas isso é para quem não sabe ver. Psicose (1960) Um Corpo que Cai (1958) O Homem que Sabia Demais (1956) Festim Diabólico (1948)
Além de tudo, o gordinho era adorável nos bastidores Sangue com valor Hitchcock podia usar chocolate para fingir de sangue, mas os hospitais, infelizmente, não. Doar sangue é um dos atos que demonstram mais amor ao próximo hoje em dia. Nós aqui do Garotas estamos em campanha. E você pode e dever vir mostrar seu amor conosco! Tra-la-lá "Parece que nos anos 60 tinha muito tóchico", diria sabiamente a Mirtes. E é verdade. A prova definitiva do gosto geral por substâncias alucinógenas, porém, não são as músicas de rock progressivo com 10 minutos só de solo de teclado, ou os cabeludos tomando banho de lama em Woodstock, ou os Beatles cantando sobre uma garota chamada Lucy que passeava num céu de diamantes. A evidência maior do uso de drogas naqueles anos de paz-e-amor é o programa dos Banana Splits! O nome original da belezura é "The Banana Splits Adventure Hour". Não está conseguindo lembrar? Vou refrescar sua memória – a minha já foi refrescada pelo canal Boomerang, uma pérola da tevê por assinatura que só apresenta desenhos antigos. Contudo, a atração não é desenho. Na tentativa de fazer algo em carne e osso (e pelúcia), os tios William Hanna e Joseph Barbera, depois de baterem com suas cabeças repetidas vezes na parede, tiveram a idéia desse programa, que foi ao ar pela primeira vez em 1968. As estrelas? Quatro atores sem-rosto (porém corajosos) devidamente fantasiados de cachorro, leão, macaco e elefante. Eles são Fleege (um cachorro com uma irritante língua sempre pendendo para fora), Drooper (um leão de óculos escuros e que segura a cauda enrolada no braço), Bingo (um gorila cor-de-laranja sempre sorridente) e Snorky (um paquiderme peludo com orelhas cheias de bolinhas coloridas). Já é nonsense o suficiente – mas tem mais. Muito mais. O quarteto é uma – hã – banda de rock. E, curiosamente, uma banda de rock de primeira linha. Com assessoria de nomes como The Monkees, os bichos cantaram temas que continuam embalando gerações. Tente ouvir a canção mais famosa, aquela do refrão "Tra-la-lá, tra-la-la-lá" e fique parado. Impossível! Quando não estão tocando, os personagens passam o tempo apostando corridas de bugue pelo parque. Agora vamos imaginar a gravação disso: quatro marmanjos vestidos com fantasias espalhafatosas e correndo em carros engraçados em locais públicos. Tinha que ser nos anos 60 mesmo – a galera estava tão chapada que acho que nem se importavam em cruzar com seres daquele tipo. Além de cantar e correr eles... trombam uns nos outros. O tempo inteiro. Também tropeçam nos móveis do lugar onde moram juntos, uma espécie de galpão psicodélico. Eles têm como amigos uma cabeça de alce falante e um relógio cuco. Como inimigos, a temível gangue das Uvas Azedas – que nunca apareceu, mas mandava bilhetes ameaçadores através de uma garotinha loira chamada Charlie. Entre as trapalhadas, o programa tinha desenhos. Aliás, uns desenhos que ninguém mais lembra. Talvez aqueles rejeitados pela dupla Hanna-Barbera. Só lembro de alguns, como "Os Três Mosqueteiros" e "Os Cavaleiros da Arábia". Bem, basicamente, era isso que acontecia em todos os episódios do programa durante os dois anos em que alguém teve colhões para deixar aquilo no ar. Claro que as crianças amavam! Posso falar por mim, que chegava a chorar quando a turma se despedia (sempre com uma canção de pop bubble gum). Apesar de não entender muito como eles falavam sem mexer a boca, achava o máximo todo o colorido e as situações estúpidas. Hoje, vinte anos mais tarde, continuo assistindo a tudo com meu queixo caído e vendo que um pouco de tóchico pode fazer muito bem para certas pessoas. ![]() Nonsense para baixinhos
Se você não puder comparecer dia 26 de junho, sábado, no Pró-Sangue do Hospital da Clínicas de São Paulo - seja por ser de outra cidade, seja por ter compromisso no dia - não quer dizer que você não poderá participar da nossa campanha. Tente ir onde der e quando der - o importante é o gesto. E, para o gesto, não precisa de data marcada. Vivi Griswold às 09:33 AM
The funk phenomena Eu tenho uma teoria muito particular sobre o funk. Já adianto que não sou profunda entendedora da história da música, embora adore o assunto. Some-se a isso minha inefável disposição para criar teorias bizarras e perdoe a indiscrição (ou até mesmo a heresia) quando eu digo: para mim, o funk carioca é um paralelo do movimento punk. Calma. Não me atirem latinhas. Deixa eu explicar: assim como o punk, o funk carioca prega o faça-você-mesmo e a filosofia “não precisa saber tocar ou cantar para fazer música”, certo? Ou uma base chupada do Front 242 acrescida da letra “vou passar cerol na mão, vou sim, vou sim” é um exercício musical refinado e fruto de anos de estudo da teoria? E o que dizer da sensacional poesia do hit “Elas Estão Descontroladas”, que guardo com carinho em mp3 nesse mesmo computador de onde escrevo? A letra se resume basicamente a “Elas bate (sic), elas gira (sic), elas dão uma rodada/ Elas estão descontroladas”? Saber fazer música, no sentido mais tradicional da palavra, poucos ali sabem. Mas nem por isso acho menos divertido – muito pelo contrário. Aí, os chatos de plantão vão dizer: “é, mas os bailes funks são um centro de prática de sexo não-seguro, disseminando doenças e promovendo a gravidez na adolescência”. Bom, eu nunca fui a um baile funk (uma pena), mas sei que custam poucas lascas para entrar. Assim, não dá para negar que tais eventos sejam, também, uma maneira barata e saudável (tirando a parte do sexo sem prevenção) de se divertir. Ou vocês acham que todo brasileiro tem quinze pilas mais a grana do estacionamento para ir ao cinema todo final de semana? Mas voltemos aos paralelos entre o movimento musical dos três acordes e a onda que tem entre seus expoentes a Mãe Loura e seu rebento de voz irritante, o Jonathan. Assim como o punk cantava a realidade da classe operária mais politizada, o funk dá voz a uma leva de gente sem muitas perspectivas, que tá vendendo o almoço para comprar a janta – e naturalmente reflete em seus temas o dia-a-dia dos seus autores, chegados a uma válvula de escape que é a pura e simples diversão. É machista? Sim, não vou mentir para você. É sexista? Também. Mas lembrem-se de que o funk nasceu de uma classe que não tem lá muitos subsídios culturais formais. Woman is the nigger of the world, dizia John Lennon. E as mulheres pobres, então... Nem se fala. Nesse ponto, o estilo musical apenas reflete a realidade – que, é claro, deve ser mudada. Não nego que ainda me espanta um bocado, por exemplo, ouvir um garoto de seis ou sete anos cantar que já está crescendo, cheio de emoção, e logo vai descolar “um filé com um popozão”. Se é meu filho, leva tapa na boca. Enfim. O funk carioca não é meu ritmo favorito, mas acho muito cômodo achincalhá-lo por completo quando você vê tudo de longe. Pode ser divertido ouvi-lo eventualmente. Afinal, onde mais eu encontraria letras como “dança da motinha, as popozudas perde (sic) a linha”, “se o destino adjudicar, vamos nos encontrar logo mais” e “um tapinha não dói” – embora aquele homem com voz cavernosa gritando “só um tapinha!” sempre me faça crer que a pobre e desafinada moça não vá levar só um tapinha? E aê, sangue-bom? Nem só de lembranças, piadas e textos vive o Garotas – ou melhor, os leitores do Garotas. Olha só que bacana: de uma idéia nascida no Fórum, eis que está no ar a campanha de doação de sangue. É importante para um monte de gente e é fácil para cada um fazer sua parte. Confira aqui os detalhes e junte-se a nós! Clara McFly às 07:18 PMApelo ao livrão Sempre detestei fazer prova. Até hoje, crescida, tenho horror de me envolver com qualquer espécie de teste. Fazer trabalho de escola, por outro lado, eu adorava! Isso sim era jeito de provar conhecimento: você lia sobre o assunto, separava as partes mais importantes e passava para o papel almaço. Muito mais sábio que esse “ctrl+C, ctrl+V” que a molecada faz hoje com a Internet. E ainda tinha direito a empetecar a coisa toda. Tirando a dificuldade que eu tinha de começar o trabalho com antecedência – deixar para amanhã o que se pode fazer hoje é meu nome do meio –, achava divertidas todas as etapas do processo. Definido o tema, era só partir para a ação e começar a impressionar colegas e professores. Lá em casa, a estante era cheia de livros, mas nem todos serviam para fazer trabalho de escola. Por outro lado, minha vizinha Vanessa era a feliz proprietária de uma coleção completa da Barsa, o centro de saber máximo para dez entre dez estudantes. O negócio era escrever sobre citoplasmose? A Barsa ensinava. Precisava dissertar a respeito de Rui Barbosa? A Barsa era biografia completa. Como não se podia deixar de adquirir uns volumes desses, recebemos afinal a coleção “Conhecer”. Não era a mais prática para aqueles trabalhos batidos do colégio – que só queriam saber de Tiradentes, golpe de 64, escravidão e café – mas quebrava um galho. Bom mesmo, porém, era conseguir uma boa alma que me levasse até a biblioteca. Ô lugarzinho divertido, a biblioteca! E nem digo isso para puxar o saco da minha irmã, hoje uma excelente profissional da organização desses lugares. Sempre achei bacana mesmo encontrar aquelas mesas grandes e livros à vontade, prontos para serem dissecados e copiados direto para o meu trabalho. Mas como só o bando de letrinhas deixava a folha sem graça, entrava em cena minha “porção fru-fru”. Ficava interessada em qualquer item que pudesse engrandecer o trabalho. Xerocar uma imagem interessante e colar em meio ao texto era o mais simples. Mas também aprendi a desenhar direto na folha. Era muito mais difícil, porque exigia a participação especial de papel vegetal para copiar a ilustração e fazer o transplante. Em compensação, a maioria das professoras caía no truque e elevava a nota pelo capricho. Ou seja: eu podia não sacar nada sobre folclore, mas se desenhasse ali um boi bumbando, estava feita. Sempre que fiz capinha com desenho, grampeado com delicadeza e amarradinho com fita, ganhei nota boa. Vai ver eles sabiam que, lá dentro do almaço, estaria a mesma lenga-lenga editada da Barsa, e davam valor não só para o conteúdo, mas para quem usou o tempo também pensando na forma. Viu o porquê da minha preferência pelos trabalhos? Não dá para unir conhecimento com artimanha estética em uma prova boba.
Ninguém mais usa este centro de saber? Bom mesmo é trabalhar em equipe! Fazer trabalho em grupo não era fácil, mas ajudar o próximo enquanto adulto é! Hoje estamos começando a divulgar a mais nova empreitada do Garotas - criada, na verdade, entre os membros do nosso animado Fórum. Se quiser saber mais e se juntar nessa campanha de doação, está convidado. A equipe chamada Brasil agradecerá. Fla Wonka às 01:40 PMApocalipse now Imagine o planeta Terra sem nós. Ou sem o sol, a água potável, o ar puro. Imagine também um universo sem a nossa pequena esfera azul reinando como um belo lar de vida inteligente e, no lugar dela, um grande vácuo. O pior é que conseguimos imaginar. Por quê? Ora, porque já vimos tudo isso! Pelo menos na telona... O cinema norte-americano possui uma mórbida atração pelo tal de fim do mundo. E, curiosamente, as platéias também. É que os filmes que retratam as várias possibilidades do apocalipse costumam ser mega-produções – isso quer dizer que levam atores badalados, trilha sonora caprichada e, claro, efeitos especiais de última geração. Sem falar no marketing todo em volta. Resultado: é impossível não cair! Eu, pelo menos, caio em todos. Portanto, nós já vimos os humanos sofrerem horrores na sétima arte. Será que vai acontecer desse jeito mesmo quando chegar a hora (esperamos que seja daqui alguns bons milhões de anos)? Então escolha o melhor – ou o mais emocionante – fim do mundo entre as opções já fornecidas pelo entretenimento de massas. Revolta das máquinas Revolta da Mãe Natureza Revolta do universo Revolta dos zumbis Revolta da ciência Revolta dos aliens ![]() Bye bye, Bush!
Mágica ou ciência? Dentre os aspectos do mundo adulto que são estranhos às crianças figuram, entre outros, a posse de uma carta de habilitação, o preenchimento do Imposto de Renda, a palavra final sobre o que entra no carrinho ao fazer supermercado e a simples aceitação – quase mecânica – dos grandes mistérios da vida com os quais topamos no mais simples dia-a-dia. Explico: as crianças têm a capacidade de se maravilhar com o funcionamento das pequenas coisas. Diante do metrô, fazem aquela cara de fascinação; os olhos brilham e surge a pergunta exclamada "como isso anda?!". Geralmente os adultos sorriem com cara de sabe-tudo e ensaiam uma explicação até razoável. A não ser que eu seja essa adulta. Na verdade, continuo me fascinando com todas essas engenhocas do mundo moderno. Ok, o metrô anda por ali porque máquinas imensas cavaram um buraco, botaram um trilho no meio e o trem se move com energia elétrica. Mas como assim, energia elétrica? Como isso faz o veículo andar? E, acima de tudo, como diabos isso é gerado? (E não me venham com as explicações da escola. Ainda sacarei de mais porquês interrogativos). E como descobriram que dava para cavar ali e não ia desabar tudo? "Cálculos, minha filha", diriam os adultos sabichões. Mas que cálculos? Quem descobriu a fórmula? Quantos infiéis foram soterrados até acertarem tudo? E, acima de tudo, quem decidiu correr o risco? E não é só. Viajando para a praia, sempre penso na construção dos túneis e daquela estrada assentada sobre pilares que descem às mais loucas profundezas da serra. Quem desceu lá para assentar os tais pilares? Eu não ia nem ferrando. Que todo mundo siga para o veraneio pela estrada velha, mesmo… E de calhambeque. Telefone é outro mistério – assim como seu upgrade, a internet. Não há explicação física, tecnológica ou científica que me satisfaça sobre como sinais de voz, texto e imagem entram por um fio, são codificados e saem do outro lado do mundo, descodificados, para o ouvinte ou receptor. E olha que eu sou uma garota dos fins do século 20, usuária (êta nominho que inspira gente que mexe com "tóchico"!) de internet, TV, telefone e tudo mais que se imaginar. Não me espanta que as gentes mais antigas vissem na máquina de fotografia um capturador de almas. Ao fim e ao cabo, as explicações mais aceitáveis para todos esses milagres do progresso são aquelas infantis mesmo: é tudo mágico. Só pode ser. Clara McFly às 06:52 PMComo eles conseguiam? Lá em casa, sou conhecida como "a mimada". "A caçula", "a queridinha" e "a privilegiada" são variantes dessa pecha. Tudo bem, eu assumo: apesar de ter apanhado quando necessário e levado bronca feito cachorro sarnento algumas vezes, em geral eu era mesmo paparicada pelo papai e pela mamãe. E eles eram especialistas no trabalho. Meus pais sabiam praticar o mimo. Não apostavam na compra de presentes caros ou festas, mas tinham a manha de ser dengosos em alguns pontos. Eram eventos isolados, coisinhas pequenas e imperceptíveis ao olho nu das demais pessoas. Eu, por outro lado, recordo aqueles momentos todo dia. Se perguntar, é capaz que nem os próprios lembrem dessas coisas. Na minha memória, porém, elas ficaram marcadas para sempre. As bobaginhas aconteciam entre nós, sem inclusão de mais ninguém. Eu espero saber mimar os meus rebentos com essa habilidade. A Dona Conceição… …Usava o secador pra brincar …Fervia leite com açúcar nas crises …Fazia a cara da cabrita de "A Noviça Rebelde" O Seo Luiz… …Fazia o "nome do padre" toda noite …Me levava para passear só com ele nos domingos …Assistia tv comigo abraçada O inverno tem dessas coisas Já confessei que esta, para mim, é a melhor época do ano. Não gosto do calor escaldante no qual temos de viver 70% do tempo neste país tropical. Tudo no verão fica ruim: dormir, por exemplo. Eu, que sou daquelas pessoas que encostam a cabeça do travesseiro e desmaiam, tenho dificuldades de descansar em temperaturas altas. Rolo na cama, não acho posição e, o mais incrível, já acordo suada. No inverno, basta um edredon quentinho para garantir bons sonhos. Mas minha estação favorita também tem seus contratempos mesmo para uma admiradora dos dias mais gelados. Para começar, meu nariz se comporta de um jeito estranho. É só tirar a blusa de lã do armário pela primeira vez em seis meses que a tal rinite alérgica me ataca. Também tenho uma garganta sensível e, nessa época, costumo acordar com dor. Aconteceu isso hoje – estou aqui toda dodói. Mesmo assim, costumo ficar muito animada durante o frio e tento curtir ao máximo esse tempo mágico que visita o Brasil só de vez em quando. E é aí que eu me deparo com as situações mais irritantes do inverno. Repare na inflação exagerada de artigos quentes – cappuccino, cafés e chocolates cremosos ganham acréscimo de um punhado de centavos nos preços. Aliás, tudo o que vai no fogo por minutos fica visivelmente mais caro. Existe uma franquia de café que cobra 10,90 reais por uma sopa. O engraçado é que a sopa deles é a famosa Campbell’s, vendida a 5 reais no supermercado. Curiosamente, eles não fazem a mínima questão de esconder: o moço abre a latinha na sua cara! Ou eles cobram 5,90 reais por 300ml de água (o único ingrediente a mais para o produto ficar pronto), ou esse inverno dói no bolso mesmo. Eu adoro aproveitar os céus azuis da época, e costumo passear muito ao ar livre, desde que bem agasalhada. Isso porque qualquer outra atividade indoors vira uma disputa! Já tentou ir ao cinema no inverno? As filas dobram o quarteirão! Outra coisa que me irrita em cinemas nesta estação: eles esquecem o que é ar-condicionado. Resultado? Quando o calor está de rachar lá fora e você está com uma camisetinha, tome vento gelado; quando está um frio do cão e você está até de gorro, tem de respirar bafo quente dos outros. É óbvio que todo mundo está buscando diversões mais aconchegantes. Domingo passado, com os termômetros da capital marcando 10 graus, inventei de ir em um festival de sopas de uma lanchonete bacana. Pena que a cidade inteira teve a mesma idéia! Aliás, todos os lugares charmosos e quentinhos estão com gente saindo pelo ladrão. Meu ideal de um jantar romântico regado a vinho, ao lado de uma lareira em um canto escuro e solitário de um restaurantezinho vai por água quando só a espera de lugares assim chega a duas horas. O jeito é jantar em casa usando um visu bóia-fria. Por falar em visu bóia-fria... Quem foi que disse que o inverno é a estação mais elegante? Tá certo que durante o frio não somos obrigados a olhar para barriguinhas pelancudas ou para dedões do pé com esmalte descascado, mas... Não é tão elegante assim. Claro que existem madames com sobretudos e blusas de cashmere e cachecóis de seda lá na Oscar Freire. É delas que o povo fala? Porque, de resto, é um deus-nos-acuda. Camiseta por cima de camiseta, japona de náilon colorida, gorro de time de futebol, luva furada (pra quê comprar outra?), calça xadrez com malha de bolinha... Outra coisa que me irrita a cada estação fria são as pautas-clichê dos telejornais. Acho que o pessoal do Jornal Nacional nem precisa mais fazer matérias sobre o inverno – basta pegar as dos anos anteriores e dar um tapa na pós-produção. Pois o conteúdo, que é bom, não muda nunca. Preste atenção e veja se você já viu (se não, vai ver) os seguintes temas: “Populares tiram tudo do armário para vencer o frio” (detalhe para modelitos bóia-fria na Av. Paulista); “Crianças se divertem com geada em São Joaquim” (detalhe para um bando de pivetes lambendo uma neve lamacenta); “O charme e encanto de Campos do Jordão” (detalhe para uma araucária sacudida pelo vento, contra-luz); “Termômetros registram a temperatura mais fria do ano” (detalhe para um termômetro de rua marcando 9 graus à noite). Reclamo, mas gosto. Vivi Griswold às 10:31 AM
Querida, cheguei! Há milhões de anos, eles dominaram a Terra. Eram senhores absolutos do planeta e não davam chance para nenhum outro tipo de animal. Sumiram de maneira ainda não esclarecida até hoje, apesar das múltiplas teorias que tentam explicar seu desaparecimento. Mas sempre que ouço falar em dinossauros, em vez de monstros ameaçadores e predadores certeiros, a idéia que faço é de uma família atrapalhada, com um bebê perverso e fofinho. Isso é culpa do excelente seriado “Família Dinossauro”, exibido por aqui primeiramente na tela da Globo e, mais recentemente, pelo SBT. Produzido de 1991 a 1994, o programa combinava personagens cativantes a um humor que podia ser apreciado tanto por um inocente petiz quanto pelos mais crescidinhos – que pegavam a ironia e a crítica ao modo de vida contemporâneo destilada nos episódios. Dino era casado com Fran e tinha três filhos: o adolescente Bobby, a pré-adolescente Charlene e o pequerrucho Baby. Outras figuras cercavam a vida da família, como o tio Roy, a sogra de Dino e seu chefe. Eles fizeram meus almoços (enquanto estavam na Globo) e algumas das minhas tardes (já no SBT) mais divertidos. E reúno aqui sete razões que fazem da “Família Dinossauro” um programa sem igual. O sobrenome da família O programa favorito do Baby As entradas de Dino O nome da empresa A previsão meteorológica A dança O tratamento dado aos idosos
Aposto que ela prefere ir para o poço de piche a receber aposentadoria do governo...
Só pivete, sem preconceito Bom mesmo é ser criança e não dever explicações sobre seus gostos. Se saímos na rua vestidos de Branca de Neve ou Batman, todo mundo sorri e acha uma gracinha. Vá você fazer isso enquanto adulto! Passada a infância, é preciso escolher não só uma linha de estilo para vestimentas, mas também para todo o resto. O que ouvir no rádio, por exemplo: só estarás perdoado de cantar "Florentina" em público se tiveres menos de oito anos... Nesse caso, entoar os poéticos versos do Tiririca provoca surtos de riso na família. Ninguém vai deixar de gargalhar vendo moleque ou menininha de bochechas rosadas repetindo "já me disseram pra parar com esse negócio de... Florentina, Florentina/ Florentina de Jesus". Já escutar moça feita ou rapaz crescido proferir a barbaridade musical é um absurdo. Vou dizer para vocês: eu tenho saudade do tempo em que ninguém estava ligando para o que rolava no meu primeiro Gradiente. E confesso que às vezes, escondida ou no chuveiro, ainda relembro minhas preferências que não causavam espanto em pessoa alguma – por mais bizarras que fossem. Eu curtia sertanejo raiz e cantava "Galopeira" Curtia um sambinha esperto e escutava "Saudosa Maloca" Curtia eruditos e bailava na cozinha com "As Quatro Estações" Curtia um brega safado e me esgoelava com "Escrito nas Estrelas" e "Fuscão Preto" Curtia hits GLS como ninguém
Dançar com eles era suuuper natural, bem! Pãezinhos e folguedos Apesar de ter santo no sobrenome – e de descobrir recentemente que Viviana também foi uma mártir católica –, nunca fui religiosa. Mamãe, que tem um altar na casa dela com imagens de Jesus, Buda e Krishna, deixou em aberto minhas escolhas espirituais e não me obrigou a fazer primeira comunhão ou a freqüentar missas dominicais. Acabei não dando em nada: nem católica, nem budista, nem atéia. O legal de ser neutra nesse quesito é poder pegar as partes boas de cada religião sem neura ou cobranças – além, claro, de aprender a respeitar a crença alheia, o que é muito importante. A igreja católica, porém, nunca me despertou simpatia por diversos motivos diferentes. Mas se existe algo que eu admiro nela é a habilidade de fazer santos. Seja pela parte histórica, seja pela especificidade levada até as últimas conseqüências, eu adoro um santo. Existem imagens lindas que conseguem despertar algo bacana dentro de mim, sem aquele fanatismo que muitas vezes pode cegar. E o meu santo favorito, junto a São Francisco de Assis, teve seu dia comemorado ontem. Não é pela ação casamenteira que eu acabei nutrindo um carinho especial por Santo Antônio. Esse negócio de pendurar a imagem de cabeça para baixo, arrancar-lhe o menino do colo ou guardá-lo no fundo do armário só para arrumar um par para o próximo Dia dos Namorados é um absurdo – apesar de ser engraçado saber que tem gente que faz isso mesmo. Minha relação por Santo Antônio é estritamente infantil. O moço é padroeiro da cidade em que morava até o ano passado, Osasco. A cada dia 13 de junho, o local pára: é feriado municipal (o que por si só já é uma coisa boa) e, para comemorar, há uma procissão e uma quermesse animada na igreja central. Quando eu era pequena aguardava ansiosamente pela data devido a todas as emoções da festa. Logo de manhã, minha avó ia se estapear com outras beatas para pegar o tal pãozinho bento. Famoso por distribuir alimento aos pobres, Santo Antônio não imaginava que depois de tanto esforço o pão francês ia parar dentro do tupperware de arroz da dona Diva. Ela jogava fora o do ano passado e colocava o novo, dizendo que o tal pão não deixaria faltar alimento em casa. O arroz, pelo menos. À tarde seguíamos pela procissão. Eu ia junto porque achava a maior diversão andar o percurso em passos lentos pela cidade vazia de carros. Também achava graça ver aquele monte de criança vestida de anjo. Minha tia, após perder o bebê na primeira gravidez, prometeu a Santo Antônio freqüentar a romaria caso seu segundo filho “vingasse”. Lucas, a vítima em questão, recebeu também o nome Fernando, como o santo era chamado antes da vida religiosa. Note, portanto, que era um evento familiar. Quando chegávamos à matriz, uma saraivada de fogos de artifício recebia os fiéis. Pronto, a melhor parte! A festa de Santo Antônio conseguia reunir mais folguedos do que o reveillon, e o espetáculo – eu era criança, lembre-se – durava uns bons 20 minutos. Depois, era a hora de encher a pança com os melhores quitutes juninos, como pamonha e pé-de-moleque. Até vinho quente eu tomava. Só voltava para casa depois de arrematar alguma boneca de plástico na pescaria. Um santo que deixava minha avó contente com um mísero pão francês e me dava um céu colorido, comida boa e prendas? Desse é fácil ser devota.
Eu era uma criança estranha “Cada louco com sua mania”, já atestava o velho dito popular que vez ou outra é pronunciado pela Mirtes. “De médico e louco todo mundo tem um pouco”, complementa outro ditado. “Louco é quem rasga dinheiro”, sempre me diz a Flá. Peraí. Esse último ditado de louco não tem nada a ver com a história que eu vou contar hoje. Mas enfim... O fato é que é sabido que de perto ninguém é normal. Pensando no verso gravado por Caetano Veloso em “Vaca Profana” (que nome!), percebi que comprovo a teoria desde pequena. Que atire a primeira pedra quem não guarda (ou jamais guardou, em fase alguma da vida) nenhum hábito esquisito. Quem me conheceu durante a infância sabe que eu era uma criança estranha, bem estranha. Afinal, eu... Gostava de fígado e espinafre Passava horas calada Queria aprender latim ou grego Me negava a fazer o presente da mamãe no pré Jamais levei ponto ou usei gesso Morria de medo da Nina Hagen Colecionava nomes inventados ![]() Como se não bastasse tudo isso, ainda por cima eu era um bebê moicano Sofrimento sem razão Corriam os famigerados anos 80 quando o SBT anunciou: colocaria no ar, tardão da noite, uma série “sucesso de público e crítica nos Estados Unidos”. Naquele tempo, eu ainda não sabia que a descrição podia ser usada para qualquer programa dos ianques, visto que eles engolem todo tipo de balela. Pois engoli também, e passei a assistir, escondido da mamãe, à misteriosa e sorumbática “Lacie”. Começava a entender ali como a televisão podia ser deprimente. Nessa tele-série, o segredo era a chave do negócio. A propaganda só mostrava a tal da Lacie perguntando, entre soluços, “quem quer ser mãe de uma atriz pornô?”. Durante toda a programação de domingo, Seo Silvio só fazia enaltecer a série e dizer que era “uma história de intriga, poder, família... eu não vi, mas a minha filha número 123 garante que é sen-sa-cio-nal!”. Ai, minha curiosidade! Bom, caí no conto e fui ver “Lacie”. Maldito dramalhão mexicano dos infernos! A menina nasceu sem programação, de uma mãe que morava em internato e teve caso escuso. Ninguém sabia se ela era a genitora mesmo ou sua amiga fiel. Lacie ficou perdidinha e virou atriz daqueles filminhos que todo mundo jura não ver. E daí, para curar o trauma de família desunida e problemática, foi um custo. Tudo isso serviu para me mostrar que ver tv para se acabar em lágrimas é um comportamento estúpido. Passei, desde a meninice mesmo, a evitar séries chorosas e cheias de gente densa em excesso. “Barrados no Baile”, por exemplo, parecia divertido no começo, mas quando entraram os dramas sobre droga, bebida, doenças, perda de entes queridos, abdiquei. Pode chamar de fútil, eu nem ligo. Quem gosta de chorar com este povo aí abaixo é doido. Eu até vejo, mas detesto... Seventh Heaven Once and Again Melrose Place Felicity
Sorrir é um esforço para a "Chaticity" Onde vende? Quanto custa? Se eu fosse rica, rica mesmo, encheria minha casa de quinquilharias bacanas. Com certeza deixaria de gastar fortunas em um único carrão importado só para comprar alguns pequenos brinquedinhos caros que têm sido meus objetos de desejo. Antes, porém, precisaria achar outro apartamento mais condizente com esse monte de apetrechos que gostaria de ter. Mas no meu sonho de riqueza, isso não seria problema, né? Nesse meu delírio divertido, poderia separar um quarto da bagunça. Ao invés do aposento conter livros empoeirados e bonecas sem braço e ser o ponto mais esquecido da casa, ele serviria de depósito das maravilhas que sempre quis ter... Máquina de chiclete Jukebox Geladeira antiga Luminária de néon Globo de espelho de verdade Torneira flutuante Chapa para crepe Uniforme de tenista e tênis de boliche Letreiro da Coca-Cola Estojo de maquiagem profissional Barbie "Bonequinha de Luxo" ![]() Onde vende? Quanto custa?
Quer ser meu irmão? Eu sempre quis ter uma casa cheia de crianças. Meu pedido foi atendido tardiamente e de maneira meio torta: até os cinco anos, fui a única infanta da casa. Aí chegou o João. Depois de um tempo, quando eu contava 11 verões, ganhei a Regi, uma irmã que já era prima querida e veio morar com a gente. Achei que minha cota estava completa, mas quando meus pais decidiram seguir cada um para seu lado, mais dois presentes surgiram: a espevitada Lara e o bebê Gabriel, ambos do segundo casório do meu pai. Que felicidade! Aos 25 anos, meu desejo foi realizado. Assim, hoje, conto quatro irmãos – mesmo que morando em três lares, doces lares diferentes. Mesmo com tanta variedade de gentes para dividir as coisas de irmãos – eles contam com idades que vão de pouco mais de um ano a quase 28 – ainda fico imaginando como seria ter mais parceiros de mãe, pai e bobagens. A cachola de parafusos meio soltos é especialmente estimulada diante da tela grande na sala escura. E toca a pensar como seria se eu tivesse um desses irmãos que ganharam vida no cinema. Jeanie Bueller (Jennifer Grey) Anita Miller (Zooey Deschanel) Brandon Walsh (Josh Brolin) Comodus (Joaquin Phoenix) Gertie (Drew Barrymore) ![]() Quem resiste a uma fofura dessas (a Gertie, não o ET)?
Fama? Sério? Onde? Segundo notícias quentinhas, parece que começou mais um reality show na Rede Globo. Voltou ao palco da observação indiscreta popular o tal de “Fama”, programa que visa levar ao estrelato um cantor anônimo qualquer. O que acho mais engraçado é que nenhum desses moços e moças vencedores de programas televisivos consegue o tão sonhado sucesso. Coitados, não vêem o óbvio. A primeira edição do “Fama”, por exemplo: quem levou a melhor foi Vanessa Jackson. Você tem um CD dela? Conhece alguém que tem? Eu não, eu não. A garota, pelo que me lembro, tinha um belo vozeirão, mas não virou grande sensação na MPB. Nem chegou perto, eu diria. Hoje, soube pelos jornais, Vanessa rescindiu o já mirradinho contrato que tinha com uma gravadora e está “no mercado”. O boom inicial de quem participa dessas empreitadas pode até ser rentável para o ego – mas não vejo durar. Mesmo no “American Idol”, o programa do gênero apresentado nos Estados Unidos, a coisa acontece de modo meio torto. Na segunda temporada do jogo, o ruivo magricela que ficou em segundo lugar vendeu muito mais discos que o rotundo rapaz vencedor. A América votou por um, mas comprou o CD do outro – e é bom esperar para ver se qualquer dos dois vinga na profissão. Público é um troço estranho. Mesmo o segundo vencedor do “Fama”, aquele garoto simples que cantava imitando Djavan, não chegou a se dar lá muito bem. No fundo, parece que o programa alivia a rotina do pessoal e os faz abandonar por um tempo o banquinho e o violão alojados nos confins de um bar qualquer. Depois, volta o ritmo de cantar para casais que não estão ouvindo, só se agarrando entre uma caipirinha e outra. Tenho impressão de que a fama não segue porque esse é um método muito artificial de se alçar alguém ao posto de celebridade. Ver o sujeito todos os dias na tv, chorando pela saudade da família ou rindo com os colegas de “experimento”, aproxima mesmo a massa do candidato a artista. Mas um cantor consagrado, parece, se faz pelas mãos do talento genuíno, não por ligações telefônicas – aquelas que consomem “27 centavos mais impostos”. Pior ainda do que os votos de telefone são as considerações entre “especialistas”. No “American Idol”, eles são Randy Jackson, um produtor musical que trabalha com tipos feito Mariah Carey e Whitney Houston (então já se pode sentir os critérios do cidadão), Simon Cowell, sabe-tudo inglês com vocação para esculhambar competidores e... a Paula Abdul! Sim, ela mesma! A senhorita “Rush Rush” pode ser dona de bela técnica vocal, mas está ali só para enfeitar. Como levar a sério, desse modo, os “abalizados jurados”? Se eu tivesse algum talento para cantar, fugiria desses concursos como o diabo da cruz. Parece que, na sanha de virar celebridade, ninguém nota a terrível maldição que se abate sobre os participantes, sejam eles vencedores ou não. Não dou, aliás, mais um ano para os grupelhos Rouge e Br’Oz quebrarem – sendo que, daí, a turma precisará voltar a tocar em churrascaria. E será triste quando descobrirem que o artigo mais esperado da casa não são eles, mas a picanha mal-passada.
Este é o rapaz vencedor do Fama 2... Lembra? Duvido Mini me Quando eu era criança, minha mãe cantarolava a singela canção "Menininha", do Toquinho, para eu dormir. A letra é uma fofura sem fim e diz "Menininha do meu coração/ Eu só quero você a três palmos do chão/ Menininha não cresça mais não/ Fique pequenininha/ Na minha canção". Parece mesmo que o desejo mais comum dos pais é idealizar um filho sempre miúdo – o problema é que os meus tiveram o desejo atendido. Pois além de ser magrela, eu sempre fui baixinha. Quando estava na pré-escola era tarefa minha puxar a fila para entrar na sala de aula, uma vez que a dita cuja era organizada por ordem de tamanho. Também passei diversos anos sentando na frente na classe. Por conta disso, acabava virando a queridinha da professora, que via em mim alguma espécie de aluna-bonsai capaz de despertar sentimentos bobos e cuti-cutis. Enquanto o corpo docente me mimava, os colegas avacalhavam. Já ouvi todos aqueles chavões relativos à pouca altura como pintora de rodapé e motorista de Autorama. Por ter passado a infância nos anos 80, os apelidos mais comuns da época eram "Adelaide" (por conta da música do grupo Inimigos do Rei) e "Fofolete", aquelas bonequinhas que vinham em uma caixa de fósforo. Mas eu também aprendi a falar muitos chavões: "é nos menores frascos que estão os melhores perfumes" sempre foi um deles. Não sei se isso é verdade, mas a criançada ficava boquiaberta com minha frase-fatal. Depois de alguns anos, troquei o termo melhores perfumes por mais perigosos venenos e a coisa ficou ainda mais fatal. Até que cheguei a nutrir alguma expectativa de crescer mais alguns 10 centímetros, ainda mais porque sempre me diziam que meninas crescem até o primeiro ciclo menstrual começar. Quando o meu começou, aos 13 anos, perdi a esperança de chegar até a marca do metro e sessenta. Parei dois centímetros atrás disso. Mas... quem liga? Afinal, nunca vi problema algum em ser pequenina. Acho podre de chique ser chamada de mignon e adoro poder comprar roupas e sapatos na seção infantil – cá entre nós, artigos do gênero têm muito mais a ver comigo do que as vestimentas de mulheres maduras. E ainda posso usar saia plissada e sapato de boneca sem parecer uma meninona que não reparou que cresceu. Não é legal? Na semana passada, cheguei ainda mais perto da casa dos 30. Sinceramente, isso para mim é apenas um número. Porque eu continuo sendo uma garotinha não só no espírito, mas na embalagem também. Então vai demorar bastante para eu começar a me preocupar com idade. Tenho de confessar, porém, que às vezes fico um pouco de saco cheio por ser tratada como alguém de 15 anos. Outro dia, por exemplo, fui com alguns amigos a jabá da empresa do namorido. Era um show aqui em São Paulo, e tínhamos o direito de entrar gratuitamente, assistir ao espetáculo de um local privilegiado e ainda beber o que quiséssemos sem pagar. Quando nos aproximamos da promoter para ela nos mostrar nosso lugar, a mulher delicadamente olhou para mim e perguntou se todos eram "de maior". Detalhe: eu era a mais velha do grupo. O engraçado é que não me bastou ser magrela e baixa, mas também tinha de carregar uma voz de menininha. Ainda bem, pois seria pior se tivesse um timbre de trovão, pouco condizente com minha situação corporal. Mas situações comicamente desagradáveis acabam acontecendo por conta disso. Semana passada, me ligou a maldita Telefonica para oferecer sei-lá-o-quê. A atendente quis saber se o dono da linha estava em casa. Respondi que não. Daí a moça perguntou "e a mamãe, está?". Vivi Griswold às 10:02 AM
Eu uso óculos Quando eu estava para fazer 12 anos, falei para minha mãe que tinha alguma coisa estranha na maneira que eu via o mundo. Não, eu não estava fazendo nenhuma reflexão filosófica, tampouco me conscientizando de algum desvio de personalidade. Simplesmente eu não estava enxergando direito. Eu disse à sapientíssima dona Sandra que, se as coisas todas do mundo tivessem uma estrutura igual à das células que eu tinha acabado de aprender na escola, com a membrana segurando o citoplasma, parecia que as cores e formas estavam vazando pela tal membrana e se difundindo por aí. Ela olhou para mim e vaticinou: “você tem miopia”. A princípio, achei superlegal. Quando a gente é pequeno, pipocam na nossa mente idéias estúpidas como “deve ser legal usar óculos”, “deve ser legal usar aparelho” e “acho que minha mãe não vai perceber se eu jogar meu irmão privada abaixo”. Pois eu sonhava usar as armações preenchidas por uma lente de vidro, igual eu vira meu pai portar tanto tempo. E fui para a consulta no oftalmo toda feliz. Chegando lá, ele confirmou as suspeitas da mamãe e disse que eu tinha meio grau numa vista e 0.75 noutra, mas meus primeiros óculos contariam só com 0.25 grau em cada olho, para ir acostumando. Logo ele aumentaria a receita, mas eu podia ficar tranqüila, que a miopia ia estabilizar lá para os 18 anos e eu poderia operar. Pensei comigo que jamais ia deixar alguém cortar meu olho, feito meu pai deixou, e além do mais eu nunca ia cansar de usar meus tão aguardados óculos, puxa! Mas apenas sorri e acenei com a cabeça. Ele não ia entender como eu achava legal ter aquele acessório no rosto... Pois bem. Dali, fomos à ótica e escolhi uma armação meio cor-de-rosa. Não via a hora de ficar pronto e até me decepcionei ao descobrir que teria de voltar dali a alguns dias para buscar meu objeto do desejo. Esperei pacientemente e, na semana seguinte, tchanam!, saí da loja com outra cara, toda feliz. A história (e meu humor para com os óculos) mudaram não muito tempo depois, quando meu grau de miopia continuou subindo muito rápido e eu percebi o quão chato era ir à praia, coisa que sempre adorei e fazia religiosamente, usando óculos. Para entrar na água, eu tinha de deixar meu acessório (cujas lentes já estavam turvas da areia) na esteira. O problema era, na volta do banho, achar o danado do meu guarda-sol num mar de cores e formatos diversos e misturados. Com tamanha cegueira, nem a barraca de sucos e raspadinha servia de referência, já que nem isso eu enxergava. A solução era mergulhar segurando os óculos, tarefa nada agradável – especialmente para os óculos, que começavam a mostrar sinais de bolor logo depois (é impossível secar aqueles microparafusos que seguram as pernas do objeto, droga!). Some-se a isso a entrada no perigoso terreno da adolescência (que chegou junto com a necessidade de adotar outro de meus acessórios do desejo infantis, aparelhos dentários), e voilà: ali estava uma adolescente insegura que decidiu se livrar do incômodo trambolho que lhe enfeitava (ou enfeiava, achava eu) a cara. Decidi usar lentes de contato. Bendita hora! Depois de dois anos, descobri o maravilhoso mundo dos 100% de correção (inclusive a visão periférica, que os óculos não consertam) e passei a enxergar de novo meu guarda-sol e encontrar o caminho certo da volta, sem fazer cara de fuinha, quando dava uma chegada até o mar. O médico, já outro, disse que as lentes ajudariam a brecar a vertiginosa ascensão da minha miopia. Pffff. Uso lentes há doze anos, revezadas com os óculos (que me acompanham há catorze), e contabilizo a sensacional marca de seis graus em cada olho – aparentemente, sem previsão de estagnar. Vai ver os oftalmos mentem. Ou aquele provérbio que diz para tomar cuidado com o que a gente deseja, pois pode virar realidade, é mais verdadeiro do que eu imaginava. Adivinhação casamenteira Que estudar, que nada! Na escola, antigamente, a gente queria mais é diversão. Claro, tinha a hora de fazer as tais análise sintática e regra de três. Mas entre uma avaliação lingüística e um cálculo encardido, havia muito tempo para brincar de adivinhar o futuro. Meninas adoravam isso, e garotos não ficavam muito atrás. Com quantos anos você ia casar, onde passaria a lua-de-mel, que carro teria a família? Se tivesse mais recursos de Photoshop aqui (ou ao menos um Paintbrush decente), faria até um esqueminha para lembrar aos amados leitores como ocorria aquele jogo. É fácil, porém, explicar a invenção escolar. Primeiro, era preciso pegar uma folha de papel e desenhar um quadrado. Daí, fazíamos três riscos de cada lado. No centro, entrava a idade com a qual você ia querer casar. Adendo: toda a molecada colocava números entre 18 e 22 anos. Há! Mal sabíamos que contrair matrimônio, nessa faixa etária, só para quem acelerasse o “processo bebê”. As riscas laterais serviam para colocar, de um lado, o local preferido para a viagem de núpcias, e de outro, o carro que o adorável casal teria. Logo abaixo, em outro risquinhos, ficavam as três opções para saber se o cliente da brincadeira seria pobre, rico ou milionário. Ninguém considerava a possibilidade de ser classe média, gozado... O futuro era descrito matematicamente: usando a idade do casamento, bastava contar cada item acoplado no quadrado, e daí cortar aquele onde parasse a contagem. Eliminando duas possibilidades em três, tinha-se um panorama perfeito! Com pequenas variações, as opções escritas no papel eram sempre as mesmas. Aposto que vocês também escreviam – ou escreveriam – isso na folha da previsão. Carros Viagem Questão financeira Minutos depois do jogo finalizado, já daria para saber que Fulaninha seria uma feliz moça rica, casaria aos 20 anos, viajaria para curtir Epcot Center como o marido e, na volta, teria um sedã parado na garagem. Simplista? Bom, era muito mais urgente saber de tudo isso aos 9 anos do que entender o que era verbo intransitivo. Obra-prima em movimento Qual a tempestade de sentimentos que esconde uma das pinturas mais intrigantes da história da arte? O que passava pela mente do pintor a cada pincelada que ele dava na tela? E o que o olhar misterioso da jovem tentou passar no momento do retrato? O filme “Moça com Brinco de Pérola” tenta responder a essas perguntas ao mostrar uma história fictícia (ainda assim, bem plausível) que resultou na obra que dá nome à produção. Tudo o que se sabe a respeito do quadro “Moça com Brinco de Pérola” é que ele foi pintado pelo holandês Johannes Vermeer por volta de 1665. O resto é especulação. Como Vermeer gostava muito mais de retratar a criadagem do que a nata da sociedade de seu país – e como as vestes da modelo são humildes –, estima-se que a garota seja mesmo uma empregada. Não se pode, contudo, ir mais longe nas inexistentes provas históricas. Todo esse mistério, somado à admiração causada pela obra, conferiu a ela o apelido de “a Mona Lisa holandesa”. Em um momento de angústia literária, a escritora americana Tracy Chevalier estava deitada na cama buscando inspiração para um próximo livro. Foi quando ela fixou o olhar no pôster da obra-prima de Vermeer, que enfeita a parede de seu quarto desde os 19 anos de idade. Ela começou a se fazer todas aquelas perguntas do primeiro parágrafo e escreveu o livro em três dias. Hoje, é possível assistir à história através de uma tela bem maior do que a do pintor. “Moça com Brinco de Pérola”, o filme, conta um pouco sobre Griet (Scarlett Johansson), uma jovem criada protestante que vai trabalhar na casa de uma família católica composta por Vermeer (Colin Firth), sua esposa Catharina, sua sogra Maria e mais um punhado de filhos mimados e chorosos. Entre descascar cebolas, buscar carne no açougue e servir à mesa, é tarefa de Griet limpar o estúdio do pintor. A moça, apesar de analfabeta, sabia muito bem apreciar uma obra de arte. Fascinada pelos trabalhos de Vermeer nos cantos do aposento e preocupada inclusive se deveria ou não limpar as vidraças e alterar a luz que entrava por elas, Griet acaba envolvida em um amor platônico pelo artista, que não faz questão alguma de inibir as esperanças da garota. Pelo contrário: a faz dormir no estúdio, ensina-lhe misturar as tintas e, por fim, acaba convidando-a para posar. A partir desse ponto começa uma tensão sexual que dá para cortar com a faca. Mais do que uma história de desejo contido, o filme mostra que não é preciso ter uma loira sem calcinha cruzando as pernas ou produtos alimentícios sendo deslizados por corpos nus para mostrar o que é erotismo. Entre Griet e Vermeer não há um beijo sequer, e nenhuma parte do corpo da garota é mostrada. Contudo, o que dizer do momento em que ele a vê de cabelos soltos? Ou quando ele pede a ela para molhar os lábios? Ou, principalmente, quando ele fura a orelha da pobre para colocar o tal brinco de pérola? Afe. É possível entender muito bem, portanto, quando Griet vê pela primeira vez seu rosto desenhado e diz a Vermeer “Você olhou dentro de mim”. E posteriormente, quando a ciumenta Catharina consegue obrigar o marido a mostrar-lhe o quadro, apesar dos apelos do pintor e de sua mãe, e começa a chorar dizendo que ele é “obsceno”. Há muito além de um simples rosto angelical de uma jovem. Com uma honrosa indicação ao Oscar de melhor fotografia (perdeu para “O Retorno do Rei”), “Moça com Brinco de Pérola” é um filme lindo – literalmente. Cada cena é uma pintura. E, por fim, quando o quadro real enche a telona do cinema, dá vontade de assistir tudo de novo.
Tirem-me desse congelador! Diz a Mirtes que "Deus escreve certo por linhas tortas". Pois quer saber? Ela está coberta de razão. Pelo menos no que diz respeito ao lugar onde nasci. Afinal, nada melhor que um país tropical para alguém que, como eu, não suporta ficar batendo o queixo nesses dias de temperaturas nada amenas… É. Ao contrário dos outros dois terços responsáveis por este sítio, eu odeio o frio. Nada me acabrunha mais que temperaturas abaixo de 25ºC – sim, como se não bastasse detestar o clima gelado, minha definição de "clima gelado" ainda é bem severa: qualquer marca abaixo dos 25 já me faz apanhar um casaquinho. Eu achava que o problema eram as parcas reservas de gordura que forram meu corpinho. Mas quando conheci Vivi, essa amante dos ventos friorentos igualmente magrela, descartei a hipótese. Talvez a culpa dessa minha aversão seja simplesmente ser afeita ao calorão desde pequenininha, quando passava dois meses por ano na praia. Nada me desanima mais que ver a previsão do tempo no telejornal e notar que os números impressos sobre a região de São Paulo contam com apenas um caractere – ou dois, mas mais próximos do 10 que do 20. Quando isso acontece, já sei que o dia seguinte vai ser duro. Vou acordar e demorar mais que os quarenta minutos habituais para conseguir me descolar da cama. Quando o fizer, a primeira rajada de vento que passa pela janela vai me atingir de pijamas e me deixar triste (não tem como já pular da cama de capote e cachecol, certo?). Depois, toca a esperar a água da torneira esquentar e, se não tiver paciência, a solução é lavar só o cantinho dos olhos (podem me chamar de porca). Para escovar os dentes, saco da canequinha (assim não tenho de pôr a mão naquela água aparentemente vinda direto do Himalaia). Além do mais, não dá para ser chique no inverno – pelo menos não para mim. Um belo casaco comprido e um par de botas (que seriam uma combinação bacana) nunca são suficientes. Diante do armário, desenterro toda e qualquer blusa que for possível – e rápido, para não ficar passando frio. Sem tempo para combinar e no afã de garantir o calor corporal, o resultado é quase sempre um modelito bóia-fria, cheio de sobreposições às vezes esdrúxulas. O superagasalhamento ainda traz um efeito colateral: com uns cinco centímetros de largura a mais, passo esbarrando e derrubando tudo que estiver pela frente, já que perco a noção dos meus limites reais. Não que o inverno (ou o outono disfarçado de tal, como os últimos dias aqui em São Paulo) não tenha coisas boas. Claro que tem: fazer fondue, ir a festas juninas e dormir. Pena que não dá para passar o mês inteiro só fazendo isso. Portanto, quando os primeiros dias de frio chegam, até que curto o clima por uns… dois dias. Depois, começo a contar o tempo para o verão voltar. Pensando bem, se fosse para o Hômi acertar mesmo, eu teria nascido no Senegal. Mas não ter nascido no Alasca já foi um bom começo. Clara McFly às 07:53 PMCovardia mitológica Desde pequena, sou fã das lendas gregas e romanas. São contos vibrantes, com pessoas de gênio muito ruim ou muito bom, sempre prontas a nos dar uma bela lição de moral – ou, no mínimo, de insinuar que toda ação traz uma reação. O cinema e a televisão se beneficiam da mitologia quase anualmente, para meu desespero. Porque existem três personagens que, ainda hoje, têm o poder de me fazer esconder a cara sob o cobertor. Nem a diversão juvenil que englobava Pedrinho, Narizinho e companhia foi poupada de receber seu quinhão mitológico. Aliás, mais de uma vez, porque eu me lembro que até o Hércules já apareceu pelas bandas do sítio de Dona Benta. Se tivesse sido só ele, estaria bom. Porque um fortão meio bobo destacado para fazer 12 trabalhos, eu encaro. Já com o colega dele que envergava a cabeça de vaca, não havia sangue frio suficiente para agüentar... Nem ele, nem seus dois amigos cinematográficos. Estes provocam medo transcendental nessa pobre garota crédula de lendas. O Minotauro do “Sítio do Pica-Pau Amarelo” O Ciclope de “Sinbad e a Princesa” A Medusa de “As Sete Caras do Dr. Lao”
Procurar essa imagem já foi tortura, acreditem! Desabafos de uma consumidora comum Eu odeio lojas com vendedoras. Coitadas, nunca fui destratada por nenhuma profissional do ramo. Mas o fato é que eu as odeio – não as vendedoras, mas as lojas. Dificilmente entro em algum estabelecimento comercial que tenha uma equipe pronta para atacar a próxima vítima, ups, cliente. Fujo mesmo. Se vejo algo realmente interessante na vitrine, porém, tento ter o cuidado de não ser a única provável compradora no interior do recinto. Há algo pior do que lojas com vendedoras? Sim: lojas vazias com vendedoras. Daí as pobrezinhas se estapeiam pelo cliente como se ele fosse o último brigadeiro em festa infantil com pouca comida. E não é bom você se sentir um brigadeiro. A culpa, é claro, não é das moças. Mas dos gerentes que as fazem ganhar por comissão e devem obrigá-las a sessões com o vídeo "Como Pegar No Pé De Um Cliente Até Vencê-lo Pelo Cansaço – Volume I". Acontece que eu também tenho uma parte de culpa. Meu problema? Sou boazinha. Não tenho cara de fazer a moça desmontar a loja toda e não levar nada. Ou de perguntar o preço de tudo e depois aplicar aquele eufemismo "hmm, obrigada, qualquer coisa eu volto", e não voltar nunca. E depois passar na frente do lugar e vê-la com olhos marejados feito cachorrinho abandonado. Tá, essa parte é invenção da minha cabeça. Viu como sou boazinha demais? Só não me compadeço pelas vendedoras da Hering. Essas sim, decoraram o maldito vídeo – e não só o Volume I, mas todos eles. Fico me sentindo naquele antigo quadro do Faustão que mostrava mímicos de rabo-de-cavalo e nariz de palhaço seguindo as pessoas na rua a um palmo de distância. Não há nada mais irritante do que ser vigiada por uma moça sorridente enquanto passeio entre camisetas básicas de algodão que custam 30 reais cada. Daí é muito para a minha cabeça. Portanto, prefiro aquelas grandes lojas em que posso olhar tudo sem pressa, experimentar o que me der na telha, dizer que não serviu, mudar de idéia, experimentar de novo, sair, voltar, etc. Não gosto de ter pressa de comprar, nem gosto de pressão. O drama é que eu sou meio compulsiva e tenho de lutar contra isso diariamente. Meu mantra primordial é "eu realmente preciso disso?". Só me esqueço dele quando é liquidação da Zara e minha conta bancária está cheia – mas tudo bem, porque tal encontro acontece apenas a cada 76 anos, como a passagem do cometa Halley. Voltando às lojas sem vendedoras, aqueles oásis de compra. Oásis? Nem tanto. Digamos que eu esteja olhando tudo na maior liberdade e que eu tenha entrado no provador com 50 peças e saído apenas com um par de meias. Mais cedo ou mais tarde, uma temível espécie vai se aproximar. Ela é sempre a funcionária mais bonita, mais bem-vestida, mais perfumada e mais maquiada de todas, sempre segurando uma prancheta. Ela chega e pergunta com voz doce "boa tarde, já possui o nosso cartão?". No começo, eu respondia que não. Daí, vinha um lero-lero de quinze minutos sobre todas as maravilhosas e estupendas vantagens de se possuir um cartão da loja – graciosamente escondendo o fato de que o cliente precisa ir até o estabelecimento para pagar a fatura do maldito todo o mês, em plena era da Internet. Quando eu dizia isso a elas, recebia como resposta "ah, mas você ganha desconto de 10% a cada compra...". Minha filha, eu prefiro pagar 10% a mais só para ficar em casa ao invés de ir numa loja saldar dívida de roupa. Após algumas situações irritantes como essa, aprendi a dizer "eu já tenho o cartão, é jóia!" com um sorriso de canto a canto. Na hora do caixa, contudo, não dá para mentir. E lá vem a nova funcionária querendo saber como, COMO eu consigo sobreviver sem aquele pedaço de plástico. – A senhora não quer fazer? É rapidinho. E, se você continuar, vou tampar os ouvidos e cantar bem alto lalalalalala. Vivi Griswold às 09:45 AM
Choro, não nego… … páro quando puder! Uau! O monte de gente lá no Fórum abrindo o coração sobre os momentos que os fazem, hum, abrir a torneirinha me inspirou a continuar o assunto. Já que somos quase todos chorões assumidos - e realmente não há mal algum nisso - hoje disparo a listinha de outro tipo de coisa que me faz chorar: livros. Não sei se estou sozinha nesse universo de leitores lacrimosos. Considerando que o cinema atinge muito mais gente do que a literatura, há que se dar um desconto proporcional. Além disso, o impacto visual da sétima arte é capaz de envolver mais facilmente os incautos espectadores e os desavisados que adentram a salona sem lenços à tiracolo. Mas a mágica que há a respeito de calhamaços de papel salpicados de letrinhas impressas é justamente essa: você imagina dali o mundo que quiser. A mocinha tem a cara e as expressões que sua massa cinzenta mandar, e não o náipe das estrelas de Hollywood. O vilão pode meter mais medo como você o fez em pensamento do que se viesse na pele do Christopher Walken ou o Gary Oldman (já falei que, se topo com um desses dois na rua, corro três dias e três noites sem olhar para trás?). As paisagens, cidades e descampados são ainda mais maravilhosos que as montanhas geladas da Nova Zelândia (que parecem sorvete de flocos) adaptadas para servirem de Terra Média no sensacional "Senhor dos Anéis". Conseqüentemente, as mazelas e os dramas dos personagens também caem como uma luva no que você imagina de mais triste no mundo. Por isso (e não riam), choro toda vez que leio… Mrs. Dalloway Flicts As Brumas de Avalon Paula Lolita
Bonito, hein, sêo Vladimir? 60 dias de choradeira por sua causa!
Injustiça ao nascer da tarde No meu tempo de garotinha, a Sessão da Tarde era a hora feliz do dia. Eu já era parada por cinema, ainda mais por filmes bobocas, previsíveis e de final feliz – típicos da programação vespertina. Dia de “Curtindo a Vida Adoidado” ou “Férias Frustradas” era para se acompanhar com amigos convocados na rua, pipoca e Tang. Quando às demais produções, eu apreciava sozinha. E, mesmo não sempre aqueles que ficaram marcados como clássicos, eu apreciava demais! Tinham atores quase tão bons quanto Chevy Chase. Tinham roteiros quase tão bacanas quando o “day off” de Ferris Bueller. Não foram capazes de ganhar fama continental, porém. Tremenda injustiça! O que podia ser mais surpreendente do que conhecer os anos dourados de um lendário detetive? Estes ficaram em segundo plano para muitos, mas não aqui no meu coraçãozinho. Academia de Gênios Te Pego Lá Fora Caravana da Coragem Alguém Muito Especial O Enigma da Pirâmide
Holmes e Watson eram reis nas minhas tardes Punhado de felicidade crocante O primeiro obstáculo é conseguir abrir o pacotinho: um movimento brusco demais pode ocasionar perda considerável de conteúdo pelo chão, o que fará você ficar ainda mais indignado ao constatar que a embalagem já vem pela metade desde o mercado. Após passar essa perigosa fase, porém, um mundo de delícias viciantes se descortina na sua frente. Comer salgadinhos é saber que você está enviando para seu organismo um produto duvidoso por princípio. É ficar com uma sede dos infernos nos primeiros exemplares degustados. É engordurar os dedos de tal forma que nem detergente industrial resolve. Mas, quando bate aquela fome no meio da tarde... O que você procura no armário da cozinha? Aposto que é alguma dessas opções abaixo... 10) Palitos Salgados 8) Ebicen camarão 7) Doritos queijo nachos 5) Fandangos presunto 4) Baconzitos 3) Piraquê queijo 2) Pringles 1) Cheetos original
![]() Até esquilos não conseguem resistir!
De chorar Se o velho dito popular “homem não chora” guarda alguma verdade, ainda bem que eu sou mulher. Isso porque a garota aqui é bastante dada a se transformar numa torneirinha de vez em quando. E se tem algo que desperta minha fonte interna de lágrimas é a tela grande assistida no escurinho. Sim, eu choro em filmes. Até aí, tudo bem... Todo mundo deixa escapar umas lagriminhas no breu do cinema. Mas o pior é que eu choro em filmes que: a) não são para chorar ou b) eu já vi antes e sei de antemão o que vai acontecer. É inevitável. A solução? Para o momento da projeção, basta ter lenços de papel à mão. Para quando as luzes se acendem, se ainda não parei de ter soluços convulsivos, é só dar uma chegada no espelho mais próximo. Acho minha cara tão feia quando choro que páro no mesmo instante em que sou submetida ao reflexo dela. Mas enfim. Até chegar ao banheiro com espelhos, já semi-desidratada, passo por poucas e boas toda vez que assisto... À Espera de um Milagre Os Últimos Passos de um Homem Coração Valente Tomates Verdes Fritos O Filho da Noiva O Casamento do Meu Melhor Amigo
Parabéns, parabéns, hoje é o seu dia! Conforme Flá confidenciou aqui, hoje nossa querida ruiva completa mais um outono (sei que ela preferiria inverno). Nem preciso dizer quanta alegria essa menina trouxe para a minha vida, quanto gosto dessa amiga temporã e quanto vocês também devem ser gratos à Vivi – afinal, a maior responsável por transformar o Garotas de um papo de mesa de restaurante em realidade foi ela. Não sei vocês, mas eu sei que sou muito mais feliz depois de ter cruzado com essa mocinha – e agradeço por isso. Parabéns, sis! Clara McFly às 06:35 PMGente de vida fácil Não sou de desdenhar de qualquer profissão existente – exceto quando dizem que fulana é “socialite”, mas daí ignoro e pronto. Todo empregado tem seu valor até que me provem o contrário. Apenas acho que os repórteres de revista ou programas de fofoca andam preguiçosos e repetitivos. Eles não sabem mais inventar perguntas, ó que chato... Hoje, basta ter meio neurônio funcionando para entrevistar famosos. Ninguém faz questão de furo de reportagem, de declarações realmente profundas (provavelmente imaginam que das cabeças ocas de muitas celebridades não pode sair uma frase interessante sequer). Assim sendo, os jornalistas atuantes no ramo do veneno devem ter instituído uma regra: só fazem quatro modelos de perguntas e está muito bem feito. Se você também quiser entrar no setor, é fácil, fácil. Basta encontrar uma celebridade dando sopa pela rua, apontar o microfone da face dela e sacar do quarteto de questões. 1) Vai posar nua? 2) Você foi vista com o Fulano... Está namorando? 3) Já estão falando em casar? 4) Qual será seu próximo projeto? Fofoquinha: hoje é o Dia da Ruiva! Se o Garotas é hoje um site bem sacado, bonito e que funciona nos trinques, todos devemos isso ao zelo, carinho e dedicação de uma mamãe muito coruja. Hoje Vivi contabiliza mais uma primavera, e eu gostaria de gritar para todo mundo ouvir o quanto essa mocinha é importante na minha vida. Ela chegou da mesma maneira de sempre, discreta e docemente, mas conquistou meu coração e se tornou uma irmã. Para sempre, Viv! Felicidades, meu anjo! Para cada ação... A terceira lei de Isaac Newton, aquele moço azarado que foi atingido por uma maçã quando tirava um cochilo à sombra, constitui a famosa "Ação e Reação". Ela surge de uma premissa bastante verdadeira: para cada ação, existe uma reação. Ou seja, se você bater no seu irmão menor, vai levar uma baita bronca da sua mãe. E se você derrubar um vidro de ketchup no chão, terá de limpar uma grande mancha no tapete. Algumas ações, porém, são seguidas por reações tão típicas que a lei de Newton cede espaço à lei de Murphy. Segundo essa última, se algo é para dar errado... vai dar. Um tanto pessimista, é verdade. Mas se você parar para pensar em seu cotidiano, vai ver que os dois ensinamentos andam de mãos dadas – para o desespero dos mortais. Ação: Sair de casa sem guarda-chuva Ação: Ensaboar o cabelo Ação: Sair de casa agasalhada Ação: Sair de casa sem blusa Ação: Ouvir música boa no rádio Ação: Terminar um trabalho no computador Ação: Passar esmalte Ação: Começar fazer um bolo Ação: Começar a melhor parte do livro
É impossível abrir um só Estamos em pleno século 21. O homem já foi à lua e é possível assistir, quase que exatamente ao mesmo tempo, qualquer coisa que acontece do outro lado do planeta. A medicina evoluiu, a internet revolucionou as comunicações e viagens que levavam semanas podem ser feitas em menos de um dia. Ainda assim, abrir certas embalagens é trabalho para a persistência e as manhas de um inquisidor medieval! O mais engraçado é que os tais pacotes parecem à prova de abertura – mas contam sempre com um simpático e supostamente solícito “abra aqui”, com um pontilhado ou uma lingüeta acompanhando a inscrição. Puro humor negro do fabricante, é claro. Ele e os desenhistas de embalagem devem rir às pampas pensando nos pobres mortais que passarão horas às voltas com a tarefa de chegar ao produto. Como, meu Deus, como é possível que fabriquem pacotes aparentemente projetados para... não abrir? A idéia do dono do brinquedo não seria a de vender seu produto? E o que leva esses homens a pensar que, quanto mais difícil de vencer um pacote, mais apego ao tal produto o pobre consumidor desenvolverá? Porque só pode ser assim que esses maluquetes raciocinam. Senão, não teriam feito as intransponíveis embalagens de... CD Escova de dentes Confeti Macarrão Rolo de papel alumínio Sonhos de uma noite de outono Longe de mim querer insinuar, com o título acima, que minha imaginação noturna se assemelha aos dotes criativos de William Shakespeare. Nunca, em tempo algum, eu seria capaz de imaginar príncipes guiados pelo fantasma do próprio pai ou uma linda história de amor onde... a dupla morre no final! Garanto para vocês, porém: muito roteirista de Hollywood iria gostar de se apoderar dos contos que rondam minha mente quando entro no terceiro sono. Mas a verdade é que me beneficio desses momentos. Eles falam e agem por mim. Não sei, mas pode ter sido o sol demais que tomei na infância ou o excesso de Fanta Uva consumido durante as refeições. O fato é que meus sonhos são extremamente realistas, compridos, coloridos, malucões. E trabalham para colocar em dia minhas pendências. Ontem, por exemplo: eu passei a noite brincando com um boneco do Bob Esponja capaz de dar explicações para todas as minhas perguntas sobre ciências, conhecimentos gerais e até dicas para cuidar melhor do cabelo. Como uma esponja marinha fictícia saberia isso, desconheço. E acho que esse não teve lá muito significado além do óbvio: adoraria ter resposta para tudo – ainda mais se ela fosse dada por tão divertido personagem. Também já ficou famosa a minha mania de manter conversas impossíveis, muito ditatoriais e redentoras durante a naninha. Tenho certeza de que faço isso enquanto durmo porque sei que nunca acontecerá de verdade, e então acho por bem desabafar do mesmo jeito. Na época do escândalo dos precatórios na Prefeitura paulista, por exemplo, passei noites fazendo acalorados discursos sobre moral tendo como espectador um perplexo Celso Pitta. Disse a ele um bom punhado de verdades – inclusive que afanar dinheiro público não era apenas um crime contra o patrimônio social, mas também uma forma de contribuir mais ainda para que pobres morressem de fome ou de doenças. Droga, acho que ele não captou as vibrações do meu sonho... Não importa, pelo menos eu disse e fiquei mais aliviada. Não creio em uma penca de coisas que dizia o Seo Sigmund Freud. Sobre os sonhos serem parte do nosso subconsciente se manifestando, porém, aposto todas as fichas no sabido homenzinho. Nem sei quantas vezes terminei, na imaginação dorminhoca, trabalhos e conversas que ficaram pela metade. Costumo também criar realidades paralelas no sonho, como apresentar gente bacana a amigos caçadores de romance ou viajar por lugares distantes do meu bolso como Noruega ou Austrália. (Junto imagens de filmes com fotos de revista para criar os cenários, é moleza). Penso assim: tudo o que quero muito realizar, mas não tenho chance no momento, guardo em num setor específico da cachola para um dia colocar em prática. Os meus sonhos têm acesso à pasta e ocupam-se de manter vivas as idéias. Porque um dia elas virarão realidade. Freud não deve ter dito, mas esse é o sentido de sonhar. Não? Amor em tempos de guerra Bob era um jovem fotógrafo americano que tinha um estúdio na Tchecoslováquia. Um belo dia ele conheceu Erika, uma garota húngara. Os dois se apaixonaram perdidamente e começaram a namorar, apesar das dificuldades daquele tempo, em que uma simples pegada de mão poderia ser interpretada como atentado ao pudor. O romance dos dois cresceu, mas acabou sendo interrompido com a chegada da Segunda Guerra mundial. Bob foi forçado a voltar a Nova York. Erika, por ser ainda uma adolescente, não pôde o acompanhar. O jovem passou a escrever religiosamente para a amada do outro lado do oceano. As cartas eram freqüentes e ultrapassavam as 20 páginas. Em uma delas, Bob pediu Erika em casamento – e ela aceitou. Nos meses seguintes, porém, a correspondência acabou ficando cada vez mais escassa, até que Erika não mais recebeu um bilhete sequer. A moça achou que o rapaz havia perdido o interesse. O que ela não sabia é que os navios encarregados de levarem cartas e encomendas internacionais – sim, todas elas eram colocadas em malotes e embarcadas em um transatlântico para conseguirem sair dos Estados Unidos e chegar à Europa, meses depois – foram suspensos durante o conflito. Bob não escreveu porque não havia meios de enviar seus sentimentos até a longínqua Tchecoslováquia. E acabou desistindo. Com o final da guerra, Bob e Erika se casaram... com outras pessoas. Muito tempo depois, no final dos anos 80, Bob já era um fotógrafo aposentado. Separado da esposa e sem filhos, morava em um asilo no Brooklyn. Foi durante uma exposição que uma idosa senhora chegou até ele, perguntado coisas estranhas. Queria saber se o nome dele era Bob, se um dia ele teve um estúdio na Tchecoslováquia e se havia conhecido uma garota húngara chamada Erika. Ouvindo respostas afirmativas a todas as indagações, a senhora disse ser a melhor amiga de Erika – sua confidente nos longos anos em que a ela amargou o abandono inesperado do noivo. Cinqüenta anos após terem se conhecido, Bob e Erika retomaram o contato. Ele finalmente conseguiu explicar a ela o motivo do fim de suas correspondências. A viúva Erika disse que, no fundo, nunca acreditara que ele a havia abandonado, e resolveu visitá-lo nos Estados Unidos. O casal, após um emocionado reencontro, não se separou mais. . O que parece uma história de folhetim romântico realmente aconteceu do jeito exato que acabei de narrar. Estava assistindo a um programa vespertino da tevê por assinatura e acabei me deparando com a estranha saga do casal distanciado pela guerra e pela dificuldade de comunicação. Fiquei imaginando que eles não devem ser os únicos velhinhos a terem passado por uma experiência parecida. Há um abismo absurdo entre o carregamento de correspondências por navio e o e-mail que usamos hoje – mas, repare, apenas meio século se passou (o que, em termos históricos, é um pequenino grão de areia numa ampulheta gigante). Enquanto converso com parentes na Europa instantaneamente via ICQ e recebo vídeos com meu mais novo priminho dando sorrisos banguelas a milhas e milhas de distância, penso em como seria se não houvesse tamanha facilidade. E não consigo imaginar o mundo de outra forma. Por isso, Bob e Erika, vocês são meus heróis. ![]() Carta pra mim? |
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