quarta-feira, 30 de junho de 2004

Bisturi? Não, obrigada

Há nem tanto tempo assim, cirurgia plástica era um troço de outro mundo. Lembro-me de uma das muitas minisséries enlatadas assistidas por mim, empoleirada na cama da minha mãe, lá no sobrado onde vivi os gloriosos anos 80. A trama tratava de uma mulher que foi atirada aos crocodilos pelo marido. Acho que ele queria ficar com o seguro de vida ou algo assim. Ela sobrevive, faz um monte de cirurgias, muda de rosto (!) e volta para a vingança.

O argumento incrível parece não ser mais tão absurdo hoje. É mais fácil, aliás, trocar completamente sua cara do que sobreviver a jacarés cênicos. Daqui a pouco, estamos transplantando caras inteiras, feito o que acontece no ainda pouco crível “A Outra Face” (continuo afirmando que só um mestre como John Woo para fazer a gente permanecer duas horas sentada diante da tela a partir de uma premissa tão bizarra e pífia).

Nada mais em voga (como dizia-se na época em que usar tal expressão estava... em voga) do que cirurgias plásticas. Na telinha da máquina de fazer doudos, pipocam programas de “antes e depois”, mas o que outrora só cobria um tapa no visual da vítima – como uma mudança no penteado, uma maquiagem mais potente e uma renovada no guarda-roupa – agora acompanha um infiel do trauma de infância à mesa de operações, sem esquecer, é claro, do retorno triunfante do recém-transformado ao seio da sociedade.

Acho que esticar, puxar e melhorar (o que nem sempre acontece) é de direito de quem se sente marginalizado por causa de um narigão, de uns quilinhos a mais ou de marcas acentuadas do tempo. Claro que, quando vira obsessão, já é discutível. Mas de qualquer maneira, cada um tem que poder mexer no seu próprio corpinho como bem entender.

Eu, por exemplo, adoraria usar um sutiã maior e tiraria um pouco do nariz italiano – isso se o procedimento envolvesse, em vez de anestesia e bisturi, uma varinha de condão e uma fada mágica. Estou longe da perfeição, mas prefiro meu bom e velho corpinho a alguém me cortando. Fujo de intervenções cirúrgicas de qualquer natureza como o diabo da cruz.

Aliás, já dei instruções para, se um dia sofrer um acidente que me ponha desacordada, aproveitarem para pedir aos médicos que tirem um cisto de digitação do meu punho esquerdo e façam a extração dos quatro dentes do siso que venho adiando há anos. Por essa medida, dá para perceber que eu só iria atrás de uma cirurgia de necessidade discutível se tivesse nascido com um olho no meio da testa.

Mas a maioria dos plasticamente cirurgiados não nasceu assim. Querem apenas melhorar algum aspecto físico, rejuvenescer um pouco ou tentar uma vaga a atriz-modelo-e-apresentadora duplicando seu, digamos, air bag original de fábrica. A não ser os participantes do “I Want a Famous Face”, programa que estreou semana passada na MTV brazuca, produzido pela matriz norte-americana.

No reality-show, os infiéis passam por uma bateria de operações, mudanças de cabelo e figurino para, pasmem, ficar parecidos com seus ídolos. No primeiro episódio, dois gêmeos em plenas desfigurações hormonais causadas pela adolescência vão tentar ganhar o naipe do Brad Pitt. Parece um programa fictício, apresentado em algum episódio do “South Park”, mas não é.

E o que é pior: ao receber as informações sobre o programa, fui direto na foto que acompanhava a mensagem. Vi duas imagens: uma com dois adolescentes típicos, cheios de espinhas na cara e cabelo indefinido, e outra de dois rapazes que pareciam algo entre um provável boneco do David Beckhan, o Bon Jovi velho e a Lacraia. O resultado devia fazer as pessoas que vêem a foto, mesmo as que não sabem do que se trata, pensarem: “nossa, como eles parecem com o Brad Pitt, não?” – o que não aconteceu.

Na boa? Eu era mais o original. A despeito do que a incômoda fase da adolescência insiste em fazer parecer, uma hora os hormônios se acalmam e você vai ficando mais ajeitado – física e socialmente. Melhor esperar passar do que ficar parecendo... algo que não se parece com nada.

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Vamos precisar de outro Jimmy...
Clara McFly às 05:39 PM


Hora do lanche, que hora tão feliz!

Quando se é criança e está rolando aula de matemática, nada no mundo parece mais lento que o relógio. O maldito quase anda para trás – de propósito, porque sabe o quando esperamos soar o sinal. Naqueles tempos, não tem período mais aguardado que o recreio (intervalo só existe depois da 5a série, antes é recreio mesmo). Claro, pois é ali que vamos encher a barriga de comida e a cachola com memórias.

A minha mente vive relembrando o tempo do recreio. Recordo bem das partidas de basquete que tirava com os meninos, da fofoquinha com as meninas, da troca de papéis de carta e figurinha. Mais que tudo, porém, lembro dos artigos que compunham minha lancheira e dos quitutes adquiridos nas cantinas por onde passei.

No início de tudo, mamãe ainda preparava o lanche pra mim e alojava tudo na sacolinha apropriada. Em geral, era um pão de fôrma com queijo prato e, para acompanhar, suco de laranja colocado na garrafa térmica. Vez por outra, em geral na semana da despesa, ganhava como bônus Lanche Mirabel ou Danone. Tudo era delícia, exceto pelo suco de laranja: ninguém notava, além de mim, que o líquido ficava amargo feito corrimão de quartel depois de duas horas na lancheira? Nojo!

Passados dois anos de carreira escolar, fui enviada para uma escola pública. Lá, quase tudo transcorria de modo diferente. Colégio estadual não tem mãe fazendo fila dupla no portão porque a maioria da garotada chega para estudar a pé ou de ônibus. Também não há verba para muita opulência acadêmica – como mapas novos e apostilas explicativas – ou salas de aula recém-pintadas. Mas há merenda!

As tias cozinheiras do saudoso “E.E.P.S.G. Anésia Loureiro Gama” eram feiticeiras pós-graduadas em multiplicação de recursos. Mesmo quando safados políticos metiam a mão no dinheiro público e atrasavam o envio de comida às escolas, como tanto fez Seo Paulo Maluf, aquelas mulheres abnegadas conseguiam forrar nossas barrigas com algo decente. Lembro vagamente do cardápio.

Segunda e sexta eram dias de sopa (uma de feijão, outra de macarrãozinho). Terça, se bem recordo, tinha macarrão com manteiga e queijo ralado. O lanche de quarta consistia em pão com alguma coisa gostosa, como mortadela e coisas do gênero. Mas bom mesmo era esperar pela merenda de quinta-feira: um delicioso prato de arroz, batatinhas e salsicha com molho! Era incrível, mas mesmo tendo de cozinhar panelaços gigantes para 400 pivetes, as tias deixavam a comida gostosa. Dá água na boca só de pensar.

Em alguns dias, porém, dava bode apanhar o prato de alumínio e a fila da merenda. O jeito era contar o dinheiro no bolsinho da mochila e concluir se dava ou não para apelar à cantina. Lá, meu predileto era um enroladinho de presunto e queijo. Quente, derretido por dentro e com cheiro ótimo, o salgado atiçava o paladar há milhas de distância. Claro, metade da classe pedia “um teco”. E apesar do lanche ter cerca de 10cm x 10cm, nunca tinha coragem de negar a lasquinha.

De volta aos bancos escolares particulares, lá pela 6a série, acabou a minha mamata de levar lanche feito pela mamãe ou ter uma merenda governamental para usufruir. Era questão de improvisar: ou afanava um pacote de bolachas antes de sair e casa, ou checava os bolsos para comprar na cantina. Malditos mafiosos! Tudo lá era gostoso, mas caro pacas!

Meu predileto, felizmente, era um lanche “de pobre”, mais baratinho. Em vez do cachorro-quente tradicional, a moça do refeitório fazia uma versão editada, contando apenas com pão francês e molho de tomate. Quem precisava da salsicha? O que sobrava do dinheiro ainda dava para comprar balas Banda, de canela, de leite ou mesmo um Chicabon.

Juntos, eles me davam a força necessária para encarar as aulas de matemática, química ou física – outras que faziam o ponteiro do relógio andar para trás. E me deixam ainda mais ansiosa pela próxima deliciosa hora do recreio.

Fla Wonka às 01:45 PM


Eu quero uma casa no campo

Na volta de Ouro Preto para São Paulo, resolvemos parar o carro em uma chácara e comprar os quitutes indispensáveis àqueles que, como nós, querem prolongar o gostinho do interior de Minas Gerais por algumas semanas mesmo na cidade grande – lê-se queijo meia-cura, doce de leite, doce de abóbora com coco, geléias. A placa anunciando o local dizia “atendimento vip”, mas não estava preparada para o que viria.

Em primeiro lugar, eu passava um grande apuro para ir ao toalete de damas e estava disposta a comprar o que o moço quisesse me empurrar em troca apenas de um vaso sanitário limpo e uma pia com sabonete. Ah, e papel higiênico, claro.

Depois de dizer “oi” ao senhor sorridente, fui logo perguntando pelo banheiro. Ele me mostrou uma portinha ao lado da churrasqueira, e eu fiz uso do recinto enquanto galinhas ciscavam e cacarejavam do outro lado do vitrô. Mas não é só pela trilha sonora na hora do xixi que eu cismei com uma casa no campo não. Tem mais.

Enquanto escolhíamos os vidros coloridos e repletos de delícias, o senhor foi passar um cafezinho para nós. Queria que experimentássemos, à vontade, cada uma das compotas que a filha dele fazia. Quando pegamos um doce de leite, ele apontou para fora da janela e disse “Esse veio daquela vaquinha ali”. Quando pegamos uma geléia, ele apontou novamente o amplo quintal e disse “A fruta é daquela árvore”.

Ouvir coisas desse tipo é muito estranho para uma garota da cidade acostumada a pensar que o princípio de todos os produtos é a prateleira do supermercado. Mas eu ainda tive a sorte de ter avós da roça que ainda cultivam os bons hábitos: passei minha infância na horta do meu avô caçando joaninhas e segurando a barra do vestido da minha avó enquanto ela fazia doce de goiaba vinda do sítio deles. Existem casos mais graves que o meu, pois aposto que muita criança de hoje nunca viu uma galinha – e não vale em peças congeladas.

Estou começando agora a entender o que o sábio Sr. Justino queria expressar quando dizia que tinha pena das crianças de hoje, que não contam com um gramado imenso para correrem descalças e uma árvore para subirem, uma vez que os quintais estão cada vez mais escassos na cidade e as áreas comuns de condomínios fechados não dão muito espaço para uma molecagem sadia.

Não que eu fosse me adaptar maravilhosamente em uma casa no campo. Só como verdura quando minha mãe me força. Adoro dormir tarde e acordar tarde. Gosto de freqüentar um cinema amplo para assistir aos últimos lançamentos. Sou viciada em Coca-Cola. Não tomo leite, nem suco de fruta natural que não seja coado.

Mesmo assim, já incluí na minha lista de desejos um lugar do tipo. E, na minha cabeça, minha casa no campo é linda.

Uma espaçosa residência térrea, branquinha por fora e colorida por dentro. Coloridas também são as janelas e as portas, essas últimas com fechadura artesanal. Todos os tapetes e mantas serão feitos por tear manual, usando fibra e pigmentos naturais. O piso, de taco – tirando o da cozinha, que será hidráulico e formando uma trama complicada e bela. Os móveis, todos rústicos, mas não country (que eu odeio).

Quero ter dois fogões: um à lenha para enfeitar (e usar só no Natal) e um industrial. Em cima deles, panelas de cobre penduradas ao lado de réstias de alho e de pimenta. Na cama imensa e aconchegante, uma colcha de retalhos. E um quintal verdinho que se desenrola até onde a vista alcança. E gatos, muitos gatos.

Sem mencionar a sala com uma tevê gigante e canais por assinatura. Ok, a casa é de campo. Mas nem por isso eu preciso mudar tanto, certo?

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Uma dessas já estava bom...
Vivi Griswold às 10:52 AM

terça-feira, 29 de junho de 2004

Ícones, sabão e o caso da camisa xadrez

Lavar roupas pode ser uma verdadeira aventura. E olha que eu tenho máquina de lavar – um aparelho que supostamente devia fazer tudo. Pelo menos é o que eu achava: basta jogar lá dentro, despejar um tanto de sabão e um pouco de amaciante e voilà!, tirar e pendurar no varal ou enfiar na secadora. Ledo engano.

Lavanderia é uma arte muito, mas muito complexa. Vão por mim. Primeiro, tem a indecifrável separação das roupas por lavar. Minha mãe resumiu: “uma pilha de peças pretas, uma de brancas, outra de coloridas; toalhas e panos de cozinha sempre separadamente, assim como panos de chão; peças delicadas, lavar na mão”.

Parecia tudo mais ou menos simples, até que topei com uma camisa de estampa xadrez preto-e-branco, com quadradinhos escuros no mesmo número e área que os claros. E agora? Isso é preto ou branco? Caiu por terra a aparente simplicidade da explicação. Mas, como diriam aquelas propagandas de venda pela TV, não é só!

Ainda tem a questão das peças delicadas. Quem já esfregou roupa na mão sabe que saco é a tarefa – a não ser que você esteja tentando fortalecer os músculos abdominais e os braços num tratamento de choque. Por isso, quero que o conceito de “peça delicada” fique claramente definido: assim, posso enfiar na máquina tanta roupa quanto possível. O jeito é fazer testes – e, é claro, estragar algumas coisinhas no longo caminho do aprendizado via tentativa-e-erro. Ou acerto.

E a história da roupa de cozinha ir separada? Tem idéia do impasse que isso pode virar numa casa com dois moradores? O máximo que consigo ter acumulado no final de semana é uma toalha de mesa e uns dois ou três panos de prato. Dá dó (e é um desperdício) gastar água num ciclo da máquina para meia dezena de peças. Por outro lado, tirar gordura e manchas de shoyu (tempero de saladas favorito aqui em casa) na mão é missão para super-heroínas do lar, patamar que não alcancei.

Tentei buscar alguma luz nas etiquetas das roupas, que deviam servir para algo além de cutucar impiedosamente nossa nuca ou o ladinho da barriga. Diz que tem instruções ali. E tem mesmo; o problema é decifrá-las. Quando as regras de lavagem não vêm enunciadas por extenso – coisa que só é possível quando as etiquetas são enormes e, portanto, estorvam ainda mais –, estão codificadas em estranhos ícones misteriosos.

Trata-se, portanto, de escolher entre a perturbação de um etiquetão e instruções claras de lavagem ou uma discreta etiquetinha e a eterna ignorância de como tratar aquela peça, já que as regras para lavá-la virão na forma de desenhos em sua maioria indecifráveis.

A figura de um ferrinho de passar eu entendo: pode passar a ferro. Um ferrinho com um xis em cima, ok também: não pode passar a ferro. Uma tininha com a inscrição 40o sobreposta, tá beleza: lavar em água até 40o centígrados. Agora, por Deus, o que diabos quer dizer quando a etiqueta tem uma bolinha? E um triângulo? E um quadradinho com uma bolinha dentro? Fica parecendo uma folha de atividade do pré!

Atormentada por tais questões, apelei ao sêo Gúgol e, como sempre, encontrei uma resposta. Baixei o Manual do Consumidor Hering, onde mui solicitamente eles listam todos os símbolos de etiquetas e os desvendam.

Então percebi que eu sabia ainda menos do que imaginava: há ferrinhos de passar diferenciados, de acordo com o número de pontinhos que está impresso dentro deles! É melhor imprimir uma cópia e pregar na lavanderia. E passar a reverenciar as lavadeiras como verdadeiras artistas.

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Será o nome do namoradinho de pré-adolescência, escrito em código no diário? Não, são só os símbolos das etiquetas de lavagem
Clara McFly às 10:01 PM


O tesouro do 414

Quando a década de 80 chegou aos seus meados, minha família contava com: uma casa térrea de três quartos não-quitada, um carro “da firma”, um Fiat 147, um poodle psicótico, um pai, uma mãe, três filhos. Além dessas modestas poses, contudo, tínhamos em nosso poder algo capaz de arregalar olhos na rua. Meu videocassete foi o primeiro exemplar do tipo a desembarcar do caminhão das Casas Bahia no Jardim Hollywood!

Claro, ele não foi novidade por muito tempo, porque logo outras famílias acharam que o tal do vídeo podia mesmo ser uma boa idéia e adquiriram os seus em prestações a perder de vista. Nosso modelo era Sharp, com duas cabeças (o que quer que fosse isso, porque ninguém sabia) e controle remoto... com fio! Isso mesmo: a facilidade contava com três míseros botões de Play, Rewind e Forward. Nem Stop tinha, coisa mais esquisita.

Mesmo assim, o videocassete logo se mostrou uma preciosidade. Imaginem vocês que, com ele, pudemos achar a MTV no canal 32 UHF e ver clipes! Antes disso, a música de assistir só tinha vez nos programas “Realce” e “Clip Trip”. Com o advento da Music Television, encontramos astros ainda em ascensão por aqui, como um rapaz com cara de menina e uma garota de cabelos multicor.

Evidente que foram devidamente gravados em VHS para a posteridade. E depois passados e repassados no velho Sharp para a moçada da rua e para a própria diversão caseira. Lá na Rua Copacabana, 414, quase gastamos a fita magnética assistindo às apresentações desta gente que segue.

Paul McCartney e Michael Jackson – Say Say Say
Um dia, Paul e Mike já reuniram forças na tentativa de quebrar a banca e vender mais LPs que qualquer um. Deu certo! Junto com Linda, a esposa do primeiro, gravaram o clipe desta música e cansaram de rodar pela MTV. Lá, faziam de conta que estavam no Velho Oeste (ou coisa assim) e vendiam um tônico para dar força. Saem da cidadela fugidos, mas cantando “Say Say Say”!

Paul de novo – No More Lonely Nights
A carreira solo do ex-besouro rendia muito nos anos 80, viu? A pose de galãzinho meigo ainda não tinha ido embora, e neste vídeo ele cantava sobre a solidão apoiado em uma janela ao lado de um abajur de néon – a expressão máxima da modernidade à época. Eu ficava com dó... E quase corria uma lágrima ao ver o Paul tão largadinho.

B-52’s – Private Idaho
Essa era a hora de pular do sofá e tentar imitar a coreografia dos integrantes do “bife com xuxu” (trocadilhos bestas eram moda naquele tempo, desculpem). Bastava dar saltinhos e jogar os braços para trás. Ruim mesmo era não ter uma peruca rosada ou amarela como as da Kate Pierson.

Bruce Springsteen – Dancing in the Dark
Ninguém diria, mas a moça sortudíssima que Bruce puxa da platéia e chama para cantar e dançar com ele no palco seria, depois, muito mais famosa que o próprio. Era Courtney Cox Arquette, a Mônica de Friends. Mas pouco se ligava para a garota ali. O negócio era atentar para a voz de quem mastigou fumo do americano.

Cyndi Lauper – Time After Time
Ela era uma mocinha muito divertida que cantava os hits mais animados. Mas meu irmão achou de gravar justo esta peça, onde Cyndi sofre, padece e deixa as lágrimas correrem enquanto apóia a cabeça na janela do trem. Sim, ela podia ser muito dramática também, e não apenas uma comediante nata como no vídeo com a música de “Os Goonies”.

Boy George – Karma Chameleon
No começo, eu tinha medo do tipo. Para mim, ele não parecia um “George”, quanto menos um “Boy”... Mas, para a sorte do alvo sujeito, a música elaborada junto com o Culture Club era boa demais. Imaginem: por causa do nosso clipe gravado com Boy George, um garoto da rua começou a se vestir daquele jeito! Éramos felizes e não sabíamos.

Blitz – Weekend
Não era apenas um vídeo do grupo. Tratava-se de uma gravação feita diretamente de um certo “Rock in Rio Festival”. A primeira edição do mega-show (que hoje já não é “Rock”, não é “in Rio” e pouco tem de “Festival”) nos rendeu, além da visão de Evandro e cia. vestindo cores fluorescentes e plumas, um vídeo da Nina Hagen com o Tokio. Aliás, gravamos tudo, até a apresentação do James Taylor. Tempo bom não volta mais...

Toda a máfia – We Are The World
Boa parte da turma que aparecia nas nossas fitas cantando os sucessos acima foi reunida em um projeto social. Para salvar a África na miséria absoluta, juntou-se um time estelar de cantores – como Stevie Wonder, Cyndi, Bruce, Paul e até, céus, Lionel Ritchie. Cada um entoava parte da canção em um jogral tão emocionante quanto hilário. Um dia farei texto exclusivo para isso... Preciso recuperar o VHS onde a pérola se encontra...

Footloose
Esta gravação tinha história familiar. Era assim: enquanto Kenny Loggins proferia os versos da música-tema de “Footloose”, Kevin Bacon aparecia na tela em trechos do filme. Eu adorava a canção, e toda a molecada também. Mas uma maldição se abateu sobre o vídeo. Toda vez em que chegava a cena onde Kevin desce do carro com uma garrafa de cerveja e um cigarro, meu pai aparecia na sala. Da porta, vendo aquilo, ele mandava desligar. “Ficam vendo essa gente beber e fumar!”, era o bordão do papai... Droga, nunca via “Footloose” até o fim. Ainda bem que estava gravado!

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A cena dava briga lá na Copacabana, 414
Fla Wonka às 02:14 PM


O que acontece com a tevê?

Costuma-se dizer que a televisão faz as vezes de babá dos pobres – já que é bem mais fácil comprar o aparelho à prestação nas Casas Bahia e largar o filho na frente dele o dia todo do que contratar alguém para cuidar do rebento. Apesar de minha mãe jamais ter deixado a telinha tomar conta de mim durante a infância, posso dizer que a babá daquela época era bem mais capacitada do que a de hoje.

Não é novidade nas discussões sobre a qualidade da tevê o fato da nossa programação aberta estar pela hora da morte. Bumbuns passeiam pelos programas em horas familiares e pessoas do povo são humilhadas com pegadinhas. Há ainda a degradação do status de "artista" – ou a popularização, uma vez que qualquer mané bombado é rapidamente alçado à condição de estrela.

Mas é sobre outra coisa que eu quero falar. E não vou escrever um manifesto sobre a perdição da televisão brasileira. Pensando bem, a programação nunca foi de qualidade. Apenas piorou horrores ao longo dos últimos anos. Ei, mas a humanidade também não tem piorado? Então.

Contudo, o que eu vejo atualmente é a perda da diversão – o que, ao meu ver, é tão ruim quanto a perda da qualidade. Não sei se é porque eu era mais nova e mais deslumbrada, mas a questão é que assistir à tevê ficou chato. Na maioria das vezes, beira o insuportável. E vou provar!

Peguemos a tal da novelinha das oito que acabou na última sexta-feira. Ao que parece, o autor não faz a mínima questão de esconder o fato de que o folhetim teve a trama requentada de "Vale Tudo". Agora botemos "Celebridade" e "Vale Tudo" na balança: tem comparação? Ah, por favor! Não faço a menor idéia de quem era o tal de Lineu, mas não esqueço quem foi Odete Roitmann – e olha que eu tinha 11 anos e nem seguia a novela tanto assim.

Programa para jovens hoje. O que temos? "Malhação", um monstro de sete cabeças oxigenadas. O troço começou mostrando as agruras dos adolescentes dentro de uma academia (hã?). Depois, quando a idéia gastou, eles transformaram o local em escola, cursinho, lanchonete e sei lá mais o quê. Agora "Malhação" deve ser uma estação lunar cheia gente bonita. Pois quando eu era o público-alvo disso, assistia à "Armação Ilimitada" – aquilo sim um programão, que mostrava gente bronzeada, surfe e praia, mas com um pé no nonsense e (por que não?) na inteligência.

O que era melhor, "Viva a Noite" ou "Domingo Legal"? Em qualidade, ambos ficam devendo feio. Mas enquanto o mais novo abusa de recursos para fazer televisão ruim, o primeiro fazia essa mesma televisão ruim de um jeito despretensioso e engraçado. E "Perdidos na Noite" ou "Domingão do Faustão"? O apresentador é o mesmo. O que mudou foi o salário, a verba e a audiência – estranho, pois a grana que entrou deveria melhorar ao invés de piorar, certo?

Outro que eu não entendo é o "Globo Repórter". Quando eu era pequena e morria de medo do tema de abertura do jornalístico, lembro-me de assistir a umas matérias investigativas, contestadoras, misteriosas, obscuras. Agora... Dá-lhe tuiuiú! Não tem uma sexta-feira que o programa não nos brinda com imagens do pôr-do-sol do Pantanal. Ok, é bonito, mas não está acontecendo nada de mais interessante no mundo não?

Por fim, vejam os humorísticos... Alguém aí agüenta assistir a cinco minutos de "Zorra Total" ou "A Praça É Nossa"? Nunca gostei do Chico Anysio, mas o programa dele era bem melhor que tudo isso. E os "Trapalhões" então... Agora temos "Turma do Didi", que chega a ser vergonhoso. Coroando o exemplo vem Jô Soares, antes um cara cômico, hoje um mala que gosta de aparecer mais que o entrevistado em seu programa.

Veja bem: meu discurso não é "ah, na minha época é que era bom", porque não era. Nunca foi. Mas que o pessoal das antigas sabia entreter muito mais, ah, isso sabia.

Babá mais chata essa atual, viu.

Vivi Griswold às 09:54 AM

segunda-feira, 28 de junho de 2004

Acaba logo com essa novela!

Como eu já disse por aí, sou uma garota de finais. Não tenho disposição suficiente para ver um jogo de futebol inteiro – nem durante a Copa –, a não ser que a partida em questão seja final de campeonato. Assim como não tenho paciência suficiente para ver uma novela inteira desde “Vamp”, a última que “acompanhei” (como dizia minha avó, que não assistia novelas, mas sim as acompanhava). Porém, último capítulo das tais é comigo mesmo!

Não sei se fui eu que encontrei novos interesses e horizontes e desenvolvi um bocadim mais de senso crítico ou se a qualidade desse produto de exportação nacional caiu mesmo. Mas o fato é que desde a divertida avacalhação vampiresca escrita por Antonio Calmon e dirigida por Jorge Fernando não encontro saco disponível para ver toda aquela enrolação – que, como é sabido, vai terminar do mesmo jeito.

Assim, desenvolvi a portátil técnica de assistir alguma coisa dos primeiros dias, pular todo o recheio e esperar até chegar logo o que interessa: o último capítulo. O problema com essa tática é o distúrbio que causo na minha irmã, noveleira de carteirinha, ao ficar perguntando o tempo todo coisas do tipo “mas por que ele está casando com ela?” e “de quem é esse bebê que a moça tá esperando?”.

Apliquei esse truque com “Celebridade”, a embromação mais recente do horário das oito, que fechou sua trama sexta passada – com a tradicional reprise no sábado, claro. A semana inteira houve um bombardeio da mídia para fazer pegar a pergunta “quem matou Lineu?”, reciclada da inesquecível “quem matou Odette Roitmann?”, surgida na época da genuinamente notável “Vale Tudo” – não por coincidência, novela do mesmo autor, Gilberto Braga.

Pensei com meus macaquinhos: “bem, ‘Vale Tudo’ terminou com um vilão se dando bem (quem se esquece do Reginaldo Faria a se mandar, despedindo-se do Brasil com uma banana?). Quem sabe o sêo Gilberto não repete a corajosa tática e se redime dessa encheção de lingüiça?”.

Má quê! “Celebridade” terminou como todas as outras: dois casamentos, dois vilões mortos, um preso e as personagens de valores duvidosos, mas não malvadas o suficiente para serem categorizadas como vilãs, encontrando a redenção e a recompensa depois de muito sofrimento.

Resumidamente, a Laura matou o Lineu; o Renato matou a Laura e o Marcio Garcia; o Guma ficou com a Duda (aka Maria Clara); o bombeiro casou com a Deborah Secco e a Juliana Paes se arranjou bem com um dos primeiros negros de novela que não era mordomo nem motorista; o roitmann da vez Alexandre Borges casou com a mulher que, bem, já é mulher dele mesmo.

Que bela porcaria. Se sou eu a responsável por essa novela, mato o Guma e faço a Maria Clara e a Laura se apaixonarem, dividindo a casa, a fama e a filha para criar. Mando o Renato acabar como apresentador do “Fama” (o programa, não a revista. Não imagino castigo pior) e o Marcio Garcia fugir com as duas alpinistas sociais gostosas para o Caribe. E deixo o bombeiro bonitão virar pivô da separação de uma modelo-e-atriz dos anos 80, agora casada há anos com um empresário e cuja ocupação maior é ser madrinha de bateria no Carnaval.

Ôpa. Peraí. Acho que isso já aconteceu.


Clara McFly às 05:17 PM


Tem festa no gueto!

Tudo bem: eu não morava exatamente em um gueto. Nasci e cresci em um conjunto habitacional classe-média destes com casas iguaizinhas desde o portão de ferro até o muro chapiscado. Por isso mesmo, vai ver, quase todas as famílias ali tinham o mesmo estilo de ser e viver. Tanto que eventos climáticos ou acontecimentos populares viravam sempre para o mesmo rumo.

Nem era preciso trocar muitas informações: a gente apenas sabia como agir em termos de comunidade. Por exemplo: quando a Copa do Mundo se aproximava, ninguém precisava fazer abaixo-assinado de casa em casa pedindo autorização para pintar o asfalto com motivos futebolísticos e patrióticos. Era só um dos moleques passar a mão nas latas de tinta sobradas da última pintura da sala e reproduzir na rua uma bandeirona.

Um bando de palpiteiros ia ajudar, outra turma ia apenas apontar os erros – e mandar tirar aquelas 14 estrelas a mais colocadas na bola azul. Bairro proletário sempre tem desses tipos mesmo. Na época da poda das árvores, era a mesma coisa.

O caminhão da prefeitura passava tesourando as acácias, e na cola dos trabalhadores iam as donas-de-casa palpitando “deixa esse galho que é bonito, tira aquele mais feioso, filho!”. Elas tratavam o paisagismo público como seu próprio jardim. Folgadas, mas bem intencionadas, vá? Melhor ainda eram para a criançada, que podia apanhar os galhos e inventar as mais absurdas brincadeiras. Eu tinha uma, como já contei antes.

A molecada da vila, aliás, também tinha sua própria dinâmica estabelecida. Quando o céu pretejava e começava a chuva forte, era batata: a enxurrada se formava nas sarjetas e, para a gente, tinha a violência e a diversão das Cataratas do Iguaçu! Formado o aguaceiro, todo mundo corria para dentro de casa e pedia à mãe para brincar no toró. Nem bem ganhávamos resposta positiva, lá estava a turba pisando nas poças.

A gangue sabia também que, para ser legal de verdade, o chuvaréu tinha que ser tomado de roupa completa, com tênis e tudo, e não valia frescura de “não posso entrar debaixo da calha que senão minha mãe briga”. Estava na chuva, era pra se molhar, diabo!

Outra época de farra absoluta para a criançada da vizinhança era o período de eleições. Naquele tempo das recém-conquistadas “diretas já”, havia uma briga de foice entre vereadores e deputados para uma vaguinha no poder legislativo. Para agradar, além do comício com música, eles faziam sempre a mesma coisa: enchiam um caminhão de santinhos e saiam largando sacos e mais sacos de papéis ao vento nos bairros classe-média. Para mim e para os meus amigos (não responsáveis pela limpeza urbana) era uma glória!

Teve um ano em que algum gênio achou de estampar, no verso do santinho, uma nota de dólar (que espécie de plataforma política tinha o maldito, não me lembro). Imaginem como as brincadeiras de casinha e banco se tornaram mais profissionais naquele ano! A rua ficou literalmente forrada de papel – e as caixas de sapato imitando registradoras inflacionaram, de tantas notas bacanas para armazenar.

Comunidades organizadas em bairros também sabiam fazer uma bela festa junina onde cada um levava seu pratinho de doce ou salgado e montar belos esquemas de “tranca-rua” para transformar a rua em quadra de vôlei, futebol ou pista de ciclismo. Não que fôssemos unidos, não. Era mais fácil ver um vizinho brigando por causa do carro estacionado na guia baixa do outro do que pardais empoleirados no fio de luz. Mesmo assim, a dinâmica funcionava para festanças de chuva ou Copa. Era a lei do gueto.

Fla Wonka às 02:21 PM


Molecagem em sentidos

Lembranças de nosso tempo de crianças alegres (e birrentas e arteiras) não ficam armazenadas apenas na cachola. Vez ou outra um fato da minha infância, até o mais obscuro, chega sem aviso incentivado por um gosto ou um toque. Pois a memória não seria tão completa sem a ajuda dos cinco sentidos essenciais – eles estão aí para que momentos simples e preciosos não escapem com o passar dos dias, meses e anos.

Como bem descreveu a Clara em seu último texto, um cheiro vindo de algum lugar é capaz de despertar uma série de sentimentos e cenas antes apagadas. Outro dia, por exemplo, fui atingida pelo aroma de pipoca doce de carrocinha. Instantaneamente, me veio à cabeça o sêo Gênio, um velhote de 105 anos que empurrava um carrinho repleto de guloseimas vendidas de porta em porta na rua da minha avó. Não se fazem mais pipocas doces como a do sêo Gênio. Nem velhotes como ele.

Tudo isso chegou à minha cabeça em questão de segundos – e por culpa de um vento que bateu na panela do pipoqueiro e veio de encontro a mim. Ainda bem tenho meus cinco (às vezes, seis) sentidos para manterem vivas algumas chaminhas da infância.

Audição

A frase “olha o carro!”
Até escrevi uma historinha usando a interjeição como título. Perdi as contas que quantas vezes disse ou ouvi tal frase durante as brincadeiras de rua, devidamente atrapalhadas pelos veículos que teimavam em passar no meio da farra. E, para o meu espanto, ainda ouço a sentença quando passeio pela parte tranqüila do bairro.

Panela de pressão
Agora que eu sou crescida não adquiri esse equipamento doméstico por um motivo simples: não sei mexer! E, nesse caso, o troço vira uma arma de alto poder de explosão. Mas o barulhinho da panela de pressão funcionando na casa da mamãe... Sempre foi canção ao meu ser faminto por feijão fresquinho.

O relógio de Dona Diva
Minha avó tem um daqueles relógios antigos de pêndulo e que marcam as horas com badaladas. Passei alguns apuros com ele na infância, pois morria de medo do som tétrico que ele fazia. Hoje, quando eu o escuto (sim, ele é imortal), lembro da época em que dormia lá e esperava chegar a meia-noite.

Paladar

Groselha
Tá certo que ainda se fabrica a tal groselha vitaminada Milani – mas eu me recuso a comprar. Apesar de ser apaixonada por aquele gostinho, ele é especial demais para eu ficar gastando à toa por aí. Prefiro tomar muito de vez em quando e me lembrar das tardes em que a mãe da minha amiga nos chamava para um lanche.

Bubaloo de tutti-frutti
O chiclete cor-de-rosa com creminho dentro não me deixa esquecer das filas intermináveis da cantina da escola que eu era obrigada a enfrentar se quisesse cravar os dentes em um X-Salada. Ao invés de troco, porém, pedia à tia tudo em Bubaloo de tutti-frutti, muito mais valioso do que qualquer moedinha, certo?

Cachorro-quente de rua
Sempre me pego babando em frente das carrocinhas de cachorro-quente da rua. Hoje eu sei que muitas delas não seguem as normas de higiene ou possuem produtos de boa procedência. Mas de vez em quando me permito esqueçer e relevar tudo isso: gasto um real e meio no sanduíche mais gostoso do universo.

Tato

Melancia
O elo entre a minha infância e a fruta favorita da Magali não é baseada em gosto. Porque a melancia poderia ter qualquer sabor – o importante era comer aquilo de tal forma que todo o suco começasse a escorrer pelos braços. Sentir o líquido geladinho descendo e, depois, ficar todo grudento era o máximo dos máximos.

Cama-de-gato
Uma das minhas brincadeiras infantis favoritas! Bastava um cordão e uma segunda pessoa que soubesse brincar também – pronto! No caso, a pessoa era a minha mãe, que me ensinou todos os truques da tal cama-de-gato. Faz anos que não brinco, mas tenho vontade cada vez que seguro um barbante.

Permanente
Lembro-me da ocasião em que minha já falecida avó Helena, dona de uns três fios de cabelo, resolveu fazer permanente. O negócio pegou tanto que os cachos ficaram mais parecidos com pequenas molas. E eu ficava brincando de colocar a mão e soltar, fazendo “póing!”. Queria ter podido fazer isso só mais uma vez.

Visão

Caipirinhas
Calma, não estou falando da bebida à base de pinga! Mas das meninas vestidas para as quadrilhas que estão pululando nessa época do ano. Ver uma delas é viajar para a época em que eu adorava colocar o chapéu de trança, o vestido de chita e a maquiagem exagerada para dançar nas festas juninas da escola.

Realejo
Em algumas feiras livres de bugigangas aqui na cidade grande é possível ainda encontrar essa figura tão enigmática para mim quando eu era criança. Achava que realejo era alguém saído do reino da magia, que mostrava o futuro da pessoa através de uma música e um periquito, ambos encantados.

Dente-de-leão
É preciso que alguém me segure caso eu encontre um dente-de-leão (ou careca-do-vovô) bem redondo e cheio, pedindo para ser assoprado. A vontade é semelhante a de apertar plástico bolha ou apertar um cravo no meio da testa – simplesmente não consigo resistir! É uma máquina do tempo gratuita e descomplicada.

Olfato

Desodorante Alfazema
Mais uma cortesia de Dona Diva, que toma um longo banho de desodorante Alfazema até para ir ao açougue da esquina. O cheiro forte ficou tão marcado na minha cabeça que, quando passei a fazer uso do produto, escolhi – adivinha? – o tal “álcoolzema”. Desisti. Aquilo entra na narina como éter, nunca vi igual!

Bacalhau
Apesar das minhas raízes portuguesas, não suporto bacalhau. Aliás, nem o cheiro! Mas como minha família resolve preparar quilos e quilos da comida apenas no Natal, o peixe seco e salgado virou um símbolo daquela época feliz da infância. É só sentir o aroma da bacalhoada, pronto, Papai Noel está aí!

Sabonete Phebo
Quer coisa mais de mãe do que guardar aquele pano fininho que envolve o sabonete Phebo na gaveta de lingerie? O resultado você já desconfia: não consigo mais sentir o cheiro sem me lembrar da cômoda esquecida que tínhamos na casa da minha infância. E tem de ser o amarelo e vermelho, não vale outro.

Vivi Griswold às 10:10 AM

sexta-feira, 25 de junho de 2004

Isso está me cheirando a...

Memória olfativa é o termo usado pelos sapientes cientistas e estudiosos para definir aquelas lembranças detonadas por um cheiro. Eu sei, parece estranho, mas pense comigo: quando você sente cheiro de massinha ou giz de cera, não se lembra do pré? E cheiro de feijão cozinhando ou frango no forno, não lembra almoço de domingo?

A memória olfativa é muito poderosa – pelo menos no meu caso. Desinfetantes baratos me lembram a escola. Naftalina me lembra a casa da minha avó, que guardava essas misteriosas bolinhas brancas (principal exemplo do fenômeno da sublimação nos livros didáticos de Ciências e Saúde) em tudo que é gaveta. E aquele cheiro de química de revelação fotográfica me lembra o dia em que perdi uma amiga querida – eu estava no laboratório de foto da faculdade quando recebi a notícia.

Incrível como o olfato é capaz de marcar uma lembrança e torná-la indelével na cachola. Mais impressionante ainda é a verdadeira viagem no tempo que um simples cheiro é capaz de causar. Quando meu nariz se depara com um desses odores, aquela técnica televisiva da “fumacinha da memória” parece acontecer na vida real. É como se eu vivesse de novo nos dias do pré ou escarafunchada no quarto de costura da casa da minha vó, alinhavando botões.

Notei também que cada momento do dia tem um cheiro, pelo menos quando você circula entre as casas da vizinhança – estejam elas grudadinhas umas às outras, feito aqui no condô, ou perfiladas na rua.

As manhãs costumam cheirar a café e novidade, pelo menos cá em casa e no ao-redor dela. Na casa da minha infância, também cheiravam a sabão em pó e amaciante – era a hora em que minha mãe ou a nossa inesquecível secretária do lar Berenice lavava roupas.

O almoço chega com cheiro de feijão cozido e crianças perfumadas e uniformizadas indo à escola. Às vezes, a fumaça de um bife frito e cebolas tinindo num refogadinho com manteiga também atingem a minha janela.

O fim da tarde tem um cheiro de sabonete, mas não aquele odor da peça em si: o esquema é o cheiro de banho; sabonete misturado a xampu, os dois embalados nos vapores da ducha quentinha. Noites de verão, para mim, têm cheiro de baunilha ou flores. Não espanta minha preferência por essa estação – da qual já sinto saudades. E a madrugada me cheira a mistérios, cigarro e idéias malucas.

As pessoas também têm um cheiro específico – não só as que usam perfumes, tampouco só as que não conhecem aquele facilitador da convivência chamado desodorante. As casas, então, nem se fala! Afiem o nariz e descubram. O olfato pode ser um sentido muito útil para quem gosta de lembrar, como eu.

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É amanhã!

A Campanha de Doação de Sangue, bolada pelos queridos leitores do Fórum, rola amanhã.

Tudo que você tem de fazer é estar lá no Pró-Sangue do Hospital das Clínicas para ajudar gente que precisa - e muito - da sua força. Mais detalhes, aqui.

Vamos todos sentir um pouco daquele cheiro de hospital, mas é por uma óóótima razão!

Clara McFly às 07:39 PM


Onde diabos foram parar?

Às vezes eu perco coisas em casa e não há meios de encontrar as danadas. Parece o mesmo tipo de efeito que assola os talheres da Clarinha e o armário da Vivi – eu queria mesmo uma explicação do Padre Quevedo sobre como esses mistérios acontecem. Mas tem situação pior. Lembro de vários itens que fizeram parte da infância, mas desapareceram da minha casa e de todas as demais como por encanto. Teriam sido tragados pela terra ou confiscados por órgãos do governo?

Sobre as miudezas, eu compreendo totalmente o sumiço. Não vejo um dedal, por exemplo, há mais de ano. Existiam às dezenas em casa, mas um dia desapareceram todos. Algum sabichão aí pode dizer que ninguém mais costura, daí a resposta para os dedais terem sumido. Eu ainda acho que foram roubados por duendes colecionadores de artigos de cerzir.

Outro exemplo: nos anos 80, todo mundo no mundo (na verdade, toda a minha rua lá em São Bernardo, que era basicamente o meu mundo) fazia uso do xampu do Bozo. A embalagem do palhaço era figurinha certa de se encontrar em 9 a cada 10 banheiros. O líquido eu concordo ter seguido pelo ralo após usado. Mas e os frascos? Onde foram parar os tubos de xampu do Bozo, meu deus?

Ok, vai ver eles também caíram nas fornalhas de reciclagem e se transformaram em variados modelos de tupperware. O mistério maior é saber onde estão escondidos os itens grandões. Eram tão úteis, como foram se esvair em fumaça assim? Só pode ser conspiração, pois eram todos populares demais mesmo. Eu queria saber: onde estarão...

... os bidês?
Até 20 anos atrás, 100% das residências contava com o acessório de banheiro. Uns usavam para a finalidade original (hoje tachada de extremamente nojenta e anti-higiênica). Mas também dava para lavar os pés ali, depositar a roupa suja depois de brincar o dia todo, fazer a peça de chafariz... Sei de gente que plantou flores no dito cujo! Será que uma brigada de fundamentalistas contrários aos bidês destruiu todos a marretadas?

... os filtros de barro?
Nada como a água fresquinha armazenada naqueles trambolhos pesadíssimos localizados num suporte acima da pia. Talvez não fossem tão à prova de micróbios quanto os garrafões plásticos de água mineral usados hoje em dia. Mas eram tão pitorescos! Vai ver foram banidos das casas porque todo mundo achava um saco ter que reabastecê-lo periodicamente. A tarefa dava muita briga, isso é certo.

... as cadeiras de balanço?
Toda família possuidora de uma vovó deveria ter uma destas. Eram perigosas e instáveis, mas comportavam muito bem uma senhorinha dedicada a fazer casaquinhos de tricô e pano de prato rodeado de crochê. De repente, ninguém mais tem cadeiras de balanço, e as vovós agora precisam se acomodas em sofás – ou em asilos, credo. Onde já se viu? Deve haver um imenso depósito lotado dessas peças perdido nalgum lugar ermo.

... as máquinas de escrever portáteis?
Trabalho escolar bem feito deveria ser batido à máquina. A Olivetti alojada em uma malinha plástica era a mais popular, toda a molecada tinha – era um estranho tempo em que fazer curso de datilografia poderia garantir o futuro profissional. Ando passeando por feiras de antiguidades para ver se encontro alguma dessas. A que ponto chegamos! Apelar para atravessadores disfarçados para achar as pobres Lettera!

... as vassourinhas mágicas?
A cada grupinho de migalhas que se lançam do pão francês e acumulam no chão, toca montar toda a traquitana do aspirador de pó. Bons tempos em que era fácil apanhar o acessório atrás da porta e rolá-lo pelo tapete! Depois de um tempo, é verdade, juntava um punhado de artigos esquisitos dentro da vassourinha – também chamada Feiticeira em algumas paragens – e ela mais emporcalhava o carpete do que limpava. Mesmo assim, o total desaparecimento das tais é um pecado.

PS: Procurei loucamente uma imagem da vassoura mágica para colar aqui, mas cadê que achei? Os homens do governo estão fazendo um belo trabalho...

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Onde estão os doadores?

Gente disposta a abrir mão de uns minutinhos e uns saquinhos do próprio sangue... Isso também anda sumindo do mercado. Mas não se depender de nós, usuários do Fórum do Garotas! A idéia começou lá, mas mesmo quem não faz parte da turma pode vir nos encontrar no Pró-Sangue do Hospital das Clínicas neste sábado, dia 26. Faça parte da Campanha de Doação de Sangue amanhã e serás sempre lembrado por uma pessoa necessitada. Para saber mais, clique aqui!

Fla Wonka às 01:48 PM


Daqui ninguém me tira

O plano estava perfeito: sairia de férias na quarta-feira rumo a Ouro Preto, Minas Gerais, para cinco dias de passeios históricos e chiliques de fotografia (este último por conta do namorido). Para isso, precisava apenas adiantar três textos do Garotas e ir despreocupada. Faltou um – o de hoje, que eu prometi escrever de alguma lan house perdida entre as ladeiras.

Por que o plano foi por água abaixo? Porque eu não consigo escrever direito aqui. Olhando para fora deste local pequenino com quatro computadores, uma bancada de doces e internet a cinco reais a hora, vejo uma rua de paralelepípedos e um casarão iluminado por alguns lampiões – são 18h de quinta-feira, 24 de junho, dia de São João.

Conhecer Ouro Preto estava entre os itens da minha lista “coisas para se fazer antes de morrer”. Apesar de paracer tarefa das mais fáceis, curiosamente acabei conseguindo ver um show do Morrissey e ir ao Egito (outros itens essenciais) antes. Toda vez em que eu planejava vir até a cidadezinha mineira alguma coisa dava errado. Desta vez, nada deu errado. E, até agora, tem dado certo até demais.

Quando chegamos ao hotel ontem à noitinha quase caí de joelhos ao ver a vista do quarto, nada menos que a uma panorâmica do centro histórico, incluindo a praça Tiradentes. A janelinha do chuveiro acompanha o visual, e eu nem consigo me ensaboar direito com tudo aquilo para ser admirado.

O café-da-manhã teve cada um de seus componentes devidamente apresentados pelo dono do hotel, com aquele sotaque inimitável. Como estamos em baixa estação, somos o único casal do lugar. Haja mimo. E haja bolo de fubá, geléia de pitanga, queijo fresco, pão sovado. “Tudo da roça”, disse o senhor, um artista plástico que vive com um cão chihuahua debaixo do braço. Depois de encher a pança e planejar minha fuga rolando as escadas, lá veio ele novamente tentando empurrar “mais um queijinho”.

Após a caminhada e a visita em todos os monumentos, saiu um sol quentinho e eu me sentei voltada às montanhas. Naquele momento, pensei: “daqui ninguém me tira”. Pronto, não quero ir embora. Vou comprar uma casa caindo aos pedaços e passar o resto da vida olhando a vizinhança passar pelo janelão de vidro grosso (aparentemente, é o que fazem todas as Mirtes da cidade). Vou comer só feijão tropeiro e torresminho, em porções capazes de satisfazer um refugiado de Kosovo.

Com essa espécie de pensamento em vista, meu texto de hoje foi para o beleléu. Ficou em São Paulo, talvez. O clima em Ouro Preto está mais para ficar com a perna para cima e olhar o pôr-do-sol. Aliás, o que estou fazendo nessa lan house mesmo?

Até a volta, leitor. Ou não.

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Vá fazer uma visitinha!

Tudo bem: vai ver visitar o banco de sangue em pleno sabadão não seja tão divertido quanto passear pelas vielas de uma linda cidade histórica... Mas faz uma diferença danada na vida de muitas pessoas. Por isso que amanhã, sábado, dia 26 estaremos participando da Campanha de Doação de Sangue criada por adoráveis cidadãos participantes do Fórum do Garotas. Clique aqui e venha fazer um passeio pra lá de importante!

Vivi Griswold às 09:47 AM

quinta-feira, 24 de junho de 2004

Somos amigos, amigos do peito

Quantas pessoas será que a gente conhece na vida toda? Lembro-me de ter lido alguma estatística do gênero por aí há algum tempo. Mas penso na questão há muito mais anos, desde que eu era uma pirralha engraçadinha e meio insegura, de aparelho nos dentes, no colegial (é, aparentemente eu não tenho muito o que fazer desde essa época).

Acho que o número chega aos milhares fácil, mas daí é preciso filtrar os muito amigos, os amigos, os colegas, os conhecidos e os oi-e-tchau. Tais categorias, na verdade, teriam de ser bem melhor definidas. Quando alguém é elevado do time dos “conhecidos” para o dos “amigos”? E dali para os “amigos-sem-os-quais-não-vivo”? Conta mais a freqüência com que a gente vê a pessoa ou o que a gente sente por ela?

Gozado como nos primeiros anos da vida a gente tem sempre um “melhor amigo” à tiracolo, daqueles para quem a gente diz “só vou se você for” e coisas do tipo. Além disso, o posto tem alta rotatividade: a cada ano, renovamos seu ocupante.

Em compensação, depois de uma certa idade (isso soou quase geriátrico), aparentemente perdemos a disposição de fazer novos amigos. Eu, por exemplo, tenho uma preguiça danada de conhecer a pessoa, descobrir as coisas das quais ela gosta, passar por aquele breve constrangimento ao saber que ela adora Jota Quest ou não se lembra do Bozo, aparar as arestas, telefonar, apresentar sua mãe, seu pai e seus velhos amigos, imaginando se todo mundo vai se dar bem... Enfim.

A minha primeira melhor amiga foi a Lenislei, coleguinha de classe do primeiro ano da Pré-Escola. É um nome que eu normalmente acharia esdrúxulo, um daqueles transgênicos duvidosos feito Wandercleison. Mas por ela ter sido, como eu disse, minha primeira melhor amiga (depois do tio Badépi, claro), guardo essa graça com o maior apreço e acho até simpática.

No ano seguinte, ainda nos domínios do Pré, minha melhor amiga foi a Lilian. O pai dela viajava a trabalho e ela tinha umas botas sensacionais que ele havia trazido de algum país nórdico. Isso é basicamente tudo que eu lembro a respeito – e que ela era boazinha, também, claro.

Na primeira série, minha melhor amiga foi a Fernanda Marson – assim mesmo, de nome e sobrenome, porque aparentemente a minha geração chegou atrasada no Banco de Nomes e só sobrou esse (tinha umas quatro Fernandas na minha classe). Depois, na segunda série, o cargo passou para a Juliana Nishizaki (dou nome e sobrenome pelo mesmo motivo).

Nos anos subseqüentes, meu escopo aumentou e eu passei a ter um “grupo”. Conheci o Ricardo Mattiuz (será que eu só arrumo amigos de nomes populares?), um menino chato e rebeldezinho que entrou na minha escola no ginásio. Numa enquete da época, na tradicionalíssima pergunta “quem você deixaria numa ilha deserta?”, tasquei o nome dele seguido de uma série de impropérios infantis. Ele fez o mesmo comigo.

Em março desse ano, estive no casamento dele. Ainda estou devendo o presente, mas anos depois da quinta série chegamos num tal nível de intimidade (no bom sentido, claro) que isso não é problema. Ele é padrinho da minha irmã e um daqueles amigos indefectíveis, faça chuva ou faça sol. A vida escreve certo por linhas tortas – mesmo que seja nas tortas linhas de um caderno de enquete.

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Amigo de fé, irmão camarada

Quem honra a descrição do título pode provar sua capacidade de ser amigo – mesmo de quem a gente nem conhece – passando lá no Pró-Sangue do Hospital das Clínicas neste sábado, dia 26 (também conhecido como depois de amanhã), para participar da Campanha de Doação de Sangue agitada pelos nobres participantes do Fórum do Garotas.

Saiba de tudinho clicando aqui - e sigam-me os bons!

Clara McFly às 07:54 PM


Atenção: homens trabalhando

A reforma aqui em casa não acaba nunca. Já disse e repito: me sinto como a protagonista de “Um Dia a Casa Cai”, pedido a pasta de dente ou o saco de pão ao mais próximo moço da obra. E são tantos moços da obra! Ao todo, devem ter passado pelo meu “lar, poeirento lar” uns 20 especialistas em piso, elétrica, sinteco, marcenaria. Sabem do que mais? Não há como deixar de adorar a turma.

Sempre achei pedreiros os tipos mais engraçados do mundo. Primeiro, porque há aquela união natural entre os membros da profissão: todo pedreiro-chefe tem um assistente meio mudo e tímido. Trata o rapazinho duramente, mas não vive sem o tal. Este, por sua vez, tem a função de aprender o serviço e fazer as tarefas mais chatinhas. É como um treinamento jedi! Mas em vez de sabres de luz, eles operam com pás e talhadeiras.

Também me mato de rir com as conversas. Da sala, onde montei um QG improvisado para trabalhar – entre o sofá coberto com lona preta e os sacos de cimento, que delícia – ouço os papos mais hilários. Fofocas sobre fulano e beltrano são comuns (parecem um bando de Mirtes falando da vida alheia, mas cobertas de tinta e pó). Já futebol, por incrível que pareça, rende pouco assunto. Vai ver é medo que a discussão acabe em guerra de azulejos...

Na hora do almoço é quando eu sinto inveja dos pedreiros. Ao som das 12 badaladas vespertinas, eles largam o serviço no ponto em que estiver para apanhar a marmita. Céus, como aquela comida cheira bem!!! Nem os chefes de cozinha de luxentos restaurantes franceses resistiram, eu tenho certeza. Pior: eles trazem sempre a composição de prato que eu mais gosto, com arroz, feijão, carne e, vez por outra, dois ovos fritos. Dá vontade de avançar na cumbuca de um, juro.

Passada a refeição, chega a hora da folguinha. Quem disse que no Brasil não há siesta, como na Espanha? Pedreiros usam muito essa tática de relaxamento – se bem que um pouco adaptada. Chupam uma laranja, largam o corpo todo na calçada, colocam o boné na cara e puxam um ronco.

Daí acordam, mexem com toda e qualquer menina que passa das maneiras mais desclassificadas (e divertidas, eu assumo), riem um bocado e voltam ao batente. Esses sabem aproveitar o expediente.

Curioso é que a rotina não muda mesmo nos dias frios de inverno. O termômetro marca 18 graus, mas os cidadãos teimam em usar chinelo de dedo, bermuda e camiseta das eleições de 1984 com buracos. Nem ligam para os meus apelos de “Antônio, por deus, tenha amor pela sua saúde e veste uma meia, homem!”. Eles dizem que incomoda para trabalhar, então eu acredito. Mas ofereço chá quente ou café, para ver se afasto a ameaça de pneumonia da área.

Nem sempre foi assim, porém. Quando eu era pequena, o senhor que reformou a cozinha da mamãe usava calças de prega, sapato social, camisa (puída, mas na estica), relógio brilhante e... chapéu de feltro marrom!

Esse era o meu Vô Mário, pedreiro de mão-cheia, senhor das precisas técnicas de alvenaria, dono de um estilo único de vestimenta profissional. Meu avô pode não ter sido o melhor pedreiro do mundo, mas foi ele quem primeiro me mostrou como essa turma pode ser tão animada quanto trabalhadeira. A reforma não acaba nunca, para meu divertimento pessoal.

Fla Wonka às 01:19 PM


O misterioso túmulo do amasso

Desde que me mudei para o novo apartamento, tenho dedicado pelo menos um dia da semana para caminhar pelo bairro. Nas minhas andanças, descobri uma loja que só vende embalagens, um depósito de roupas de grife a menos de 10 reais cada, um restaurante indiano vegetariano bom e barato, uma casa estranha que mais se parece museu ao ar livre. Mas de todos os mistérios de Pinheiros, o maior até agora foi o do túmulo do amasso.

Sempre trato de espiar comprido quando passo por um cemitério. Não acho locais assim feios ou assustadores – pelo contrário: vejo tranqüilidade e uma certa tristeza serena, além de ficar cheia de curiosidade por saber quem foram aquelas pessoas em vida. Hoje moro perto de um cemitério, o da Cardeal Arco Verde, e é cortesia de dois dos “moradores” de lá nossa história de hoje.

Há algum tempo, ao caminhar pela calçada do longo muro branco, espiei um túmulo que me deixou completamente intrigada. Do ponto onde eu estava dava para ver uma estátua de um homem nu em cima de uma mulher, erguendo sua cabeça em um beijo ávido. Quase tropecei com a visão e pensei “Caramba! Eles estão fazendo sécho em cima da cova!”.

Nos dias em que caminhei naquele trecho, me pegava olhando para o estranho túmulo e sua estátua erótica, tentando pensar em alguma teoria que explicasse o motivo da homenagem. Por que alguém da família optou pela escultura, no mínimo, estranha? Quem estava enterrado ali? Quando contei a história às meninas, elas zombaram de mim. Desacreditaram na minha narração e acharam que eu estava vendo coisas no cemitério – cá entre nós, um bom lugar para ver coisas.

Certa vez, porém, ao me trazer para casa, fiz Clara desacelerar o finado Deep Purple e olhar para o tal túmulo do amasso. Por sorte, ele é a primeira coisa que capta o olhar em um portãozinho menor, ao lado da entrada principal. Quando o viu, a loira deu um grito de “ai, meu Deus, é mesmo!” e eu fiquei satisfeita por ter limpado o meu nome na praça. A partir daí, tentamos imaginar teorias que justificassem o pega-lá-que-eu-pego-aqui perpétuo.

A melhor de todas sugeria que a morta era uma tia idosa, virgem e chata, além de rica e pão-dura. Os sobrinhos, que queriam a herança e torciam pela sua morte, descobriram que a idosa deixara todo seu dinheiro para o cão pequinês. Cegos de ódio e querendo se vingar da mulher – ela estar morta não bastava – a sobrinhada fez uma vaquinha e reuniu dinheiro para a estátua. Na lápide, um dizer ácido como “aí está o que ela nunca teve”.

Vendo que nossa imaginação passou a tomar rumos estranhos, eu e Clara decidimos ir tirar a dúvida visitando o tal túmulo. Chegando lá, duas surpresas. Para começar, o casal não estava, hã, acasalando. De outro ponto de vista, a coisa mudava um pouco: a mulher estava vestida, e o homem nu permanecia ao lado dela. Bem encostado, é verdade. Mas ao lado.

Ali estão Nino e Maria. Nino morreu em algum ano da década de 40 (faltam números na data). Maria, a esposa inconsolável, enterrou-o sob a frase “Ó Nino, meu esposo, meu guia e motivo eterno de minha saudade e de meu pranto”. Já Maria viveu mais quarenta anos. Na lápide dela, os dizeres “Aqui repousa Maria ao lado de seu inseparável esposo”.

Para nosso espanto, o túmulo do amasso escondia uma bela história de amor. Desfeito o mistério, prometemos voltar um dia ali para deixar flores aos pombinhos.

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Vivi Griswold às 09:36 AM

quarta-feira, 23 de junho de 2004

Sem a sorte de um amor tranqüilo

Agenor de Miranda Araújo Neto nasceu em 4 de abril de 1958, filho único de um casal de posses não lá muito enormes, mas também nada modestas. Foi uma criança quieta, porém a chegada da adolescência revelou um garoto rebelde. Debaixo da proteção da supermãe Lucinha, ele parecia um pirralho mimado, mas esfuziante. Assim é o astro da primeira hora do filme “Cazuza – O Tempo Não Pára”.

Cheguei-me à salona escura ontem, para ver a produção, impulsionada pelo namorido – fã do Barão Vermelho. Entrei gostando de Cazuza e com a opinião de que seu papel no cenário musical dos 80 fora bem mais interessante que o de outro chamado “poeta do rock” da geração, o imortal (literalmente, já que não pára de lançar discos) Renato Russo. Saí da projeção com certeza disso.

Alerto quem pretende pagar umas lascas numa sessão do filme: a produção não é uma cinebiografia. Se “Frida”, por exemplo, é como uma fotografia da vida da pintora mexicana – para citar uma peça do gênero -, “Cazuza” é mais uma, digamos, ilustração. Claro, baseada na história do cantor e compositor – mas com passagens e roteiro bem romanceados. Aceito esse ponto, é um filme bem bacana.

Descobri que tudo aconteceu muito rápido na vida desse cara autêntico – até demais, tanto que vivia desafiando qualquer atitude que fosse razoável e socialmente aceitável. Toda a energia de Cazuza parecia ser dirigida a uma vida sem limites, regada ao trinômio hoje clichê de sexo, drogas e rock’n’roll.

Essa fase rendeu algumas das letras mais poderosas do rock da época – e que ainda têm punch. Cazuza gravou três discos com o Barão, que conheceu através do Léo Jaime e, no auge da banda, começou a se sentir infeliz com as limitações impostas por ser o vocal de uma “banda de rock”. Ele queria cantar Cartola e outras vertentes da música brasileira. O que fez? Se mandou para a carreira-solo, em julho de 1985 – poucos meses depois da brilhante apresentação no Rock in Rio (que nessa época ainda era no... Rio).

Dois anos depois, ele já tinha dois álbuns como artista solo na bagagem – e a consciência da doença que contraíra. Talvez por isso já tivesse se transformado numa pessoa mais madura – sem, no entanto, abandonar o autêntico inconformismo. É impressionante, ao menos no filme, como o rebelde Cazuza passa por tal mudança rápido.

Acredito que tenha sido assim mesmo, porque tudo na vida dele foi assim, depressa demais. Inclusive a chegada da indesejada: Cazuza morreu com 32 anos, depois de assumir muito corajosamente sua condição (eu não disse que, a despeito da personalidade mais tranqüila dos anos derradeiros, a autenticidade permanecera?).

No show que ele fez no Canecão, já muitíssimo afetado pelo HIV, cantou a bela “O Tempo Não Pára”, minha preferida do seu extenso e variado repertório. Essa gravação ao vivo ficou famosa e ainda é muito executada nas rádios. É aquela em que ele termina com um pontual “obrigado” – e é também a canção que embala o trecho mais tocante do filme. Afinal, durante a apresentação, Cazuza já estava num estado que o fazia tomar oxigênio no palco, durante o solo da música. Mas continuava lá.

Em julho de 1990, o meteórico pirralho mimado e esfuziante encerrou sua participação por aqui – já como um verdadeiro poeta (e não só do rock). A mesma energia e coragem que alimentava a rebeldia da juventude foi usada por Cazuza para enfrentar o processo irreversível e implacável de sua morte anunciada.

Para nós, sobrou uma produção tão eclética, crua e verdadeira que é impossível não gostar de pelo menos uma música – da pop “Maior Abandonado” à chocante “Só as Mães São Felizes”, passando pela delicada “Eu Preciso Dizer que Te Amo” e a matadora “O Tempo Não Pára”. Acho que Agenor (ele não gostava muito do nome, até descobrir que essa também era a graça de Cartola, seu ídolo) sabia disso como poucas pessoas.



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Isso é que é amor de mãe: Lucinha preserva
a memória do filho com a Sociedade Viva Cazuza


Clara McFly às 06:22 PM


Mexa esse traseiro gordo!

Se tem um ditado sob o qual eu aplico feliz minha assinatura, é o bom e velho “cabeça vazia é oficina do diabo”. Todo mundo sabe o que significa: quando a mente não é ocupada com coisas interessantes, há tempo de sobra para o cultivo de minhocas. Ando vendo tanta gente sem nada a fazer, pensando bobagem... Cruzes, dá vontade de sair distribuindo idéias de tarefas! Talvez eles precisem disso mesmo.

Aparentemente, apenas a faixa etária que engloba os 30 e os 50 anos está livre da falta do que fazer (já que trabalham feito burros de carga). Existem exceções dentro e fora desses limites, claro, mas são poucos. Em geral, as pessoas não conseguem pensar em nada de bom para preencher o vazio das horas – e dá-lhe pensar besteira.

Posso ser um bocadinho presunçosa e um bocadão bem-intencionada e sugerir umas alternativas?

Para senhoras
A julgar pela agenda da senhora minha mãe, mulheres acima dos 50 não precisam ser tiazinhas que passam tardes vendo Clodovil e falando mal das cunhadas. Cinema, teatro, aulas de cerâmica, tricô, leitura, bolo, passeio no sol com os netos. Essas são apenas algumas das atividades que mamãe pratica regularmente. E digo mais: ela também já teve a belíssima atitude de servir como voluntária em uma creche de crianças carentes. Ficou feliz e ajudou o próximo. Tem jeito melhor do ocupar a vida?

Para senhores
Canso de ver tios e avôs largados em sofás como almofadas velhas e poeirentas. Tudo bem: dar-se a liberdade de fazer absolutamente nada quando a idade chega é justo. Mas com tantas coisas a criar? Cultivar um jardim, apanhar umas aulas de marcenaria, entrar para a turma da região que pratica futebol, tênis ou, vá lá, bocha... Se eu fosse um senhor com tempo de sobra e saúde intacta, não perderia tempo ouvindo o que o Ratinho tem a dizer, não.

Para mocinhas
Se ganhasse um Real para cada vez que escuto uma amiga reclamar sobre a falta de afazeres, estaria agora tomando piña colada no meu veleiro. Curioso como poucas jovens, hoje, sabem aproveitar as pernas fortes e a liberdade de escolha. Em vez de gastar horas no telefone ou no ICQ com gente que sequer conhece, essa garota bem poderia passar a mão em uma mochila e se mandar para uma caminhada no Jardim Botânico. Ou podia aprender fotografia. Ou, sem gastar um tostão, poderia fazer um bate-volta na praia com outra amiga desocupada! Não devem faltar candidatas.

Para rapazes
Muitos podem pensar que o ócio não-criativo afeta apenas moçoilas. Nada disso. Está se tornando comum ver meninos fortes e bacanas amargarem poltrona e cobertor em pleno sábado à tarde! Alerta, isso não pode continuar! Aulas de guitarra, escrever carta para alguém que mora longe, ir ao interior munido de luneta para olhar estrelas, fazer drinques coloridos e chamar uns loucos para experimentar... O céu é o limite para quem é capaz de inventar moda. E as demais pessoas sempre curtem se aproximar de gente que inventa moda.

Para a molecada
Toda a balela descrita nesse texto muito do arbitrário começou ao ver minha sobrinha de 13 anos reclamar da falta do que fazer. Por conta de um castigo, ela não podia usar telefone nem computador. Como minha irmã tem medo, ela não podia ir na casa das amigas a pé. Como é uma piveta e não tem dinheiro, não achou meio de pegar cinema ou coisa assim. Resultado: a menina bonita, saudável, divertida e inteligente até os ossos estava à toa, emburrada, fazendo birra e chateando todo mundo em volta. Ela faria bem se colocasse um filme para rolar, ouvisse uma música enquanto arrumasse o armário, fosse para o alto do prédio tomar sol e ler, convidasse uma amiga para ir até lá. Decidiu, por fim, ir cortar o cabelo com a mãe. Bom, não é lá uma atividade lúdica, mas tudo bem. Melhor uma cabeça remodelada em salão do que uma cabeça vazia. Porque não há nada pior que uma mini-oficina do diabo.

Fla Wonka às 01:06 PM


E.E.P.G., saudades de você

Em cada uma das edições diárias de telejornais sensacionalistas e sangrentos da tevê brasileira há histórias horríveis sobre alguma escola pública. Ao que parece, os ambientes de ensino gratuito viraram campos de batalha ou point de tráfico de drogas – principalmente aqueles localizados na periferia. Pena. Além de sofrerem com a violência quando deveriam estar aprendendo, os alunos de hoje não vão sentir saudades de sua E.E.P.G. como eu sinto da minha.

Tinha seis para sete primaveras quando fui matriculada na Escola Estadual de Primeiro Grau Marechal Bittencourt. Eu não via a hora de dar início à minha vida de estudante, uma vez que as atividades anteriores às da primeira séria estavam mais para brincadeiras de creche do que para algum templo do aprendizado. A partir dali, eu me tornara uma aluna. Uma futura profissional.

No comando da 1ª série A da escola, naquele ano de 1984, estava a sorridente e rechonchuda tia Daizil. Como eu era a menor da turma e uma das mais caprichosas, a professora logo me adotou como “queridinha”. Acabava, portanto, sendo a primeira da fila para entrar na sala de aula, ação que fazia de mãos dadas com Daizil. Sentava na frente e era tão aplicada quanto uma aluna da primeira série pode ser.

Para as aulas, usava-se a cartilha “Caminho Suave” que eu simplesmente amava. Tá certo que ficava com ódio da página da letra V, ilustrada pela vaquinha Vivi, mas de resto o livro era simplesmente uma delícia. A cada tarefa feita corretamente, tia Daizil colava nas folhas uma estrelinha dourada feita de papel espelho. Eu passei a colecionar os pequeninos astros de mentira.

Em dado dia da semana, era obrigatório cantar o Hino Nacional, em fila, com mão no coração, enquanto a bandeira era hasteada. Aposto que muitos alunos desse novo século torceriam o nariz e achariam a prática quase militar. Mas eu digo que foi bom. Aprendi a cantar a canção-e-símbolo-nacional, mesmo com aquele monte de virunduns. E, de alguma forma, aprendi também que aquilo era para ser respeitado. Só não captava o motivo da proibição de se bater palmas após a execução. Pôxa, é uma música tão bonita!

Outra recordação nítida que eu tenho dos tempos de E.E.P.G. era a hora da merenda. Não estou falando do sanduíche de mortadela que recebia na escola particular que passei a freqüentar em seguida – lá na escola pública tinha refeição completa. Arroz, feijão, macarrão. Cozinheiras de avental mexendo panelas borbulhantes enormes e servindo cada um dos pratos. Pratos de plástico azul, se não me falha a memória.

Falando na memória, lembrei-me de uma ocasião específica. Certa vez, quando o sinal tocou, a professora pediu para que eu ficasse um pouquinho mais. Voltei a sentar na carteira e esperei toda a enxurrada de crianças deixarem a sala de aula. Quando estávamos a sós, tia Daizil me chamou até a lousa e me disse que desconfiava que eu já sabia escrever. Fiquei completamente encabulada, pois isso era segredo.

Ela me pediu então para escrever “casa”. Escrevi. Pediu para eu escrever “carro”. Escrevi. Pediu para eu escrever “cachorro”. Eu virei e perguntei “é com x ou com ch?”. Ela me disse “com o que você souber”. Escrevi com ch. Ela me deu os parabéns.

Um dia de glória custava tão pouco na E.E.P.G.!

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Vivi Griswold às 09:06 AM

terça-feira, 22 de junho de 2004

Tem que ter

Algumas décadas são capazes de marcar um conjunto de estilos e expressões tão peculiares que fica fácil distinguir qualquer produção da época. Basta olhar, por exemplo, para a combinação de ombreiras, figuras geométricas e cores berrantes (muito comuns ainda nos ternos do Stevie Wonder, tadinho) para a fumacinha da memória se espalhar na cabeça, trazendo de pronto as palavras-chave “anos 80”.

As músicas desse decênio inesquecível (apesar das ombreiras) são facilmente identificáveis se atentarmos a cinco pontos simples, catalogados humildemente por essa escriba. Preste atenção nesse guia, especialmente útil para os brotinhos que não viveram o oitentismo in loco. Ao ouvir uma canção por aí, saiba que ela não é dos anos 80 se não tiver...

... introdução com sons futuristas
Entenda-se por “som futurista” qualquer efeito de teclado Casio que faça algo entre “zuim”, “zóin” ou similares (lembre-se: essa era a visão do futuro a partir da década que consagrou o cabelo repicado).
A prova? Pode baixar e conferir (se não lembrar de cabeça): Major Tom, do Peter Schilling, e Stop, do Erasure.

... programação de bateria de teclado
Eu tinha um teclado e sei das possibilidades infinitas que tal instrumento oferece a pessoas como eu, hã, digamos limitadas, no campo musical. O cardápio de batidas ia da salsa ao rock pop, passando pela, pasmem, marcha.
A prova? Escute as inesquecíveis pérolas Kátia Flávia, de Fausto Fawcett, e Tainted Love, do Soft Cell.

... paradinha repentina
Do nada, a música pára – como se o vocalista tivesse erguido a mão e fechado o punho dedo por dedo, feito o Jô Soares na frente do Quinteto. Alguns segundinhos depois, tudo volta ao normal, exatamente do ponto onde parou. E eu acho demais.
A prova? “True”, do Spandau Ballet, tem a melhor paradinha da década – ainda por cima, seguida do truque descrito a seguir.

... ápice emocionante
Atingir o auge com uma canção nos anos 80 significava se esgoelar por completo e subir o som dos instrumentos. Depois dessa fase, pode notar como o pobre do vocalista já não segura mais os agudos. É o melhor momento das solitárias dublagens caseiras ou automotivas.
A prova? Nossa estimada “Total Eclipse of the Heart”, da Bonnie Tyler (no segundo “we’re living in a powder keg and givin’ off SPARKS!”).

… solo de sax
Se a música avaliada não contar com nenhum dos itens supracitados, compensa ao conter um interminável (todos parecem ser assim, na verdade) solo de saxofone. Não sei porque esse instrumento tinha tanta devoção por parte do povo oitentista. Só em jam sessions de jazz se vê tanto sax assim...
A prova? A deliciosa “The Time of my Life”, trilha de Dirty Dancing. E quase todas as músicas do Kid Abelha, quando ainda tinham o complemento “e os Abóboras Selvagens” no nome.

kid abelha sax.jpg Não disse que eles amam um saxofone?

Foto retirada do Kid Abelha Rulez.

Clara McFly às 06:51 PM


Viagem por tabela

Na última vez em que arrisquei checar, minha conta bancária acusava cinco dezenas de lascas. Com contas e mais contas acumulando, já não consigo guardar bufunfa sequer para comprar um pastel na feira – que dirá planejar o que mais amo na vida, viajar. Mesmo assim, a cabeça é capaz de sonhar com destinos maravilhosos e acalmar a sanha de passear pelo mundo. Na tarefa gloriosa, o cinema me ajuda.

Existem filmes cujos cenários valem mais do que a história. Ou nos quais o fundo da tela consegue exaltar ainda mais o roteiro bom. Quando bate uma vontade enorme de sair pelo mundo observando torres, rios, praças, campos e igrejas, eu apelo sem dó à sétima arte. Veja como é possível.

Para ver Nova York
Em “Sintonia de Amor”, é preciso esperar até os momentos finais para conhecer a região em torno do Empire State. Mas tantos filmes se passam ali que é fácil conhecer NY sem nunca ter ido até lá. “Escrito nas Estrelas” é um dos recentes. Lá aparecem o Central Park e o Village, por exemplo. Já “Bonequinha de Luxo” não mostra muito a Big Apple – mas mostra Lady Audrey Hepburn tomando café na frente da Tiffany’s, o que vale o filme todo.

Para ver Paris
“Sabrina”, na nova versão, faz bem o trabalho de mostrar vistas panorâmicas da Cidade Luz. Enquanto a moça do título se acostuma com a cidade, nós podemos apreciar desde lugares tarimbados até belas miudezas, como a pracinha do lado do Centro George Pompidou (na cena das modelos com os esguichos). Já para conhecer o charme das colinas de Montmartre, é só passar os olhos por “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”. Chega a dar água no passaporte.

Para ver Roma
Talvez nenhum filme apresente melhor o espírito da capital italiana como “A Princesa e o Plebeu”. É preto e branco, e mesmo assim pode nos fazer sentir o clima de uma cidade quente, imponente, eterna. No romance “Só Você”, com Marisa Tomei e Robert Downey Jr., Roma até aparece bem, mas o filme ainda rende visitas a Veneza e Positano, duas das pérolas que guarda aquele lindo país. Já vi tanto a Fontana de Trevi pela tela que posso desenhar sem copiar...

Para ver Londres
Filmes legitimamente britânicos costumam mostrar bem do que essa cidade fantástica é capaz. Entre os de circuito, “Um Lugar Chamado Notting Hill” deve ser o mais abrangente. Bom, pelo menos durante a carreira alucinante que o grupo de malucos faz para encontrar Anna Scott no hotel Savoy. Pena não mostrar melhor os parques. Oh my, que parques!

Para ver San Francisco
Esteticamente encantadora, a cidade norte-americana rende boas locações para vários tipos de filme. O suspense “Um Corpo que Cai”, de Alfred Hitchcock, se passa lá. A comédia imbecil “Tudo Para Ficar com Ele”, com Cameron Diaz, idem. Também usa e abusa das ladeiras e bondes de San Francisco o bonitinho teen-movie “O Diário da Princesa”. Até a série “Charmed” se passa ali! Mas isso é melhor esquecer.

Para ver Viena
“Antes do Amanhecer” é um adorável romance de 1995 protagonizado por Ethan Hawke e Julie Delpy. Os dois se conhecem num trem, na Europa, e na base do conversa-vai-conversa-vem, decidem desembarcar e passar uma noite na capital austríaca. É inspirador. Pode ser que as lentes de cinema tenham feito parecer mais lindo do que na realidade. Mas quem tem pouco dinheiro no banco, como eu, prefere que a viagem imaginária tenha o melhor cenário possível.

Deixo aqui uma dica final (mas não digam por aí que veio de mim, porque eu nego). Sabem as gêmeas Olsen – Ashley e Mary-Kate, as atrizes-patricinhas mais rentáveis do cinema? Pois elas já estiveram rodando suas aventuras por quase todo o mundo. Fizeram “When in Rome”, “Londres com Tudo Pago”, “Passaporte para Paris” e, em breve, sairão na telona com “No Pique de Nova York”. Todos mostram as cidades onde se passam em detalhes, por muitos minutos, num show de imagem. Basta ignorar os diálogos toscos que dizem coisas como “eu já vi o Coliseu, assisti ‘Gladiador’ três vezes”. É difícil, mas pode valer a viagem.

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Eu conheço Viena... Fui com Ethan e Julie!
Fla Wonka às 03:02 PM


Só para iniciados

Imagine você tentando ser aceito em um clube fechado onde é permitida a entrada apenas para sócios com carteirinhas e iniciados – principalmente os que entendem a língua estranha e os termos incompreensíveis que são falados durante encontros secretos. Pois é assim que eu me sinto ao abrir o jornal e ler as matérias sobre a São Paulo Fashion Week: uma intrusa na festa dos outros.

E olha que eu gosto de moda e até que entendo um pouco do chamado "mundinho". Como jornalista – sim, eu tenho essa profissão-fachada quando não estou dando uma de super-heroína pelos prédios da cidade – já tive a missão de cobrir os vários dias do evento. Isso incluía não apenas desvendar os desfiles, mas bater na porta do clubinho e dar uma espiada.

Uma coisa é certa: fiz dezenas de matérias sobre moda. Mas jamais meu texto soou tão pretensioso quanto a cobertura que acompanhei (bem, ao menos tentei acompanhar) nas últimas edições do festival da afetação. Pois eu acho que a função de um jornalista é explicar o que viu a um público geral que não é necessariamente especialista naquele assunto e fazê-lo se interessar por algo que, às vezes, não iria captar sua atenção de outra forma.

Então me explica o que andaram tomando os redatores dos textos que eu li. Alguns, auto-intitulados fashionistas, chegam a extrapolar o bom senso, dar punhaladas no bom texto e asfixiar o bom português. Veja bem: jamais serei uma defensora ávida da não-utilização de termos em inglês – acho que nosso idioma é tão rico e belo especialmente por adotar outras línguas e transformá-las em expressões também nacionais.

Mas esse povo extrapola. Uma famosa jornalista – ups, fashionista – de São Paulo se recusa a falar "camiseta", por exemplo. Diz "t-shirt". No mesmo balaio, não há mais trabalhos em "retalhos", mas "patchwork". Também a "mistura" de estampas cedeu lugar ao "crash" de estampas. Gostou? Então dê uma olhada em 10 frases que eu garimpei na cobertura da última edição da SPFW pelos jornais e pela Internet. É tudo verdade.

1) "Triton girl é wannabe Vivienne"
Isso é o título de um pequeno artigo. Para entender, o leitor precisaria saber que "girl" é "garota", que "wannabe" é algo como "aspirante" e que Vivienne é Vivienne Westwood, importante estilista britânica. Se era só para pegar amiguinhos entendidos, a jornalista poderia ter distribuído o artigo mimeografado entre os seus.

2) "É um look bem dasluish"
Eis um estilista explicando sua coleção. Bem, estilistas podem falar as maiores barbaridades – afinal, eles são os artistas. Cabe ao jornalista, em seguida, explicar o que o cara quis dizer com a pérola. No caso, porém, o leitor ficou novamente na dúvida sobre a verdadeira intenção do profissional da moda.

3) "Depois da ferveção fashion da Bienal, a after-party da Cavalera"
Lendo a frase, dá para entender perfeitamente o sentido. Mas céus, redação de moda precisa ser sempre tão afetada? Desculpe, mas não conheço ninguém que fale dessa forma na vida real. Só ouço expressões como "ferveção" sendo ditas nas declarações colhidas de drag-queens durante paradas gays. E olhe lá!

4) "O estilista propõe um cruzamento da Bahia com Beirute"
Tão ruim quanto jornalista afetada é jornalista que tenta dar uma explicação plausível sobre um desfile. Não funciona! Explicar um desfile é como explicar um quadro – trata-se de algo subjetivo. O intuito principal não é vender roupa, é promover um espetáculo. Fica difícil rotular. E, quando acontece, saem coisas assim.

5) "A minha mulher é enlouquecidamente fora do contexto"
Ouvir declarações de estilistas é o que há de engraçado. Primeiro, eles dizem "a minha mulher" ou "o meu homem". Não, os caras não estão se referindo à parceira ou parceiro, mas ao público-alvo de sua coleção. Segundo, sempre completam a frase com a mesma coisa, como "é moderna" ou "é solta e independente".

6) "Burlesco é tendência"
Sabe o que é burlesco? Pois é melhor saber. Afinal, segundo essa estupenda manchete, a coisa é tendência. Parem as máquinas! Bem, segundo o Aurélio, "burlesco" é "cômico", "caricato". Ah, agora vai me dizer que comédia está na moda? Ainda bem que temos profissionais assim, que nos avisam de tanta novidade.

7) "Acho-o supercênico. Para mim, o Lino já transcendeu John Galliano"
Essa pérola saiu da boca de uma atriz global que deveria estar desfilando pelo evento mais do que as próprias modelos. O melhor é o termo afetado "supercênico", em vez de "teatral" – normal demais, talvez. Também adoro a intimidade com o tal Lino. Villaventura, eu presumo. E John Galliano? É de comer?

8) "Afinal, não-amigos, lurex e absurdinhos já deixaram de ser novidade"
Alguém consegue por favor me traduzir o que exatamente tenta demonstrar a frase acima? Eu juro que não entendi – mesmo depois de vários minutos olhando para esse monte de palavras. Separadas, elas não fazem muito sentido (o que é um "absurdinho"?). Juntas, parecem mais um samba do fashionista doido.

9) "Cultura zen e pescadores solitários levaram o estilista a usar estampas"
Outro exemplo de redator que tenta achar sentido para a coleção. Na minha experiência, contudo, arrisco dizer que a frase foi retirada de um típico press-release – resuminho dado aos jornalistas na entrada dos desfiles e que explica a influência das roupas, o material usado, o que o cara quis passar, etc.

10) "E o trench-coat, hein?"
Outro título. Na verdade, uma pergunta bem pertinente. Se um estranho chegasse até você e o indagasse com tal questão, de um modo sério, o que você responderia? Ao que parece, o tal do "trench-coat" foi muito usado nesta edição. É melhor descobrir o que é antes que o próximo Fashion Week me pegue de surpresa.

Vivi Griswold às 10:21 AM

segunda-feira, 21 de junho de 2004

Estranhos no ninho

Como diria meu vô, esse povo não tem mais o que inventar. Está cada vez mais difícil encontrar nas prateleiras dos supermercados alguma coisa, digamos, normal. E as seções que mais padecem dos insumos incrementados são as de higiene pessoal e limpeza.

Sabão em pó, por exemplo. Não existe mais. Não em sua forma pura e simples, de... sabão em pó. Temos produtos com “cristais de alvejante seguro”, “partículas de ação seletiva” ou “cápsulas de poder azul” – este último, o mais assustador de todos, na minha modesta opinião.

A caixa do sabão que tenho aqui em casa diz que as “partículas de ação seletiva” identificam cada tipo de mancha e de tecido, dando a melhor solução para cada caso. Puxa vida. Partículas presas dentro de uma caixinha aparentam ter vontade própria (olha só, elas decidem estratégias de limpeza!) e prometem ser mais espertas na hora de lavar roupa do que a minha senhora avó, que jogava água fervendo nos lençóis brancos e botava tudo para coarar na grama.

No campo da higiene pessoal também estamos perdendo para a sapiência de produtos. Outro dia vi uma propaganda de um creme dental que jura continuar funcionando (e protegendo os dentinhos) mesmo depois que a gente come alguma coisa. O tal anúncio ainda desprezava as outras pastas de dentes, cuja ação termina quando você ingere algum alimento ou bebe um drinquezinho.

Mas espera aí. Não seria isso o natural? Senão, porque toda aquela história de escovar os dentes a cada refeição (e visitar seu dentista regularmente)? Que beleza. Se comprarmos a idéia desse revolucionário produto, enfim podemos nos dar ao luxo de perder tempo escovando os dentes só uma vez por dia (e talvez visitar o dentista uma vez por semana).

No entanto, quando falamos de substâncias estranhas, ninguém bate as trash foods. Os saudosos pacotes de salgadinhos preenchidos apenas com aqueles deliciosos (e nutricionalmente duvidosos) tequinhos de isopor amarelo já eram. Agora, as embalagens guardam muito mais que um punhado de felicidade crocante: a toda hora aparecem sachês com temperos, que podem ser líquidos e terem a assustadora alcunha de “molhoucos” ou, pasmem, em pó – e atenderem por nomes mais estranhos ainda.

Os últimos salgadinhos que comprei, para acompanhar uma sessão de “Shrek” rodeada de amigos aqui em casa, vieram com um saquinho de “Frango pirado” e “Cheddar gela” dentro. Lendo atentamente o engordurado sachê, descobri que aquilo era um tempero em pó destinado a incrementar o acepipe.

Que gosto tem? Não me perguntem. Eu encaro hot dog de rua e até churrasquinho de estação metroviária, mas preferi embrulhar cuidadosamente os tais temperos numa sacola plástica e enfiá-los bem no fundo do saco de lixo. Se Chernobyl ligar pedindo a fórmula, digo que não sei de nada.

Clara McFly às 06:15 PM


Foi-se o tempo do esporte...

Com o texto a seguir, sei que estou me arriscando a levar latas de cerveja ou chaves de roda contra a testa. Sei que muitos vão se ressentir e até se aborrecer. Posso receber hate-mails ensandecidos enviados de todo lado por gente com gasolina Premium correndo nas veias. O problema é que não posso mais ficar calada: Fórmula 1 não é mais esporte, vá? E olha que já faz uns anos.

No fim de semana passado, o piloto alemão Michael Schumacher comemorou 80 pontos completos. Durante toda a temporada, ele deixou de marcar os 10 tentos destinados ao primeiro colocado apenas uma vez – em Mônaco, há cerca de um mês, porque caiu bobamente fora da corrida. Do jeito como a história segue, é bem capaz do moço sagrar-se campeão de 2004 daqui a três ou quatro provas. É como os CDFs da escola, que passavam de ano ainda em agosto. Tem graça?

Antes de mais nada, informo não fazer parte da gangue que execra o alemão e adoraria dar um belo soco naquele queixo em formato de arquivo. Não o acho simpático mesmo, mas nem me abalo em ir além disso, nutrindo qualquer ódio do sujeito. Ora: ele faz a parte dele atrás do volante, não faz? Que culpa tem?

O caso é que a Fórmula 1 já não reúne as características que definem uma atividade como esporte. Segundo o grande Aurélio, esporte é a prática de exercícios que envolve divertimento ou distração. Bom, eu vejo as corridas de Fórmula 1 pela tv. Ninguém, naquele momento, está se esforçando muito fisicamente. E desde que a temporada começou, não há mais diversão ou distração na jogada. Sabemos como tudo vai terminar, então nem existe surpresa ou torcida capaz de dar jeito no destino.

Schumacher tem um carro tão à frente dos demais que podia dar duas voltas de lambuja aos colegas e, ainda assim, venceria. Parece o conto da Lebre e a Tartaruga – com a diferença que, no caso, só existe um coelho para uns 22 quelônios... Para piorar, os dirigentes acham por bem mudar as regras ano a ano para ver se a mamata da Ferrari finalmente cai por terra. Não sei se eles notaram, mas não está dando certo. E fica chato mudar o jogo só para que o menino mais forte dê chance aos demais.

Ultimamente, os tios vêm tentando de tudo para equilibrar a disputa, como limitar treinos, troca de pneus, abastecimento. Logo vão escrever no regulamento: “carros vermelhos devem largar do box, de ré e com pilotos vendados”. Assim daria certo? Tenho dúvidas. Certamente um engenheiro da escuderia italiana acharia jeito de fazer a Ferrari render ainda mais na contra-mão. Nunca subestime um carcamano louco por velocidade e com dinheiro no bolso...

As medidas todas não adiantam porque a verdade é uma só: Fórmula 1 não é mais esporte, é competição tecnológica. O campeonato, aliás, deveria ser veiculado no caderno de Informática dos jornais – o importante mesmo não são os homens ali envolvidos, mas as máquinas, só elas.

Longe de mim virar aquelas velhinhas ranhetas que só sabem repetir as virtudes do que acontecia “antigamente”. Os espectadores da Fórmula 1, porém, não podem discordar: há tempos não se vê um lance emocionante em prova, uma ultrapassagem incrível ou uma superação de limites – como acontecia muito nos tempos de Senna, Prost, Mansell, Piquet, e mais ainda nos anos que precederam estes.

Outro dia, um garoto que eu conheço, fanático por automobilismo, dizia estar assistindo as corridas esperando por um acidente espetacular, porque só assim sentiria de novo emoção na pista. E eu pensei: que espécie de competição nos faz esperar por um desastre? Alguém assiste provas de atletismo querendo ver o corredor ter fratura exposta? E isso lá é conduta esportiva? Nunca foi.

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Ganhou nos EUA? Não brinca???
Fla Wonka às 01:38 PM


Conhece a Nise?

Informações sobre famosos chegam até nossos ouvidos com facilidade. Se ligarmos a TV, saberemos tudo o que a atriz siliconada da novela das oito fez na última festa de que participou. Ou quem é a nova vítima do atorzinho mulherengo que coleciona conquistas. O difícil é encontrar, no meio desse monte de notícias sem relevância, algo sobre alguém realmente importante. Pois muitas pessoas especiais não aparecem no horário nobre, e acabamos perdendo oportunidades de conhecê-las. Você respondeu “não” à pergunta do título? Então vou apresentar dona Nise.

No começo do século XX, mais precisamente em 1906, Nise da Silveira estava nascendo em Maceió. Começou a romper barreiras quando decidiu entrar para a faculdade de medicina na época em que as moças só saíam da casa do pai para entrar na casa do marido e, de lá, para o cemitério. Quando ela se formou médica na Bahia, em 1926, destacou-se como a única mulher entre os 156 alunos homens.

No ano seguinte, Nise pegou o navio para o Rio de Janeiro e começou sua carreira como médica psiquiatra no hospício da Praia Vermelha – além de trabalhar lá, morava no local também. Em uma faxina pelo quarto da jovem médica, a enfermeira encontrou livros comunistas. Como estavam em plena ditadura de Getúlio Vargas, Nise acabou sendo presa e, na cadeia, conheceu Olga Benario e Graciliano Ramos.

Em 1944 ela voltou à prática no Centro Psiquiátrico Pedro II e ficou chocada com o que viu: doentes mentais sendo medicados excessivamente, recebendo insulina a torto e a direito e, claro, sendo vítimas do eletrochoque. Recusando-se a participar daquilo, Nise foi afastada para uma ala esquecida do hospício, intitulada de “terapia ocupacional” – o que, naquele tempo, limitava-se a colocar os pacientes para limpar os banheiros. Isso, claro, até Nise chegar.

A médica pegou aquele local abandonado e transformou-o em um espaço para a criatividade e o respeito. Fundou-o como Seção Terapêutica Ocupacional e Reabilitação. Ali, Nise abriu diversos tipos de ateliês para os internos, que passaram a ter aulas de música, modelagem, teatro, pintura. Os monitores contratados foram instruídos a apenas auxiliar nas atividades, jamais interferir. Pela primeira vez, os internos tinham voz – e Nise os escutava.

Em 1952 foi criado por ela o incrível Museu de Imagens do Inconsciente, um acervo único no mundo composto dos trabalhos daquelas pessoas. Para a maioria delas, um quadro ou um desenho era o único modo que tinham para se comunicar com o mundo exterior. Mas, para nós que olhamos aqueles trabalhos, não dá para pensar em outro título a eles além do de artistas. Hoje, o local conta com 350 mil obras.

Um dos mais ilustres integrantes do acervo do museu é Arthur Bispo do Rosário, um sergipano que ficou internado no Rio de Janeiro. A partir do trabalho de Nise, Bispo encontrou seu melhor modo de expressão: transformar sucata em arte. O ex-marinheiro, diagnosticado esquizofrênico, teve cerca de 900 obras catalogadas praticamente desconhecidas em sua terra natal, mas cobiçadas no exterior – críticos de arte o comparam com René Magritte e Marcel Duchamp, artistas europeus vanguardistas.

Como eu conheci a Nise? No ano em que ela morreu, em 1999. Ganhei de presente um livro dela, intitulado “Gatos, a Emoção de Lidar”. Além de tudo, ela arrumava tempo para os bichanos e passou a sua vida como uma gateira de mão cheia. Devido ao amor em comum, agora eu conheço a Nise – e você também.

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Nise com o gato Carlinhos
Vivi Griswold às 10:59 AM

sexta-feira, 18 de junho de 2004

Hoje, não

Há uma série de perguntas que são feitas com certa recorrência a minha pequena e magrela pessoa – “você não acha ótimo poder comer de tudo e não engordar?”, “mas você pesa a mesma coisa desde 17 anos?” e “você não sai voando com a ventania?” são algumas delas. Outra que tenho ouvido bastante desde que começamos esse hercúleo projeto de escrever todo dia aqui no ex-site rosado é “mas não falta assunto?”

Sempre digo que “não, imagina!”, abrindo um sorriso mezzo confiante, mezzo misterioso. E me convenço das palavras que escapuliram quase por si só da boca pensando: se a gente prestar bastante atenção nas coisas diárias da vida, vemos que há assunto para mais de metro, esperando por ganhar um texto.

Na TV, as bizarrices são quase infindáveis. No som, músicas de ontem e de hoje disputam espaço entre nossa preferência. No cinema, a cada final de semana há um punhado de estréias cheias de novidades para se comentar. Na literatura, a estante cheia me garante tema a granel. Na memória, o exercício diário da lembrança sempre acrescenta algo a dizer.

Mas, no fundo mais profundo, morro de medo de sofrer o que as pessoas que trabalham inventando história chamam de “bloqueio criativo”. Eu achava que era papo furado de gente metida a estrela. No entanto, começo a desconfiar que pode ser verdade.

Desde que o Garotas foi ao ar, foram catorze meses sem sair de cima. Do teclado, claro. Todo santo e orado dia (útil, que ninguém é de ferro) comparecemos cada uma com um post quentinho, saído de cacholas com grande tendência a tagarelice – virtual ou real. E esse exercício diário tem sido uma delícia das mais deliciosas.

No entanto, confesso que já fiquei uns pares de vezes sentada por minutos diante da tela vazia do Word – aquele branco absoluto, acachapante e incômodo -, pensando no que iria escrever aquele dia. E toca a cavar assunto, passeando mentalmente pelas últimas peças lidas, vistas ou ouvidas; pelas mais recentes aventuras cotidianas ou pelas figurinhas indeléveis na memória.

Alguma coisa tem que sair. Tenho uma vantagem, sendo a última a publicar no dia: leio os textos das comparsas para ganhar alguma inspiração. Mas mesmo as verves de Flá e Vivi nem sempre bastam. O relógio segue implacável, a tarde cai. E eu começo a ficar nervosa.

O problema complica quando nada parece bacana ou fluente o suficiente para ganhar um espaço no site. Um princípio de pânico é sentido. “Meu Deus, sobre o que vou escrever hoje?”, penso mal contendo a agonia nascente. Lembro-me das pessoas que perguntam: “mas não falta assunto para escrever todo dia?”, e eu posando de bacana: “não, imagina!”.

Pensando bem, acho que eu estava certa. Tudo, absolutamente tudo, é material em potencial para virar um texto – até mesmo uma crise de inspiração. Talvez no futuro eu sofra um completo bloqueio criativo ou algo que o valha, e falte assunto para segurar o rojão de escrever todo dia. Mas hoje, não.


Clara McFly às 07:12 PM


O que eles têm e nós não temos?

Um dos seriados mais famosos, populares e bem sacados da tv está em vias de cantar para subir. Depois de dez anos, Chandler, Joey, Mônica, Phoebe, Rachel e Ross vão deixar a telinha e levar consigo suas criancices tão divertidas. Carregarão, também, a amizade enorme que existe entre eles. Se bem que, vou dizer: não conheço gente de verdade que tenha aquele tipo de relação, não.

Desde pequeninos nossas mães nos mandam ser comportados em casa alheia e educados com os coleguinhas. Vez por outra escapa um beliscão aqui ou um brinquedo afanado ali, mas em geral o conselho é seguido. As genitoras dos personagens de “Friends” não usavam essa cartilha, por certo. Os sujeitos são espaçosos, sarristas, capazes de invadir a privacidade alheia em um minutinho. Adoravelmente, escapam do limite utilizado pela Humanidade em geral.

Vai ver foi daí mesmo que veio o imenso sucesso da série. Ninguém tem amigos viscerais como aqueles, então aproveitamos da situação para nos sentir parte da gangue. Bom, eu me incluo nesse grupo: eu juro que tento, mas ninguém aqui em casa se dispõe a abrir uma vez a geladeira e reclamar do conteúdo! Além disso, meus amigos bem podiam apostar nas demais premissas de “Friends” que só existem na realidade da televisão.

Não ter cerimônia
Meus camaradas recebem o recado logo na chegada: a casa é deles. E olha que não digo da boca para fora. Aqui, como em todas as casas onde morei, sempre dei liberdade total aos amigos. Mas ninguém usa a regra de fato! No seriado, porém, eles invadem aposentos e apanham quitutes uns na casa (e na cara) dos outros a toda hora. Isso não acontece em lugar nenhum, vai? A não ser para um amigo do meu irmão, que adorava entrar na cozinha de outro moleque da rua e dizer ao pai dele: “e aí, véio, tem uva?”. Esse podia trabalhar em “Friends”.

Nunca se magoar com bobeira
Em turma, é comum acontecer vez por outra. Um faz comentário mais agressivo, o outro magoa. Daí fica um certo diz-que-me-diz velado – logo passa, mas que fica, fica. Lá na tv, amigos não levam nada a sério. Já vi as meninas entrarem em briga de puxar cabelo, mas tudo acabar em abraço. Bom, o programa é muito curto, não daria tempo de contar tantas histórias paralelas e ainda resolver picuinha. O que me lembra outro ponto...

Fazer problemas passarem em 30 minutos
Seja sobre dinheiro, relacionamento, trabalho ou família: passados dois períodos de 15 minutos, tudo deve entrar nos eixos. No começo da série, Rachel ainda não era uma brilhante profissional da moda, mas uma garçonete dura. Apesar disso, sempre freqüentava restaurantes e morava naquele sonho de apartamento roxinho! Droga... os meus amigos gastam mais do que podem em uma semana e passam oito meses no vermelho por isso.

Pensando bem, essas coisas não acontecem entre amigos, mas acontecem entre irmãos. Uau! Quando “Friends” acabar, Chandler, Joey, Mônica, Phoebe, Rachel e Ross bem poderiam começar a gravar “Brothers”! Não? Que pena...

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Você tira foto assim com seus amigos??? Opa!
Fla Wonka às 01:21 PM


Quintal versus sacada

Durante toda a minha infância, morei em casa. A última, um sobrado suburbano com direito à garagem ampla para dar festinhas, quintal com lajota vermelha e alguns metros quadrados de grama, quartinho da bagunça nos fundos, portão de ferro dando para a rua. Só não tive laje, porque mamãe sempre foi anti-reforma (lê-se anti-poeira e anti-barulho). Depois, com 16 anos, mudei para um apartamento – e tive de me acostumar a viver nessas residências nas alturas.

No começo não foi tão difícil. Afinal, nosso apê era bonito (sem carpete, olha que maravilha), localizado em um bairro legal, com um quarto só para mim e com uma vista linda – o que é bem raro em cidades. Abrir a janela e olhar para um imenso campo de golfe me afastou das coisas chatas de uma mudança drástica. Porque é drástico sair de uma casa, por menor e mais caída que ela seja, e se meter em um apartamento.

A primeira coisa a ser notada é espaço: uma vez dividindo um dos 10 andares de um prédio com mais três famílias, você nota que os limites ficaram menores . Todas as coisas que você trouxe da casa não vão caber na nova moradia, e se faz necessária uma reciclagem de objetos, roupas, móveis. Trombar com irmãos algumas vezes por dia também acaba sendo mais comum. Outra coisa é precisar descer até o térreo para respirar um pouco de ar.

O que eu mais tive – e tenho – dificuldade em aceitar é o processo de se viver em uma comunidade. Sua casa é seu reino. Se você quiser pintar a fachada de roxo com bolinhas amarelas, pode. Se você quiser pregar um quadro às cinco da manhã, pode. Se você quiser criar um avestruz de estimação, pode. Já em apartamento a coisa muda de figura. E como muda!

Colocar um vaso ou pendurar um quadro no hall do seu andar, ao lado da porta da sua unidade, pode virar uma batalha com o síndico. Ah, o síndico. Aquele ser que, em muitos casos, você nem conhece a cara e mete o nariz em tudo o que você deve ou não fazer. Síndicos não merecem o meu respeito. Pelo menos todos os que conheci.

Outro dia, por exemplo, meu apartamento foi invadido por um síndico, um pedreiro, uma supervisora e mais algumas pessoas não-identificadas pois, do lado de fora do prédio, constataram um vazamento no meu banheiro. "Ué, você não viu?", me perguntaram. Eu disse que não, mas gostaria de ter respondido "não, eu não tenho tempo de ficar olhando para cima sentando num banco o dia todo". O motivo de tanta algazarra? Meu chuveiro estava com um dos seus míseros jatinhos de água voltados para fora da janela. Não pode. Chover, pode.

Quando o sêo Jura veio colocar os armários da cozinha foi outra luta. Além de sobreviver ao clone de Marlene Mattos/Roque que não regulava bem da cabeça, tive de agüentar a ladainha do síndico. Isso porque o marceneiro marcava um horário X para começar o trabalho e só chegava em X + 5. Aí, é claro que o serviço acabava ultrapassando a marca das 18h, tempo limite para reformas. O interfone, então, tocava de 10 em 10 minutos – não por causa do barulho (que não existia), mas pelo simples fato de haver um marceneiro aqui.

Mas justiça seja feita: há coisas boas de se viver em apartamentos. Adoro estar pertinho do céu – ainda mais agora, no 14º andar. Tenho uma sacada bem avantajada onde pude fazer até uma pequena horta. De lá, posso olhar para as estrelas ou para a cidade – imediatamente embaixo, a Teodoro Sampaio. À direita, vejo a Faria Lima e, à esquerda, consigo enxergar até o prédio da Editora Abril, lá na Marginal Pinheiros. É como uma página do guia de ruas de São Paulo em 3D.

Fora, é claro, a mordomia de deixar entrar no seu mundo só quem é autorizado. Não há testemunhas de Jeová ou vendedores da Barsa batendo na sua porta nos momentos mais inconvenientes. E é fácil dispensar alguém pela mocinha séria que opera o interfone lá na portaria. Também há segurança. E bem menos barulho – seja da gritaria por conta da pelada na rua, seja dos carros passando em alta velocidade. Gosto da sensação de reclusão, de um universo à parte.

Meu apartamento ainda é meu reino. Um reino com horário para martelar, é verdade. Mesmo assim, um reino.

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Não é um quintal, mas é legal
Vivi Griswold às 10:09 AM

quinta-feira, 17 de junho de 2004

O mundo vegetal

Já reparou como existem algumas coisas que fazem você levar um tempo até perceber que gosta? Aconteceu comigo um bocado de vezes – especialmente depois que me mudei da casa da mamãe. Percebi, por exemplo, que gosto de limpeza – apesar de ser desorganizada por natureza. Também notei que adoro plantas – embora deixasse todas morrerem lá na minha antiga casa, quando a mamãe viajava e me deixava na incumbência de regá-las.

Estou longe de ser uma expert no assunto. Aliás, logo que inaugurei novo endereço, comecei a suspeitar que tinha um toque de Midas às avessas para cuidar dos vasinhos. Ao notar o quanto uma casa sem plantas parecia árida e desagradável, adquiri meia-dúzia de espécies vegetais para o meu próprio lar. E pastei nas mãos (ou nos galhinhos) delas.

As danadas simplesmente não queriam viver, apesar dos meus cuidados de pôr no sol (de vez em nunca) e regar (quase todo dia, ou quando sobrava tempo – ou seja, muito ou pouco demais). Primeiramente achei que tinha escolhido logo uma leva de vegetais suicidas. Depois percebi que estava afogando algumas coitadas e deixando outras secarem à míngua.

Comecei a prestar mais atenção na freqüência com que eu regava, comprei um adubo e até passei a conversar com as plantas, para completa diversão do namorido, que ria às pampas quando me pegava trocando idéias com as violetas e kalanchoes que vivem por aqui. Decidi por estender os dedos de prosa só quando ele não estava.

Também passei a me informar melhor sobre as preferências das espécies, se elas eram “de sol”, “de sombra” ou “de meia-luz”, como se diz por aí. E vi que nenhuma das kalanchoes ia viver muito mesmo, se não tomassem sol pleno. Nesse meio tempo, trouxe para casa mais dois vasos grandes dessa espécie, mas isso foi bem numa semana corrida por demais, em que não parei em casa.

Resultado? As pobres ficaram a semana toda só dentro de casa, longe do alcance do astro-rei e bem perto da lâmpada da sala. Mas, para minha surpresa, não murcharam – o que me levou a concluir que as ingênuas flores foram enganadas pela luz artificial provida por sêo Osram. Compartilhei a teoria com o namorido e alertei-o para não falar a respeito na frente das engambeladas kalanchoes. Afinal, se elas percebessem o golpe, podiam voltar atrás e se desfolhar inteiras...

No fim das contas, acertei a mão: já cuido bem das kalanchoes, dos crisântemos, das marias-sem-vergonha, dos cactos, da árvore da felicidade, da comigo-ninguém-pode e de outras flores e folhagens que vivem aqui comigo. Até plantei manjericão e pimenta, desde a semente, e o primeiro está de tal tamanho que virou condimento de umas pizzas e molhos preparados por mim.

Agora, o grande desafio vai ser a orquídea-sapatinho, presente da dona Sandra trazido no último final de semana. Quando minha mãe se casou e ganhou sua própria casa, esse foi o primeiro vaso que minha avó deu para ela. Espero saber honrar a tradição familiar.


Clara McFly às 06:55 PM


O mestre dos magos

Diretor de cinema, por definição, é um sujeito pirado e de muita sorte. Sorte e ousadia, porque convencer 400 pessoas alojadas em uma sala escura de que sua obra é especial, e não mais uma bobagem cinematográfica, é tarefa para poucos. Existiu um membro dessa classe capaz não só de abismar multidões, mas também de nos fazer crer que ele era um verdadeiro mágico. Alfred Hitchcock nunca tirou coelhos da cartola, que eu saiba – fez, sim, muito melhor do que isso.

Tio Hitch, na verdade, não era só um habilidoso contador de casos. Era um perito em técnica de cinema. Sabia como funcionava todo e qualquer equipamento de seu set de filmagem e, por isso mesmo, como extrair o melhor efeito deles. Foi assim que seus filmes ganharam multidões: não era apenas uma questão de bom roteiro, mas também de apresentá-lo em um formato perfeito. Originalidade era o lema de Alfred.

O homem não poderia ter nascido em outra data: 13 de agosto de 1899 (tem o espírito do “cachorro louco” ou não?). Trinta anos depois, ele já era conhecido em altas rodas de cinema inglês, considerado o jovem diretor mais promissor e bem pago do mercado. Não é isso, porém, que importa quando se botam os olhos sobre os filmes do meu diretor predileto. Mesmo que você aí do outro lado não seja um admirador (ainda), tenho certeza que o estilo de Hitchcock pode te conquistar.

Para quem presta atenção em detalhes de cenário ou em cortes da edição, o estilo do gorducho senhor fica ainda mais apetitoso. Mas quem não dá a menor pelota para esse tipo de fixação –cine-nerd também pode se divertir nas obras. Uns morrem de medo dos acontecimentos, outros acham tudo aquilo balela, um exagero. É mesmo exagerando! Daí a graça: parece que estamos em um sonho, acompanhando situações bizarras mas perfeitamente possíveis de acontecer. Ou você não acredita que seu vizinho de fundo pode dar cabo da própria esposa?

É isso o que acontece em “Janela Indiscreta” (1954), um dos melhores momentos de Alfred H. O fotógrafo interpretado por James Stewart está entrevado em casa com a perna engessada. Pela janela, ele observa mexeriqueiramente tudo o que se passa com a vizinhança. Até que sua pseudo-namorada (Grace Kelly, mais linda do que em toda a vida) sugere: o homem que vive no prédio em frente está com comportamento suspeito e parece ter passado a esposa desta para uma melhor. O que poderia ser uma história boba, de telefilme safado exibido no Corujão, virou um clássico. Na minha opinião, por causa da mão do diretor.

É só reparar no clima de terror e agonia que vai crescendo durante a trama. O aleijado descrente passa a ficar atormentado, a garota rica e fútil mostra-se corajosa e leal. Tudo acontece aos poucos, e quando você vê está mordendo a almofada de desespero. Poucos conseguem fazer isso com o público, eu acho. O bom é que Hitchcock não pára por aí. Se quiser suar frio e ter uma noite de cinema com C maiúsculo, sugiro que vá buscar essas pérolas. Andam em baixa nas locadoras, mas isso é para quem não sabe ver.

Psicose (1960)
Vou dizer: se tivesse que tomar banho todo dia em uma banheira com cortina, contrataria um guarda-costas para a porta do banheiro. A famosa história de Norman Bates não se tornou um marco do cine-terror à toa. Cada passo ou rangido em cena arrepia os cabelos da nuca até no mais relaxado espectador. Depois de saber que o sangue a correr pelo ralo era chocolate, confesso que o medo passou um pouco. Mesmo assim, o filme é de matar. Literalmente!

Um Corpo que Cai (1958)
Como todo filme de AF, fica bem melhor no cinema. Como não há jeito de exibirem filmes antigões fora de eventos especiais, encare na telinha mesmo. James Stewart (era o “muso” de Hitch, assim como as meigas loiras platinadas) é chamado para desvendar o mistério em torno de uma senhora suicida, mas acaba entrando numa senhora armação. Diretores que filmam suspense hoje têm muito o que aprender vendo a fita.

O Homem que Sabia Demais (1956)
Diferente dos filmes que deram fama ao “mestre do suspense”, este aposta é na trama bem amarrada. Aliás, roteiros costurados com primor, eu acho, contam tantos pontos a favor do diretor quanto as punhaladas em si. Na exótica Casablanca, James Stewart (ele de novo, aí tinha...) e sua simpática esposa viajam junto com o filho. Em dada hora, porém, o menino toma chá de sumiço. O quê, como, quando e onde, são coisas a se descobrir aos poucos. História intrincada é apelido.

Festim Diabólico (1948)
Aqui não tenho como disfarçar a inveja. Se um dia eu chegar ao céu e me perguntarem o que eu sonhava ter feito na vida, eu diria: “acompanhar Alfred Hitchcock durante a filmagem de ‘Festim Diabólico’”. Uma das mais criativas películas já rodadas, conta a saga vespertina de dois jovens malucões que decidem matar um amigo, guardá-lo no baú e dar uma festa (com a família do rapaz presente) a fim de... bom, de provar que podem. Eu digo UMA película, porque foi assim que ela nasceu. Louco de pedrinha, Hitchcock achou que o filme ganharia muito se não houvessem cortes. Ou seja: ele filma a cena ininterruptamente, apenas mirando em um ponto neutro para trocar os rolos de filme. Foram dias de ensaio até que os atores fizessem tudo sem errar. Foram meses de planejamento arquitentando como passar câmeras enormes por meio de um cenário cheio de mesinhas e cadeiras. Foram anos, depois disso tudo, colhendo louros pelo trabalho incrível. Que, aliás, só um mestre dos mestres imaginaria.

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Além de tudo, o gordinho era adorável nos bastidores
* * * * * *

Sangue com valor

Hitchcock podia usar chocolate para fingir de sangue, mas os hospitais, infelizmente, não. Doar sangue é um dos atos que demonstram mais amor ao próximo hoje em dia. Nós aqui do Garotas estamos em campanha. E você pode e dever vir mostrar seu amor conosco!

Fla Wonka às 02:58 PM


Tra-la-lá

"Parece que nos anos 60 tinha muito tóchico", diria sabiamente a Mirtes. E é verdade. A prova definitiva do gosto geral por substâncias alucinógenas, porém, não são as músicas de rock progressivo com 10 minutos só de solo de teclado, ou os cabeludos tomando banho de lama em Woodstock, ou os Beatles cantando sobre uma garota chamada Lucy que passeava num céu de diamantes. A evidência maior do uso de drogas naqueles anos de paz-e-amor é o programa dos Banana Splits!

O nome original da belezura é "The Banana Splits Adventure Hour". Não está conseguindo lembrar? Vou refrescar sua memória – a minha já foi refrescada pelo canal Boomerang, uma pérola da tevê por assinatura que só apresenta desenhos antigos. Contudo, a atração não é desenho. Na tentativa de fazer algo em carne e osso (e pelúcia), os tios William Hanna e Joseph Barbera, depois de baterem com suas cabeças repetidas vezes na parede, tiveram a idéia desse programa, que foi ao ar pela primeira vez em 1968.

As estrelas? Quatro atores sem-rosto (porém corajosos) devidamente fantasiados de cachorro, leão, macaco e elefante. Eles são Fleege (um cachorro com uma irritante língua sempre pendendo para fora), Drooper (um leão de óculos escuros e que segura a cauda enrolada no braço), Bingo (um gorila cor-de-laranja sempre sorridente) e Snorky (um paquiderme peludo com orelhas cheias de bolinhas coloridas). Já é nonsense o suficiente – mas tem mais. Muito mais.

O quarteto é uma – hã – banda de rock. E, curiosamente, uma banda de rock de primeira linha. Com assessoria de nomes como The Monkees, os bichos cantaram temas que continuam embalando gerações. Tente ouvir a canção mais famosa, aquela do refrão "Tra-la-lá, tra-la-la-lá" e fique parado. Impossível!

Quando não estão tocando, os personagens passam o tempo apostando corridas de bugue pelo parque. Agora vamos imaginar a gravação disso: quatro marmanjos vestidos com fantasias espalhafatosas e correndo em carros engraçados em locais públicos. Tinha que ser nos anos 60 mesmo – a galera estava tão chapada que acho que nem se importavam em cruzar com seres daquele tipo.

Além de cantar e correr eles... trombam uns nos outros. O tempo inteiro. Também tropeçam nos móveis do lugar onde moram juntos, uma espécie de galpão psicodélico. Eles têm como amigos uma cabeça de alce falante e um relógio cuco. Como inimigos, a temível gangue das Uvas Azedas – que nunca apareceu, mas mandava bilhetes ameaçadores através de uma garotinha loira chamada Charlie.

Entre as trapalhadas, o programa tinha desenhos. Aliás, uns desenhos que ninguém mais lembra. Talvez aqueles rejeitados pela dupla Hanna-Barbera. Só lembro de alguns, como "Os Três Mosqueteiros" e "Os Cavaleiros da Arábia". Bem, basicamente, era isso que acontecia em todos os episódios do programa durante os dois anos em que alguém teve colhões para deixar aquilo no ar.

Claro que as crianças amavam! Posso falar por mim, que chegava a chorar quando a turma se despedia (sempre com uma canção de pop bubble gum). Apesar de não entender muito como eles falavam sem mexer a boca, achava o máximo todo o colorido e as situações estúpidas. Hoje, vinte anos mais tarde, continuo assistindo a tudo com meu queixo caído e vendo que um pouco de tóchico pode fazer muito bem para certas pessoas.

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Nonsense para baixinhos


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Se você não puder comparecer dia 26 de junho, sábado, no Pró-Sangue do Hospital da Clínicas de São Paulo - seja por ser de outra cidade, seja por ter compromisso no dia - não quer dizer que você não poderá participar da nossa campanha. Tente ir onde der e quando der - o importante é o gesto. E, para o gesto, não precisa de data marcada.

Vivi Griswold às 09:33 AM

quarta-feira, 16 de junho de 2004

The funk phenomena

Eu tenho uma teoria muito particular sobre o funk. Já adianto que não sou profunda entendedora da história da música, embora adore o assunto. Some-se a isso minha inefável disposição para criar teorias bizarras e perdoe a indiscrição (ou até mesmo a heresia) quando eu digo: para mim, o funk carioca é um paralelo do movimento punk.

Calma. Não me atirem latinhas. Deixa eu explicar: assim como o punk, o funk carioca prega o faça-você-mesmo e a filosofia “não precisa saber tocar ou cantar para fazer música”, certo? Ou uma base chupada do Front 242 acrescida da letra “vou passar cerol na mão, vou sim, vou sim” é um exercício musical refinado e fruto de anos de estudo da teoria?

E o que dizer da sensacional poesia do hit “Elas Estão Descontroladas”, que guardo com carinho em mp3 nesse mesmo computador de onde escrevo? A letra se resume basicamente a “Elas bate (sic), elas gira (sic), elas dão uma rodada/ Elas estão descontroladas”? Saber fazer música, no sentido mais tradicional da palavra, poucos ali sabem.

Mas nem por isso acho menos divertido – muito pelo contrário. Aí, os chatos de plantão vão dizer: “é, mas os bailes funks são um centro de prática de sexo não-seguro, disseminando doenças e promovendo a gravidez na adolescência”. Bom, eu nunca fui a um baile funk (uma pena), mas sei que custam poucas lascas para entrar.

Assim, não dá para negar que tais eventos sejam, também, uma maneira barata e saudável (tirando a parte do sexo sem prevenção) de se divertir. Ou vocês acham que todo brasileiro tem quinze pilas mais a grana do estacionamento para ir ao cinema todo final de semana?

Mas voltemos aos paralelos entre o movimento musical dos três acordes e a onda que tem entre seus expoentes a Mãe Loura e seu rebento de voz irritante, o Jonathan. Assim como o punk cantava a realidade da classe operária mais politizada, o funk dá voz a uma leva de gente sem muitas perspectivas, que tá vendendo o almoço para comprar a janta – e naturalmente reflete em seus temas o dia-a-dia dos seus autores, chegados a uma válvula de escape que é a pura e simples diversão.

É machista? Sim, não vou mentir para você. É sexista? Também. Mas lembrem-se de que o funk nasceu de uma classe que não tem lá muitos subsídios culturais formais. Woman is the nigger of the world, dizia John Lennon. E as mulheres pobres, então... Nem se fala. Nesse ponto, o estilo musical apenas reflete a realidade – que, é claro, deve ser mudada.

Não nego que ainda me espanta um bocado, por exemplo, ouvir um garoto de seis ou sete anos cantar que já está crescendo, cheio de emoção, e logo vai descolar “um filé com um popozão”. Se é meu filho, leva tapa na boca.

Enfim. O funk carioca não é meu ritmo favorito, mas acho muito cômodo achincalhá-lo por completo quando você vê tudo de longe. Pode ser divertido ouvi-lo eventualmente.

Afinal, onde mais eu encontraria letras como “dança da motinha, as popozudas perde (sic) a linha”, “se o destino adjudicar, vamos nos encontrar logo mais” e “um tapinha não dói” – embora aquele homem com voz cavernosa gritando “só um tapinha!” sempre me faça crer que a pobre e desafinada moça não vá levar só um tapinha?

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E aê, sangue-bom?

Nem só de lembranças, piadas e textos vive o Garotas – ou melhor, os leitores do Garotas. Olha só que bacana: de uma idéia nascida no Fórum, eis que está no ar a campanha de doação de sangue. É importante para um monte de gente e é fácil para cada um fazer sua parte. Confira aqui os detalhes e junte-se a nós!

Clara McFly às 07:18 PM


Apelo ao livrão

Sempre detestei fazer prova. Até hoje, crescida, tenho horror de me envolver com qualquer espécie de teste. Fazer trabalho de escola, por outro lado, eu adorava! Isso sim era jeito de provar conhecimento: você lia sobre o assunto, separava as partes mais importantes e passava para o papel almaço. Muito mais sábio que esse “ctrl+C, ctrl+V” que a molecada faz hoje com a Internet. E ainda tinha direito a empetecar a coisa toda.

Tirando a dificuldade que eu tinha de começar o trabalho com antecedência – deixar para amanhã o que se pode fazer hoje é meu nome do meio –, achava divertidas todas as etapas do processo. Definido o tema, era só partir para a ação e começar a impressionar colegas e professores.

Lá em casa, a estante era cheia de livros, mas nem todos serviam para fazer trabalho de escola. Por outro lado, minha vizinha Vanessa era a feliz proprietária de uma coleção completa da Barsa, o centro de saber máximo para dez entre dez estudantes. O negócio era escrever sobre citoplasmose? A Barsa ensinava. Precisava dissertar a respeito de Rui Barbosa? A Barsa era biografia completa.

Como não se podia deixar de adquirir uns volumes desses, recebemos afinal a coleção “Conhecer”. Não era a mais prática para aqueles trabalhos batidos do colégio – que só queriam saber de Tiradentes, golpe de 64, escravidão e café – mas quebrava um galho. Bom mesmo, porém, era conseguir uma boa alma que me levasse até a biblioteca.

Ô lugarzinho divertido, a biblioteca! E nem digo isso para puxar o saco da minha irmã, hoje uma excelente profissional da organização desses lugares. Sempre achei bacana mesmo encontrar aquelas mesas grandes e livros à vontade, prontos para serem dissecados e copiados direto para o meu trabalho. Mas como só o bando de letrinhas deixava a folha sem graça, entrava em cena minha “porção fru-fru”.

Ficava interessada em qualquer item que pudesse engrandecer o trabalho. Xerocar uma imagem interessante e colar em meio ao texto era o mais simples. Mas também aprendi a desenhar direto na folha. Era muito mais difícil, porque exigia a participação especial de papel vegetal para copiar a ilustração e fazer o transplante. Em compensação, a maioria das professoras caía no truque e elevava a nota pelo capricho. Ou seja: eu podia não sacar nada sobre folclore, mas se desenhasse ali um boi bumbando, estava feita.

É verdade, meninas levavam vantagem ao fazer trabalho. Como sempre fomos mais inclinadas a dourar a pílula – nem que fosse na base do glitter e das lantejoulas, como bem sabia fazer a Vivi – era facílimo dobrar os mestres apresentando uma capa bem feita. Muitos dizem que não se deve julgar um livro pela capa. Bom, os professores do primário e do ginásio não comprovam isso.

Sempre que fiz capinha com desenho, grampeado com delicadeza e amarradinho com fita, ganhei nota boa. Vai ver eles sabiam que, lá dentro do almaço, estaria a mesma lenga-lenga editada da Barsa, e davam valor não só para o conteúdo, mas para quem usou o tempo também pensando na forma. Viu o porquê da minha preferência pelos trabalhos? Não dá para unir conhecimento com artimanha estética em uma prova boba.

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Ninguém mais usa este centro de saber?
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Bom mesmo é trabalhar em equipe!

Fazer trabalho em grupo não era fácil, mas ajudar o próximo enquanto adulto é! Hoje estamos começando a divulgar a mais nova empreitada do Garotas - criada, na verdade, entre os membros do nosso animado Fórum. Se quiser saber mais e se juntar nessa campanha de doação, está convidado. A equipe chamada Brasil agradecerá.

Fla Wonka às 01:40 PM


Apocalipse now

Imagine o planeta Terra sem nós. Ou sem o sol, a água potável, o ar puro. Imagine também um universo sem a nossa pequena esfera azul reinando como um belo lar de vida inteligente e, no lugar dela, um grande vácuo. O pior é que conseguimos imaginar. Por quê? Ora, porque já vimos tudo isso! Pelo menos na telona...

O cinema norte-americano possui uma mórbida atração pelo tal de fim do mundo. E, curiosamente, as platéias também. É que os filmes que retratam as várias possibilidades do apocalipse costumam ser mega-produções – isso quer dizer que levam atores badalados, trilha sonora caprichada e, claro, efeitos especiais de última geração. Sem falar no marketing todo em volta. Resultado: é impossível não cair! Eu, pelo menos, caio em todos.

Portanto, nós já vimos os humanos sofrerem horrores na sétima arte. Será que vai acontecer desse jeito mesmo quando chegar a hora (esperamos que seja daqui alguns bons milhões de anos)? Então escolha o melhor – ou o mais emocionante – fim do mundo entre as opções já fornecidas pelo entretenimento de massas.

Revolta das máquinas
Assim aconteceu em "Blade Runner" e "Matrix". Nesses casos, o mundo não acabou... Só mudou. Mas ver nosso lindo planeta virar uma noite sem fim, com chuva ácida e robôs tomando o lugar de gente não é lá muito agradável. Em ambos os casos, a culpa é do homem: na busca por novas tecnologias, máquinas inteligentes e com vontade própria acabam sendo desenvolvidas. Há uma guerra entre a lataria de última geração e as pessoas de carne-e-osso. Sempre saímos perdendo, droga!

Revolta da Mãe Natureza
Na hora de maltratar nosso meio-ambiente, ninguém acha feio. Daí, quando tudo isso causa inundações, furacões, derretimento das geleiras, terremotos, vulcões, a rapaziada reclama. Vai entender... O último espécime que retratou muito bem a fúria da natureza foi "O Dia Depois de Amanhã". Azar dos americanos, que levaram na cabeça – no filme, por exemplo, há um êxodo ianque para os países da América Latina e até a dívida externa é perdoada. Pelo menos, dessa vez, levamos a melhor!

Revolta do universo
Às vezes estamos quietos no nosso canto aqui dentro, mas lá fora o universo teima em conspirar contra. Devido à extinção dos dinossauros, teoricamente ocorrida por conta de um meteoro que se chocou com a Terra, corpos celestes acabam sendo um filão bem explorado pelo cinema. Um exemplo clássico é "Armageddon". Para piorar o que já é ruim, uma pergunta: você prefere ser varrido da existência por uma rocha gigantesca ou ter de agüentar o Bruce Willis como salvador da Humanidade? Difícil...

Revolta dos zumbis
Já comentei aqui o quanto eu me simpatizo com zumbis. Eles são a escória do terror mas, por outro lado, são os únicos que teriam capacidade de varrer as pessoas da Terra. A infecção pode vir de várias formas: macacos africanos, gás venenoso, armas químicas. O importante é que eles se alastram como catapora em jardim de infância! Se você for mordido, filhote, já era. E, quando todos formos zumbis, morremos de fome (uma vez que só carne viva serve). Daí, basta dar adeus para a meia-vida.

Revolta da ciência
Certa vez li em um livro sobre conspirações uma coisa que me fez pensar. Já imaginou se a AIDS for uma experiência de laboratório que deu errado? E a dengue? E o ebola? E a SARS? Eu não duvido totalmente, uma vez que ninguém sabe ao certo o que se estuda dentro daquelas paredes brancas e higienizadas. Um vírus pode escapar – ou ser usado como arma química – e pronto, adeus pessoinhas! Ou, como em "Extermínio", ele pode fazer as pessoas virarem... zumbis! Daí o final é o mesmo do parágrafo anterior.

Revolta dos aliens
Tem gente que acha que os alienígenas são bonzinhos como o E.T. do Spielberg. Ou então aqueles homenzinhos cinza que vimos em "Arquivo X", que não fedem nem cheiram. Mas o que aconteceria se as formas inteligentes de outros planetas quisessem dominar – ou ainda, destruir – nosso lar? Pegue, por exemplo o filme "Independence Day"! Tudo bem que mandar um raio letal na Casa Branca não é assim uma má idéia. E outra: os brasileiros podem ficar tranqüilos. Naves só pousam nos EUA mesmo!

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Bye bye, Bush!


* * * * * *


Enquanto o mundo não acaba...
Tá certo, não poderíamos salvar a Humanidade. Mas podemos salvar algumas pessoinhas que precisam de ajuda. Como? Ah, de várias formas. Uma delas é: doar sangue. É por isso que estamos hoje iniciando uma campanha de doação que nasceu lá no nosso vitaminado (e, agora, politicamente correto) Fórum. Se você estiver em São Paulo no próximo dia 26 e quiser colaborar, apareça! Para mais informações, clique aqui!

Vivi Griswold às 10:17 AM

terça-feira, 15 de junho de 2004

Mágica ou ciência?

Dentre os aspectos do mundo adulto que são estranhos às crianças figuram, entre outros, a posse de uma carta de habilitação, o preenchimento do Imposto de Renda, a palavra final sobre o que entra no carrinho ao fazer supermercado e a simples aceitação – quase mecânica – dos grandes mistérios da vida com os quais topamos no mais simples dia-a-dia.

Explico: as crianças têm a capacidade de se maravilhar com o funcionamento das pequenas coisas. Diante do metrô, fazem aquela cara de fascinação; os olhos brilham e surge a pergunta exclamada "como isso anda?!". Geralmente os adultos sorriem com cara de sabe-tudo e ensaiam uma explicação até razoável. A não ser que eu seja essa adulta.

Na verdade, continuo me fascinando com todas essas engenhocas do mundo moderno. Ok, o metrô anda por ali porque máquinas imensas cavaram um buraco, botaram um trilho no meio e o trem se move com energia elétrica.

Mas como assim, energia elétrica? Como isso faz o veículo andar? E, acima de tudo, como diabos isso é gerado? (E não me venham com as explicações da escola. Ainda sacarei de mais porquês interrogativos).

E como descobriram que dava para cavar ali e não ia desabar tudo? "Cálculos, minha filha", diriam os adultos sabichões. Mas que cálculos? Quem descobriu a fórmula? Quantos infiéis foram soterrados até acertarem tudo? E, acima de tudo, quem decidiu correr o risco?

E não é só. Viajando para a praia, sempre penso na construção dos túneis e daquela estrada assentada sobre pilares que descem às mais loucas profundezas da serra. Quem desceu lá para assentar os tais pilares? Eu não ia nem ferrando. Que todo mundo siga para o veraneio pela estrada velha, mesmo… E de calhambeque.

Telefone é outro mistério – assim como seu upgrade, a internet. Não há explicação física, tecnológica ou científica que me satisfaça sobre como sinais de voz, texto e imagem entram por um fio, são codificados e saem do outro lado do mundo, descodificados, para o ouvinte ou receptor.

E olha que eu sou uma garota dos fins do século 20, usuária (êta nominho que inspira gente que mexe com "tóchico"!) de internet, TV, telefone e tudo mais que se imaginar. Não me espanta que as gentes mais antigas vissem na máquina de fotografia um capturador de almas. Ao fim e ao cabo, as explicações mais aceitáveis para todos esses milagres do progresso são aquelas infantis mesmo: é tudo mágico. Só pode ser.

Clara McFly às 06:52 PM


Como eles conseguiam?

Lá em casa, sou conhecida como "a mimada". "A caçula", "a queridinha" e "a privilegiada" são variantes dessa pecha. Tudo bem, eu assumo: apesar de ter apanhado quando necessário e levado bronca feito cachorro sarnento algumas vezes, em geral eu era mesmo paparicada pelo papai e pela mamãe. E eles eram especialistas no trabalho.

Meus pais sabiam praticar o mimo. Não apostavam na compra de presentes caros ou festas, mas tinham a manha de ser dengosos em alguns pontos. Eram eventos isolados, coisinhas pequenas e imperceptíveis ao olho nu das demais pessoas. Eu, por outro lado, recordo aqueles momentos todo dia.

Se perguntar, é capaz que nem os próprios lembrem dessas coisas. Na minha memória, porém, elas ficaram marcadas para sempre. As bobaginhas aconteciam entre nós, sem inclusão de mais ninguém. Eu espero saber mimar os meus rebentos com essa habilidade.

A Dona Conceição…

…Usava o secador pra brincar
Nas noites frias (como estas que andam fazendo, brrrrr!), o cabelo tinha que ser lavado e seco na mesma hora, para não dar chance ao resfriado. Enquanto passava o aparelho na minha cabeçona, mamãe achava de direcionar a lufada de ar quente para dentro do meu pijama de surpresa! Causava cócega, gargalhadas e até calor no meio de tanto frio.

…Fervia leite com açúcar nas crises
Se a tática anti-resfriado não dava certo, lá vinha a tosse estorvar a madrugada. Conheço gente que postava os filhos na frente de um aborrecido aparelho de inalação caseira. Não a mamãe: ela acordava, ia na cozinha, preparava uma xícara de leite fervente com açúcar caramelado. Acalmava o pulmão e me deixava feliz. Acho que o "bicho" ia embora por causa do segundo efeito.

…Fazia a cara da cabrita de "A Noviça Rebelde"
Aquela doce mulher é uma das pessoas mais simpaticamente engraçadas que eu conheço. Com a fala mansa e o jeito contido, ninguém imagina a palhaça que ela pode virar! Ver o filme da Frau Maria naquele ponto do teatro de fantoches era de esborrachar de rir. Ela aperta a boca e arregala os olhos e canta como tirolesa… Ah, vai ver é engraçado só entre nós duas.

O Seo Luiz…

…Fazia o "nome do padre" toda noite
Não sou nem um tiquinho religiosa, mas não foi por falta de esforço do papai. Na verdade, ele também não é nenhum beato, mas curtia ir toda noite me botar na cama, apertar o cobertor nos pés e, fazendo o sinal da cruz, dizer "em nome do pai, do filho, do espírito santo" – ao que eu respondia "amém!". Não faço mais orações. Mas é só porque não tenho mais o papai pra puxar o coro.

…Me levava para passear só com ele nos domingos
O ritual incluia acordar bem cedo (como era fácil naquele tempo, coisa estranha…), trocar de roupa e pular no carro. Daí íamos ao mercado municipal comprar fruta ou visitar a Vó Emília. De vez em quando, também havia parada na floricultura para arrematar um buquê pra mamãe. Ou na feira, para mandar ver num pastel. Mamy que me desculpe, mas eu preferia o segundo pit-stop.

…Assistia tv comigo abraçada
Assim como eu, meu velhinho é chapado numa televisão. Sempre fomos de largar a família falando sozinha para ver filme ou jogo na tv. Houve um tempo em que eu ainda era pequenina o suficiente para me aboletar entre os joelhos dele ou encostar a cabeça no barrigão. Foi-se a época… Mas isso não importa. Os momentos estão pregados na memória e de lá não saem.

Fla Wonka às 01:22 PM


O inverno tem dessas coisas

Já confessei que esta, para mim, é a melhor época do ano. Não gosto do calor escaldante no qual temos de viver 70% do tempo neste país tropical. Tudo no verão fica ruim: dormir, por exemplo. Eu, que sou daquelas pessoas que encostam a cabeça do travesseiro e desmaiam, tenho dificuldades de descansar em temperaturas altas. Rolo na cama, não acho posição e, o mais incrível, já acordo suada. No inverno, basta um edredon quentinho para garantir bons sonhos.

Mas minha estação favorita também tem seus contratempos mesmo para uma admiradora dos dias mais gelados. Para começar, meu nariz se comporta de um jeito estranho. É só tirar a blusa de lã do armário pela primeira vez em seis meses que a tal rinite alérgica me ataca. Também tenho uma garganta sensível e, nessa época, costumo acordar com dor. Aconteceu isso hoje – estou aqui toda dodói.

Mesmo assim, costumo ficar muito animada durante o frio e tento curtir ao máximo esse tempo mágico que visita o Brasil só de vez em quando. E é aí que eu me deparo com as situações mais irritantes do inverno.

Repare na inflação exagerada de artigos quentes – cappuccino, cafés e chocolates cremosos ganham acréscimo de um punhado de centavos nos preços. Aliás, tudo o que vai no fogo por minutos fica visivelmente mais caro. Existe uma franquia de café que cobra 10,90 reais por uma sopa. O engraçado é que a sopa deles é a famosa Campbell’s, vendida a 5 reais no supermercado. Curiosamente, eles não fazem a mínima questão de esconder: o moço abre a latinha na sua cara! Ou eles cobram 5,90 reais por 300ml de água (o único ingrediente a mais para o produto ficar pronto), ou esse inverno dói no bolso mesmo.

Eu adoro aproveitar os céus azuis da época, e costumo passear muito ao ar livre, desde que bem agasalhada. Isso porque qualquer outra atividade indoors vira uma disputa! Já tentou ir ao cinema no inverno? As filas dobram o quarteirão! Outra coisa que me irrita em cinemas nesta estação: eles esquecem o que é ar-condicionado. Resultado? Quando o calor está de rachar lá fora e você está com uma camisetinha, tome vento gelado; quando está um frio do cão e você está até de gorro, tem de respirar bafo quente dos outros.

É óbvio que todo mundo está buscando diversões mais aconchegantes. Domingo passado, com os termômetros da capital marcando 10 graus, inventei de ir em um festival de sopas de uma lanchonete bacana. Pena que a cidade inteira teve a mesma idéia! Aliás, todos os lugares charmosos e quentinhos estão com gente saindo pelo ladrão. Meu ideal de um jantar romântico regado a vinho, ao lado de uma lareira em um canto escuro e solitário de um restaurantezinho vai por água quando só a espera de lugares assim chega a duas horas. O jeito é jantar em casa usando um visu bóia-fria.

Por falar em visu bóia-fria... Quem foi que disse que o inverno é a estação mais elegante? Tá certo que durante o frio não somos obrigados a olhar para barriguinhas pelancudas ou para dedões do pé com esmalte descascado, mas... Não é tão elegante assim. Claro que existem madames com sobretudos e blusas de cashmere e cachecóis de seda lá na Oscar Freire. É delas que o povo fala? Porque, de resto, é um deus-nos-acuda. Camiseta por cima de camiseta, japona de náilon colorida, gorro de time de futebol, luva furada (pra quê comprar outra?), calça xadrez com malha de bolinha...

Outra coisa que me irrita a cada estação fria são as pautas-clichê dos telejornais. Acho que o pessoal do Jornal Nacional nem precisa mais fazer matérias sobre o inverno – basta pegar as dos anos anteriores e dar um tapa na pós-produção. Pois o conteúdo, que é bom, não muda nunca.

Preste atenção e veja se você já viu (se não, vai ver) os seguintes temas: “Populares tiram tudo do armário para vencer o frio” (detalhe para modelitos bóia-fria na Av. Paulista); “Crianças se divertem com geada em São Joaquim” (detalhe para um bando de pivetes lambendo uma neve lamacenta); “O charme e encanto de Campos do Jordão” (detalhe para uma araucária sacudida pelo vento, contra-luz); “Termômetros registram a temperatura mais fria do ano” (detalhe para um termômetro de rua marcando 9 graus à noite).

Reclamo, mas gosto.

Vivi Griswold às 10:31 AM

segunda-feira, 14 de junho de 2004

Querida, cheguei!

Há milhões de anos, eles dominaram a Terra. Eram senhores absolutos do planeta e não davam chance para nenhum outro tipo de animal. Sumiram de maneira ainda não esclarecida até hoje, apesar das múltiplas teorias que tentam explicar seu desaparecimento. Mas sempre que ouço falar em dinossauros, em vez de monstros ameaçadores e predadores certeiros, a idéia que faço é de uma família atrapalhada, com um bebê perverso e fofinho.

Isso é culpa do excelente seriado “Família Dinossauro”, exibido por aqui primeiramente na tela da Globo e, mais recentemente, pelo SBT. Produzido de 1991 a 1994, o programa combinava personagens cativantes a um humor que podia ser apreciado tanto por um inocente petiz quanto pelos mais crescidinhos – que pegavam a ironia e a crítica ao modo de vida contemporâneo destilada nos episódios.

Dino era casado com Fran e tinha três filhos: o adolescente Bobby, a pré-adolescente Charlene e o pequerrucho Baby. Outras figuras cercavam a vida da família, como o tio Roy, a sogra de Dino e seu chefe. Eles fizeram meus almoços (enquanto estavam na Globo) e algumas das minhas tardes (já no SBT) mais divertidos. E reúno aqui sete razões que fazem da “Família Dinossauro” um programa sem igual.

O sobrenome da família
Na versão original, o patriarca da trupe chama-se Earl Sinclair. Por aqui, o clã ganhou o simpático sobrenome Silva Sauro – e o chefe da família foi rebatizado como Dino – Dino da Silva Sauro. É uma rara ocasião em que a tradução ficou ainda mais bacana que o original.

O programa favorito do Baby
Uma espécie de mágico se apresentava, fazendo as mais absurdas experiências com um voluntário – provas como saltar de uma altura de 130 metros num copo d’água. O pobre do voluntário chamava-se Jimmy. E, quando tudo dava errado e o moço se estropiava, o apresentador sacava da frase: “Ih, acho que vamos precisar de outro Jimmy!”, para total delírio do Baby.

As entradas de Dino
O patriarca nunca conseguiu o afeto do caçula da família, que sempre batia nele com uma frigideira, aos berros de “Não é a mamãe!”. Mesmo assim, Dino chegava em casa após o trabalho repetindo a infalível e sensacional frase “Olá, minha família que me ama!”. Adivinhem qual a primeira coisa que falo quando chego em casa?

O nome da empresa
Dino trabalha derrubando árvores para a companhia com o melhor nome que eu já vi: “We Say So” ou, como ficou traduzido, “Nós Dizemos que Sim”. Partindo do princípio que a firma derrubava árvores a torto e a direito, sem se preocupar com o meio-ambiente (e quem se preocuparia com isso no jurássico?)), a graça é perfeita.

A previsão meteorológica
O homem do tempo aparecia diante de um mapa com... a Pangéia! Sim, aquele único blocão de terra do qual, diz a teoria, se destacaram os continentes atuais. E o melhor era o senso de humor do sujeito, que dizia coisas como “Cataclismas e vulcões vão atingir a região norte. Se você tem parentes por lá, ligue para se despedir” com um sorriso daqueles de apresentador na cara.

A dança
Ok, isso não faz parte da série em si, mas é notável. “Família Dinossauro” gerou uma expressão artística das mais importantes – ou, pelo menos, das mais engraçadas. A performance de palco de Claudinho e Buchecha para a música que levou a dupla à fama, “Conquista” (também conhecida como “Sabe, tchurururu, eu tô louco pra te ver...”), foi inspirada na dança do acasalamento que Dino faz para Fran em certa ocasião.

O tratamento dado aos idosos
Num dado episódio, chegava a hora da família Silva Sauro se livrar de Zilda, mãe de Fran. Isso porque segundo o funcionamento daquela sociedade, quando já não podiam mais ser úteis para o grupo, os velhinhos eram simplesmente jogados num poço de piche. Chocante? Pensa bem: pagar uma aposentadoria obscena ou abandonar num asilo para ir visitar de vez em nunca não é quase a mesma coisa?

ethylultimate.jpg Aposto que ela prefere ir
para o poço de piche a receber
aposentadoria do governo...


Clara McFly às 07:21 PM


Só pivete, sem preconceito

Bom mesmo é ser criança e não dever explicações sobre seus gostos. Se saímos na rua vestidos de Branca de Neve ou Batman, todo mundo sorri e acha uma gracinha. Vá você fazer isso enquanto adulto! Passada a infância, é preciso escolher não só uma linha de estilo para vestimentas, mas também para todo o resto. O que ouvir no rádio, por exemplo: só estarás perdoado de cantar "Florentina" em público se tiveres menos de oito anos...

Nesse caso, entoar os poéticos versos do Tiririca provoca surtos de riso na família. Ninguém vai deixar de gargalhar vendo moleque ou menininha de bochechas rosadas repetindo "já me disseram pra parar com esse negócio de... Florentina, Florentina/ Florentina de Jesus". Já escutar moça feita ou rapaz crescido proferir a barbaridade musical é um absurdo.

Vou dizer para vocês: eu tenho saudade do tempo em que ninguém estava ligando para o que rolava no meu primeiro Gradiente. E confesso que às vezes, escondida ou no chuveiro, ainda relembro minhas preferências que não causavam espanto em pessoa alguma – por mais bizarras que fossem.

Eu curtia sertanejo raiz e cantava "Galopeira"
Via o Donizetti soltar o gogó com a "galopeeeeeeeeeeeeeeeeeira" e achava um barato! O desafio era sustentar a nota tanto tempo quanto ele. Nem pensar que eu conseguia – e olha que treinava bastante. Ah! Também apreciava, junto com a minha avó, o Sérgio Reis falando do menino da porteira. Ê, tempo bão...

Curtia um sambinha esperto e escutava "Saudosa Maloca"
Não tinha coisa mais divertida que aquela música para sacudir as cadeiras. E para repetir junto "dindindonde nós passemo dias feliz de nossa vida". Quase tão perfeita era uma outra que falava em "tauba de tiro ao álvaro" e "mata mais que bala de revórver". Hilário! Samba é bom.

Curtia eruditos e bailava na cozinha com "As Quatro Estações"
Pode ter sido influência das propagandas do Vinólia, vai saber. Mas era fato: bastava ouvir a melodia do Seo Vivaldi e eu saía dançando na ponta do pé, com as mãos juntas em arco no topo da cabeça. Arriscava até uns saltinhos marotos! Hoje, só faço isso quando não tem gente em casa. E com a cortina da sala fechada.

Curtia um brega safado e me esgoelava com "Escrito nas Estrelas" e "Fuscão Preto"
Tetê Espíndola encantou o Brasil naquele festival onde mostrou o real significado de um agudo. Bom, talvez o país tenha achado um horror (eu sei que a roupa branca de renda era dose mesmo), mas eu achei divertidíssimo. Essa, mais a história de corno do Almir Rogério, ainda me fazem cantar com a mão no coração.

Curtia hits GLS como ninguém
"Macho Man" e "YMCA" eram clássicos das pistas nos anos 70. Também eram medalhões em qualquer festa reunindo os amigos da purpurina e da plataforma. Quando eu era criança, nem fazia idéia que os moços do Village People vestiam-se de índio, policial, caubói e etc, mas não eram lá tão viris quanto os personagens. Era ótimo fazer a coreografia do Macho Man e gritar alto na parte do "Hey, Hey… Hey Hey Hey!". Hoje os moleques do bairro que também dançavam isso nas festinhas de aniversário devem negar o passado de fãs do Village. Era tão boa a vida sem preconceito…

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Dançar com eles era suuuper natural, bem!
Fla Wonka às 02:16 PM


Pãezinhos e folguedos

Apesar de ter santo no sobrenome – e de descobrir recentemente que Viviana também foi uma mártir católica –, nunca fui religiosa. Mamãe, que tem um altar na casa dela com imagens de Jesus, Buda e Krishna, deixou em aberto minhas escolhas espirituais e não me obrigou a fazer primeira comunhão ou a freqüentar missas dominicais. Acabei não dando em nada: nem católica, nem budista, nem atéia.

O legal de ser neutra nesse quesito é poder pegar as partes boas de cada religião sem neura ou cobranças – além, claro, de aprender a respeitar a crença alheia, o que é muito importante. A igreja católica, porém, nunca me despertou simpatia por diversos motivos diferentes. Mas se existe algo que eu admiro nela é a habilidade de fazer santos.

Seja pela parte histórica, seja pela especificidade levada até as últimas conseqüências, eu adoro um santo. Existem imagens lindas que conseguem despertar algo bacana dentro de mim, sem aquele fanatismo que muitas vezes pode cegar. E o meu santo favorito, junto a São Francisco de Assis, teve seu dia comemorado ontem.

Não é pela ação casamenteira que eu acabei nutrindo um carinho especial por Santo Antônio. Esse negócio de pendurar a imagem de cabeça para baixo, arrancar-lhe o menino do colo ou guardá-lo no fundo do armário só para arrumar um par para o próximo Dia dos Namorados é um absurdo – apesar de ser engraçado saber que tem gente que faz isso mesmo. Minha relação por Santo Antônio é estritamente infantil.

O moço é padroeiro da cidade em que morava até o ano passado, Osasco. A cada dia 13 de junho, o local pára: é feriado municipal (o que por si só já é uma coisa boa) e, para comemorar, há uma procissão e uma quermesse animada na igreja central. Quando eu era pequena aguardava ansiosamente pela data devido a todas as emoções da festa.

Logo de manhã, minha avó ia se estapear com outras beatas para pegar o tal pãozinho bento. Famoso por distribuir alimento aos pobres, Santo Antônio não imaginava que depois de tanto esforço o pão francês ia parar dentro do tupperware de arroz da dona Diva. Ela jogava fora o do ano passado e colocava o novo, dizendo que o tal pão não deixaria faltar alimento em casa. O arroz, pelo menos.

À tarde seguíamos pela procissão. Eu ia junto porque achava a maior diversão andar o percurso em passos lentos pela cidade vazia de carros. Também achava graça ver aquele monte de criança vestida de anjo. Minha tia, após perder o bebê na primeira gravidez, prometeu a Santo Antônio freqüentar a romaria caso seu segundo filho “vingasse”. Lucas, a vítima em questão, recebeu também o nome Fernando, como o santo era chamado antes da vida religiosa. Note, portanto, que era um evento familiar.

Quando chegávamos à matriz, uma saraivada de fogos de artifício recebia os fiéis. Pronto, a melhor parte! A festa de Santo Antônio conseguia reunir mais folguedos do que o reveillon, e o espetáculo – eu era criança, lembre-se – durava uns bons 20 minutos. Depois, era a hora de encher a pança com os melhores quitutes juninos, como pamonha e pé-de-moleque. Até vinho quente eu tomava. Só voltava para casa depois de arrematar alguma boneca de plástico na pescaria.

Um santo que deixava minha avó contente com um mísero pão francês e me dava um céu colorido, comida boa e prendas? Desse é fácil ser devota.

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Vivi Griswold às 10:03 AM

quarta-feira, 9 de junho de 2004

Eu era uma criança estranha

“Cada louco com sua mania”, já atestava o velho dito popular que vez ou outra é pronunciado pela Mirtes. “De médico e louco todo mundo tem um pouco”, complementa outro ditado. “Louco é quem rasga dinheiro”, sempre me diz a Flá. Peraí. Esse último ditado de louco não tem nada a ver com a história que eu vou contar hoje. Mas enfim...

O fato é que é sabido que de perto ninguém é normal. Pensando no verso gravado por Caetano Veloso em “Vaca Profana” (que nome!), percebi que comprovo a teoria desde pequena. Que atire a primeira pedra quem não guarda (ou jamais guardou, em fase alguma da vida) nenhum hábito esquisito.

Quem me conheceu durante a infância sabe que eu era uma criança estranha, bem estranha. Afinal, eu...

Gostava de fígado e espinafre
Os típicos pratos que despertam manha, brincadeira com a comida ou ameaças de se jogar no chão por parte dos pequenos eram adorados por mim. Claro que eu também salivava por batata frita e hambúrguer do McDonald’s, mas espinafre e fígado ainda são alguns dos meus pratos favoritos.

Passava horas calada
Especialmente em duas ocasiões: a) quando cercada de estranhos (ou estranho, pois uma só pessoa que eu não conhecesse já bastava para fechar a boquinha de siri); b) quando de posse de um livrinho ou de folhas sulfite à vontade e um punhado de lápis, gizes de cera ou, melhor ainda, canetinha.

Queria aprender latim ou grego
Essa durou até uns doze ou treze verões completos. Enquanto todo mundo queria ir para a escola de inglês (ainda mais se fosse aquela escola perto do colégio, que tinha uma cabine telefônica vermelha na frente), eu imaginava onde ia achar um curso de latim. Ou de grego. É tudo culpa das sensacionais histórias saídas da cachola desses antigos – eu sempre amei mitologia.

Me negava a fazer o presente da mamãe no pré
Ingressar na escola foi um exercício de controle do choro, porque eu demorei para acostumar a ficar longe da minha mãe. Quando finalmente aprendi a esquecer dela durante a tarde, eis que as professoras fazem questão de lembrar da mamãe com aquele monte de musiquinhas e a confecção de um presente (geralmente tosco, mas sempre capaz de emocionar) para a progenitora. Mandei todo mundo andar e não quis fazer nenhuma das atividades da semana das mães.

Jamais levei ponto ou usei gesso
Tá certo que eu quase ceguei o João ao inventar a emocionante brincadeira de corrida-com-obstáculos-de-almofada-ao-redor-da-cadeira-de-balanço. Como eu ia saber que o mocinho perderia o equilíbrio e cortaria a pestana na quina da cadeira? Mas a mim mesma nunca fiz nada. Sou virgem de ossos quebrados e costuras no corpo – até hoje.

Morria de medo da Nina Hagen
A extravagante cantora alemã esteve por essas bandas durante o primeiro Rock in Rio, em 1985. Uma das poucas coisas que me lembro do evento é da cara da infeliz, mostrando a língua e fazendo cara de brava para as câmeras de TV da janela do hotel (onde provavelmente estava o Supla, que ela amassou à época).

Colecionava nomes inventados
O móvel que eu mais gostei de ter em toda minha vida, além da beliche reversível em navio (por nossa própria conta e risco, claro, já que não passava de uma beliche normal), foi a escrivaninha da infância. Ela tinha duas gavetinhas suspensas e a da esquerda guardava uma coleção de nomes que eu mesma inventava. Era muito prático porque, ao escrever os protótipos de livros que eu fazia, bastava abrir a gaveta e sortear um nome para cada personagem ou local onde se passava a história.

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Como se não bastasse tudo isso,
ainda por cima eu era um bebê moicano
Clara McFly às 07:54 PM


Sofrimento sem razão

Corriam os famigerados anos 80 quando o SBT anunciou: colocaria no ar, tardão da noite, uma série “sucesso de público e crítica nos Estados Unidos”. Naquele tempo, eu ainda não sabia que a descrição podia ser usada para qualquer programa dos ianques, visto que eles engolem todo tipo de balela. Pois engoli também, e passei a assistir, escondido da mamãe, à misteriosa e sorumbática “Lacie”. Começava a entender ali como a televisão podia ser deprimente.

Nessa tele-série, o segredo era a chave do negócio. A propaganda só mostrava a tal da Lacie perguntando, entre soluços, “quem quer ser mãe de uma atriz pornô?”. Durante toda a programação de domingo, Seo Silvio só fazia enaltecer a série e dizer que era “uma história de intriga, poder, família... eu não vi, mas a minha filha número 123 garante que é sen-sa-cio-nal!”. Ai, minha curiosidade!

Bom, caí no conto e fui ver “Lacie”. Maldito dramalhão mexicano dos infernos! A menina nasceu sem programação, de uma mãe que morava em internato e teve caso escuso. Ninguém sabia se ela era a genitora mesmo ou sua amiga fiel. Lacie ficou perdidinha e virou atriz daqueles filminhos que todo mundo jura não ver. E daí, para curar o trauma de família desunida e problemática, foi um custo.

Tudo isso serviu para me mostrar que ver tv para se acabar em lágrimas é um comportamento estúpido. Passei, desde a meninice mesmo, a evitar séries chorosas e cheias de gente densa em excesso. “Barrados no Baile”, por exemplo, parecia divertido no começo, mas quando entraram os dramas sobre droga, bebida, doenças, perda de entes queridos, abdiquei.

Pode chamar de fútil, eu nem ligo. Quem gosta de chorar com este povo aí abaixo é doido. Eu até vejo, mas detesto...

Seventh Heaven
Pior do que drama familiar, só drama familiar carola. Tudo naquela turma recai sobre as escolhas religiosas do sujeito! Se a menina quer namorar, eles falam sobre Jesus. Se o filho decide sair de casa, eles falam sobre Jesus. Se a cadelinha apanha pulga, é hora de apelar para ver se Jesus salva. E dá-lhe discussões na cozinha e lição de moral.

Once and Again
Virgem santíssima: se divórcio deixa todo mundo aborrecido e alucinado assim, eu quero ficar casada para toda a eternidade. Não se tem notícia de casal que tenha tido tantas desilusões DEPOIS de finalizado o matrimônio. Duro é que nem mesmo os novos pares de Lily e Jake ajudam a aliviar os obstáculos. Se eu pudesse, dava cabo de toda aquela gente problemática!

Melrose Place
Assim como “Barrados...”, é mais um caso de série babaquinha e previsível que quis entortar para o lado negro da força televisiva. Todo mundo era descolado e malandrão, existiam os bonzinhos e os malvados. Depois quem era legal ficou asqueroso e quem era ruim, arregou. E tudo virou um grande poço de tristeza e melancolia sobre jovens intoxicados e perversos, capazes de roubar bebês da maternidade ou passar de mocinha gentil a viciada suja.

Felicity
É o evento máximo e pleno da depressão que pode tomar conta de um seriado. Num dia queria o aborrecido Ben, no outro queria o lerdo Noel. Numa semana, tencionava estudar medicina. Mais tarde, decidia ser artista plástica. Vai ver tinha ganhado mais ficando com um terceiro elemento, escolhido entre moços normais e com sangue correndo na veia, e decidido ser guia de turismo no Nepal. Eu sempre achei que o programa deveria mudar o nome pra “Chaticity”. De feliz, a menina não tinha é nada.

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Sorrir é um esforço para a "Chaticity"
Fla Wonka às 02:59 PM


Onde vende? Quanto custa?

Se eu fosse rica, rica mesmo, encheria minha casa de quinquilharias bacanas. Com certeza deixaria de gastar fortunas em um único carrão importado só para comprar alguns pequenos brinquedinhos caros que têm sido meus objetos de desejo. Antes, porém, precisaria achar outro apartamento mais condizente com esse monte de apetrechos que gostaria de ter. Mas no meu sonho de riqueza, isso não seria problema, né?

Nesse meu delírio divertido, poderia separar um quarto da bagunça. Ao invés do aposento conter livros empoeirados e bonecas sem braço e ser o ponto mais esquecido da casa, ele serviria de depósito das maravilhas que sempre quis ter...

Máquina de chiclete
Sabe aquelas máquinas redondas cheias de chicletes coloridos em forma de bola, cada um custando 25 centavos? Eu quero!

Jukebox
Pode ser da grandona com bolhas flutuantes quando ligada. Mas já me contentaria com aquelas de mesa, miúdas e graciosas.

Geladeira antiga
Essa tem que ser vermelha e nem precisa funcionar. Seria um ótimo porta-CDs e, na minha opinião, uma ótima maneira de gastar dinheiro.

Luminária de néon
Tá certo, sempre fui fissurada no troféu do “Viva a Noite”, que era uma lua de néon azul. É brega? É, não vou mentir pra você...

Globo de espelho de verdade
Eu tenho um mini-globo de espelho, mas queria mesmo aquele grandão. A sala pareceria uma casa de tolerância, mas quem se importa?

Torneira flutuante
Sabe aquela torneira que fica parada no ar mas mesmo assim jorra água num recipiente? Morro de vontade de saber qual é o truque!

Chapa para crepe
Crepes são minhas especialidades culinárias. Adoraria ter aquela chapa redonda própria para o quitute, com rodinho para espalhar a massa.

Uniforme de tenista e tênis de boliche
Uniformes são legais. Aquela saia plissada e branca de jogadora de tênis é linda. E sapatos de boliche sempre ficaram bem em mim.

Letreiro da Coca-Cola
Mostraria a todos o meu vício pelo líquido negro e espumante com um letreiro de bar da Coca-Cola do lado de fora da porta do apartamento.

Estojo de maquiagem profissional
Adoro maletas cheias de gavetinhas. E se cada uma delas vier com sombras de todas as cores do arco-íris, o que mais posso esperar?

Barbie "Bonequinha de Luxo"
Já passei da fase de brincar com Barbies. Agora gostaria mesmo é de colecioná-las! E o maior objeto de desejo nesse quesito é essa aí, ó:

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Onde vende? Quanto custa?
Vivi Griswold às 10:26 AM

terça-feira, 8 de junho de 2004

Quer ser meu irmão?

Eu sempre quis ter uma casa cheia de crianças. Meu pedido foi atendido tardiamente e de maneira meio torta: até os cinco anos, fui a única infanta da casa. Aí chegou o João. Depois de um tempo, quando eu contava 11 verões, ganhei a Regi, uma irmã que já era prima querida e veio morar com a gente. Achei que minha cota estava completa, mas quando meus pais decidiram seguir cada um para seu lado, mais dois presentes surgiram: a espevitada Lara e o bebê Gabriel, ambos do segundo casório do meu pai. Que felicidade! Aos 25 anos, meu desejo foi realizado. Assim, hoje, conto quatro irmãos – mesmo que morando em três lares, doces lares diferentes.

Mesmo com tanta variedade de gentes para dividir as coisas de irmãos – eles contam com idades que vão de pouco mais de um ano a quase 28 – ainda fico imaginando como seria ter mais parceiros de mãe, pai e bobagens. A cachola de parafusos meio soltos é especialmente estimulada diante da tela grande na sala escura. E toca a pensar como seria se eu tivesse um desses irmãos que ganharam vida no cinema.

Jeanie Bueller (Jennifer Grey)
A irmã mais velha de Ferris em “Curtindo a Vida Adoidado” era uma chata de galochas e nunca estava disposta a ser cúmplice dos planos do garoto. Mas ao fim e ao cabo, descobrimos que tudo o que ela precisava era de um pouco de amor – encontrado num alterado Charlie Sheen, no banco da delega.

Anita Miller (Zooey Deschanel)
Isso sim é que é irmã. Embora ela acabe saindo de casa logo no começo de “Quase Famosos”, Anita deixa uma coleção de LPs para seu mano. Assim, deu tempo de encaminhar o jovem William para o bom e velho rock’n’roll – para desespero da bacanérrima mãe da dupla, interpretada por Frances McDormand.

Brandon Walsh (Josh Brolin)
Homônimo do galã de “Barrados no Baile”, este Brandon segurou todas as barras do caçula Mickey e de seus amiguinhos (que bancaram os caçadores de tesouro) no inesquecível “Os Goonies”. O menor inclusive passou a perna no moço e beijou a garota por quem Brandon era apaixonado. Mas foi sem querer.

Comodus (Joaquin Phoenix)
Credo. Deus me livre de ter um irmão desses. Pervertido, esquisito e malvadão, o imperador de “Gladiador” vivia de olho no filho de sua irmã – com intenções não muito claras, mas sem dúvida das piores. Ainda por cima, o infiel matou o próprio pai. Um dos piores irmãos que eu já vi, tirando a dupla hors concours de “O Que Terá Acontecido a Baby Jane”.

Gertie (Drew Barrymore)
Simplesmente impagável, a garotinha de “ET – O Extraterrestre” tentou de tudo, mas não conseguiu guardar segredo sobre “o homem da lua”. Ainda bem que a mãe deles era bem distraída. Como se não bastasse, ela ainda é responsável por travestir o pobre do alienígena e fazê-lo usar um chapéu igual ao da Catifunda. É a melhor irmã que alguém pode querer!

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Quem resiste a uma fofura dessas
(a Gertie, não o ET)?


Clara McFly às 08:14 PM


Fama? Sério? Onde?

Segundo notícias quentinhas, parece que começou mais um reality show na Rede Globo. Voltou ao palco da observação indiscreta popular o tal de “Fama”, programa que visa levar ao estrelato um cantor anônimo qualquer. O que acho mais engraçado é que nenhum desses moços e moças vencedores de programas televisivos consegue o tão sonhado sucesso. Coitados, não vêem o óbvio.

A primeira edição do “Fama”, por exemplo: quem levou a melhor foi Vanessa Jackson. Você tem um CD dela? Conhece alguém que tem? Eu não, eu não. A garota, pelo que me lembro, tinha um belo vozeirão, mas não virou grande sensação na MPB. Nem chegou perto, eu diria. Hoje, soube pelos jornais, Vanessa rescindiu o já mirradinho contrato que tinha com uma gravadora e está “no mercado”.

O boom inicial de quem participa dessas empreitadas pode até ser rentável para o ego – mas não vejo durar. Mesmo no “American Idol”, o programa do gênero apresentado nos Estados Unidos, a coisa acontece de modo meio torto. Na segunda temporada do jogo, o ruivo magricela que ficou em segundo lugar vendeu muito mais discos que o rotundo rapaz vencedor. A América votou por um, mas comprou o CD do outro – e é bom esperar para ver se qualquer dos dois vinga na profissão. Público é um troço estranho.

Mesmo o segundo vencedor do “Fama”, aquele garoto simples que cantava imitando Djavan, não chegou a se dar lá muito bem. No fundo, parece que o programa alivia a rotina do pessoal e os faz abandonar por um tempo o banquinho e o violão alojados nos confins de um bar qualquer. Depois, volta o ritmo de cantar para casais que não estão ouvindo, só se agarrando entre uma caipirinha e outra.

Tenho impressão de que a fama não segue porque esse é um método muito artificial de se alçar alguém ao posto de celebridade. Ver o sujeito todos os dias na tv, chorando pela saudade da família ou rindo com os colegas de “experimento”, aproxima mesmo a massa do candidato a artista. Mas um cantor consagrado, parece, se faz pelas mãos do talento genuíno, não por ligações telefônicas – aquelas que consomem “27 centavos mais impostos”.

Pior ainda do que os votos de telefone são as considerações entre “especialistas”. No “American Idol”, eles são Randy Jackson, um produtor musical que trabalha com tipos feito Mariah Carey e Whitney Houston (então já se pode sentir os critérios do cidadão), Simon Cowell, sabe-tudo inglês com vocação para esculhambar competidores e... a Paula Abdul! Sim, ela mesma! A senhorita “Rush Rush” pode ser dona de bela técnica vocal, mas está ali só para enfeitar. Como levar a sério, desse modo, os “abalizados jurados”?

Se eu tivesse algum talento para cantar, fugiria desses concursos como o diabo da cruz. Parece que, na sanha de virar celebridade, ninguém nota a terrível maldição que se abate sobre os participantes, sejam eles vencedores ou não. Não dou, aliás, mais um ano para os grupelhos Rouge e Br’Oz quebrarem – sendo que, daí, a turma precisará voltar a tocar em churrascaria. E será triste quando descobrirem que o artigo mais esperado da casa não são eles, mas a picanha mal-passada.

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Este é o rapaz vencedor do Fama 2...
Lembra? Duvido
Fla Wonka às 02:39 PM


Mini me

Quando eu era criança, minha mãe cantarolava a singela canção "Menininha", do Toquinho, para eu dormir. A letra é uma fofura sem fim e diz "Menininha do meu coração/ Eu só quero você a três palmos do chão/ Menininha não cresça mais não/ Fique pequenininha/ Na minha canção". Parece mesmo que o desejo mais comum dos pais é idealizar um filho sempre miúdo – o problema é que os meus tiveram o desejo atendido.

Pois além de ser magrela, eu sempre fui baixinha. Quando estava na pré-escola era tarefa minha puxar a fila para entrar na sala de aula, uma vez que a dita cuja era organizada por ordem de tamanho. Também passei diversos anos sentando na frente na classe. Por conta disso, acabava virando a queridinha da professora, que via em mim alguma espécie de aluna-bonsai capaz de despertar sentimentos bobos e cuti-cutis.

Enquanto o corpo docente me mimava, os colegas avacalhavam. Já ouvi todos aqueles chavões relativos à pouca altura como pintora de rodapé e motorista de Autorama. Por ter passado a infância nos anos 80, os apelidos mais comuns da época eram "Adelaide" (por conta da música do grupo Inimigos do Rei) e "Fofolete", aquelas bonequinhas que vinham em uma caixa de fósforo.

Mas eu também aprendi a falar muitos chavões: "é nos menores frascos que estão os melhores perfumes" sempre foi um deles. Não sei se isso é verdade, mas a criançada ficava boquiaberta com minha frase-fatal. Depois de alguns anos, troquei o termo melhores perfumes por mais perigosos venenos e a coisa ficou ainda mais fatal.

Até que cheguei a nutrir alguma expectativa de crescer mais alguns 10 centímetros, ainda mais porque sempre me diziam que meninas crescem até o primeiro ciclo menstrual começar. Quando o meu começou, aos 13 anos, perdi a esperança de chegar até a marca do metro e sessenta. Parei dois centímetros atrás disso. Mas... quem liga?

Afinal, nunca vi problema algum em ser pequenina. Acho podre de chique ser chamada de mignon e adoro poder comprar roupas e sapatos na seção infantil – cá entre nós, artigos do gênero têm muito mais a ver comigo do que as vestimentas de mulheres maduras. E ainda posso usar saia plissada e sapato de boneca sem parecer uma meninona que não reparou que cresceu. Não é legal?

Na semana passada, cheguei ainda mais perto da casa dos 30. Sinceramente, isso para mim é apenas um número. Porque eu continuo sendo uma garotinha não só no espírito, mas na embalagem também. Então vai demorar bastante para eu começar a me preocupar com idade. Tenho de confessar, porém, que às vezes fico um pouco de saco cheio por ser tratada como alguém de 15 anos.

Outro dia, por exemplo, fui com alguns amigos a jabá da empresa do namorido. Era um show aqui em São Paulo, e tínhamos o direito de entrar gratuitamente, assistir ao espetáculo de um local privilegiado e ainda beber o que quiséssemos sem pagar. Quando nos aproximamos da promoter para ela nos mostrar nosso lugar, a mulher delicadamente olhou para mim e perguntou se todos eram "de maior". Detalhe: eu era a mais velha do grupo.

O engraçado é que não me bastou ser magrela e baixa, mas também tinha de carregar uma voz de menininha. Ainda bem, pois seria pior se tivesse um timbre de trovão, pouco condizente com minha situação corporal. Mas situações comicamente desagradáveis acabam acontecendo por conta disso. Semana passada, me ligou a maldita Telefonica para oferecer sei-lá-o-quê. A atendente quis saber se o dono da linha estava em casa. Respondi que não. Daí a moça perguntou "e a mamãe, está?".

Vivi Griswold às 10:02 AM

segunda-feira, 7 de junho de 2004

Eu uso óculos

Quando eu estava para fazer 12 anos, falei para minha mãe que tinha alguma coisa estranha na maneira que eu via o mundo. Não, eu não estava fazendo nenhuma reflexão filosófica, tampouco me conscientizando de algum desvio de personalidade. Simplesmente eu não estava enxergando direito.

Eu disse à sapientíssima dona Sandra que, se as coisas todas do mundo tivessem uma estrutura igual à das células que eu tinha acabado de aprender na escola, com a membrana segurando o citoplasma, parecia que as cores e formas estavam vazando pela tal membrana e se difundindo por aí. Ela olhou para mim e vaticinou: “você tem miopia”.

A princípio, achei superlegal. Quando a gente é pequeno, pipocam na nossa mente idéias estúpidas como “deve ser legal usar óculos”, “deve ser legal usar aparelho” e “acho que minha mãe não vai perceber se eu jogar meu irmão privada abaixo”. Pois eu sonhava usar as armações preenchidas por uma lente de vidro, igual eu vira meu pai portar tanto tempo. E fui para a consulta no oftalmo toda feliz.

Chegando lá, ele confirmou as suspeitas da mamãe e disse que eu tinha meio grau numa vista e 0.75 noutra, mas meus primeiros óculos contariam só com 0.25 grau em cada olho, para ir acostumando. Logo ele aumentaria a receita, mas eu podia ficar tranqüila, que a miopia ia estabilizar lá para os 18 anos e eu poderia operar.

Pensei comigo que jamais ia deixar alguém cortar meu olho, feito meu pai deixou, e além do mais eu nunca ia cansar de usar meus tão aguardados óculos, puxa! Mas apenas sorri e acenei com a cabeça. Ele não ia entender como eu achava legal ter aquele acessório no rosto...

Pois bem. Dali, fomos à ótica e escolhi uma armação meio cor-de-rosa. Não via a hora de ficar pronto e até me decepcionei ao descobrir que teria de voltar dali a alguns dias para buscar meu objeto do desejo. Esperei pacientemente e, na semana seguinte, tchanam!, saí da loja com outra cara, toda feliz.

A história (e meu humor para com os óculos) mudaram não muito tempo depois, quando meu grau de miopia continuou subindo muito rápido e eu percebi o quão chato era ir à praia, coisa que sempre adorei e fazia religiosamente, usando óculos.

Para entrar na água, eu tinha de deixar meu acessório (cujas lentes já estavam turvas da areia) na esteira. O problema era, na volta do banho, achar o danado do meu guarda-sol num mar de cores e formatos diversos e misturados. Com tamanha cegueira, nem a barraca de sucos e raspadinha servia de referência, já que nem isso eu enxergava.

A solução era mergulhar segurando os óculos, tarefa nada agradável – especialmente para os óculos, que começavam a mostrar sinais de bolor logo depois (é impossível secar aqueles microparafusos que seguram as pernas do objeto, droga!).

Some-se a isso a entrada no perigoso terreno da adolescência (que chegou junto com a necessidade de adotar outro de meus acessórios do desejo infantis, aparelhos dentários), e voilà: ali estava uma adolescente insegura que decidiu se livrar do incômodo trambolho que lhe enfeitava (ou enfeiava, achava eu) a cara. Decidi usar lentes de contato.

Bendita hora! Depois de dois anos, descobri o maravilhoso mundo dos 100% de correção (inclusive a visão periférica, que os óculos não consertam) e passei a enxergar de novo meu guarda-sol e encontrar o caminho certo da volta, sem fazer cara de fuinha, quando dava uma chegada até o mar.

O médico, já outro, disse que as lentes ajudariam a brecar a vertiginosa ascensão da minha miopia. Pffff. Uso lentes há doze anos, revezadas com os óculos (que me acompanham há catorze), e contabilizo a sensacional marca de seis graus em cada olho – aparentemente, sem previsão de estagnar. Vai ver os oftalmos mentem. Ou aquele provérbio que diz para tomar cuidado com o que a gente deseja, pois pode virar realidade, é mais verdadeiro do que eu imaginava.

Clara McFly às 06:48 PM


Adivinhação casamenteira

Que estudar, que nada! Na escola, antigamente, a gente queria mais é diversão. Claro, tinha a hora de fazer as tais análise sintática e regra de três. Mas entre uma avaliação lingüística e um cálculo encardido, havia muito tempo para brincar de adivinhar o futuro. Meninas adoravam isso, e garotos não ficavam muito atrás. Com quantos anos você ia casar, onde passaria a lua-de-mel, que carro teria a família?

Se tivesse mais recursos de Photoshop aqui (ou ao menos um Paintbrush decente), faria até um esqueminha para lembrar aos amados leitores como ocorria aquele jogo. É fácil, porém, explicar a invenção escolar. Primeiro, era preciso pegar uma folha de papel e desenhar um quadrado. Daí, fazíamos três riscos de cada lado. No centro, entrava a idade com a qual você ia querer casar. Adendo: toda a molecada colocava números entre 18 e 22 anos. Há! Mal sabíamos que contrair matrimônio, nessa faixa etária, só para quem acelerasse o “processo bebê”.

As riscas laterais serviam para colocar, de um lado, o local preferido para a viagem de núpcias, e de outro, o carro que o adorável casal teria. Logo abaixo, em outro risquinhos, ficavam as três opções para saber se o cliente da brincadeira seria pobre, rico ou milionário. Ninguém considerava a possibilidade de ser classe média, gozado...

O futuro era descrito matematicamente: usando a idade do casamento, bastava contar cada item acoplado no quadrado, e daí cortar aquele onde parasse a contagem. Eliminando duas possibilidades em três, tinha-se um panorama perfeito! Com pequenas variações, as opções escritas no papel eram sempre as mesmas. Aposto que vocês também escreviam – ou escreveriam – isso na folha da previsão.

Carros
Monza e Escort XR3 eram figurinhas carimbadas na jogada. A terceira opção podia ser o Santana Executivo. Nunca entendi muito bem aquela predileção por carros de velho entre crianças de 8, 9 anos... Entre os meus escolhidos sempre estavam um Fiat 147 ou uma picape Saveiro. Vai ver eu tinha espírito de pobre. Mas só para carangos!

Viagem
Neste quesito, eu esnobava muito mais do que com os possantes. Todos os coleguinhas escolhiam Miami, Nordeste e Havaí para a sonhada lua-de-mel. Não eu: cedo na vida tinha ouvido falar numa tal de Roma, e ela era sempre incluída na brincadeira. Para completar, Fernando de Noronha (deixar um destino brasileiro de fora era coisa de gente metida) e Suécia. É que meu pai morou lá por uns meses durante minha meninice. Ficou grudado na memória e no jogo de adivinhar. Ah, e eu ia mesmo gostar de passar lua-de-mel em Estocolmo, por que não?

Questão financeira
Confesso que cheguei a roubar na contagem algumas vezes para me fazer de futura milionária. Poxa, não faria sentido escolher passar lua-de-mel em um local paradisíaco e depois se descobrir... pobre! Tem dó. Quem precisaria de uma previsão boba assim?

Minutos depois do jogo finalizado, já daria para saber que Fulaninha seria uma feliz moça rica, casaria aos 20 anos, viajaria para curtir Epcot Center como o marido e, na volta, teria um sedã parado na garagem. Simplista? Bom, era muito mais urgente saber de tudo isso aos 9 anos do que entender o que era verbo intransitivo.

Fla Wonka às 01:50 PM


Obra-prima em movimento

Qual a tempestade de sentimentos que esconde uma das pinturas mais intrigantes da história da arte? O que passava pela mente do pintor a cada pincelada que ele dava na tela? E o que o olhar misterioso da jovem tentou passar no momento do retrato? O filme “Moça com Brinco de Pérola” tenta responder a essas perguntas ao mostrar uma história fictícia (ainda assim, bem plausível) que resultou na obra que dá nome à produção.

Tudo o que se sabe a respeito do quadro “Moça com Brinco de Pérola” é que ele foi pintado pelo holandês Johannes Vermeer por volta de 1665. O resto é especulação. Como Vermeer gostava muito mais de retratar a criadagem do que a nata da sociedade de seu país – e como as vestes da modelo são humildes –, estima-se que a garota seja mesmo uma empregada. Não se pode, contudo, ir mais longe nas inexistentes provas históricas. Todo esse mistério, somado à admiração causada pela obra, conferiu a ela o apelido de “a Mona Lisa holandesa”.

Em um momento de angústia literária, a escritora americana Tracy Chevalier estava deitada na cama buscando inspiração para um próximo livro. Foi quando ela fixou o olhar no pôster da obra-prima de Vermeer, que enfeita a parede de seu quarto desde os 19 anos de idade. Ela começou a se fazer todas aquelas perguntas do primeiro parágrafo e escreveu o livro em três dias. Hoje, é possível assistir à história através de uma tela bem maior do que a do pintor.

“Moça com Brinco de Pérola”, o filme, conta um pouco sobre Griet (Scarlett Johansson), uma jovem criada protestante que vai trabalhar na casa de uma família católica composta por Vermeer (Colin Firth), sua esposa Catharina, sua sogra Maria e mais um punhado de filhos mimados e chorosos. Entre descascar cebolas, buscar carne no açougue e servir à mesa, é tarefa de Griet limpar o estúdio do pintor.

A moça, apesar de analfabeta, sabia muito bem apreciar uma obra de arte. Fascinada pelos trabalhos de Vermeer nos cantos do aposento e preocupada inclusive se deveria ou não limpar as vidraças e alterar a luz que entrava por elas, Griet acaba envolvida em um amor platônico pelo artista, que não faz questão alguma de inibir as esperanças da garota. Pelo contrário: a faz dormir no estúdio, ensina-lhe misturar as tintas e, por fim, acaba convidando-a para posar.

A partir desse ponto começa uma tensão sexual que dá para cortar com a faca. Mais do que uma história de desejo contido, o filme mostra que não é preciso ter uma loira sem calcinha cruzando as pernas ou produtos alimentícios sendo deslizados por corpos nus para mostrar o que é erotismo. Entre Griet e Vermeer não há um beijo sequer, e nenhuma parte do corpo da garota é mostrada. Contudo, o que dizer do momento em que ele a vê de cabelos soltos? Ou quando ele pede a ela para molhar os lábios? Ou, principalmente, quando ele fura a orelha da pobre para colocar o tal brinco de pérola? Afe.

É possível entender muito bem, portanto, quando Griet vê pela primeira vez seu rosto desenhado e diz a Vermeer “Você olhou dentro de mim”. E posteriormente, quando a ciumenta Catharina consegue obrigar o marido a mostrar-lhe o quadro, apesar dos apelos do pintor e de sua mãe, e começa a chorar dizendo que ele é “obsceno”. Há muito além de um simples rosto angelical de uma jovem.

Com uma honrosa indicação ao Oscar de melhor fotografia (perdeu para “O Retorno do Rei”), “Moça com Brinco de Pérola” é um filme lindo – literalmente. Cada cena é uma pintura. E, por fim, quando o quadro real enche a telona do cinema, dá vontade de assistir tudo de novo.

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Vivi Griswold às 10:18 AM

sexta-feira, 4 de junho de 2004

Tirem-me desse congelador!

Diz a Mirtes que "Deus escreve certo por linhas tortas". Pois quer saber? Ela está coberta de razão. Pelo menos no que diz respeito ao lugar onde nasci. Afinal, nada melhor que um país tropical para alguém que, como eu, não suporta ficar batendo o queixo nesses dias de temperaturas nada amenas…

É. Ao contrário dos outros dois terços responsáveis por este sítio, eu odeio o frio. Nada me acabrunha mais que temperaturas abaixo de 25ºC – sim, como se não bastasse detestar o clima gelado, minha definição de "clima gelado" ainda é bem severa: qualquer marca abaixo dos 25 já me faz apanhar um casaquinho.

Eu achava que o problema eram as parcas reservas de gordura que forram meu corpinho. Mas quando conheci Vivi, essa amante dos ventos friorentos igualmente magrela, descartei a hipótese. Talvez a culpa dessa minha aversão seja simplesmente ser afeita ao calorão desde pequenininha, quando passava dois meses por ano na praia.

Nada me desanima mais que ver a previsão do tempo no telejornal e notar que os números impressos sobre a região de São Paulo contam com apenas um caractere – ou dois, mas mais próximos do 10 que do 20. Quando isso acontece, já sei que o dia seguinte vai ser duro.

Vou acordar e demorar mais que os quarenta minutos habituais para conseguir me descolar da cama. Quando o fizer, a primeira rajada de vento que passa pela janela vai me atingir de pijamas e me deixar triste (não tem como já pular da cama de capote e cachecol, certo?).

Depois, toca a esperar a água da torneira esquentar e, se não tiver paciência, a solução é lavar só o cantinho dos olhos (podem me chamar de porca). Para escovar os dentes, saco da canequinha (assim não tenho de pôr a mão naquela água aparentemente vinda direto do Himalaia).

Além do mais, não dá para ser chique no inverno – pelo menos não para mim. Um belo casaco comprido e um par de botas (que seriam uma combinação bacana) nunca são suficientes. Diante do armário, desenterro toda e qualquer blusa que for possível – e rápido, para não ficar passando frio.

Sem tempo para combinar e no afã de garantir o calor corporal, o resultado é quase sempre um modelito bóia-fria, cheio de sobreposições às vezes esdrúxulas. O superagasalhamento ainda traz um efeito colateral: com uns cinco centímetros de largura a mais, passo esbarrando e derrubando tudo que estiver pela frente, já que perco a noção dos meus limites reais.

Não que o inverno (ou o outono disfarçado de tal, como os últimos dias aqui em São Paulo) não tenha coisas boas. Claro que tem: fazer fondue, ir a festas juninas e dormir. Pena que não dá para passar o mês inteiro só fazendo isso. Portanto, quando os primeiros dias de frio chegam, até que curto o clima por uns… dois dias. Depois, começo a contar o tempo para o verão voltar.

Pensando bem, se fosse para o Hômi acertar mesmo, eu teria nascido no Senegal. Mas não ter nascido no Alasca já foi um bom começo.

Clara McFly às 07:53 PM


Covardia mitológica

Desde pequena, sou fã das lendas gregas e romanas. São contos vibrantes, com pessoas de gênio muito ruim ou muito bom, sempre prontas a nos dar uma bela lição de moral – ou, no mínimo, de insinuar que toda ação traz uma reação. O cinema e a televisão se beneficiam da mitologia quase anualmente, para meu desespero. Porque existem três personagens que, ainda hoje, têm o poder de me fazer esconder a cara sob o cobertor.

Nem a diversão juvenil que englobava Pedrinho, Narizinho e companhia foi poupada de receber seu quinhão mitológico. Aliás, mais de uma vez, porque eu me lembro que até o Hércules já apareceu pelas bandas do sítio de Dona Benta. Se tivesse sido só ele, estaria bom. Porque um fortão meio bobo destacado para fazer 12 trabalhos, eu encaro. Já com o colega dele que envergava a cabeça de vaca, não havia sangue frio suficiente para agüentar...

Nem ele, nem seus dois amigos cinematográficos. Estes provocam medo transcendental nessa pobre garota crédula de lendas.

O Minotauro do “Sítio do Pica-Pau Amarelo”
Nunca soube de quem era o corpanzil bronzeado por baixo da criatura metade homem, metade touro. Nem quero saber! Só de olhar a figura com cabeçona e chifres, parecendo um demoníaco integrante do Village People, ficava apavorada. A Cuca me causava um certo medinho, mas era uma apresentadora de programa infantil perto do Minotauro! Não sei por que Seo Monteiro Lobato decidiu colocar no Sítio a lenda de Teseu, o rapaz sabido que entrou no labirinto da besta marcando o caminho. Mas ficou ótimo, de fato. Ótimo para ter pesadelos.

O Ciclope de “Sinbad e a Princesa”
Recentemente, consegui rever essa pérola na televisão. Acreditam que, mesmo depois de achar que era temor superado e de escrever este texto aqui, eu ainda fiquei ressabiada? Poxa, o Ciclope era raivoso demais – mesmo se movendo com a desenvoltura de um G.I.Joe enferrujado. Na cena derradeira do monstro, o bravo Sinbad enfia uma tocha no olho do bichão e depois o empurra num precipício. Confesso que nem deu pena, viu? Morreu, morreu... antes o Ciclope do que eu.

A Medusa de “As Sete Caras do Dr. Lao”
Tudo naquele filme era meio esquisito – principalmente a recente descoberta de que o Dr. Lao não era chinês coisa nenhuma. Mas a cena da Medusa, a mulher com cabeleira composta por cobras, era capaz de me fazer suar frio. Primeiro, porque tenho medo visceral de serpentes (e fico imaginando quanto tempo levaria para enfartar se visse alguém com essas criaturas nojentas vivendo no cocuruto... Talvez uns 4 segundos). Depois, porque não era nada saudável olhar para ela, ou o sujeito viraria estátua de pedra, mesmo com a monstrenga já abatida. A dona Medusa era problema até depois de morta. Isso era motivo para te deixar com medo? Para mim, ainda é.

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Procurar essa imagem já foi tortura, acreditem!
Fla Wonka às 02:21 PM


Desabafos de uma consumidora comum

Eu odeio lojas com vendedoras. Coitadas, nunca fui destratada por nenhuma profissional do ramo. Mas o fato é que eu as odeio – não as vendedoras, mas as lojas. Dificilmente entro em algum estabelecimento comercial que tenha uma equipe pronta para atacar a próxima vítima, ups, cliente. Fujo mesmo. Se vejo algo realmente interessante na vitrine, porém, tento ter o cuidado de não ser a única provável compradora no interior do recinto.

Há algo pior do que lojas com vendedoras? Sim: lojas vazias com vendedoras. Daí as pobrezinhas se estapeiam pelo cliente como se ele fosse o último brigadeiro em festa infantil com pouca comida. E não é bom você se sentir um brigadeiro. A culpa, é claro, não é das moças. Mas dos gerentes que as fazem ganhar por comissão e devem obrigá-las a sessões com o vídeo "Como Pegar No Pé De Um Cliente Até Vencê-lo Pelo Cansaço – Volume I".

Acontece que eu também tenho uma parte de culpa. Meu problema? Sou boazinha. Não tenho cara de fazer a moça desmontar a loja toda e não levar nada. Ou de perguntar o preço de tudo e depois aplicar aquele eufemismo "hmm, obrigada, qualquer coisa eu volto", e não voltar nunca. E depois passar na frente do lugar e vê-la com olhos marejados feito cachorrinho abandonado. Tá, essa parte é invenção da minha cabeça. Viu como sou boazinha demais?

Só não me compadeço pelas vendedoras da Hering. Essas sim, decoraram o maldito vídeo – e não só o Volume I, mas todos eles. Fico me sentindo naquele antigo quadro do Faustão que mostrava mímicos de rabo-de-cavalo e nariz de palhaço seguindo as pessoas na rua a um palmo de distância. Não há nada mais irritante do que ser vigiada por uma moça sorridente enquanto passeio entre camisetas básicas de algodão que custam 30 reais cada. Daí é muito para a minha cabeça.

Portanto, prefiro aquelas grandes lojas em que posso olhar tudo sem pressa, experimentar o que me der na telha, dizer que não serviu, mudar de idéia, experimentar de novo, sair, voltar, etc. Não gosto de ter pressa de comprar, nem gosto de pressão. O drama é que eu sou meio compulsiva e tenho de lutar contra isso diariamente. Meu mantra primordial é "eu realmente preciso disso?". Só me esqueço dele quando é liquidação da Zara e minha conta bancária está cheia – mas tudo bem, porque tal encontro acontece apenas a cada 76 anos, como a passagem do cometa Halley.

Voltando às lojas sem vendedoras, aqueles oásis de compra. Oásis? Nem tanto. Digamos que eu esteja olhando tudo na maior liberdade e que eu tenha entrado no provador com 50 peças e saído apenas com um par de meias. Mais cedo ou mais tarde, uma temível espécie vai se aproximar. Ela é sempre a funcionária mais bonita, mais bem-vestida, mais perfumada e mais maquiada de todas, sempre segurando uma prancheta. Ela chega e pergunta com voz doce "boa tarde, já possui o nosso cartão?".

No começo, eu respondia que não. Daí, vinha um lero-lero de quinze minutos sobre todas as maravilhosas e estupendas vantagens de se possuir um cartão da loja – graciosamente escondendo o fato de que o cliente precisa ir até o estabelecimento para pagar a fatura do maldito todo o mês, em plena era da Internet. Quando eu dizia isso a elas, recebia como resposta "ah, mas você ganha desconto de 10% a cada compra...". Minha filha, eu prefiro pagar 10% a mais só para ficar em casa ao invés de ir numa loja saldar dívida de roupa.

Após algumas situações irritantes como essa, aprendi a dizer "eu já tenho o cartão, é jóia!" com um sorriso de canto a canto. Na hora do caixa, contudo, não dá para mentir. E lá vem a nova funcionária querendo saber como, COMO eu consigo sobreviver sem aquele pedaço de plástico.

– A senhora não quer fazer? É rapidinho.
– Não, obrigada.
– A senhora só precisa de um CPF.
– Não quero, obrigada.
– A senhora pode parcelar suas compras até 70 vezes.
– Mas eu estou comprando apenas uma camiseta de 10 reais.
– Mas a senhora pode voltar e fazer uma compra maior depois.
– Não, não posso. E não quero voltar na loja para pagar a fatura.
– Mas é rapidinho, quase não tem fila no crediário!
– Não quero mesmo, obrigada.
– Olha lá, a senhora está perdendo uma oportunidade de ouro!
– Não, não estou.

E, se você continuar, vou tampar os ouvidos e cantar bem alto lalalalalala.

Vivi Griswold às 09:45 AM

quinta-feira, 3 de junho de 2004

Choro, não nego…

… páro quando puder!

Uau! O monte de gente lá no Fórum abrindo o coração sobre os momentos que os fazem, hum, abrir a torneirinha me inspirou a continuar o assunto. Já que somos quase todos chorões assumidos - e realmente não há mal algum nisso - hoje disparo a listinha de outro tipo de coisa que me faz chorar: livros.

Não sei se estou sozinha nesse universo de leitores lacrimosos. Considerando que o cinema atinge muito mais gente do que a literatura, há que se dar um desconto proporcional. Além disso, o impacto visual da sétima arte é capaz de envolver mais facilmente os incautos espectadores e os desavisados que adentram a salona sem lenços à tiracolo.

Mas a mágica que há a respeito de calhamaços de papel salpicados de letrinhas impressas é justamente essa: você imagina dali o mundo que quiser. A mocinha tem a cara e as expressões que sua massa cinzenta mandar, e não o náipe das estrelas de Hollywood.

O vilão pode meter mais medo como você o fez em pensamento do que se viesse na pele do Christopher Walken ou o Gary Oldman (já falei que, se topo com um desses dois na rua, corro três dias e três noites sem olhar para trás?).

As paisagens, cidades e descampados são ainda mais maravilhosos que as montanhas geladas da Nova Zelândia (que parecem sorvete de flocos) adaptadas para servirem de Terra Média no sensacional "Senhor dos Anéis".

Conseqüentemente, as mazelas e os dramas dos personagens também caem como uma luva no que você imagina de mais triste no mundo. Por isso (e não riam), choro toda vez que leio…

Mrs. Dalloway
Descobri o livro por acaso, quando pesquisava sobre meu nome. A protagonista é minha xará, mas vive na Inglaterra pós-Primeira Guerra. Da primeira vez que o peguei, encalhei nas primeiras vinte páginas. Dei um tempo e naturalmente chegou a hora certa de devorar a obra-prima de Virginia Woolf: ao fim e ao cabo, eu me pegava economizando as páginas derradeiras para que aquilo não acabasse. E o reencontro de todos os amigos de juventude na festa de Clarissa me levou às lágrimas.

Flicts
Acho que eu já disse que esse livro foi responsável por várias lagriminhas vertidas às escondidas pelos cantos da minha casa de infância. Ganhei do meu pai e minha mãe o leu para mim da primeira vez. Disfarcei o choro depois de ouvir a poética história do Ziraldo sobre uma cor que não era aceita em lugar nenhum. Mesmo com o final reconfortante, reli várias vezes me desaguando a cada uma delas.

As Brumas de Avalon
Ok, eu sei que os quatro volumes saídos da pena de Marion Zimmer Bradley não são exatamente um primor da literatura… Mas eu não tenho preconceitos e leio tudo que me cai às mãos - até rótulo de xampu (já notaram que todos eles têm um tal de "lauril éter sulfato"? E corante "amarelo alimento"?). Enfim. A saga do Rei Arthur contada pela visão das mulheres, sempre coadjuvantes, malvadas ou fazedoras de filhos nas outras versões da história, me deixou profundamente tocada.

Paula
Ao descobrir que a filha Paula era portadora de uma doença degenerativa, Isabel Allende montou guarda no hospital ao lado da cria e só saiu de lá quando a moça encontrou o inevitável descanso. Enquanto assistia sua filha morrer, ela escreveu a história da garota mesclada a uma pequena saga da família. Impossível ficar alheio à emoção de uma mãe que se vê nessa situação – e mesmo carregado de tristeza, o livro tem passagens belíssimas.

Lolita
Esse é o número um. Infelizmente, o tema polêmico da história acabou por encobrir o talento de Vladimir Nabokov para a prosa poética, sem ser piegas. Biscoito finíssimo de se devorar, o livro conta a trajetória irremediavelmente trágica de Humbert – professor de meia-idade apaixonado pela ninfeta (termo cunhado pelo autor) que dá nome à obra. Não é só um homem meio torto das idéias perdido de amores por uma garotinha. É mais que isso. É uma história que foi capaz de me deixar baqueada por uns dois meses. E é o livro com as frases finais mais bonitas que eu já vi.

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Bonito, hein, sêo Vladimir?
60 dias de choradeira por sua causa!


Clara McFly às 07:42 PM


Injustiça ao nascer da tarde

No meu tempo de garotinha, a Sessão da Tarde era a hora feliz do dia. Eu já era parada por cinema, ainda mais por filmes bobocas, previsíveis e de final feliz – típicos da programação vespertina. Dia de “Curtindo a Vida Adoidado” ou “Férias Frustradas” era para se acompanhar com amigos convocados na rua, pipoca e Tang. Quando às demais produções, eu apreciava sozinha. E, mesmo não sempre aqueles que ficaram marcados como clássicos, eu apreciava demais!

Tinham atores quase tão bons quanto Chevy Chase. Tinham roteiros quase tão bacanas quando o “day off” de Ferris Bueller. Não foram capazes de ganhar fama continental, porém. Tremenda injustiça! O que podia ser mais surpreendente do que conhecer os anos dourados de um lendário detetive?

Estes ficaram em segundo plano para muitos, mas não aqui no meu coraçãozinho.

Academia de Gênios
Val Kilmer nunca mais me pareceu tão engraçado como ao interpretar um aluno crânio mas arruaceiro. Ele usava pantufas de coelhinho na aula. Congelou o corredor da faculdade para brincar de patinação. Fez o amigo nerd entrar no esquema e ajudá-lo a pentelhar um professor chatola – inclusive lotando a casa do cidadão de pipoca. Toda a história era amarrada por um laser que poderia destruir alvos do espaço. Bem sacado!

Te Pego Lá Fora
Um dos roteiros mais incríveis de telefilmes. Jerry teria um dia comum no colegial, mas a chegada de um aluno com espírito de gângster entorna tudo. Buddy Revell não permite que ninguém toque nele – e já quebrou muita gente por fazer isso. Adivinha o que Jerry faz? Pois é: depois disso, o meliante quer esmurrá-lo na saída, às 15h00 em ponto. E ele ainda acaba se enrolando mais ao tentar pagar um brutamontes para acabar com Revell. Chega a dar angústia, de tanto dó do nerdíssimo rapaz.

Caravana da Coragem
Tudo bem, era mesmo uma babaquice sem fim... Vivi já falou sobre isso e eu até concordo: se fosse para fazer franquia de “Guerra nas Estrelas”, que George Lucas tivesse criado uma história como “Chewbacca Vai à Praia”, sei lá. Mas confesso que achava bonitinho ver os Ewoks ajudando os irmãos a reencontrar a família! Pior é que dava medo daquele monstro, o tal de Gorax, que mais parecia um travesti gigante e enfurecido.

Alguém Muito Especial
Ficou faltando só um dedinho para ser uma comédia romântica tão encantadora quanto “Namorada de Aluguel” e tão engraçada quanto “Admiradora Secreta”. E olha que contava com Eric “A Mosca” Stoltz e Lea “Loraine McFly” Thompson. Tratava-se da mesma história de sempre: bobalhão é louco pela menina mais popular da escola, dá um jeito dela ficar afim também, mas não percebe que seu verdadeiro amor é a amiga fiel. Por que essas histórias sempre me pegam, hein?

O Enigma da Pirâmide
Sabe-se lá por que, a tradução preferiu não seguir o pé da letra e ignorar o título “O Jovem Sherlock Holmes”. Seria bom entender, de princípio, que o filme versa sobre o mais famoso detetive da literatura – ainda em fase juvenil, mas já metidão quanto às suas habilidades. O que me lembro bem é dos efeitos especiais (para a época) espetaculares, como na cena em que Watson delira depois de picado com veneno: doce e bolinhos malignos se atiram na boca do rechonchudo garoto até dizer chega! Rendia puro pavor e entrou para a história – ao menos para os meus anos de Sessão da Tarde.

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Holmes e Watson eram reis nas minhas tardes
Fla Wonka às 01:43 PM


Punhado de felicidade crocante

O primeiro obstáculo é conseguir abrir o pacotinho: um movimento brusco demais pode ocasionar perda considerável de conteúdo pelo chão, o que fará você ficar ainda mais indignado ao constatar que a embalagem já vem pela metade desde o mercado. Após passar essa perigosa fase, porém, um mundo de delícias viciantes se descortina na sua frente.

Comer salgadinhos é saber que você está enviando para seu organismo um produto duvidoso por princípio. É ficar com uma sede dos infernos nos primeiros exemplares degustados. É engordurar os dedos de tal forma que nem detergente industrial resolve. Mas, quando bate aquela fome no meio da tarde... O que você procura no armário da cozinha?

Aposto que é alguma dessas opções abaixo...

10) Palitos Salgados
O nome já é auto-explicativo: os palitinhos crocantes envoltos por sal grosso são uma verdadeira perdição. O legal é ir dando abocanhadas pequenas e consecutivas até o fim do palito. Ou ficar chupando o sal por algum tempo. Tá certo: admito que adoro brincar com comida. Mas ei, isso não é considerado comida, é?

9) Cebolitos
É um dos salgadinhos da minha infância: abrir a embalagem é sentir o cheirinho de ônibus de excursão de escola. O Cebolitos andou sumido por alguns anos, mas agora retornou das cinzas – só se forem cinzas, porque de cebola é só o cheiro – e voltou a alegrar meus ataques à gôndola de guloseimas do mercado.

8) Ebicen camarão
Se é para ser trash, que seja em grande estilo! Ou vai me dizer que Ebicen sabor CAMARÃO não é trash? Era um dos produtos do merchandising do Bozo, céus! De qualquer maneira, viciei. E, enquanto saboreio aquele gosto estranho, ainda posso ficar dando risada dos desenhos do saquinho! Repare no "vovô", em especial.

7) Doritos queijo nachos
Quando o Doritos foi lançado aqui no Brasil, eu contava uns dez anos de idade. Após experimentar a novidade, acabei passando mal a noite inteira e pegando um trauma terrível do produto. De uns tempos para cá, porém, acabei dando uma chance a ele. E gostei, principalmente os exemplares do sabor nacho. Delícia.

6) Bolinha de amendoim
O melhor desse salgadinho é que ele pode vir sob qualquer marca, até aquelas mais indefinidas de lojas de atacado. Aliás, quanto mais suspeito, mais gostoso! Não dá para ficar imóvel diante daquela crosta branquinha e ultra-salgada feita de sei-lá-o-quê e recheada por um mísero amendoim solitário. Pelo preço, não podemos esperar muito.

5) Fandangos presunto
O milharal e o espantalho que estampam a embalagem sugerem que Fandangos é feito de milho – aliás, segundo minha sábia mamãe, trata-se do salgadinho mais saudável, se entendermos como "saudável" algo cuja procedência não seja tão duvidosa quanto a dos outros. Pode comer sem medo! Ou não...

4) Baconzitos
Dá para fazer outra coisa com o grande saco de torresmo de isopor com gosto de bacon senão devorá-lo até as últimas migalhas? Pareço uma louca lambendo os dedos e tentando fazer com que o pó no fundo do saco grude neles para que eu consiga saborear o salgadinho por inteiro. Pelo menos, nunca lambi a embalagem.

3) Piraquê queijo
Ah, que perdição. Se eu pudesse, gastava todo o dinheiro da compra do mês em Piraquês. E olha que seria uma fartura, uma vez que tal salgadinho é barato pra dedéu. O curioso é que você nunca fica inteiramente satisfeito com a quantidade, uma vez que o danado é oco. Um saquinho não consegue sanar a vontade.

2) Pringles
Batata de rico. Mas, de vez em quando, me dou ao luxo de adquirir um tubo daqueles – que, aliás, foi feito para meu bracinho de grilo. Todo mundo tem dificuldade de pegar os últimos exemplares do salgadinho, lá no fundo. Menos eu! Obrigada, Sr. Pringles, por ter feito essa embalagem sob medida para as magrelas.

1) Cheetos original
Cante comigo: "Cheeeeetos, tem gosto de queijo"! Olha aí, nem o próprio jingle do produto consegue ter a cara-de-pau de dizer que o salgadinho-chefe da Elma Chips é feito de queijo. Uma coisa é ter gosto de um ingrediente, outra coisa é levar o mesmo na fórmula. Mesmo assim, o quitute é bom demais da conta!



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Até esquilos não conseguem resistir!


* * * * * *


Já foi
Obrigada a todos os leitores que me mandaram e-mails de felicitações pelo meu aniversário. Obrigada aos companheiros do Fórum que abriram um carinhoso tópico. Obrigada aos amigos e familiares que não deixaram meu telefone desocupado ontem. Obrigada às meninas que escreveram coisas tão lindinhas sobre mim. Obrigada aos coleguinhas virtuais do Orkut que me encheram de mensagens. Obrigada aos... ok, eu paro porque vai ficar chato. Então, beijos a todos!

Vivi Griswold às 10:29 AM

quarta-feira, 2 de junho de 2004

De chorar

Se o velho dito popular “homem não chora” guarda alguma verdade, ainda bem que eu sou mulher. Isso porque a garota aqui é bastante dada a se transformar numa torneirinha de vez em quando. E se tem algo que desperta minha fonte interna de lágrimas é a tela grande assistida no escurinho.

Sim, eu choro em filmes. Até aí, tudo bem... Todo mundo deixa escapar umas lagriminhas no breu do cinema. Mas o pior é que eu choro em filmes que: a) não são para chorar ou b) eu já vi antes e sei de antemão o que vai acontecer. É inevitável.

A solução? Para o momento da projeção, basta ter lenços de papel à mão. Para quando as luzes se acendem, se ainda não parei de ter soluços convulsivos, é só dar uma chegada no espelho mais próximo. Acho minha cara tão feia quando choro que páro no mesmo instante em que sou submetida ao reflexo dela.

Mas enfim. Até chegar ao banheiro com espelhos, já semi-desidratada, passo por poucas e boas toda vez que assisto...

À Espera de um Milagre
É batata: quando o grandalhão John Coffey, interpretado por Michael Clarke Duncan, realiza seu desejo de assistir a um filme – no caso, “O Picolino”, com Fred e Ginger – o motorzinho da água salgada começa a funcionar. E isso porque eu já assisti umas 572 vezes. Dali, só páro nos créditos.

Os Últimos Passos de um Homem
Sim, eu tenho um problema com pena de morte. Sim, eu acho que um assassinato legitimado e calculado – mesmo que praticado pelo Estado – é tão repulsivo quanto aqueles cometidos por criminosos. Mesmo tratando do assunto de maneira sutil, eu deságuo assim mesmo. E ainda fico deprimida por uns dois dias depois de assistir.

Coração Valente
O épico parece ter sido calculado milimetricamente para fazer todos, meninos e meninas, produzirem líquidos lacrimosos – só que em trechos diferentes. Eu começo a sofrer quando William Wallace, deitado na mesa de tortura, tem uma visão da sua amada, morta pelos ingleses tempos antes. Já os meninos tendem a se emocionar durante os discursos de guerra.

Tomates Verdes Fritos
Filme de menina total, a história fofinha protagonizada por dois pares de amigas invariavelmente me leva às lágrimas. E o pior é que, embora tenha partes tristes, a produção é, no geral, bem simpática. Daquele tipo que faz você achar que a vida vale a pena e sair do cinema (ou do sofá) com um sorriso meio bobo na cara.

O Filho da Noiva
A história de um proprietário de restaurante cuja mãe, atormentada pelo sêo Alzheimer, está cada vez mais confusa, é um verdadeiro primor. Embora dramático, tampouco é um filme feito para chorar. Mas a semelhança entre a velhinha (interpretada com absoluta veracidade por Norma Aleandro) e minha vó fez com que eu saísse do cinema soluçando igual criança.

O Casamento do Meu Melhor Amigo
Essa é a maior vergonha da minha lista. Afinal, ora bolas, era para ser uma comédia – e é! Mas para mim, a cena em que Julianne (Julia Roberts) passeia de barco com o tal do melhor amigo, dançando ao som de “The Way You Look Tonight”, marca a virada para o drama. O problema é que eu sempre fui “a melhor amiga” – ou a “gelatina” (quem viu o filme vai entender). Tive mais sorte que Julianne, mas corri o mesmo risco de terminar dançando com um belo vestido lavanda, agarrada a um amigo gay, no casamento dos outros. E ainda chamam isso de comédia...


* * * * * *

Parabéns, parabéns, hoje é o seu dia!

Conforme Flá confidenciou aqui, hoje nossa querida ruiva completa mais um outono (sei que ela preferiria inverno). Nem preciso dizer quanta alegria essa menina trouxe para a minha vida, quanto gosto dessa amiga temporã e quanto vocês também devem ser gratos à Vivi – afinal, a maior responsável por transformar o Garotas de um papo de mesa de restaurante em realidade foi ela. Não sei vocês, mas eu sei que sou muito mais feliz depois de ter cruzado com essa mocinha – e agradeço por isso. Parabéns, sis!

Clara McFly às 06:35 PM


Gente de vida fácil

Não sou de desdenhar de qualquer profissão existente – exceto quando dizem que fulana é “socialite”, mas daí ignoro e pronto. Todo empregado tem seu valor até que me provem o contrário. Apenas acho que os repórteres de revista ou programas de fofoca andam preguiçosos e repetitivos. Eles não sabem mais inventar perguntas, ó que chato...

Hoje, basta ter meio neurônio funcionando para entrevistar famosos. Ninguém faz questão de furo de reportagem, de declarações realmente profundas (provavelmente imaginam que das cabeças ocas de muitas celebridades não pode sair uma frase interessante sequer). Assim sendo, os jornalistas atuantes no ramo do veneno devem ter instituído uma regra: só fazem quatro modelos de perguntas e está muito bem feito.

Se você também quiser entrar no setor, é fácil, fácil. Basta encontrar uma celebridade dando sopa pela rua, apontar o microfone da face dela e sacar do quarteto de questões.

1) Vai posar nua?
Nem bem a mocinha emplacou seus dotes físicos no xinfrim programa de Luciano Huck ou troço do gênero, já vira candidata a arrancar a roupa em revista masculina. Claro, pois é mesmo um salto e tanto para na fama instantânea, oras. Duro é ter que ouvir sempre as mesmas duas respostas possíveis: “estamos estudando propostas” ou “não, ainda não é o momento”. Fico imaginando se chegará o dia em que alguma delas dirá “se alguém ligar lá em casa e oferecer 20 magos, eu tô indo”. Essa seria uma entrevista interessante!

2) Você foi vista com o Fulano... Está namorando?
Não entendo por que é tão importante saber quem anda amassando quem. No fim das contas, é só gente dando uns malhos, por deus! Mesmo assim, a imprensa especializada sempre quer saber dos namoricos. Ô trabalho constrangedor... Eles devem aprender a perguntar essas intimidades treinando com tias velhas e chatas que questionam, em meio ao almoço de domingo na casa da vó, coisas como “e aí, menina, aquele moço que sempre liga é seu namoradinho”? Ahhh! Chá de hortelã e discrição não fariam mal para esse povo.

3) Já estão falando em casar?
Daí os pombinhos assumem o namoro para a mídia. Dão as mãos em público e nem precisam mais comparecer às festas em carros separados e com aquela cara deslavada de “somos só coleguinhas de novela, juro pelo cadáver do Elvis Presley”. Então começa o martírio de responder, em 200 entrevistas diferentes, se vai rolar casamento. Entre as pessoas que eu conheço, leva-se ao menos cinco anos até usar aliança no dedo. Por que os repórteres acham que artistas se conhecem hoje e marcam festa pra dali dois meses? Ah, tá... deve ser porque alguns fazem isso mesmo...

4) Qual será seu próximo projeto?
Tenho a impressão que a pergunta é feita num piloto automático tão grande que mesmo a resposta sendo “vou eletrocutar meus pais e viajar para Bali com o dinheiro do seguro”, jornalista nenhum ia notar. Até porque, convenhamos, as respostas são sempre as mesmas: novela de tema absurdo, peça de teatro monótona, livro de memórias desimportantes, programa infantil idiota e mal-copiado da Xuxa. Quem não responde nada disso emite apenas um sorrisinho amarelo e diz que está “dando um tempo na carreira”. Coitados, estão é na rua da amargura, normalmente... Mas isso repórteres não captam essa informação, parece.

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Fofoquinha: hoje é o Dia da Ruiva!

Se o Garotas é hoje um site bem sacado, bonito e que funciona nos trinques, todos devemos isso ao zelo, carinho e dedicação de uma mamãe muito coruja. Hoje Vivi contabiliza mais uma primavera, e eu gostaria de gritar para todo mundo ouvir o quanto essa mocinha é importante na minha vida. Ela chegou da mesma maneira de sempre, discreta e docemente, mas conquistou meu coração e se tornou uma irmã. Para sempre, Viv! Felicidades, meu anjo!

Fla Wonka às 02:52 PM


Para cada ação...

A terceira lei de Isaac Newton, aquele moço azarado que foi atingido por uma maçã quando tirava um cochilo à sombra, constitui a famosa "Ação e Reação". Ela surge de uma premissa bastante verdadeira: para cada ação, existe uma reação. Ou seja, se você bater no seu irmão menor, vai levar uma baita bronca da sua mãe. E se você derrubar um vidro de ketchup no chão, terá de limpar uma grande mancha no tapete.

Algumas ações, porém, são seguidas por reações tão típicas que a lei de Newton cede espaço à lei de Murphy. Segundo essa última, se algo é para dar errado... vai dar. Um tanto pessimista, é verdade. Mas se você parar para pensar em seu cotidiano, vai ver que os dois ensinamentos andam de mãos dadas – para o desespero dos mortais.

Ação: Sair de casa sem guarda-chuva
Reação: Chove
Pode estar fazendo o dia mais lindo lá fora, com um límpido céu de brigadeiro. Colocou o pé para fora de casa sem guarda-chuva, pode esperar fortes pancadas no final da tarde (sim, bem no momento em que você estiver voltando para casa). Se por acaso você for prevenido e, vendo um contingente de nuvens carregadas, resolver carregar o incômodo acessório, é batata: não chove.

Ação: Ensaboar o cabelo
Reação: Chuveiro queima
Se o seu chuveiro é daqueles melindrados que adoram dar problema – tipo queimar a resistência só porque você colocou a temperatura no turbo e abriu apenas um tantinho do registro para espantar o frio de junho que faz lá fora –, há 99% de probabilidade do dito cujo queimar bem na hora em que seu cabelo está totalmente ensaboado. E você fica lá, sem qualquer chance de reação.

Ação: Sair de casa agasalhada
Reação: Faz calor
Todos os dias em que você optou por um agasalho mais leve foram caracterizados por ventos polares? Você passou frio apesar de um guarda-roupa cheio de agasalhos? Então, nada mais correto do que colocar uma blusa de lã bem pesada da próxima vez. Pena que, se você fizer isso – e, principalmente, não tiver nada leve por baixo – vai passar calor. Pois a metereologia é comandada por Murphy.

Ação: Sair de casa sem blusa
Reação: Faz frio
O inverso do caso acima também é bastante comum. Aqui, imagine uma semana de sol escaldante e você tendo de levar a japona amarrada na cintura. O troço pesa e você o amaldiçoa, prometendo a si mesmo não voltar a usá-lo no dia seguinte. O amanhã chega ensolarado e você sai só de camisetinha esperando o calor se repetir... O que acontece? Frio de rachar, claro!

Ação: Ouvir música boa no rádio
Reação: Chega um túnel
Outro dia estava passeando de carro e ouvindo todas as músicas básicas de rádio: Dire Straits tocou umas cinco vezes, assim como Men At Work e "Lips Like Sugar", do Echo & The Bunnymen. A banda é ótima e tem dezenas de faixas boas – mas eles só escolhem essa à exaustão. Quando finalmente chegou uma canção que eu realmente queria ouvir... túnel. Congestionado.

Ação: Terminar um trabalho no computador
Reação: O computador trava
Se o seu computador resolve travar, ele não vai escolher um momento propício como segundos antes de um vírus invadir seus arquivos. Ou quando você estiver fazendo coisas bobas, como vendo e-mails ou lendo seus blogs favoritos. Nããão... Ele irá travar bem no meio de uma tarefa complicada, longa e importante – se for bem no finalzinho dela, oba, melhor ainda!

Ação: Passar esmalte
Reação: Vontade de fazer xixi
Essa acontece comigo toda a vez. Sempre quando eu termino a trabalhosa tarefa de fazer minhas unhas e estou esperando o esmalte secar, fico com vontade de ir no banheiro. Ou a bateria do mouse óptico termina e eu tenho de trocar. Ou a campainha toca. Resumindo: qualquer tarefa que inclua o uso das mãos, e que vai conseguir estragar por completo toda a minha dedicação.

Ação: Começar fazer um bolo
Reação: Perceber que a farinha acabou
Por que só notamos a falta de um ingrediente bem no meio da receita? Se você estiver fazendo um bolo e já conseguiu misturar a manteiga, o açúcar, o leite, o chocolate, os ovos, pode esperar pela falta da farinha. Daí, ou você corre para o mercadinho mais próximo tentando adquirir o item ou fica olhando tristemente para aquela massa inútil que não vai dar em algo comestível.

Ação: Começar a melhor parte do livro
Reação: Chega seu ponto
Já tentou ler no ônibus ou no metrô? Então me explica por que nosso ponto sempre chega na parte mais emocionante da história? O mesmo acontece com filmes, seriados, novelas, telejornais... Se você começa a ficar animado com um segmento específico, o telefone toca. E, normalmente, é aquela conhecida que fala pelos cotovelos. Quando a cena interessante acabar, ela desliga.

Vivi Griswold às 10:33 AM

terça-feira, 1 de junho de 2004

É impossível abrir um só

Estamos em pleno século 21. O homem já foi à lua e é possível assistir, quase que exatamente ao mesmo tempo, qualquer coisa que acontece do outro lado do planeta. A medicina evoluiu, a internet revolucionou as comunicações e viagens que levavam semanas podem ser feitas em menos de um dia. Ainda assim, abrir certas embalagens é trabalho para a persistência e as manhas de um inquisidor medieval!

O mais engraçado é que os tais pacotes parecem à prova de abertura – mas contam sempre com um simpático e supostamente solícito “abra aqui”, com um pontilhado ou uma lingüeta acompanhando a inscrição. Puro humor negro do fabricante, é claro. Ele e os desenhistas de embalagem devem rir às pampas pensando nos pobres mortais que passarão horas às voltas com a tarefa de chegar ao produto.

Como, meu Deus, como é possível que fabriquem pacotes aparentemente projetados para... não abrir? A idéia do dono do brinquedo não seria a de vender seu produto? E o que leva esses homens a pensar que, quanto mais difícil de vencer um pacote, mais apego ao tal produto o pobre consumidor desenvolverá? Porque só pode ser assim que esses maluquetes raciocinam. Senão, não teriam feito as intransponíveis embalagens de...

CD
Campeão dos campeões, o compact disc vem envolto num plástico que deve ter sido hermeticamente enroscado na caixinha. Não há pontas possíveis para começar a rasgar – e, quando há, elas simplesmente não funcionam.
A solução? Um abridor de latas ou uma chave mais pontiaguda resolve o problema.
Mas cuidado... Acertar a pontinha do dedo com o caminho do abridor de latas ou, num acesso de fúria, tacar a caixinha do CD (ainda lacrada) longe são possíveis desenrolares da história.

Escova de dentes
Que mal podem fazer um fundo de papelão colado a uma espécie de forma plástica mais durinha? Vá tentar abrir uma embalagem de escova para você ver. Faceiramente acomodadas entre o plástico e o papelão, as escovas devem rir da nossa cara enquanto tentamos descobrir a chave do enigma da abertura.
A solução? Um golpe certeiro com o dedão pode ser capaz de rasgar o papel.
Mas cuidado... Se você está tentando desembalar a escova em seu habitat natural, o banheiro, tome o cuidado de fechar a tampa do vaso. Acontece das engraçadinhas abrirem de sopetão...

Confeti
Eu sou absolutamente tarada pelas pastilhazinhas de chocolate, cobertas com aquela casca de confeito que, embora disponível em várias cores, para mim tem sempre o mesmo sabor. Mas haja paciência – e ousadia – para abrir o saquinho sem levá-lo à boca e, no melhor estilo infantil, rasgar no dente.
A solução? Uma tesoura, é claro. Mas quem tem uma dessas na bolsa dentro do cinema? Nesse caso, morda o cantinho da embalagem e rasgue cuidadosamente o resto.
Mas cuidado... Os confeitos parecem sofrer de impulsos suicidas e, às vezes, saltam para a liberdade de uma vez só, numa puxada mais forte do saquinho.

Macarrão
Tirando os que vêm em caixinhas (e custam umas boas lascas a mais), massas empacotadas em sacos plásticos são um verdadeiro desafio. Aquela dobra que deveria ajudar a abrir só atrapalha e o efeito “ih, rasgou!” é uma constante ao lidar com esse item.
A solução Apele logo para uma faca ou tesoura para cortar a pontinha do saco. É melhor, pois uma abertura pequena também já serve de dosador para o macarrão a ser cozido.
Mas cuidado... Macarrões parafuso (ou qualquer outro tipo que venha em pecinhas soltas) sofrem do mesmo problema que o confeti. Se quiser arriscar abrir na fé, faça-o em cima da pia.

Rolo de papel alumínio
Tirar o tubo do plástico que o embala é fácil. O problema começa quando você quer usar o produto. Se as bordas estiverem minimamente amarfanhadas, seu papel alumínio sairá em tiras – deixando boa parte de sua extensão grudada no rolo. É pior que durex que perdeu a ponta.
A solução Crie um sistema de embrulho da comida inspirado no processo de mumificação ou parta para o plástico-filme.
Mas cuidado... Plástico-filme é uma das invenções mais artimanhosas do mundo moderno. Completamente provido de vida própria, ele pode acabar embalando você – o que seria deveras perigoso, já que eu vi na TV que algumas marcas do produto têm índices cancerígenos altos demais (isso é sério) e, de qualquer maneira, o plástico pode sufocá-lo. Cruz credo.

Clara McFly às 06:30 PM


Sonhos de uma noite de outono

Longe de mim querer insinuar, com o título acima, que minha imaginação noturna se assemelha aos dotes criativos de William Shakespeare. Nunca, em tempo algum, eu seria capaz de imaginar príncipes guiados pelo fantasma do próprio pai ou uma linda história de amor onde... a dupla morre no final! Garanto para vocês, porém: muito roteirista de Hollywood iria gostar de se apoderar dos contos que rondam minha mente quando entro no terceiro sono. Mas a verdade é que me beneficio desses momentos. Eles falam e agem por mim.

Não sei, mas pode ter sido o sol demais que tomei na infância ou o excesso de Fanta Uva consumido durante as refeições. O fato é que meus sonhos são extremamente realistas, compridos, coloridos, malucões. E trabalham para colocar em dia minhas pendências.

Ontem, por exemplo: eu passei a noite brincando com um boneco do Bob Esponja capaz de dar explicações para todas as minhas perguntas sobre ciências, conhecimentos gerais e até dicas para cuidar melhor do cabelo. Como uma esponja marinha fictícia saberia isso, desconheço. E acho que esse não teve lá muito significado além do óbvio: adoraria ter resposta para tudo – ainda mais se ela fosse dada por tão divertido personagem.

Também já ficou famosa a minha mania de manter conversas impossíveis, muito ditatoriais e redentoras durante a naninha. Tenho certeza de que faço isso enquanto durmo porque sei que nunca acontecerá de verdade, e então acho por bem desabafar do mesmo jeito. Na época do escândalo dos precatórios na Prefeitura paulista, por exemplo, passei noites fazendo acalorados discursos sobre moral tendo como espectador um perplexo Celso Pitta.

Disse a ele um bom punhado de verdades – inclusive que afanar dinheiro público não era apenas um crime contra o patrimônio social, mas também uma forma de contribuir mais ainda para que pobres morressem de fome ou de doenças. Droga, acho que ele não captou as vibrações do meu sonho... Não importa, pelo menos eu disse e fiquei mais aliviada.

Não creio em uma penca de coisas que dizia o Seo Sigmund Freud. Sobre os sonhos serem parte do nosso subconsciente se manifestando, porém, aposto todas as fichas no sabido homenzinho. Nem sei quantas vezes terminei, na imaginação dorminhoca, trabalhos e conversas que ficaram pela metade.

Costumo também criar realidades paralelas no sonho, como apresentar gente bacana a amigos caçadores de romance ou viajar por lugares distantes do meu bolso como Noruega ou Austrália. (Junto imagens de filmes com fotos de revista para criar os cenários, é moleza).

Penso assim: tudo o que quero muito realizar, mas não tenho chance no momento, guardo em num setor específico da cachola para um dia colocar em prática. Os meus sonhos têm acesso à pasta e ocupam-se de manter vivas as idéias. Porque um dia elas virarão realidade. Freud não deve ter dito, mas esse é o sentido de sonhar. Não?

Fla Wonka às 02:59 PM


Amor em tempos de guerra

Bob era um jovem fotógrafo americano que tinha um estúdio na Tchecoslováquia. Um belo dia ele conheceu Erika, uma garota húngara. Os dois se apaixonaram perdidamente e começaram a namorar, apesar das dificuldades daquele tempo, em que uma simples pegada de mão poderia ser interpretada como atentado ao pudor. O romance dos dois cresceu, mas acabou sendo interrompido com a chegada da Segunda Guerra mundial. Bob foi forçado a voltar a Nova York. Erika, por ser ainda uma adolescente, não pôde o acompanhar.

O jovem passou a escrever religiosamente para a amada do outro lado do oceano. As cartas eram freqüentes e ultrapassavam as 20 páginas. Em uma delas, Bob pediu Erika em casamento – e ela aceitou. Nos meses seguintes, porém, a correspondência acabou ficando cada vez mais escassa, até que Erika não mais recebeu um bilhete sequer. A moça achou que o rapaz havia perdido o interesse.

O que ela não sabia é que os navios encarregados de levarem cartas e encomendas internacionais – sim, todas elas eram colocadas em malotes e embarcadas em um transatlântico para conseguirem sair dos Estados Unidos e chegar à Europa, meses depois – foram suspensos durante o conflito. Bob não escreveu porque não havia meios de enviar seus sentimentos até a longínqua Tchecoslováquia. E acabou desistindo. Com o final da guerra, Bob e Erika se casaram... com outras pessoas.

Muito tempo depois, no final dos anos 80, Bob já era um fotógrafo aposentado. Separado da esposa e sem filhos, morava em um asilo no Brooklyn. Foi durante uma exposição que uma idosa senhora chegou até ele, perguntado coisas estranhas. Queria saber se o nome dele era Bob, se um dia ele teve um estúdio na Tchecoslováquia e se havia conhecido uma garota húngara chamada Erika. Ouvindo respostas afirmativas a todas as indagações, a senhora disse ser a melhor amiga de Erika – sua confidente nos longos anos em que a ela amargou o abandono inesperado do noivo.

Cinqüenta anos após terem se conhecido, Bob e Erika retomaram o contato. Ele finalmente conseguiu explicar a ela o motivo do fim de suas correspondências. A viúva Erika disse que, no fundo, nunca acreditara que ele a havia abandonado, e resolveu visitá-lo nos Estados Unidos. O casal, após um emocionado reencontro, não se separou mais.

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O que parece uma história de folhetim romântico realmente aconteceu do jeito exato que acabei de narrar. Estava assistindo a um programa vespertino da tevê por assinatura e acabei me deparando com a estranha saga do casal distanciado pela guerra e pela dificuldade de comunicação. Fiquei imaginando que eles não devem ser os únicos velhinhos a terem passado por uma experiência parecida.

Há um abismo absurdo entre o carregamento de correspondências por navio e o e-mail que usamos hoje – mas, repare, apenas meio século se passou (o que, em termos históricos, é um pequenino grão de areia numa ampulheta gigante). Enquanto converso com parentes na Europa instantaneamente via ICQ e recebo vídeos com meu mais novo priminho dando sorrisos banguelas a milhas e milhas de distância, penso em como seria se não houvesse tamanha facilidade. E não consigo imaginar o mundo de outra forma.

Por isso, Bob e Erika, vocês são meus heróis.

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Carta pra mim?
Vivi Griswold às 09:22 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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