sexta-feira, 27 de fevereiro de 2004

Eu amo o Carnaval – Parte 2

Conforme o prometido, sigamos no assunto balaco-baco, teleco-teco, ziriguidum. Afinal, o país ainda está no ritmo do batuque - e, senão dele, pelo menos no da ressaca.

Sem mais delongas… "simbora, meu povo!". As memórias do Carnaval ainda estão frescas na cabeça e não precisamos nos esforçar muito para continuar a lista das coisas mais engraçadas da festança, como…

A animada entrada das escolas na avenida
A entrada das escolas é infalivelmente marcada por frases do tipo "alô, comunidade", "chegou nossa vez!", "chora, cavaco" e "tá bonito, tá bonito!". Cada agremiação tem um trio de intérpretes e mais cinco animadores, que ficam agrupados só para dizer as tais frases. Eu queria ser a pessoa responsável pelo "alô, comunidade". Mas suponho que para isso você tenha de ser da... comunidade. Droga.

A transcendente interpretação das fantasias
Depois, o melhor fica por conta das explicações das alas e destaques. Provavelmente, os comentaristas da transmissão se baseiam num resumo mandado pela própria escola e não têm muito o que fazer. Daí, ouvimos coisas do tipo: "e aí vem o Fulano de Tal, que representa o imigrante europeu como protagonista da formação do povo brasileiro, no impacto da cultura sócio-econômica causada pelas lavouras de café". E tudo o que vemos nessa hora é uma mulher quase pelada, com plumas em volta. Eu nunca vi um imigrante italiano com tão pouca roupa e tanta pluma em volta! Que o diga meu finado avô...

As piadas baratas
O que seria da transmissão do Carná pela tv não fossem as piadinhas sexistas, marcadas por algum efeito especial arranjado pela Globo? Tinha um ano em que voava pela tela a assustadora cabeça de um rei Momo. Ele assoprava bolinhas e, de dentro de uma dela, invariavelmente surgia uma mulher bem à vontade, para deleite do comentarista, que tascava um "Olha só que comissão de frente!" ou algo do tipo. Não sei o que era mais aterrorizante: a cabeça do Momo ou o comentário infame.

Nesse quesito também entram todos os trocadilhos puídos sobre a entrada da Mangueira na avenida. Olhaí: sem querer, já fiz uma!

Créme de la créme: a apuração
Além de ter o indefectível senhor que chama as escolas pelo seu nome completo, o mais bacana é ver o povo da comunidade se esmerilhando por um mísero décimo de ponto. Estão certos eles: trabalharam o ano inteiro naquilo e vêm cobrar o reconhecimento. Além do mais, um décimo já decidiu muito Carnaval. Mas que é hilário, é.

Preste atenção no background da tv: por trás da tabela com as notas, aparecem imagens de sambistas chorando, xingando ou pulando feito crianças que ganharam um pogobol, dependendo do parecer do jurado. Os gritos de guerra inter-comunidades também são ótimos: rola desde um "ê, Mangueirã-ão!" até os provocativos "eu, eu, eu, a Viradouro se f... (bem, vocês sabem a rima)". Tudo gritado por gente de toda idade, credo e cor, inclusive vovozinhas que devem guardar o estoque de palavrões para descontar na Sapucaí. Isso é que é festa democrática!

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Sem trocadilhos: olhaí a Mangueira
entrando!


Clara McFly às 05:41 PM


O Oscar do B

Domingo, 23h00. A não ser que um meteoro caia em São Paulo e cause prejuízos humanos e materiais, eu vou estar assistindo àquilo que chamam de premiação máxima do cinema. É cascata? É. Tem caráter duvidoso? Tem. É legítimo? Tanto quanto uma nota de três reais. Mas eu perco alguma festa dessas desde os 10 anos? Nem pensar.

Podem dizer o que for sobre o Oscar – eu concordo com quase tudo –, mas não consigo ignorar aquela profusão de astros, estrelas, carpete bordô e piadas idiotas. Revolto com alguns vencedores, vibro com outros, choro nos discursos... Como escapar? Bom mesmo, só se existisse um Oscar igual, mas feito por gente justa, inteligente e feliz.

Sim, porque hoje o Oscar é uma eleição organizada por pessoas mesquinhas, mal humoradas, nada criativas e muito frustradas. A premiação bacana mesmo seria um "Oscar do B" (como aquelas facções de partido comuna). Nele, comediantes teriam chance de ganhar e filmes sobre o Holocausto não seriam invencíveis. A exemplo do MTV Movie Awards, podia até haver prêmio para "Melhor Beijo" ou "Melhor Perseguição Automobilística"!

Isso posto, decidi hoje eleger uma parcela do meu próprio Oscar e destacar vencedores que realmente valem uma estátua. Alguns nem estão da disputa, mas quem liga? O peladão dourado é meu, entrego para quem quiser.

Melhor filme – "O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei"
Não ter conquistado a estátua do homenzinho dourado nos dois últimos anos só fez a saga merecer mais ainda o prêmio em 2004. Poxa vida, os caras consumiram sete anos na recriação de um mundo mitológico e adaptaram um romance de 120 milhões de páginas! Precisa mais?

Melhor Diretor – Fernando Meirelles ("Cidade de Deus")
O bom e velho Clint que me perdoe. Peter "Fome Animal" Jackson, o rei da Terra Média, idem. Neste ano, a estátua e o adesivo automotivo "Só a Diretoria" precisam ser entregues ao Nando. Ele fez um filme brasileiro sem carcaça de vaca na caatinga, ora! Tem que ser ovacionado.

Melhor Atriz – Naomi Watts ("21 Gramas")
Deixa ver: a Meryl Streep tirou férias e não concorre? Então a disputa fica imprevisível. Nesse caso, deveria vencer Naomi Watts, ótima no filme-soco-no-baço "21 Gramas". Ou Charlize Teron, por um filme ainda inédito aqui, onde ela é assassina e feia – coisa que rende estátua para quem é linda e gentil.

Melhor Ator – Johnny Depp ("Piratas do Caribe")
Já faz tempo que o moço merece, merece, mas não leva. Deixemos de onda, né? Johnny é espetacular em muitos papéis, mas com o pirata debochado Jack Sparrow, ele arrasou. E o Sean Penn tem mais o que fazer e não está nem aí pro Oscar mesmo...

Melhor Atriz Coadjuvante – Ellen De Generes ("Procurando Nemo")
Como? Não vale dublagem? Deveria. Interpretando a Dori, essa moça quase me leva a um enfarte de tanto rir. O desempenho no idioma "baleês" poderia ao menos render um Oscar honorário, não? Renée Zellweger ("Cold Mountain") que me perdoe, mas a Dori de Ellen foi fundamental em 2004.

Melhor Ator Coadjuvante – Andy Serkis ("O Senhor dos Anéis")
O japonês bem apanhado de "O Último Samurai" seria bom vencedor. Não concordo, porém, que o homem por trás do Gollum (no bom sentido) fique de fora dessa briga! É o mais perfeito vilão de dupla personalidade já visto no cinema. Foi feito no computador? Até foi, mas não tira o mérito de Andy.

Melhor Roteiro Original – "Peixe Grande"
Vivi contou a vocês hoje cedo por que essa pérola do cinema precisa ser admirada. Para mim, é o melhor filme já feito pelo Tim Burton – e vou morrer sem entender por que raios não está concorrendo ao Oscar no lugar do insosso "Seabiscuit". Acreditem: é roteiro nota mil.

Melhor Roteiro Adaptado – "O Senhor dos Anéis"
Dispensa explicações, né? Não? Bom, tenta você apanhar um livro que bem serviria para prender porta maciça e resumi-lo em algumas horas de filme! Faça isso com a maestria de usar todas as melhores cenas e sem cansar o espectador. Eles fizeram, eles merecem.

Melhor Filme Estrangeiro – "Adeus, Lênin!"
Não está nem em disputa, sei lá por que. Confesso sem dó: mesmo com "Cidade de Deus" no páreo, eu iria titubear entre nosso representante e essa maravilha alemã. Nunca aquele idioma do capeta me pareceu tão bonito. É história hilária e comovente com uma simplicidade fabulosa.

Melhor Maquiagem – "Tudo Mundo em Pânico 3"
Nem "Mestre dos Mares", nem "O Senhor dos Anéis", nem "Piratas do Caribe". Precisava vencer na categoria o cidadão que criou aquela feição de Michael Jackson para esse besteirol. É tão perfeito que chega a apavorar! Mas esse só levaria no "Oscar do B", certo?

Fla Wonka às 01:34 PM


O pescador de ilusões

Era uma vez um fantasma especializado em assustar humanos. Ou um estranho e tímido ser que possui tesouras no lugar das mãos. Ou um cineasta incompreendido por seus filmes B. Ou uma cidadezinha nebulosa e assombrada. Escolha, ouça e veja qualquer uma dessas histórias – o resultado será sempre o mesmo: admiração pelo trabalho de Tim Burton, um diretor que se empenha em declarar seu amor à sétima arte através de um universo composto apenas de cenas memoráveis.

Sabe quando você escuta alguns acordes de um solo de guitarra é já consegue falar de quem são as mãos por trás do som? Assim acontece com os filmes dirigidos por Burton. Seu estilo encantador, misterioso e ilusionista é totalmente autoral. Todas as peças assinadas por ele carregam uma marca que não pode ser apontada precisamente, mas que pode ser sentida e reconhecida. Mesmo sendo uma superprodução como “Batman” ou um pequenino filme como “Edward Mãos de Tesoura”.

O diretor, considerado um freak pela máquina hollywoodiana, consegue me arrastar para o cinema como mariposa atraída pela luz. Nem preciso saber com quem é o filme, qual é a história, qual a opinião da crítica especializada. É do Tim Burton? Se a resposta for afirmativa, lá estou eu na fila da bilheteria, pagando feliz o preço exorbitante do ingresso. Porque eu sei que vou sair da sala de projeção melhor do que entrei.

Foi o que aconteceu na última quarta-feira. Após perder todas as vinte sessões de pré-estréia por dezenas de motivos diferentes, finalmente consegui botar meus olhinhos ansiosos em “Peixe Grande”. Mal podia esperar. O ator, Ewan McGregor. A música, Danny Elfman. O filme, Tim Burton. Nem precisava pedir mais. Porém, todo mundo que estava ali, sentado em fila nas cadeiras acolchoadas, levou muito, muito mais.

“Peixe Grande” mostra a trajetória de vida de Edward Bloom, hoje um velhote doente e a ponto de partir desta para uma melhor. Bloom é especialista em contar “causos”, injetando aventuras, seres estranhos, mistérios e magias em fatos da vida real. Sua imaginação é tão fértil que nem o próprio filho consegue ao certo separar o que é ficção do que realmente aconteceu. Exausto de tanta firula, ele tenta aproveitar os últimos dias do pai para saber mais sobre aquela figura intrigante e, agora, frágil.

É nessa busca pelo conhecimento de um estranho tão familiar que Burton nos brinda com histórias mirabolantes. Daí, só nos resta relaxar na poltrona e nos deixar levar por um par de gêmeas siamesas chinesas, um lobisomem que é dono de circo, um gigante amigo, uma bruxa cujo olho de vidro mostra o futuro, uma cidade perdida onde ninguém usa sapatos, uma floresta mal-assombrada e, claro, um peixe muito grande.

Em certas ocasiões ou queria ter um controle remoto para pausar e conseguir digerir melhor cada cena. Como quando o jovem Bloom e sua namorada estão deitados no meio de um campo imenso de narcisos. Ou quando o velho Bloom e sua esposa (Jessica Lange, muito mais linda do que em “King Kong”) estão abraçados na banheira. É tudo muito curto e sutil, deixando sempre a sensação de “ué, já acabou”?

Portanto, tente aproveitar. Daí, o leitor também vai querer dizer “Conta mais, Tim Burton. Porque você é o verdadeiro peixe grande”.

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Vivi Griswold às 10:48 AM

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2004

Eu amo o Carnaval

Agora que passou, posso falar: cultivo uma relação de amor e ódio com essa popularíssima festa cheia de tradição, animação, baticundum e peitinhos de fora. Já amei e odiei o Carnaval. Agora amo de novo – e talvez volte a achá-lo, com o perdão da palavra (como diria Cameron, o amigo de Ferris), um saco.

Quando eu era pequena, ouvia e decorava todos os samba-enredos das escolas porque meu pai comprava o discão todo santo ano. Não era especialmente fã de pular Carnaval (aliás, por que "pular"? As pessoas dançam, sacolejam e até pulam um pouquinho, mas nem tanto), porém adorava ver os desfiles na TV.

Especialmente da Mangueira, que eu adotei como escola favorita, porque tinha o nome mais legal (enquanto todo mundo era Unidos, Acadêmicos ou Grêmio Escola de Samba, a Mangueira era "Estação Primeira", ó que coisa linda!) e a combinação de cores que eu mais gostava (até na caixa de lápis de 36 cores o verde e o rosa eram minhas cores preferidas. Era como se a escola transportasse os meu enfeitinhos do caderno de brochura para a avenida!).

Mais crescidinha, passei a achar os poucos dias do reinado de Momo uma chatice sem fim. Valia pelo feriado, mas a aborrecente quase-cabeça que eu era julgava os dias de festerê uma alienação. Isso sem contar que em qualquer lugar que você fosse tocava os mesmos sambas ou a praga da axé music, com uma multidão de bêbados suados tentando tirar uma casquinha.

Agora, me libertei desses preconceitos da alienação, aprendi a respeitar a força da manifestação popular e só acho tudo muito engraçado. Mas muito engraçado meeesmo. Tão engraçado que... amo o Carnaval de novo. Afinal, em que outra festa pop a gente tem a chance de ver tanta comédia num espaço de quatro dias? Vai dizer que você não vê graça...

Nos samba-enredos
Essas músicas são realmente ímpares, a começar pelos títulos, que nunca têm menos de doze palavras. Depois, segue-se uma combinação de versos básicos, como viajei/voei/naveguei; a fim de encontrar a alegria/uma ilusão/um sonho; hoje é festa/folia/Carnaval; e eu sou verde e rosa/gavião/padre Miguel.

Quer saber? Ao invés de ficar aqui falando, vou exemplificar. Prepare a fantasia (mesmo que atrasada) para cantarolar o samba-enredo do Garotas!

Garotas que Dizem Ni: A Evolução de Três Moçoilas na Rede Mundial de Computadores Revivendo o Eldorado dos Anos 80 e Outras Cositas Más
(Compositores: Ben Sobel… Leone/ Sammy the Schnnaz/ Benny the Groin/Elmer the Fudd/ Tubby the Tuba)

"Alô, comunidade Ni! Chegou a nossa hora! Chora, cavaaaaaco!

É com pesar
O desemprego está aí (ô, está aí)
Fez das meninas
As Garotas que dizem Ni
(Repetir duas vezes esta estrofe, só no cavaquinho)

(entra bateria)

Viajei (voei, voei, voei)
Para encontrar uma ilusão (ô, uma ilusão)
No milagre da internet, as idéias em disquetes
Um mundo se descortinou

Na tela, do seu computador (ôo, ôo, ôo)
Uma nova esperança brotou
Pintando de rosa a avenida
Nesta festa popular, no afã de relembrar
Vem sambar e vem teclar... vamos brincar

Refrão:
Tem Pogobol, Susi e Ken,
A Barbie diz que não vem (ôo, ô, ôo)
Pula Pirata e War,
Cadê meu Scotland Yard?
Quero o meu também!

Hoje eu sou anos 80
O Garotas arrebenta (didididi-diz!)
Na Sapucaí!"

Viram como é fácil?

Depois dessa, vou é esquentar os tamborins e deixar o resto das minhas alegorias sobre o Carnaval para amanhã. (Ei, eu me esforcei para soar mais óbvia e mais chavão que os comentaristas dos desfiles!)

Como diria sêo Silvio, o homem, o mito, a lenda, o intérprete de "A Pipa do Vovô Não Sobe Mais": aguardemmm...

Clara McFly às 05:31 PM


De menino???

Gente chata tem mania de botar gênero na diversão. Quando eu era garotinha, vinham sempre com aquela história de separar tudo em “coisa de menino” e “coisa de menina”. Meu kichute era tachado como tênis de garoto. Vibrar com o jogo de fubeca não era modo de uma mocinha se portar. Até na hora de ver tv tinha um pessoal aborrecido para dizer que eu via “programa de moleque”!

É um pensamento muito ultrapassado achar que meninas não podem adorar uma boa cena de batalha sangrenta ou uma saraivada de tiros certeiros. Eu adoro ser uma garota. Tenho mais saias do que qualquer coisa no guarda-roupa, coloco fitas no cabelo, vejo filmes românticos... mas sempre fui capaz de apreciar um belo gancho de direita. Ah, sim: eu curto luta também. Confirmo mais abaixo.

Mas lá por volta dos 80, o mundo parava de rodar mesmo quando Richard Dean Anderson entrava em cena na tv. Não sabem quem é esse moço? Pudera. Aqui (como no resto do globo), ele era apenas o MacGyver. Apenas? Não! MacGyver não combina com “apenas”. Ele era um gênio. Virou piada porque criava explosivos com uma barra de chocolate e dois clipes, mas isso só lhe dava brilhantismo extra.

O que mais uma pré-adolescente podia querer? Assistir o bonitão filantropo explicar seus truques químicos, físicos e biológicos era de fazer vibrar. Revi a série no último fim de semana e agora tenho certeza: MacGyver podia escapar de qualquer buraco usando um rodo e um chumaço de algodão embebido em álcool. Nem aquele cabelinho infame me faria gostar menos do safado.

Por falar em safados, nenhum escapava de John Baker e Frank Poncherello. Sob suas motocas, eles mantinham a lei e a ordem nas estradas. Mantinham também os meus olhos grudados na tv – sempre imaginando se era melhor esquecer a idéia de ser bombeira, virar a casaca e me tornar policial. Não sou nem um, nem outro. Mas ganhei um capacete do “Chips” muito bacana! E daí se era acessório de menino? Ficou ótimo na minha cabeça de princesa...

Além do Ponch – mais esquentado e corajoso que o John Baker –, um outro rapaz da telinha ganhava a torcida dessa que vos escreve. Era o Murdock. Do “Esquadrão Classe A”. Sim, aquela mesma série onde a estrela era o B.A., seu penteado moicano e suas correntes douradas. Acontece que o Murdock era louco e muito, muito engraçado. Depois que o ex-capitão foi considerado insano irrecuperável pelas forças armadas do Tio Sam, apaixonei de vez por ele e pela série. Ninguém criava uma confusão como o Murdock!

O pior/melhor das minhas “manias de menino na tv”, com certeza, era ver aquele “Gigantes do Rinque” em versão norte-americana. Mãe, tias, avós... nenhuma deixava de fazer comentários ácidos sobre minhas gargalhadas com a luta-livre-de-mentirinha. Era um engodo, mas eu torcia pra valer. E morria de rir quando o Gaiteiro levava voadoras fajutas do Nicolai, o Russo, ou do cara vestido de gorila! Ah, vai dizer que acompanhar essa cena hilária é direito só dos meninos? Nem pensar.

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Eu queria ser do Esquadrão, oras
Fla Wonka às 12:34 PM


Murphy, o folião

Quando entrei no carro na última sexta-feira a caminho de uma curta porém bem-vinda viagem de feriadão carnavalesco, não sabia que no banco de trás, entre a malinha de apetrechos fotográficos e a pilha de CDs para embalar 400 km de estrada, estava sentado um cidadão chamado Murphy. Invisível, econômico no espaço e muito quietinho, Murphy bem que poderia enganar com sua presença quase imperceptível. Quase.

Comecei a desconfiar que havia uma terceira pessoa no automóvel – e que essa terceira pessoa era o Murphy, cuja famosa e infalível lei dita que “se alguma coisa pode dar errado, ela vai dar” – logo na garagem no prédio. Após fazer a revisão mental da listinha básica para quem vai ficar fora de casa alguns dias (Fechei as janelas? Desliguei o gás? Tirei tudo da tomada? Botei as plantas na varanda?) e organizar nos bancos as duas malas, a mochila, a bolsa e a malinha de fotografia, o carro não quis dar a partida.

Depois de vinte tentativas e algumas centenas de xingamentos, um funcionário do prédio veio nos ajudar a empurrar o veículo nos dez metros quadrados de garagem, para ver se pegava no tranco. Pegou, e seguimos o trajeto até a estrada, passando por quilômetros de congestionamento. Pensei “bem, foi somente um fato isolado, agora tudo vai dar certo”. Tadinha de mim.

Na estrada, logo na saída do primeiro pedágio, um tira nos sinalizou para encostar. Uma das lanternas do carro estava com a luz mais fraca que as outras, e isso poderia atrapalhar o trânsito e causar acidentes, explicava o policial, enquanto 590 chevettes estourados, kombis suspeitas e monzas rebaixados passavam voando por nós. Levamos luz na cara, abrimos as malas, levantamos bancos e assinamos uma advertência.

O restante da viagem foi castigado por muita chuva, neblina, trânsito, um acidente grave que atrasou tudo. Também nos perdemos um pouco – o Guia de Ruas de São Paulo não tinha eficácia lá, ufa – mas seguimos bem até a cidadezinha na serra do Rio de Janeiro, chegando de madrugada.

Achamos o hotel, intitulado Casablanca. Tocamos a campainha. O funcionário veio e demos nossos nomes. Não, nenhuma reserva lá. Como havia outro hotel Casablanca (essa criatividade me mata), o solícito homem fez uma ligação para lá. Também nada de reserva. Duas horas de ligações, explicações furadas, xingamentos para o agente de viagem que embolsou nosso dinheiro rapidinho mas não fez reserva alguma e mais o cansaço da viagem nos fizeram ficar aquela noite lá mesmo. Amanhã seria um outro dia.

Acordamos após algumas poucas horas de sono no quarto mais fedido do mundo. Descobrimos com certo alívio que o nosso hotel era o outro, e que o agente de viagem pagaria por aquela noite extra. Menos mal. Seguimos para o verdadeiro hotel e entramos no segundo quarto mais fedido do mundo, porém o mais barulhento de todos. Um banho no banheiro mais decrépito das redondezas e pronto, vamos ver a cidade!

O dia foi agradabilíssimo e achamos que Murphy havia nos abandonado para assombrar a tranqüilidade de outro casal. À noite, resolvemos visitar uma cidade vizinha para jantar, e paramos no caminho num posto policial para pedir informações turísticas. Voltando ao carro... bem, ele não quis pegar. Não quis MESMO.

Todas as tentativas de ressuscitá-lo foram em vão. Ligamos para o seguro em São Paulo, explicamos o fato e pedimos uma assistência, pois devia ser a bateria e uma carga já ajudaria. Uma hora depois, um rapaz chegou. Ele examinou o carro e soltou aquela interjeição temida em casos assim: “Xiiii...”. Segundo ele, não era bateria. Era algo mais grave. Ligamos de volta para o seguro e, depois de algumas horas (literalmente) de discussões, o rapaz foi pegar o guincho para levar nosso carro até uma concessionária autorizada.

Uma hora depois, o guincho chegou. Preparou-se tudo e, na hora de empurrar o carro para o caminhão, ele pegou. Juro. Porém, como já havíamos solicitado o guincho e o veículo estava tendo sérios problemas de comportamento, seguimos assim mesmo até a concessionária. Que só ia abrir na quinta-feira (hoje).

Bem, o carro seguiu pegando ou falhando, dependendo única e exclusivamente de sua própria vontade mecânica. Aproveitamos o passeio, mas o fantasma de ficarmos presos em uma cidadezinha adorável a 400 km de casa não ajudou muito. Tentamos não ligar para o cheiro de mofo do hotel, para o leite cheio de nata no café-da-manhã, para o insuportável desfile de carnaval debaixo de nossa janela e para a televisão que não pegava direito. Decidimos enfim voltar um dia mais cedo, torcendo para que Murphy não percebesse a mudança de planos.

E depois dessas férias frustradas, era bom eu mudar de sobrenome. Só para garantir o outro feriadão.

Vivi Griswold às 10:11 AM

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2004

Histeria ao cair da tarde

6:49 de ontem. Sentada na redação, à procura de notícias sobre a chuva que varreu a região da Ricardo Jaffet, avenida de Sampa que fica no meio do meu caminho para casa, sintonizo na Record. E eis que se descortina à minha frente o maravilhoso mundo do "Cidade Alerta", apresentado por Lino Rossi (ex-"Cadeia Neles", um dos melhores humorísticos da TV brasileira).

A cobertura no ar é sobre uma ameaça de bomba na zona norte, perto do Cemitério da Vila Formosa. Uma repórter sobrevoa o local, focalizando uma rua e encontrando "objetos suspeitos" a cada saco de lixo. Ao fundo, há comentários tão edificantes como "o GATE está trabalhando para ver se ali há alguma… coisa que exploda". Genial. Mas tudo bem, fazer cobertura ao vivo é mais difícil que achar alguém que já tenha jogado Banco Imobiliário até o final.

Ela troca comentários com o apresentador, que está em terra firme, nos estúdios da emissora -- ou seja, deve estar mais calmo. Ou pelo menos deveria. Ele diz que o GATE levou para o local um "robozinho", termo meio constrangedor para um equipamento tão moderno da polícia.

Enfim. O tal "robozinho" é retirado do carro e vai na direção do objeto, que está em frente a um portão onde, devido ao corte da câmera, lê-se em letras garrafais: "… ilaria e pintura". Não precisa ser gênio para descobrir que ali é uma oficina de funilaria e pintura. Mas o apresentador tasca um: "olha aí, o pacote suspeito está em frente ao comércio do "pinDura". Juro.

Impávido, o robô continua. A rua já está escura e há apenas a iluminação vinda da máquina caça-bombas. E somos brindados com a pérola: "olha que imagem impressionante!", sendo que a tela está toda preta, salvo por um ponto de luz (!).

Sem querer criar pânico, o apresentador comenta que estranha a presença de dois carros dos bombeiros no lugar. "Afinal, o corpo de bombeiros é um corpo estranho ali". Ainda estou tentando entender a declaração. Outro repórter explica: "Caso haja incêndio se houver uma explosão, os bombeiros já estão por ali". Ah, vá?!

A operação continua e o Robozinho Camarada vai tirar um raio X do pacote. Decido que é melhor enfrentar a chuva e o trânsito do que esperar por algo pior.

* * * * * * * *

É Carnaval…

… é a doce ilusão, é promessa de vida no meu coração. O quê? Você não curte a saturnália? Ok, então aproveita para entrar no recém-nascido Fórum do Garotas e trocar idéias com a gente e com outros leitores!

Ah, você gosta sim de Carná? Tudo bem: entre um isquindô e outro, dá um pulo aqui para se divertir do mesmo jeito. Só não tem a Globeleza.

Clara McFly às 05:16 PM


A Derrocada

A história é contada e recontada pelos mais velhos às crianças. Não é uma fábula singela, daquelas com finais felizes. Quem, afinal, poderia apreciar a total perda de controle de três garotas jovens, bonitas, trabalhadoras e com toda uma vida pela frente? Uns dizem ser lenda, outros que é a mais pura verdade – e um retrato exato e cruel de como uma eleição pode determinar o futuro.

Antes de dizer a verdade sobre os fatos, é bom que você, leitor, saiba: a narrativa já espalhou muita dor e tristeza. Mas vamos ao princípio. Essa é a história de como uma animada aventura rumo à vitória no famoso prêmio da internet brasileira terminou mal para as tais Garotas que Dizem Ni.

Chegou a sonhada noite da premiação – e o veredicto dos usuários da rede, bem como de juízes e críticos, foi duro: o trio que criou em 2003 um rosado, bem-humorado e despretensioso site não sagrou-se vencedor. As meninas não contiveram o choro ao saber disso. Na mesma hora, decidiram não mais sofrer e puseram fim àquele projeto. Despediram-se friamente e juraram em silêncio nunca mais se encontrar. Daí por diante, o cenário tornou-se deprimente.

Clara passou a fumar três maços de cigarros por dia (sem filtro). Perdeu o bom-humor que lhe era tão peculiar, e deixou até de sorrir com as sessões de descarrego organizadas pelos 318 pastores da televisão. Com a falta de dinheiro, teve de vender seu amado veículo, o Deep Purple – e o carrinho passou às mãos de uma loira oxigenada que fazia bico vendendo filtros de água em domicílio. Clara entrou em uma depressão tão insana que começou a ter sonhos persecutórios e a ficar violenta. Devido ao sórdido efeito do fumo e aos ataques de cólera, foi encaminhada a uma fria e isolada casa de repouso em Itu. Hoje, segundo enfermeiros, ela fuma escondida na despensa todas as noites enquanto repete à exaustão: “merecíamos ganhar, sim, merecíamos”.

Vivi não conseguiu manter o otimismo de sempre. Não vendo mais meios de ser feliz fazendo o que tanto gostava, escrever, decidiu tomar uma forte dose de realidade. Arrumou emprego como operadora de telemarketing no centro de São Paulo. Como o salário era mínimo e atrasava todos os meses, ela deu a beber. Primeiro cerveja, que antes detestava, e depois destilados de baixa qualidade. Com o vício, veio a sensação de estar sendo constantemente seguida por homens encapuzados e monitorada por ETs. Na última notícia que se teve da garota, ela havia sido presa por agredir um policial enquanto causava desordem em uma lan house. Em meio aos jogadores de Counter Strike, a ruiva bradava em prantos: “foi tudo parte de uma conspiração!”.

Anunciado o resultado da disputa, Flá não agüentou a pressão acumulada em tantos meses de trabalho árduo. Perdeu o juízo que fora sua marca registrada e apostou seu apartamento em um Bingo. Derrota... Sob uma das mais antigas pontes da Marginal Tietê, improvisou uma cobertura de zinco. Ali, para se aquecer – e tentar esquecer o passado –, queimou o CD dos Saltimbancos, sua camiseta do Charlie Brown, oito cartuchos de Atari e uma cópia autografada de “O Escaravelho do Diabo”. Alguns transeuntes bondosos lhe entregavam, vez por outra, uma quentinha com arroz, feijão e bife à milanesa. Não bastava. Ela alimentava o corpo, mas a alma mantinha o pensamento recorrente. Num caderno puído, anotava sem cessar: “injusto, injusto, injusto”.

A única boa coisa sobre essa história é que ela AINDA não aconteceu. Não quer que aconteça – e que nossas modestas vidinhas virem um telefilme da pior categoria? É só votar aqui e nos levar até a conquista do iBest! Desde já, eu agradeço. Sabe como é... Odiaria queimar meu CD dos Saltimbancos para espantar o frio...

* * * * * *

Antes que tudo desmorone...
... você devia se registrar lá no nosso Fórum. Nem consigo traduzir em palavras como o pessoal está escrevendo mensagens bacanas e hilárias! Antes que o sonho acabe, é bom aproveitar a chance de fazer amigos batutas e deixar recado para três garotas AINDA sadias e felizes.

Fla Wonka às 01:12 PM


Promoção e pramocinha!

Todos nós gostaríamos de ganhar um carro 0 km. Ou uma casa na praia, de frente para o mar. Ou um home theater, um cheque no valor de 100 mil reais e uma maleta cheia de barras de ouro (que valem mais que dinheiro). Ainda assim, faz uns bons anos que eu não me arrisco a preencher cupons, trocar embalagens ou juntar códigos de barra. Os prêmios ficaram mais valiosos, claro. Algo, porém, mudou.

Acontece que as promoções modernas que sorteiam itens caros não me atraem por uma única razão: sei que não vou ganhar. É muita gente participando, muito pedacinho de papel a ser sorteado. Outra mudança para pior foi a inserção de dinheiro na jogada. Na época da febre dos bichos de pelúcia da Parmalat, por exemplo. Você precisava de uns 20 códigos e mais uns 10 reais. Pôxa, só os 10 reais já pagariam um brinquedo safado daqueles, made in Taiwan, né?

Bom mesmo eram as promoções dos anos 80. E eu encho o peito de orgulho para dizer que participei de todas!

A única coisa que precisávamos fazer era convencer a mamãe a comprar uma determinada marca de produto e não outra. Chegar em casa e roubar a embalagem, responder uma frase boba ou fazer um desenho. Daí, era só botar no correio e esperar o brinde, inteiramente grátis, chegar em casa. Ou então, o brinquedinho poderia ser adquirido nos postos de troca do próprio supermercado. Sem sorteio. Sem burocracia. Sem dinheiro a mais – ou muito pouco.

Uma das coisas de que eu mais gostava na infância era o chocolate Surpresa. Além de ser uma delícia (fininho, retangular e escuro, hmm), ele era muito divertido. Quando abria a embalagem marrom, que sempre mostrava um tigre, lá estava um cartão com a foto de algum animal. Atrás, toda a descrição do bicho, como habitat natural e outros dados. Daí, era só juntar algumas embalagens, mandar para um endereço e eles enviavam o álbum para colar as figuras. Eu completei vários.

A promoção mas fácil era mesmo a dos picolés Frutare em época de verão. A Kibon espalhou palitos premiados por todos os cantos. Se você achasse um deles, poderia trocar por outro picolé, inteiramente grátis. Mas eu ainda desconfio que todos os palitos eram premiados, porque ganhava sempre!

Já a promoção mais difícil da qual participei foi a da margarina Claybon. O melhor desenho daquela menininha irritante, segundo o anúncio no gibi da Mônica, ganhava um mini-bugue. Não consegui. Mas ouvi falar de quem ganhou: um garoto que virou gozação da rua toda porque o carrinho era BEM feminino.

Outras promoções que bastavam juntar embalagens para ganhar o brinde eram a da gelatina Royal (lembra da carteirinha de sócio do Clube do Bocão?), a do caldo Maggi (o prêmio era uma galinha azul de plástico que botava ovos – eu tive essa por muitos anos!) e as da Coca-Cola. Quem não teve pelo menos um daqueles ioiôs da Fanta? Ou do finado e saudoso guaraná Taí?

Mas nada chegou aos pés da Mini Coke, que a marca de refrigerantes recentemente tentou relançar (numa cópia bem ruim, é bom dizer). Durante os anos 80, se minha memória não falhar a esta hora da manhã, houve duas promoções. A primeira tinha como brinde as pequeninas garrafinhas de Coca-Cola. A segunda, porém, entrou no clima das Olimpíadas de Seul (1988?) e cada uma das miniaturas vinha com o escrito em uma língua diferente. Ah, como esquecer da Koka-Kora?

minicoke.jpg
Promoção boa é isso aí!
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Outro desse, só na próxima quinta!
Devido ao feriado de Carnaval que se aproxima, estas três mocinhas vão colocar os dedinhos de molho e a cachola em recesso. Nos vemos então na próxima quinta-feira, se o Rei Momo permitir.

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Mais divertido que ligar pro Bozo!
O quê? Você ainda não faz parte do Fórum do Garotas? Não espere mais para juntar-se com os 130 malucos que estão lá conversando e brincando adoidado! Deixe de timidez, hein? Vejo você lá!

Vivi Griswold às 10:08 AM

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2004

Bico de tucano e mulheres guerreiras

Há duas noites acordo o namorido com a tradicional expressão "Ei, já dormiu?" (usada por pessoas que sabem que seu interlocutor já dormiu, sim, mas acham que essa é uma maneira simpática de acordá-los) para dividir com ele uma dúvida que não sai da minha cabeça - e está tirando meu sono.

Sempre fui uma criança xereta, rainha dos porquês?, e me considerava a versão de saias do "Marcelo Marmelo Martelo". Acho que algo desse passado escarafunchador permaneceu, mesmo após tantas primaveras. Ultimamente, não consigo parar de pensar por que o Amazonas se chama Amazonas.

Já notei que as pessoas não têm muita criatividade para batizar lugares. Debruçada apenas sobre o nosso querido país, percebi que os nomes dos estados da federação se dividem em categorias mais simples que as dos textos do Garotas: os nomes sempre vêm de origem indígena (Paraná, Pará, Goiás), se referem a alguma característica geográfica do lugar (Alagoas, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e do Norte), têm cunho religioso (São Paulo, Santa Catarina, Espírito Santo) ou homenageiam pessoas importantes (Rondônia).

Mas esse não parece ser o caso do Amazonas, já que a palavra não vem da língua-mãe dos nativos - é bem mais antiga que isso, remontando à lenda das mulheres guerreiras que se encarapitavam em cavalos. Tampouco presta homenagem a nenhum santo ou figurão, nem tem origem geográfica.

Quer dizer, tem se considerarmos que o pedação imponente de terra tirou seu nome do generoso rio. Mas voltamos ao começo: quem deu esse nome ao riozão, já que a regra para dar a graça desses locais também segue as quatro regrinhas básicas descritas acima?

Por fim, percebi que acordar o namorido uma terceira noite com esse papo podia ser caso de demissão com justa causa - ou divórcio por diferenças irreconciliáveis. E decidi fuçar na net.

Descobri que nem os "hômi da pesquisa" sabem direito, que dirá eu, uma pobre mortal! Há três teorias: uma dá conta de que o espanhol desbravador Orellana viu à margem do rio um grupo de mulheres guerreiras - e deu a graça ao caudaloso. Também, pudera. Três ou quatro meses num navio fedido, só com homens e tomando sol no côco fazem você ver qualquer coisa.

Um senhor chamado Lokotsch diz que vem de amasuru, que quer dizer "águas retumbantes". E o historiador alemão Hans Schull Krutz diz que Amazonas vem de amas, que significa "água", e uoná, que quer dizer "a dar com pau até onde a vista alcança per secula seculorum amem". Ok, essa última eu inventei. Viram como é fácil? Mas as duas primeiras são verdadeiras - e eu fico com a do tio Lokotsch. É mais poética.

Achei também outras coisas interessantes: Acre não tem nada a ver com medida de terra, mas sim com uma touca de penas que os índios de lá usavam, chamada aquiri. E Tocantins, que eu acho o nome mais bonito dos tecos de território desse Brasilzão, significa bico de tucano e dava nome a uma tribo local.

Já Mato Grosso me parece um nome injusto. Dá a impressão de que o estado é um grande terreno baldio, o que não podia ser mais inverídico. Lá tem o Pantanal, coberto de matão, sim, porém salpicado de coloridos lindos dos passarinhos, das flores e das onças – eu vi muito bem tudo isso na interminável "Pantanal", com a Juma Marruá que virava felina e o Véio do Rio, que virou sucuri.

Enfim. Continuo querendo saber porque diabos o povo não foge da regra e inventa uns nomes bem inventados mesmo, do tipo Istclaretchibum ou Mabadzim-Parabã – que não queiram dizer absolutamente nada – na hora de pôr chamamento num lugar. Ia ser divertido. Duro seria, depois, encontrar um adjetivo-pátrio razoavelmente pronunciável para uma criatura nascida ali…

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Simplesmente um luxo

Tá à procura de um lugar cheio de gente bonita e bem-lançada, que se diverte gastando os tubos e anda sempre na estica? Então, vá ao "Flash" do Amaury Jr. ou seus genéricos.

Agora, se quiser diversão de verdade, boa e barata feito bala 7 Belo, clica aqui para participar do sensacional Fórum do Garotas, que já conta com mais de uma centena de outros doidos! Corre!

Clara McFly às 05:06 PM


Segurança pra que te quero

Com a chegada do feriado de carná, já estou ficando careca de tanto receber conselhos. E olha que meu cabelo tem mais volume que um urso pardo. É um batalhão de gente na tv dizendo que devemos economizar, usar, preservar, beber (água), não beber (água que passarinho não toma)... já estou ficando doidinha. Quando nos tornamos pessoas assim tão previdentes?

Há questão de duas décadas, não lembro de uma só campanha de conscientização rolando na telinha em véspera de Carnaval ou qualquer festa pagã. Pelo contrário! Todo publicitário espertalhão aproveitava a época para incentivar o povo a cair na farra, enfiar o pé na jaca, descabelar o palhaço e praticar todas essas metáforas safadas – consumindo muito, claro.

Daí, não sei como nem por quê, viramos gente ciosa. Por exemplo: nos carnavais da década de 80, quando viajávamos, o carro era como um trio elétrico soteropolitano. Papai ia ao volante, tentando se concentrar na estrada. Nós, os pentelhos, íamos cantando e badernando no “chiqueirinho”, vulgo porta-malas da Caravan. Cinto de segurança? Nem em sonho. Pra dizer a verdade, eu ia mesmo é no banco da frente, no colo da mamãe, brincando de contar postes.

Lembro que, quando era bem pequena, meus pais fumavam. Na nossa frente e na nossa cara. Isso não fez de mim ou dos meus irmãos chaminés em formato humano – mas também não deve ter causado lá muito bem aos pulmões. Hoje, atitudes desse tipo estampam a traseira do maço de cigarro, ó que coisa.

Alcançado o destino da viagem, a segurança não melhorava em nada. Quase sempre íamos para a Praia da Enseada, no Guarujá, onde minha madrinha tinha um apê, ou para o sítio da família. Tenho certeza: foi por conta desses dias festivos que eu tenho rosto sardento. Eram horas e horas e mais horas de sol no coco.

Protetor solar era piada: ou nos lambuzavam com um creminho fajuto e não testado dermatologicamente, ou aplicavam a camada grossa de Hipoglós no narigão. Só que, nessa altura, o estrago já estava feito. Depois de ficar de manhã até a tarde sob os efeitos do astro-rei, não tinha ungüento capaz de me tirar a dor de queimado. Ai, meus ombrinhos...

Pior que isso, só lembrar da minha irmã passando coca-cola no couro para pegar um bronze. Ou apelando ao Rayto de Sol, meleca paraguaia e com cheiro de chocolate que causava queimadura de segundo grau em 30 segundos. Devia ser ótimo para fritar bifes, e melhor ainda para assar gente.

A dieta, nos dias de folia, era leve e saudável. Há! Até parece!!! Nenhuma mãe estava a fim de cozinhar pra 12 crianças gritalhonas! Tudo funcionava era na base do macarrão, salsicha, ovo preparado de todas as formas, sanduíche de presunto e queijo a granel e refri. Ingerir muita água contra a desidratação e saladinhas para não causar indigestão? Isso só foi avisado uns dez anos mais tarde.

Nesse Carnaval eu vou viajar e levar chapéu para proteger a cabeça, filtro solar fator 20 e uma garrafinha de água mineral a tiracolo. Vou ser atada ao banco do carro pelo cinto e dirigir devagar, sem beber nem costurar o tráfego – e de vidros fechados, pra evitar assalto. Não vou gastar água com banhos de mangueira, não vou largar lixo onde não devo e nem cair na farra com estranhos.

Aceito tudo isso – e vocês deveriam aceitar também –, mas confesso ter uma micro-saudadinha de quando éramos irresponsáveis e não ameaçados de tantas formas... Será que, no futuro, vamos passar o Carnaval embalados a vácuo? Opa! Falando nisso, não me vão esquecer a camisinha, hein?

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So Happy Together!

É nome de música, sim, e de música que eu adoro. Mas traduz perfeitamente o que vem acontecendo lá no nosso Fórum! Caramba, como vocês leitores são legais... Que orgulho!! Mais de 90 pessoinhas registradas e escrevendo mensagens sensacionais! Obrigada por isso?

Agora só falta recomendar aos amigos. Sabem como é: quanto mais bacanas reunidos, melhor é a farra!

Fla Wonka às 12:25 PM


Manda a conta pro tio do cogumelo

Imagine um programa vespertino da tevê. Comandados por apresentadores disk-Mirtes que adoram uma fofoca e ensinam truques como “não deixar a mão cheirando a alho depois de temperar o bife”. As atrações do programa são uma taróloga que passa um ritual de prosperidade, além de professores dando aulas de lambaeróbica, de como fazer imã de geladeira de biscuit e amaciante de roupas caseiro. Agora imagine se algum empresário gostaria de ter seu produto vinculado a um programa desses. Claro que não, você pensou. Mas pensou errado.

A verdade é que esses programas possuem uma audiência muito restrita – e, portanto, baixa. Então por que eles estão no ar, diariamente, desde que a Lolita Rodrigues cantou o hino da televisão em 1950? Porque existem empresários (ou “merchand”, segundo Clodovil) que botam dinheiro no cofrinho deles.

Os produtos que não possuem capital para investir no intervalo da novela das oito, nem para fazer comerciais hilários como os da Polishop, acabam aparecendo numa bancada tosca em algum canto do cenário e se acotovelando com panelas, sachês de tule e arranjos florais.

Entre os maiores colaboradores do alto nível da televisão vespertina brasileira, estão:

Cogumelo do Sol
E eu que achava que cogumelos – fungos em geral – não gostavam de sol, e sim de lugares úmidos e escuros. O Cogumelo do Sol é um produto vendido por um tiozinho japonês chamado sêo Kimura que promete, para quem consome o produto, uma vida melhor: sem pressão alta, sem sopro no coração, sem diabetes, sem... enfim. Um frasco com 120 comprimidos sai por R$ 152,00. Faça as contas: 1 real e 25 centavos por cada bolinha de cogumelo desidratado! Mais caro que o shitake na manteiga do Nakombi!

Disk Bijou
Quer ganhar muito dinheiro fazendo bijuteria? Não, né? Mas tem gente que quer. Tanto que o Disk Bijou vende horrores o Kit para Principiante (que vem com miçangas, alicate “especial” e um vídeo de “como enfiar miçangas em seqüência num fio de náilon, dar um nó e botar no pescoço”). Depois, você também pode adquirir o Kit Profissional (com mais miçangas e um vídeo de “como enfiar miçangas em seqüência num fio de náilon, dar um nó e botar numa Havaianas”). Infelizmente não achei o preço. Pena.

Pomada Minâncora
A tal pomada é tão clássica quanto Leite de Rosas, Desodorante Alfazema, Sabonete Phebo, Biotônico Fontoura e Hipoglós. Ler as indicações do creme é como ler a letra daquela música “O Pulso Ainda Pulsa”, dos Titãs. O negócio serve para qualquer mal, desde espinha no rosto e calo no pé até para dores musculares, furúnculos e lepra! Bacana que a caixinha milagrosa, ao contrário dos outros produtos vendidos apenas por telefone, é encontrada em qualquer farmácia de bairro. Bom saber, né? Qualquer coisa...

Colchão magnético Kenko
Você conseguiria dormir tranqüilo e ainda ter bons sonhos deitado em um colchão que possui um monte de imãs? Segundo o fabricante, outro tiozinho japonês (deve ser o vizinho concorrente do sêo Kimura), dormir com esse campo magnético faz bem para as costas, dor nas juntas, reumatismo, ossos fracos. Vendeu tanto que ele lançou também uma palmilha magnética para enfiar nos calçados, travesseiros magnéticos e capas para assentos de carro... adivinha... magnéticos. Haja imã no planeta.

Chapinha e Revo Styler genéricas
Como o grosso da audiência dessas atrações é composto de mulheres, produtos que prometem o embelezamento dos cabelos são o carro chefe dos “merchans”. Todo dia é o mesmo papo: aparece uma garota-propaganda (normalmente é a Celeste, aquela do programa “Tutti-Frutti” e que hoje tem um restaurante por quilo na Aclimação) exibindo o produto ao vivo nas próprias madeixas. Essas devem ganhar bem e ter um bom plano de saúde. Não há trabalho mais insalubre do que testar as geringonças ao vivo!

Jarra Termomagnética MD
Os fabricantes da jarra termomagnética devem disputar a tapa os imãs com o tiozinho japonês dos colchões Kenko. É muito produto para pouca matéria prima! A jarra faz a água ficar “imantada” e, segundo a narração, isso é bom – alguém aí arrisca? O anunciante jura também que é fácil de limpar. Por deus, é um pote de plástico azul, claro que é fácil de limpar! Nada que uma bucha e um detergente não resolvam! Ah, e comprando um exemplar, você ainda ganha uma linda gargantilha banhada a ouro... Tô ligando já!

Coleção Os Maiores Sucessos de Todos os Tempos – Volume II
Quero saber quem foi que decidiu quais são os maiores sucessos de todos os tempos. Isso sim é emprego bom, eu quero! Pior é que, baseada nas faixas do Volume I e do Volume II, que colocam hits distintos como “Silent Morning” do Noel, “Is This Love”, do Bob Marley, “Piano In The Dark” da Brenda Russel e “Surfin’ USA” dos Beach Boys, o negócio é bem eclético. Portanto, há tantos sucessos por aí, segundo eles, que podem encher até 2.769 CDs! Isso ainda vai patrocinar muito programa vespertino, pelo visto.


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O último que chegar é mulher do padre!
O Fórum do Garotas está a mil por hora! Mais de 80 leitores já estão lá se divertindo, comentando os textos, lembrando da infância, divulgando seus blogs, contando piadas e fazendo amigos. Você não vai ficar fora dessa, vai? Venha brincar também! É legal e nem machuca!

Vivi Griswold às 10:06 AM

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2004

Eles corriam por fora

Além da lista tradicional, onde constavam coisas como folhas de sulfite, papel almaço (alguém usa isso depois de sair da escola?), cadernos de brochura e lápis variados, havia uma classe de objetos que nunca fizeram parte do rol de materiais escolares – pelo menos não explicitamente. Mas eles estavam sempre lá.

Alguns eram inofensivos, outros faziam as prôs (tias, no meu tempo) arrancar os cabelos em desespero e tomar todos os exemplares existentes na classe, para devolver só na hora do recreio - ou, dependendo da brabeza, só na saída. Populares, eles eram nossos queridos "objetos escolares paradidáticos", por assim dizer.

A sacolinha de material alternativa contava com companheiros inseparáveis, que faziam as vezes de pokémons da época (eram fiéis ao seu dono e existia uma competição velada de quem os dominava melhor), como…

A desengonçada mola
A brincadeira era segurar uma ponta do rolo em cada mão e ficar jogando para lá e para cá. Nas escolas com escadarias, a diversão era maior: era só colocar as tais no último degrau, dar um puxãozinho e olhar a mola descendo as escadas. Uma variável era fazer competições e ver qual chegava lá embaixo primeiro.
Grau de nocividade: zero, a não ser quando a mola se desconjuntava e pegava o cabelão de alguma amiguinha.
Top de linha: molas coloridas feito o arco-íris, que criavam interessantes efeitos visuais ao serem manejadas.

O incompreensível fluff
Uma bola de pêlos de borracha (?!), os fluffs viraram febre logo que entrei no ginásio. A família fluff contava com representantes de toda cor e tamanho: tinha os originais, os menores, os chaveiros… O meu era roxo-tinky-winky. Era gostoso ficar jogando aquilo para cima ou simplesmente segurando aquele mini-primo It entre as mãos.
Grau de nocividade: dependia de quem estava com o objeto. Os meninos costumavam arremessá-los contra a gente, o que era bem danoso.
Top de linha: qualquer um que não soltasse os pelos borrachentos loucamente.

O histérico chaveirinho multi-sonoro
Aparentemente inofensiva, a micro-caixa preta podia ser encontrada nos melhores vizinhos muambeiros e era capaz de parar as aulas. Facilmente muquiável, continha um punhado de botõezinhos que desencadeavam efeitos sonoros, como uma bomba caindo ou um telefone tocando, entre outros sons estranhos.
Grau de nocividade: de zero a dez, onze. Meninos malcriados viviam acionando os barulhinhos quando a prô estava escrevendo na lousa.
Top de linha: ter um desses brinquedos eletrônicos já era o suficiente… Mais eletrônico que isso, só um Atari ou o Pense Bem.

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Quem quer brincar de Fórum põe o dedo aqui!

Vivi anunciou a novidade aos primeiros raios da manhã; Flá confirmou depois do almoço e eu ratifico: o Fórum do Garotas está no ar!

Brincar é fácil fácil: clique, siga as instruções para se cadastrar e pode começar a soltar o verbo - ou os dedos no teclado. Não se avexe: dê uma chegada no lugar e partilhe esquisitices, memórias e gracejos com essas garotas que vos escrevem e, o que é melhor e inédito, com outros leitores do site. Vejo vocês por lá!

Clara McFly às 06:44 PM


Usuária de frascos e comprimidos

A grande vantagem do Garotas é que ele serve (e muito) para traduzir aquilo que acontece comigo, Vivi e Clarinha. Traduzir e exorcizar. Hoje, por exemplo, eu me encontro com febre, dor no corpo todo e a garganta fechada. Isso me impede de comer alimentos crocantes e de ser gentil com as pessoas – mas, em compensação, vai me inspirar para mais um texto oitentista e fazer esquecer a dor lancinante por uns minutos!

Acontece que, quando eu era menininha, ficar doente fazia parte do meu show. E muito. Bastava pegar uma friagem para contrair resfriado. Saía na rua, voltava com dois arranhões e uma cicatriz funda. Entrava o inverno, lá vinha a tosse me assolar. Estar rodeada por vidros de xarope, pílulas, gaze e curas milagrosas inventadas pelo papai, então, era normal.

De toda aquela sorte de poções curativas, algumas ficaram na minha mente para sempre. Os itens abaixo estão grudados da memória, mas espero não usá-los nunca mais. Não levem a mal, caros remédios do passado.

Óleo de fígado de bacalhau
Servia para... hum... para... sabe deus pra quê servia essa coisa ruim feito o capeta! Eu lembro é que, quase todo dia, minha mãe fazia eu e meus irmãos engolirmos uma colherada do líquido branquelo e horroroso – era bacalhau líquido, gostosinho não ia ser. Devia ajudar no crescimento. Ou para eliminar lombriga. Ou para nos torturar apenas, vai saber.

Álcool no lenço
Em dias como hoje, quando a gargantona parecia estar obstruída com um paralelepípedo, papai inventava essa lorota: derramava álcool num pano e amarrava no pescoço antes de me colocar pra dormir. Duvido que fizesse muita diferença, mas ficava quentinho depois de um tempo. E dava charme: eu me sentia uma cowgirl com o lenço pendurado e até esquecia a dor.

Mercúrio cromo
O da atualidade, em spray, incolor e que não arde, pode ser mais eficiente. Mas nada como desfilar entre os amigos com o joelho pintado de vermelho sangue – e com o sangue em forma de casca por baixo. Aplicar o troço doía como uma amputação sem anestesia, ainda mais com aquela redinha plástica do pincel raspando o machucado. Um martírio, mas a lembrança é bacana.

Violeta genciana
Servia para curar gente com berebas na boca, como a minha irmã, que sempre sofreu com aftas. Eficaz até parecia ser, mas quem tolerava ostentar o tom roxo-beliscão bem no meio da cara? Ir para a escola com isso era um vexame. Por isso eu corria até o quarteirão vizinho quando queriam me aplicar a violeta. A mim, ninguém tingia! Ok, só às vezes...

Água com sal no nariz
Rinosoro é coisa recente. No meu tempo (odeio essa expressão cada ano mais...), o único jeito de desentupir nariz gripado era enfiar ali uns bons pingos de água salgada. Dava a impressão de afogamento na praia do Boqueirão? Com certeza. Mas era melhor usar dessa artimanha caseira do que respirar pela boca uma noite inteira.

Inalação
Céus, como eu participei dessas sessões de tortura a vapor... Minhas crises de tosse eram ouvidas no bairro ao lado, então o jeito de acalmar o peito era usar Vic Vaporub e inalação. Tinha ódio de deslocar até a farmácia do Seo William para meter nariz e boca naquela máscara plástica que soltava fumaça. Vai ver é por isso que tenho bode de sauna até hoje.

Sarnapin
Só quem teve a cabeça dominada pelos piolhos e seus bebês, as lêndeas, sabe o que é um constrangimento público. Mas eu estudava em escola estadual, o que podia fazer? Pegar piolho, ali, era mais fácil que matar aula! Depois disso, era vez de amargar as aplicações de vinagre e do Sarnapin, remédio mais apropriado que o tempero de salada. Dura era a parte do pente fino. Ui! Prefiro a minha chata dor de garganta de hoje.

*Produzido com a ajuda de meu adorável namorido, que também abusou da boa vontade de farmacêuticos e afins...

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Nem a doença atrapalha a brincadeira!!!

Gente bacana do meu coração: conforme Vivi anunciou logo cedo, estamos cortando a fita de mais uma fase do Garotas. Agora o jogo chama-se “vamos fofocar com outros fãs do site rosado!”.

Nosso Fórum está no ar e já é permitido registro de todo mundo que quiser trocar idéias e outras estranhezas. A princípio, talvez alguns achem complicado de usar, mas podem crer: é fácil aprender, é divertido pacas e não custa nem um tostão! Tem uma molecada considerável se espalhando por lá nesse momento... Vai ficar de fora? Não, vai... larga a aspirina e vem fazer a cabeça doer de tanto recordar e gargalhar.

Fla Wonka às 02:50 PM


Alta temperatura, grande saudade

Às três horas da tarde de ontem, o termômetro digital da Av. Rebouças, de São Paulo, marcava 33 graus Celsius. Sabendo que a medição não é lá muito acurada, pensei em chutar a verdadeira temperatura. Devido às ondas de calor no asfalto, ao meu pescoço vermelho após 5 minutos de caminhada, à minha calça jeans ensopada e à vontade de querer sumir dali para o refrigerador mais próximo, arrisco dizer que a marca de 45 graus na sombra se aproximava mais com a realidade. Pelo menos, a minha.

Como uma representante dos dois terços deste sítio rosado que não suportam temperaturas acima de 25 graus, preciso dizer, summer isn´t magic. Não vejo magia em ficar com marca de taxista nos braços, ou não conseguir andar 100 metros sem ter de parar para retomar o fôlego, ou suar em bicas após ter tomado um banho limpinho. Preciso dizer, porém, que nem sempre fui assim, emburrada com termômetros tropicais. O verão já foi muito bem-vindo... na infância.

Na infância, podíamos nos esbaldar com água e seus derivados a todo e qualquer momento, sem ter vergonha de molhar a roupa nem se preocupar com a escassez do artigo no planeta. Como a praia mais próxima fica a alguns muitos quilômetros de estrada e de congestionamento, eu me arrumava por aqui para aproveitar a estação. E me arrumava bem, viu?

Bons tempos aqueles, quando temperaturas senegalesas não significavam mau humor. Significavam...

... tomar banho de chuva
Todas as tardes de férias na casa da vovó guardavam a mesma expectativa: vai chover? Meu avô, matuto do interior, sempre conseguiu prever a precipitação antes mesmo das primeiras nuvens negras se instalarem no céu. “Hmm, esse vento é de chuva”, ele dizia, enquanto eu e meus dois primos pulávamos de alegria e sentávamos no balanço aguardando o momento cheio de água geladinha e barro que viria em seguida.

... ficar de molho na piscininha
Com a prática, demoravam apenas cinco minutos para encaixar os ferros prateados nos orifícios correspondentes da lona azul. Daí, era só encher de água, entrar e... só! A graça da piscina Regan era justamente ficar de molho até os dedos das mãos e dos pés virarem vinte uvas-passa cor-de-pele. Como ela era rasinha, até para esta pequenina criança, não propiciava altos mergulhos ou nados sincronizados.

... brincar com a mangueira
Adulto olha para uma mangueira e logo pensa “preciso lavar o carro”, “esse quintal está imundo”, “as plantas têm de ser regadas ainda hoje”. Criança, quando olha para o mesmo item, pensa: “oba, diversão molhada!”, “legal, liga agora!”, “será que dá para colocar um jato mais forte?”. Ligar o registro e segurar a ponta em cima da cabeça era o maior dos baratos. E também dava para patinar no chão encharcado!

... chupar gelinho a tarde toda
Será que ainda fazem e vendem gelinho? Para quem não se lembra, era um saquinho plástico fino e comprido, recheado de sorvete (leia-se “groselha congelada”). Custava uma bagatela e, na maioria das vezes, vinha bem sujinho. Limpávamos na roupa e mordíamos o canto, arrancando um toco de plástico, passando então à parte gostosa: consumi-lo! Depois, bebíamos o caldinho que sobrava. E pedíamos outro.

... usar biquíni para brincar
Já falei em outro texto sobre a minha tristeza de não poder usar mais os modelitos que eu usava quando era criança. Meu uniforme de brincadeiras era um short minúsculo e uma regata, ambos verde-piscina. Imagine se usasse isso para sair na rua! E, no calor, costumava brincar de biquíni. Se mamãe precisasse sair e me levar junto, ia assim mesmo, sem vergonha alguma. Criança pode tudo, né? Ainda bem que eu aproveitei.

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Novidades novidadeiras!

Caríssimos leitores e queridíssimas leitoras! Atendendo a muitos pedidos, hoje estamos inaugurando nosso Fórum! Isso mesmo, um espaço para vocês escreverem à vontade, deixarem comentários, mandarem textos, exprimirem opiniões, relembrarem coisas da infância e, principalmente, trocarem idéias entre vocês. Além de, claro, terem mais um canal para conversar com estas três mocinhas aqui.

Para participar, basta clicar aqui (ou no link “Fórum” da barra de navegação, por enquanto só na home) e entrar no link Registrar, logo abaixo do logo do Garotas. Cada um precisará preencher um cadastro, colocando nome de usuário e senha. Eles pedem o e-mail, mas é só certificar-se de que a opção “Sempre exibir meu endereço de e-mail”, logo abaixo do cadastro, em Preferências, esteja selecionada em “Não”, que essa informação permanecerá sigilosa.

Depois disso, é só brincar!

Estamos ainda em fase de experiência. Nunca havíamos participado de um Fórum, muito menos feito um. Portanto, talvez vocês encontrem imperfeições ou dificuldades que só saberemos usando. Se alguém tiver alguma dúvida, crítica ou sugestão, por favor, entre em contato conosco. Vamos corrigindo aos poucos...

Todo mundo pronto?

Vivi Griswold às 10:03 AM

terça-feira, 17 de fevereiro de 2004

Bichos escrotos

Além dos amigos queridos, dos irmãos e irmãs serelepes (tenham eles dez meses ou 27 anos) e de toda sorte de gente bacana, minha casa também é altamente freqüentada por espécies não tão bem-quistas. Eu não sei o que é, mas atraio insetos e criaturas afins.

E minha casa é limpinha, viu? Aliás, acho que é a minha pessoa mesmo. Bom, eu também sou (pobre mas) limpinha, o que torna essa atração um mistério. De qualquer maneira, meu histórico com bichos vai longe, desde a casa da minha mãe.

Com jardins atapetados de grama por todos os lado e situada num bairro cheio de terrenos vazios, a residência em questão sofreu ataques primeiro de formigas. Repentinamente, elas sumiram - e vieram as lesmas. Enormes e gorduchas, elas se esticavam e ficavam parecendo um bife de fígado. Adoravam estacionar os corpões moluchos bem na linha de entrada dos carros. Aí, já viu a tragédia, né? Haja estômago e jato de mangueira para descolar os cadáveres depois…

Talvez a borracha do Deep Purple tenha contribuído para a extinção das pobres. Elas desapareceram e, como substitutos, tomaram o quintal e os jardins vorazes caracóis. Eles eram mais agressivos que suas antecessoras: subiam do gramado em direção à casa, o que me fez pensar se eles não teriam sido os verdadeiros responsáveis pelo sumiço das lesmas e, agora, queriam tratar de sumir com os habitantes humanos do lugar, para comer na nossa mesa e dormir nas nossas camas.

Mas o tráfego intenso de solados no quintal - que gerava sonoros "crecs" ao caminhar no lugar - cuidou de exterminar a famigerada praga.

Ao me mudar, achei que os problemas haviam acabado e esse passado tenebroso morrera no endereço antigo. Mas qual! Minha nova casa passou a ser assolada por aranhas dos mais variados tipos e formatos.

Um belo dia, olhei pela janela e notei que os gramados vizinhos estavam todos aparados e bonitos, enquanto que o meu parecia a plantação de milho do "Sinais". Atinei que era responsabilidade de cada condômino cuidar do seu matagal, passei a mão no cortador e o namorido pôs aquela braquiara abaixo. Problema resolvido e lição aprendida: grama alta = aracnídeos medonhos.

Agora, recebo visitas mais simpáticas, como vagalumes cascudos e mariposas de tamanho humilde (em nada parecidas com os verdadeiros morcegos que entravam na casa da minha mãe). Tô pensando até em adotar alguns, à guisa de bicho de estimação. Só para matar as saudades do Slood, minha lesmona favorita, que morreu sob a borracha do intrépido Corsa mil… Foi um acidente, tá? Eu juro!

Clara McFly às 06:48 PM


Mestre da viagem fantástica

Ficção científica aventuresca é como o Michael Jackson: uns amam e acham do cacete, outros odeiam e querem ver no fundo de um poço de piche. Eu me acomodo na confortável posição “coluna do meio”. Mas, para dizer a verdade, só comecei a apreciar uma boa leitura longa por causa do gênio máximo desse gênero. Já ouviu falar em um senhor chamado Julio Verne?

Jules Verne, para ser mais exata. Essa era o nome dele ao nascer, na França, em 1828. Julio foi “aportuguesado” quando suas fantásticas obras chegaram por aqui. O bom é que, no caso desse mestre, usar o termo “fantástico” é fácil, fácil...

O primeiro que peguei para ler é simplesmente um dos três livros que eu mais adoro até hoje, mesmo sendo garota grande. Também, como escapar? Aos 12 anos, embarcar em uma viagem à Islândia, entrar em vulcões e decifrar códigos secretos para achar o caminho do núcleo do planeta era tudo o que eu sonhava. Graças ao Julio e seu “Viagem ao Centro da Terra”, ainda sonho.

Escrito em 1864, o livrinho me pegou de jeito. Devorei em questão de três ou quatro dias, alucinada para saber se o professor Lidenbrock e seus amigos iam achar as pistas de Arne Saknussen para alcançar o centro do globo. Muito melhor do que filmes de stop-motion do Sinbad na televisão (e olha que eu me divertia com aquilo), o livro recheou as minhas tardes várias vezes. Já até decorei umas frases! Que nerd, né?

Eu acho mesmo, porém, que Julio Verne era um grande nerd escrevendo para outros dessa espécie. Até seus personagens eram assim! O que dizer de Phileas Fogg e aquela mania de não perder uma discussão? O homem bateu o pé que conseguia rodar o planeta em pouco mais de dois meses e lá se foi. Suas artimanhas para completar o percurso – junto com o adorável empregado Passepartout – viraram “A Volta ao Mundo em 80 Dias”.

É outro exemplar que, de vez em quando, ainda pego para reler. Que outra maneira eu teria de embarcar em um vapor através dos mares, andar de elefantes na Índia ou voar de balão pelos céus? Só com a ajuda do Julião e sua mente maravilhosa.

Muita gente imitou essa veia literária de Julio Verne tentando criar atmosferas emocionantes como ele fez. Alguns chegaram bem perto, como H.G. Wells, maníaco por ficção científica na veia que se inspirou muito em Verne e escreveu pérolas como “A Máquina do Tempo”.

Mas o mestre é o mestre. Apaixonado pelas letras, Julio ainda tem meu respeito máximo por ter escrito histórias magníficas mesmo sendo atormentado pelo pai (que queria vê-lo advogado), pela diabetes e por uma perna manca – que ele “ganhou” quando um sobrinho atirou dentro de casa por acidente.

Perfeitas para ir ao cinema mesmo antes da telona existir, suas obras de aventura inocente não perdem a graça com o passar dos séculos. Tanto que “20 Mil Léguas Submarinas” ainda é um clássico, assim como “Cinco Semanas Num Balão” ou “A Ilha Misteriosa”.

Há muitos anos, um escritor chamado Claude Roy disse o seguinte: “O mundo possui seis continentes: Europa, África, Ásia, América, Oceania e Júlio Verne". Até hoje, só viajei por três desses. E Julio Verne foi, disparado, o que mais mexeu com o meu imaginário.

Fla Wonka às 02:44 PM


Eu + livrão = confusão

Para quem já encarou o calhamaço segurador de porta que é “O Senhor dos Anéis”, um outro livrão gordo e cheio de ilustrações coloridas não deveria oferecer resistência. Porém, ah, como oferece. Não sei se as culpadas são aquelas letrinhas minúsculas, ou a ordem alfabética que me embaralha as idéias, ou ainda o stress do momento dificultado pelo chacoalhar do carro. Não adianta: Vivi e Guia de Ruas são dois artigos que não se entendem.

É só o condutor perdido do veículo em que me encontro sugerir “pega o guia no porta-luvas, por favor?”, pronto. O formigamento já toma conta de meu corpo, a visão fica turva e eu entro em pânico com a certeza antecipada de que vou mais atrapalhar do que ajudar – e que não vai demorar muito para o condutor ficar bravo comigo, parar o carro e arrancar o volume de minhas mãos trêmulas e envergonhadas.

A cena é sempre a mesma. Obedeço ao condutor (se ele sabe dirigir bem e tem um automóvel, merece meus respeitos) e saco do livrão. Daí, aperto os olhos míopes para ler a placa da rua onde estamos (ação dificultada se o período for noturno). Acho a seção de ruas em ordem alfabética e lá vou eu, com dedinho e tudo, encontrar uma linha específica no meio de centenas de milhões.

Eu simplesmente odeio quando, por exemplo, a rua é Senador Fulano de Tal ou Deputado Qualquer Coisa. Vou direto na letra “S” e “D”, respectivamente, sempre me esquecendo que tais nomenclaturas não devem ser levadas em conta na hora da busca. Saco. Nesse ponto, o motorista começa a bufar – e eu ainda nem encontrei sequer uma indicação de onde estamos.

Pensa que a primeira parte da tarefa está no fim? Nãããão. Dependendo do nível de criatividade daqueles que sugerem nomes de ruas, você pode se deparar com um título igual em dez bairros da cidade. O jeito é ir, bairro a bairro, desvendando as linhas espremidas com a paciência de um arqueólogo ancião até encontrar a localização desejada.

Próximo passo é decorar o número que aparece ao lado do nome da rua, um código que lembra a batalha naval do Bozo. Algo como 705 E10, por exemplo. Basta ir até a página 705 e cruzar a letra “E” na horizontal com o número 10 na vertical. Ali, naquele ponto, há de estar o local exato (faço figas, bato na madeira e rezo para Santo Expedito). Ou o pior pode acontecer – após tanta demora, a rua provavelmente já cedeu lugar à outra.

Vamos pensar na melhor hipótese. Vai que a rua seja, na verdade, uma avenida muito comprida, e ela ainda esteja lá quando a informação for finalmente processada. Preparo-me, então, para a parte mais temida. As indicações! O condutor, claro, não pediu a busca por puro divertimento. Ele quer saber como sair dali, ou como chegar em um outro lugar. E quem deve dar as indicações, hã, sou eu.

Eu, aquela pessoa que confunde direita com esquerda em momentos de tensão. Eu, aquele ser que nunca sabe se estamos subindo ou descendo numa rua, se estamos no sentido Paulista ou Santo Amaro ou raio-que-o-parta. Giro o mapinha 360 graus umas três vezes – gesto que quer falar “socorro, não sei mexer nisso!”. E, finalmente, desisto. Cedo o livro para quem entende e me calo em minha falta de noção espacial e direcional.

Mas eu sei bater um bolinho de fubá di-vi-no, viu?

Vivi Griswold às 09:14 AM

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2004

De São Bernardo para o mundo

Vocês já devem ter notado que eu moro em São Bernardo, também conhecida como o B do ABC Paulista, a Hollywood e/ou a Detroit brasileira (vide, respectivamente, os estúdios da Vera Cruz e as fábricas de autos) e, já adianto, a verdadeira terra da garoa – afinal, os céus de São Paulo há muito pararam com essa mania besta de ficar vazando aos pouquinhos.

Embora seja colada à capital paulista, São Bernardo guarda uma série de particularidades. Só quem cresceu aqui (como eu, que nasci em São Paulo e me mudei para cá com quatro anos) sabe quantos sorrisos amarelinhos a gente dá com as piadas repetidas, do tipo “ah, você é do interiorrr, então?” e “pode discar seu número direto ou tem DDD?”.

O problema não são os gracejos em si, mas o fato de que todo mundo fala a mesma coisa quando conhece alguém dessa gloriosa cidade... Para ajudar na falta de comentários para a ocasião, listo a seguir um monte de outras coisas que qualquer cidadão de fora de São Bernardo pode dizer ao conhecer um bernardense. Anotem e guardem para quando a gente se cruzar por aí! Podem começar com um “ah, você é de São Bernardo? Então, você...”

... já foi num baile do Singular ou num carnaval na Associação?
Famosíssimos, os bailes temáticos do colégio Singular eram feitos no Aramaçan, um clube na vizinha Santo André, e reuniam todo mundo que estava a fim de dar uma extravasada hormonal, se é que vocês me entendem. E os camarotes do carnaval na Associação (dos Funcionários Públicos, outro clube) pareciam um episódio do Wild On.

... ia na Sollem e na Twist’s dançar?
Essas foram as casas noturnas mais populares da minha época (odeio me pegar usando essa expressão). Pus os pés na Sollem uma única vez – lá só se entrava de sapato, que coisa mais provinciana! Já a domingueira (outra expressão infame) da Twist’s era de lei. Um pai ia buscar, outro levar e eu ficava lá arrastando uma asinha para o Jarbas ao som de “New York, New York” – música que fechava a noite.

... mora perto de qual saída da Anchieta?
A estrada corta a cidade de cabo a rabo, desde o limite com São Paulo até a Serra do Mar. Todo bom bernardense pega a Anchieta pelo menos uma vez por dia. Logo que me mudei, adorava ficar deitada no banco de trás do carro, vendo aqueles postes de iluminação enormes e parecidos com trevos. Hoje, gosto especialmente de pegar a estrada nos dias em que estão cortando a grama dos canteiros. Fica um cheiro bom por todo o caminho.

... ia almoçar na Rota dos Restaurantes?
Não basta ter freqüentado os salões do Florestal ou do São Judas Tadeu, no bairro Demarchi, e se empanturrado de frango à passarinho e polenta frita ao som de “Besame Mucho”. Se você também foi uma criança dos 80, tem de ter conseguido fazer o pai comprar os balões platinados, o apito que imita gato ou, pelo menos, uma geleca – tudo oferecido por vendedores nas imediações do restaurante.

... conhece alguém que estuda ou estudou no Wallace?
A Escola Estadual de Primeiro e Segundo Grau Wallace Simonsen fica colada à Vera Cruz, no Jardim do Mar. Enorme, o colégio carinhosamente apelidado simplesmente de Uálace deve ter formado uns 40% da população de São Bernardo. É impossível passar incólume: todo mundo de Bernô conhece um ex-wallaciano.

... foi torcer nos Jogos Escolares lá na Vera Cruz?
A rivalidade entre as escolas pegava fogo, os ônibus ficavam lotados de crianças mal-criadas (a passagem era de graça para estudantes que iam jogar ou torcer) e a ocasião gerava gritos de guerra politicamente ultrajantes, como “Metodista, Metodista/ Entra burro e sai autista” ou “Ninguém me ama, ninguém me quer/ Eu vou ser freira do São José”. Criança não presta.

... compra no Metrópole desde quando ele se chamava “Shopão”?
Antes da reforma, lá pelos idos de 94, o maior shopping de São Bernardo ficava ao lado do Paço Municipal e tinha como âncora um Jumbo Eletro (!). Apelidado de “shopão” (shopping grande, pegou?), o lugar era deprimente, mas depois da mudança ficou um brinco. Pequeno, mas bonitinho. Tem até Renner, olha só!, e eu bato cartão na tal loja...

... assistiu aos jogos da Copa na Kennedy?
Mais uma desculpa para adolescentes com hormônios em estado de fúria darem vazão às coceirinhas, os jogos da Copa eram transmitidos num telão, instalado à avenida Kennedy – local cheio de barzinhos, sorveterias e outras bossas. Eu acompanhei quase toda a Copa de 94 lá. Ah, dêem um desconto, eu tinha 16!

Clara McFly às 07:09 PM


A mensagem do rock

Minha última sexta-feira à noite foi regada a gente bacana, riso solto e muito rock’n’roll. Não conhecia aquelas pessoinhas, não sabia que ia gargalhar daquela maneira e – surpresa máxima – não era eu quem comandava o som que tanto me deixou satisfeita. “Escola de Rock” foi quem fez tudo isso por mim! E fez tão bem que recebi o recado direitinho.

Filme sobre músicos e bandas são bacanas por natureza. Vide “Commitments”, “Quase Famosos”, “A Festa Nunca Termina”, “Rockstar” e tantos outros que não há como cansar de ver. Por isso, já sabia que ia curtir muito “Escola de Rock”. Só não imaginei cair de tanto amor por aquelas crianças e captar mensagem em um filme tão típico de Sessão da Tarde.

A história parece meio manjada no começo. O fofíssimo Jack Black faz o papel de Dewey Finn, um guitarrista apaixonado pelo rock mas que não consegue grana ou respeito com isso. Expulso de sua banda de cabeludos afetados, ele fica sem eira, beira ou chance de participar de uma tal “Batalha das Bandas” – concurso que rende sucesso e dinheiro.

Num belo dia, Dewey encontra maneira de conseguir ao menos pagar as dívidas. Para isso, só precisa dar o golpe em um amigo que se tornou professor e pegar aulas como substituto em uma escola de riquinhos. O revés: a molecada a quem ele deve ensinar ortografia e matemática é ótima em... música. Olha o show armado!

Em questão de dias o professor percebe nas crianças de 10 anos talento de roqueiro profissional. Deixar isso escapar ou botar os pivetes em formação de grupo? Há! Segunda opção na cabeça. E é aí que têm início as cenas que me fizeram morrer de rir e até emocionar. Os moleques e garotinhas são simplesmente sensacionais.

Tudo bem: Jack é rei em interpretação, trejeitos, cantoria e comportamento estriquinado. Mas os garotos roubam a cena. Eles tocam os instrumentos de verdade, dá pra crer? São pequenos projetos de rock’n’roll. Nunca fizeram um filme sequer e atuam do melhor jeito que podem – o que faz o filme ganhar muito em realismo.

Sabe quando você sintoniza programas dominicais e vê um certo Felipe Dylon fingindo tocar guitarra? Não sei os outros, mas eu fico num tremendo bode em notar que o moleque sequer marca as posições no instrumento... Segura o braço da guitarra como se estivesse empunhando uma vara de pesca! Isso me irrita bastante. Principalmente quando vejo pivetinhos com a metade da idade dele esmerilhar uma bateria ou um baixo com tanta espontaneidade.

Essa é apenas uma das mensagens de “Escola de Rock”. A primeira é de que crianças precisam ser expostas ao rock desde cedo, porque isso ajuda a fabricar uma personalidade decente. A segunda é que o rock é a arma certa para detonar “o homem”.

Como “o homem”, segundo Dewey Finn, entendemos aquela gente que valoriza coisas erradas, como dinheiro e posição social, e não investe energia em atividades com paixão. “O homem” quer que paguemos o nosso aluguel quietinhos, compremos as mesmas roupas, sejamos impassíveis e sem vontade. Eu me recuso. Dewey se recusa. As crianças de “Escola de Rock” se recusam. E essa é a única mensagem que precisamos.

EscoladeRock.jpg
Isso é que é um bom catecismo, Jack!
Fla Wonka às 01:17 PM


Aprenda com as estrelas

À primeira vista, pode parecer estranho. Mas as celebridades têm muitas lições a nos ensinar além de “talento não é importante”, “não é necessário saber atuar/cantar direito” ou “invista em silicone, não em cursos de artes dramáticas”. Basta prestar um pouquinho de atenção na trajetória daquele povinho glamouroso e milionário para obter uma verdadeira cartilha de “Como Evitar Micos Públicos”.

Já diz o velho ditado “é errando que se aprende”, certo? Então aí vão 10 coisas que eu aprendi com os erros dos famosos!

10) Não faça topless
Ficar com peitinhos à mostra é pedir para sair na capa do The Sun no dia seguinte. E, daí, toca fazer processos demorados para botar o maldito fotógrafo no banco dos réus. Para evitar tanta dor-de-cabeça, tome sol com a parte de cima do biquíni. Mais vale uma marquinha lá do que uma foto infeliz!

9) Não misture amor com negócios
Essa história de montar banda ou fazer filme com namorados, namoradas, maridos e esposas nunca deu certo, desde que Los Angeles passou a ser habitada. Se o amor acabar primeiro, coisa que sempre acontece naquele meio, ou você agüenta um mala no pé, ou perde também um negócio que poderia dar certo.

8) Não grave lua-de-mel ou momentos íntimos
Sexo e vídeo-amador só combinam se você for atriz ou ator pornô. Caso contrário, tente manter momentos íntimos, hã, íntimos. Se um namorado/marido pedir aquela gravação básica e você topar, pegue a fita antes mesmo de recolher a roupa no chão e a esconda num lugar seguro – e secreto até para o parceiro.

7) Não destrua quartos de hotel
Qual é a graça de enfiar o pé no frigobar? Ou atear fogo no colchão? Ou fazer xixi pelo banheiro? Se você está precisando descontar a raiva que tem da humanidade e da revolução industrial, vá jogar Counter Strike ou socar sacos de areia. Pelo menos, as duas ações não botam em você a humilhante pecha de “bad-boy”.

6) Não perca tempo montando casamentos secretos
Mandar convites no dia anterior apenas a vips, fazer o vestido de noiva com um estilista discreto, alugar helicóptero para convidados e montar a cerimônia numa ilha perdida do oceano Atlântico: nada disso funciona. Os fotógrafos estarão lá. Portanto, economize tempo e opte por uma festa de arromba!

5) Não faça tatuagens românticas
Tatuagens com o nome do amor da sua vida não funcionam. Quer dizer, a tatuagem fica lá eternamente, mas o amor da sua vida... provavelmente não. Pamela Anderson, cuja aliança era o nome “Tommy” tatuado no dedo, teve de mudar para “Mommy”. É muito papelão para pouco tempo de diversão!

4) Não roube nada diante das câmeras
Se você tem dinheiro na carteira e um pouco de dignidade na alma, não roube. Principalmente em uma loja chique de roupas, cujas peças são repletas de alarmes anti-furto. Não tente cortá-las com tesoura, ainda mais se houver centenas de câmeras focalizando o momento constrangedor. Aprenda a pagar pelas coisas.

3) Não patrocine a profissão mais antiga do mundo
Se você é um ator ou cantor famoso, deve ter um monte de garotas no pé que topariam um pega-lá-que-eu-pego-cá gratuito. Então, não pague por serviços terceirizados. Se a vontade for maior que a razão, tente fazer isso num quarto de hotel, não no meio da rua. Ah, e escolha uma bonitinha, se possível.

2) Seja amigo de ex-parceiros, ex-mordomos e paparazzi
Tente criar o mínimo de inimizades ao seu redor. Ex-qualquer coisa magoado, ferido, enganado, trapaceado e chutado é uma fonte maravilhosa de informações bombásticas e, muitas vezes, mentirosas. Fotógrafos também precisam permanecer aliados: não cuspa na câmera e não os atropele com o Porsche.

1) Preocupe-se com a aparência toda a vez que sair de casa
Vai botar o pezinho para fora da porta da mansão de Beverly Hills? Então, antes que o faça, penteie o cabelo. Faça uma maquiagem, pelo menos corretiva. Escolha uma roupinha ajeitada e um sapato decente. A lei é preocupar-se com a aparência, ainda que você esteja bebaço ou tenha acabado de bater no cônjuge.

Senão, ó:

bleeth.jpg
SOS, Malibu!
Vivi Griswold às 09:04 AM

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2004

Eu não estou só!

Sabe quando, por falta de audição ou excesso de criatividade, você ouve uma música e entende algo totalmente diferente da letra de verdade? Então. Aparentemente, todo mundo sabe – e sofre desse (hilariante) mal. Eu mesma já fiz por aqui, há muito tempo, uma breve confissão dos meus piores virunduns.

E a confusão auditiva musical é um fenômeno mundial. Que o digam os muitos colaboradores do Kiss this Guy, site que figura em nossa seção de Links e reúne mishearded lyrics em inglês.

Pois essa pérola da net é o melhor remédio para mal-humorados em geral e sem-graças por natureza. São casos e casos de manés (como eu, de novo) que ouviam as mais bizarras letras em músicas tão populares que, mesmo em inglês, até a simpática ascaris Catarina cantaria certo.

Como, por exemplo, o infiel que cantava "I ain't Jed" ao invés de "Angie", na melodiosa canção de amor dos Stones. Imagina o bocudo Mick se esgoelando em versos que significam "Eu não sou o Jed… Não sooooooou o Jed!"? Surreal. De mais a mais, quem diabos seria o Jed?!

Outra criatura entoava, no refrão do clássico "I'll Be There For You" (contra-indicado para diabéticos, como tudo do sêo Bon Jovi), "Fe fi fo I swear to you" ao invés do "These five words I swear to you". Demais.

Mas o meu, o seu, o nosso quarteto favorito de Liverpool, los B., é campeão na biblioteca de escorregadelas mantida pelo Kiss this Guy - cujo nome, aliás, surgiu do imenso número de pessoas que achavam que Jimi Hendrix beijava um carinha em vez de beijar o céu, na poderosa "Purple Haze".

Reuni uma pequena amostra do que uns litros de cachaça a mais na cabeça - ou macaquinhos muito saltitantes na cachola - são capazes de fazer quando alguém ouve uma canção dos Beatles. Está tudo lá, no edificante conteúdo do Kiss this Guy. Segure-se.

Day Tripper
A letra diz: She was a day tripper
Mas alguém entendia: She was a gay stripper
A (tentativa de) explicação: Segundo a autora, ela sabe qual é a letra real, mas achou sua versão mais engraçada. Eu concordo. Imagina só John, Paul, Ringo e George às voltas com uma stripper gay.

Michelle
A letra diz: Michelle ma belle, sont les mots qui vont tres bien ensemble, tres bien ensemble.
Mas alguém entendia: Michelle ma belle, some say monkeys play piano well, play piano well.
E eu digo que: não entendo uma palavra de francês, mas tenho certeza de que a música não fala sobre as habilidades dos macacos em tocar piano.

Lucy in the Sky with Diamonds
A letra diz: Lucy in the sky with diamonds
Mas alguém entendia: Lucy in disguise with lions
Só medicamento pesado explica: Não contente em confundir a garota no céu com diamantes com uma mocinha disfarçada entre leões, o autor dessa ainda pensava o porquê do refrão não ser igual ao título...

I Am the Walrus
A letra diz: I am the eggman
Mas alguém entendia: I am the apeman
Um jantar inesquecível: Num jantar, um amigo do infeliz que concebeu essa botou palitos entre os lábios e brincou: "eu sou o leão-marinho" ("I am the walrus"). Imediatamente, nosso herói respondeu: "e eu sou o homem-macaco!" ("I am the apeman"), para alegria geral da mesa.

Ticket to Ride
A letra diz: She's got a ticket to ride
Mas alguém entendia: She's got a chicken to hide
Era melhor não ter ido: A autora dessa belezura estava numa festa quando decidiu mostrar o que sabia no gogó. Cantou lindamente a canção e, ao terminar, foi ovacionada. Mas não pela razão que esperava. E eu me pergunto: por que alguém teria de esconder uma galinha? Bem, pensando melhor, depois do sensacional "controlo o calendário sem utilizar as mãos" da minha dupla funkeira preferida, não duvido de mais nada.

* * * * * *

Hoje é o seu dia, que dia mais feliz!

Só tem uma coisa mais divertida que navegar pelo Kiss this Guy: ter a amizade da estriquinada, tatuada, destrambelhada e maravilhosa amiga Flá Wonka. Ombro e ouvido fiel para dias ruins, companhia excelente para os dias bons, a menina é de uma generosidade e integridade raras. Por isso, no natalício de hoje e todos os dias, viva a Flávia, a morena mais bacana do Garotas e minha amiga tardia do peito!


Clara McFly às 07:42 PM


Poderooooosa e inspiradora

Ela era a reencarnação de uma princesa egípcia com poderes sobrenaturais e capaz de comandar forças da natureza. É óbvio que, do alto dos meus cinco ou seis anos, não fazia idéia disso. Para mim, ela era apenas uma moça bonitona que usava uma pedra na testa e, de maneira esquisita, invocava o vento quando se metia em roubada. Hoje, em especial, eu penso... quem me dera ser a Ísis.

Aposto que a maioria de vocês vai ter dificuldade em lembrar dela. Só quem tiver mesmo uma memória faraônica há de recordar com clareza da Ísis. A não ser no meu caso, que era a fã número um da garota – mesmo tendo visto a série lá nos idos de 1980 ou coisa assim.

Nas brincadeiras da rua, quanto todo mundo escolhia um super-herói pra ser, minha primeira opção era a Ísis. As garotas se engalfinhavam para ser a Mulher Maravilha, mas nunca me meti nessa briga. Imagina! Por que preferir ser a garota que usava aquele laço mixo e roupa americanóide quando eu podia interpretar alguém com longos cabelos negros, roupa de sacerdotisa e sábia feito uma esfinge?

Esse era o charme da Ísis. Com um gesto da mão, o vento subia e atirava os caras maus bem longe. Ela nunca precisava se desesperar, dar golpes enlouquecidos ou mesmo suar. Bastava botar a mão sobre a pedra da testa e repetir a mandinga “Zephyr que comanda o ar! Levante-me para que eu possa voar!” Intimidante, diz aí? E olha que eu nem sei quem era o tal de Zephyr... mas tinha medão dele assim mesmo.

Para incorporar a Ísis, minha manha era enrolar o lençol da cama feito uma toga, prender uma fita em torno da cabeça e grudar nela uma moeda. Ok, o meu amuleto de poder era bem mais patético do que aquele achado no Egito pela professora Andrea Thomas (o nome civil da Ísis), mas eu fazia o possível. O ventilador ligado no quintal ajudava a criar o clima de vento levantando sob meu comando. Tenho a impressão que minha mãe me achava demente.

Escolhi falar da Ísis hoje por um motivo especial. Passados todos esses anos desde a infância, eu ainda não consigo ser valente e magnânima como aquela heroína fantástica. Mas gosto de pensar que avanço um pouco por dia nessa tarefa!

Hoje de noite, eu provavelmente vou tentar de novo invocar o vento e fazê-lo soprar sobre minhas 29 velhinhas de aniversário. O poder de dominar a natureza pode não se apresentar. Mas ainda resta a esperança de ganhar, um dia desses, a sabedoria da Ísis, né?

Isis.jpg
Se eu não posso comandar o vento,
pelo menos podia ser bonita feito a Ísis, hein?
Fla Wonka às 12:45 PM


Quando eles poderiam falhar

Visão, audição, tato, olfato, paladar: os cinco sentidos que muitos de nós temos, em maior ou menor medida (a míope aqui gostaria de ter o primeiro mais aguçado). É através desse grupinho mágico que entramos em contato com o mundo e suas imagens, barulhos, texturas, cheiros e gostos. Sem eles, seríamos uma ilha. Se ainda a ilha fosse Ibiza, a gente até podia conversar...

Às vezes, porém, me vejo com um estranho desejo de ter um interruptor em algum lugar do corpo, algo como a Super Vicky, para desligar e ligar a função “sentidos”. Convenhamos que há certas ocasiões no dia-a-dia em que alguns desses nossos poderes só atrapalham – e acabam sendo veículos de transmissão de sensações nada agradáveis. Quer ver?

Visão

Bichos atropelados
Ver um cachorrinho ou um gatinho esparramado no meio da rua já me deprime. Porém, nada é pior do que pegar a rodovia Régis Bittencourt, mais conhecida como BR-116: o trecho de São Paulo a Embu, eu passo de olhos fechados (não sou eu quem dirige, ainda bem). Tem um a cada 5 metros, horrível.

Modelitos de verão
Tudo bem. Moramos num país tropical e, ultimamente, tem feito um calor senegalês lá fora. Mas como a cidade não é litorânea, eu acho que algumas pessoas poderiam se cobrir mais. Tem coisas que eu não sou obrigada a ver: barrigão escapando do short jeans e da mini-blusa agarrada à lá Babalu, por exemplo.

Erros de português
“Tudo à partir de 1 real”, “Faço trabalhos com a deuza do amor”, “Loja Simulassão”, etc... Passear por aí é levar um bombardeio de erros de português em 9 de 10 estabelecimentos comerciais. Muita gente não tem acesso a estudos, mas o que dizer dos erros das placas da própria prefeitura? Tsc tsc.

Audição

Alarme de carro disparado
Pelo menos uma vez por semana sou acordada de madrugada por um alarme de carro que teima em disparar. E o maldito ainda é daqueles com vários tipos de som em seqüência, sabe? Tenho vontade de levantar, me trocar, descer e ir pegar o dono do veículo no colarinho para o cidadão ir desligar a barulheira.

Momentos íntimos de vizinhos
Eis uma coisa que todo mundo faz. Uns mais, outros menos. É saudável, gostoso, divertido. Mas ouvir os outros no bem-bom é algo que me irrita. Fico completamente encabulada e sem-jeito. Se estou lendo um livro, não consigo prestar atenção. Se estou assistindo TV, tenho de aumentar o volume. Ô casal sonoro, viu?

Festa de pagodeiros
Os pagodeiros que me desculpem. Mas não há igreja evangélica que consiga bater os decibéis que rolam numa festança de arromba regada a cerveja, churrasco e... pagode. A música em si já é tocada por um grupo de 10 pessoas, sempre. Daí, com mais 150 acompanhando e cantando, bem, faça as contas.

Tato

Unha na parede
Certas coisas me arrepiam só de pensar. Comer jiló, ir num show do Fagner e ralar a unha na parede estão entre elas. E é só arrumar o quadro na parede, ou limpar uma manchinha na pintura, ou mesmo pegar a chave no porta-chaves pendurado: pronto, lá vai minha unha fazer uma fricção irritante e levantar os pelinhos do meu braço.

Etiqueta no cangote
Não entendo o motivo de algumas confecções prenderem as etiquetas mais firmes do que a própria costura na roupa. É mais fácil abrir um rombo debaixo da manga do que aqueles pedacinhos de pano saírem. Como sempre tento me desfazer delas, os restos mortais ainda ficam roçando no cangote. Aflição!

Choque no cotovelo
Tá certo que meu pequenino e ossudo cotovelo não possui uma área de contato muito grande. Vai ver que é por isso que, toda vez que eu bato a articulação (e eu bato sempre, impressionante) o impacto pega naquele ponto específico que dá um choque daqueles. Depois passa, mas até lá, agüente.

Olfato

Boteco de manhã
Quando eu trabalhava no prédio da Folha de São Paulo, lá no centro da cidade, pegava o trem e ia caminhando até o local. Meu horário de entrada era nove da manhã. Não havia, portanto, nada pior do que sentir o cheiro de fritura nas dezenas de botecos vizinhos. Croquete de balcão matinal? Hmm, eu passo, por favor.

Cheiro de fumaça
Pode ser fumaça de escapamento de ônibus, de matagal em chamas na beira da estrada, de cigarro, charuto e derivados. Não suporto cheiro de coisa queimando, ainda mais se estiver queimando perto de mim. E como se não bastasse apenas ter seu olfato invadido involuntariamente, o aroma ainda pega na roupa e no cabelo...

Barraca de peixe
Faz muito tempo que eu não freqüento uma boa feira livre. Pretendo passear em uma aqui perto de casa na próxima semana. Vai ser divertido, principalmente se eu achar logo a barraca de pastel e conseguir passar batido pela de peixe. Difícil, porque não há pastel cheiroso que consiga camuflar o fedor de peixe morto.

Paladar

Xarope contra tosse
Outro dia estava com uma gripe ferrada e uma tosse chata, com dor de garganta e todo o resto do pacote-doença incluso. Fui na farmácia comprar um xarope e, claro, escolhi aquele com líquido vermelho, esperando que fosse de morango ou algo docinho. Que nada! O negócio desceu rasgando, pior que 51!

Gosto de cabo de guarda-chuva
Apesar do título ser um tanto indecifrável, quando alguém fala “cor de burro quando foge”, dá para se ter uma idéia da cor. O mesmo acontece com a expressão “gosto de cabo de guarda-chuva”. Adoro usá-la, e acho muito correta para definir aquele gostinho na boca quando acordamos. Cadê minha escova de dentes?

Pipoca de microondas com manteiga
A pipoca de microondas, cujo rótulo avisa ser “sabor manteiga”, é uma delícia. Barata, fácil de fazer e acompanhamento certo para um filminho sem compromisso na TV. Porém, depois de devorada a bacia, fica um ranço na boca de gordura que é nojento. E não sai com nada – a não ser que você queira beber detergente...

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Uma amigona, em todos os sentidos
Conheci a peça há quase quatro anos. Ela entrou na redação do site com aquele jeito de andar, balançando as madeixas lisas e negras pra lá e pra cá, como uma menininha alegre e saltitante. A partir dali, fomos nos conhecendo e a simpatia cresceu até a estratosfera. O melhor é que continua crescendo, e não tem previsão de parar não. Já gargalhei e já chorei na frente dela – e ela estava lá com a mesma paciência de anjo em ambas as ocasiões. Hoje a moça faz aniversário, e é por isso que eu digo em alto e bom som: adoro você, Flavinha. Seja feliz.

Vivi Griswold às 09:30 AM

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2004

Procura-se

Procurar emprego, situação pela qual todo mundo já deve ter passado ao menos uma vez na vida – e pela qual hoje quase 20% da população, isso só na Grande São Paulo, passa todos os dias – é osso duro de roer. Não bastasse você se encontrar numa situação mais ou menos difícil, dependendo do volume de contas que teimam em bater na sua porta, ainda é preciso ter disposição para encarar uma série de micos.

Já estive na delicada posição de me ver fora da população economicamente ativa. Hoje, acompanho as agruras do namorido, que está em busca de seu lugar ao sol. Ele é como eu e não liga tanto assim para as notinhas coloridas com a assinatura do Meirelles e do Palocci, mas quer mais é fazer algo que lhe dê prazer. Claro que não de graça, senão a gente vai ser despejado do condô... Mas a um valor justo e decente para pagar as contas e sobrar um para o guaraná e o cinema do final de semana.

E foi acompanhando a busca do moçoilo que divide casa comigo que me deparei com algumas, digamos, piadas que o ato de procurar emprego nos prega. Porque se isso não for uma grande piada (de mau-gosto, pois é pregada em pessoas honestas que estão a correr atrás do prejuízo), eu não sei o que é.

E ao vosso reino, nada?
Centenas dos quadradinhos apertados do caderno de classificados pedem MBA completo, inglês fluente, mínimo de cinco anos de experiência em gerência, vivência no exterior e espanhol desejável. Ótimo, você pensa, o salário deve ser de quatro dígitos – e com o primeiro deles maior-igual a 3, pelo menos. Pffff. Quando muito, a paga não passa de uma mileta e meia – que não é um salário ruim na realidade brazuca, mas não faz jus a um profissional tão qualificado assim! Com uma mileta e meia, não dá nem para pagar a passagem de ida e volta para ter a tal "vivência no exterior". Ah, sim: e lembremo-nos de que a maioria dos candidatos está ali porque está... desempregado. O que diminui sensivelmente as chances dele ter algum dinheiro sobrando para fazer espanhol, inglês, MBA e intercâmbio.

Agora, vamos todos fazer um círculo
Com um bando de estranhos trancados numa sala, você é obrigado a falar da sua vida, do que espera do emprego (que ainda não é seu) e da sua banda favorita (?!). Isso quando não aparecem atividades do tipo recortar e colar ou ficar jogando uma bexiga para o alto. Só falta ter pintura com cola e areia e alinhavo. Uma espécie de retorno ao pré quando o que você menos precisa é disso, as famigeradas dinâmicas de grupo viraram moda e fazem parte de quase todo processo seletivo hoje. Não basta ter um bom currículo e mostrar que você é um cara bacana e interessado em duas ou três entrevistas: ainda tem de pagar mico. E muito.

Objetos Empresariais Não-Identificados
Também é comum encontrar anúncios assim: "Procura-se: administrador de empresas graduado, três anos de experiência. Salário + benefícios. Empresa: CONFIDENCIAL". Que diabos é isso? Se o mundo fosse justo, os candidatos também tinham de gozar do direito do anonimato e aparecer na entrevista com um saco de supermercado furadinho na altura dos olhos, enfiado na cabeça. É o candidato: CONFIDENCIAL. Qual é o problema em dizer, afinal, em que buraco o sujeito pode estar indo parar? Eu tenho um pouco de medo dessas vagas. Afinal, quem não deve não teme. E se a empresa não se anuncia, pode ser responsável pela produção de algo ilegal, imoral ou que engorde. Ou, pior, ainda, ser uma multinacional...

Clara McFly às 05:26 PM


Teu passado te absolve

São casos clássicos onde minha santa avó usaria “quem te viu, quem te vê”. Antes, eram pessoas de gabarito, na onda, com opinião e trabalho respeitados em qualquer roda de bate-papo. Daí, fez-se a tempestade e os cobradores devem ter batido à porta com mais força. Então, o que eram ícones da televisão viraram uns panacas.

Que me perdoem amigos e familiares dessa gente citada mais abaixo. Mas acredito que, no caso de certas “celebridades”, era melhor cair no limbo do bem do que amargar tamanho mico televisivo. Uma era VJ cool, virou tele-Mirtes. Outro, largou uma brilhante carreira de apresentador esperto e boca dura para virar divulgador de detergente em programa dominical.

No meu coração suburbano, dignidade sempre foi, é e será mais importante que bufunfa. Já para esses cidadãos, a escolha foi “melhor perder o senso que o contracheque”. O jeito é esquecer o presente e lembrar que os tais já foram... os tais.

Roberto Cabrini
Um dia, seo Cabrini já foi bom em descobrir artimanhas de vilões como PC Farias e Fernando Collor e de fazer reportagens investigativas contundentes. Então ele foi para a Bandeirantes. Agora fala como se estivesse no “Aqui Agora” e produz matérias de 35 minutos sobre assassinos sanguinários – mostrando imagens, claro. Papai deve estar envergonhado, seo Cabrini.

Titãs
Fora o Arnaldo Antunes (que picou a mula), o Marcelo Fromer (que morreu) e o Paulo Miklos (que eu ainda acho ser músico dos bons), esse grupo virou um punhado de bocós. Ficam lá com “é cedo ou tarde demais pra dizer adeus pra dizer jamais”! Coisa mais aborrecida... Onde foram parar “Sonífera Ilha”, “Polícia”, “Cabeça Dinossauro”? Guardadas no baú do passado, por certo.

Fausto Silva
Só digo uma coisa: “Perdidos na Noite”. Era soberbo. Engraçadíssimo, popular, trazia ótimas bandas, estava na vanguarda de tudo o que era legal na cultura jovem. Daí veio a transferência milionária e o gordinho bacana embarcou no Caminhão do Faustão, nas olimpíadas humilhantes do Faustão, na aeróbica em trajes mínimos do Faustão. Ganhou em fama, perdeu em graça.

Kadu Moliterno e André di Biase
Esses estão desculpados. Não eram bons atores nem nos tempos da maravilhosa “Armação Ilimitada”. O jeito, finada a série, foi gravar um CD ainda como Juba e Lula. Não colou – também, com “Surfin USA” virando “Surfe é o que Eu Sei”... Vieram os anos de exílio e, depois, “Malhação”. Precisa pagar o aluguel e os suplementos alimentares, né? Tadinhos. Eles também devem ter saudade dos tempos de “ar-mar-ação”.

Astrid
Mas essa eu não perdôo! Outro dia tive o desprazer imenso de ver a moça na tv. Estava de franjinha descolorida, encarapitada num trio-elétrico, dançando axé feito pomba-gira e se esgoelando ao microfone. Que vergonha. Fiquei com remorso de, um dia, ter perdido tempo e bombril tentando sintonizar a MTV no canal 32 UHF. Astrid deve ter contas a honrar com a Daslu, tudo bem, mas fazer esse “Melhor da Tarde” é demais. Hoje, ninguém diz que ela já foi símbolo da juventude moderninha. É só o passado que te absolve, viu, Astrid?

Fla Wonka às 01:46 PM


Quem não se enamorou?

"Quando você chega na classe / nem sabe quanta diferença que faz / e às vezes faço que nem vejo e nem ligo / e finjo ser distraída demais / Quantas vezes te desenhei / mas não consigo ver o teu sorriso no fim / te sigo caminhando pelo recreio / quem você tropeça em mim?".

O parágrafo acima é a abertura da música “Se Enamora”, clássico do Balão Mágico, mas poderia ter sido escrita por qualquer um de nós. Afinal, quem não viveu um amor platônico nos tempos de escola que atire o primeiro giz de cera!

Tanto quanto livros, lápis, borrachas e apontadores, as paixonites agudas faziam parte da sala de aula. Era uma época estranha: as meninas ainda andavam apenas com as meninas, e os meninos só se falavam entre eles. Porém, já havíamos passado daquela fase em que o sexo oposto era apenas motivo de chacota (no caso dos garotos, que viviam pregando peças nojentas nas coleguinhas) ou de asco (no caso das garotas, que achavam os amiguinhos grossos e sujismundos).

Algum interruptor foi ligado dentro de mim quando passei da 3ª série A para a 4ª série B, como parece acontecer com todo mundo. Alguns mais cedo, outros mais tarde. Mas não dá para fugir do interruptor que, de uma hora para outra, nos fazia olhar para aquele cara no fundo da classe ou aquela menina na primeira carteira de modo diferente. E, daí, a hora de ir para a escola passava a ser aguardada com ansiedade.

Eu contabilizava 10 anos incompletos quando o vi pela primeira vez. Ele era loirinho, tinha olhos azuis e sabia combinar como poucos o uniforme azul celeste com um tênis All Star de cano alto puído. Na hora da merenda (naquela época tinha merenda), ficava desenhando símbolos de anarquia nos guardanapos com sua Bic 4 cores. Duvido que ele sequer desconfiava do significado daquele A maiúsculo. Mas conseguia impressionar essa garota tímida, viu?

Como uma paixonite escolar de respeito, essa não foi declarada e muito menos correspondida. Claro: se tivesse sido uma das duas coisas – ou, pior, as duas – não teria sido uma paixonite escolar de respeito. Naquela época, esperava apenas ganhar uma mordida do X-Salada comprado na cantina, ou ser escolhida para o trabalho em dupla, ou ajudá-lo a buscar o jogo de geometria no almoxarifado. Não tínhamos pretensões maiores que essas. Aliás, nem sabíamos que existiam pretensões maiores que essas!

Meu amor escolar pelo garoto anarquista (agora me lembrei, ele era filho de um professor da escola) durou até a 6ª série B. Depois disso, as coisas mudaram. E, como diria o personagem principal do filme “Conta Comigo”, bem no fim, ele se tornou apenas um rosto no corredor. E você acha que eu me livrei da sina de me apaixonar por coleguinha? Bah.

Tive uma paixonite aguda na faculdade, contabilizando 19 anos incompletos. Mas aquela não foi de respeito, como a de uma década atrás. Ao contrário: foi declarada e correspondida. E sobreviveu a recreios, a passagens de ano e a mudanças. E, ufa, esse nunca virou um rosto no corredor.

Vivi Griswold às 09:42 AM

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2004

Manual para a vida adulta

Desde pequeno a gente aprende que todo ser vivo nasce, cresce, se reproduz e morre. E embora nessa época adoremos brincar de ser adulto, usando as roupas e a maquiagem da mamãe, cuidando de bonecas ou preparando comidinhas fictícias, não temos a menor pista do que é crescer de verdade.

Há milhares de definições sobre o tema. Um velho livro de Psicologia que tive no colégio dizia que a adolescência termina quando resolvemos três questões na vida: a profissional (suponho que essa represente a velha pergunta dos adultos, "o que você vai ser quando crescer?"), a sexual (de volta às perguntas da gente grande aos petizes, essa deve ser a "com quem você vai se casar?" , entre outras variáveis...) e a filosófica (ainda não tenho bem certeza do que tal item exprime. Vai ver ainda não o resolvi).

Mas acho que a grande diferença entre os deliciosos dias infantis e nosso cotidiano atual está guardada num ponto bem simples: as coisas que fazemos nesses dois períodos. Quando pequenos, há uma série de atividades e propósitos que pipocam naturalmente nos nossos dias. Quando crescidinhos, é preciso encaixar essas coisas na sua atribulada agenda, com pequenas adaptações, se você quer ser uma pessoa bacana.

Ok, eu sei que estou longe de desvendar o verdadeiro mistério de crescer. Se o tivesse feito guardaria para mim – para não tirar das outras pessoas o prazer de uma descoberta pessoal dessas, ao contrário do que os gurus da auto-ajuda costumam fazer. Mas ainda assim sugiro que toda a gente grande tire um tempinho para...

Assistir desenho
Tá certo que não dá mais para ficar parado na frente da tela tanto tempo, mas pelo menos meia hora de cartoon por semana é dosagem suficiente para você não se transformar num cara chato. Especialmente se o desenho em questão for da dupla Hanna-Barbera. Por isso, não se acanhe em pegar um pacote de bolachas e correr para a frente da TV.

Se exercitar
Eu sou a rainha da inércia e tenho sérias restrições a ambientes de academia, com aquele povo subindo e descendo degraus no mesmo lugar, ao som de qualquer música ruim. Mas andar, correr ou tirar uma lutinha de brincadeira com seu irmão ou namorido definitivamente faz você se sentir melhor. Juro.

Ficar de papo para o ar
Na nossa espaçosa agenda infantil, uma vez cumprido o dever escolar e algumas tarefas domésticas conferidas pela mamãe, como guardar os brinquedos ou botar a mesa, tínhamos horas e horas para ficar pensando em... nada! E isso é mais benéfico do que imaginamos.

Brincar sozinho
Vale videogame, paciência no computador, desenhar, escrever... Qualquer coisa que dependa apenas das suas habilidades e imaginação. Os mais avançados na prática conseguem fazer do trabalho uma espécie de jogo individual, o que também conta. Desde que, como na época do pré, você se lembre que existem regras e é feio pisar na cabeça dos seus colegas, por exemplo.

Brincar com seus amigos
Não pega bem um bando de marmanjos fechar a rua para brincar de "Alerta!", mas no conforto do seu lar sempre é possível reunir os camaradas em volta de um tabuleiro ou chamar todo mundo para dançar, ver um filme, jantar e bater papo. De longe, dá para ficar trocando e-mails. São pequenas adaptações que não tiram a essência de brincar em turma. E ainda fazem seu dia melhor.

Clara McFly às 05:30 PM


Quando o amor estraga

Confesso que adoro desenhar coraçõezinhos no canto das páginas e suspiro vendo namorados beijando no parque. O amor é lindo – mesmo muita gente tentando divulgar que ele é “uma flor roxa que nasce no coração do trouxa”. Esse belo sentimento só fica idiota quando usam-no para tapar buraco. Amor não é estepe, senhores roteiristas de cinema!

Tantas histórias boas já foram engrandecidas por romance. Vide “...E o Vento Levou”, que conta sobre a Guerra da Secessão norte-americana, mas coloca a trajetória de Scarlet e Rett no meio do caminho. Ou “Coração Valente”, que trata da independência da Escócia, mas mostra como os bravos também choram uma vida inteira pelo seu rabo de saia predileto.

Já outras produções... Suponho que tenha sido assim: com medo que a temática “soco no queixo” assustasse garotas pagadoras de ingresso e que mandam nos namorados, os roteiristas acharam legal meter romances melados no meio da história. Como se mocinhas não pudessem apreciar uma grandiosa batalha ou filme policial arrasa-quarteirão.

O exemplo clássico e pregado aos sete ventos atlânticos é “Titanic”. Olha que eu gosto do trabalho do Leonardo Di Caprio e acho a Kate Winslet uma das atrizes mais lindas e competentes que há. Mas aquela baboseira de “Jack pra lá” e “Rose pra cá” foi um porre. Não sei porque não meteram os dois na rachadura do casco do navio e deram fim no prejuízo.

Outro que me mata de tédio é “Dança com Lobos”. Na verdade, podem dizer o que quiser, mas acho a versão “kevincostneriana” da conquista do Velho Oeste muito interessante. Quer dizer: ia tudo bem com o capitão Dunbar e sua relação com os sioux. Até que embutiram uma camponesa-índia-tradutora na jogada. Céus, que romance mais chato. Deu mais enjôo disso do que ver o índio comer língua de búfalo crua e sem farinha de acompanhamento.

Aliás, essa mania de enfiar garotas no roteiro pra agradar a libido masculina não resulta em boa coisa. Eu sei que os meninos vão me atirar garrafas de Caracu agora, mas a parte gosmântica de todo filme do 007 dá sono. Tá certo: as garotas são exuberantes (tradução para rapazes: gostosas) e sensuais (tradução para rapazes: gostosas). Mas todas as que não carregavam um revólver ou uma zarabatana com veneno podiam bem ter sido dispensadas. A gente sabe que o Bond era “pegador”, não precisa reforçar tanto!

Porém nada se compara ao desastre de “Pearl Harbor” – e eu não uso a palavra “desastre” como referência ao ataque japonês à base americana. O que era uma história de guerra, com lances de estratégia, vingança, oportunismo e humanidade, virou uma melação. Pra ver aquele triângulo amoroso sem química e babento, podiam ter gasto um terço do orçamento e feito uma comédia romântica. Sem o Ben Affleck, por deus, que daí nada pode acabar bem.

Seria bacana os produtores mirarem o exemplo de “O Último Samurai” ao inserir romance numa história. Já no trailer, ficava claro que o Tom Cruise ia cair de quatro pela japonesinha da família samurai. Mas a relação é bonita, singela e muito, muito rápida de ser ver. Nada de beijos de língua, rolando no feno e envolvendo quimonos atirados para o ar! Misturar amor e ação pode embrulhar o estômago, sabem como é.

Pearl.jpg
Vejam! A Kate também odeia esse triângulo
e procura uma rota de fuga!
Fla Wonka às 01:31 PM


Não dá pra acreditar

Apesar de ser uma crente nos mistérios da humanidade e de botar fé em 70% das conspirações que andam por aí, até eu deixo de acreditar em certas coisas. E não me refiro a balelas como a Xuxa ter sido acordada por um duende, ou a Sandy ser atriz ou o Michael Jackson ser o pai biológico daquela prole loirinha e encapuzada. Acho que algumas das maiores enganações estão presentes em nosso dia-a-dia. É só botar reparo, como diria a minha avó.

Já que eu sigo as instruções de dona Diva e reparo em tudo mesmo, convido você, leitor, a tentar desvendar essas charadas aí em baixo. Desculpem-me aqueles que acreditam, mas eu não engulo...

... que Fanta tem 10% de suco de laranja em sua composição
Segundo o rótulo do fabricante da Fanta, aquele refrigerante que brilha no escuro como césio e tem gosto de faz-de-conta de outra dimensão, há 10% de suco de laranja na bebida. Ah, sei. Lembre-se de que a Coca-Cola Company tem realmente muita credibilidade ao divulgar uma fórmula. São eles os culpados pelo meu vício negro e gasoso, cujos ingredientes, bem, é melhor não saber mesmo. Tenho um amigo que acredita na história do suco real na Fanta porque, segundo o próprio, ficam umas “coisinhas” no fundo do copo, decantadas. Eca!

... que o Patropi e o Fofão são a mesma pessoa
Um era estudante bicho-grilo de Comunicação na PUC de São Paulo. O outro, um ser extraterrestre bochechudo que veio do planeta Fofolândia espalhar alegria na Terra. Muitos já comentaram, mesmo eu aqui no Garotas, que os dois personagens são feitos pelo ator Orival Pessini. Não sei se, no fundo, realmente gostaria de acreditar naquele ser bacana que é o Fofão - mas eu não engulo muito essa história. O dia em que eu vir uma prova, meu mundo vai cair como caiu quando soube que a Vovó Mafalda era um homem.

... que há lactobacilos vivos no Yakult
Eu gosto de Yakult, mas toda a vez que tomo aquele líquido azedinho fico pensando que estou engolindo um monte de bichos vivos. Ok, lactobacilos não são bichos propriamente ditos. Mas são vivos, certo? E você acha que algum organismo conseguiria sobreviver dentro daquela embalagem de plástico, carregada pelas tias que vendem de porta em porta em carrinhos de feira? Eles falam isso só para dar a entender que a coisa faz bem para a tal “flora intestinal” - um termo que, cá entre nós, é pura invenção de marketeiro.

... que existe uma brigada de incêndio em todo o cinema
A cada sessão de cinema somos enganados pela mesma balela: “Em caso de emergência, siga corretamente as orientações de nossa brigada de incêndio”. E eles querem que eu acredite que, em todo cinema da cidade, existe um monte de bombeirinhos sentadinhos esperando que algo aconteça? O que eles ficam fazendo durante a espera, jogando truco no McDonald´s? Aposto que, se um dia vier alguma emergência, vamos todos descobrir que a brigada é composta por aqueles bonecos infláveis de porta de oficina mecânica.

... que dá para bater clara em neve manualmente
Só as freiras do século XVIII, reclusas lá naqueles mosteiros nos campos portugueses, conseguiam bater clara em neve manualmente. Já tentou, leitor? Eu já. E, depois de duas horas com aquele apetrecho de cozinha que parece uma espiral presa num cabo, desisti. Fiz uma omelete mesmo. Considero aquele que faz o feito como um faquir que senta em cama de pregos ou um encantador de serpentes que faz uma naja dançar. E olha que eu acho que os pregos são de borracha e a naja é uma marionete... Mas isso é outra história.

... que as fórmulas dos xampus modernos são tão avançadas
Primeiro: eu não acredito que exista quimicamente alguma diferença ente xampu “para cabelos oleosos” ou xampu para “cabelos rebeldes e sem vida” ou xampu para “cabelos tingidos”. Quer dizer que se meu cabelo for oleoso, rebelde e tingido, tô ferrada, né? Segundo: o que diabo os fabricantes pensam ao espalhar que seus produtos possuem “DNA vegetal”, “Hidraloe”, “partículas anti-resíduos”? E eu que achava que era tudo um monte de sabonete líquido para cabelo... Mal sabem que eu nem leio o rótulo, vou no mais em conta.

Taí outra coisa que dona Diva me ensinou a botar reparo!

Vivi Griswold às 09:31 AM

terça-feira, 10 de fevereiro de 2004

Bla-bla-blá do rock’n’roll

Como se sabe, o rebelde roquenrrol nunca ligou muito para letras. Claro que isso não quer dizer que não haja registros de belas poesias e mensagens bacanas enlevadas pelo som das guitarras altas e distorcidas. Mas o forte do ritmo sempre esteve mais para a atitude que para frases bem-arranjadas entre acordes.

Prova disso é a existência de um punhado de misteriosas palavras em verdadeiros clássicos do roque. São combinações de sílabas aleatórias que não têm sentido algum, mas fizeram história e marcaram época – ou ao menos foram insistentemente marteladas nas FMs mundo afora.

A lista das onomatopéias chewbacca do roquenrrol conta só com músicas para lá de bacanas – mas cujos compositores deviam estar para lá de Bagdá quando as inventaram. Que outra hipótese explicaria o significado de...

A-Wop-bop-a-loo-lop a-lop-bam-boo?
Eu nem sequer sou capaz pronunciar, mesmo que pausadamente, essa profusão de letras combinadas de maneira a criar o inesquecível refrão de "Tutti Frutti". Little Richard deve ter treinado semanas para conseguir gravar o clássico.

Gabba gabba hey?
Só mesmo o saudoso quarteto punk para cravar essa máxima nonsense numa canção, sem o menor pudor. Os Ramones sacaram da frase em "Pinhead" e transformaram as palavras sem sentido numa espécie de grito de guerra do movimento.

Obladi, oblada?
Os Beatles repetem o simpático tatibitate na música homônima, que trata da história de amor de Desmond e Molly. Só faltou explicar o que, afinal das contas, isso quer dizer. Pensando bem, não faltou nada. Eles podem.

Mush a ring dum a doo dum a da?
Em "Whisky in the Jar", música do Thin Lizzy regravada pelo Metallica em seu "Garage Inc.", o sujeito repete a frase acima – que começa com algum sentido e termina sem nenhum. Parece ritual de magia ou algo que o valha.

Doo doo doo doo dingle zing a dong bone/ Ba-di ba-da ba-zumba crunga cong gone bad?
Hã? Dá para repetir? Anthony Kieds se superou. Apesar de "Soul to Squeeze" estar longe de ser um clássico, os versos gravados pelo Red Hot Chili Peppers ganharam direito de entrar na lista porque constituem a maior onomatopéia nonsense do rock que eu já vi.

Mesmo depois dessa, em terras brasilis Paulo Ricardo ainda é o rei do tema. Kieds fez meio metro de versos sem sentido a partir de palavras (quase todas) inventadas. Já Paulo-Ricardo-Baixo-e-Voz sacou de "Mas acabou/Não vou rimar/Coisa nenhuma/Agora vai/Vamos sair/Que eu já não quero nem saber/Se vai caber/Ou vão me censurar", contabilizando oito versinhos com palavras que existem, mas não dizem nada, na saudosa "Olhar 43". Não se fazem mais compositores como nos anos 80...

Clara McFly às 05:35 PM


Não me T.O.C.!

Faça um teste aí na sua mesa do computador. Espalhe uns papéis pela área, jogue canetas por cima, deixe o mouse pad meio torto e, se gosta de emoções fortes, marque o monitor com digitais. Deu incômodo? Você ficou pelo menos um pouco nervoso? Pois é... digamos que, se eu fizer isso por aqui, vou arrumar uma taquicardia. Acho que tenho aquele tal de Transtorno Obsessivo-Compulsivo.

Para os usuários da tv a cabo, é fácil explicar esse problema pequenino. Sabem a Mônica Geller, do seriado “Friends”? A pirada que fica nervosa com o modo como os outros cortam a carne e que organiza armários alheios? Essa sou eu... em um grau um pouco menor, talvez. Não muito menor, mas menor.

É meio doloroso ser assim, para dizer a verdade. Meus amigos tiram o maior barato – e ainda me fazem de boba. Em várias redações onde trabalhei, eles faziam de propósito: iam na minha mesa quando eu estava fora e mudavam objetos de lugar. A retardada aqui chegava e, notando a configuração estranha, começava a arrumar tudo automaticamente. Era a alegria da turma. Sádicos!

Pelo que entendi vendo programas vespertinos (e as entrevistas da Luciana Vendramini, que já passou por surtos bravos de TOC), isso é um distúrbio que acontece lá na cachola. Muita gente tem, em maior ou menor nível. Os mais afetados tomam 10 banhos por dia, não pisam em rachaduras de calçada ou têm pânico de vestir roupa amarela, por exemplo. Os mais tranqüilos – categoria onde eu espero ficar pra sempre – são apenas tachados de chatos mesmo.

Mas não é minha culpa! Tem gente que assusta quando eu conto que me sinto mal quando a etiqueta do edredom fica virada pro lado errado na cama. Ou quando arrumo um quadro na parede a cada vez que o vejo. Ou nas vezes em que organizo os cabides do armário todos virados pro mesmo lado... Gozado é que, quando isso aparece no cinema, daí acham engraçado.

O Jack Nicholson era neurótico em “Melhor é Impossível”. Ganhou Oscar e matou platéias inteiras de rir. O Nicolas Cage fez papel semelhante no ótimo e recente “Os Vigaristas”. Estava cogitado pra levar vários prêmios pelo filme nesse ano. Mas quando é alguém real que tem chilique porque os guardanapos na mesa estão fora de esquadro, tudo perde o charme. Pior é que eu tento disfarçar, mas raramente dá certo.

Se servirem o feijão no meu prato em cima do arroz, e não ao lado, já emburro. E fico com raiva de emburrar, porque reclamar de favor alheio é muita falta de educação. E pior do que ser considerada uma pessoa cheia de manias, é ser considerada cheia de fricotes.

Mas deixa estar. Um dia ainda me livro desse mal. Nem que seja com tratamento de choque! Vou deixar os travesseiros com a fronha virada, pingar suco na pia, descoordenar as cores na gaveta de meias e badernar as pastas dos Meus Favoritos na internet! Credo... De repente me deu uma taquicardia...

Fla Wonka às 12:11 PM


Jura, sêo Jura?

Imagine o Roque, ajudante de palco do Silvio Santos, de bigode. Ou a Marlene Mattos, tanto faz. Coloque um simpático acento de nordestino, porém uma conturbada dicção que dificulta o entendimento das mais simplórias frases. Adicione ainda uma certa confusão para gravar nomes e dados na cachola, uma completa falta de noção de horários e uma tendência nata a fazer tudo o que der na telha sem levar muito em conta opiniões alheias. O resultado da mistura? Sêo Jurandir, o marceneiro.

Os serviços de Jurandir (ou Jura, para os íntimos), me foram recomendados pela Clarinha. Foi ele quem fez a bela cozinha da casa colorida que a moça habita lá em São Bernado do Campo. Como eu também estava precisando de um profissional sabido de móveis, madeira e serras tico-tico para a minha cozinha – e não conhecia ninguém no ramo que fosse barateiro –, fez-se o contato. E Jurandir veio.

Antes, Clara me preparou psicologicamente: “Quando ele chegar, você vai querer me xingar. Mas fica fria, que ele fez o serviço direitinho”, não esquecendo do adendo “Ah, ele parece o Roque. Ou a Marlene Mattos”. Lógico que eu tive de segurar o riso quando abri a porta para a pitoresca figura adentrar o recinto.

O que queríamos para a cozinha não era nenhum Taj Mahal da marcenaria. Dois retângulos com portas de correr e vidro fosco, acima e abaixo da pia. Outros pequenos compartimentos basculantes, dois sobre a geladeira, um sobre o fogão. A madeira, de cor tabaco, como os demais móveis do apartamento. Para não dar trela a mal-entendido, teve até esquema no computador, com as devidas medidas. Só faltava fazer. Era aí que Jura entrava.

Na primeira visita, Jurandir fez suas próprias medidas e anotações, aparentemente desdenhando nosso complexo esquema desenhado com cuidado. Apontamos no mostruário o tom certo: escuro, sem veios aparentes. Também nos esmeramos em explicar que não queríamos fórmica, de jeito nenhum. Entendeu, sêo Jura? “Entendi”, respondia, de um jeito meio incompreensível.

Quinze dias depois, ele liga para dizer que está tudo pronto. Avisa que vai trazer e montar na manhã seguinte, às 9h. Mas apenas quando meu relógio de gato deu uma única badalada vespertina foi que Jurandir chegou. Contando com a ajuda e o reforço de dois rapazes, colocou na sala todas as partes desmontadas, como um Lego. Arrastou os móveis e estendeu uma manta que já veio empoeirada e cheia de serragem de trabalhos anteriores. Como sou chata com essas frescuras de limpeza, fiz que não vi e voltei ao computador.

Ao terminar, sêo Jura me chamou – não pelo nome, porque ele nunca conseguiu decorar “vivi”, tadinho. Daí veio o choque: ele tinha feito a) tudo em fórmica, b) sem vidro fosco na parte de baixo e c) com medidas aleatórias, apesar dos desenhos minuciosos que entregamos a ele.

“Mas sêo Jura, a gente não queria fórmica”, tentei falar de modo meigo. “Ah, mas esse material é que é bom, dura uns par de ano”. Vendo minha cara de decepção, tentou explicar que “é facinho de limpar, só passar cera que fica tinindo”. Claro, até eu, passando cera, fico tinindo. E quem ainda usa cera nesse novo milênio? Só marceneiros com a cara do Roque. Ou da Marlene Mattos.

Lá foi Jurandir, sob protestos lacrimosos, desmontar tudo e encapar todos os gabinetes e portas com o tom certo, sem fórmica. Ontem ele trouxe os armários novamente: e, desta vez, acertou. Pena que as portas não se encaixaram nos compartimentos basculantes (?) e ele ficou de refazê-las. Hoje, portanto, tem mais um capítulo da saga de sêo Jura no apartamento. Estou torcendo para que seja o último. Juro.

Vivi Griswold às 08:42 AM

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2004

Cadê o bidê que estava aqui?

Ainda me espanto com a rapidez com que as coisas que víamos em todos os lugares, todo orado dia, simplesmente somem da face desta Terra. E eu não estou falando do Bonde do Tigrão ou das performances da Tiazinha.

Penteadeira, por exemplo, é uma peça que só se encontra em lojas de móveis usados. E pensar que eu trepei muito no banquinho com almofada de veludo marrom da penteadeira da minha mãe, quando era pequena, a fim de alcançar o espelho e brincar de me maquiar. Por que ninguém mais fabrica penteadeiras?

Talvez seja uma questão de espaço. Do espaço exíguo que é oferecido a preço de ouro nos apartamentos novos que a gente vê por aí. Acho que ninguém mais tem espaço para "gastar" com uma boa e velha penteadeira, nem que você nem se maquie tanto assim e o móvel sirva só para fazer (uma bela) figuração.

Isso também explica o sumiço dos bidês, aquelas louças geniais para fazer "limpeza íntima". Numa das casas em que morei, tinha bidê. Claro que o negócio só servia para acumular pó, de maneira que minha mãe logo tratou de substitui-lo por um enorme gabinete, cheio de gavetinhas para guardar sabonetes e outras bossas.

Uma pena. Eu queria ter um bidê, nem que fosse para plantar uma bela avenca dentro, como fez minha amiga Roberta.

Outra coisa que desapareceu sem deixar rastros foram aqueles sacos pardos de supermercado. Nos mercadinhos de bairro, aqueles menorezinhos (e também ameaçados de extinção), ainda pode-se encontrar alguns. Mas os megamercados trataram de banir os pobres, charmosos e ecologicamente corretos sacos de papel por sacolinhas plásticas, que levam eras inteiras para se decompor no meio-ambiente e, ainda por cima, fazem um barulho irritante.

E casco de refrigerante, então? Era o maior barato receber a missão de ir até a padaria ou o bar mais próximo para comprar a bebida. Alguns estabelecimentos só aceitavam garrafas vazias da mesma empresa em troca de outras. Então, podia comprar fanta com casco de coca, mas jamais soda com um vidro vazio de tubaína. E toca voltar em casa e trocar a garrafa com um vizinho...

Porém, o maior emblema do desaparecimento das coisas bacanas ainda é o vinil. Era frágil, empenava e riscava à toa? Sim, não vou mentir para você. Mas os discões pretos com um furinho no meio embalaram minha infância e parte da adolescência como nenhum outro objeto foi capaz. Sem contar o barato das capas, generosas o suficiente para trazer desenhos e fotografias bem mais bacanas que esses encartes de CDs com espaços miguelentos.

Daí podemos concluir que o que é legal some, em favor do surgimento de produtos mais baratos ou mais fáceis de manter. Por isso, corra para guardar seus tesouros. Amanhã, pode ser a vez das balas 7 Belo, das sacolas coloridas de feira e dos edredons coloridos. Vai saber...

Bombavinil.jpg
Olha aí o bom e velho elepê!


Clara McFly às 06:05 PM


Meu modelo de governante

Se eu ficasse famosa hoje e fosse num desses programas podres de domingo, já saberia o que responder para ao menos uma pergunta. “Quem é o modelo de vida que você segue?”, questionaria o Faustão. E eu diria sem pestanejar: “nem Madre Teresa, nem Audrey Hepburn, nem Anita Garibaldi, Fausto. Meu modelo de garota – e pessoa que eu elegeria presidente do Brasil – é a Silvia”.

Ela não é um ícone mundial de bondade, beleza ou coragem. Ninguém além de uns poucos sortudos a conhecem direito. Ela, na verdade, é apenas uma moça bonita, falante e descontroladamente responsável e correta. Às vezes eu penso que essa garota poderia mesmo ter sido o que quisesse. Pena ela não ter decidido ser presidenta da nossa nação.

Tinha disciplina de astronauta, carisma de atriz ou cantora, inteligência para presidir a ONU e um instinto de justiceira que faria o Stallone parece uma franga. Mas ela escolheu não atuar na chefia do país, e sim lá na retaguarda. Casou, criou duas menininhas sensacionais e tornou-se a melhor bibliotecária que existe. Quem aí ousar dizer que as bibliotecárias não deveriam chegar à presidência vai levar uma bifa...

Acontece que, se a Silvia fosse a voz do Brasil lá no Palácio do Planalto, esse lugar onde vivemos poderia se tornar uma potência plenamente feliz – e com o aspecto de um graaaande centro cirúrgico. Essa moça coordena características preciosas para ser um modelo para mim e a presidenta perfeita. Veja lá:

Chefe-artista
Exímia inventora de modas, ela é obcecada por trabalhos manuais. Fabrica velas, produz peças de ponto cruz, cria enfeites de Natal, se lança sobre mosaicos e artes do gênero. Uma coisa é certa: com a Silvia no comando do Brasil, nossas estradas seriam ladrilhadas e as florestas estariam protegidas com cercas de fita de cetim.

Chefe de limpeza
Só para lembrar, foi ela quem me mandou estocar álcool... É possível passar pela casa dessa moça se arrastando pelo chão com uma camisola branca: nem um grão de poeira há de ser encontrado. Silvia usa roupas sempre passadas a ferro, cabelo alinhado (com chapinha, mas não espalha), unhas feitas. A contribuição de uma garota como essa ao país seria de extremo valor. Já pensaram? O Tietê cheiraria a rosas e a caatinga seria varrida diariamente...

Chefe da biblioteca
Nunca vi alguém tão bom pra organizar. E não é que essa minha candidata ao governo organize apenas livros na prateleira ou revistas nas coleções. Em qualquer almoço de Natal ou Ano Novo, ela distribui tarefas, dita as regras e bota todo mundo para trabalhar sob suas rédeas. Podia ser um saco, mas é tão engraçado ver a criatura de 1,60 m bancar a abelha-rainha que o resto de nós entra no esquema. É a ditadora-boazinha que nós precisamos nesse país.

Minha chefe
Pode ser que nenhum de vocês vote na Silvia para presidenta como eu faria cegamente. Mas vejam: com caixas de sapato, vidros de remédio e outros apetrechos, ela montava casinhas inteiras pra eu brincar com a Susi. Com um teco de pano, agulha e linha, gerava roupas chocantes pra boneca. Quando os adultos viajavam, ela cuidava de mim – mesmo emburradíssima com a tarefa. Ela fazia maçã do amor pra eu comer e hoje cozinha o melhor risoto da paróquia. Tudo bem: ela também já prendeu meu dedo numa dobradiça, gritou mil vezes comigo por usar as roupas dela e foi uma pessoa insuportável de se dividir o quarto por 20 anos... Mas eu votaria nela assim mesmo. Porque a minha irmã daria um belo jeito nesse país.

Fla Wonka às 01:20 PM


Eu, coração, SBT

Há coisas que só o Sistema Brasileiro de Televisão pode fazer por você. Não me refiro aqui, porém, a traseiros requebrando-se e atacando as câmeras em horário familiar, nem a entrevistas inventadas e protagonizadas pelos piores atores de pegadinha que um salário mínimo pode comprar. O SBT que me diverte é aquele de cenários bregas, prêmios toscos, seriados tranqueiras e cenas hilárias – tudo orquestrado pelo Homem do Baú.

Porque se existe algo que sêo Silvio Santos sabe fazer, além de ganhar dinheiro, é patrocinar com orgulho uma programação repleta de pérolas impagáveis. Enquanto as emissoras concorrentes gastam milhões com programas novos e apresentadores estelares, o senhor de cabelos acaju bota “Chaves” e “Chapolim” pelo qüinquagésimo ano consecutivo no mesmo horário. E ganha.

Quer outros motivos para ser SBT de coração? Ok, você pediu.

O dono cantava marchas de Carnaval
Que Globeleza que nada! A musa das festividades carnavalescas é mesmo o Silvio, pelo menos para mim. Ou alguém se esqueceu daquelas musiquinhas engraçadíssimas que ele cantava? A letra aparecia na tela, emoldurada por confetes e serpentinas, para as “colegas de trabalho” acompanharem versos como “A pipa do vovô não sobe mais/ a pipa do vovô não sobe mais/ apesar de fazer muita força/ o vovô foi passado pra trás”. Queria ver se o Roberto Marinho tinha a manha...

Isso é prêmio?
Se um dia você tiver a felicidade de ganhar alguma coisa no SBT, prepare-se. Quem quer levar para casa um par de tênis Montreal ao invés de um Nike? Ou um videogame Dynavision no lugar de um Playstation? Ou um dormitório capelinha padrão mogno ao invés de... sério, quem quer ganhar um dormitório? Tudo bem, tem aviõezinhos de dinheiro. Mas, para arrematá-los, você terá de entrar em luta corporal com as Irenes, Mirtes, Lourdes e Janetes, todas vindas da caravana de Carapicuíba.

O Lombardi e o Roque
Um é a voz mais famosa do Brasil, mas não aparece. O outro, é o sósia mais perfeito da Marlene Mattos, mas não fala. Juntos, Lombardi e Roque representam a fina-flor da emissora que ainda está na ativa. Servindo o Patrão desde o começo, quando o SBT era tudo mato, a dupla é responsável pela alma proletária dos programas. Eu assisto até a sorteio da Telesena (de Páscoa, de Carnaval, de Primavera, de Dia dos Pais, de Finados e etc) para ouvir o Lomba. E o Roque, esse é paixão antiga.

Mão-de-obra politicamente correta
Enquanto a televisão vai expulsando artistas com mais de 50 anos (a não ser que sejam figurões), no SBT há espaço para rugas. Ivo Holanda, pioneiro das pegadinhas nacionais, sempre teve cadeira na emissora. Assim como a velhota Ruth Ronci, que só não deve ter mais idade que a Hebe. A amostra de dignidade é visível quando pensamos em Rony Rios e em Valentino Guzzo. Ambos colocaram comida na mesa travestindo-se de... de... hã... mulher? Afinal, o que eram a Velha Surda e a Vovó Mafalda?

Jesus falava
Precedendo toda a onda gospel que invadiu a televisão brasileira, o SBT dava espaço para a religião. Antes do programa “Porta da Esperança”, todo santo domingo (sem trocadilhos), lá estava Jesus. A imagem ficava congelada na tela e uma voz à lá Lombardi dizia: “Paz, amor, fé, esperança, luz e união não são apenas palavras. Você tem certeza de que fez tudo o que podia pelo seu semelhante? Pense bem, pois um dia vamos nos encontrar. E eu gostaria muito de chamá-lo de meu filho”. Um clássico.

Uma novela com meu nome
Qual outro canal aberto, além do SBT, teria a pachorra de exibir uma novela com o meu nome? “Viviana, Em Busca do Amor”, para ser mais exata. Eu, que sempre senti uma pontinha de inveja de minhas colegas que possuíam xarás nas tramas globais, de repente me vi homenageada nesse clássico folhetim mexicado, com direito a abertura brega, heroína pobre-porém-honesta, vilã mais demoníaca que Exu Tranca-Rua e mocinho rico-porém-limpinho. Isso sim é que é novela. Isso sim é que é emissora.

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Coisa mais linda!


Imagem emprestada do Museu Nostalgia.

Vivi Griswold às 09:35 AM

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2004

Cuidado: banheiro

Quem vive na cidade hoje em dia sabe que, ao botar os pezinhos para fora de casa, automaticamente corre uma série de riscos. Ao trancar a porta e sair, ficamos em estado de alerta: pessoas estranhas que se aproximam, carros enlouquecidos que brigam por um mísero centímetro de espaço (mesmo que para isso passem a uma distância obscena do seu corpo), nuvens que ameaçam desabar num dilúvio.

Mas há um espaço fora de casa que me deixa mais nervosa que tentar atravessar o cruzamento da Rebouças com a Henrique Schaumann a pé e mais apreensiva que estar dentro do carro com uma chuva de verão caindo sobre a Marginal Tietê. São os famigerados banheiros públicos.

Eu tenho neurose de banheiro. Acho que qualquer coisa de terrível pode acontecer a qualquer minuto, naqueles cubículos mal-separados uns dos outros. Acho que é porque banheiro é lugar de coisas muuuuito íntimas. E acho altamente esquisito compartilhá-los com gente que você nunca viu.

Afinal, o cômodo azulejado cheio de equipamentos hidráulicos é naturalmente um local de completa vulnerabilidade. E se qualquer coisa fora do planejado acontecer, fica difícil resolver a situação – especialmente se você não está em casa.

Será que isso acontece só comigo e é hora de procurar um psicólogo? Ou será que eu não sou a única pobre alma que, ao usar um WC que não o da minha casa, teme intensamente...

Ficar trancada lá dentro
Desde que tive a desagradável experiência de ficar presa num WC na companhia de uma cobra d’água, há muito tempo numa casa de praia, o trauma se sedimentou. A bem da verdade, esse caso é tão velho que nem me lembro se aconteceu mesmo ou se sonhei. Mas não importa: gritar “ei, abram aqui!” é mico suficiente para justificar a paúra.

Disparar a descarga
Imagina só aquela água subindo, subindo, subindo até transbordar pelo vaso, enquanto você, desesperado, não sabe se corre ou se tenta estancar a enxurrada com papel higiênico – o que não adiantaria, mas criaria uma massa enorme de papel machê. É um de meus piores pesadelos.

Esquecer a porta destrancada
Nem precisa ser muito aluada: na maioria das vezes, as maledetas portas dos cubículos são desprovidas de trancas mesmo. Aí, você fica naquela contraproducente posição: tem de se esforçar para, a um só tempo, mirar o vaso (sem sentar, caso você seja menina) e segurar a porta. É muita dificuldade para um simples xixi!

Descobrir que não tem papel
Nesse caso, temos duas possibilidades. Se foi, como citado acima, um simples xixi, basta dar uma balançadinha. Não é uma coisa bonita de se fazer, mas na falta de um rolo, fazer o quê? Já se seu uso do banheiro foi para aquele segundo tipo de alívio, aí você está em seríssimos apuros e vai ter de gritar algo pior do que “ei, abram aqui!”.

Usar sabonetes líquidos
Refiro-me aqui a aqueles detergentes de côco terrivelmente diluídos, que alguns banheiros públicos oferecem. Humpf. Como se aquilo fosse mesmo feito para lavar as mãos. A infeliz substância não faz espuma, não importa quantos litros você use, e mesmo assim faz grudar um cheiro de sabão em pedra por dias nas mãos. Horror, horror.

Clara McFly às 06:03 PM


Título pra mais de metro

Como é sabido, eu falo demais, assim como 90% dos meus parentes. A minha casa sempre pareceu com o Congresso Nacional, com todo mundo tagarelando ao mesmo tempo e a longas distâncias – às vezes com palavras censuradas para este horário, como também acontece lá na salona forrada de carpete azul. Parece, porém, que o pessoal destacado para criar nomes de filmes é verborrágico como nós, mortais da família Flá.

Hoje estréia nos cinemas um certo “Mestre dos Mares – O Lado Mais Distante do Mundo”. Pior que não é invenção de tradutores brasileiros, normalmente viciados meter subtítulos chatinhos em tudo quanto é produção. Esse veio de fora, do original “Master and Commander – The Far Side of the World”. Comprido, não? E quase tão exagerado quanto a pança do Russel Crowe nesse filme.

Mas existem alguns ainda mais engraçados, que quase contam a bendita história inteira. Depois de ter conhecimento de “Coisas para Fazer em Denver Quando Você Está Morto”, eu já sabia tudo o que ia sair desse roteiro gângster-policial. Muito ruim, aliás. Gente que está jurada de morte deveria arrumar as malas e pegar o rumo de Bali em vez de ficar em... Denver.

Há ainda aqueles que tentam nos pescar pelo cansaço do título longo e pelo mistério. É o caso de “Para Wong Foo, Obrigada Por Tudo! Julie Newmar”. Uma dedicatória que vira nome de filme é de provocar curiosidade. Mas quem foi assistir só queria saber por que cargas d’águas o Patrick Swayze e o Wesley Snipes ficaram tão horrorosos vestidos de garotas.

Acho que, em termos de títulos que ocupam um hectare de espaço na fachada do cinema, nenhum ganha de “Doutor Fantástico – Ou Como Eu Aprendi a Deixar de Me Preocupar e Amar a Bomba”. Sensacional, não? É um latifúndio de nome! Ao convidar um amigo para assistir essa película, é bom ter mais de um cartão telefônico em mãos.

O bom é que existem os títulos monossilábicos, pra balancear com os prolixos. Lembram de um filme do diretor Costa-Gavras que tratava de uma conspiração para assassinar um político comuna? Tanta artimanha e densidade moral acabou virando apenas “Z”. Lacônico. E é isso.

O melhor de todos os títulos diminutos, porém, deve ser “It”. Aqui ganhou a extensão “A Obra-Prima do Medo”, mas na verdade era apenas “It”. Em resumo, o palhaço assassino (sempre eles, tô dizendo...) aterrorizava uma cidade apanhando e descarnando criancinhas. Tinha umas unhonas compridas, cara branca e cabelo cor de salsicha.

Meio drag-queen aquela criatura, viu? Vai ver foi por isso que o filme não se chamou “He” ou “She”. Ele era apenas “It”... Já se tivesse caído nas mãos de um produtor com mania de grandeza, o horror bem poderia ter virado “Quando o Palhaço de Sexualidade Dúbia Aparece a Criançada Sofre Graves Machucados Corporais”. Haja espaço no letreiro.

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"It"? Podia chamar
"Brigite", pelo menos...


Fla Wonka às 01:45 PM


O dia em que nós vencemos

Naquela madrugada, Clara rola de um lado para outro na cama, sem pegar no sono. Levanta e anda por todos os quartos de sua casa em SBC, como uma alma penada e insone. Na mesma hora, Flá está tomando um café em sua cozinha do apartamento em Pinheiros, sabendo que a xícara fumegante não vai fazê-la dormir – mas pode acalmar a cabeça cheia de pensamentos. A poucas quadras dali, Vivi assiste a propagandas de televendas, com os olhos esbugalhados e o pensamento longe. Algo de bom poderá acontecer nas próximas horas. Ou não.

Quando o dia amanhece, Clara desiste de seu plano de fazer as unhas, uma vez que todas estão roídas e em um estado irrecuperável até para a mais talentosa das manicures. Flá passa a manhã escovando os dentes e gargarejando Cepacol para tentar espantar o gosto das duas garrafas térmicas de café que ingeriu. Vivi se olha no espelho como que procurando uma resposta divina para fazer as olheiras que se instalaram em seu rosto desaparecerem apenas com apetrechos de maquiagem.

Assim que o relógio marca 10 horas da manhã, ignorando o fato de terem passado a noite em claro ao mesmo tempo, as três garotas se ligam mutuamente. Nas duas primeiras tentativas, a comunicação falha – o nervosismo as impedem de pensar que, ligando umas para as outras, as linhas ficam todas ocupadas. Imaginando que isso pode acontecer, Flá, a mais prática, desliga o seu e, em seguida, consegue falar com Clara. Já Vivi imagina que as duas estejam conversando e suas olheiras crescem ainda mais. A ruiva retorna aos infomerciais e espera sua vez.

Na hora do almoço – e sem fome alguma – o trio já falou entre si. Juntas, chegaram à conclusão de que não conseguirão esperar até de noite com toda aquela aflição. Sabiamente, decidem se encontrar e esperar o tempo passar mais rápido (o que acontece quando engrenam em um papo gostoso... e engrenam toda vez). Clara pega seu vestido e segue para a casa da Flá a bordo do intrépido Deep Purple. Vivi também guarda sua roupa com cuidado e caminha pensativa até o apartamento da morena.

Finalmente as três se encontram no sofá de Flá, que acaba de colocar uma seleção de músicas anos 80 para relaxar. A bacia de batata frita de saquinho e as garrafas de refrigerante também ajudam. O bom de serem tão amigas é que não precisam esconder o nervosismo – mesmo se tentassem, a outra ia sacar na hora. Então choram as pitangas, se agarram às esperanças, pensam no lado positivo e, principalmente, relembram os 13 meses anteriores.

Naquele um ano e alguns dias, suas vidas mudaram. E tudo porque resolveram colocar em prática o que mais gostam de fazer: escrever. Bolaram um projeto, mezzo blog, mezzo qualquer coisa, não esperando nada em troca. Ali depositaram idéias, comentários, dicas, devaneios. E eles começaram a vir. Em hordas. Leitores tão queridos e bacanas que nem se tivessem escolhido a dedo teriam conseguido uma trupe tão fiel e companheira.

O projeto cresceu e muitos outros projetos vieram. Mesmo assim, o compromisso de presentear os leitores diariamente com três artigos permaneceu firme o forte, ainda com o tempo de dedicação tornando-se cada vez mais escasso. Com a prática que conseguiram, porém, as três poderiam escrever sobre qualquer coisa: um filme desconhecido, uma fruta exótica ou um tampo de fórmica. E sabiam que os leitores iriam gostar do mesmo jeito.

Foi por isso que elas arriscaram a inscrição. “É tudo comprado”, diziam amigos. Não importava. Se cobrassem delas, a derrota seria certa – porque nunca souberam fazer dinheiro mesmo. Após refletirem, resolveram tentar. Engajaram-se no propósito: espalharam propagandas no site, intimaram familiares, convenceram conhecidos. E conseguiram passar de fase. Com mais uma campanha, ficaram entre os três melhores. Só mais um esforço e... seria aquela a noite da revelação.

No meio da conversa, olharam o relógio e já estava na hora. O papo fez Clara parar de roer as unhas. Flá nem tocou no café. As olheiras de Vivi desapareceram. Seguiram para o local da premiação, cheias de esperança. A esperança cedeu lugar à alegria e à gratidão – pois elas, que nunca ganharam nem urso Petutinho em rifa, saíram vencedoras.

Subiram até o palco, fizeram um discurso rápido. Tinham pensado em agradecer a um monte de pessoas, entre elas os ex-chefes que as mandaram embora e estavam na platéia, assistindo-as com perplexidade. Mas tudo bagunçou na cachola, os macaquinhos do sótão estavam por demais felizes. Depois, na comemoração regada a Fanta, as três tiraram muitas fotos. Que, finalmente, seriam publicadas após tantos pedidos.

...

Você quer que tudo isso se torne realidade – e, de quebra, finalmente ver nossos olhinhos marejados? É muito fácil! Clique aqui e vote no Garotas para o iBest.

meias.jpg
Da esquerda para a direita, Flá, Vivi e Clara
Mais que isso, só depois
Vivi Griswold às 09:32 AM

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2004

Terra Média também é cultura

Tudo e mais um pouco já foi dito sobre a maravilhosa trilogia “O Senhor dos Anéis” e qualquer pessoa que não viu ou ouviu falar de sequer um dos filmes - orquestrados com perfeição por Peter Jackson a partir da obra de J.R.R. Tolkien - não deve ser desse planeta.

A tríade de películas vai muito, mas muito além das façanhas de nove caras unidos na missão de queimar um anel (sem trocadilhos, por favor... Ah, tudo bem! Encaixe aqui sua piada. Eu adorei o filme, mas não dá para resistir mesmo).

Voltando. A saga de Frodo e da Sociedade do Anel (pfff... ih, ih, ih! Ok, desculpe. Agora parei) vai bem além da simples narrativa e prega valores como o companheirismo, a coragem e a importância de ser correto e bom, além de alertar para os perigos da ganância e do lado escuro da natureza humana.

Mas ainda há mais. Por isso, aprume-se e preste atenção. Além das premissas “A união faz a força”, “A amizade é um dos nossos bens mais preciosos” e “Cuidado com sua ganância, ou você pode ficar igual ao Gollum”, “O Senhor dos Anéis” me ensinou que...

Magos Brancos são ouvidos a grandes distâncias
Basta ver o discurso de Saruman em Isengard, na reunião das tropas que lutariam por Sauron. Deve ter no mínimo uns cem Maracanãs lotados de criaturas barulhentas e batuqueiras, diante da torre do Mago. E ele faz seu discurso sem a ajuda de nenhum artefato de som! Bom, Magos Brancos podem muita coisa mesmo...

Não se pode confiar em alguém de armadura
O portador daquela pilha de ferro em forma de roupa pode ser qualquer um: um guerreiro muito mais forte que você, um Mago Branco, dois anões empilhados... ou uma mulher disposta a matá-lo – e justamente por ser mulher, uma das poucas criaturas capazes de fazê-lo.

Legolas é “de Jesus”
Ao se verem cercados pelos rohirrins desterrados, o trio de amigos é apresentado por Aragorn mais ou menos assim: “Eu sou Aragorn, filho de Arathorn. Esse é Gimli, filho de Glóin. E esse é Legolas, filho... da floresta”! Será que o pobre elfo, tão bonitinho, foi deixado na Roda quando era pequeno? Ok, as respostas estão no livro... Mas para quem só viu o filme ficou estranho.

Rangers não tomam banho – exceto no dia de sua coroação
Essa salta aos olhos. Basta notar o estado do pobre Aragorn nos três filmes. O coitado vai ficando mais sujinho que criança de apartamento passando um dia no sítio. Claro que não há tempo para banhos quando se é um verdadeiro e legítimo herói. A não ser no dia em que você vira rei. Aí não custa nada tomar uma duchinha antes, né?

É fácil terminar uma discussão
Basta ser o rei de Rohan e ter como interlocutor um hobbit com metade da sua altura. Daí, é só sacar da frase “Eu não vou dizer mais nada” e sair andando. Pronto! Você resolve o problema e o hobbit não vai se meter na guerra. Isso se nenhuma cavaleira clandestina apanhá-lo na cavalgada.

Reis amargurados ficam surdos
Se você vive envolto nas fantasias de ter sido abandonado por outros reinos, que não vêm em sua defesa, e perde um de seus filhos para um uruk-hai nojento, parece que a conseqüência natural é a surdez. Afinal, o que mais explica o pai de Boromir e Faramir não escutar os apelos do pobre Pippin, que berrava “seu filho está vivo!”?

Elfos são exímios skatistas
Além de serem equipados com sentidos sobremaneira apurados e viverem muito, mas muuuuito tempo, as quase etéreas criaturas de orelhas pontudas têm habilidades impressionantes sobre quatro rodinhas – mesmo que o skate seja improvisado e não tenha, na verdade, roda alguma. Vide a manobra de Legolas em Helm’s Deep, sobre uma mísera tabuinha.



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Que Bob Burnquist, que nada! Legolas é que é
favorito nos X-Games da Terra Média

Clara McFly às 05:37 PM


Festa na papelaria

Todo início de ano acontecia o mesmo ritual: mamãe mandava eu me trocar e esperar por ela no carro. Na Brasília cor de café-com-leite, íamos falando sobre o que constava na lista, o que valia a pena comprar a mais, o que era a moda do momento. Sim, porque adquirir material escolar era uma ciência profunda durante o primário e o ginásio.

Na minha época de piveta em São Bernardo do Campo, o templo máximo para a aquisição do material escolar era a filial das Lojas Glória. Hoje falida e mal paga, ela já não é local de peregrinação para garotinhos e garotinhas em busca de uma lapiseira zero-cinco da Pilot com tubo verde e ponteira roxa. Mas até completar uns 12 anos, eu estava lá religiosamente todo começo de fevereiro.

Em geral, a busca abrangia um monte de itens clássicos, dos pacotes de 100 folhas de sulfite e almaço até pastas de elástico ou com furos. Por esses eu passava rapidinho. O interesse maior, claro, ia para as preciosas situações que seguem abaixo.

Escolher borrachas e canetas
Confesso que eu era chegada numa borracha cheirosa, em canetas com 20 cores num só tubão e em apontadores em forma de capacete. Minha mãe, sempre ciosa do rico dinheirinho familiar, nem sempre concordava com essa orgia fútil – e botava breque. Mas mesmo quando eu saía da loja com uma nova borracha branca (daquelas ótimas para limpar na parede da classe), uma Bic 2 Cores e apontador comum, já sorria feito ganhadora da loteria.

Implorar por lápis de cor, de cera, guache e pincéis
Todo mundo que me conhece sabe da paixão enlouquecida que tenho por artigos de pintura. Qualquer um desses conjuntinhos de sonho me deixa paralisada na vitrine. Na infância era pior ainda: bastava pôr os olhos naquela linda caixa de Faber-Castell de 36 lápis cheirando a novidade, eu já começava a puxar a minha mãe pra ver. Ela comprava esses sem titubear, assim como as tintas e outras coisas baratinhas de desenho. Mamãe queria uma artista na família, ganhou uma escritora. Isso porque...

Achar o caderno mais bacana dentre todos era o céu
... sou uma caderno-freak. Até hoje, por sinal. Carrego dois na bolsa, um pequenino para anotar besteiras importantes e um maior, que é ata de reuniões, eventos e idéias para o Garotas. De pequena, vasculhava cada centímetro da prateleira da loja na busca frenética por um modelo “da hora”. Mas acabava fazendo o de sempre: achando um caderno básico, cobrindo a capa com figuras e frases recortadas de revista e finalizando a obra com plástico transparente. Não tinha caderno mais "cheguei" que o meu aos 12 anos.

Encontrar algo que ninguém tinha
Num ano, foi a régua de metal que produzia barulho ensurdecedor quando caía da carteira. No outro, foi um fichário roubado do meu pai que parecia pasta de segredos da CIA. Sempre ficava inventando uma modinha para impressionar as demais crianças e, assim, tentar não parecer uma nerd. Em geral, até que dava certo. No ano em que levei para o primeiro dia de aula um estojo que abria ao acionar teclas prateadas, ganhei alguns amigos de cara. Demorou só mais sete ou oito anos pra eu deixar de ser uma nerd completa...

Comprar mochila nova
Para quem via fora do contexto, dava a entender que eu usava minha mochila da escola para carregar pedras de rio ou carvão. Em questão de cinco meses, o que era uma mala bonita, azul ou rosada e novinha, virava um trapo. Todo ano, portanto, era preciso arrematar um novo modelo na loja. E a cada verão a vontade evoluía. No começo, ganhava aquelas malas com bolões vermelhos refletivos. Mais tarde, era a Risca emborrachada na cabeça. E, por um tempo, tive uma mochila malucona que parecia um pára-quedas – ou o casco das Tartatugas Ninja. Dessa eu morro de saudade.

Encapar a tralha toda com papel-contact
A parte mais festiva sobre o material escolar, no entanto, não acontecia na loja, durante a escolha dos pertences. O mais legal era chegar em casa com a sacolona, esparramar tudo na mesa e começar a “saborear” as compras. Era nessa hora também que começava a fase “mamãe-embrulha-tudo”. Com a minha ajuda meio atrapalhada, ela apanhava cada livro e aplicava o papel-contact, pra proteger a capa e os cantos da fúria estudantil que me era peculiar. Fazer isso sem deixar nenhuma ruga ou bolha feia aparecendo era trabalho para engenheiro da Nasa, mas minha mãe era especialista. Porque comprar material escolar foi a ciência profunda que ela aprendeu e me ensinou!

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Taí o vício de volta às aulas
Fla Wonka às 01:21 PM


Palmas para o grande Mussa

Entre os quatro comediantes que me divertiram na infância, destacava-se o carisma de um típico anti-herói. Ele misturava com perfeição de gênio – e, como tal, de forma involuntária – doçura e marginalidade, alegria e desgraça, espontaneidade e vício. O sorriso fácil e largo, a barriguinha proeminente e o dialeto próprio fizeram de Mussum, o Mumu da Mangueira e meu trapalhão favorito, um dos donos do picadeiro da comédia brasileira. Bem, se não fizeram, deveriam ter feito. Dos palhaços, ele era o maior.

Aposto que Antônio Carlos Bernardes Gomes já nasceu Mussum – não ficaria nem um pouco espantada ao saber que, quando soltou seu primeiro chorinho no casebre do morro carioca em 1941, o trapalhão soltou um “mééééé” ao invés do tradicional “buááááá” dos bebês normais. Seria a primeira piada agridoce do cara mais gente boa que a tevê nacional já viu: a cachaça, ou “mé" como ele gostava de dizer, ironicamente contribuiria tanto para seu sucesso quanto para sua morte, em 1994.

Mas como estou escrevendo sobre o querido e alegre Mussum, não vou me ater a fatos tristes. Gosto de pensar que o Negão (se ele lesse isso, diria rapidamente “negão é teu passado”, como tantas vezes respondeu ao Didi) foi feliz, se felicidade tiver alguma coisa a ver com aquele sorriso iluminado. Tomara que tenha.

Mumu estudou nove anos em um colégio interno e saiu de lá com um diploma de mecânico debaixo do braço. Ingressou também na carreira militar e, botando mais pimenta no tempero, fez parte do grupo Os Originais do Samba. Foi Dedé quem acabou convencendo-o a fazer parte do programa “Os Trapalhões”, no começo dos anos 70.

Contam por aí que Mussum tentou escapar da proposta de todos os jeitos, dizendo que artista da televisão tinha que pintar a cara, e isso não era coisa de homem. Acabou aceitando, sem maquiagem alguma. E protagonizou cada uma das cenas sendo ele mesmo.

O vício pela água que passarinho não bebe era tão parte de sua caracterização como era de sua vida. É estranho lembrar que em um programa familiar, de censura livre e cheio de piadas infantis, Mussum conseguia puxar uma garrafa e molhar a garganta com o “mé", como se isso fosse a coisa mais natural na Rede Grôbo (pode até ser, mas não na frente das câmeras, hein?).

Refletindo no assunto, os Trapalhões eram uma espécie de boy-band tupiniquim. Parecido com os grupelhos de meninos, cada um dos integrantes carregava uma personalidade para que o público se identificasse. Como os Backstreet Boys têm o loiro mauricinho, o latino malandro e o fortão de academia, os “trapa” tinham o nordestino inocente que queria se dar bem, o baixinho palhaço meio unissex, o carioca que tentava faturar todas e, claro, nosso amigo cachaceiro do morro.

Voltando a falar dele, o que mais me fazia rir era seu pitoresco dialeto. “Bunda”, por exemplo, era “forevis”. Tinha que ser um maluco muito genial para pensar numa coisa dessas. E isso era apenas o começo. Mussa solta sua voz em “Piruetas”, parte da excelente trilha sonora do não menos excelente “Os Saltimbancos Trapalhões”. Na parte que lhe cabe daquele latifúndio, canta: “E a barriguis ronca mais do que trovãozis”. Eu canto junto, a plenos pulmões. Ups, pulmãozis.

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Eita sorrisão!

Nota da garota: E não é que algum desocupado fez um programinha com o dicionário Português/Mussum/Português? Brinque a valer clicando aqui, mas não coloque acentos nas frases porque daí não funciona.

Vivi Griswold às 08:40 AM

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2004

De bater as botas

Uma música é feita de versos e melodia, certo? E geralmente esses dois quesitos se combinam, de maneira que a letra e o arranjo caminhem juntos, bonitinhos e faceiros, para expressar algo ou contar uma historinha.

Assim, versos animados e alegres ganham levadas divertidas, enquanto uma boa (pero no mucho) e velha dor-de-cotovelo vem embalada em longos gemidos deprimentes e notas arranjadas de maneira triste.

Mas nem sempre é assim. Algumas canções parecem leves no invólucro, porém escondem narrativas de doer o osso e frases pungentes - sobre temas nada engraçados. Elas podem não ser o exemplo de música para dançar, mas também não parecem ser a melodia mais triste do mundo. À primeira vista, claro.

“Last Kiss”, que ganhou as rádios recentemente na versão do Pearl Jam, ilustra bem o que quero dizer. Parece um pop típico dos anos 60 (e é), que fala de garotas e carros (e fala). Mas aposto que em nenhuma outra música da época a garota em questão morria nos braços do infiel, depois que este bate o carro numa curva na serra.

Para coroar a tragédia com mais melancolia ainda, o compositor lança mão de versos como “She’s gone to heaven, so I got to be good/ So I can see my baby when I leave this world”. (“Ela foi para o céu, então tenho de ser bom/ Para poder ver minha garota quando eu deixar este mundo”). Aposto que o ghost writer do cara era Edgar Allan Poe.

“I Hear You Call”, do Bliss, é outro bom exemplo. A banda-de-um-sucesso-só-que-tinha-nome-de-iogurte foi parar na propaganda do cigarro Hollywood com essa levada, arrisco-me a dizer, alegrinha. Mas sabe do que a moçoila fala? Da morte da mãe dela!

Depois do empolgante uo-uoooo-i-oooo-óóó-yeah que abre a canção, tudo o que ouvimos são frases de arrepiar a espinha, como “Though I can’t see you no more, I feel your eyes watching” (“Embora eu não possa mais vê-la, sinto seus olhos me vigiando”). Cruzes.

Por fim, temos uma banda cujo forte não é ser alegre MESMO. Os Smiths pegaram pesadíssimo em “There’s a Light That Never Goes Out” – e eu adorei. A letra, como todas da trupe, é de chorar. Já a música tem uma melodia, digamos, até mais animada que a maioria das outras pérolas deles.

Mas qualquer esperança de encontrar algum fiapo de alegria ali morre nos versos “And if a double decker bus crashes into us/ To die by your side is such a heavenly way to die/ And if a ten ton truck kills the both of us/ To die by your side, well, the pleasure and the privilege is mine”. (“E se um ônibus de dois andares bater no nosso carro/ Morrer ao seu lado é uma maneira celestial de morrer/ E se um caminhão de dez toneladas matar nós dois/ Morrer do seu lado, bem, o prazer e o privilégio são meus”).

Depois disso, só tenho uma coisa a dizer: Deus me livre de pegar carona com o Morrissey por aí!

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Ele é trágico, mas é limpinho!


Clara McFly às 05:26 PM


31 canções

Existe um escritor inglês chamado Nick Hornby. Vocês sabem, é o sujeito que escreveu “Um Grande Garoto”, “Alta Fidelidade” e outros livros tão inspirados quanto divertidos. A nova empreitada do rapaz – para variar, misturando música e literatura – chama-se “31 Songs”, e conta sobre as músicas que fizeram o moço repensar a vida. Hoje eu roubei a idéia do Nick...

Depois de listar as canções que fazem uma boa diferença na minha modesta existência, pensei que isso era muita pretensão. “Quem liga?”, foi o pensamento exato. Bom, talvez ninguém ligue mesmo. Mas se um de vocês aí buscar uma dessas músicas, ouvi-las e isso fizer bem, o texto de hoje terá cumprido sua função: mostrar como a música pode marcar momentos. E se vocês aproveitarem ao menos um momento desses como eu, a pretensiosa aqui já fica feliz pacas.

1. Little Less Conversation – Elvis Presley
Para começar bem o dia

2. All Star – Smash Mounth
Para repetir o que importa mais que tudo (“didn’t make sense not live for fun”)

3. Núcleo Base – Ira!
Para voltar à adolescência

4. Good Riddance (Time of Your Life) – Green Day
Para comemorar o começo desse namoro

5. Penny Lane – Beatles
Para ter saudade do subúrbio

6. California Girls – Beach Boys
Para lembrar da doce amiga que vive longe, lá no gelo

7. Spanish Bombs – The Clash
Pros momentos de entusiasmo revoltado

8. You Better You Bet – The Who
Para quando me sinto uma perdedora feliz

9. Ela Disse Adeus – Paralamas do Sucesso
Pro fim de um namoro que parecia bom

10. Até Quando Esperar – Plebe Rude
Para pensar no Brasil

11. Ain’t No Mountain High Enough – Marvin Gaye e Tammi Terrell
Para dublar na frente do espelho

12. Tiny Dancer – Elton John
Para cantar a plenos pulmões

13. Starting Over – John Lennon
Para me animar com o futuro

14. Can’t Touch This – MC Hammer
Para dançar de meia na sala (como As Panteras)

15. Blitzkrieg Bop – Ramones
Para saltar de contentamento com uma boa notícia

16. I Drove All Night – Qualquer versão
Para dirigir longas horas

17. Down On Me – Janis Joplin
Para depois de um ataque de nervos

18. Hollywood – Os SaltimbancosTrapalhões
Para pensar na primeira infância

19. Let’s Get It On – Marvin Gaye
Para curtir em silêncio, à meia-luz

20. God Only Knows – Beach Boys
Para lembrar de gente muito, muito especial

21. Girl’s Just Wanna Have Fun – Cyndi Lauper
Para programar e executar passeios divertidos

22. Shady Lane – Pavement
Para elevar o astral de um ambiente

23. Dream – The Mammas and The Pappas
Pra sonhar acordada, ué

24. Little Wild One – The Wonders
Para me sentir uma garota legal

25. So Happy Together – The Turtles
Para cantar o trecho “I can’t see me lovin nobody but you” no ouvido

26. Who Are You – The Who
Para tocar guitarra imaginária

27. I Love You – Ramones
Para declarar um amor rock’n’roll

28. Uma Barata Chamada Kafka – Inimigos do Rei
Para gargalhar feito idiota

29. Don’t Worry, Be Happy – Bob McFerrin
Para deixar de ser tão irritadinha

30. We Will Rock You – Queen
Para unir pessoas em uma cantoria besta

31. I’m a Believer – Monkees
Para toda hora, porque é um hino

Fla Wonka às 01:45 PM


Dó-ré-mi romântico

Arrepiar-se com baladas cantadas na língua inglesa parece ser, pelo menos para mim, bem mais fácil do que fazer os pelinhos do braço subirem ao som de uma canção romântica nacional. Talvez porque emepebê realmente não seja meu forte, ou talvez porque dá para prestar mais atenção ainda na letra em português. O fato é que foi muito mais fácil juntar sete favoritas internacionais do que as sete preferidas nacionais.

Mas como já diriam os chavões, “promessa é dívida” e “prometeu, tem que cumprir”, aí vão as musiquinhas brasileiras que falam fundo no meu coração quando as escuto. A escolha foi particular e não seguiu lógica alguma - portanto, essa lista não pretende ser um ranking das melhores canções românticas do Brasil, apenas um juntado daquelas de que mais gosto (é bom deixar isso claro porque teve leitor reclamando da lista passada, ora pois!).

Novamente, maestro Zezinho: sete notas para “amor”!

Nota um: “A Vida Não Presta” - Léo Jaime
Quem diria que aquele moço de voz doce que, além de cantar muito bem, atuava em papéis engraçadíssimos nos anos 80, viraria freguês do Garotas. Sim, Léo é nosso leitor - mas muito antes disso, nós éramos suas fãs. Essa balada linda mostra aos corações despedaçados que eles não estão sozinhos. O rapaz é apaixonado por uma menina, mas ela nem dá bola. Daí, ele começa a ver que aquele amor não vai ter muito futuro. Vai me dizer que isso não soa familiar?
Versos do suspiro: “Quando à noite eu consigo dormir/ eu sonho com você/ a me dizer/ pra não ter ilusões/ que entre nós não pode ser/ E é mesmo assim/ nem mesmo no meu sonho/ eu posso ter você pra mim”.

Nota dois: “João e Maria” - Chico Buarque
Eu me arrepio com canção buarqueana, mais doce que doce de batata doce, desde quando era pequenina. Tanto que citei essa balada - que para mim é uma das melhores no currículo impecável do cantor de olhos de ardósia - na minha lista de favoritas infantis. Aqui, para quem quer relembrar. A versão em que Chico divide os vocais com Nara Leão me emociona sempre. É lindo ver um homem comparando seu romance com um faz-de-conta que não tem final feliz.
Versos do suspiro: “Agora eu era o rei/ era bedel e era também juiz/ e pela minha lei/ a gente era obrigado a ser feliz/ E você era a princesa que eu fiz coroar/ era tão linda de se admirar/ andava nua pelo meu país”.

Nota três: “Me Chama” - Lobão
Lobão é um cara com o qual eu sempre me simpatizei. Depois que ele largou a vida junkie que levava nos anos 80, ressurgiu com seus cabelos longos e suas idéias bacanas - vendeu CD na banca de jornal a preços populares, falou abertamente sobre o assunto pirataria e expôs a prática nojenta do jabá (que todo mundo sabe que existe, mas ninguém toca na questão). Porém, é daquela época movida a entorpecentes que vem essa minha balada predileta. E arrebatadora.
Versos do suspiro: “Tá tudo cinza sem você/ tá tão vazio/ e a noite fica sem por quê/ Aonde está você/ Me telefona/ Me chama, me chama, me chama...”.

Nota quatro: “Sentado à Beira do Caminho” - Roberto e Erasmo
Tá certo: preciso confessar aqui que era essa a única canção que eu procurava no especial de Natal do Robertão (quando ele não era essa pieguice brega-romântica-religiosa de hoje, deixemos explicado). Para quem não topa ouvir uma pérola do Rei nem por decreto de três vias autenticadas em cartório, a dica é tentar buscar a bela versão que o Ira! fez dessa espécie de road-movie cantado em versos, com pitadas de muita solidão e alguns pingos de chuva.
Versos do suspiro: “Meu olhar se perde na poeira dessa estrada triste/ onde a tristeza e a saudade de você ainda existe/ Esse sol que queima no meu rosto, um resto de esperança/ de ao menos ver de perto teu olhar, que eu trago na lembrança”.

Nota cinco: “Como Eu Quero” - Kid Abelha
Diz a lenda que quando Paula Toller canta o amor um tanto desiludido para um cara de bermuda que toca guitarra, esse cara é Herbert Vianna, com quem teve um tórrido romance nos anos 80. Isso faz eu gostar ainda mais da balada sem compromisso que era hit de todas as festinhas de garagem. O bailinho era garantido, até porque o menino por quem eu era apaixonada (bota menino nisso, estávamos na 4ª. série) encaixava bem na descrição (tirando a parte do solo de guitarra. Pena).
Versos do suspiro: “Diz pra ficar muda, faz cara de mistério/ tira essa bermuda que eu quero você sério/ Tramas de sucesso mundo particular/ solos de guitarra não vão me conquistar”.

Nota seis: “Lanterna dos Afogados” - Paralamas do Sucesso
Gostava mais do sêo Vianna quando ele era um carinha desengonçado, de óculos de aro vermelho e cabelo enroladinho, usando uma camiseta puída e cantando com aquela voz mezzo desafinada, mezzo irresistível. Mais tarde, o trio deu aquela xaropada básica pela qual todas as bandas nacionais parecem passar (vide Titãs, os mestres da xaropada). Por isso gosto de botar meu CD “Arquivo” e voltar aos anos 80, me arrepiando toda vez com essa faixa.
Versos do suspiro: “Uma noite longa por uma vida curta/ mas já não me importa, basta poder te ajudar/ E são tantas marcas que já fazem parte/ do que sou agora, mas ainda sei me virar”.

Nota sete: “Luíza” - Tom Jobin
Aprendi a ouvir Tom Jobim com mamãe, que é daquela fã que foi chorar escondidinho quando ele morreu. Realmente não é o tipo de música que me dá uma vontade louca de colocar sempre que posso. Porém, não dá para negar que ele e Vinícius (esse sim, um ídolo), ou ele sozinho, conseguia unir como poucos versos de amor com um pianinho que chegava direto ao coração. Ele já cantou “Lígia”, “Isabella”, “Bebel” e “Dindi”, mas é mesmo da tal “Luíza” que eu gosto.
Versos do suspiro: “Escuta agora a canção que eu fiz pra te esquecer, Luíza/ Eu sou apenas um pobre amador, apaixonado/ Um aprendiz do teu amor/ Acorda amor, que eu sei que embaixo dessa neve mora um coração”.

Ô vontade de apagar a luz e ir suspirar de volta à minha cama quentinha...

Vivi Griswold às 09:05 AM

terça-feira, 3 de fevereiro de 2004

Todo mundo já para fora

Primeiro, nós recebíamos os comunicados cheirando a álcool – afinal, eles eram copiados no mimeógrafo. Depois, a tarefa era levá-los para casa e trazê-los de volta assinados, sem esquecer de anexar uma certa quantia de dinheiros, presa no papel com um clipe (colorido, no caso das meninas). Então, começava a contagem regressiva para o sensacional grande dia: a excursão da escola!

Nada era mais emocionante que dar um passeio além dos corredores brancos do colégio com a sua turma de coleguinhas da classe. Daí a espera pela excursão, não importava qual fosse, ser fatal. Claro que alguns lugares eram mais bacanas (e conseqüentemente mais esperados) que outros. Mas todos valiam a pena.

Além da excursão em si, outra fase importante era a do ônibus. Os lugares no fundo eram disputados a tapa – ou na correria de quem tivesse a pernada mais longa e fosse mais ligeiro quando o tio motorista abria a porta. Um grande “êêêêêêêêêêê!” marcava a partida do veículo, enorme e lento feito um paquiderme.

No percurso, as tradicionais Jererê-jererê e outras musiquinhas de gosto discutível eram cantadas a plenos pulmões. Enquanto isso, as professoras se esmeravam em manter todos os fedelhos com a integridade de seus corpos dentro do fretado, aos berros de “se você botar a cabeça para fora eu vou mandar você de volta!”. Outro enorme “êêêêêêêêêêê!” comemorava a chegada ao destino final.

Esse é o ponto que deve variar por esse Brasilzão afora. Imagino que cada região tenha seus clássicos da excursão escolar. Na Hollywood brasileira (aka “B” do ABC), onde cresci, o ônibus parava invariavelmente diante dos portões...

5. Do quartel dos bombeiros
E toca toda aquela criançada a descer, com gritinhos de espanto e admiração. Um moço de capacete brilhante explicava o trabalho dos bombeiros, mostrava o desejado caminhão da corporação e dava orientações sobre primeiros-socorros.
Ponto alto: Pular do caminhão em cima do colchão de resgate.

4. Da fábrica da Yakult
Lá dentro, os mistérios da fabricação do saborosíssimo líquido leitoso eram desvendados. A fábrica tinha um enorme campo gramado na frente, onde ficavam umas vaquinhas de madeira.
Ponto alto: Descobrir que não existia uma fazendinha de lactobacilos.

3. Do Museu do Ipiranga
Objetos e roupas antiqüíssimos estimulavam minha imaginação infantil como nenhuma outra coisa era capaz. O chato era ter de andar sala a sala com a professora, que se esbaforia para cobrir toda a extensão do lugar.
Ponto alto: Descer as escadarias da entrada fingindo ser a Marquesa de Santos.

2. Do Zoológico
Clássico dos passeios escolares, o Zôo era até divertido – mas eu achava meio triste ver aquele monte de bichinhos presos. Na primeira e segunda séries, essa era a top excursão do ano. Na terceira e quarta, ganhávamos o upgrade para o próximo e máximo item...
Ponto alto: Comprar todas as tranqueiras que os moços vestidos de palhaço vendiam na porta.

1. Do Playcenter
Com a professora em franco estado de nervos para olhar 30 pirralhos excitados e meio descontrolados, desembarcávamos no parque de diversões com tudo combinado: quem ia andar com quem, qual a ordem de filas a pegar e quais os brinquedos iríamos repetir. No ginásio, finalmente provamos o gostinho da independência: a professora deixava todo mundo solto, com horário e ponto de encontro para a volta. Claro que sempre tinha um filisteu que atrasava e fazia a prô ameaçar mudanças no esquema para o ano seguinte. Ainda bem que ela esquecia...
Ponto alto: Molhar todo mundo no Splash e voltar espirrando para casa.

Clara McFly às 06:39 PM


Vale uma ponte de safena

Como único terço desse site que pesa mais de 50 kg (e menos de 62 kg, fique claro), decidi sair hoje em defesa dos amantes da comilança. Na verdade, apesar de serem levinhas feito plumas de sabiá, Clara e Vivi até mandam muito bem com o garfo em punho – aliás, é um espanto pra mim ver o quanto cabe naqueles dois corpinhos. Por isso é um prazer almoçar com essas duas! Fazer refeição gordona, às vezes, é uma bênção.

Nem é preciso sair correndo encaminhar esse texto para aquela sua amiga nutricionista. Eu aviso de antemão que sou fã de saladinhas multicoloridas, grelhados inocentes, legumes cozinhos, sucos em geral. Até dou de ombros para açúcar em excesso! Verdade seja dita, porém: há dias em que eu chuto o pau da barraca lá no meio da horta e me lanço sobre comidas fortes.

Fortes, não. Na verdade, esse tipo de comida deveria vir acompanhada de um vale-ponte-de-safena. Confesso que não abuso delas para evitar ter que engolir, mais tarde, aquelas malditas ampolas de remédio pro fígado sabor abacaxi. O que não chega a me impedir de devorar como uma Magali crescida esse tipo de quitute.

Convida a Flá para almoçar na sua casa se tiver...

... feijoada?
Claro, a minha feijoada predileta é aquela feita pela mamãe, senhora sabida que ignora coisas nojentas como pé, orelha, rabo e a pobre napa do porquinho. O prato adorado leva apenas o feijão preto, carne-seca, paio e costelinhas (a parte do suíno que não parece suína). Colocando isso num prato com arroz, farinha, couve bem temperada e um pinguinho de pimenta, é capaz de você me convencer a trilhar o Caminho de Santiago de Compostela a pé. Ou plantando bananeira.

... pizza quatro queijos?
Com essa eu consigo causar careta na Vivi e na Clarinha ao mesmo tempo. A primeira porque não dá a menor bola para redondas em geral. A segunda, porque tem asco do queijo número três, o catupiry. Mas é só juntar essa pasta com outros da mesma espécie e aplicá-los sobre um disco de massa com molho de tomate, pronto! Eu torço os bracinhos e grito hummmm!!! Duas fatias me deixam explodindo, mas é uma ótima sensação de fastio.

... bife à milanesa?
Sempre me questiono: por que degustar um filezinho simples se é possível que essa delícia venha envolta em uma gostosa capa de farinha-ovo-farinha? Eu não tenho certeza de que foi algum esnobe de Milão o criador de tal receita, mas agradeço a quem fez isso. Bife à milanesa, arroz, feijão e batatinha é combinação equivalente à Paris/verão/Euros ilimitados/John Cusack sorrindo para mim.

... churros?
Ok, em nenhuma casa decente existe churros para comer assim, do nada. Eu, para dizer a verdade, não degusto um churro há pelo menos oito anos, desde que deixei a faculdade. Também, a dor na consciência é pior que a do estômago depois de ingerir essa bomba! O que dizer de um doce que é: a) massa; b) frita; c) recheada de mais doce; d) rolada no açúcar? Delícia, hein? E já que agora eu como churros só de oito em oito ano, passa o meu vale-ponte-de-safena pra cá.

Fla Wonka às 12:31 PM


Simplesmente Kuda

Ninguém sabe ao certo qual foi o rolo familiar que formou a alcunha de Elenice Teixeira, minha tia. A mãe dela, dona Diva, se esmerou em coordenar todos os nomes compostos dos filhos: o primeiro, começado pela letra “E”, e o segundo, nome de santo. A doce senhora já foi contrariada desde o parto, uma vez que meu avô se esqueceu de adicionar o “Aparecida” na certidão da filha recém-nascida. Elenice acredita que o fato foi um tremendo golpe de sorte do destino. Isso porque ela não esperava ser conhecida por todos como Kuda.

Reza a lenda que o caçulinha, meu tio Edison Antônio, morria de amores por Elenice. Uma das primeiras palavrinhas pronunciadas por ele foi “kundun” (ou algo parecido), referindo-se de certa forma à sua irmã mais velha predileta. Daí, os anos se passaram e o que era apenas um projeto de verbalização tatibitati se transformou nesse primor de apelido. Seus próprios filhos não a chamam de “mãe”, mas de... adivinha?

Claro que a dona desse chamamento tão peculiar não poderia sequer beirar a normalidade. Kuda é um doce de pessoa, divertidíssima e sempre tão amável que só ela. Porém, titia carrega um modo de ser que é preciso ver para acreditar: dona de uma boca suja sem tamanho, possui uma série de frases de efeito totalmente impagáveis que, somadas a um certo jeitinho do interior e a um certo jeitão de comadre, consegue botar filhos e sobrinhos às gargalhadas até mesmo quando é bronca.

Entre as pérolas de tal jóia da família, estão:

“Tô cagando e andando”
Kuda solta essa frase quando quer dizer que “não está nem aí”, ou não se importa com algum fato. Agora imagine uma senhora, mãe de dois filhos, sorridente e míope, com longos cabelos ruivos naturais, dizendo tamanha barbaridade com a cara mais séria do mundo. Impossível não sorrir.

“Fulano fala mais que o homem da cobra”
Não sei quem diabos foi o homem da cobra, mas eu imagino que ele fala muito. Porque a própria Kuda não pára de tagarelar: se você ligar para ela, vai colocar o telefone no gancho após duas horas de falatório ininterrupto sobre todos os assuntos, de família a enchente.

“Vem cá que eu vou te capar!”
Essa era a ameaça que Kuda fazia aos meus primos quando eram pequenos. Talvez para eles não era lá muito divertido ouvir isso, mas eu confesso que ficava com dor-de-barriga de tanto rir quando a ouvia correndo pela casa e esbravejando essa pérola atrás de um filho arteiro.

“Amor é um pirulito: começa no doce e termina no palito”
Todos os filhos e sobrinhos já tiveram de agüentar essa máxima quando informaram a Kuda que tinham encontrado uma cara-metade. Não falhou nem uma vez! De tanto que ela já soltou a frase, hoje só relembra uma parte: “você sabe que é um pirulito, né?”. O resto tá decorado.

“Sei lá eu por mim!”
Nem em uma simples resposta “não sei”, quando indagada sobre algo de que ela não tem conhecimento, Kuda consegue ser convencional. Quando a gente pergunta “Kuda, cadê o controle-remoto?” ou “Kuda, qual é o teorema de Pitágoras?”, ela faz cara de aborrecida e diz “sei lá eu por mim!”.

“Se o Thiago comer bosta você também vai?"
Essa meu irmão cansou de ouvir. Thiago é um dos dois filhos de Kuda, e o mais levado quando criança. E meu irmão, quando pequenino, tentava imitar o mau exemplo. Enquanto toda a família ia brigar com o causador da confusão, ela tomava as dores do filhote e ia brigar com o reles seguidor!

"Pobre é uma desgraça mesmo"
Chegou do supermercado e abriu todos os pacotes de bolacha para experimentar os sabores? É coisa de pobre. Guardou um monte de toco de sabonete para render? É coisa de pobre. O mais legal que ela fala isso sem preconceito, uma vez que Kudinha é subúrbio na cabeça – e no coração.

"Fio é assim, se muda pra longe e nem quer saber da mãe"
Filho, em kudês, é “fio”. Principalmente quando ela faz bico e reclama da falta de atenção dos dela. Apesar de ser católica, Kuda parece aquelas mãezonas judias, sabe? Fazem o maior drama, dizem sofrer horrores, defendem os filhos com unhas e dentes – e exigem a cria debaixo da asa.

“Ai, hoje é dia viu, hoje é dia!"
Quando começa os afazeres domésticos, lá pelas seis da manhã, Kuda já segue profetizando seu dia atarefado baseado no tanto de telefonemas que ela recebe. Por exemplo: se o aparelho tocar três vezes na parte da manhã, ela já fica fula da vida porque sabe que será um dia daqueles.

"Trabalho que nem um camelo"
Kuda trabalha que nem camelo, segundo a própria. Mas como camelo não tem dois filhos para cuidar, um marido educado nas antigas para fazer almoço e janta, três cachorros SRD para mimar e um sobrado “germinado” para limpar diariamente, voto pela tia quando o assunto é camelar.

“Quando você morrer você me dá?”
Quando Kuda olha para alguma coisa de que ela gosta mas o item já tem dono, vem com essa frase macabra. Toda a vez que ela via meus bichos de pelúcia, pronto: “Vi, quando você morrer, você me dá?”. Eu fui tratando de dar todos para ela bem rapidinho. Eu, hein? Com a Kuda não se brinca.

Vivi Griswold às 09:10 AM

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2004

Ei, você sentou no meu amigo!

Pode acreditar: o poder da genética vai bem além do que se imagina. Pelo menos na família desta humilde escriba, onde eu e meu irmão carregamos da minha mãe não só os genes que determinaram nosso cabelo aloirado e um som estranho que fazemos ao beber água, mas também a capacidade de... criar amigos invisíveis!

Antes que vocês chamem o doutor Charcot, devo explicar que nós três cultivamos amizades imaginárias apenas nos idos da tenra e doura infância. Sim, eu falo sozinha até hoje, mas não vejo mais o tio Badépi – esse era o nome do meu acompanhante da cachola.

Quando começaram a notar que aquela meninota magrela passava horas a falar com uma criatura inventada, minha mãe nem ligou. Mais tarde, ela me contou que tinha não um só, mas um pequeno bando de amigos invisíveis. Eles tinham chapelões na cabeça e moravam debaixo da cama dela.

À noite, depois de se certificar que ninguém estava olhando, ela metia o braço debaixo da cama, para servir de escada aos pequenos, hã, seres. Eles subiam pelo braço dela e ficavam ali empoleirados, conversando e se divertindo, usando as pernas dobradas da garota como escorregadores. Perto disso, bater um papo com um amigo imaginário cujo nome lembra um cartão da Previdência Social não é nada.

Daí também ninguém dar muita trela quando o João Paulo sacou do Duduca, com quem ele passava tardes a fio conversando, sentadinho debaixo de um vitrô que ficava no meio da escada de casa. O Duduca virou parte da família: ele ia viajar com a gente para Bertioga, acomodado dentro de uma caixa – de fósforos ou de sapatos, o que estivesse mais à mão da minha mãe quando o mocinho exigia um lugar confortável para transportar seu amiguinho.

Não me lembro da última vez que vi tio Badépi. Tampouco minha mãe se recorda de quando se despediu do animado grupo de chapeleiros. Já o Duduca teve um destino certo – e aparentemente muito bom: depois de notarmos que o João passou uma semana sem encostar debaixo do vitrô, perguntamos o que tinha acontecido com a criatura. Sem titubear, ele respondeu: “Foi para a Bahia!”, e deu de ombros. O Duduca podia ser imaginário, mas não era bobo não...

Clara McFly às 06:11 PM


Para entender a magia

Eu sinto muito, de verdade, pelos leitores desse texto que não se encontram nas imediações de Rio de Janeiro e São Paulo nessa época do ano. Porque está para aportar aqui pra essas bandas o mais sensacional dos espetáculos da Terra! U2, Madonna, Michael “Nariz de Plástico” Jackson? Nada disso! Está chegando o Vivo Open Air!

Em geral não sou de ficar copiando aqui nome de empresa de telefonia mafiosa. E se dependesse do número de vezes em que eu já quis atirar meu celular no incinerador, aí é que não falaria mesmo. Mas quando a iniciativa é boa e lúdica, não dá para esquecer. Os caras abraçaram uma causa nobre. Tá bom, não é nobre coisa nenhuma – mas é divertida pra danar.

O Vivo Open Air é um evento que já esteve aqui no eixo do café-com-leite em 2001. Trata-se de uma das maiores telas de cinema ao ar livre do mundo – uma televisãozona com nada menos que 23 m por 12 m. Tanto no Rio quanto em São Paulo, o cinema foi instalado no Jockey Clube local. Os viciados nesse tipo de “bozo-corrida de gente grande” que me perdoem, mas pareceu um aproveitamento infinitamente melhor para aquele senhor espaço aberto.

No ano em que tive o prazer de comparecer ao evento, a emoção foi violenta. E olha que eu fui apenas ver um “Harry Potter e a Pedra Filosofal” dublado. Mas pela primeira vez eu senti, de queixo caído e coração pulando, o que era a tal magia do cinema. Nada como apreciar um filme bacana numa tela imensa, à noite, sentindo a brisa no rosto e vendo um ou outro vaga-lume circular ao redor. Pode me chamar de gosmântica, eu nem ligo. Assim que a telona foi erguida do chão em meio a um show de luzes, começou o encantamento puro.

Confesso que o filme, em si, importa médio quando se trata desse cinema. O clima é tão empolgante em termos de som e imagem que se passasse apenas “Xuxa e os Duendes” e “Ghost”, ainda assim eu ia ver! Bom, talvez sentasse mais no fundo... Acontece, porém, que a lista de obras apresentadas no Open Air vai muito além das estréia do momento: filmes antigos e tarimbados costumam vir no pacote do cinemão turbinado.

Para os novatos, informo que a programação do Rio de Janeiro (onde o Open Air começou em 16 de janeiro e vai até 05 de fevereiro) foi pra lá de bem pensada. Se para São Paulo vierem os mesmos filmes, vocês podem me procurar babando na platéia em pelo menos cinco sessões: “Janela Indiscreta”, “E.T.”, “O Homem que Copiava”, “Cleópatra” e “Peixe Grande” (o novo do diretor Tim Burton, que parece bom até doer os ossos).

Claro que me aborrece demais saber que muita gente vai ficar fora dessa brincadeira animada por culpa dos mercenários. O ingresso do Open Air sai por 26 mangos para aqueles que, como eu, já saíram há muito da escola, mas ainda não alcançaram os 60 anos. Paciência: o jeito é fazer uns bicos, engordar o cofre de porquinho e, chegado o momento, trocar o suíno pelo melhor cinema do planeta.

Fla Wonka às 02:34 PM


O que ela ensinou, eu aprendi e pratico

Educação vem do berço, já dizia o ditado. E não precisa ser um de ouro cravejado de diamantes, dentro do quarto decorado com esmero no quinto andar de uma mansão no bairro mais chique da cidade. O que conta não é o tal berço, mas quem o balança. Mamães e papais que passam noções básicas de convivência aos filhotes contam mais do que uma conta bancária recheada e juventude passada nos melhores colégios – o que, comprovadamente, nem sempre resultam em seres humanos educados.

Mesmo sabendo disso, eu ainda fico pê da vida, parafraseando o Afonso do Dominó, quando vejo atitudes mal-educadas de pessoas que deveriam saber se comportar um tantinho melhor. Não consigo evitar a braveza ao me deparar com gente de todas as idades, sexos, crenças, raças e condições financeiras que faltaram nas aulas de etiqueta dadas no dia-a-dia pela mãe.

Eu não faltei em nenhuma. E é exatamente por isso que aprendi...

... falar por favor, obrigada, com licença e bom dia (tarde ou noite)
As palavrinhas mágicas (acrescentando também um “desculpe” quando a gente pisa na bola ou no pé de alguém) deveriam já vir programadas no nosso cérebro como uma propriedade default do computador. Mas não, infelizmente. Ainda há pessoas que exigem uma lata de coca-cola na padaria, pegam a dita cuja e dão as costas para o atendente, atropelam você na saída e voltam para a casa delas para viverem suas vidinhas emburradas. Cruz credo, quanto mau humor!

... não ouvir música em volumes ensurdecedores
Eu moro em prédio, o que eleva a níveis estelares a necessidade de ser educada. Quer dizer, isso porque eu me importo com o espaço alheio e evito ao máximo invadi-lo – já que não gosto que invadam o meu. Portanto, não obrigo ninguém a ouvir passivamente minhas músicas ou assistir por tabela aos programas de tevê aos quais estou assistindo. É só saber que, por detrás destas paredes de gesso pintadas de cores berrantes, existem outros lares e outras pessoas. Nem é tão difícil.

... não martelar de madrugada
Ação condenável que poderia ser inserida no tópico anterior. Você, leitor educado, deve estar pensando “mas ninguém martela de madrugada!”. Eu tinha um vizinho no prédio anterior cujo hobby noturno era pregar pregos. Vai ver que era alguma tara, ou promessa, ou simplesmente a mais descarada falta de noção. O mesmo vale para pessoas que arrastam móveis, correm de salto-alto no piso de madeira, ligam o aspirador de pó ou jogam pingue-pongue. Insônia? Leia um livro!

... desligar celular no cinema
Celular é um aparelhinho dos diabos. Como tal, temos a sensação de que não poderíamos viver sem ele. Eu concordo que é bom ter o telefone móvel para qualquer eventualidade. Mas saber a hora de desligá-lo é imprescindível e deveria vir no manual. Atender ligações nas salas de projeção tinha de ser uma ação condenável pela lei e sujeita à multa. Tem parente no hospital? Não vá ao cinema, filhote. O pior é que, na maioria das vezes, o papinho é estúpido e poderia muito bem esperar.

... ceder assento para os velhinhos
Eu sou escolada no assunto “pegar ônibus lotado”. Passei um ano embarcando no Vila Mariana/Parque Continental às 18h30, quando não havia nenhum espaço para respirar, quanto mais sentar. Sei como é gostoso descansar o bumbum e as pernocas e esquecer da vida até seu ponto chegar. Mas nada justifica fazer isso quando há uma velhinha de pé, não? E tem malandro que senta no banco reservado a idosos e fica lá, fingindo estar dormindo. Cara-de-pau tem limite, mané!

... não jogar lixo na rua
Já teve o desprazer de assistir a um motorista jogando lata vazia para fora do carro? Ou garotas e garotos depositando chiclete na calçada? Ou senhoras e senhores descartando embalagem de bolacha através da janela do ônibus? Aposto que já – infelizmente, o que para muita gente parece ser um absurdo, para outro tanto é a coisa mais normal do mundo. Sujar a própria casa não é falta de educação, é burrice pura e simples. Se não há cesto, guarde no bolso até encontrar um...

... não ligar para a casa das pessoas entre 23h e 9h
Ok, essa foi a razão pelo texto de hoje. É que minha mãe me ensinou, e eu aprendi e pratico, não ligar para a casa dos outros após as 11 horas da noite, quando as pessoas merecem descansar. Nem antes das 9 horas da manhã, quando as mesmas pessoas merecem continuar descansando. Claro que está liberado em caso de urgência – alguém se acidentou ou alguém ganhou na loteria, por exemplo. Se não for essa a desculpa, espere até o dia seguinte. Ninguém vai morrer, certo?

Vivi Griswold às 08:57 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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· Flá Wonka
· Vivi Griswold