sexta-feira, 30 de janeiro de 2004

Tic tac

Ele é mágico e misterioso. É capaz de se desdobrar e se encolher sem o menor controle. E nós estamos fadados a viver sob seus implacáveis efeitos, per secula seculorum, amem. Não, eu não estou falando do aquecimento global. O assunto aqui é o tempo, com o qual tenho enfrentado sérios problemas. É, eu sei, todo mundo reclama da mesma coisa e já virou lugar-comum dizer “não tenho tempo para nada”. Mas eu não tenho mesmo, o que posso fazer?

Talvez a pergunta seja “o que eu posso NÃO fazer?”. Porque o senhor T. não vai parar para me esperar. Então, era melhor que eu passasse a fazer menos coisas, prestar mais atenção no que é realmente essencial e limpar as gordurinhas – coisas desnecessárias que fazemos por força do hábito. Aposto que desse tipo de gordura eu sou cheia!

Mas deixemos as elucubrações de lado e vamos recorrer ao grande oráculo chamado música brasileira. Notei que o tema preocupa não só pobres mortais como eu, mas muitos compositores e intérpretes do cancioneiro. Reuni as minhas músicas favoritas que tratam desse valor invisível marcado pelos ponteiros do relógio. Acerte aí e siga a lista!

10. Me Perco Nesse Tempo – Ira!
Os paulistas do Ira! encaram a coisa de maneira mais, ahn, paulista. De acordo com a música, é impossível se encontrar na correria.

9. Tempo Perdido – Legião
Clássico de barzinhos, fala da desilusão da juventude diante da passagem do tempo. Acho. Droga. Acabo de notar que nunca entendi bem do que a música trata!

8. Tempos Modernos – Lulu Santos
Luís Mauricio previa um amanhã de gente fina, elegante e sincera, mais capaz de afirmar que de negar. Parece um futuro bom. Será que demora a chegar?

7. No Balanço das Horas – Metrô
Virginie achava que o amor era mais rápido que tudo e registrava o quão cruel pode ser a visão de um relógio quando você está esperando alguém.

6. Oração ao Tempo – Caetano Veloso
Caetano Veloso, o objeto de ódio mais hype do momento, canta um acordo com o tempo depois de colocar algumas lisonjeiras definições sobre ele, como “compositor de destinos”.

5. Cio da Terra – Pena Branca e Xavantinho
Mesmo sem a palavra no título, essa pérola trata com muita propriedade do assunto e explica que há um tempo certo para cada coisa.

4. Tempo Rei – Gilberto Gil
Hoje Excelentíssimo Ministro da Cultura, Gilbertão também já se aventurou no tema e deu seu pitaco nessa música, em que reconhece a capacidade do tempo em turvar águas e furar pedras.

3. O Relógio – Vinicius de Morais
Parte do fabuloso álbum “Arca de Noé”, com canções compostas por Vinicius de Morais para crianças, fala da passagem do tempo de um ponto de vista diferente: o do relógio.

2. Sobre o Tempo – Pato Fu
Segundo a fofa banda mineira, só a passagem do tempo faz a gente ficar mais esperto – ou correr macio, feito um novo sedan.

1. O Tempo Não Pára – Cazuza
Meu compositor favorito dos últimos anos, ele fez da música um tapa na cara: escancarou que quem está por cima pode mergulhar na decadência a qualquer momento. Eu adoro quando ele canta sobre as piscinas cheias de ratos. Uhú!

Clara McFly às 05:00 PM


Os 10 (Novos) Mandamentos

Todo livro deve ter revisão periódica. Às vezes as informações precisam ser atualizadas, às vezes é só corrigir uns errinhos de linguagem. Algumas histórias da religião bem que podiam passar por essa “reengenharia”, não? Porque, sejamos francos: aqueles Dez Mandamentos todo mundo já esqueceu de seguir. Por isso é necessário fazer um livro de regras de conduta mais moderno.

Ou, vai ver, os Mandamentos eram, na verdade, 20 linhas de guia moral! Mas daí Moisés tropeçou na hora de descer a montanha e as tábuas quebraram no meio – deixando perder 10 importantes lições para a existência. Não importa: eu tenho certeza sobre quais seriam elas.

11) Não ficarás chato depois de um porre
Porque deus pode ser justo, mas até ele há de ter paciência curta com quem enche a cara, fica indiscreto, agarra o braço das pessoas e cospe quando fala.

12) Não serás um animal do trânsito
Um raio celestial deveria atingir o traseiro dos que apavoram o tráfego com um automóvel. Fila dupla, lerdeza na esquerda e celular ao dirigir podia render logo um trovão no crânio.

13) Não inventarás nada com o nome de Rock Progressivo
Quer descolar um lugarzinho no inferno, bem ao lado do Bush Junior? Então é só virar adepto dessa seita maligna baseada em teclados excessivos e um infindável show de luzes.

14) Não serás um mala no cinema
O senhor deveria olhar aqui para baixo e concordar que não merecemos aturar, na salona, gente que fala sem parar, deixa celular ligado, ATENDE o dito cujo ou pede “você pode pular uma cadeira?”.

15) Não procurarás a fama a qualquer preço
Nada mais deprimente do que ver pessoas com cérebro de pardal querendo ser “artista”. Ter corpo sarado não é talento, ô! Vai arrumar um emprego honesto ou aprender a sapatear!

16) Não irás em shopping center na véspera de Natal
Se levar crianças a tiracolo, então, pode esperar por um desagradável castigo divino extra! E não adianta dizer que “é só para comprar umas últimas coisinhas”. Resistam à tentação, irmãos...

17) Quando fores chefe, não serás um bastardo
Disse o criador: aquele que subir na vida usando a cabeça dos amigos como banquinho ou pedir para o funcionário que ganha pouco ficar até mais tarde vai arder no purgatório.

18) Não dirás que sua garota está “gordinha”
Mesmo que ela esteja precisando usar a lona do circo pra fazer um vestido, isso não deve virar assunto. E comentar “sua mãe é meio chata” rende punição eterna lá com o capeta, beleza?

19) Não te tornarás um mercenário
Essa gente que só pensa em dinheiro tem uma sala só para si lá no céu, viu? É sério! Tem sofás, drinques... e um show do “Bonde do Tigrão” rolando bem alto! É isso que eles merecem.

20) Honrar o escudo que escolheu
Pecado grosso é ir nos jogos do time pra vaiar ou gritar que o técnico com um mês de casa é burro. Deus não tem compaixão com os idiotas, os desesperançosos e com quem seca o próprio clube!

Fla Wonka às 01:30 PM


Amor, com sete notas

Vamos ver quem mata a charada: é uma coisa que sai do rádio – ou do computador, ou do aparelho de som. Quando é tocada, o ouvinte suspira pensando no ser amado, ou no ex-ser amado, ou ainda no futuro ser amado. O coração bate mais forte, as pernas ficam bambas e dá aquela vontade de sair dançando dois-pra-lá, dois-pra-cá e fingindo um par imaginário só para acompanhar o ritmo lento. E aí, quantas notas para o maestro Zezinho?

Se você respondeu “sete notas, sêo Silvio!”, vai tê-las. Mas ao invés da mão direita do mais famoso maestro da tevê brasileira dedilhando as notas no piano, vou mostrar minhas sete músicas românticas internacionais (*) favoritas.

Falar de amor não é fácil, cantar o sentimento também não. Claro que, se você for o Bon Jovi, é bem cômodo tascar um “baby” e “I love you” ao lado de versos ridiculamente açucarados do tipo “quando você respirar, quero ser seu ar”.

Mas quando a combinação letra bem sacada + melodia arrepiante + voz deliciosa funciona, pronto – eu suspiro toda vez. Principalmente se for uma dessas aí...

Nota sete: “Time After Time” - Cyndi Lauper
Cyndi, em minha modesta opinião, é a personificação dos divertidos anos 80, tão celebrados neste site. A garota de cabelos coloridos e picotados à faca tinha uma voz peculiar que já era um show à parte. Aqui, Cyndi canta um amor quase perdido e desgastado, cheio de memórias esquecidas e segredos escondidos. Mas deixa lindamente claro ao amado que, sempre que ele precisar, ela estará lá.
Verso do suspiro: “If you're lost you can look and you will find me/ Time after time” (Se você estiver perdido pode procurar e me encontrará/ Vez após vez).

Nota seis: “Can´t Help Falling In Love” - Elvis Presley
Não sei se chego ao ponto de ter uma Catarinha, a lombriga de estimação de Clara, dentro de mim. Porém, alguma coisa se mexe no meu estômago quando escuto o Rei cantar. E se a canção for essa aí em cima, o friozinho na barriga é multiplicado por mil. Elvis e sua voz fora deste planeta cantam um amor inevitável, tão certo de acontecer quanto o rio correr para o mar (ui). Hoje eu entendo o desespero daquelas garotas.
Verso do suspiro: “Take my hand/ take my whole life too/ For I cant´t help/ falling in love with you” (Pegue minha mão/ pegue minha vida inteira também/ Pois eu não posso evitar / me apaixonar por você).

Nota cinco: “Walking After You” - Foo Fighters
Não achei nem um pouco bacana a Flá ter chamado o Dave Grohl de feio-bonito. Tá certo, vou admitir que tenho uma certa queda pelo rapaz de cavanhaque que ficava injustamente escondido atrás da bateria do Nirvana. E a culpa é da balada quase sussurrada por Dave, cuja letra é um atestado de teimosia: não adianta ela fugir, porque ele estará em sua cola. E quem por acaso seria a tonta de sair correndo dele?
Verso do suspiro: “If you walk out on me/ I´m walking after you” (Se você me abandonar, vou atrás de você).

Nota quatro: “The Killing Moon” - Echo & The Bunnymen
Voltando aos anos 80, outra figurinha do meu hall de favoritos é Ian McCulloch e os sua banda de homens-coelhos. A voz do moço de lábios grossos e cabelo espetado é uma das mais belas que já ouvi, sem discussão. Quando ele canta um amor meio torto e misterioso então, tenho que parar para escutar e suspirar bem fundo. Pelo menos, essa eu pude testemunhar ao vivo. Preciso falar que nem pisquei de tanta emoção?
Verso do suspiro: “In starlit nights I saw you/ Sou cruelly you kissed me” (Em noites estreladas eu vi você/ E você me beijava tão cruelmente).

Nota três: “Can´t Take My Eyes Off You” - Vicki Carr
Ela já foi tema de propaganda com a Luciana Vendramini, já virou declaração de amor em filme com o Heath Ledger, já é uma campeã em todas as rodas de karaokê. Por isso me impressiona como a balada arrepia ainda que seja tão batida, ou que a gente já tenha decorado cada uma das palavras contidas na letra. Taí um caso de amor infinito – mesmo com uma música, está valendo.
Verso do suspiro: “I need you baby to warm the lonely night” (Eu preciso de você para esquentar a noite solitária).

Nota dois: “Anna (Go With Him)” - The Beatles
Você não agüenta mais ler sobre os Bitous neste site, né? Ah, mas não pude deixar de citar uma das canções mais tristes da história da música. O pobre rapaz acaba de saber que a Anna, sua amada, se apaixonou por outro. Bonzinho que só ele, o coitado tenta entender a situação e deixar a moça seguir seu caminho – desde que ela lhe devolva o anel. Ô, dó.
Verso do suspiro: “Anna, girl, before you go now/ I want you to know, now/ that I still love you so/ but if he loves you more/ go with him” (Anna, antes que você se vá/ eu quero que você saiba/ que eu te amo muito/ mas se ele te ama mais/ vá com ele).

Nota um: “She” - Elvis Costello
Outro Elvis, outra voz maravilhosa, outra balada arrebatadora. A diferença aqui é que este Elvis está vivo (quer dizer, publicamente) e possui um par de óculos que fazem esta garota suspirar. A música foi tema do filme “Um Lugar Chamado Notting Hill” e eu fiquei com ciuminho da Julia Roberts. Não por ela ficar com o Hugh Grant, mas por ter esse primor como canção-tema.
Verso do suspiro: “Me I'll take her laughter and her tears/ and make them all my souvenirs/ for where she goes I've got to be” (Eu, eu pegarei seu sorriso e suas lágrimas/ e farei deles meus souvenires/ pois para onde ela for eu terei de estar).

(*) As nacionais ficam para semana que vem.

Vivi Griswold às 08:39 AM

quinta-feira, 29 de janeiro de 2004

Fiu fiu!

Eu gosto de cantadas. Quer dizer, não saio em busca delas na rua: mesmo antes de “contrair matrimônio”, como atesta antipaticamente o papel que o juiz de paz me deu na saída do cartório, nunca fui de flanar muito por aí. Mas também não tenho nada contra ouvir elogios esporádicos – desde que bem feitos.

E é aí que reside o perigo. A maioria dos representantes do sexo oposto lança mão de tiradas sofríveis para chamar a atenção das garotas. Oscilando entre a grosseria e o lugar-comum, as frases que deveriam ter o efeito de atrair acabam fazendo as moçoilas correr. E muito, se possível.

A mais batida é “meu amigo quer te conhecer”, seguida de perto por “você vem sempre aqui?”. Essas estão tão manjadas que já viraram caricaturas de si próprias. Por isso, se você, amigo solitário, quer sair acompanhado de uma festa, não saque das tais.

Mas nem sempre fugir da rotina ajuda. “Tanta carne e eu aqui comendo ovo” é até engraçada, mas não funciona. Quando ouvi essa, o máximo que o cara arrancou de mim foram gargalhadas. Além do mais, do alto dos meus 42 quilos, eu não tenho tanta carne assim... “Jesus te ama – e eu também” foi outra digna de nota. Cômica, é claro. Devido ao nível alcoólico do cidadão que proferiu tal heresia, deixei passar.

Mas ainda que ruins, essas ao menos não ofendem. Pior foi uma amiga minha, que teve de aturar a seguinte pérola:
- Aê, ****ão! [inclua aqui qualquer denominação chula para o órgão sexual feminino – e no aumentativo].

Essa merece três dias e três noites de pinote, sem olhar para trás.

Clara McFly às 07:02 PM


Eu os entendo e admiro

Celebro diariamente as diferenças óbvias entre meninos e meninas. Gosto de ser uma garota por incontáveis motivos – entre eles, poder fazer beicinho à vontade e não ter que servir o exército. Mas eu bem que queria tentar ser um rapaz na próxima encarnação. Só para sentir como funciona de fato esse estilo de vida tão simplório e sem frescura.

Eles, os moços, dizem que não entendem as mulheres e que somos seres muito complicados. Sempre pensei que isso era preguiça de prestar atenção ou embromação mesmo. Mas hoje vejo diferente. Acontece que os meninos têm uma forma de raciocinar muito particular. E interessante à beça para quem tiver paciência de observar.

Semanas atrás, por exemplo, eu fui ver dois amigos jogarem bola, em pleno sábado de manhã, num grande parque paulistano. Se soubesse que ia ser uma experiência tão peculiar, tinha levado câmera, binóculos e bloco de anotação.

O caso é que não era um futebolzinho comum. Os garotos se reúnem ali todo fim de semana para jogar Flag, disputa que tem regras semelhantes às do futebol americano. Um dos meus amigos é profissa nesse negócio. O outro, ainda leigo. Mas quem pensa que a falta de intimidade de um deles com o jogo criou problemas ali, se engana muito.

O novato foi atirado entre os participantes sem nada além de um “ó, é a primeira vez que ele joga, dá uma força aê!”. E o grupo fez isso mesmo! Os dois nem ficaram no mesmo time! Fiquei chocada... Isso não poderia acontecer do mesmo jeito entre meninas. Há! Se fosse um jogo de mulheres, a moça nova no pedaço teria que ser apresentada a uma por uma das habitués, mas ainda assim ficaria um clima meio desconfortável. E levaria seis semanas até ela estar à vontade entre as colegas.

Já com os meninos, eles podem virar amigos de infância em seis minutos. Há o momento da apresentação, e daí eles se cumprimentam com apertos esmaga-mãos ou aqueles tapões de deslocar ombros.

Depois dizem qualquer coisa relevante como “eu torço pro Arapiraca também!” e pronto: camaradas para sempre. Logo em seguida já estão se tratando com aqueles “mas que coisa de viado” e “sua mãe não acha”. Pena que as garotas não são exatamente assim... há um período de incubação muito maior para sair amizade real entre meninas. E botar pai no meio é proibido de verdade.

Por essas e outras é que dá para entender muito bem porque garotos não acham que sapatos são artigos de primeira necessidade e que ver filme de amor afeta a masculinidade. Eles não se apegam em detalhes ou atentam para sentimentos desnecessariamente profundos – e funcionam desse mesmo jeito há milhões e milhões de anos!

Provavelmente, lá no tempo das cavernas, as mulheres é que batiam boca decidindo as melhorias para o acampamento e a forma mais correta de estocar os víveres – o que criou essa distância natural entre meninas. Os caras deviam ficar batendo uma bolinha, jogando um carteado e reforçando a amizade... como fazem graciosamente até hoje.

Fla Wonka às 12:42 PM


O incrível puxadinho da bagunça

Sonho é um troço deveras estranho. Toda vez que o filminho noturno nonsense me transporta para minha casa, nunca é o apartamento onde moro hoje, ou o anterior a esse. O lar que meu subconsciente registrou como tal foi mesmo o sobrado de dois quartos onde morei dos sete aos dezesseis anos, no pitoresco Jardim Cipava, na mais pitoresca ainda rua Norma Zemella Moura, lá no maravilhoso mundo de Oz. E isso é um dos grandes mistérios da existência desta garota.

Aquela casa ostentava um carpete verde-musgo que me fazia ter crises de rinite a cada semana. Mamãe comprou o Sterilar, uma caixinha prateada e elétrica cuja função era, teoricamente, acabar com os ácaros – mas que se mostrou útil apenas como banquinho para meu irmão, que adorava descansar o bumbum pesado de fralda no aparelho. O meu quarto eu tinha de dividir com dois bebês que dormiam às seis da tarde e acordavam às cinco da manhã, aos berros. O quintal não era tão grande e o jardim era descuidado. Pensando bem, eu nem gostava muito de morar lá.

Então por que diabos é essa a casa dos meus sonhos involuntários? Será que meu subconsciente é mais saudoso do que eu poderia imaginar e registrou o lar da minha infância? Se for esse o caso, sou muito mais a casa da vovó, onde eu era inquilina enquanto minha mãe trabalhava e onde fazia comidinha de mentira com verduras e legumes tirados da horta, sangue do diabo com produtos de limpeza e groselha (receita própria) e bonecos de retalho enquanto a dona Diva costurava.

Vai ver que a culpa é dele. Do incrível puxadinho da bagunça.

O quarto feito nos fundos do quintal era depósito de toda a sorte de objetos estranhos que não foram honrados com um lugar na casa. Meus itens favoritos eram: uma máquina fotográfica Rolleiflex aposentada; uma vértebra humana que meu pai guardou das aulas da faculdade de medicina; uma barraca de camping desmontada que só viu a luz do dia numa viagem a Atibaia; um livro sobre as dez maravilhas do mundo antigo; um computador TK 86 (que tinha menos função que o Pense Bem); um autorama; uma geringonça que fazia etiquetas, daquelas que era preciso escolher letra por letra em um disco e apertar para marcar a fita preta.

Outro cantinho especial era o de ferramentas. Havia um aparelho de fazer solda que me fascinava e me assustava ao mesmo tempo. Morria de medo de encostar, achando que meu dedo poderia, num passe de mágica, virar uma poça de gotas derretidas. Tinha ainda um gaveteiro de plástico, com cada compartimento devidamente etiquetado (graças à geringonça explicada acima) e guardando toda a sorte de pregos, parafusos, porcas, arruelas e outras miudezas do mundo da bricolagem.

No lugar mais esquecido do quarto dos esquecidos estava uma caixa de papelão guardada da tevê Mitsubishi (aquela gigante que tinha contact imitando madeira dos lados), onde eu jogava todos os brinquedos que não queria mais. Às vezes me pego vasculhando aquela caixa em pensamento, e encontro cada preciosidade que não podia ter sido perdida.

Lembro-me do chapéu com as orelhas do Mickey que minha tia me trouxe da Disneylândia, e hoje seria um objeto antigo e cult. Um par de bonecas de feltro, um menino e uma menina marinheiros, que estava pendurado na parede do meu quarto de bebê. A minha linda boneca Preguicinha da Estrela, que a gente colocava de bruços e ela virava sozinha, esticando os bracinhos num pedido mecânico de colo.

Pensando bem, da próxima vez que sonhar com aquela casa, vou tentar sair pela porta da cozinha escura, atravessar o quintal e o jardim descuidado e abrir a porta daquele verdadeiro parque das diversões esquecidas.

Vivi Griswold às 09:08 AM

quarta-feira, 28 de janeiro de 2004

Comer, comer

Taí a maior vantagem de ser magrela: além de caber em qualquer cantinho num carro lotado e não ter de aturar cara feia do pessoal com quem você divide um banco no ônibus, quem nasceu com essa condição encara qualquer prato sem culpa e com total alheamento de seu valor calórico.

Comer é um de meus passatempos favoritos. Ei, eu tinha de ter alguma vantagem depois de passar anos ouvindo “nossa, mas você deve ser fraquinha, hein?” ou “olha, essa bota vai sobrar na sua canela...”! Nada mais justo, pois, que essa garota fininha aproveite o lado bom e encare um garfo na boa.

Com todo esse gosto pela coisa, reuni algumas das coisinhas de comer que, à simples menção do nome, me deixam com água na boca. O melhor de tudo é que todas essas delícias são caseiras e nunca tive de pagar um tostão ou freqüentar restaurantes chiques para abocanhá-las. Algumas dão mais trabalho, outras são feitas num tapa. Mas todas fazem meus olhinhos de glutão brilharem e a Catarina, minha lombriga estimada, se encher de alegria.

Bolinho de chocolate expresso
Eu mesma cuido de preparar esse, com receita que aprendi com uma amiga de ginásio. A massa, batida no liqüidificador (obrigada, H!), fininha e sem farinha, nada mais é senão uma desculpa para se encher de brigadeiro, que vai em cima à guisa de cobertura. Como se eu precisasse de desculpa para isso...

Bolo fanta da minha tia
Esse era preparado em ocasiões especiais da infância, como festas de aniversário, Natais ou... ah!, minha tia era boazinha e fazia essa delícia em qualquer dia! Verdadeiro manjar dos deuses, derretia na boca e era composto de côco, fanta e uns minutos na geladeira. É o mais perto que eu jamais cheguei do gasoso laranja – e com gosto.

Sopa de couve-flor
Especialidade da mulher do meu pai, só provei o prato porque fui jantar na casa deles e achei que ficava chato recusar. Ainda bem: a tal sopa é algo de delicioso. E olha que eu nem sou lá muito fã de caldos. Até gosto, mas tenho uma restrição: a não ser quando acompanhados de algo mais pesado, eles não enchem minha barriga, tampouco satisfazem a exigente Catá. Mas essa é uma bela exceção.

Lasanha da minha mãe
Ah, sim! Além de paciente e inventadeira, minha mãe é uma cozinheira de mão cheia. Nem Famiglia Mancini, nem Don Carlini, nem Terraço Itália: a melhor lasanha que já adentrou essa boca é a dela. Inspirada pela figura, eu também gosto de cozinhar. Mas ainda tenho que comer muito arroz-com-feijão (o que, pensando bem, não é nada mal...) para chegar ao punch culinário da moçoila.

Pão doce da minha avó
A dona Flor, quando estava faceira e saudável, preparava um pão do qual eu poderia me alimentar por meses, tal qual Frodo e Sam com as lembas élficas em sua jornada. Mas aposto que a rosca que ela fazia é melhor que a iguaria do povo de orelhas pontudas. O gozado é que a receita é um mistério para mim: como ela podia misturar ingredientes tão díspares como mandioquinha e leite condensado e ainda tirar daquilo algo de bom? Saudades...

Clara McFly às 05:39 PM


Isso sim é nome que se dê!

Meses atrás, procurando da prateleira de CDs um disquinho que contivesse a maravilhosa “Rescue Me”, me peguei ridicularizando o nome de certos álbuns. Foi um tal de achar tantos nomes bobos, chatos e pouco criativos, que a sessão-sarro virou um texto. Esse aqui, ó. Mas é claro que existem exemplos contrários. Tanto que um deles ainda será parodiado para batizar um suposto CD das Garotas que Dizem Ni.

Mas antes de contar como se chamará nosso compilado de canções, é bom falar daqueles que deram títulos bacanas aos seus filhotes musicais. Porque eu ainda defendo: gravar todo um trabalho e depois dar um nome estúpido como “Mais” ou “In The Zone” é muito desperdício.

Já algumas bandas gastam mais que sete neurônios e pensam em algo realmente bom. O Plebe Rude, por exemplo, me brindou ainda meninota com aquele “O Concreto Já Rachou”. Além de sonoro, tem atitude. É como meu segundo disco predileto do Língua de Trapo: chama-se “Como é Bom Ser Punk”. Nada de barulheira, é pura esperteza mesmo: a canção-título começa com uma melodia erudita, mas é só de farra.

Um dos músicos que mais gosto no país também parece ser bom de inventar nome – quase tanto quanto é bom de inventar som. André Abujamra e sua banda Karnak deram o nome de “Estamos Adorando Tokio” para um CD. Quando ainda era parceiro de Maurício Pereira no Mulheres Negras, o moço chamou seu segundo disco de “Música Serve Pra Isso”. Com essa, ele quase fez o que todo jornalista sempre quis: escrever uma matéria e dar o título de “Leia o texto abaixo”.

O Titãs, hoje aquela bandinha estranha que toca na novela, também já teve seus momentos para nomear discos. “Cabeça Dinossauro” é o que mais gosto, ainda mais com aquela desconcertante imagem de capa – que a Clara, até hoje, jura que é o Excelentíssimo Senhor Ministro da Cultura Gilberto Gil.

No âmbito internacional, também existem ótimos nomes de CDs. Tudo bem que, em inglês, tudo me parece mais garboso... e depois a gente traduz e vira uma caca. Mas eu gosto mesmo de “Take Off Your Pants and Jacket”, do Blink 182. É bobão e debochado como os três garotos, então casa bem.

Também é incrivelmente legal o título de um dos discos do Beach Boys, “Pet Sounds”. Diz a lenda que Brian Wilson achava que suas músicas eram como “bichos de estimação”. Haja ácido, hein?

Porém é um meigo e simplório título que sempre vem à mente quando o assunto é nome bom de disco: “O Passo do Lui”. A capa do segundo álbum dos Paralamas do Sucesso mostra um rapaz em posição tortinha, como que dançando bêbado. Aquele é o Lui, amigo da banda no início de tudo – e que, dizem, dançava mesmo meio esquisito. Depois o Lui caiu fora, tomou seu caminho.

Momento de segredo: essas Garotas aqui também já tiveram seu Lui. Nem sempre fomos um triângulo de bermudas, sabe? Antigamente, no início do nosso tudo, existia uma quarta moça. Ela casou, mudou e, como o Lui, virou uma divertida e saudosa história. É por isso que, quando gravarmos enfim nosso CD, ele há de se chamar... “O Passo da Helô”.

Fla Wonka às 12:45 PM


Féxiom uíque

Fico pensando: qual é o exato momento em que passamos a ter noção do que é moda? Em uma época, a mamãe é quem escolhe o que vamos usar. Em outra, pegamos qualquer coisa confortável o suficiente para brincar na rua. Até que a indecisão sobre o que vestir cai em nossas cabeças sem qualquer aviso prévio. E isso acontece mesmo se você for adepto(a) da calça de moleton e camiseta folgada – aposto que em algum momento já se perguntou que roupa escolher para impressionar uma garota ou um garoto.

Eu queria me vestir como me vestia quando era criança. Na verdade, não costumo ficar muito longe daquilo. Como sou do tipo mignon (nome chique e gracioso para designar magrela-e-baixinha), costumo comprar muitas peças de roupa em seções infantis de lojas de departamento. O tamanho 16 (anos) me serve direitinho, e ainda custa mais barato do que as blusas e calças de madame, nunca confeccionadas em PP. Meus pés 34/35 também possibilitam alguns sapatos de boneca, literalmente falando.

Apesar de ser fã do pretinho básico, adoro cor de brinquedo. Mas se eu sair com uma bermuda azul de bolinhas brancas e camiseta pink, aposto que vão me olhar estranho no supermercado e me sacanear na hora do troco. Só que esse é o modelito que estou usando na foto registrada na primeira vez em que montei na minha Monark com cestinha. Naquela época, eu podia. Por que não posso mais?

Pelo mesmo motivo que não poderia usar meu conjunto favorito para brincar no quintal da minha avó ou na rua de casa. Imagine, botar um mini-micro short, uma regata de alcinha e sair por aí. Com certeza iriam me confundir com aquelas moças de vida muito, muito difícil. Ou pelo mesmo motivo que proíbem adultos a passearem usando fantasias. Criança vestindo uma roupa de cetim e tule imitando fada, é a coisa mais linda. Adulto vestindo a mesma coisa, é fugitivo do hospício.

A verdade é que a gente cresce e tudo perde a graça. Viramos pessoas responsáveis (ou, pelo menos, deveríamos virar). Precisamos arrumar um emprego e mantê-lo pelo maior tempo possível. Temos de freqüentar locais públicos como banco, mercado, cartório. Somos convidados a jantares em restaurantes ou na casa dos outros. Precisamos parecer atraentes para o sexo oposto (ou para o mesmo, nada contra). Não dá para construir uma vida séria quando a aparência é duvidosa. Certo?

Então voltemos ao princípio. Aquela hora em seu passado em que você abriu o guarda-roupa e pensou, pela primeira vez, “que camisa combina melhor com essa calça?” ou “que saia disfarça mais meu bumbum?” ou “qual dessas camisetas não possui um furo?”. O grau de vaidade muda de pessoa ou pessoa. Mas esse pecado capital habita o interior de cada um de nós. Eu, pessoalmente, gosto de andar ajeitadinha. Sou daquelas que combina sapato com fivela no cabelo, manja? Nem por isso sou escrava da moda.

O trabalho me obrigou a conhecer nomes de estilistas, tendências do verão e denominações absurdas como “drapeado” ou “rosa pétala”. Consigo até encontrar coisas bacanas em desfiles – apesar de curtir mesmo uma boa liquidação das lojas Renner ou C&A. Porém, a única peça de nome que tenho são alguns pares de meia assinados pelo Alexandre Herchcovitch, ainda assim comprados na Lupo por 5 reais cada. E jamais, nunca, pagaria um valor de três dígitos por uma roupa. Só se fosse aquele vestido com o qual Julia Roberts venceu o Oscar.

Pois a partir de hoje, eu, Flá e Clara vamos tentar desvendar alguns mistérios da moda, cobrindo a tal São Paulo Fashion Week a convite do site Vírgula. Até a próxima terça-feira, você poderá ler no especial Fuck The Fashion as impressões das três garotas no maravilhoso e pegajoso mundinho. Iremos nos divertir horrores, claro. E, depois, voltaremos para casa e colocaremos uma camiseta velha e manchada, uma calcinha de algodão sem elástico e dormiremos felizes com a sensação de dever cumprido – sem o menor peso na consciência.

gisele.jpg
Ah, Gi, não precisava se incomodar...
Vivi Griswold às 08:31 AM

terça-feira, 27 de janeiro de 2004

Com o isqueiro na mão

Parece legal no começo: o anúncio estampa em letras enormes sua banda favorita, e a turnê, finalmente, vai aportar em terras brasilis. As cenas do espetáculo que você viu na TV mostram os ídolos chutando tudo no palco, o público ensandecido cantando junto e acendendo os indefectíveis isqueiros nas baladas. Que emoção! Você se vê disposto a quebrar o porquinho e limpar até a última moeda para participar da festa.

Mas chegando lá... nada daquilo é como na TV. Tem um montão de gente se espremendo. Todo mundo sua em bicas na tentativa de chegar o mais perto possível do palco e sai briga por uma mísera palheta atirada pelo guitarrista. Não se vê nada (a não ser que sua altura seja avantajada, ao contrário da minha e da maioria da população brasileira) e você só leva bordoadas dos mais empolgados, que giram camisetas no alto e acotovelam sua cabeça durante o ato.

Ok, shows musicais são algo legal para caramba – se a banda é de sua preferência e o local da performance oferece um mínimo de estrutura. Mas, ao longo de anos de experiência no assunto, começo a achar que poucos artistas valem o sufoco.

O show do U2, por exemplo. Paguei 50 lascas – e olha que a brincadeira foi em 1998. Cheguei horas antes da abertura dos portões. Paguei um flanelinha. Me apertei na multidão quando os portões do Estádio do Morumbi foram abertos. Esperei pacientemente a entrada no palco do meu querido senhor Boa Voz e sua trupe. Quando a hora chegou... os irlandeses pareciam playmobils, tamanha a distância em que eu me encontrava deles. Claro que não consegui chegar mais perto, sob risco de esmagamento dos meus ossinhos. E, por conseguinte, nem tive chance de ser puxada pelo sexy irish man para dançar uma balada lá em cima. Ai, ai...

Também vi dois shows do Red Hot por aqui: o primeiro, no Hollywood Rock (onde consegui permissão para ir com a condição de comprar ingressos de cadeiras, o que deixa você longe do agito, mas a salvo dos malucos do camisetóptero), e o segundo, no Credicard Hall. Em 1993, tudo que vi foi um pequeno fósforo acendendo no palco – era Anthony, com seu capacete de fogo. Em 1999, na pista da casa de espetáculos, só levei mesmo tabefes. Mas vi o quarteto mais de perto. Foi ok.

Guardo ainda no currículo de espetáculos internacionais, entre um punhado de outros, as apresentações de Alanis Morrisette (ok, eu confesso: eu gostava da canadense na época de seu primeiro álbum... Mas dêem um desconto, eu tinha 18!) e o festival intitulado Ruffles Reggae, minha mais curiosa marca. Explico: nunca fui lá muito fã do ritmo representado por sêo Marley e não lembro de uma banda sequer do espetáculo. Só daquele cheiro estranho na pista... O que diabos fui fazer lá?! É um mistério para mim até hoje.

Mas de todas essas sensacionais performances presenciadas por mim, nenhuma se compara ao show do Menudo, em algum ano perdido na década de 80, no glorioso Estádio Bruno Daniel, no A do ABC Paulista. Minha paciente mãe teve a pachorra de se cercar de meia dúzia de crianças, entre elas eu e minha irmã, e rumar ao lugar debaixo de uma chuva torrencial. A certa altura, tínhamos lama até os tornozelos e os tênis Bubble Gummers, encharcados, calçados nas mãos. Os garotos de Porto Rico demoraram seis horas para aparecer no palco e a chuva não deu trégua. No fim, o que ouvi foi outra cópia da minha própria fita do Menudo estourada nas caixas (ou você acha que eles cantavam ao vivo?) e cinco pontinhos coloridos pulando no palco distante.

Mesmo assim, guardo a memória da ocasião com orgulho. Isso porque já se passaram duas décadas do fenômeno riquenho e o quinteto formado por Robbie, Roy, Ray (meu favorito), Ricky e Charlie (por que só o nome dele começava com “C”?) está virando cult. O quê? Não está não? Nem pense em me dizer tal barbaridade! Se tirarem isso de mim, só sobram, na minha experiência com shows do povo de fora, bordoadas e suadouro... além, é claro, de sons e cenas inesquecíveis.

Clara McFly às 07:03 PM


Ronnie é o rei

Há quem diga que “Admiradora Secreta” é a melhor das comédias romantiquinhas dos anos 80. Outros apostam em “A Garota de Rosa Shocking”. Existem também partidários de “Alguém Muito Especial” e “Sem Licença para Dirigir”. Mas eu posso jurar: para essa mocinha aqui, nada podia ser mais singelo, engraçado e perfeito com pipocas do que “Namorada de Aluguel”. Tudo por causa de um certo Ronald Miller.

Só para deixar claro, “Curtindo a Vida Adoidado” não entra nessa disputa porque é fora de série, tá bom? Não há comparação possível entre a epopéia de Ferris e os demais filmes da época, faz favor. Mas pode-se dizer que a vida e obra de Ronald (na pele de Patrick Dempsey, ícone do período) é o aquecimento ideal para, um dia, chegar a ser Bueller.

O argumento de “Namorada de Aluguel” é sensacional desde o começo. Corre o ano de 1987 e Ronald é um grandecíssimo nerd. Entre um e outro jogo de cartas com os amigos (nerds, óbvio), ele arrasta um transatlântico por Cindy Mancini, a cheerleader loira e popular da escola. Na verdade, ele é quase tão apaixonado pela menina quanto pela idéia de se tornar famoso no colégio. Essa fixação americana em ser amado na escola devia ser estudada pelos cientistas...

O fato é que o destino trabalha em favor dos perdedores. Um dia, prestes a desembolsar seus suados US$ 1.000 por um telescópio, Ronnie vê a fada de seus sonhos em desespero, tentando trocar uma roupa na loja em frente. Ela sujou o vestido de vinho. E o tecido era camurça. E o traje foi afanado no guarda-roupa da mãe. E Cyndi vai quebrar pedras na Sibéria se a dona souber de tudo.

Para o meu gosto, aquela roupa era brega pra danar e devia é ter ido pro lixo mesmo – pelamordedeus, franjas e saia no joelho??? Nem nos anos 80... Mas isso não vem ao caso. Ronald está ali, oferecendo a grana, e pedindo apenas uma coisinha em troca: que Cindy finja ser sua namorada. Assim os cabeças-de-bagre locais vão achar que Ronnie é pegador e ele será afinal “the king of the black coconut candy” (o rei da cocada preta, como dizemos aqui). Sem lembrar que essa é a forma mais antiga do mundo de ganhar dinheiro, a garota topa.

Todo mundo aí lembra da seqüência, certo? Claro que Cindy vai descobrir rapidinho que debaixo daquele cabelo ensebado, por trás daqueles óculos e apesar de ser um mero jardineiro, Ronnie é um doce. Mas me desculpem: o que ela vê ali, eu sabia faz tempo.

O rapaz usa boina (um charme). Adora observar as estrelas (um encanto). Corta grama para conseguir verba própria (um batalhador). Sabe onde existe um cemitério de aviões (um engodo). Engodo, sim! Passei anos achando que esse tipo de coisa existia mesmo, e que um dia eu passearia num desses com um garoto legal como o Ronnie. O garoto eu encontrei, mas o cemitério de aeronaves... Há! A ficção só me ilude!

Sorte que entrou em cena, para compensar e me fazer rolar de rir, a Dança do Tamanduá Africano. Que espécie de gênio cria aquela situação? O moleque acha que aprendeu a bailar como os jovens moderninhos da tv, mas estava vendo um programa de antropologia!

No fim da zona toda, quando o caldo já entornou pro lado do Miller e todo o sonho de fama veio abaixo, ele decide botar a boca no mundo em plena escola. E diz assim: “Nerds, populares... Meu lado, seu lado... Isso é tudo besteira. Já é muito difícil sermos nós mesmos”. Esse é o Ronald que eu aprendi a amar.

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Cemitério de aviões é coisa de gênio, hein, Ronnie?
Fla Wonka às 01:25 PM


Sean machuca, mas Bill faz sarar

Uma vez a cada 250 primaveras, os planetas Saturno, Urano e Plutão se alinham com três pequeninas estrelas da galáxia conhecida como Andrômeda. E você sabe o que acontece, leitor? Não, nenhum serial-killer morto-vivo aparece para aterrorizar uma pequenina cidade no interior dos Estados Unidos. Tampouco se abre um portal que propicia contatos entre seres de diferentes dimensões. O resultado do alinhamento intergaláctico é visível... no cinema mais perto de você.

Antes que algum astrônomo de plantão mande capangas armados até os dentes atrás de mim, esclareço. O encontro de planetas e estrelas citado acima é pura invenção da minha cachola. Estou apenas tentando arrumar uma explicação coerente (hã?) para o fenômeno que as salas de projeção sofrem de tempos em tempos: uma enxurrada de filmes excelentes em uma só temporada. E aproveite, porque isso está acontecendo agora.

Cinema anda caro demais, eu sei muito bem. Mas vá por mim, que desta vez vale a pena quebrar o cofre de porquinho, economizar no dinheiro da padaria, montar uma banquinha para vender suco de tamarindo na esquina – e sair correndo para pegar a próxima sessão. Quem perder “Sobre Meninos e Lobos”, “21 Gramas” e “Encontros e Desencontros”, a trinca de ouro das telonas atualmente, não é apenas uma mulher do padre. É uma mulher do padre muito da feia, caolha, peluda, fã do Wando e com perna-de-pau desparelhada.

“Sobre Meninos e Lobos” é um drama sombrio dirigido por Clint Eastwood que, basicamente, mostra como a vida pode desandar depois que a gente cresce. Para ilustrar a teoria pessimista, o ex-astro do Velho Oeste conta a história de três amigos, interpretados por Sean Penn (vencedor do Globo de Ouro de melhor ator anteontem), Tim Robbins (que levou o mesmo prêmio por ator coadjuvante) e Kevin Bacon (que não ganhou nada – ninguém mandou fazer “Footloose” e “O Ataque dos Vermes Malditos”).

“21 Gramas” é outro drama, mas algumas vezes mais sombrio que o anterior. Li uma crítica que o resumia como “‘Amnésia’ com taco e dor”, e achei a definição muito propícia. Assim como “Amnésia” (mas nem tão complicado), o filmaço não é exibido em ordem cronológica, e sim com as cenas misturadas. Naomi Watts (aposto que você se lembra dela de “A Cidade dos Sonhos”, né? Sei.) perde o marido e as duas filhas num horrível atropelamento, cuja culpa é de Benício Del Toro (gordo, estrupiado, mal-humorado, mas sempre sexy). Ela doa o coração do marido e quem recebe é Sean Penn. De repente, a vida dos três se entrelaça.

O melhor que os dois filmes têm a oferecer é a atuação absurda do bad-boy com cara de pintinho perdido. Sean Penn é o cara. O ator ficou famoso quando Madonna, sua ex-mulher, soltou aos quatro ventos que apanhava dele – e que ele foi o melhor homem que ela já teve na cama. Se sair do cinema após as duas sessões é difícil e dolorido, o culpado é Sean. Parece realmente que ele machucou, bateu, e nos tirou toda a esperança. Mas antes da depressão chegar, lembre-se que falta um título da lista!

O remedinho contra os males do mundo é “Encontos e Desencontros” – pelo menos durante as quase duas horas de exibição desse filme despretensioso, simples, gracioso e cool até não poder mais. É lindo ver que orquestrando tudo aquilo está a mão de uma garota, Sofia Coppola, que talvez fique para sempre (e injustamente) taxada apenas como a filha do diretor por trás de “O Poderoso Chefão”. Bem, até que a reputação não é de todo mal.

No original, “Lost In Translation”, que os gênios brasileiros traduziram pessimamente e conseguiram mostrar como título em inglês faz sentido, mostra o encontro (o desencontro fica devendo, tá?) de Bill Murray (também ganhador de um Globo de Ouro) e Scarlett Johansson num hotel em Tóquio. Ele, um ator que já viveu seus tempos de glória e que agora só é chamado para fazer propaganda de uísque. Ela, a jovem e solitária esposa de um fotógrafo que vive para o trabalho. Naquele mundo estranho, os únicos que os entendem são eles mesmos.

Não consegui definir se o sentimento que brota é amor ou amizade ou sei lá o quê. Mas o abraço de despedida que os dois dão no final, com Bill sussurrando alguma coisa no ouvido de Scarlett ao som de “Just Like Honey”, balada maravilhosa do Jesus & Mary Chain, esquenta o coração mais que manta tricotada pela vovó. Êta remedinho bom, aquele.

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More than this, you know there´s nothing...

Ainda aí, leitor? Corra para o cinema, vamos!

Vivi Griswold às 08:51 AM

segunda-feira, 26 de janeiro de 2004

É para vender?

A gente os ouve ou lê todo dia. A gente repete, como se fosse uma coisa normal. Por isso, deixamos escapar o toque de surrealismo que alguns slogans guardam, no mundo encantado da publicidade. Também, pudera. Com tanto bombardeio, via TV, internet, rádio e outdoors, já é automático: basta que nossas retinas encontrem o nome de um produto que sua frase de acompanhamento já chega junto.

Embora a publicidade brasileira seja aclamada mundo afora, vamos convir que nem todas os slogans sejam algo de genial. Às vezes, até “grudam” – o que, claro, é seu objetivo principal. Mas ainda assim podem sair pela culatra ou soar, no mínimo, esquisitos, se a gente parar para pensar. Então, vamos lá. Não é estranho ter o slogan...

7. É isso aí?
Como a Coca-cola pode ter essa frase de efeito? Ninguém sabe o que diabos é a fórmula! Pensando melhor, talvez seja até apropriadíssimo. Como ninguém sabe do que é feita a bebida, digamos que ela é... isso aí.

6. Colocando você sempre à frente?
Vindo de qualquer banco, eu jamais aceitaria o convite de ser colocada à frente. Porque aí eles vêm por trás e entram, digamos, rasgando – seu bolso ou o que mais a comparação permitir. Vá procurar gente para botar na frente noutra freguesia!

5. Põe na Cônsul?
Esse é velhinho, mas marcou época. E é mais um daqueles que permitem infinitas piadas de duplo sentido. Põe na Cônsul? Só se for na sua, infiel! Ainda bem que trocaram de slogan. Ou melhor, trocaram? Bem, se sim, o atual não faz tanto efeito quanto esse.

4. Tudo bem?
Para quem não se lembra, esse era o chamado “slogan” (com aspas bem salientadas) do Carrefour. Como assim, tudo bem? É uma apresentação do mercado? Nesse caso, ele poderia travar um pequeno diálogo com nossa próxima frase de efeito...

3. Prazer em conhecer?
Assinado pela C&A, essa pérola até faz sentido. Tá, nem tanto. Prazer em conhecer é uma expressão marcante, mas não entendi a que veio associada a uma loja de roupas. A propósito, depois o slogan virou “abuse e use”. Arrã.

2. Just do it?
Ah, façameofavor. Custava ao menos arrumar um slogan na língua pátria do país onde o produto é apresentado? O sêo Nike não quis pagar uma agência para adaptar a frase? Isso é que é contenção de despesas! Já não bastasse utilizar mão-de-obra... ah, deixa para lá.

1. Ah!
Campeão de longe, a expressão que acompanhou o creme dental Kolynos é realmente de outro mundo. Não bastasse aquela profusão de seres fazendo festinha numa grande quantidade de água, a propaganda ainda vinha com esse slogan absolutamente incrível de brinde. Detalhe: a Kolynos virou Sorriso – e continua com o “Ah!” no comercial.

Clara McFly às 07:39 PM


A falta dela é um choque

Aconteceu de novo nesse fim de semana. E quando acontece, parece que o mundo para de rodar e eu estou condenada ao enlouquecimento. Só um humano perdido em ilha completamente deserta, sem kit de sinalização ou livro de palavras cruzadas, é capaz de entender o que eu sinto quando a energia elétrica não dá sinais de funcionamento!

Basta cair meia dúzia de gotas molhadas do céu e meu bairro vira uma vila de pescadores do sul da Bahia. Dizem os xeretas que é problema no transformador de sei-lá-onde. Como crédula máxima da Teoria da Conspiração, eu acho que é assim: choveu, “eles” desligam a eletricidade para nos fazer economizar na marra. Não importa a intensidade do toró, é tudo um grande golpe.

Mas no momento em que a energia do prédio se vai, quem passar pela minha porta há de pensar que fui esfaqueada. Apagou tudo, ecoa pelo apê um grito de “nããããão!!!” – seguido de uns palavrões, caso eu esteja no banho. Minha Nossa Senhora da Ducha Corona: como eu detesto começar um banho gostoso e quentinho e, lá pela segunda aplicação do xampu, perceber que o jato d’água morno virou uma cachoeira antártica!!! É de corroer a alma.

Passado o ataque de raiva, a falta de eletricidade me deixa é completamente sem ação. Todas as últimas vezes foram assim. Não deu para ver o programa predileto na televisão, muito menos ver um filme no DVD. Não deu pra ligar o computador. Não pude bater um bolo pra distrair. Não consegui ler por causa do breu. Não liguei para ninguém porque o telefone é sem fio e descarrega fácil.

E o drama sempre segue o mesmo script: bato a perna na mesinha de apoio, me queimo com os fósforos, deixo a parafina das velas pingar pela casa. Se eu já sou um “Mister Bean de saias” no claro, imagina no escuro...

Para o gênio que pensou “sai de casa e vai curtir a rua, bocó”, eu explico. O elevador não funciona sem a energia porque meu condomínio é pobre. E descer oito andares de escada tendo dois joelhos tortos como os meus é suicídio – e o passeio a pé não seria grande coisa depois disso.

Não adianta, falta de energia me faz sentir como uma garota das cavernas. Ou como o Tom Hanks em “O Náufrago”. É isso!!! Preciso comprar uma bola de vôlei Wilson para o próximo apanhão regional!

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Wilson, amigão! Quer me fazer companhia?
Fla Wonka às 01:25 PM


São Paulo que não dói no bolso

A cidade onde nasci e moro atualmente fez 450 anos ontem. Após semanas de reportagens na tevê, matérias de capa em revistas, manchetes e suplementos em jornais e declarações embaladas pela indefectível “Sampa”, de Caetano Veloso, não sobrou muita coisa para se falar sobre a data comemorativa. Na verdade, sobraram pouquíssimas coisas – e são exatamente as miudezas locais que mais significam para esta garota paulistana.

São Paulo foi celebrada como capital gastronômica do país, como cidade que nunca dorme, como lar de gente trabalhadora, como caldeirão cultural e todos os clichês que todo mundo já está cansado de saber. Também foi criticada pela violência, pelos buracos, pelo trânsito, pelo transporte coletivo, pelo excesso de cinza. Mas a cidade de que eu gosto não está nem para os restaurantes chiques, nem para a selva claustrofóbica de concreto.

Meus passeios favoritos em São Paulo não custam caro. Para fazê-los, tudo o que você precisa é de uns trocados no bolso e uma ajudinha divina para o sol aparecer.

Liberdade
Segundo minha certidão de nascimento, foi no bairro oriental onde dei o primeiro chorinho. Talvez seja por isso que eu adoro aquelas ruas lotadas cheias de lanterninhas típicas que andam implorando por uma restauração. Sabia que a Liberdade é a maior concentração de japoneses fora do Japão? É possível encontrar de tudo nas lojinhas (gosto particularmente da Pomona e da galeria Sogo, ambas na Galvão Bueno). Aos domingos há uma feira de artesanato e comilança concorrida a tapas, onde dá para comer camarão empanado no espeto e doce de feijão divinos!
Quanto gasta: 5 reais de estacionamento (ou um passe de metrô), mais 10 reais para comer até se fartar.

Feira da Benedito Calixto
Do bairro onde nasci, para o bairro onde moro. Aos sábados, meu passeio favorito antes do almoço (quando eu consigo acordar) é descer do prédio e caminhar até a praça Benedito Calixto, a poucas quadras. A feira de antiguidades e bugigangas já é clássica – e por isso mesmo é entupida de todos os tipos de paulistanos e turistas. Atenção para a barraquinha de doces, com pastel de Santa Clara e ambrosia no copinho descartável. Na volta, gosto de dar mais um passeio pelo bairro, principalmente nas pracinhas e ruas de paralelepípedos repletas de grafites artísticos.
Quanto gasta: 5 reais para doces diversos, mais 10 reais para alguma bugiganga.

Jardim Botânico
Enquanto milhares de famílias barulhentas lotam o Jardim Zoológico, tente escapar do fluxo e siga reto para o parque vizinho – sempre lindo, vazio e reconfortante. Chupar um picolé sentada na grama ou debaixo daquela alameda coberta por um “teto” de bambus não tem preço, nem para o Credicard (até porque o tio do sorvete não deve aceitar cartão). A lei ali é ficar de bobeira e, se a preguiça permitir, fazer uma caminhada até as estufas de orquídea e os laguinhos cheios de girinos. Como é proibido andar de bicicleta, skate e similates, a tranqüilidade é garantida.
Quanto gasta: 3 reais de estacionamento, mais 2 reais de ingresso, mais 2 reais de picolé.

Feira do Bixiga
No bairro italiano também conhecido como Bela Vista, mais precisamente na praça Dom Orione, é montada uma feirinha de antiguidade aos domingos. Sem o burburinho às vezes cansativo da Benedito Calixto, a feira do Bixiga também ganha pela originalidade. Lá realmente pode se achar de tudo. Das últimas vezes em que passei, trouxe para casa um vidro de leite antigo (sem o leite, claro), uma garrafa antiga de Pepsi e muitas das prendas etregues em nossa Promoção de Natal (o playmobil, as figurinhas “Amar é...” e o cubo mágico são de lá). Passeio original e divertido, como a vida deve ser.
Quanto gasta: 5 reais de estacionamento, mais 10 reais para alguma bugiganga.

Sebos do centro
Apesar de sofrer com as crises de rinite alérgica após a visita, não consigo deixar de freqüentar os sebos do centro de São Paulo. O melhor local é a região atrás da Catedral da Sé (aproveite e visite a igreja, lindamente restaurada), perto da Praça João Mentes. Livros, discos, gibis, CDs, DVDs até onde a vista alcança são as atrações dos sebos. Sempre volto para casa com as mãos pretas e os olhinhos brilhando pela aquisição de revistas antigas (gosto das de variedade das décadas de 50 e 60) ou algum vinil só para fins decorativos, porque minha vitrolinha já se perdeu há tempos.
Quanto gasta: 5 reais de estacionamento, mais 5 reais para revistinhas, mais 1 real por cada vinil.

Feira de flores do Ceasa
Já reparou que eu adoro uma feira? A do Ceasa, porém, é diferente. Ali, todas as terças e sextas pela manhã (e bota manhã nisso, é preciso madrugar) acontece a feira de flores. É um mar de cores que não tem fim, o que por si só já vale ter pulado da cama. De vasos com mudas de maria-sem-vergonha a 5 reais a caixa com dez unidades a uma palmeira de seis metros de altura a 500 reais, tem para todos os gostos e bolsos. O passeio também é concorrido e cheio de gringos – mas não há como ficar de mau humor quando se está cercada por aquele mundaréu de margaridas, né?
Quanto gasta: 5 reais (acho) de estacionamento, mais 2 reais por um maço de gérberas.

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E ainda tem gente que paga caro
para acabar com o stress...
Vivi Griswold às 09:07 AM

sexta-feira, 23 de janeiro de 2004

Nominal a quem?

Eu já disse por aqui que, quando a gente era pequeno e brincava de escritório, meu irmão só topava bancar o cliente se pudesse se chamar Magáiver - o que era sempre motivo de brigas, pois ninguém normal se chama Magáiver. E o Magáiver verdadeiro, aquele fabuloso agente capaz de explodir uma prisão usando um teco de chiclé mascado e um pouco de terra, jamais iria ao meu escritório improvisado sobre o murinho do gás.

Eu achava que esse era o maior nome de fantasia que já vi, mas hoje admito que não. Quer ver um terreno fértil, fértil para encontrar nomes muuuuito inventados -- e que dão na cara que são inventados? As cantoras de R&B norte-americanas. Ô gente criativa! Ou você acha que alguém se chama Beyoncé? E Ashanti, então, por Deus?!

Pensando nisso e aproveitando vários endereços enviados pelo Zappa, grande amigo e notório caçador de tranqueirinhas divertidas da web, fui em busca do meu nome se eu fosse outra pessoa. Quer dizer, a mesma pessoa mas levando outra, por assim dizer, vida.

Se eu não fosse a Clarissa Alguma-Coisa Passos -- menina magrela cheia de macaquinhos no sótão e recém-transformada em ruiva, que divide com duas garotas bacanas um espaço cor-de-rosa cheio de leitores supimpas na internet -- descobri nos geradores de nomes que eu poderia me chamar...

Rosie-Posie Boggy-Hillocks, se eu fosse uma hobbit. Talvez até participaria da jornada para queimar o anel (no bom-sentido, claro!)

Lúthien Linwëlin, se eu fosse uma elfa. É claro que, assim, Aragorn, o homem, o mito, poderia acabar se casando com outra moçoila de orelhas pontudas...

Killdozer, se eu fosse um smurf. Uma coisa é certa: eu avisaria o Gargamel que, se ele foi capaz de fazer a Smurfette, podia fazer um punhado de bichinhos azuis e deixar meu povo em paz!

Cybernetic Lifelike Android Responsible for Intensive Sabotage and Scientific Assassination, se eu fosse uma cyborg. Note que as iniciais formam meu nome e eu seria responsável por "sabotagem intensiva" e "assassinatos científicos" (?!).

Sandy Blue, se eu fosse uma estrela pornô. Ok, eu nunca pensei em ser uma estrela pornô. E o pior é que o nome é justo o da cantora mais "mamãe-sou-virgem" do Brasil!

Ass Machine Teapot, se eu fosse uma legítima moradora dos guetos nova-iorquinos. Eu não tenho a menor idéia do que isso significa, mas acho que eu preferiria, nesse caso, me chamar Ashanti...

Clara McFly às 06:36 PM


Ataques de consumo apaixonado

Se tem uma coisa que me deixa auto-orgulhosa, é o meu desapego quanto a objetos inanimados. Ao contrário do que dizia Madonna nos áureos tempos, eu não sou uma garota material, e não acredito que vivemos em um mundo material. Mas, como tudo na vida, isso nem sempre foi verdade... Eu confesso aqui que tive um fraco por certos produtos durante a infância.

Não foram muitos, mas também não foram pouco amados. Sabe quando você vidra em um artigo e parece que o mundo vai se tornar um abismo de tristeza e solidão se ele não for seu? Foi assim com essas coisas.

Óculos de sol espelhado
Tive que economizar um bom tempo para juntar trocados suficientes e arrematar essa maravilha. Todo de plástico duro, armação branca feito neve e as lentes... espelhadas como prédio brega da Avenida Paulista!!! Pensando hoje, era um horror, mas como eu amei meus óculos de sol a la comédia da Sessão da Tarde. Eram enoooormes pro meu rosto magricela de pré-adolescente. Mas e daí? Apeguei naquelas lentes como se fossem a salvação da alma.

Camiseta d’A Bruxa
Sou do tempo em que comprar roupa pronta concorrida palmo a palmo com mandar fazer peças na costureira. Minha mãe levava a gente quase que mensalmente pra moça japonesa tirar medidas e fazer uma bermuda ou uma blusa de tecido previamente escolhido. Por isso, ir em loja era festa! Essa marca, A Bruxa, era uma febre nos anos 80 – mas acho que nem existe mais. Modelos moderninhos (pra época, veja bem...) de cores espalhafatosas faziam meu olho brilhar. Quase morria de felicidade ao ganhar qualquer camiseta da Hello Kitty vendida na Bruxa!

Máquina fotográfica descartável
Com essa aprendi uma lição importante. Eu ganhei a maquininha e tirei várias fotos. Depois, com medo do filme acabar logo e todo o casco ser jogado fora, passei a regular. Não queria clicar nem uma vez mais, senão a diversão ia acabar cedo. Fiquei tão desesperada pra prolongar a magia que guardei a máquina no fundo do armário, protegida da luz e dos meus irmãos. Resultado: ela embolorou. O filme velou e foi para o lixo. Não tenho uma foto sequer na minha preciosa máquina descartável Kodak 1983. Moral da história? Hoje uso tudo o que possuo até virar pó.

Patins de bota marrom-camurça
Uau!! Bastava colocar aquela coisa no pé pra eu me sentir uma patinadora do Holiday on Ice – mas sem o “ice”, óbvio, que eu sempre morei no Brasil. Foi mais um que conquistei na base de colocar moedas no cofrinho dado pela atendente do banco Nacional (onde meu pai tinha conta). Juntei, juntei e comprei de uma garota da rua. Nos dias seguintes, eu poderia ter dormido com os patins de bota, não fosse a mamãe mandar tirar aquele troço da cama. Mas eu juro que aprendi a rodopiar e a descer ladeiras de costas, usando só o freio. Como uma ás das rodinhas!

Tênis Bubble Gummers
Talvez tenha sido o cheirinho de chiclete que me fez ficar 100% apaixonada por esse tênis. Foi amor à primeira vista: botei os olhos naquela dupla azul e branca, com cadarço de velcro, e grudei na vitrine da loja. Claro que o cofrinho do banco Nacional não pôde entrar em cena dessa vez, porque o Bubble Gummers era caro. Mas meu pai me deu! Mimada, né? Dane-se: curti aquele par de calçados como nenhum outro, circulando orgulhosamente pelo bairro, pela escola, nas viagens de férias. Quero crer que esse não era meu lado materialista se manifestando, só. Aquele tênis azul foi adquirido e usado é com amor!

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Tim, Amy e o Gato faziam
propaganda do adorado Bubble Gummers
Fla Wonka às 01:03 PM


Olha o carro!

Engana-se quem pensa que a interjeição acima só poderia ser proferida por algum amante de automóveis antigos ao se deparar com um belo e conservado Cadillac 1959, conversível, motor V8 e rabo de foguete. Na verdade, essa era uma das frases que eu mais falava (e ouvia) quando era criança. Apesar do quintal no fundo de casa, a rua foi meu território de brincadeiras e travessuras – de tempos em tempos bruscamente interrompidas por um veículo qualquer que teimava em passar pelo asfalto.

Norma Zemella Moura é parte importante da minha infância, apesar de não fazer a mínima idéia de quem diabos tenha sido a tal dona Norma. Provavelmente, a vizinha intrometida de alguém – assim como Mirtes, Irene e Janete, esse é um nome típico de comadre, não?

A ilustre desconhecida, porém, cedeu sua identidade à rua em que morei dos sete aos dezesseis anos. Foi lá onde ralei o joelho centenas de vezes, onde enfiei caco de vidro no pé, onde aprendi a andar de patins, onde fiz bandeirinhas de festa junina e onde escrevi “Brasil” com tinta verde e amarela em tempos de Copa do Mundo.

Assim que eu chegava da escola, corria para engolir um almoço, vestia um short e uma camiseta qualquer e pronto, lá estava eu batendo palma na frente de todas as casas das minhas coleguinhas. Isso quando não batiam na minha primeiro, claro. Dali até a hora do jantar, nosso compromisso era só com as horas e horas de divertimento gratuito, inocente e emporcalhado.

Queimada era a brincadeira de que mais gostava. Bastava delimitar dois territórios com traços de tijolo, dividir os times e arrumar uma bola levinha – queimada com bola de vôlei, aquelas de couro, mostrou-se uma má idéia. Daí, era só fazer par ou ímpar (ou 2 ou 1) para vem qual equipe começava jogando. O objetivo consistia, basicamente, em desviar das doloridas boladas e tentar promover o máximo de manchas roxas no adversário.

Outra favorita, de longe, era pular corda. Adorava o desafio de entrar com o negócio em movimento, pular uma vez e sair. Na próxima, pulava duas vezes, e três, quatro... E as rimas? Tinha como “prever” a primeira letra do nome do futuro marido, precisando, para isso, errar o pulo (e a gente sempre errava na letra do nosso amor de escola, de propósito). Também havia a musiquinha “Um homem bateu em minha porta/ e eu abri/ senhora e senhores ponha a mão no chão/ senhora e senhores pule num pé só/ senhora e senhores dê uma rodadinha/ e vá pro olho da rua!”.

As casas da minha rua suburbana, como qualquer outra que se preze, viviam em reforma (êta mania de fazer laje, nunca vi!). Uma delas, para nossa sorte, passou por uma construção que durou meses a fio. Pronto, lá era o cenário perfeito para o esconde-esconde, além de ser depósito infinito de tijolos e pedras para nossas amarelinhas.

Não sei se é impressão equivocada, mas eu nunca mais vi um bando de crianças descalças, descabelas, cheias de marcas de bola pela roupa e sujeira vermelho-tijolo nos dedos, divertindo-se a valer com pedaços de pau, alvenaria ou uma bola murcha e ordinária. Meus irmãos, que viveram a infância deles em condomínio fechado, nunca passaram por isso. Provavelmente, nossos filhos também não passarão.

E eu que achava que o carro era o maior dos vilões das brincadeiras de rua.

Vivi Griswold às 09:28 AM

quinta-feira, 22 de janeiro de 2004

Boa música de ontem

Eles estão com a moral mais baixa que sonda de prospecção de petróleo, representam valores dos quais quero a maior distância possível e fazem coisas bizarras a rodo. Mas tem um campo no qual os americanos do norte acertaram – e bem: a canção popular. E olha que eu sou bem fã da música produzida por essas bandas tropicais também...

Se hoje Britneys e Christinas pontuam o cenário musical com seu parco talento artístico (e absoluto talento mercadológico, se não delas de seus business men), o melhor é voltar no tempo para ouvir algumas das pérolas do cancioneiro lá de cima.

Houve um período em que, ao contrário das loiras, reinavam absolutas cantoras e cantores de verdade, como Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Louis Armstrong, Frank Sinatra (mafioso, mas limpinho) e outros nomes menos conhecidos, mas tão bons quanto. Por trás das pérolas interpretadas por esses mocinhos e mocinhas, havia compositores que sabiam mesmo juntar frases bacanas a notas interessantes. Gente como os irmãos Gershwin, Irving Berlin e o insuperável Cole Porter.

Pode parecer aclamação desnecessária de gente que já é tida como um clássico, mas muitas pessoas se resumem a repetir o que ouviram por aí. Se esse ainda é seu caso, pode procurar qualquer um dos títulos abaixo, com qualquer intérprete, e descobrir que, para essas pessoas, todos os louros são merecidos – simplesmente porque as músicas são boas, muito boas. Na pele de fã e não de crítica, apresento algumas das minhas músicas populares americanas favoritas.

They Can’t Take That Away From Me, de George e Ira Gershwin
Rápidos e rasteiros, os Gershwin descrevem um jantar romântico memorável atentando a detalhes como a maneira que a moçoila(o) segurava o garfo ou cantava fora do tom, e como o casal dançou até as 3. Danny DeVito (sim, o próprio) gravou uma versão, mas das que conheço, a de Sarah Vaughan parece insuperável.

Ev’ry Time We Say Goodbye, de Cole Porter
“Ev’ry time we say goodbye, I die a little” (“Toda vez que dizemos adeus, eu morro um pouquinho”). Depois dessa abertura fofo-trágica, o que vier é lucro. E se alguém me dissesse que, quando estou por perto, há um certo ar de primavera no lugar, nem precisava falar mais nada. É, no fundo acho que sou uma garota romântica... Ray Charles e Betty Carter têm a melhor versão dessa música.

Cheek to Cheek, de Irving Berlin
A música que embalou os passos de Ginger Rogers e Fred Astaire no divertido “O Picolino” não podia ser melhor. Para as gerações mais desligadas de cinema, vale lembrar que o exato trecho do filme é assistido por John Coffey no corredor da morte, em “À Espera de um Milagre”. E é justamente a simplicidade dos versos que encanta. Louis Armstrong e Ella Fitz fizeram a versão mais bacana. A do próprio Fred Astaire também é legal.

The Way You Look Tonight, de Fields & Kern
Não bastava ser lindíssima, a música ainda está na trilha d’”O Casamento do Meu Melhor Amigo”. Mesmo com uma levada alegre, a letra é tristinha: um dia, quando o sujeito estiver solitário, ele terá o consolo da lembrança da mocinha naquela noite, quando ela estava adorável – e o conquistou com uma gargalhada que fazia surgir ruguinhas em seu nariz. Bryan Ferry, ex-Roxy, assina a minha versão favorita.

Night and Day, de Cole Porter
Diz a lenda que esse supra-sumo da canções de amor foi composta por Porter em homenagem a um marinheiro. É, o moço bom de letra gostava de filmes de gladiador... E como escrevia, o danado! Mais uma que captura pela simplicidade dos versos, “Night and Day” é simplesmente indescritível. O mundo inteiro regravou: há versões de Ella F., Frank Sinatra e até do U2. O comecinho conta com uma brincadeira de ritmo parecida com um trava-línguas: “(…) Like the drip drip drip of the raindrops when a summer shower is through, so a voice within me keeps repeating: you, you, you”. Êta, marinheiro de sorte!

Clara McFly às 06:39 PM


Com esses eu faria tim-tim

É sabido por aí: eu curto demais encontrar os amigos. Não passa uma semana sem que arrume pelo menos dois jantares e uma happy hour pra reunir a turma. Aliás, AS turmas, porque brotam coleguinhas de tudo quanto é emprego passado e curso já terminado. Mas existe uma galera que eu não tenho como juntar pro bate-papo-com-álcool-ou-refrigerante – e é uma pena, porque com esses eu tomaria até cerveja.

Gente boa de inventar assunto, fácil de cair na risada e magnífica de contar história é artigo que vale ouro para mim. O mundo do estrelato também deve tem desses, não? Quer dizer, isso é uma suposição e eu posso estar redondamente enganada, mas gosto de viver na ilusão de que existe artista gente fina.

Muito me chatearia saber que esse pessoal aí abaixo não é perfeito pra dividir uma mesa de bar. Eles parecem tão legais, simpáticos e engraçados que eu iria até a terra do Tio Sam e deixaria minhas impressões na alfândega só para tomar uma loira gelada com...

... Jimmy Fallon
Não é muito conhecido entre os brazucas, porque ele é apenas um integrante do “Saturday Night Live”. Eu disse “apenas”??? Ele é o sujeito mais hilário do programa! Jimmy é quem, atualmente, apresenta o “Weekend Update”, quadro que satiriza os telejornais. Tem cara de quem não só partilha como ninguém uma mesinha de ferro, mas de moço que entretém gente amiga por toda uma noite usando de micagens surreais.

... Ben Stiller
Há muito tempo eu sei que esse rapaz é boa praça. Não bastasse estar em filmes pra lá de engraçados – “Entrando Numa Fria”, “Quem Vai Ficar com Mary?” e “Os Excêntricos Tenembauns” –, esse moço ainda foi roteirista-e-tudo-mais em “Zoolander”, aquela pérola. E é filho do Jerry Stiller, que faz o pai do George Costanza em “Seinfeld”. Se ele viesse pra uma happy hour comigo, eu pediria ao Ben pra trazer, inclusive, sua família toda.

... Drew Barrymore
Essa eu convidaria para qualquer evento social – mas tomaria o cuidado de afastar o álcool da moça, que já enxugou todas à que tinha direito antes dos 13 anos. A pantera ruiva é a minha predileta no trio do Charlie ou fora das telas! Aquele jeito de garota bacana não pode ser fingimento. Pô, ela era casada com um cara que comia ratos, não deve ser fresca ou aborrecida. Se a Drew topasse meiar um suco de pitanga e uma porção de pastéis, eu ia curtir!

... Mike Myers
Antes eu achava que o Mike era apenas um bobão que fazia papel de adolescente tapado no cinema e na tv. Mas daí assisti a um “Inside Actors Studio” com o rapaz... Foi tão divertido que os produtores dividiram o programa em duas partes, a fim de aproveitar melhor a performance dessa figura. É outro que poderia fazer todo um grupo de pessoas rir até cair da cadeira de bar. E eu respeito sujeitos capazes de tal ação.

... Sandra Bullock
Com essa moça de jeito tipicamente americano, eu não acredito que seria possível fazer uma happy hour permeada por shows de riso. Mas eu vou com a cara dela, sabe? Tem o tipo muito parecido com o meu, de quem gosta de papear sobre qualquer bobagem por horas e se permite uns ataques de bobeira aqui e ali. Além do mais, todo ator ou atriz que trabalha com a Sandy diz que ela é adorável. Eu pagaria uma batida de morango pra ter certeza disso.

... Todo o Monty Python
Precisa explicar? Ok, eu explico: há tempos sonho com o dia em que esses cinco senhores (um já se foi, lembrem-se) vão me dar o prazer de passar uma tarde com eles. Seria a realização suprema para qualquer Garota que Diz Ni, aliás. Fico só imaginando a louca diversão que seria ouvir as histórias de vida dos tios Pythons... Um dia ainda pego um avião e vou até a Inglaterra me juntar aos ídolos ao redor de uma Távola Redonda. Por certo eles prefeririam se reunir para o chá da tarde em vez da caipirinha forte. Ou não. Mas isso é o de menos quando se está em ótima companhia.

Fla Wonka às 01:04 PM


Sobre livros e rótulos

Todo mundo (inclusive esta garota) tem a mania de rotular uma pessoa pelo livro que ela lê. Quando encontro alguém no ônibus com os olhos fixos em páginas encadernadas, fico esticando meu pescoço para espiar, na tentativa de ler o título ou o autor da obra em questão. Se for livro de auto-ajuda, imagino que a pessoa é insegura e está passando por problemas. Se for algum romance nacional do tipo “Senhora”, imagino que a pessoa foi obrigada a ler para um trabalho na faculdade ou castigo.

Diga-me o que lês e eu lhe direi quem és. Pois se essa adaptação livre do ditado da vovó fizesse algum sentido, eu mesma estaria frita. Acontece que tenho uma certa compulsão por leitura. Às vezes, isso me faz nutrir uma curiosidade inexplicável com certos livros que caem em minhas mãos. E, se tivesse sido pega com algumas obras já devoradas por mim, teria ganhado rótulos diversos e equivocados – quando o motivo pela minha leitura era algo bem diferente.

O livro: “O Alquimista”, de Paulo Coelho
Segundo a opinião geral, quem lê... tem um gosto pobre para leitura. Ler Paulo Coelho é uma ação condenável por muita gente – apesar do cara ser popular no mundo inteiro e nadar em rios de moedas de ouro por conta das vendas absurdas de seus títulos. Estar com uma obra do escritor-e-mago nas mãos é pedir para ser taxado de esotérico.
Eu li porque... tinha de ter uma opinião sobre o cara. Criticar sem propriedade é algo comum no jornalismo, mas comigo não funciona. Além disso, quis dar risadas de todos os erros históricos e de português.

O livro: “O Diário de Bridget Jones”, de Helen Fielding
Segundo a opinião geral, quem lê... viu o filme e se identificou com a personagem em busca de um amor e um trabalho. Normalmente é um livro apenas para meninas, principalmente as “modernas” e “divertidas”, ou aquelas em busca de assunto na conversa de bar com as amigas. Essas garotas querem ser independentes mas talvez não saibam como.
Eu li porque... gostei do filme, sim. Mas principalmente porque queria ver com meus próprios olhos como uma idéia banal (por favor, é um diário!) pode dar rios de dinheiro para alguém esperto.

O livro: “O Pequeno Príncipe”, de Saint-Exupéry
Segundo a opinião geral, quem lê... é fútil e não gosta de livros – leu porque é fácil e cheio de desenhos bonitinhos. Pega bem dizer na roda de amigos “Estou lendo uma obra francesa...”. O rótulo máximo sobre ele é ser o favorito entre modelos e candidatas ao concurso Miss Universo. A fome mundial e o pequeno príncipe estão sempre na boca das beldades.
Eu li porque... adoro histórias infantis. Aliás, gosto muito mais delas hoje do que quando era criança, o que tem a ver com minha vontade imensa de escrever um livrinho para pequeninos.

O livro: “O Senhor dos Anéis”, de J.R.R. Tolkien
Segundo a opinião geral, quem lê... é um nerd sem vida social, sem amigos, sem namorada e sem diversão, que tem tempo disponível para devorar as mil páginas do volume que está mais para segurador de porta ou calço de mesa do que para um livro a ser guardado na estante. Ou é um nerd como o descrito, mas que gostou dos filmes.
Eu li porque... sou uma nerd que gostou do filme. Mas tenho vida social, tenho namorado e amigos e horas de diversão. Também sou impaciente, e não ia esperar pelos dois últimos episódios da trilogia.

O livro: “O Cão dos Baskervilles”, de Arthur Conan Doyle
Segundo a opinião geral, quem lê... é fã de histórias de detetive ou de Sherlock Holmes em particular. Gosta de filmes de terror e suspense, cita Edgar Allan Poe como referência e adora uma atmosfera dark. Ficou curioso com a fama mundial e indelével do personagem inglês e quis fazer uma leitura fácil, atraente e sem maiores compromissos com o intelecto.
Eu li porque... quis provar a minha teoria de que a dama Agatha Chistie dá de 10 a 0 em sir Conan Doyle em matéria de detetives. Consegui. Sherlock é legal, mas Poirot é Poirot.

O livro: “O Apanhador no Campo de Centeio”, de J.D. Salinger
Segundo a opinião geral, quem lê... ficou atraído pelas histórias misteriosas que rondam a obra célebre Salinger. Quis ler o que o assassino de John Lennon estava lendo quando matou o ex-Beatle a tiros. Além da atração pela morbidez, também quis ter papo cool e se fazer de entendido entre os amigos. Ou ainda pode ser um psicopata adomecido.
Eu li porque.. quis saber qual é a desse livro tão falado. E eu adoro o título, sei lá por que. Tenho um tantinho de curiosidade mórbida, e adoraria dizer que sou uma psicopata. Ou não.

E você, leitor? O que anda lendo ultimamente?

Vivi Griswold às 09:18 AM

quarta-feira, 21 de janeiro de 2004

Papel de quê?

Esqueça o estranho slogan do tênis Montreal (que protegia os pés contra os micróbios) e o conteúdo do pacote entregue pela Xuxa aos pimpolhos que ganhavam as brincadeiras no palco: o mistério mais insondável a rondar a infância dos oitentistas é por que diabos as meninas colecionavam com tanto esmero os famigerados... papéis de carta!

Não salvava uma: todas as garotas da rua e do colégio ostentavam sua pasta, mais ou menos recheada – dependendo do poder de persuasão junto aos pais de cada uma para fazê-los gastar dinheiro com aquilo – de folhinhas coloridas.

Os papéis tinham basicamente duas categorias: nacional ou importado e com cheiro ou não. Claro que, quanto mais incrementado, maior poder de barganha conferia à dona. Trocava-se um cheiroso por dois ou três comuns, e a mesma regra valia para os importados frente ao produto nacional.

O problema é que, enquanto a classificação do cheiro podia ser aferida ali, na hora do escambo, o fator estrangeiro/brazuca era sempre motivo de discussão. Afinal, a não ser que a peça em questão tivesse impressa em si uma marca “made in USA” ou qualquer outro lugar aparentemente interessante e longínquo para nossas mentes infantis, não havia como provar que o papel era do além-mar.

Choviam, então, os populares gatos. Você podia se dar bem se tivesse lábia suficiente para convencer sua amiguinha que aquele papel comprado na vendinha da esquina foi trazido pelo primo do colega de trabalho do seu pai, em viagem ao Japão (as folhinhas nipônicas também eram bem-cotadas nesse estranho mercado).

Mas o ponto mais interessante dessa história toda é que eu nunca vi, durante todo o período em que participei desse câmbio negro, ninguém – absolutamente NINGUÉM – que usasse os malditos papeizinhos para escrever uma carta, aparentemente sua função original. Qual! Nem um bilhete sequer; uma nota curta dando conta à mãe de que você saiu para comprar mais folhinhas na vendinha da esquina.

Minha coleção virou foi relíquia. Apesar dos insistentes pedidos de minha mãe para jogá-los fora depois que a febre passou, mantive-os bonitinhos na pasta até que... sei lá. Não tenho a menor pista de onde foram parar. Mas não podia atirá-los fora assim, não depois de tanta saliva gasta para convencer as meninas da escola que aqueles papéis que comprei na papelaria do japonês da rua de baixo eram de fato da terra antípoda de seu fornecedor...

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Eles ainda existem…
Clara McFly às 06:18 PM


O folhetim me ensinou

Quem disse que novela não é capaz de dar importantes informações sobre como regrar a nossa existência? Eu aviso a vocês que já aprendi muita coisa assistindo a essas encenações da vida real. Exemplo: se um dia eu matar a Odete Roitmann, fujo do país antes que inventem um concurso para descobrir quem eu sou.

Dizem por aí que a vida imita a arte. Ou é a arte que imita a vida? Ou é a Globo que imita a Televisa? Ah, não importa. O essencial é se despir de preconceitos e notar que as novelas podem prover milhares de ensinamentos. Eu tenho cá pra mim que esses toques abaixo devem ser usados por todo e qualquer humano interessado em melhorar de situação.

Se eu ficar feiosa um tempo, ganho fortuna no final
Aconteceu inúmeras vezes, e os exemplos mais recentes são a Ana Francisca de “Chocolate com Pimenta” e a Betty, que era feia até no título. As coitadinhas começaram suas novelas mais assustadoras que trombada de ônibus de turismo, usando penteados pegajosos e acessórios sem noção. Mas, passada a fase brejeira, as moças feiosas voltam ricas, fortes, poderosas e lindonas. Que mal existe em viver um bocadinho usando aparelho dental e óculos de coruja se no final vier a glória?

Não devo morar em distantes bairros cariocas
Meu namorido não dorme com barulho. Eu durmo como uma rocha, mas tenho impressão de que isso não duraria caso fixasse residência na periferia do Rio de Janeiro. Bom, ao que parece essas redondezas sempre são dominadas por botecos onde uma moçada barulhenta curte discutir a vida toda ao lado do pagodão. Inclusive, de acordo com os cenários de novela, esses bares nunca fecham – parece 7 Eleven... Tô fora, gosto de sossego.

Não posso ser muito boa ou muito má
Gente que leva seu modo de ser para perto desses extremos, ao menos no mundo da tv, contrai doenças terminais. Bastou a garota ou o rapaz serem uma flor de criatura, passam a sofrer de leucemia, cegueira, deficiência física. Os malvados bem malvados também podem cair na mesma armadilha novelística – desenvolvendo terríveis coágulos no cérebro, suponho, devido à sua ruindade crônica. Melhor é ser só meio boazinha e passar despercebida pela UTI.

Não vou ficar muuuito amiga de ninguém
Toda mocinha de novela tem uma amiga de fé, irmã, camarada. Essa pobre não pega o bonitão da trama, nem fica bem de vida. Pior: lá pelas tantas, a gente nota que a tal nem tem vontade própria, e só vai onde a amigona estrela vai ou faz o que ela manda e quebra seus galhos. Ô vida besta! E antes que vocês perguntem “mas ficando amiga firme de alguém, VOCÊ pode ser a bonitona!” Só que, nesse caso, minha filha vai ficar doente, meus romances vão ser problemáticos e minha vida será uma pândega. Eu passo, obrigada.

Não darei bola pro Marcos Palmeira
Toda garota que se apaixona por esse calhorda acaba por ficar desmemoriada, pobre, doente, chata ou mal falada. Veja em “Porto dos Milagres”, “Renascer”, “Celebridades” etc. Não que o moço dos cachinhos já tenha me dado bola, óbvio. Mas, ainda que isso acontecesse, eu fingiria de desentendida. E eu lá quero um exu desse tipo azarando minha vida?

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Vai agourar o diabo, cara!
Fla Wonka às 01:05 PM


Arapucas em domicílio

Estou com duas manchas roxas enormes nas duas pernas, um pouco acima dos joelhos. É que toda vez que entro na cozinha, bato a coxa esquerda no móvel da TV. Toda vez que eu saio da cozinha, bato a coxa direita no móvel da TV. Não é apenas porque eu sou estabanada e ando pela casa saltitando mais do que pipoca na panela : é que acidentes domésticos acontecem com todo o tipo de pessoas – até as de mentira.

Uma comida queimando no fogão, uma escorregada no piso molhado, uma prensada de dedo na porta da geladeira... Hollywood sabe bem como funciona a máxima “pimenta nos olhos dos outros é refresco” e adora exibir diversos acidentes do dia-dia em comédias para que todo mundo dê risada das trapalhadas alheias.

Veja se você se lembra dessas aí embaixo. Com certeza já vivenciou na pele muitas delas!

Cameron Diaz tropeçando no sofá em “As Panteras”
A pantera Natalie Cook é a personificação de todo o conceito de desastrada. É muito divertido ver aquela moça alta, loira e sexy se esborrachando no chão quando tenta pular um sofá, por exemplo. Prova de que os rapazes não devem reparar tanto assim em hematomas, não?

Audrey Hepburn fazendo comida em “Bonequinha de Luxo”
Bem que Holly Golightly tentou fazer uma comida chique – apesar de já ter errado no prato, algo como frango com chocolate, esquecendo-se do 11º mandamento “Não misturarás comida doce com salgada”. Resultado: a panela explodiu e ela teve de se contentar com fast-food nova-iorquino.

Robin Williams pilotando o fogão em “Uma Babá Quase Perfeita”
Tirando os grande chefes de cozinha e outros poucos exemplares do sexo masculino, a maioria dos homens prefere ficar longe do fogão, e o fazem muito bem. Quando tentam mexer com panelas, os rapazes podem sofrer acidentes como esse aí – botar fogo nos próprios peitos falsos!

Ben Stiller fechando a calça em “Quem vai ficar com Mary?”
Que zíperes são traiçoeiros exemplos de objetos com vida própria, isso ninguém discute. Quem provou a tese dolorosamente na frente de toda a platéia foi o pobre Ted Stroehmann que, ao fechar a calça, prendeu uma parte da anatomia decisiva para, digamos, perpetuar a espécie.

Pippin e Merry soltando fogos em “O Senhor dos Anéis”
Pareciam aqueles primos atrapalhados que sempre se dão mal com folguedos de Ano Novo. Os dois hobbits resolveram soltar um grande e potente fogo de artifício para animar a festa. Pena que não fizeram isso ao ar livre, como manda o manual, e sim dentro de uma tenda.

Doutor Brown fazendo a maquete em “De Volta Para o Futuro”
Mexer com instalações elétricas é outra ação que nunca dá certo na primeira tentativa. Já reparou? Pois assista à cena em que Doutor Brown faz uma maquete explicativa do plano que teve para mandar Marty ao futuro: ao ligar dois cabos, o carrinho pega fogo e vai parar do outro lado da garagem.

Macaulay Culkin passando loção em “Esqueceram de Mim”
Alguma leitora já tentou passar desodorante com álcool logo após depilar as axilas? Todas nós já passamos por isso alguma vez – ao menos, claro, que você seja aquela cantora alemã, a Nena. Na cena mais famosa dessa comédia, Kevin imita um acidente doméstico comum ao papai dele.

O peru murchando em “Férias Frustradas de Natal”
Se acidentes domésticos acontecem diariamente, imagine o estrago num dia de Natal, com todos aqueles afazeres e toda aquela família reunida. Quem mostra muito do que pode ocorrer de ruim nessas ocasiões são, claro, os Griswolds. A melhor parte é o peru oco, murcho e tostado que sai do forno.

Qualquer seqüência de “Um Dia a Casa Cai”
A casa de Tom Hanks nesse clássico da Sessão da Tarde era uma arapuca doméstica ambulante – ou melhor, parada. Tudo o que podia acontecer para o pobre casal, aconteceu. Minha cena favorita é a escada desmoronando aos pés de Tom, ou a banheira despencando quando colocam água nela.

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Isso aí é auto-ajuda para estabanados!
Vivi Griswold às 09:32 AM

terça-feira, 20 de janeiro de 2004

Para fiar e saber o futuro

Afora o período da infância, em que todo mundo tem mais ou menos os mesmos desejos – um pacote de pinos mágicos, um punhado de playmobils, um jogo Detetive – sempre fui chegada em ganhar presentes, por assim dizer, pouco ortodoxos.

No Natal de 1992, por exemplo, ficou clássico o episódio em que pedi, ao invés da classe geral de presentes esperados pelos meus primos já adolescentes – perfumes Thaty, roupinhas da Pakalolo e afins – um livro, o “Boca do Inferno”, da Ana Miranda. E não foi nada mal: enquanto os vidrinhos de Thaty se esvaíram (graças a Deus) e as roupas da Pakalolo, se muito, viraram pijamas, a brochura com a história de Gregório de Matos permanece na minha estante.

Mas ainda há, apesar de meus insistentes apelos, alguns objetos de desejo que ninguém quis me dar. Uma pena, pois tenho certeza de que eles seriam de muito bom uso. Ou não. Mas quem se importa?

Eu daria tudo para, por exemplo, ganhar uma bela e antiqüíssima... roca de fiar. Acho aquilo algo de sensacional e mágico. Como, por Deus, as pessoas fazem fiapos de lã virarem fios? Sou apaixonada por rocas desde que assisti a “O Tempo e o Vento” empoleirada na cama da minha mãe, lá pelos idos dos 80. Ana Terra tinha uma roca. Por que eu não posso ter?

Outra coisa bem bacana seria uma tábua ouija. Já procurei por toda parte e não encontro o infame tabuleiro, que se presta a trazer mensagens dos mortos. É um upgrade da boa e velha brincadeira do copo: ao invés de ficar recortando papeizinhos com letras e as palavras “sim” e “não” a toda rodada, basta todo mundo segurar o cursor de madeira sobre a tábua, que já vem com as letrinhas e tudo. Tá certo que a Regan, d’”O Exorcista”, não se deu nada bem com a brincadeira, mas eu teria mais cuidado.

Por fim, outro de meus pedidos impossíveis – e acho que o mais fácil deles – é uma bola 8. Manja aquelas esferas pretas que você faz uma pergunta e sacode, e ela responde com uma seqüência randômica de frases padrão? É um brinquedo bem popular nos Estados Unidos. Em “Toy Story”, os personagens fazem uso dela várias vezes. Por aqui, eu teria de me conformar com o Guru do Gugu, o que está fora de cogitação!

Das duas uma: ou alguém cria coragem e me dá qualquer um desses deliciosos objetos ou eu paro de assistir televisão. É tudo culpa da caixinha de imagens!

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Se não fosse a tv, eu nunca saberia
da existência disso!
Clara McFly às 06:15 PM


Touch!!!

Esqueça tudo o que você imaginou ser característica de chefe babaca. Acredite: o seu, por mais bisonho que pareça, não deve chegar aos pés desse moço que eu vou apresentar. O nome dele jamais será dito aqui, para preservar a peça rara. Na verdade, é para evitar processo mesmo...

Essa figura enervante azucrinou a minha mente durante 8 meses. A da Vivi, por quase um ano. A da Clara, por cerca de 180 dias. Sim, é isso: foi esse o rapaz que, em 2001, mandou as três garotas aqui para o olho da rua. Fomos demitidas do site de Entretenimento/Prêmios/Uau!, como vocês sabem, no mesmo dia. Na hora do almoço. Antes do feriado de carnaval.

Para efeito de texto, vamos dizer que o sujeito se chamasse Paulo. Vinte e poucos anos, bonitinho, sorridente, roupa sempre impecável, maneiras de garoto bem nascido. Olhando de longe, dava a impressão de ser o genro que mamãe pediu a deus. Isso se a mamãe batesse a cabeça num poste e achasse que um almofadinha sem espírito ou humor pudesse ser bom partido pra mim.

No geral, não havia muito o que reclamar sobre o Paulo. Mas os problemas eram variados. Se ele tentava ser engraçado, soava idiota. Se pretendia ser durão, parecia uma tia velha. Queria ser gentil, merecia levar um soco. Não era de propósito, eu acho, mas o rapaz não tinha mesmo uma cabeça boa e interessante grudada naquele pescoço.

Por exemplo: que espécie de mala chama as pessoas por apelidos coligados? Um dos garotos da redação chamava-se Franco. Ele TINHA que cumprimentar o menino, diariamente, dizendo sempre “bom dia, Franco Suíço!”. Ouvir uma vez, nos botou a gargalhar. Na centésima, quase jogamos a cadeira roxa nele.

Adepto do sistema “Incentivo Meus Funcionários como um Monitor de Acampamento”, o Paulo tinha mania de hiper-valorizar. Sim, elogio é bom, mas vejam isso. Um dia, quando precisamos trocar os postos de trabalho de lugar, a Vivi sugeriu mudar os três ocupantes do mesão A para aquelas três estações vazias no mesão B. Simples como encaixar o rabo no burro sem usar a venda, né? Mas o chefe quase teve um espasmo: “Vi, mas que PUTA idéia!!!!!!” A pequena ruiva nem conseguiu agradecer, tamanho o susto...

Fora isso, o Paulo ainda fazia coisas estranhas. A gente sempre se perguntou se o moço tinha estudado com professor particular, dentro do quarto... Sabe quando a pessoa não tem jeito de quem freqüentou a escola com mais crianças? Pois é. Ele achava, por exemplo, que o nome da dupla sertaneja era ChiRtãozinho e Xororó. ChiRtãozinho, com R?? Em que buraco essa criatura viveu, ninguém sabe. Mas sabemos por que ele ganhou entre nós o apelido de “baby carrot”, como aquelas cenourinhas bestas criadas em laboratório.

Não bastasse ser zureta assim, o tal ainda ameaçava nossa integridade física. Um “olá” significava dois tapões nas costas – mesmo a gente sendo menina. Pior, só quando o Paulo ficava mesmo muito feliz. Porque, nesse caso, ele estendia a mão pro alto e nós éramos obrigadas a bater ali, como fazem os jogadores de basquete. Para acompanhar, o cabeçudo soltava um grito de “Touch!”, para vibrar com a palma batida. Dose...

A verdade, porém, é que o pobre Paulo também sofreu conosco. Para combater a chatice dele, a gente ouvia “Total Eclipse of the Heart” em alto volume toda tarde, ria compulsivamente e tirava sarro sem discrição dos demais diretorezinhos da empresa. Muito bem... vai ver o rapaz mais pateta do mundo teve razão em se livrar de nós. Mas que se eu o visse hoje ia querer dar um “touch” naquela cabeça tonta, eu ia.

Fla Wonka às 01:44 PM


Palavras do Mal, palavras do Bem

Eu adoro aqueles desenhos que mostram um anjinho e um diabinho em cada ombro do personagem. O anjo, normalmente, transborda em palavras doces e sábias, indicando o caminho do Bem. O diabo, por sua vez, mostra-se dissimulado e tenta encaminhar sua vítima para um mundaréu de problemas. Caso eu tivesse duas mini-Vivis, uma boazinha e uma malvada, me acompanhando, o que será que elas iriam sussurrar no meu ouvido?

Se a escolha coubesse a minha pessoa, gostaria de contar com os aconselhamentos de uma anja um tantinho maliciosa. E de uma diaba irônica e engraçada. Nem pro algodão-doce, nem pras labaredas de enxofre. Juntas, iríamos nos divertir horrores. Já pensou, assistir televisão e poder tecer todos os comentários maldosos com uma diabinha? Ou ter uma anjinha que nos apóie quando queremos falar um palavrão bem cabeludo?

Mas como algumas coisas não são como a gente sonha, imagino se minhas duas consciências conflitantes resolvessem soltar frases comuns, que ouço normalmente – para a minha tristeza ou felicidade. A parte má falaria tudo o que eu mais odeio ouvir; a parte boa, tudo o que me alegra em escutar. Quer ver?

Palavras do Mal

Ai, credo, eu odeio gato!
Ninguém é obrigado a saber que eu amo todo e qualquer bichano, ou que eu tenho alguns na casa da minha mãe dos quais morro de saudade. Ou que eu choro de tristeza ao saber que o Theo e a Sofia ficam deprimidos pelos cantos porque eu não moro mais lá. Também respeito toda opinião diferente da minha. Mas isso não me impede de roer de raiva quando ouço essa máxima. Pra começo, como alguém pode odiar um animalzinho? Se ainda fosse barata, percevejo ou mosquito da dengue...

Mas você tem o rosto tão delicadinho!
Devido aos meus quase 2 graus de miopia, sim, eu uso óculos. E não acho isso o fim do mundo, nem fico querendo comprar aquelas armações invisíveis a olho nu que muita gente gosta, para tentar disfarçar o indisfarçável. Como sou da política “quando não se pode vencê-lo, junte-se a ele”, passei a encarar meus óculos como um acessório fashion. E eu odeio ouvir essa frase dos vendedores, que adoram me empurrar um “delicadinho” quando eu quero mesmo algo vermelhão cravejado de strass!

Olha, é o símbolo do “Charmed””
Sou fascinada por História e, depois dos egípcios, os celtas são meu povo antigo favorito. Eles habitaram uma boa parte da Europa, principalmente o Reino Unido, há muitas centenas de anos antes da Era Cristã. Amavam a natureza (também, com aquelas montanhas verdinhas...) e tinham uma religião misteriosa. Um de seus símbolos mais importantes foi usurpado pela série “Charmed”. Eu tenho um anel com o tal símbolo, e fico louca da vida quando alguém acha que sou fã daquele projeto de seriado ruim.

Escuta, é a música do “Charmed”!
Como se não bastasse macular a tríade celta, o programa de tevê que mostra o dia-a-dia de três bruxas modernas – repleto dos mais toscos efeitos especiais e das tramas mais sem pé nem cabeça – ainda tem a cara-de-pau de exibir como tema uma versão safada de “How Soon Is Now?”, uma das canções mais belas e profundas da minha banda favorita, The Smiths. É só o tempo dos primeiros acordes começarem a tocar que alguém já saca do comentário “é a música do ‘Charmed´!”. Grrrr.

Não vai exagerar, senão você engorda, hein?
Já contei em outro texto como o fato de ser magrinha compele os outros a fazerem piadinhas sem-graça. Parece que há um certo grupo que pensa que os seres magros de ruindade (meu caso) devem pagar por todos os pecados da Terra exatamente por não terem problemas com a balança. Daí, parece ser liberado qualquer tipo de comentário do tipo “nossa, como você é magra”, quando dizer o contrário – chamar uma pessoa de gorda – seria politicamente incorreto e de muito mau gosto.

Palavras do Bem

É presente?
Se existe uma coisa que eu gosto é ganhar presente. Claro, não sou boba. Mas não precisa ser um presentão de aniversário – qualquer prenda embrulhada em papel colorido tá valendo. Por isso, não me controlo quando escuto de uma vendedora a pergunta “É presente?” no momento em que estou adquirindo um produto. Mesmo que a compra seja para mim, costumo dizer um inocente “É...” só para ela embrulhar e eu ter o gostinho de rasgar tudo assim que chegar em casa.

Tem um pacote para você aqui embaixo
Quando eu era pequena, costumava ficar emburrada no cantinho cada vez que o carteiro passava em casa, porque ele nunca deixava correspondência alguma para mim, só para os meus pais. Agora que já cresci e esse negócio de mandar carta ficou velho, só recebo conta para pagar. Vez ou outra, porém, toca o interfone e a voz diz essa frase aí. E eu posso estar realmente esperando um pacote chegar, o que não faz desaparecer o brilhinho bobo nos meus olhos.

Vamos tomar sorvete?
Pode ser o sorvete Caramba do recipiente de plástico que guardo no congelador. Pode ser um picolé de limão devorado em segundos na calçada da padaria. Pode ser uma taça caprichada de sundae em alguma sorveteria chique. Pode ser uma casquinha de chocolate do McDonald´s. Quando alguém me convida para ingerir a massa congelada, cremosa e doce, me comporto como um cachorrinho que escuta do dono a frase “Vamos passear?”. Quando menos se espera, lá estou eu na porta esperando.

Seu apartamento parece de revista!
Há tempos que eu vivia sonhando em montar meu próprio apartamento. Tenho em mim um misto de decoradora com pedreira e designer que me faz ser atraída loucamente por latas de tinta, pincel, furadeiras e outros itens de bricolagem. Agora que tenho meu apartamento, e que o divido com uma outra pessoinha fã de estabelecimentos como C&C Casa e Construção e Leroy Merlin, haja novidades. Nossa casa está bem bonitinha, e me encho de orgulho quando as visitas reparam nos mínimos detalhes!

Imagine! Eu conheço o site há um tempão!
Poucas coisas no mundo conseguem me fazer mais feliz do que o Garotas. Às vezes sou até chata de tanto que eu me importo com ele, e de tanto que eu quero que nosso projeto dê certo, deslanche, seja lido, muito lido. Ultimamente temos mandado o link para pessoas que admiramos de uma forma ou de outra. E qual não está sendo nossa surpresa de ler a frase acima escrita por gente como Fernanda Takai, ou Marcelo Tas, ou Léo Jaime. É como músicas para nossos ouvidinhos!

Se a minha anja me disser uma dessas todos os dias, mando a diaba catar coquinhos.

Vivi Griswold às 08:51 AM

segunda-feira, 19 de janeiro de 2004

Essas mulheres...

Elas preenchem (ou preencheram) os meus dias – ou ao menos o horário nobre deles. Algumas são cheias de habilidades, como examinar cadáveres em decomposição sem vomitar ou tentar evitar que as pessoas se tornem um. Outras enfrentam monstros aumentados por uma criatura olhuda e ainda há aquelas que apenas pagam mico como ninguém.

Ao fim e ao cabo, todas essas mocinhas foram inspiração para meu imaginário fértil e meio boboca. Onde as conheci? Na máquina-de-fazer-doudos, claro. São as minhas heroínas favoritas de seriados e eu daria um braço para ser qualquer uma delas. Tá, em alguns casos, negociaria só o mindinho...

Change Mermaid, “Changeman”
Girl power total, a Change Mermaid usava um colant cor-de-rosa e tinha como símbolo uma sereia. Destemida, enfrentava toda sorte de ameaças bizarras, incluindo aí os assustadores soldados hidler (ou algo que o valha), que brotavam do chão usando colants azuis (?!).

Elizabeth Corday, de “ER”
Ela é cirurgiã, tem belos cabelos encaracolados e sotaque inglês. Como se não bastasse, ainda se casou com Mark Greene, o médico mais legal que os corredores do hospital de Chicago já viram (que Deus o tenha). Precisa mais?

Catherine Willows, de “C.S.I”
A companheira de Grissom tem sangue frio suficiente para examinar de pertinho o pessoal que esticou as canelas das maneiras mais bizarras possíveis – tudo em nome da justiça. E ainda por cima trabalha com Gil Grissom, o rei das frases de efeito, o Mestre dos Magos da polícia forense!

Tess, de “O Toque de um Anjo”
Ahn, não me faça essa cara de espanto! Eu já confessei que adoro essa série babaca aqui. E eu queria ser a Tess por três razões simples: ela faz aquele tipão matrona negra; ela canta muito e deve ser legal ter uma luz acendendo sobre a sua cabeça toda vez que você diz que é um anjo.

Samantha, de “A Feiticeira”
Sam tem um marido engraçadamente patético e ingênuo; dois filhinhos fofos e uma mãe que usa sombra verde. Além disso, é linda e bem-humorada. Mas o melhor mesmo é o poder da feitiçaria. Quem não queria fazer a casa se arrumar com uma mexidinha do nariz?

Murphy Brown, de “Murphy Brown”
Ácida até dizer chega, ela trabalhava numa emissora de TV como repórter. Além do senso de humor matador, Murphy era uma mulher independente, bonitona e bem-sucedida. No fim das contas, por Deus, ela era a Candice Bergen! Pena que a série ficou pouco tempo no ar, pelo Sony, e não voltou mais.

Grace Adler, de “Will & Grace”
Há várias vantagens em ser Grace Adler. Ela tem um amigo gay que é para lá de bacana; uma secretária roitmann capaz de alegrar o dia de qualquer pessoa, roupas e cabelos de cair o queixo e um marido que, em última análise, é o Harry Connick Jr. Mas o máximo em ser essa mulher é que ela paga muito, mas muuuuito mico. É a síntese do meu objetivo de vida!

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Olha o pezão sujo em cima da cama, menina!
Clara McFly às 05:11 PM


Respeitável público, o meu irmão!

Vocês podem pensar aí que não tem graça escrever sobre o próprio irmão. (Quase) todo mundo tem irmão, oras. Mas acontece que o meu é diferente. Ele deve ter sido trazido por alguma cegonha marciana ou gerado em laboratório – e depois entregue aos meus pais, que disfarçariam bem a chegada daquele ser estranho na Terra. Ou caiu do caminhão do circo, que é o mais provável.

O principezinho do nosso lar é mais velho do que eu cinco anos. E três mais novo que minha irmã, a primogênita. Ou seja: não bastava o Ricardo ser o único menino, ainda é o “do meio”. Os “do meio” já são estrelinhas por natureza, mas o meu irmão vai além do infinito.

Quando éramos pequenos, a coisa que mais me deixava invocada era quando a irmãzona dizia para mim, na frente dos outros: “tudo o que ele faz você aplaude. Por isso ele é aparecido, você é platéia de toda besteira que ele inventa”. Mas o que eu podia fazer?? O cara era (é) um showman, e eu era (sou) apenas uma garota em busca de diversão e gargalhadas!

Não era minha culpa se o sujeito foi engenheiro criativo desde sempre. Eu brincava com os Playmobils no jardim ou na bacia d’água, ele montava teleféricos com barbante para o pequeno povo de plástico. Eu recortava casinhas de papel para armar, ele usava as casinhas como cenário do trem elétrico (que subia pelo sofá, descia pela prateleira ou carregava bolachas na carroceria). Tudo o que o pirado inventava era legal, engraçado e digno de uma salva de palmas.

Até as imbecilidades do irmão eram hilárias. Não lembro a ordem correta dos acontecimentos, mas vejam isso:

- ele já queimou o rosto fazendo balão-galinha com jornal;
- ele já engoliu um fundo de lapiseira, daquela com agulha pra empurrar o grafite;
- ele já bateu o carro A CAMINHO da prova de direção;
- ele já passou todo um feriado no sítio sem usar sapato e sem lavar os pés.

Duro mesmo é ter que admitir que 100% das coisas bestas-sensacionais que meu irmão fazia me davam uma inveja danada e uma vontade alucinante de fazer igual. Por isso aprendi a abrir a boca e mostrar a comida semi-mastigada lá dentro. E a pregar, diretamente na parede do quarto, centenas de recordes de revista de rock.

Hoje ele já é mais discreto quanto à sua vocação para fazer espetáculo. A banda que o garoto mantinha, o fabuloso e meteórico “Alarme Falso”, ensaiou revival mas não vingou. O tal ainda toca baixo e guitarra como ninguém (não lembro dele ter ido em muitas aulas, pois o desgraçado aprende de ouvido). Ainda faz nojeira com a comida. Ainda é um ás do volante e ainda sabe coisas sobre todo e qualquer assunto, como se tivesse uma enciclopédia na cachola.

Em compensação, agora que ele tem uma fada loirinha para tomar conta dele, o quarto do Ricardo já não parece um bairro bombardeado de Beirute, como na adolescência. Ele também não é mais um magrelo estudante de Rádio e TV, mas um rechonchudo que sabe absolutamente TUDO sobre construção de tramas e marquetingue aplicado à indústria têxtil.

Tá com um jeito mais normal, é verdade... Mas à mim, sua platéia de sempre, ele não engana. O showman acaba de completar 34 anos em pleno auge do estrelato.

Fla Wonka às 01:39 PM


Da vitrolinha para o CD player

Eu não entendo essa nossa indústria fonográfica. Eu não entendo o funcionamento do marketing musical. Eu não entendo as regras do jabá. Eu não entendo por que a MTV Brasil exibe sempre os mesmos videoclipes. Eu não entendo como o lançamento do álbum “Superfantástico – Quando eu era pequeno...”, em 2002, passou despercebido. E eu não entendo como eu pude demorar quase dois anos para ouvir falar dele.

Se você vir um CD cuja capa é um menino com uma careta emburrada e usando luvas amarelas de borracha, capa vermelha, camiseta estampada por um “S” escrito à mão, cueca rabiscada e galochas, agarre-se a ele. Ao disco, não ao menino. O despretensioso álbum é uma louvável tentativa de resgatar as músicas infantis dos anos 70 e 80 para trazê-las ao novo século e às crianças que hoje estão na casa dos 25 -35 anos. Como nós.

Quem deu o pontapé inicial ao projeto foi Bruno Gouveia, vocalista do Biquíni Cavadão. Ele resolveu chamar várias bandas e artistas para darem outros arranjos àquelas canções que ouvíamos na tevê ou na vitrolinha e marcaram nossa infância. O resultado não é a obra mais coesa e perfeita do mundo, mas um pequenino CD que emociona em várias ocasiões.

A primeira faixa é “Carimbador Maluco”, aquela pérola do especial “Plunct Plact Zum” que a Rede Globo exibiu em 1983. Originalmente interpretada com maestria por Raul Seixas, a canção é uma aula de bom humor e de como letras infantis podem ser criativas e divertidas. Foi o próprio Biquíni Cavadão quem ficou a cargo da reciclagem.

Há ainda “Superfantástico”, o hino do Balão Mágico e de 10 entre 10 brasileiros que passaram pela infância há uns 20 anos atrás, assinado pela banda Penélope e por Arnaldo Antunes. Kelly Key (não, você não leu errado) canta “Doce Mel”, abertura do “Xou da Xuxa”, e realmente consegue nos transportar para uma manhã de algum dia de 1986. Capital Inicial faz “A Casa”, do sublime “Arca de Noé”, virar um punk rock açucarado. As meninas do SNZ repetem o legado de mamãe Baby e apresentam “Lindo Balão Azul”, do especial “Pirlimpimpim”. Tem até Jairzinho, agora como Jair Oliveira, fazendo uma versão de “Xixi nas Estrelas”.

Há algumas faixas que soam estranhas aos meus ouvidos. Como não era nascida quando “Vila Sésamo” estreou, fico meio perdida ao ouvir “Alegria da Vida”, cantada por Zélia Duncan. O mesmo ocorre com “Cinto de Inutilidades” (Frejat), “Vigilante Rodoviário” (Branco Mello), “Sideral” (Leoni), “Funga Funga” (Uns e Outros) e “Hey Shazam” (Vinny).

Mas as maiores pérolas do CD são duas outras regravações que fizeram escorrer aquela lagriminha de canto de olho – e justificam o investimento de duas dezenas de reais. A primeira é uma releitura fofa e cheia de barulhinhos de “O Relógio”, também da “Arca de Noé”. Dá vontade de sair dançando pela sala acompanhando o vocal de Fernanda Takai, do Pato Fu, com a letra que conhecemos tão bem de cabeça.

A segunda é o que o disco tem de melhor: Los Hermanos com o maior clássico de “Os Saltimbancos Trapalhões”, “Hollywood”. Apesar de nada bater a interpretação original de Lucinha Lins (que contava com um coro de risadas de Didi, Dedé, Zacarias e o inesquecível Mussa), o quarteto carioca faz qualquer coração oitentista palpitar de emoção.

O grande mérito de “Superfantástico – Quando eu era pequeno” é mostrar como era bom demais cantar aquelas canções – e como fomos sortudos por termos estado lá quando tudo era novidade.

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Parece a careta de caipirinha da Flá, né?
Vivi Griswold às 08:54 AM

sexta-feira, 16 de janeiro de 2004

Recordar é viver

Não esperávamos colher tantos frutos de uma idéia tão despretensiosa. Mas, para nosso espanto e deleite, descobrimos que há muita gente que também gosta de lembrar do pogobol, de comentar acontecimentos surreais e de rir, muito e à toa, da vida. Sim, nós somos fãs do passado – mas nem por isso deixamos de viver e celebrar o presente, o que é até fácil fazendo parte de um projeto tão bacana para nós como o Garotas!

Por isso, como explicou Vivi logo nos primeiros bytes do dia, decidimos resgatar um pouco do que já fizemos de mais divertido. Como santo de casa não faz milagre, cada uma escolheu e comentou o que viu de melhor nos textos de outra. A pequena sereia falou de mim; Flá atacou o top ten de Vivi e, para fechar, apresento a última mocinha do trio.

Ela adora usar preto, ostenta uma pequena tatuagem, já levou 21 pontos pelo corpinho depois de se cortar em acidentes infantis variados, gosta de garotos de óculos e, para quem não notou a informação contida discretamente no Quem Somos, foi a responsável pelo nome desse site. Com vocês, o…

Top 10 de Flá Wonka

10) Estoque do bom
A porção morena desse site relembra alguns dos víveres alimentícios mais interessantes do passado, como Brown Cow, Dip'n'Lik e a pré-provada bolachinha dos Monstrinhos Creck. Além do mais, o texto dá conta de que a maluquice em família pega. Que outra pessoa já recebeu um telefonema da irmã, mandando você estocar álcool?

9) Entre a cruz e a caldeirinha
Conheça as definições de céu e inferno e decida-se para onde você quer ir. A dona Wonka já escolheu o dela – e é um lugar que oferece feijoada, leitura hardcore, jipes a diesel, tequila à vontade e um estranho gênero musical definido como tecno-salsa…

8) Venha djavanear você também
Acho que sou a única apreciadora da chamada MPB nesse site, mas algumas coisas são mesmo indefensáveis. A receita para fazer uma letra e passar-se pelo Djavan está aqui – e, embora eu goste de um punhado de canções do moço, não pude deixar de rir com mais essa teoria defendida pela garota. Nosso senso de humor é suprapartidário. Ainda bem.

7) Juízo? Eu passo longe
Essa deve ser uma das passagens mais dolorosas da vida adulta: extrair o dente do siso. Se você achava impossível rir de uma sessão de tortura dessas, espere até clicar nesse texto. As peripécias de Flá na cadeira do dentista e um pequeno retrospecto dos acidentes causados por sua (falta de) coordenação provam o contrário.

6) Garota de fases
Descubra que a moçoila que assina com o sobrenome Wonka já foi uma metamorfose ambulante. Se os pais de Flá não encaminhassem a menina, ela poderia se chamar Gigi, Brisa ou Poliana Jones e usar figurinos como touca de banho ou saias de tule.

5) Saco cheio de vil metal
Aí está o texto que me faz ter orgulho de ser amiga (e sócia) dessa garota! Dinheiro é um pedaço de papel – e a garota de preto sabe muito bem disso. Aqui, lista as coisas que os tostões não podem comprar, junto àquelas pelas quais ela não pagaria meia pataca.

4) A ordem dos tratores não altera o viaduto
Esqueça a casa geminada, a troca de fusível ou as libras esterlinas. Nada melhor que subverter a língua e exprimentar uma troca de fuzil numa casa germinada! Flá sabe disso melhor que ninguém e escreveu essa pérola sobre as escorregadelas da fala. Três vivas para a linguagem popular!

3) Erramos... e todo mundo leu
Tatu nasce de ovo, os chineses atacaram Pearl Harbor e Jesus não morreu na cruz. Tudo isso já saiu nos jornais! Só a prevenida Flá para guardar o melhor daquelas seções do tipo "Erramos" numa coleção impagável – e dividi-la com os leitores desse site.

2) No tempo do mimeógrafo
Nossa pequena delinqüente explica porque os tempos de escola eram uma delícia, incluindo aí as passagens pela diretoria, as técnicas para matar aula e o glorioso e insuperável dia de excursão ao Playcenter. De quebra, nos faz lembrar do delicioso cheiro das provas mimeografadas, recém-saídas da geringonça que intitula o texto.

1) Frodo, vai buscar carbono pautado?
É, Flá é meio maluca e tem teorias delirantes… Mas sou obrigada a concordar com essa: Frodo, da trilogia "O Senhor dos Anéis", é uma espécie de estagiário da Terra Média. Aqui você descobre argumentos convincentes do porquê, no meu texto favorito já escrito por Flá Wonka. Se eu disser mais, estraga…


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Ahá, uhú! O Top 10 é nosso!

Sim, crianças! O Top10 iBest Blog liberou seus resultados ontem e nós, humildes e rosadas garotas, estamos no meio – junto a muita gente bacana. Mas agora vamos rumo ao Top 3 – e para isso precisamos de sua preciosa ajuda, de novo. Então, não nos desaponte e vote clicando aqui!


Clara McFly às 05:39 PM


A volta dos que não foram

Se tem uma coisa pela qual eu daria dois dedos da mão, é um Túnel do Tempo. Pensando bem, um par de dedos sairia até barato por esse artigo fantástico. Imagine, ir e vir do passado conhecendo detalhes perdidos de nós todos! Bom, mas eu acho que meus dedinhos gordos vão ficar presos nas minhas mãos mesmo, porque Túnel do Tempo não existe. A não ser no Garotas! Voltar ao passado, aqui, é especialidade da casa!

Como a Vivi contou no texto 600 – anterior a esse e que comemora seis centenas de historinhas publicadas por nós –, achamos por bem relembrar hoje artigos batutas que muita gente perdeu de vista. Escolhemos as pérolas de cada uma e convidamos todas a dar uma espiada. Vem, vai? Vocês não podem perder essa viagem ao recente passado do nosso site.

Como Vivi apontou cedinho os melhores textos da Clara, e a Clara fará o mesmo, mais tarde, com os meus, os amados leitores já devem ter juntado A com B. É isso aí: seguem abaixo os melhores momentos da ruiva mais querida desse trio!

Top 10 de Vivi Griswold

10) “Os seriados que fazem ‘ping!’”
Se o amigo aí da poltrona é parado em parada (cardíaca), esse é um texto para se deleitar. Vivi escreveu sobre os seriados da tv que fazem sucesso na base dos bisturis, injeções de atropina e muito desfibrilador. De quebra, ela ainda conta por que Peter Benton, cirurgião de E.R., é o maior mala dos hospitais televisivos.

9) “Quem escreve já cresceu”
Só foi criança plenamente feliz quem apanhou uma obra da Coleção Vaga-Lume nas mãozinhas rechonchudas! Do fabuloso “O Caso da Borboleta Atíria” até o assustador “O Escaravelho do Diabo”, os volumes da série rendiam – e ainda rendem! – tardes divertidas. Eu que o diga. Depois desse texto da Vivi, comprei dois...

8) “Tec Tec Tec”
Esse título em forma de barulhinho lembra alguma coisa? Dicas, você pede? Ok: uns são mulheres, outros são homens. Alguns usam chapéu, outros levam jeitão de traficante... Sim! Nossa garotinha ruiva dedicou um texto inteiro ao Cara a Cara, uma das invenções mais perfeitas em forma de brinquedo! É ler para crer.

7) “Quem disse que mãe sabe o que faz?”
A mãe da Vivi é das pessoas mais doces e simpáticas já colocadas na Terra, ninguém discorda. Ainda assim, ela também já meteu os pés pelas mãos. Principalmente ao levar sua filhota, ainda em tenra idade, para ver “E.T. – O Extraterrestre”. Os efeitos desse passeio do barulho (de choro), só a própria Vivi conhece.

6) “Lições de sobrevivência”
Esse é um daqueles que consideramos pérolas máximas do Garotas. Se um dia seu carro parar numa estrada deserta e só um casarão estranho e abandonado surgir no horizonte, cuidado! Melhor ter à mão uma cópia impressa desse “Grande Manual Viviana Agostinho para Escapar de Zumbis e Afins”!

5) “Tapados do mundo, uni-vos!”
Outro texto que rendeu dezenas de e-mails de solidariedade (e alguns de tiração de sarro) para a garota de cabelos encarnados. Aqui, Vivi conta como é difícil manter-se respeitável sendo uma mocinha tão atrapalhada e distraída. Fiquem atentos: o conto do embarque no trem vazio fez muito leitor perder a fala. E o fôlego.

4) “Ligue djá!”
Até hoje ninguém da Polishop ligou para nos ameaçar de processo, mesmo com esse texto debochado da Vivi sobre os produtos mais estúpidos da “empresa”. Vai ver eles sabem que não adianta nos intimidar. Afinal, comparar aquele spray para eliminar pêlos com artigo desenvolvido em usina nuclear não foge à verdade.

3) “O misterioso Xou da Xuxa”
Muita atenção será necessária para apreciar esse texto. Adepta das mais diversas teorias da conspiração, a Sra. Griswold decidiu escancarar as dúvidas que todos nós temos sobre o programa infantil mais popular dos anos 80. Tem gente por aí pensando até agora sobre o que raios era o Praga...

2) “A vitrola gira e a saudade bate”
Eis um ponto de concordância total entre as três cabeças que formam esse rosado site: perfeitas eram as musiquinhas infantis da década de 80! Lançadas em vinis como “Arca de Noé” e “Plunct Plact Zum”, até hoje basta uma de nós entoar um trecho para as outras seguirem a cantoria. Bela lembrança, querida Vi!

1) “Diversão Ilimitada”
Ganharia o coração da nossa Vivi aquele que dissesse possuir todos os episódios da inesquecível “Armação Ilimitada” em VHS! Paixão antiga da ruivinha, o seriado ganhou um texto exclusivo por juntar rapazes bacanas, uma jornalista maluquete, um órfão de circo e, é claro, o Chefe. Se existisse Túnel do Tempo, nós iríamos à 1985 buscar esse programa!

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Nossas mães estão orgulhosas...

A minha, pelo menos, já avisou a família toda que o Garotas alçou a lista do dez sites mais bem colocados no iBest na categoria Melhor Blog! “Graças aos leitores de vocês”, ela lembra. Mamãe é coruja, mas é justa... E é verdade que vocês fizeram sua parte, mas a conquista do topo do mundo ainda não foi concluída! Agora é partir rumo ao Top 3 – e você pode ajudar clicando aqui. Mamãe agradece a gentileza com lágrimas nos olhos...

Fla Wonka às 01:17 PM


Clássicos de nós mesmas

Imagine o trabalhão que dá fazer uma novela. Imagine escrever cada frase, ensaiar cada cena, costurar cada figurino, construir cada cenário. Depois que o folhetim acaba, lá se vão todos os rolos para o porão da emissora, enquanto a memória do público é lentamente ocupada pelo próximo título. Lutando contra o esquecimento de muitas obras, o que dona Globo fez? Inventou o tal "Vale a Pena Ver de Novo". Pois agora chegou nossa vez de resgatar – não novelas, mas textos antigos. E você decidirá se vale ou não a pena... ler de novo!

Quando eu terminar este artigo de hoje e apertar o botão "publicar" de nossa ferramenta de postagem, ele será o número 600. Isso quer dizer que, desde a estréia do Garotas em abril de 2003, foram 600 textos para o ar, sem falhar um dia, mesmo quando o site tinha apenas três pageviwes (os nossos). Seiscentas histórias! De muitas delas você não se lembra – ou nem sequer chegou a ler.

Aproveitando que o clima é de premiações aos melhores do ano passado, vamos celebrar nossos filhotes mais antigos e fazer um dia especial. Cada uma vai apresentar os 10 textos favoritos da outra. Eu vou revelar quais os meus textos preferidos escritos pela Clara. A Flá, daqui a pouco, mostrará quais os meus artigos de que ela mais gosta. Clara fecha o dia relembrando as pérolas da Flá. Fique à vontade para clicar em cada um deles e viajar no nosso curto – porém fértil – passado!

Top 10 de Clara McFly

Ela é dona de cabelos alourados e de um talento daqueles... Não, leitor! Estou falando de Clarinha, não da Sheila Mello! Também, duvideodó aquela oxigenada conseguir escrever uma linha sequer dessas pérolas abaixo...

10) "10 maneiras de irritar seu irmão"
Esse é o artigo do famoso "ataque suíno" que Clara aplicava no irmãozinho. Hoje aposto que a arma-secreta não deve surtir efeito algum – uma vez que, como a loira explicou ali, seu peso e sua altura podem ser compatíveis a tudo, menos a um ataque suíno. João Paulo, você deve ter sofrido, rapaz. Nossas mais sinceras condolências.

9) "RG, por favor"
Pedofilia é um assunto pesado e que, vira-e-mexe, aparece estampando os jornais em manchetes sensacionalistas. Aqui, Clara faz uma lista de cinco músicas muito conhecidas que tocam levemente no assunto, como quem não quer nada. E não tem Michael Jackson não! Mas tem Beatles, Bruce Springsteen e até a falecida Marilyn Monroe.

8) "Vá reclamar com a bispa!"
O texto mais curto já publicado no Garotas! Clarinha economizou nas palavras, mas não nas observações hilárias a respeito daquela senhora que atende pelo codinome de Bispa Sônia e que realmente se parece com um mostruário de bijuteria. Destaque para o pedido de teste do Carbono 14 no Apóstolo Estevam.

7) "Pode repetir - Parte 1"
Quando Clara me contou que ela entendia "E eu te depilei, só pro meu prazer" ao invés de "E eu te recriei, só pro meu prazer", da música do Heróis da Resistência, estávamos jantando em um restaurante. Precisa dizer que, na hora, me engasguei com a comida de tanto rir? No texto tem muitos outros erros engraçados, para nosso deleite.

6) "Os versos Chewbacca"
Primeiro, a loira apresenta uma teoria insana que ela assistiu no não-menos-insano "South Park". Depois, começa a relatar alguns versos de nossa emepebê que simplesmente não fazem o menor sentido. No final, ainda deixa escapar confissões pra lá de comprometedoras, como gostar do Claudinho e Buchecha e ainda fazer passinhos ao som da dupla!

5) "Mulheres de capa e vida difícil"
Só a loirice de Clara para confundir uma famosa casa da luz vermelha aqui de São Paulo com um clube para apreciadores de café. Nesse texto, ela mostra toda a sua curiosidade acerca dos famigerados "puteiros" e as mulheres que passam a noite ralando (ficou com duplo sentido, entenda como quiser!) de tanto trabalhar. Conheça também o Tchella´s.

4) "Para ele eu vou dizer sim"
Quem, senão Clara, conseguiria ter uma paixão platônica chamada Jarbas? Deus, isso é nome de mordomo! Enfim. Aqui, ela conta um pouco das diabruras que fez em sua vida sentimental ao longo dos anos até encontrar o adorável moço com quem divide uma casinha colorida lá no B do ABC paulista. Ele deve ter ficado cheio de si!

3) "Sêo Penhor"
Dá para contar nos dedos de poucas mãos a quantidade de brasileiros que sabem cantar nosso belo Hino Nacional. Também, pudera: a letra barroca, truncada que só ela, dá margem para muitas interpretações. Clara mostra como costumava cantar o Hino quando era criança, inclusive entendendo "sêo Penhor" ao invés de "se o penhor"...

2) "É tudo verdade"
Entre todas as facetas vexaminosas reveladas, está o fato de Clara adorar telefilmes – aquelas produções classe Z que passam em horários micados como Super Cine. Ela gosta mesmo dos fechamentos em GC do tipo "hoje Rosie cumpre prisão perpétua na cadeia feminina de Fresno, Califórnia", e cita alguns finais assim para filmes clássicos.

1) "Uma vizinha chamada Mirtes"
Segundo pesquisas históricas, essa foi a primeira vez que nossa comadre Mirtes apareceu em um texto do Garotas. Antes de virar sinônimo de subúrbio para o site, Mirtes é flagrada conversando com sua vizinha, a Janete. No papo impagável, rola o assunto doença, as fofocas de sempre e as gírias mais comuns, como "casa germinada".


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Ah, então é Melhor Blog, hein? Fechado!

Chegamos à nova fase do iBest cheias de coraçõezinhos para dar e vender! Obrigada aos leitores queridos que colocaram o Garotas no top 10 da categoria Melhor Blog! Agora o cerco aperta ainda mais e existem apenas três vagas para a próxima rodada. Avise a mamãe e o vovô que já é hora de votar novamente para tentarmos chegar juntos lá no pódio. De que outra maneira conseguiremos fazer um pratinho caprichado cheio de coxinhas e empadinhas na festança dos nerds?

Vivi Griswold às 09:30 AM

quinta-feira, 15 de janeiro de 2004

Feio, bobo e legal para caramba

Ele é um dos maiores fãs do Garotas, embora não se arrisque a ler nada além das instruções dos aparelhos eletrônicos comprados por minha mãe (é da jurisdição dele instalá-los) e os livros do Harry Potter. Ele fez com que nascesse em mim tamanha fúria infantil que pensei em jogá-lo na privada e dar descarga. Ele passa horas arrumando o topete na frente do espelho (não sei pra quê, com aquela cara feia...) e consome quantidades cavalares de gel – depois, põe a culpa do pote vazio em mim. Ele está a torrar minha paciência há pouco mais de 20 anos e intensificou a encheção de saco há uns meses, porque quer de toda forma “aparecer na internet”. Pois bem, João, chegou a sua vez!

Quando essa criatura nasceu, eu contava pouco mais de cinco primaverinhas infantis. Sabia ler, escrever, conversar com as visitas, contar historinhas, sapatear, cantar e entreter grandes quantias de público. Mas todo mundo que aparecia na minha casa ia para ver aquele pacotinho azedo, com cara de joelho e nenhuma habilidade artística. Até para arrotar o inútil tinha de ser posto no colo!

Claro que fiquei inconformada. Os adultos da família me engrupiram por nove meses, com a história de que eu ia ganhar um amiguinho: "olha só que bacana, você vai poder brincar com ele!". Eu devia processar todo mundo por propaganda enganosa. Quando finalmente o rebento veio à luz, não sabia fazer ab-so-lu-ta-men-te nada – como convém a qualquer bebê recém-nascido. O problema foi ninguém ter deixado isso claro para mim antes.

Foi quando, enlouquecida de ciúmes, planejei jogá-lo vaso sanitário abaixo e apertar a descarga. Mas desisti porque pensei um pouco melhor e logo vi que minha mãe ia dar falta – claro, agora ela só se preocupava com aquele embrulho que cheirava a leite! Humpf.

As coisas começaram a mudar quando o João começou a crescer – e virou o bebê mais simpático do mundo. Especialmente comigo. Ele ria à toa e soltava deliciosas gargalhadas de bebê quando alguém chegava perto do berço. Nunca vi uma criança rir tanto. Comecei a mudar de idéia sobre ele.

Mais um tempinho depois, ele ensaiava uns passinhos e balbuciava coisas engraçadas. E amava bolacha: era capaz de rastejar até perto da despensa e ficar apontando para o pote onde minha mãe guardava as danadas. Parecia uma minhoca de macacão pela casa.

Depois de adquirir as habilidades básicas de andar e falar, o João virou um carinha legal. A gente inventava toda sorte de brincadeiras esdrúxulas. Quer dizer, eu inventava e ele topava tudo na hora. Se eu dissesse "vamos rolar na terra?", ele ia. Se eu falasse "fica quietinho aí dentro do guarda-roupa até eu abrir a porta?" e demorasse cinqüenta minutos para fazê-lo, ele ficava. Foi quando gostei dele de vez.

A gente tinha umas brincadeiras muito próprias. Uma era a Folha Amarela. Eu barrava a passagem dele e dizia "folha amarela!". Então, meu irmão tinha de responder cores variadas até acertar qual era a que eu estava pensando. Para sacanear, eu inventava umas do tipo "cor-de-burro-quando-foge".

Também costumávamos passar horas olhando para a cara do outro bem de pertinho e falando "olhando bem de perto, você parece um... mangusto". "E você parece, hum... uma lagartixa". O barato era arrumar bichos bem esquisitos.

Mas a melhor de todas era o isquidum. A gente pegava todos – e eu estou dizendo realmente TODOS – os cobertores, colchas e edredons da casa, dividia em dois, se enrolava naquele volume de lã, penas e matelassê e andava pela casa toda, com a cabeça baixa e silenciosos feito monges beneditinos. O tour terminava em cima da cama da minha mãe, onde finalmente cruzávamos olhares e, de sopetão, jogávamos todo aquele pano para cima para começar a sambar e pular cantando "isquidum-dumdum, isquidum-dumdum!"

Ah, sim!, já ia me esquecendo de dizer: o João continua bobo até hoje. (Bem, depois de descrever tudo isso, acho que nem precisava mesmo). E vai ficar todo cheio com esse texto. E eu não duvido nada que, daqui uns dias, ele bata na minha porta com uma pilha de cobertores, aquela cara de arteiro e os olhinhos brilhando para um revival do isquidum.

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O que dizer de um garoto que usa
um saco de supermercado na cabeça?

É nóis nos bytes!
Demorou mais que o elevador da Folha, mas saiu: a lista dos Top 10 em cada categoria do iBest já está no ar e, voilà!, olha o Garotas ali, entre os dez melhores blogs! Precisa dizer o quanto essas três mocinhas agradecem o seu voto? Precisa? Então, lá vai: OBRIGADA, gente boa! Mas não pensem que acabou: agora, vamos rumo ao Top 3. Você vai ajudar, né? Ah, bom.

Clara McFly às 04:57 PM


Maga Patalógica do bem

Desde que saí da casa da mamãe, passei a me virar com bem poucas peças de roupa – espaço reduzido, sabem como é. Hoje conto com apenas uns 10 cabides e quatro gavetas. Maníaca que sou, cada uma dessas contém um tipo específico de coisas. A saber, pela ordem: Meias e Itens Menores; Calças e Shorts; Blusas de Toda Sorte; A Fantástica Gaveta do Preto.

Pode parecer esquisito para muitos (e eu sei bem que parece), mas eu uso preto pra caramba. Daí ter uma gaveta dedicada integralmente a essa cor. São peças de todo estilo, mas sempre em breu total. Só que muito mais difícil que manter essa turma de artigos longe do desbotamento, é agüentar a chateação alheia: “você veste muito preto! Tá depressiva?”

Não! Eu não sou depressiva, não passeio por cemitérios de noite, não sou fã da Mortícia Adams, não limpo chaminés, não trabalho em mina de carvão. Apesar de um monte de gente associar o preto com baixo astral, eu garanto de pés juntos (aqueles que, aliás, também curtem bem um sapatinho escuro): eu sou feliz! E alegre, e contente e muito sorridente!

Também não uso bastante essa cor porque quero parecer mais magra – contar com ilusões de ótica e mandar ver em pedaços e mais pedaços de bolo de chocolate não é política das mais esbeltas. Não há negro que resolva certos casos, e eu sou bem feliz com meus 61 kg atuais.

Deve ser complicado entender, mas é isso: apenas acho que preto me cai bem e pronto. Há quem diga que é um absurdo usar tanto assim um tom que representa o lado negro da força. Os criadores de histórias também não ajudam muito a acabar com essa péssima fama.

A Dona Morte é sempre retratada com um vestidão preto. Enquanto as fadas são rosadas e loiras, as bruxas são escuras e morenas. Anjinhos são branquinhos, demônios se envolvem em trapinhos de coloração preto-encarnado. Êta falta de criatividade!

Se eu fosse escrever uma história funesta, o zumbi usaria verde-água. E a mocinha bacana, gentil e cheia de estilo vestiria, óbvio, um encantador longo negro. Por que sempre o que é angelical e inofensivo tem que ser descrito em tons pastéis, hein? Aposto que muito serial killer já apanhou suas vítimas por dirigir um Fusca azul-calcinha...

De mais a mais, usar muito preto ainda me traz uma bela vantagem. Quando visto qualquer peça em cores, nem que seja uma meia, todo mundo repara e faz festinha. Como eu curto causar esse choque, às vezes até arrisco um rosa-elétrico ou amarelo-cheguei. Bom, a Maga Patalógica que habita em mim é mais divertida do que pensam.

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Vai dizer que isso parece triste e feio?
Fla Wonka às 12:45 PM


Pelados e autocolantes

Quando revelamos qual seria o prêmio da nossa grandiosa Promoção de Natal, uma das prendas chamou a atenção de todos: o maço de figurinhas “Amar é...”. O que teve de leitor perdendo o controle, se descabelando, berrando, penhorando bens e prometendo até um Pogobol para cada uma de nós em troca das preciosas figurinhas... Tá certo. O frisson não chegou até o último item, infelizmente – senão, teríamos aceitado na hora! Ficou claro, porém, que muita gente tem saudades daqueles pedacinhos de papel autocolantes e mais açucarados que chupeta de caramelo da quermesse.

Minhas memórias acerca do álbum de figurinhas não são agradáveis. Sim, eu tinha o livrão e passei muitas horas da minha infância tentando colar cada uma delas nos devidos retângulos numerados, tomando cuidado para não ficar torto. Posso contar uma história nojenta? Um belo dia, estava eu debruçada em cima do álbum, quando a vitamina de Neston que havia tomado minutos antes me fez, hã, passar mal. Não tive tempo de reagir e foi tudo no meu “Amar é...” quase completo. Aos prantos, pedi para a minha mãe lavá-lo, o que obviamente não funcionou. Ele acabou indo para o lixo e nunca mais comprei um pacotinho sequer.

Até cerca de um mês atrás, quando estava com a Flá buscando itens para a cesta da promoção na feira de antiguidades do Bixiga. Passando os olhos em uma das barraquinhas, vislumbramos o grande maço cheio de peladinhos e pequenas mensagens apaixonadas, em uma caixa junto a outras quinquilharias. Compramos na hora, pois estava uma pechincha! Depois, nos sentamos para ler uma por uma e demos muitas risadas com as filosofias mais toscas do universo meloso e singelo do amor.

Juntando algumas informações sobre a coleção na Internet – e recebendo do Inagaki um post antigo que ele havia escrito – descobri algumas coisas deveras interessantes. Não sei se o leitor se lembra, mas todas as figurinhas vinham assinadas. Eu sempre li “Kino”, achando ser esse o nome do desenhista. Mas não! É que assim como suas figuras, a caligrafia de Kim Casali não é lá das melhores. Ela é a mulher por trás daquilo tudo (devia ter adivinhado: nenhum espécime do sexo masculino teria a manha!).

Segundo algumas fontes, Kim era uma inglesa radicada na Califórnia que, certa feita, caiu de amores por um italiano chamado Roberto Casali. Embebedada no néctar da paixão, ela começou a escrever para ele bilhetinhos cheios de desenhos, espalhando-os pela casa onde moravam, nos idos dos anos 60. Roberto, um exemplo a ser seguido por todos os namorados, guardou cada um deles.

No início da década de 70, o casal resolveu vender os direitos dos tais bilhetes ilustrados e as imagens começaram a ser publicadas no Los Angeles Times, virando uma febre não só nos Esteites, mas no mundo inteiro. Os peladinhos aportaram no Brasil em 1978, quando a Editora Abril lançou seu primeiro álbum com figuras autocolantes – isso aconteceu um ano após Roberto, o “muso inspirador” de todo esse floreio, morrer vítima de câncer.

Kim também já não pertence mais a este mundo desde 1997, e ultimamente é o filho deles, Stefano Casali, quem assume os desenhos com traços mais modernos. “Amar é...” continua sendo veiculado em diversos jornais e o álbum de figurinhas ainda funciona como uma carta de manga de muita empresa de publicações por aí.

Isso sim é que é casal unido!

Eles não usam uma peça de roupa há mais de 30 anos – o que por si só é um fato a ser muitíssimo admirado. Mas existem muitos outros motivos que explicam nossa fixação nos pombinhos. Alguns deles são as frases que acompanham cada uma de suas peripécias. E eis aqui as 10 mais surreais. Afinal, amar é...

... pôr um bilhetinho afetuoso na marmita dele.

... convidar a sogra para jantar fora com vocês.

... fingir nem haver notado aquela loura.

... deixar que ele conserte os encanamentos.

... deixá-la comprar uma peruca na esperança de que nunca a use.

... levar a lata de lixo para a rua.

... dar-lhe o talão de cheques para fazer compras com a melhor amiga.

... tirar os cabelos que caíram na pia do banheiro.

... permitir que ele fume o cachimbo à mesa, após a refeição.

... pôr no espelho um bilhete: “o chefe é você”.

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Pelados, autocolantes e amarelados
Vivi Griswold às 09:30 AM

quarta-feira, 14 de janeiro de 2004

Pulgas, tapas e comidinhas plásticas – Parte 2

Como a gente podia passar tanto tempo diante de um punhado de bloquinhos, um teco de massinha ou qualquer coisa do tipo? Simples: nossa imaginação era ilimitada. E isso era adorável.

Como prometi, completo aqui minha lista dos 10 brinquedos favoritos. Aproveito para agradecer os e-mails fofos que bateram em nossa caixa postal sobre os itens publicados ontem. Uma das mensagens deu conta de que uma leitora também tinha um Manequinho, e – pasmem! – o nome do boneco era esse mesmo…

Aperte a lagriminha de saudade no canto do olho e prepare-se para tirar da caixa os fabulosos itens aí debaixo.

5) Ambulância do Doutor Sara Tudo
Esse era oficialmente do meu irmão, mas como ele fazia tudo que eu dizia, não havia maiores problemas. O conjunto vinha com um carrinho, um doente e vários apetrechos médicos. O melhor, de longe, era a botinha de gesso que podia ser colocada na perna do infeliz. Assim como o Pega Pulga, a Ambulância também fazia crossover com os playmobils, para atender os membros da família que se acidentavam.

4) 60 Segundos
Umas duas ou três dezenas de pecinhas, que iam do básico círculo e quadrado a formas indescritíveis (talvez semelhantes às de um mosquito esmagado ou dos ovos fritos que o namorido faz), tinham de ser colocadas em seus devidos lugares. E havia um tempo – e um cronômetro implacável o marcava – para cumprir a missão. Findo um minuto, era melhor tirar a cara de cima do tabuleiro: as peças voavam, literalmente. Juro que era legal!

3) Super Massa Salão de Cabelereiro
Também fazia parte, oficialmente, das posses do João. Mas, como já disse, ele era bonzinho. E eu dominava a brincadeira, que fazia crescer cabelinhos de massa nos clientes. Depois, era só aparar com a tesourinha (que não funcionava muito bem), a maquininha (mais eficiente) ou, a glória suprema, fazer permanente (!), usando uma touquinha com molde de cachos. Era o único lugar do mundo em que permanentes realmente funcionavam. E ficavam bons!

2) Heleninha
A Heleninha era minha playmobéia favorita. Tinha perninhas brancas, vestido preto e cabelinho idem. Corajosa, se metia nas maiores aventuras, como explorar o jardim ou embarcar no helicóptero dos Comandos em Ação do meu irmão. Até o dia da catapulta... Eu e o João armamos um mecanismo para atirar os bonecos para cima. Botamos o Chewbacca e pá!, ele subiu e desceu. Botamos um GI Joe e pá!, ele subiu e desceu. Na vez da Heleninha... pá!, ela subiu. Nunca mais a encontramos.

1) O Pequeno Engenheiro
Esse era, de longe-longe-longe (e se eu ficar repetindo "longe" até a hora do texto de amanhã não será o bastante) meu brinquedo preferido. Um monte de bloquinhos de madeira, alguns com revestimentos imitando tijolinho na frente, outros triangulares e vermelhinhos, outros ainda com um relógio impresso numa das faces: como isso era capaz de fazer uma criança feliz! Eu montava cidades lindas (bem, pelo menos eu achava e minha mãe também), enormes (na minha medida infantil de mundo), e imaginava como seriam os interiores daquelas fachadas. Pena que os playmobils eram muito grandes para morar ali.

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Ah, se os playmobils fossem
um pouquinho menores...

Foto: Memory Chips

Clara McFly às 05:38 PM


Confronto de hoje: Fábio vs. Léo

Há mais mistérios sobre a terra onde rastejamos do que sonha a nossa limitada filosofia. Eu fico de queixo caído de pensar que nojentas claras de ovos podem virar um belo suspiro e que as girafas dormem apenas cinco minutos por dia. Mais do que tudo, porém, eu não canso de questionar: por que o Fábio Jr. nunca saiu da mídia e o Léo Jaime sumiu da tv e do rádio como que por mágica?

Olha, eu não tenho nada contra quem aprecia o Fabião e sua voz... hum... expansiva. Pra mim, aliás, um sujeito capaz de entoar (em público!) versos como “Há uma estrela solta/ Pelo céu da boca/ Se alguém diz te amo” tem mais é que ser considerado muito corajoso. Mas por que o Léo Jaime foi esquecido dessa maneira? Não faz sentido.

Vamos supor, então, que os dois entrassem num enfrentamento para saber quem deveria ter mais cartaz nos dias de hoje. Não se trata de gosto, mas de justiça. E eu sou imparcial.

Fábio Jr. era um cantor romântico. Depois decidiu virar um ator-e-cantor romântico. Depois forçou ainda mais e virou ator-cantor-e-apresentador romântico. Não é muita melação para uma carreira só? Dá a impressão que esse senhor passa cantada barata até em poste de iluminação.

Já o Léo... Não bastasse ser um cantor danado de bom – alguém discute que “A Fórmula do Amor” é uma das canções mais adoráveis dos anos 80? –, ele ainda desfilou seus dotes de interpretação pela telinha. Lembram que ele era um marginalzinho divertido em “Bambolê”? E outro marginalzinho mais divertido ainda em “Bebê a Bordo”? Fazer papel de salafrário é mais bacana que ser o “pegador da mulherada”, como Fabião.

Placar até aqui: Léo Jaime 50 x 50 Fábio Jr.. Mas só porque o Léo também estava em “Rock Estrela” (argh!) enquanto Fabião estava em “Roque Santeiro”...

Não precisamos, porém, ficar só no setor de habilidade artística. Os cabelos, por exemplo. Léo Jaime conta com lindos cachinhos desde sempre. Fábio Jr. faz questão de ostentar mullets desde sempre. Mullets, Fábio? Tenha dó. O pior é que ele fica jogando o cabelinho pra trás com a mão para fazer gênero, e a mecha deve ser a porção capilar mais ensebada da América. Por isso, há que se descontar 10 pontos de Fábio e somar 10 para o Léo.

Daí passamos ao quesito casamento. Fábio Jr. foi casado com a Glória Pires. 10 pontos pra ele. Depois com outras 38 garotas e a Guilhermina Guinle – daí tirarmos aqueles 10 pontos dados anteriormente. E mais tarde, num acesso de marquetingue, o cidadão anuncia união com a Patrícia de Sabrit! Desconta 1.000 tentos aí, faz favor!

O Léo? Bom, desconheço a vida amorosa do rapaz, mas ele NÃO casou com a Patrícia de Sabrit. Então soma 1.000 pontos.

Acho que o placar final, pelas minhas contas, dá uma vitória esmagadora para o Léo Jaime, não? Pudera. Eu não sou imparcial coisa nenhuma e o cantor de “As Sete Vampiras” e “Conquistador Barato” é uma paixão pessoal. Que me desculpe o sujeito que esganiçava “As metades da laranja/ dois amantes, dois irmãos”, mas Léo Jaime ainda é fundamental. Mesmo num mundo tão cheio de mistérios.

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Após essa sacolada, o Léo diria... “Brigadú”??
Fla Wonka às 01:16 PM


Pra lá de Trás-os-Montes

Meu sobrenome é Agostinho. O sobrenome de solteira da minha avó paterna era Coelho. O sobrenome do meu avô materno é Teixeira. Quando eu era pequena, ficava de bico ao ouvir que eu tinha meu sangue lusitano estampado na cara – assunto que sempre estava em pauta por causa de minha insistência em usar um indefectível par de brincos de argolinhas douradas. “É a própria portuguesa”, falava a uma tia. Eu sou sim. Ainda que um pouquinho.

Mesmo às vésperas de superar a última batalha da grande guerra que um dia trará para minhas mãos um passaporte italiano tinindo, graças ao lado da minha família comandado pelo saudoso Fiorello Rozzino, tenho de admitir que, pelo menos na matemática dos glóbulos brancos e vermelhos, estou mais para o time de Camões do que para o time de Da Vinci.

O que tanto assombrava meus pesadelos infantis era associar o sangue lusitano ao bigode. A mãe de duas colegas com as quais eu pulava amarelinha de rua ostentava uma profusão de pêlos faciais que me botava muito medo. Nem tinha a menor idéia se ela era portuguesa ou descendente de, mas eu chorava com a possibilidade de ficar daquele jeito. Hoje eu sei que uma coisa não tem necessariamente a ver com outra, e que bigodes femininos são causados por umas pedrinhas num dos órgãos que ficam um pouco abaixo do umbigo. Viu como amadureci?

Outra tristeza que o parentesco me trazia era ser obrigada a comer bacalhoada na ceia de Natal, como já contei aqui. Enquanto todo o resto dos lares estava sendo agraciado com um grande, macio e rosado peru ou chester, cheio de fatias de abacaxi e pêssego em calda, na casa da minha avó sempre tinha (e tem até hoje, religiosamente) o maldito peixe seco e salgado demais, cheio de anéis de cebola, pimentão de três cores, batatas e muitas azeitonas pretas.

Apesar desse obstáculo, ainda é no quesito “comida” que meu sangue português fervilha de alegria e contentamento. Azeite, por exemplo. Se eu pudesse, tomava de gole como um licor. É só me dar uma garrafinha de um extra-virgem, um saco de pão recém comprado da padaria da esquina e um tantinho de sal que eu passo minutos de puro prazer, só chuchando os miolos naquele líquido oleoso que parece vir do céu. Tudo regado a um vinho do Porto, então...

Outro vício é o tal de tremoço. As más línguas dizem que os garis têm o maior trabalho de limpar as cascas de tremoço depois das partidas de times como a Portuguesa paulista ou o Vasco da Gama carioca. Pode parecer exagero, mas eu sei bem o que é comer um grão-de-bico em conserva como se fosse pipoca. Só que essa descrição tosca não faz jus à delicia que é acabar com um pote de tremoço em frente à TV.

E os doces? Adoro ler as receitas: todas incluem 30 dúzias de ovos, no mínimo – e só as gemas. Isso porque os doces portugueses foram todos inventados pelas freiras lá pelo século XV, que costumavam engomar os hábitos com as claras. Para não desperdiçar comida, elas, muito espertamente, inventaram os melhores, mais engordantes e mais amarelinhos quitutes que este planeta já conheceu.

O mais famoso é o quindim. Porém, a lista é muito maior. Bote aí meu favorito, o pastel de Santa Clara. E também o pastel de Belém, a queijadinha de Sintra, o papo de anjo, o toucinho do céu, os ovos nevados, a barriga de freira. Todos com nomes impagáveis e com um recheio transbordando de creme.

Se for depender do estômago, sou portuguesa com certeza. Mais do que galos de porcelana, lenços na cabeça e uma bela vista do Tejo.

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Muito giro, pá!


Vivi Griswold às 09:09 AM

terça-feira, 13 de janeiro de 2004

Pulgas, tapas e comidinhas plásticas

Num mesmo dia, dava para pegar pulgas gigantes e coloridas com uma pinça idem; preparar uns lanchinhos para os clientes e socorrer um doente com a perna quebrada. Ou tentar encaixar um punhado de pecinhas correndo contra o cronômetro e construir cidades inteirinhas, com pontes, torres de relógios e casinhas enfileiradas. Que saudades dos meus brinquedos favoritos!

Foi difícil fazer essa lista, pelo simples motivo de que continuo adorando brincar, até hoje. Então, tive de separar os brinquedos da infância (ao menos cronológica) dos que ainda lanço mão às vezes, como o Cara a Cara.

Mas alguns minutos de memórias bastaram para que eu me lembrasse desses jogos e bonecos que me acompanharam nos doirados anos infantis. Aposto que pelo menos um você também tinha. Aposto que pelo menos um você também adorava. Aposto que pelo menos de um bom momento você também vai se lembrar.

Hoje entram cinco deles, amanhã mais cinco. Tudo para prolongar ao máximo o delicioso exercício de relembrar. Abra o baú, espane a poeira e tire de lá…

10) Ursinho de pelúcia
O meu se chamava Peludo. Ok, eu sei que é um nome um tanto óbvio. Mas ele não é um urso óbvio: ao invés de estar sentadinho, como a maioria de seus pares, Peludo foi feito em pé e tem pelos amarelos bem clarinhos. Porque falo dele no presente? Simples: por que Peludo ainda É. Ele mora no guarda-roupa aqui de casa – e há de conhecer minha filhinha no dia em que ela também vier a ser.

9) Manequinho
Como não tenho a menor idéia do nome "oficial" deste boneco, vamos com o de batismo mesmo. O Maneco era meu bebê favorito. Tinha uma roupinha azul e um botão de borracha mole nas costas. Era só apertar que ele fazia xixi! Sim, meu boneco tinha pipi. Não era como o Ken, coitado, assexuado feito um anjo. Manequinho me acompanhou até que seu uso ficasse inviável e ele se parecesse com o Chuck, o brinquedo assassino. Isso porque, ao contrário do que rezavam as instruções, eu lavava o cabelo dele sempre que possível.

8) Lanchonete Mc Donald’s
Ah, o mundo capitalista!... A corporação dos arcos dourados não deixou por menos e lançou uma mini-lanchonete de brinquedo para que os petizes já se habituassem à visão daquele grande M amarelo. Claro que eu quis imediatamente. Tinha sorvetinhos, lanches e batatas fritas, tudo de plástico. Quer saber? O gosto era quase o mesmo que o das iguarias de verdade. E o pior é que pago para comer isso até hoje – e gosto.

7) Tapa Certo
Eram dezenas de cartinhas quadradas com figuras. Cada uma tinha sua cópia num cartãozinho redondo. Cada jogador apanhava uma mão de plástico, com ventosa na palma. E o lance era acertar a figurinha sorteada. Meu pai e minha mãe jogavam comigo e, com o tempo, fui ficando imbatível. Parecia um lince. Até que a miopia hereditária me pegou e voltei do oftalmo com óculos de 0.5 grau.

6) Pega Pulga
As simpáticas sanguessuguinhas plásticas eram coloridas e ficavam numa cama que, equipada com pilha, tremia mais que o Deep Purple, meu Corsa 1.0, quando passo dos 120. Cada jogador, munido de uma pinça igualmente berrante, tinha de apanhar quantas pulgas pudesse. Quando as criaturas não estavam cumprindo sua triste sina de pular, eram pegas para servir de animais de estimação dos playmobils.


Clara McFly às 05:55 PM


Êta solidão animada...

Bom mesmo era ser criança e ter toda a tarde livre para inventar atividades absurdas. Quando eu era pequenina, brincar com água, passar cinco horas na rua jogando taco ou trazer amigos para comer bolo na cozinha era liberado. Mas nem sempre eu estava no espírito de interagir. E mesmo as tardes sem coleguinhas por perto, por incrível que pareça, eram o supra-sumo da farra.

O responsável pelo começo disso tudo foi aquele sujeito tantas vezes reverenciado nesse site. Doutor Daniel Azulay, o mago da diversão oitentista, o gênio do desenho à mão livre, a babá televisiva mais competente que já houve. O tio e sua galera, a Turma do Lambe-Lambe (bonecos cabeçudos e estranhos, sim, mas adoráveis), rendiam horas de brincadeira no meu quarto.

Eu não sei se toda criança fazia como eu, mas havia uma preparação ritualística para esperar o Daniel e sua gangue. Alguns itens, por sinal, eram indispensáveis para a tarde solitária ser realmente legal.

A casinha de pano do Sítio do Picapau Amarelo
Febre da década de 80, tinha vários temas, incluindo a Turma da Mônica e o Sítio. Era preciso usar de umas “porradas técnicas” para que as ripas de madeira encaixassem nos engates plásticos e formassem a armação. Isso feito, era só jogar o pano decorado por cima e levar para dentro daquele metro quadrado toda sorte de apetrechos – de artigos de desenho a almofadas pra soneca. E comida, claro.

A tv na janelinha
Casinha armada, era hora de pedir o favor máximo pra minha mãe: “posso pegar a tv pequena e colocar no meu quarto?”. Em caso positivo, lá ia eu acertar a sintonia dos canais (na base do bombril na antena, sempre) e colocar o aparelho de frente pra janelinha da casa de pano do Sítio do Picapau. Daí, era só ligar e apreciar Tio Daniel, em cores, por todo o período vespertino.

Papel, muito papel
Sempre gostei de desenhar e pintar – e ainda gosto, e ainda estou pouco ligando se tenho talento para isso ou não. Por isso Daniel era um deus pra mim! Ele desenhava qualquer coisa em segundos, e o mais divertido era tentar imitar aquela habilidade. Só na hora predileta do programa eu largava papel e lápis. O Pincel Mágico nada mais era do que um cromaqui safado que fazia aparecer os desenhos (mas era equivalente à “Matrix” nos 80s). Mas ele entrava em cena e o mundo parava de girar.

Conjunto de hidrocor e demais acessórios
Giz de cera, lápis de cor e (se a mãe deixasse) tinta guache eram raptados para dentro da casinha de pano em toda tarde solitária. Afinal, eu tinha que desenhar junto com o Daniel e não podia fazer feio diante do mestre. Melhor que tudo isso, só as canetinhas. Minhas preferidas eram aquelas do jogo de boliche – que vinham numa garrafa em formato de pino lacrada por uma bola. Ainda existem? Eu quero!

Bolachas de leite
Muito antes do viciante Passatempo recheado dominar meu gosto por biscoitos doces, essas eram as rainhas da tarde. Tudo bem, tinha aquelas de duas partes duras unidas por chocolate (na verdade, tratava-se de margarina marrom...), mas sempre preferi a bolachinha de leite mais simples. Mergulhada num copo de leite, essa gostosura ficava ainda melhor. Mais delicioso, só se ela fosse xuxada na minha outra bebida predileta das tardes solitárias... Segue abaixo.

Um copaço de groselha... com leite
Bem que a Vivi lembrou hoje cedo dessa maravilha da culinária “made in laboratório”. Groselha Milani era a alegria em forma líquida e com cor de artigo radioativo. Todo mundo bebia com água, óbvio, mas eu tinha uma preferência diversa: colocar dois dedos de groselha no copo e completar com leite gelado. Ficava rosa e docinho! Não façam cara de nojo... Era um acompanhamento perfeito para as tardes solitárias na casinha de pano, pintando com canetinhas e assistindo Daniel Azulay!

E ainda é. Só falta achar uma casinha. E as canetinhas. E o Tio Daniel, claro.

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Perder uma tarde com esse
moço não era tempo perdido
Fla Wonka às 01:35 PM


Coelhos, noviças e bonecos de gelatina

Entre um bloco e outro das atrações televisivas, estirpes das mais estranhas passeavam em nossa casa. Muitas vezes, nos convenciam a comprar um produto. Elas eram toscas e tinham pouca maquiagem marqueteira. Mas gostávamos mesmo assim. Chegou a hora de prestar atenção nos reclames, leitor – mas nem pense em usar o tempo do comercial para ir ao banheiro ou buscar um quitute na geladeira. Senão, você corre o risco de perder uma viagem às melhores propagandas dos anos 80.

Hoje a publicidade nacional é altamente considerada no mundo todo e gastam-se rios de dinheiro em filmes de poucos segundos. Muitos contam com participações de modelos internacionais e atrizes da novela, computação gráfica de última geração, nomes de prestígio assinando cada peça, locações mais bem-montadas do que produção de Hollywood. Mas quando éramos crianças, tudo parecia ser tão simples! O máximo que se conseguia era misturar desenho com pessoas de verdade, ou acertar em cheio em alguns jingles inesquecíveis. E só.

Lembra daquela época em que apelo popular não era diretamente proporcional a grandes vôos tecnológicos? Eu me lembro. E quero ver se você também se recorda daquela propaganda...

... da Caloi
O filho tentava dar algumas indiretas no pai para garantir o presentão de Natal. Quer dizer, não eram bem indiretas, pois o fedelho espalhava bilhetinhos pela casa toda – no espelho do banheiro, na geladeira, dentro do armário do quarto, na tampa da privada. O recado era só um: “Não se esqueça da minha Caloi!”.

... da Valisère
A inocente peça publicitária que fez da modelo Patrícia Lucchesi um ícone oitentista mostrava uma mocinha experimentando seu primeiro sutiã. As horas em frente ao espelho não diminuíram a vergonha de estrear os passos pela rua usando aquele troço. Toda menina passou por isso. E quem viu, não esquece.

... da US Top
Outra que virou referência, gíria e piada no “TV Pirata”. Em uma reunião de empresa cheia de engravatados, o chefe elogiava a camisa de um de seus funcionários. “Bonita camisa, Fernandinho!” ele dizia, fazendo os olhos de todos se voltarem à peça de roupa. Parece que o Fernandinho era integrante do Metrô.

... da Sadia
Tinham duas favoritas: em uma, a mãe soletrava a marca de salsichas com... salsichas. “I de Ispecial”, dizia o moleque, e a mãe o corrigia, dizendo “especial é com ‘e’...”. Em outra, um menino vendado tentava reconhecer um presunto Sadia com as mãos. “Esse não é. Tá querendo me enganar, é?”. Duas pérolas.

... da Wrangler
Muito marmanjo hoje na casa dos 20 e muitos, 30 anos, começou a sonhar com a musa Luciana Vendramini por causa dessa propaganda. A loira fazia uma noviça rebelde que, ao sair do convento, encontrava-se com o namorado e vestia uma calça jeans. De fundo, a balada arrepiante “Can´t Take My Eyes Off You”.

... do Cornetto
Um rapaz deslizava pelos canais de Veneza a bordo de uma gôndola. Ele cantava uma excelente versão do clássico italiano “O Sole Mio”, promovendo o sorvete da extinta Gelatto. Era algo assim: “Dai-me um Cornetto/ Muito crocante/ É pio cremoso/ É da Gelatto/ Cornetto, Cornetto mio...”. Para ouvi-la, clique aqui!

... do Cremogema
Esse é outro comercial que valia pela música. “Crem, Cremogema, Cremogema/ é a coisa mais gostosa desse mundo”. Daí, a menina cantava “eu esqueço a boneca” e o menino dizia “eu esqueço a minha bola”, e juntos “quando como, como, como...”. Tinha algo a ver com Chapeuzinho Vermelho, mas a memória fugiu.

... do Nescau
Quem tomava um copão do achocolatado (eu adoro esses eufemismos marqueteiros, “achocolatados”...) ficava a mil para as mais diversas peripécias: correr, nadar, surfar, andar de skate. Sim, tomar Nescau era super radical. Rimou! O slogan: “Super Nescau, energia que dá gosto!” e o barulho do canudinho.

... das balas de Leite Kids
As balinhas mais duras de todo o universo ganharam uma propaganda igualmente grudenta e deliciosa. A música era mais ou menos assim: “Roda, roda, roda o baleiro, atenção/ Quando o baleiro parar, põe a mão”. Quem não queria botar a mão num baleiro recheado de balinhas de leite Kids? Todo mundo.

... do Suflair
Você se lembra da Virgínia Novick? Uma garota-propaganda que tem uma voz irritante e já fez a campanha das lojas Marisa? Era ela quem aparecia sentada numa sala tentando fazer a barra de chocolate aerado voar até a sua mão. “Suuuuuuuuflair”, dizia. Com essa preguiça e comendo chocolate, ela ia longe!

... do Impulse
“Se algum desconhecido lhe oferecer flores, isto é Impulse”. Ah tá. Quer dizer que era só dar umas borrifadas daquele desodorante safado (com o mesmo teor alcoólico do que a caninha 51) para algum rapaz parar numa banca de flores e me comprar um buquê com duas dúzias de margaridas? Não caio nessa.

... do Neston
Algumas coisas só têm graça quando a gente é criança. Fazer vitamina é uma delas. Se alguém me vir, hoje, batendo maçã, banana, mamão, leite e cereais no liquidificador, pode me mandar para o hospício. Neston é muito infância, assim como o slogan “Existem 1000 maneiras de preparar Neston – invente a sua”.

... do Quick
O máximo que a publicidade dos anos 80 podia chegar: misturar animação em desenho com atores de carne e osso. O coelho, símbolo do produto, saía do rótulo da lata de achocolatado (e que também existia nos sabores morango e baunilha) e cantava com as crianças: “Quick, Quick/ Faz do leite uma alegria!”.

... do Chambinho
O queijinho do coração fazia jus a sua fama e mostrava diversas cenas meigas tendo corações como personagens centrais. Gostava particularmente da criança que fazia uma corrente de papel com o símbolo do amor. Embalando a fofura, nada melhor do que a música “Carinhoso”, do Pixinguinha, tema do produto.

... da Royal
Conheço gente que fazia parte do Clube do Bocão! Era só mandar não sei quantos rótulos de gelatina Royal e você recebia em casa, inteiramente grátis, uma carteirinha do clube. Como esquecer? O Bocão, no caso, era um boneco gelatinoso, de boné e tênis. O slogan, facinho: “Abre a boooooca, é Royal!”.

... do DD Drin
Quem diria que uma dedetizadora teria um dos melhores e mais clássicos comerciais da nossa infância. Ele é um pouco mais velhinho (foi lançado no final dos anos 70, acho eu) mas vale a lembrança. A animação mostrava uma festa dos insetos, tipicamente “Dancing Days”. Impagável! Clique aqui e assista.

... da groselha vitaminada Milani
A carinha pink e feliz, com língua de fora, que estampava o rótulo da garrafa da groselha Milani, ficava pulando enquanto ensinava às crianças a musiquinha “Groselha vitaminada Milani/ Iahu/ É uma delicia/ Pra tomar a toda hora/ na sua casa, na festinha, na merenda/ tudo fica uma delícia”. E ficava mesmo!

... da Faber Castel
O melhor comercial dos anos 80. Quem não concorda não deve se lembrar daquele primor da animação, com a caixa de lápis de cor ilustrando a letra da música “Aquarela”, do Toquinho, uma de minhas favoritas infantis. Eu amava a hora do beijo azul e de contornar os dedos e fazer uma luva. Se melhorasse, estragava.

Vivi Griswold às 09:12 AM

segunda-feira, 12 de janeiro de 2004

Mãe Clarissa sabe tudo

A internet revolucionou hábitos, instituiu costumes, derrubou algumas distâncias e criou outras – hoje, tenho amigos que fiz por e-mail e nunca vi pessoalmente, mas também passo anos sem encontrar velhos conhecidos porque ficamos matando as saudades só via correio eletrônico. Por ter sido popularizada há muito pouco tempo, poucas pessoas sabem utilizá-la adequadamente. Mas daí a achar que as ferramentas de busca são espécies de oráculos do mundo moderno já é demais – e, como diria o índio Cléverson, engraçado pra caramba.

Como já contei aqui e aqui, me divirto por demais com as surreais buscas que trazem alguns internautas ao Garotas (elas ficam registradas no nosso contador de pageviews). Desta vez, reuni algumas pérolas que apareceram por lá tratando o sêo Gúgol como a pitonisa de Delfos, com verdadeiras e completas perguntas no espacinho destinado ao que você quer buscar.

Como tal ferramenta de busca é muito boa, mas não é gente, não deve ter entendido as indagações que atormentam a alma desses pobres incautos. Por isso, se Gúgol, o Oráculo não fornece a resposta, Mãe Clarissa sabe – e diz logo! Então, preste atenção: quem sabe não foi você que entrou no Garotas buscando por...

Como conquistar uma patricinha
O que você realmente deve se perguntar é "porque eu quereria namorar uma patricinha?" Elas são chatas, se vestem todas iguaizinhas e vão querer que você gaste rios de dinheiro com elas, além de sempre levarem cãezinhos estúpidos e irritantes à tiracolo. Pense melhor.

Por que as garotas não gostam de namorar um garoto nem um pouco gordo
Bem, na verdade a pergunta podia ser "por que a maioria das pessoas não gostam de namorar gente nem um pouco gorda". Mas existem as exceções! Olha aí a bacanérrima Viviana Torrico, namorada do João… Gordo.

Como posso me comunicar com o FBI
Depende. O que você quer dizer a eles? Se for alguma denúncia sobre o plano de dominação mundial empreendido por três garotas meio malucas, a maneira mais segura é mandar um e-mail para garotasquedizemni@yahoo.com.br. Pode deixar que a gente encaminha (ua, há, há, há!).

Qual o significado da palavra mamão
Aqui, você pergunta e a gente responde: "mamão [de mama + -ão] Adj. 1. Que ainda mama. 2. Que mama abundantemente. S.m. 3. Rebento que rouba o suco à haste da planta. 4. Bezerro ou burro de um ano. 5. O fruto do mamoeiro, de feitio semelhante ao da mama, cor amarela, e polpa espessa e suculenta; papaia." (fonte: Novo Aurélio) Puxa. Nem eu sabia que mamão era tudo isso…

Dar um basta na mão boba dos garotos
Hum. Agora você está perguntando isso, mas mais para frente pode mudar de idéia e querer saber "o que faço para conquistar os garotos"... Mas a vida é assim mesmo, então vamos lá: uma boa saída é dizer a eles que você é filha do, digamos, Galvão Bueno. Ninguém vai querer esse mala como sogro...

O que fazer em momentos de tédio
Ah, essa é fácil e nem requer muitas esfregadas na minha bola de cristal: que tal jogar Cara a Cara, tomar banho de mangueira, relembrar as músicas mais legais dos anos 80, tomar um sorvete, ir ao cinema com amigos ou, se nada disso for possível, ler o Garotas, que está sempre aqui, ao alcance de um clique?

Clara McFly às 04:49 PM


O Ministério do Futuro da Nação

O filme está prestes a começar. Produção boba, gente relaxada na platéia. Eu e meu namorido no meio deles – que ser bobo e relaxado é lema de vida para nós. Três pessoas de uma mesma família chegam na nossa fileira de poltronas, pisam nos meus pés e sentam bem ao lado. A partir daí perdi o humor e comecei a pensar... ter filhos devia ser uma ação envolvendo liberação do governo federal.

Que os céus me livrem de estar sendo chata. Mas tem explicação. Imaginem vocês que, com a minha curiosidade mórbida/ falta de educação, passei a ouvir a conversa daquela família. A configuração da cena: mãe lá no canto, pai no meio, filho (cerca de 13 anos, cabeludo, camiseta de banda metal que acabou antes dele nascer) colado à minha cadeira.

O moleque diz assim: “vamos ver ‘O Retorno do Rei’ de novo na semana que vem, pai?” O genitor responde: “nem a pau, é muito comprido e eu não entendi nada”. O garoto de novo: “mas se você ler o livro vai gostar mais”. O abominável senhor, fazendo voz de indignado: “eu não leio nem revista, muito menos livro.” É nessas horas que eu queria saber lançar aquelas estrelas afiadas dos ninjas...

Como é permitido dizer um negócio desses para um menino em pleno crescimento e formação? Fico maquinando se o tal homem também ensina ao filho que mulher tem mesmo é que esquentar a barriga no fogão e esfriar no tanque e que subornar guarda de trânsito economiza mais bufunfa do que pagar multa – que isso é “coisa de otário”.

Somando a esse episódio o que ando ouvindo por aí – de questões filosóficas a surpreendentes ensinamentos de biologia –, pensei que poderia ser melhor se o presi instituísse um novo ministério. Destinado, basicamente, a preservar crianças de um destino terrível! O Ministério do Futuro da Nação seria uma realidade interessante.

Funcionaria assim: o sujeito conhece uma moça adorável, eles decidem casar. Quando chega a fase de ter bebês, a dupla dá início ao processo. Preenchem um formulário com perguntas simples (nessa etapa passa todo mundo que, questionado sobre o nome que dará ao petiz, não responda coisas como “Michael Jackson Ferreira de Aguiar” ou “Britney Spears Nogueira de Melo”). Superado esse lance, vão para a entrevista.

Lá o ministro só teria que checar se os candidatos a pai serão capazes de ensinar um pequeno humano a não crescer feito idiota. Não é questão de ter faculdade ou dinheiro, longe disso! É questão de saber trilhar o caminho do bem. Assim:

Pergunta1

Qual presente vai dar à criança no aniversário de 7 anos?

Resposta Errada: Uma metralhadora de plástico com mira de luz.
Resposta Certa: Um Senhor Cabeça de Batata. Com olhos extras e o bigode preto.

Pergunta 2

Levar no shopping sábado de tarde ou passear no horto domingo de manhã?

Resposta Errada: Shopping no sábado. Eles se divertem na praça de jogos eletrônicos e deixam o papai em paz.
Resposta Certa: Horto domingo de manhã. Com direito a pés descalços e imitação escandalosa de bichos.

Pergunta 3

CD da Eliana ajuda a acalmar ataques de birra?

Resposta Errada: Ô se ajuda. E ela é tão fofa e afinada... Principalmente quando canta “Po-le-ga-res/ Po-le-ga-res/ Onde estão?/ Aqui estão!” Até eu paro pra ver!
Resposta Certa: Prefiro despachar o moleque pro Iraque do que vê-lo repetir versinhos desse calibre com uma moça cuja saia tem o tamanho de um cinto.

Claro que essa idéia é besta, inútil, totalmente desprovida de senso e completamente fora de propósito. Não dá para selecionar quem será um pai divertido e instrutivo e quem será uma máquina de reproduzir cretinices. Mas tem panorama ainda pior: já pensou se, um dia, o Ministério do Futuro da Nação é criado e regido pelo tonto que “não lê nem revista, muito menos livro”???

Fla Wonka às 12:44 PM


Quem não é um pouco?

Existe por aí um palavrão cheio de consoantes que é familiar para muitas pessoas, apesar da maioria não reconhecê-lo: kitsch. Aparentemente sem tradução específica, o termo vem do alemão “verkitschen” que, ao pé da letra, quer dizer algo como “baratear” ou “tornar popular”. Nessa salada que é a cultura pop – onde tudo tem mais rótulo do que a seção de laticínios do supermercado – ser kitsch é ser brega e cafona. Simples assim. Ou não?

A coisa complica um pouco agora que o brega virou cult. Aposto que você tirava sarro daquele pingüim horroroso de porcelana que a sua avó mantinha em cima da geladeira, certo? Pois saiba que o mesmo item, colocado em uma casa moderna de hoje, é um toque de estilo e de personalidade. Veja bem: o pingüim continua o mesmo. O que mudou foi o olhar de alguns diante do que sempre foi um símbolo kitsch.

Culpa do resgate das décadas de 60 e 70. Culpa da tal onda retrô. Culpa dos brechós, das feiras de quinquilharias e dos colecionadores de bugigangas. Graças a todos eles, podemos ser mais livres e ostentar com orgulho um pingüim em nossa geladeira ou uma lava lamp em nosso criado-mudo. Isso porque todo mundo é um pouco kitsch. Você também, admita! Jogue seus preconceitos pela janela e sinta-se à vontade para adquirir alguns dos itens abaixo...

Toalhas de praia estampadas
Livre-se da canga e da esteira de palha! A moda praiana já era. O legal agora é ir para a praia ou piscina e estender aquela toalhona estampada e deitar-se nela com um triunfo no olhar. Se você conseguir a clássica em que aparece uma mulher de cabelo esvoaçante cuja metade do rosto é uma pantera, melhor ainda. Mas está valendo aquelas de coqueiro, arco-íris, cavalos e montanhas. Coisa fina.

Souvenires de viagem
Caneta com gôndola que “anda”. Torre Eiffel em miniatura. Um moletom do Hard Rock Café. Um cofre em forma de cabine telefônica vermelha. Quando você for viajar, não se reprima diante das barraquinhas e lojas para turistas. Os itens são altamente colecionáveis! E não precisa ser uma viagem ao exterior não – só o berimbau daquelas férias em Porto Seguro já está de bom tamanho.

Quadros que juntam ícones pop
Não sei se a Marilyn Monroe, o Elvis Presley e o James Dean já estiveram sentados lado a lado em uma lanchonete. Acho que não. Mas eu adoro aqueles quadros que colocam os três juntinhos, tomando refresco e dividindo uma porção de fritas. Aliás, qualquer coisa que leva a estampa da loira voluptuosa, do Rei do Rock e do galã que morreu cedo demais, juntos ou separados, é ultra kitch. E ultra bacana!

Bola de câmbio
Com apenas alguns itens aqui e ali, um automóvel pode se tornar um universo kitsch da mais alta qualidade. Basta uma bola de câmbio com o siri dentro e pronto! O toque está dado. Para os mais ousados, a dica é colocar dados de pelúcia no retrovisor, uma fita do Senhor do Bonfim amarrada na placa traseira e um assento de bolinhas de madeira, para “massagear” as costas no meio de um congestionamento.

Flor de plástico com orvalho
Não basta ser uma flor artificial – ela tem que passar a sensação de vida. Tirando o fato de ela ser morta, claro. As melhores flores no mercado são aquelas que já vêm com gotinhas de orvalho (na verdade, gotinhas feitas com a pistola de cola, isso sim). Se um dia você encontrar por aí umas que, além de tudo, acendem como pisca-pisca, agarre-se ao produto. E compre uma para mim também!

Anão de jardim
Existem uns malucos na França conhecidos como “Frente Libertadora dos Anões de Jardim”. Eles costumam roubar os pequenos seres de cerâmica e devolvê-los à floresta. Para você ver o quanto esse item é popular – alguns jardins possuem até os sete anões e a Branca de Neve, além de cogumelos e sapinhos com violão. Uma prova de que o kitsch também pode ser politicamente correto.

Árvore de pedra brasileira
Qualquer item feito de pedras brasileiras é o ó do borogodó, ou na linguagem kitsch, simplesmente o máximo. Aquele relógio de pedra, com ponteiros em números dourados, ou aquele conjunto de colherinhas com pedras nas extremidades são demais. Porém, nada se compara às árvores cujas folhas são pequeninas pedras. Tão bom quanto garrafas contendo desenhos com areia colorida.

Galos do tempo
Eu era fascinada pelo tal galo do tempo quando era criança e ele tinha lugar de destaque na estante da minha avó. Trate-se de um galo que vem em cima de uma madeirinha. Suas “penas” são aveludadas, e mudam de cor de acordo com o clima. Se ele estiver cinza, pode procurar o guarda-chuva antes de sair de casa. Se ele estiver azul, o tempo ficará claro e dará até para tomar sol na pracinha.

Cachorrinhos que dizem “sim”
Os chamados “nodding dolls” ou “bobble head dolls” viraram febre nos Estados Unidos e já chegaram por aqui. São bonecos cuja cabeça é bamba e, quando em movimento, ficam balançando para cima ou para baixo, como que dizendo “sim” constantemente. Meus favoritos são os cachorrinhos aveludados que motoristas costumam colocar olhando para o vidro traseiro do carro. Quanto mais buraco no asfalto, melhor!

Se alguém tirar sarro, diga que é moderno. Você não estará mentindo.

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E eles se multiplicam!


* * * * * * * *


Para uma pequena viajem ao mundo kitsch, clique aqui.

Vivi Griswold às 09:38 AM

sexta-feira, 9 de janeiro de 2004

Britney, sua brincalhona!

Já comentei por aqui que, desde que mudei de endereço, tenho passado por provações fantásticas, como ir a reuniões de condô, ver objetos sumirem misteriosamente e tomar banho com o conteúdo do galão de água mineral. Mas nada tem sido tão edificante quanto ficar sem TV a cabo.

Acontece que o condô não era cabeado – e é contra as regras desse microcosmo botar aquelas antenas pizza na fachada das casinhas. Então, começaram a passar aquele monte de fios grossos pelo subsolo há uns dois meses e meio. Daí, quebraram as instalações do interfone. E estamos sem previsão de conclusão do serviço todo.

O fato é que, desprovida das atrações da TV por assinatura, além de ler, conversar e escrever mais, tenho também notado as coisas gozadas da TV aberta. E a melhor dos últimos tempos é, sem dúvida, o clipe da Britney com a Madonna, "Me Against the Music".

Basta que eu ou o namorido identifiquemos os primeiros acordes da referida canção para corrermos para a frente da máquina-de-fazer-doido. O filminho simplesmente nos hipnotiza. Primeiro, lá está ela, loira como nunca, cabelos cuidadosamente desalinhados, vestida com um conjunto de gola-e-gravata igualzinho ao do Leão da Montanha.

Ela dá uma olhada para a câmera, tão insinuante quanto uma das velhinhas da Liga das Senhoras Católicas olhando para um frango assado. Depois, começa a dançar com um montão de gente atrás fazendo os mesmos passinhos. Note que o grupo é etnicamente correto: atrás de Brit, figuram um negro e um oriental. Parece o Br’Oz, à primeira vista.

Todos dançam igual, mas só até o finalzinho da cena, quando o coreógrafo deve ter falado: "ok, nestes últimos três segundos, é cada um por si e Deus pra todos". Acho que um quis aparecer mais que o outro e o resultado é uma coisa linda de se ver. É braço e perna para tudo que é lado – inclusive os braços e pernas minhas e do namorido, que se esticam para o ar de tanto que estamos rindo e se agitam em mini-ôlas comemorativas.

Ao longo do vídeo, a recém-casada-e-rapidamente-divorciada passa por vários cenários, sempre perseguindo Madonna. Um deles é o que a cantora chamou, no "Making the Video", de "sala do hip-hop" – um cantinho do estúdio grafitado meio mal e porcamente. E tem a "sala das garotas", onde ela aparece dançando só entre meninas. E eu adoro quando os artistas ficam tentando dar explicações conceituais para seus veículos de divulgação.

Enquanto isso, Madonna vai aparecendo numas televisõezinhas em todos os cantos pelos quais a ex-virgem passa. A certa altura, elas quase se encontram. A tela se divide com uma parede que mostra, de um lado, a mãe loura do pop moderno e, do outro, a garota que queria só mais um tapinha. Elas estão pertinho e não sabem – apesar da parede que claramente se mexe entre um passo de dança e um encostão mais forte. Preste atenção, é sensacional.

Para finalizar, depois que as duas finalmente contracenam, se contorcendo e roçando de maneira inexplicável numa armação de cama sem colchão (?!), Brit encontra Madonna num labirinto com paredes de madeira e, quando literalmente encosta a senhora Guy Ritchie na parede, ela some, deixando a princesinha do pop com aquela cara de peixe, olhando para o nada – esse é, para mim, o ápice do clipe.

Na minha opinião, essa expressão final mostra que Britney realmente se diferencia da média na capacidade de interpretação. Ela mereceu a estrela na Calçada da Fama. Aquilo requer muito não-talento dramático. Por que não é qualquer um que é capaz de fazer aquela cara de paisagem depois que quase beijou a Madonna.

E é por isso – e por outras, como nosso senso de humor mórbido – que o namorido e eu não perdemos uma apresentação sequer do fabuloso e altamente recomendável "Me Against the Music". É uma verdadeira lição de vida. Ok, não é. Mas que pode fazer você chorar de rir, ah!, isso lá pode.

BritneyLeaodaMontanha.jpg
Saída pela direita...
Clara McFly às 06:42 PM


E o vencedor do Oscar é...

... uma obra que poderá sumir no limbo da memória a qualquer minuto. Foi essa a conclusão que tirei checando filme por filme que concorreu e levou a estátua dourada nos 75 anos da premiação. Entre pérolas trash e competidores absurdos, salvam-se até um bom punhado de produções. Mas também dá para perceber que nem sempre a disputa foi séria, viu?

Onde já se viu, por exemplo, premiar “Conduzindo Miss Daisy” em vez de “O Campo dos Sonhos” ou “Sociedade dos Poetas Mortos”? Em 1989, eu acho, dramas inter-raciais com velhinhos chocavam e emocionavam mais que jovens atirando contra a própria cachola. Ou o Kevin Costner atuando bem. Se eles soubessem que depois o moço ia praticar o mal com “Waterworld”, teriam premiado ele com certeza!

Essa análise dos vencedores e perdedores não começou de graça, não. A Ni Enterprises está trabalhando em um projeto sigiloso relacionado com o próximo Oscar – e ficou por minha conta tabelar os indicados de toda a história. De 1927 a 2002. Meu braço dói, mas a diversão é tão grande que não consigo tirar o sorriso da cara.

Como não gargalhar e rolar pelo tapete abraçando a barriga sabendo que “Uma Secretária de Futuro” foi indicado ao Oscar 88 (boa Sessão da Tarde... Mas era com a Melanie Griffith, por deus!)? E que “E.T.”, um dos filmes mais mágicos e especiais de todos os tempos, perdeu pra “Gandhi”, um dos filmes mais monótonos e aborrecidos de todos os tempos, em 1982? Na boa, gente: eu acho que distribuem caninha Velho Barreiro para os tios da Academy of Motion Picture Arts and Sciences.

Só assim para premiarem, em 1981, “Carruagens de Fogo” em vez de “Os Caçadores da Arca Perdida” (alguém aí deixaria de ver o Indiana no poço de cobras para acompanhar a correria dos rapazes?). E “Noivo Neurórico, Noiva Nervosa” no lugar de “Guerra nas Estrelas” em 1977. Tudo bem, isso é só opinião de quem aprecia muito filmes de ação aventuresca. Mas o que dizer sobre a derrota da “Cleópatra” de Elizabeth Taylor para um tal de “As Aventuras de Tom Jones”? Não sei que filme é esse, mas já peguei birra.

Ilustres anônimos permeiam toda a trajetória do seo Oscar. Nunca assisti “No Calor da Noite”, o grande vencedor de 1967. Não tenho a mais remota idéia do que se tratam “Passagem para a Índia”, “Um Lugar no Coração” e “A História de Um Soldado”, concorrentes de 1984 que perderam para “Amadeus” (ao menos uma justiça foi feita). Assim ficava fácil faturar o segurador de porta mais caro do mundo e discursar até a musiquinha subir de volume, hein?

Nem todas as disputas foram essa baba, por outro lado. Ainda não engoli a cerimônia de 1996, vencida por “O Paciente Inglês”. A história lacrimosa concorria com “Fargo”, “Jerry Maguire – A Grande Virada”, “Segredos e Mentiras” e “Shine”. Era para ter ganho? Não! Mas a briga foi de peixes grandes e competentes, então até passa.

Dose foi agüentar “Shakespeare Apaixonado” vencendo “Elizabeth” em 1998! E Gwyneth “Sou Aguada Mesmo” Paltrow roubando o prêmio da talentosa Cate Blanchett pelos mesmos filmes! Mas isso é briga pessoal de atrizes, e eu não cheguei ainda na tabela dessa categoria. Tenho certeza que as surpresas serão até mais bizarras. Trabalho bom é esse aqui!

ET2.jpg
"Gandhi" melhor que isso???
Nem no Oscar do Mundo Bizarro
Fla Wonka às 01:56 PM


Os nomes que a fama dá

Sabe quem é Carlos Irwin Estevez? Já ouviu falar na Cherilyn La Piere Sarkisian? E o Yorgos Kyriatou Panayiotou soa familiar? Sim, você conhece todos eles, leitor. Mas nem precisa forçar a cachola, porque cada um atende por outro apelidinho. Carlos virou Charlie Sheen, Cherilyn ficou sendo Cher e Yorgos, por incrível que pareça, ganha a vida como George Michael. Assim é a fama: além de dar muito dinheiro, carros, mansões, iates e amantes, obriga suas vítimas a adotarem o chamado “nome de guerra”.

O céu é o limite para a mente criativa desses integrantes da classe artística. Enquanto a maioria, para não arriscar, acaba apenas encurtando o nome completo para dois termos, outros piram na batatinha, escorregam na casca de banana, enfiam o pé na jaca e chutam o quiabo. Agora vamos parar com o papo hortifrutigranjeiro e ver como a nata das personalidades brasileiras preferiu ser chamada.

Mamãe que deu
Ô, ti bunitinho! Pelo visto, saudade da infância não é privilégio deste site que vos fala. Olha o senhor Augusto Liberato, que acha legal fazer fama nacionalmente como Gugu. E depois ainda quer ser levado a sério. Na mesma linha temos a apresentadora Xuxa, o jogador de vôlei Tande (Alexandre no idioma tati-bitati) e o cantor Lulu Santos (Luiz Maurício Pragana). E aqueles com inhos e inhas? Netinho, Peninha, Soninha... Bem fez o Jairzinho, que hoje assina como Jair Oliveira. Tá crescendo, o menino!

Filhotes de chocadeira
Ah, os órfãos... Deve ser muito triste não ter uma família, né? Pode perguntar para a Eliana, a Simone, o Leonardo, a Joana, o Daniel... Mas antes que você fique com pena deles, pense de novo. No fundo, é um baita complexo de superioridade: apesar de existirem milhares de Elianas e Leonardos no Brasil, só há um exemplar conhecido como A Eliana ou O Leonardo. Isso serve para toda essa cambada sem pai nem mãe, mas com um ego lá em cima. Se bem que Alcione só deve ter uma mesmo.

No mundo animal
Esses assistiam ao Discovery Channel muito antes da TV por assinatura sonhar em conquistar este país de terceiro mundo. Temos o digníssimo Falcão, tanto no futebol quanto na música-brega-porreta. Este último, nasceu no Ceará sob a alcunha de Marcondes Falcão Maia. Convenhamos que a ave de rapina chama mais atenção que Marcondes, hein? No mesmo estilo, há o Lobão e o Ovelha, que obviamente não podem se encontrar. Mas o prêmio “bichice”, em todos os sentidos, vai para Leão Lobo.

É bronca?
Quem teve a sorte de contar com um nome duplo pode explicar melhor que eu. Funciona assim: o João Henrique, por exemplo, é conhecido como Joãozinho e só ouve o nome inteiro quando a mãe quer puxar a orelha. Algo como “João Henrique, venha já aqui!”. Isso deve traumatizar um pouco a criança. Então me explica como o Paulo Ricardo, a Maria Paula, a Flávia Alessandra, o Marcelo Augusto, a Maria Zilda e o Roberto Carlos escolheram tais apelidos. Para lembrar dos castigos e das chineladas da infância?

Intelectual e conceitual
Poucos artistas possuem a perspicácia de entender que a escolha de um nome artístico é algo muito sério, pois o resultado vai persegui-los pelo resto da vida. Então, por que não escolher algo conceitual, intelectual e até transcendental? Assim, todo mundo vê como eles são inteligentes. Veja o Carlinhos Brown. Ele é negro e faz mistura de ritmos. Então resolveu mostrar isso no nome! Não é genial? Outros “gênios” são o Xis e o Afro X. O melhor, porém, é Gabriel, O Pensador. Pára o mundo que eu quero descer!

Conta outra
Pior do que as piadas do Ary Toledo no “Show de Calouros” são algumas alcunhas escolhidas por celebridades. Como, em sã consciência, alguém opta por ser conhecida como Flor? Tenha dó. E Latino? Pior é o Belo, que de belo não tem é nada – só se a base de comparação for o Tiririca (aliás, outro com um nominho daqueles). Mas nenhum ramo de atividade nos brinda com pérolas como o futebol. Vampeta e Wagner Love são só o começo. Ah, Cafú, você sabia que não se acentuam oxítonas terminadas em u?

Letras a mais
Agora é moda acrescentar letras nos nomes artísticos para trazer prosperidade, dizem por aí. O que tem de artista que marca consulta na numerologista... Lembra quando a Sandra de Sá era conhecida apenas por Sandra Sá? E a Marina Lima já foi Marina e já foi Marina de Lima. Jorge Ben hoje assina sua obra como Jorge Ben Jor. Até o baiano Xandy botou um “d” a mais e virou Xanddy. Como ficou bonito! Porém, note que todos eles não mais saborearam o gostinho do sucesso após a alteração. Estranho.

Gringolândia
Money is good, certo? Talvez seja pelo sonho de sentar em um sofá recheado de verdinhas norte-americanas que algumas personalidades resolveram internacionalizar o nome. Carlinhos Brown poderia estar nesta categoria, hand-in-hand com Syang, Kelly Key, Gretchen, Luka, Vivi Griswold (hã?) e Patrícia Marx, que já foi só Patrícia e decidiu fazer seu Marques mais, digamos, gringo. No balaio “cidadão do mundo” entram ainda as chacoalhantes Regininha Poltergeist e Rita Cadillac.

Pleonásticos
Pleonasmo é uma redundância de termos, como “subir para cima” e “sair para fora”. Só se pode subir se for para cima, e só se pode sair se for para fora, certo? Não se preocupe, porém, se você fugiu da aula de figuras de linguagem. Alguns artistas fizeram o mesmo, preferindo um trago na cantina às lições de gramática. É o caso de Zeca Pagodinho (o cara é pagodeiro, não precisava disso no nome), Renatinho da Bahia (que veio da... adivinha?) e Osvaldinho da Cuíca (fadado a nunca tocar outro instrumento).

Mesa branca
O famoso ator Aryclenes Venâncio Duarte fez história na teledramaturgia brasileira com personagens como Sinhozinho Malta e Sassá Mutema. Antes de você achar que há alguma coisa estranha na afirmação é bom saber que esse é o nome verdadeiro de Lima Duarte. Quando ele ouviu o chamado da carreira artística, pediu uma sugestão para sua mãe. Espírita, ela indicou o nome “Lima”, que era como costumava chamar seu espírito-guia. Taí o único caso comprovado de relação entre o Além e a novela das 8.

Vivi Griswold às 09:41 AM

quinta-feira, 8 de janeiro de 2004

Errar é humano, mas isso já é demais...

Às vezes, eu cometo um deslize como esquecer o aniversário de alguém ou deixar de tirar a carne para descongelar para o próximo almoço. E fico me culpando horas e horas por esse mísero errinho. Mas cheguei à conclusão de que sou uma tonta mesmo. Afinal, há mais e maiores cagadas registradas na história na humanidade – e com desfechos muito mais funestos que o esquecimento do natalício de um amigo ou o bife ainda congelado às 11:30.

Pensando nisso à guisa de consolo, acabei por selecionar dez idéias da mais estúpida estirpe, já levadas a cabo por algum exemplar da espécie humana. O mais curioso é que tais projetos tinham tudo para dar errado, e isso parecia ser mais que sabido à época de sua execução. Mesmo assim, as bravas criaturas responsáveis por essas imensas bobagens seguiram adiante.

Afinal, por que diabos alguém (ou muita gente) teve a idéia de...

... chamar os Hell’s Angels para fazer segurança de um show?
O ano era 1969 e os Rolling Stones faziam uma apresentação ao ar livre em Altamont. Algum sabichão da organização teve a excelente idéia de chamar os temíveis Hell’s Angels para fazer a segurança (?!) do show. Resultado: um espectador morto a facadas.

... não botar botes suficientes no Titanic?
Aqui a inépcia foi bem mais abrangente: o povo da época não acreditava sequer que o barcão pudesse afundar. Aprendam: qualquer coisa que bóia PODE afundar. E o navio ia fazer uma travessia de oceano, por Deus! Custava pôr umas dúzias de botes a mais?

... invadir a Rússia no inverno?
Napoleão, notável estrategista, cometeu o deslize de uma vida ao decidir adentrar as plagas russas e não prever que suas tropas podiam ficar à mercê do rigoroso frio do lugar. Será que ele era exímio jogador de War e, como nunca ganhava a Dudinka no tabuleiro, decidiu partir para a batalha no mundo real?

... bombardear Pearl Harbor?
Os filhotes do tio Sam estavam ali, quietinhos, assistindo à Guerra de longe, enquanto voltavam a prosperar depois da Depressão. O Eixo já estava tendo trabalho suficiente para conter as tropas aliadas, mas algum infiel teve a brilhante idéia de dropar umas bombinhas numa base americana. Isso foi tão idiota que até me cheira a armação.

... botar para dentro da sua fortaleza um estranho cavalão de madeira?
O objeto pouco usual apareceu assim, sem mais nem menos, no portão dos troianos. E eles abriram a porta e botaram aquilo para dentro! Ninguém desconfiou de nada? Será que era costume presentear os povos com bichos de madeira gigantes? E se a tia Voula saísse de dentro?

… fazer a final da Supercopa São Paulo de Juniores num estádio em obras?
Em 1995, com o Pacaembu em reforma, paus e pedras salpicavam o lugar. Adicione a isso duas torcidas organizadas das mais violentas e um policiamento fraco. Voilà! Aí está o que algum gênio misturou ao promover ali a final do campeonato, com Palmeiras e São Paulo em campo. Resultado: pega-pra-capá generalizado e duas baixas fatais.

... eleger Hitler?
O cara já tinha uma lista de adversários que sofreram "estranhos acidentes" antes de sua ascensão. Tipo se suicidar com duas facadas nas costas e depois se atirar da ponte, manja? Tudo bem que a Alemanha estava em farrapos e precisava de um líder, mas precisava eleger um cara tão estranho?

... eleger Sharon?
O moçoilo teve um mal-explicado envolvimento no massacre de um campo de refugiados palestinos no sul do Líbano, em 1982, área pela qual ele era responsável à época – e ainda continua envolvido, de certa maneira, com a opressão sistemática desse povo por meio de sua política da péssima vizinhança. Só que agora ele foi eleito.

… passar a noite na casa do Michael?
Se você é pai e seu filho tem menos de 14, qual a chance de permitir que o guri fique sozinho com uma criatura como o Rei do Pop? A não ser que você tenha mais olhos para o dinheiro do que para a criança, a resposta é zero. E nem precisava ter estourado a primeira acusação de pedofilia: basta pensar na cara do sujeito para dizer ao seu filho um sonoro "não".

... estrelar "Glitter – O Brilho de uma Estrela"?
Tadinha da Maráia Carey. Taí uma criatura que não deve ter amigos. Porque amigos de verdade avisam quando vêem que você vai pagar um mico. Especialmente se for um mico de proporções monumentais, como esse filme estrelado pela cantora-atriz-e-ímã-de-exu-em-se-tratando-de-namorados. Afinal, sua lista de "ex" contém nomes como Eminem e, corre à boca pequena, o bonitinho-mas-ordinário vocal do Faith no More, Mike Patton. Eu não falei que essa moça não tem amigos?

Clara McFly às 06:14 PM


Inanimados uma ova

Minha mãe já me dizia: “ô, tontinha, não brinca com a comida...” Sempre imaginei que ela dava essa coordenada tão comum para que eu comesse tudo, ficasse forte e crescesse até os 1,72 m que somo hoje. Mas será que me enganei? Mamãe dizia aquilo por que, a qualquer minuto, pratos, garfos e até os alimentos poderiam mostrar que possuem vida??? Ahhh!!!

Que me amarre a primeira fivela da camisa de força quem discordar: alguns objetos possuem SIM vida própria. Deveriam ser artigos manufaturados inocentes e sem vontade. Mas é tudo fingimento. Quando você menos espera, lá vão eles atacar! Cuidado, gente! No momento em que estivermos mais distraídos, essas coisinhas ardilosas dominarão o planeta!

Fiquem atentos, especialmente, aos seguintes itens:

Fitas colantes
Deveriam servir apenas para selar caixas, fechar pacotes ou prender bilhetinhos aqui e ali. Mas que nada! Basta apanhar o rolo de fita parda, durex, silver-tape ou coisa maligna que o valha para ver! Uma vez desunidas do grupo, elas grudam nos dedos, no cabelo, na mesa... Enrolam-se no próprio eixo como peixes recém tirados da água. A ponta do rolo? Elas escondem de propósito.

Fatia de pão com manteiga
Estou para lembrar de um só dia em que essa mistura de fatia de pão com uma camada de manteiga tenha se comportado bem. Bastou terminar de passar a faca com a massaroca e apanhar o dito cujo nas mãos, pronto: a composição vai achar um jeito de se desvencilhar e se atirar pelo chão. Sempre com a manteiguinha gostosa voltada para o piso, evidente.

Sabonetes
Bem que podiam inventar luvas de metal capazes de segurar esse troço fujão. Ia ser meio ridículo tomar banho com elas, mas pelo menos iam impedir que o psicótico sabonete exercesse seu livre arbítrio de voar pelo box sempre que é apanhado. Não sei, mas acho que eles sabem que terão mesmo o fim trágico de escorrer pelo ralo e tentam dar cabo da própria vida por antecipação...

Sacolas de mercado
Em geral, elas são boazinhas e cordatas. Se vierem de boa procedência, acomodam as compras sem armar revolta. Mas se forem aquelas nascidas em fábrica de gueto, muito cuidado! Assim que as latas ou as caixas de leite são erguidas do chão pelas alças, abrem-se buracos por todo lado. Alimentos rolam pelo chão e é aquele caos. Ao chegar perto, dá pra ouvir o barulhinho que as sacolas fazem, né? Pois é a risada das maledetas caçoando da sua cara! Fica esperto.

A cachola do Baltazar
Ele era um dos reis magos do presépio lá de casa. Chegou quando eu era pequena e, na primeira encenação da qual participou, já perdeu a cabeça. Literalmente: ela quebrou sabe-se lá como (ok, eu sei como, mas não conto...) e o pescoço teve que ser colado com super-bonder – que, aliás, é outro artigo com vida própria. Mesmo assim, a cabeça nunca mais parou no lugar. Colávamos, ela fingia pregar. Depois caía. Entrou ano, saiu ano, a cabeça ficava sempre soltando, então decidimos comprar um Baltazar novo. Adivinhou? Oh, yes! A cabeça desse também quebrou e nunca colou! Estou dizendo, a cabeça desse rei pensa por si mesma.

Fla Wonka às 01:12 PM


Saudades do vinil furta-cor

“A matéria-prima básica empregada na fabricação deste disco é a mesma dos discos comuns, ou seja, vinil puro. Apenas os pigmentos são alterados para cores alegres ao invés do tradicional preto, a fim de tornar o aspecto exterior mais agradável às crianças. Portanto, todas as suas características e qualidades são idênticas as dos discos comuns. Especialmente a durabilidade e conservação das agulhas das eletrolas”.

Esse era o aviso que vinha na capa de todos os coloridos exemplares da Coleção Disquinho. Quem não se lembra daquelas bolachinhas amarelas, azuis, verdes, rosas e vermelhas é mulher do padre. E digo mais: mulher do padre com uma verruga fedorenta e peluda na ponta do nariz. Tá certo, não vou jogar praga nas pobres almas sem memória: tia Vivi está aqui para relembrar essa maravilha da infância.

Quando eu era criança, tinha uma vitrola vermelha em forma de maleta, cuja tampa também fazia as vezes de caixa de som. Se não estivesse ocupada cantando minhas canções infantis favoritas (veja aqui e aqui) com toda a força de meus pequeninos pulmões, estava deitada no sofá completamente absorta no mundo do faz-de-conta para onde a coleção Disquinho me transportava. Era só colocar a agulha no começo do vinil furta-cor e o polegar direito na boca e pronto.

Cada disquinho narrava uma história: “Branca de Neve”, “O Patinho Feio”, “João e Maria”, “O Gato de Botas”, “Chapeuzinho Vermelho”, “Alice no País das Maravilhas” e muitas, muitas outras. As aventuras de príncipes, princesas, animais falantes e crianças perdidas eram contadas em um português perfeito e com uma acentuação digna de atores (e eram atores, do Teatro do Disquinho). Eu nem piscava com medo de perder alguma parte importante - mesmo já tendo decorado todas as falas.

Decorei tanto que ainda me lembro de várias. “Cale a boca, malcriado, se não quiser apanhar. Seu irmão nasceu agora e precisa descansar”, dizia a mamãe pata para um de seus filhotes que já havia tirado sarro com a aparência do Patinho Feio.

E as musiquinhas? As da história do cisne nascido em lugar errado eram assim: “Quá quá quá como estou feliz/ hoje é o último dia/ vão nascer os meus patinhos/ finalmente que alegria/ Vou ficar juntinho deles/ numa vida muito boa/ passeando no terreiro/ e nadando na lagoa”. Quando o feioso resolveu fugir da família pato, cantava “Vou me embora pra bem longe/ esta é a triste verdade/ talvez eu sozinho encontre/ a paz e a tranqüilidade”. Eu choraaaaaava.

Outra favorita era a história dos irmãozinhos João e Maria que se perderam na floresta - pois tiveram a brilhante idéia de marcar o caminho com pedacinhos de pão, mesmo com um monte de passarinho à solta - e foram parar na casa da bruxa feita de doce (a casa, não a bruxa). Quando eles estavam felizes, cantarolavam: “Pelas matas pelos bosques/ beleza maior não há/ desde a florzinha que nasce/ ao canto do sabiá” e “Suas asinhas ligeiras/ cheias de graça e beleza/ precisam de todo o espaço/ que lhes deu a natureza”. Ô saudade!

Não fique achando, leitor, que a brilhante coleção era privilégio de quem passou os tenros aninhos nos anos 80. Os disquinhos foram lançados na década de 1960 e atualmente podem ser encontrados em CD, pela bagatela de R$ 9,90 cada um. Pena que não é colorido. Será que dá para pintar com canetinha?

disquinho.jpg
Vale a pena ouvir de novo
* * * * * * * *

Nota 1: Um leitor atento disse que o CD da coleção Disquinho é colorido sim. Ainda não comprovamos a autenticidade da informação, uma vez que a fonte é, comprovadamente, viciada em Fanta Uva.

Nota 2: Descobri que existe para vender uma coleção da coleção Disquinho, com nada menos do que 12 historinhas completas. Apesar de não estarmos ganhando um tostão nisso, acho por bem dar a dica. Interessados saudosos, cliquem aqui - serão os 36,50 reais mais bem gastos de suas vidas. Ou não.

Vivi Griswold às 09:18 AM

quarta-feira, 7 de janeiro de 2004

O referido é inventado e dou fé

Eu juro que tentei. Mas foi impossível compreender o que o sêo Rumsfeld, Secretino de Defesa dos Estados Unidos, declarou ano passado a respeito das armas químicas que supostamente estariam escondidas no Iraque ameaçando a paz e a segurança mundiais – uma das razões para que a trupe de Tio Sam justificasse seu ataque ao país. Quer tentar? Então, olha só...

"Relatórios que dizem que alguma coisa não aconteceu são interessantes porque, como sabemos, existem coisas sabidas que sabemos; existem coisas que sabemos que sabemos. Também sabemos que existem coisas sabidas que são desconhecidas; quer dizer, sabemos que existem algumas coisas que não sabemos. Também existem coisas desconhecidas que desconhecemos, ou seja, aquelas que não sabemos que não sabemos".

E aí? Pegou alguma coisa? Nem eu. O que me leva à conclusão de que as tais armas químicas, como diria o Padre Quevedo, "no ex-sistem". Assim como uma série de outras coisas muito faladas e difundidas por esse mundo velho sem porteira. Mas chegou a hora de saber toda a verdade, caro leitor. Prepare-se para o choque, pois tenho boas razões para afirmar que as coisas aí abaixo são fruto da pura imaginação do milho verde – ou de algum engraçadinho que conseguiu pegar a todos nós.

Maratona
Quando descobri qual era o tamanho oficial de uma dessas corridas, logo percebi: ninguém corre 42 quilômetros, por Deus! Essa é a distância da minha casa ao trabalho – ida e volta. Se já cansa percorrer essas léguas de carro, imagina correndo... Por isso, acho que há uma máfia de fiscais de corrida que encobrem a verdade: todo maratonista deve ter um ou mais sósias, que assumem partes da prova. Tipo a história da tartaruga e da lebre, manja?

Centro de Pesquisas Vasenol
Aquele laboratório todo chique, cheio de gente de avental branco e modelos testando creminhos, é produto da imaginação dos publicitários. Ou você acha que alguém paga altos volumes de papel para moças bonitas experimentarem fórmulas químicas? E eu estou para ver o endereço desse suposto Centro de Pesquisas impresso nas embalagens.

J.D. Salinger
Diz que esse homem escreveu o livro de cabeceira de nove entre dez psicopatas norte-americanos: "O Apanhador no Campo de Centeio". Depois, desapareceu no mapa, feito as armas químicas iraquianas. Ninguém nunca mais viu ou fotografou o sujeito. Como provar, então, que o livro era dele mesmo? Ou, pior ainda, que a criatura algum dia existiu?

Suriname
Eu já disse e reitero: ainda estou para conhecer alguém que morou ou nasceu no Suriname e tenha provas irrefutáveis da existência desse país. Fotos não me valem de nada: podem ser tiradas em qualquer lugar. A não ser que sejam da principal atração turística de lá – tipo o Cristo Redentor cá no Rio. Mas qual será a principal atração turística de um país imaginário?

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Diz que aí é o Suriname, mas não podia ser
o Mato Grosso?
Clara McFly às 06:48 PM


Lênin ficaria orgulhoso!

“Antigamente meu filho não chegava assim cansado do trabalho.” A constatação é de Christiane, uma senhora alemã que se encontra acamada por problemas de saúde. Mas a singela afirmação significa muito mais do que essas poucas palavras. Que o diga Alexander, o precioso filho dessa dama socialista.

Essas pessoas eram para ser irreais, criadas para nos entreter durante duas horas dentro do cinema. Mas, assistindo “Adeus, Lênin!”, é fácil ver: Christiane e Alexander são a verdade mais pura que o socialismo criou. Ok, melhor falar do filme e explicar por que ele é uma das melhores produções de 2003 – ao menos na modesta opinião desta escriba que apreciou a obra, ontem, entre pipoca e refri imperialista.

Tudo começa nos anos em que a tal Cortina de Ferro ainda existia para separar a Europa entre socialistas e capitalistas. Um dia, o pai de Alexander deixa a família para ir à Alemanha Ocidental comprar cigarrinhos e nunca mais volta. Sozinha, mamãe Christiane cria os filhos e se torna defensora ardorosa do sistema político na então Alemanha Oriental.

Mas Alex e sua irmã, Ariane, crescem – e o tédio que o regime acarreta começa a fazer diferença. Em certa noite de 1989, entre uma mordida na maçã e olhares trocados com uma garota bonita, Alexander participa de uma manifestação a favor do direito de ir e vir. Batata: acaba preso. Pior batata ainda: sua mãe-do-partidão vê tudo, tem um enfarte e entra em coma.

Daí por diante o que poderia virar um grande dramalhão vira, isso sim, um filme extremamente bem humorado e consciente. Nos oito meses em que Christiane fica no hospital, atada nos tubos, o Muro de Berlim vai a baixo, Alex perde o emprego, Ariane vai trabalhar em um Burger King e a Alemanha vira uma coisa só. Uma coisa só que dá show e ganha a copa de 1990, por sinal...

Quando a bela adormecida volta a si, nada é como antes. E como contar à “mutter” convalescente que não existe mais partidão? Nem o sistema antigo? Nem pepinos Spreewald??? Alexander, o antes cabeça-de-vento, decide forjar a realidade: com artimanhas dignas de mágico, o devotado rapaz recria o universo socialista – e até vai além de vez em quando – para não chocar a enfartada.

Como eu já contei que não sei separar as coisas e confundo ficção com realidade, foi assim: o doce Alexander já ganhou lugar cativo no meu coração. Não só por ser uma graça, mas também por fazer da coca-cola... uma invenção socialista! Isso o filme explica melhor. Por que, é claro, eu já estou contando que vocês vão logo loguinho quebrar o porco-cofre e correr pro cinema assistir “Adeus, Lênin!”!

O filme recebeu uma penca de prêmios importantes. Espera-se que chegue junto no Oscar de 2004 também. Mas quem liga? O que vale mesmo é apreciar Daniel Brühl interpretando Alexander com uma competência adorável, atentar para a trilha sonora – do mesmo gênio que produziu “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” – e reparar bem na cena em que a estátua de Lênin atravessa a cidade levada por um helicóptero. Uma das melhores que já vi, sem dúvida.

“Antigamente meu filho não chegava assim cansado do trabalho.” Christiane diz isso sem imaginar que Alexander corre meia cidade para que ela não saiba da unificação alemã. Mas eu acho que quer dizer também que o capitalismo nos faz trabalhar como jegues. “Adeus, Lênin!” é assim: um pouco de crítica, um pouco de humor, um pouco de emoção, um pouco de política. O careca ficaria cheio de si...

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Olha o Alexander
começando a zona toda!
Fla Wonka às 01:36 PM


Só o uni-duni-tê resolve

Eu sempre fui boa aluna. Nunca peguei recuperação e caprichava até demais nos trabalhos. Passei no vestibular na primeira tentativa e cumpri os quatro anos com dedicação. Minha memória ainda funciona a mil. São raras as vezes em que me foge o nome de alguém, e até que sou uma ótima fisionomista. Além disso, deixo claro que não sou dona de um fiozinho de cabelo loiro sequer. Então me explica porque certas coisas aparentemente simples não entram na minha cachola nem por decreto?

Há um grupo de pessoas, lugares, termos e personagens que, como o leitor poderá ver a seguir, dão um curto aqui nas células cerebrais e daí não há santo que consiga ligar dois pontos. Sabe quando você pensa em uma personalidade mas se pega falando sobre outra? Ou quando o nome de um cantor lhe foge e sua mente acaba fazendo uma substituição nada a ver? Por favor, diga que sabe. Assim eu me sinto um pouco melhor por confundir, toda vez...

... Louis Armstrong x Neil Armstrong
O primeiro era negro, cantor de jazz, tinha bochechas enormes e a voz rouca que embalou os versos de “What A Wonderful World”. O segundo era branco e foi o primeiro homem a pisar da Lua (ou não). Louis morreu em 1971 e Neil continua vivinho da silva. Tão diferentes como água e vinho, certo? Eu sei, eu sei.

... Tim Robbins x Tim Burton
Robbins é ator, marido da Susan Sarandon e atualmente pode ser visto no brilhante “Sobre Meninos e Lobos”. Burton é diretor dos melhores, com pérolas como “Edward Mãos de Tesoura” e “O Estranho Mundo de Jack” no currículo. Mas que diabos, os dois precisavam se chamar Tim? Assim complica.

... Oscarito x Grande Otelo
Nessa eu estou perdoada: os dois viviam grudados, protagonizando diversas comédias nacionais. Não colou? Só porque o Oscarito era espanhol e branco e o Grande Otelo era mineiro e negro? O problema todo é que o brasileiro era chamado de “grande” mesmo sendo baixinho, enquanto o outro tinha nome de anão de circo.

... Nelson Rodrigues x Nelson Gonçalves
Pior do que confundir as duas personalidades, é realmente não saber quem é quem mesmo olhando para eles. Acho que quando penso no rosto de Rodrigues, vejo Gonçalves e vice-versa. Vai ver que os dois eram uma pessoa só mesmo e tapearam todos no cenário cultural. Só eu saquei, que sou esperta.

... Gaulês x Galês
Gaulês é quem nasceu na Gália – região que, na Antigüidade, englobava parte da Europa (França e Bélgica, principalmente). Quem lê os gibis do Asterix entende. Já que eu não leio, fico boiando assim mesmo, e confundindo sempre com galês, cidadão do País de Gales, lá no Reino Unido. É parecido, vá...

... Humphrey Bogart x Clark Gable
Um tem cara de taxista cafajeste, o outro tem cara de bicheiro cafajeste. É exatamente por essa proximidade de caráter fisionômico que eu sempre paro e reflito “O Clark Gable é aquele que fez ‘Casablanca’?” ou “Bem que o Bogart podia ter ficado com a Vivien Leigh”. Daí vejo que, de novo, toquei todas as bolas.

... Jewel x Dido
Um raro caso em que uma é a outra e a outra é a uma. Daria para alguém, por favor, me mostrar a diferença entre as duas cantoras loiras? Quero ver. Enquanto provarem o contrário, continuo acreditando que ambas são farinhas do mesmo saco – ou são a mesma figura. Assim eu não me culpo por confundi-las.

... Antártica x Atlântida
A Antártica, além de ser marca de cerveja e de guaraná, é a região gelada conhecida como Pólo Sul. Há ainda quem a chame de Antártida – e eu nunca soube se tanto faz. De qualquer maneira, existe também o tal continente perdido, Atlântida, com um título, convenhamos, muito similar. Só para complicar.

... C-3PO x R2-D2
Dois simpáticos robôs que davam alívio cômico para a saga de “Guerra nas Estrelas”. Ambos saíram da imaginação fértil de George Lucas e seus nomes são siglas com letras e números. O primeiro tem feições meio humanas, é alto e dourado. O segundo é baixinho, parecido com um brinquedo. Ou seria o contrário? Sei lá.

... Atacado x Varejo
Dois termos utilizados no comércio. Quem freqüenta a rua 25 de Março aqui de São Paulo deve ser craque em diferenciá-las. Mas eu, apesar de adorar as lojinhas de bijuteria da região, acabo trocando os dois toda vez. Vamos ver se eu acerto: varejo é compra normal e atacado é em muita quantidade. Acertei?

... Robert De Niro x Al Pacino
Os dois são atores do primeiro escalão de Hollywood, já entupiram a sala com estatuetas do Oscar, falam com voz de trovão e vivem fazendo papel de gângster italiano. Pense bem e diga se não é para confundir mesmo! O truque, no caso, é simples: uma pinta. Se tem a pinta, é De Niro. Se não tem, é Pacino.

... Escrava Isaura x Sinhá Moça
Para mim, é a mesma novela. Lucélia Santos fazendo papel de mocinha de época, choramingando pelos cantos com um vestidão, sofrendo horrores até o último capítulo... Mas pasme: tratam-se de duas tramas diferentes. A primeira é Gilberto Braga, de 1977. A segunda é Benedito Ruy Barbosa, de 1986. Ué...

... Ginger Rogers x Gene Kelly
Qual das duas dançava com o Fred Astaire? A primeira, leitor! Até porque a segunda é um rapazote. Sim, apesar do nome um tanto feminino – Gene é meio unissex, e Kelly, bem, você sabe – o ator em questão é aquele que esbanja talento em “Dançando na Chuva”, o favorito de 10 entre 10 críticos de cinema.

... Priscilla Presley x Lisa-Marie Presley
Quem é a mulher que se casou com o Rei do Rock, o único, o insuperável Elvis Presley? E quem é a filha mané que se casou com o Rei do Pop, o único, o depravado Michael Jackson? Acertou o leitor que respondeu “Priscilla” na primeira e “Lisa-Marie” na segunda. Ou serei eu a única confusa nessa história?

... Mário de Andrade x Oswald de Andrade
Sabe o Mário? Ele é o autor de “Macunaíma” e figura importantíssima no movimento modernista do Brasil. Sabe o Oswald? Ele é o autor de “Memórias Sentimentais de João Miramar” e figura importantíssima no movimento modernista do Brasil. Não, eles não eram parentes. Sim, eu nunca sei quem é quem.

... Jackie Chan x Jet Li
Jackie Chan é um chinesinho arretado que adora fazer micagens com artes-marciais, como no filme “A Hora do Rush”. Jet Li é um outro chinesinho arretado que adora fazer micagens com artes-marciais, como no filme “Romeu Tem Que Morrer”. Jogue na panela um terceiro chinês, John Woo, para a mistura desandar.

... Direita x Esquerda
Antes que alguém me mande de volta para a pré-escola, deixe-me explicar. Eu sei qual é qual. Só me confundo no trânsito, quando alguém pergunta “é para virar na direita ou na esquerda?”. O stress mexe comigo, sabe? A saída é lembrar o “Rá-Tim-Bum” e pensar “vejamos, qual é a minha mão esperta?”.

Se é que existe algo em mim com tal característica.

Vivi Griswold às 09:32 AM

terça-feira, 6 de janeiro de 2004

Gente em caixas

Eles são conhecidos por gerações e gerações, que se acostumam a vê-los quase todos os dias, em todos os lugares: dentro do armário da cozinha, na penteadeira, na lavanderia. Mas, ao contrário das celebridades mais expostas, esses abnegados não ganham cachês milionários – até porque alguns são fruto da imaginação dos desenhistas de embalagens.

A trupe de pessoas cujas caras estampam embalagens é bem grande. Fora os clássicos, existem muitos produtos – especialmente de higiene pessoal – que gostam de botar em seu invólucro uma carinha feliz. As caixas de jogos e brinquedos também estão salpicados de rostos, às vezes de crianças bochechudas anônimas, às vezes da Eliana, do Gugu e de outros ídolos sem sobrenome.

Mas vamos nos debruçar sobre a gente de bem que emprestou sua identidade para decorar o embrulho de víveres tão díspares quanto palitos de dente, perfumes de gosto duvidoso e aveia em flocos. Com vocês, dez dos maiores e mais inesquecíveis exemplares do povo, de carne e osso ou de pena e papel, das embalagens!

10) Cera Parquetina
Minha avó guardava muitos exemplares deste produto de limpeza para encerar os tacos da casa dela. O tempo passou e a dúvida permanece: o que era aquele mocinho magrelo, quase fazendo um spacato, que ficava desenhado na lata? Ele tinha um chapéu estranhíssimo, que parecia ser de um mensageiro de hotel. Mas o que diabos um mensageiro de hotel tem a ver com cera?

9) Leite Moça
Essa tinha tudo para estar no primeiro lugar da lista, mas acontece que, como já alertou Vivi, a discreta e clássica mulher com o baldinho na cabeça que estampou o rótulo dessa lata com 395 gramas de puro prazer foi substituída por uma moçoila mais, digamos, encorpada e sensual. A gente acaba se acostumando, mas que dá saudades da moça, primeira e única, ah!, isso lá dá.

8) Casa do Pão de Queijo
A tiazinha também aparece nas fachadas das lojas, mas achei que valia uma menção honrosa, visto que ela é a cara da Luiza Erundina, potencial próxima prefeita de São Paulo. Não sei quem desenhou aquilo, mas espero que tia Erunda esteja ganhando uns trocos por uso da imagem. Se ela não estiver e quiser processar, é caso ganho, a não ser que o juiz seja cego.

7) Lux Skincare Glicerina
Essa é bem nova: verifique se você tem em casa um sabonete da marca supracitada. Dê uma boa olhada na carinha da mulher que está na embalagem. Não é a Ana Paula Padrão? Vai ver o Jornal da Globo deu uma enxugada na folha de pagamento e dona Padrão teve de fazer uns bicos para manter o nome.

6) Chocolate em pó
O produto até ficou conhecido como "chocolate do padre", tamanho o sucesso desses dois simpáticos e gulosos padrecos que estampam a embalagem, de longa data. Esperamos que eles não sejam vítimas da modernização que sofreu a Moça do leite, senão na próxima despesa podemos topar com dois pastores da Bola de Neve Church raspando a tigela na caixinha.

5) Aveia Quaker
Quaker é o nome de uma linha de cristãos protestantes que têm fama de serem mais tolerantes. Mas sempre que vejo a figura da aveia me lembro daqueles tiozinhos puritanos tipo os pioneiros dos Estados Unidos, que queimaram a mulherada em Salem. Sabendo disso, por mais bonachão que o quaker que ilustra a aveia possa parecer, eu não confio nele. Se comprar uma dessas, sugiro que deixe o pacote virado com a cara dele para trás – e longe da caixa de fósforos.

4) Azeite Maria
Portuguesa com certeza, a dona que emprestou sua face para o tempero tinha um ar de brava. De lencinho na cabeça, não sei se ela foi a pioneira, mas é fato que hoje boa parte dos azeites têm suas respectivas mulherezinhas nas latas. E todas devem o respeito da conquista à Maria, essa visionária...

3) Seiva de Alfazema
Mais uma que conheci através da minha avó. Ela guardava o vidrinho azulado, com uma mulher de braços para cima, bem à vonts, desenhada no rótulo. Uma vez meu amigo Dener teve um problema nas costas e travou numa posição igualzinha à da moça do perfume. Foi uma coisa linda de se ver. Mas voltando à seiva: acho que tinha umas flores em volta também. Só que o cheiro não era tão inspirador quanto o papel colado ao frasco...

2) Cigarrinhos de Chocolate Pan
Uma das melhores iguarias da infância oitentista, sofreu com o advento do politicamente correto: as embalagens, que traziam menininhos de diferentes raças segurando o rolinho de chocolate como se fosse um cigarro, foram cortadas. Para mim, o produto acabou. O doce em si era uma tragédia e a graça era o lance do tabaco.

1) Palitos Gina
Aposto que essa mulher é reconhecida na rua. Ou talvez ande de óculos escuros, chapéu e uma capa para não sê-lo. E todo mundo deve chamar a moçoila (que hoje já não deve ser tããão moçoila assim, visto que ela está nas caixinhas de palitos desde que me conheço por gente) de Gina, mas sabe-se lá se esse é o nome dela. Aliás, eu cheguei a duvidar de sua existência – achava que ela era uma gente virtual, tipo a "S1mone" daquele filme – até que uma de nossas leitoras atestou que já trabalhou com a Gina (!). Tem coisas que só acontecem nesse reduto cor-de-rosa...

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E se ela se chamasse Rosana?
Clara McFly às 06:57 PM


Se aquela grana fosse minha...

Como faz questão de dizer orgulhosamente a senhora minha mãe, eu fui uma criança muito de bem com a vida. Não tenho traumas de quase nada que me aconteceu – exceto do dia em que meu pai me mostrou uma carcaça de peixe e eu tive que tomar água com açúcar. Mas quando o assunto é brinquedo, tenho muitos lamentos chorosos a fazer. Agüentem.

Nunca fui de pedir presente. Acho um saco quando me perguntam “o que você quer ganhar?” até hoje. Ô gente mais sem criatividade... Custa botar a cachola pra funcionar e inventar um presente bacana? E olha que eu faço festa até com bola de meia. Meus pais não perguntavam muito. Eu pedia pouco também. Juntando A com B, deu na frustração que deu.

Bom, eu recebi muito presente fantástico dos meus pais, conforme sonhado. Num Natal, ganhei uma linda bicicleta Caloi dobrável verde-musgo. No outro, uma boneca Mimadinha (que quebrou no primeiro dia de uso, pena não existir Procon naquela época). Tive ainda os patins de plástico que tanto quis, o Detetive que morri de jogar e até uma espetacular, celestial e barulhenta máquina de escrever Olivetti azul-Fusca!

Mesmo assim, fiquei sem certas preciosidades da infância 80. Não me conformo! Alguns eram caros mesmo, mas outros... mãe, explica por que eu não ganhei???

Cai-não-cai
Tenho a leve impressão que essa belezura não veio parar nas minhas mãos por um motivo simples: ofendia qualquer ouvido. Lembram? Uma torre de plástico, varetas espetadas no centro, lindas bolinhas de gude que caíam na bandeja conforme as varinhas eram puxadas. Nem se papai fosse surdo ele me daria isso... Ainda existe nas lojas. Mas agora não tem mais graça.

Genius
Vivi está de prova: a emoção de ter achado um desses na feira de antiguidades, meses atrás, me fez surtar. Foi tanta sede de apanhar o Genius que derrubei meia banca... Desastre! Imagina se quebra? Daí eu ia ter que comprar, consertar e passar tardes e tardes acionando as teclonas coloridas e musicais... Pensando bem, devia ter usado a desculpa e arrematado o dito cujo.

Bate-palminha
Que graça de boneca! Uma das minhas primas mais velhas tinha. Ela usava vestido de linha verde-água, sapatos brancos, meia. A boneca, não a minha prima, viu? Daí, colocando três pilhas grandes nas costas, a Bate-palminha cantava e... ok, vocês já entenderam. Não ganhei porque todos os adultos julgavam aquela bateção de palma um saco de aturar. Saco eram eles.

Jogo da Vida
Não tive, mas hoje recompensei. Não, não comprei pra mim mesma... Mas dei para minha doce sobrinha Isabella nesse Natal! Mudou um pouco na fachada, mas continua o mesmo: é preciso ficar esperto e cobrar o dia do pagamento, ter muitos filhos pra ganhar presentes, tomar cuidado com a Vingança... Deu quebra-pau entre as crianças? Lógico! Isso era o mais divertido.

Pense Bem
Um pré-computador para pré-adolescentes. Esse eu sei por que não ganhei: custava os tubos. Foi um dos poucos presentes que pedi na vida, mas nem assim. Nesse mesmo ano, levei a tal máquina de escrever – e passei a bater tudo que era trabalho da escola no aparelho. Será que isso me induziu a ser jornalista? Se tivesse vindo o Pense Bem, eu seria um gênio da informática? Diabos.

Mobilete
Tá certo: não era brinquedo, era um legítimo vale-transporte até o Pronto-Socorro. Não era segura, consumia combustível, era “roubável” demais. E já que não ganhei mesmo, agora posso contar: não, pai, eu NÃO IA circular só pelo bairro! Era mentira, e mentira da grossa! Eu ia mesmo era me aventurar por avenidas movimentadas e dar carona pra meio mundo. Escapamos de boa, hein?

Pogobol
Imperdoável. Não entendo até hoje por que, senhor dos céus, eu não pude ter um desses. Não custava tão caro, não era tão perigoso, não fazia ruídos altos! A bolota e as duas plataformas plásticas me encantavam pelo colorido e pelo inusitado. Tinha coisa melhor que passar as tardes saltitando com o Pogobol? Quando eu roubava o dos meus primos, não queria mais devolver. Se eu chorar bastante e pedir claramente, ganho um agora, mãe? Não? Chuinf...

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My preeeeeecious... come to Flávia!
Fla Wonka às 01:09 PM


Nada é o que parece ser

Estamos sendo enganados. Não eu, ou você, mas a humanidade toda. Fatos são encobertos, verdades são distorcidas, boatos são desmentidos e lendas urbanas são semeadas. Enquanto isso, pessoas permanecem conformadas com a rotina de ir para o trabalho, depois para a academia, para a mesa de jantar, para o chuveiro e para a cama, completamente alheias ao que está lá fora. E há alguma coisa lá fora. Ou vai me dizer que você não acredita em conspirações?

Para quem se interessa por algumas dessas histórias extraordinárias que sempre envolvem o governo dos Estados Unidos, a CIA, o FBI, Fidel Castro, os Kennedy, Atlântida, os aliens e os Homens de Preto, para dizer o mínimo, ou para quem acha que tudo isso é uma grandessíssima balela, a dica quente é a seguinte: o livro “Conspirações - Tudo o que não querem que você saiba”, escrito pelo jornalista Edson Aran e devorado por esta redatora em três noites, devidamente acompanhada por um saco de maçãs da Mônica. Por que diabos as maçãs da Mônica são as melhores? Seria essa uma conspiração do mundo hortifrutigranjeiro?

Trocando em miúdo, o livro de Aran é uma compilação das melhores teorias conspiratórias organizadas em verbetes cheios de informações e dicas – marinadas em uma deliciosa (e muitas vezes hilária) linguagem. Eu o li da primeira à última página, nessa ordem, porque sou uma garota cartesiana. Mas um verbete leva a outro, que leva a outro, e você pode ler a obra como quem navega pela Internet. Vai do gosto do freguês.

Desde os lemurianos até o 11 de setembro, tudo está lá. Ou melhor, quase tudo. Eu, particularmente, senti falta de um verbete sobre o Elvis (que não morreu naquele fatídico 16 de agosto de 1977) e sobre a Marilyn (que morreu de morte matada, com certeza – ou não). Mas o ponto mais do que positivo no livro é mostrar conspirações 100% nacionais, como o E.T. de Varginha, o caso P.C. Farias, Badan Palhares, a Elba Ramalho chipada e a tal instalação ultra-secreta nos confins da Unicamp.

Como uma crente nos mistérios desse universo muito louco da pesada no qual somos apenas um grãozinho de areia, tenho cá minhas conspirações favoritas. Inspirada nas páginas da obra de Aran – e emprestando dela algumas informações preciosas – vou pedir licença e mostrar quais as teorias que mais agradam aos macaquinhos no meu sótão.

Escritores do capeta
O mundo literário está repleto de conspirações, como não poderia deixar de ser. Dizem por aí que J.D. Salinger desperta assassinos adormecidos. “O Apanhador no Campo de Centeio”, seu livro mais famoso, era lido por Mark Chapman, assassino de John Lennon, e também por John Hincley Jr, que atirou em Ronald Reagan. Já Edgar Allan Poe matou uma garota de 21 anos para escrever um de seus romances. E Jim Morrison forjou a própria morte para se tornar o escritor Thomas Pynchon. Vai saber.

Pão-de-queijo do outro mundo
Eu adoro o E.T. de Varginha, não tem jeito. Tanto que, em 1999, fui até lá fazer um documentário para o projeto de conclusão do curso de Jornalismo na PUC. Admito que cheguei na cidadezinha mineira achando tudo uma piada sem fim. Mas voltei acreditando mais no bicho chifrudo de pele marrom e brilhante do que no teorema de Pitágoras. Entrevistei a Liliane, uma das três testemunhas que viram o E.T. em janeiro de 1996. Se aquela menina estiver mentindo, corto meu mindinho fora. Os dois.

O verdadeiro Graal
Essa é ótima: Jesus Cristo, aquele mesmo, se casou com Maria Madalena e teve pelo menos dois filhos com ela, Tiago e Sara. Depois da crucificação, a viúva foi para a França com um dos rebentos. Há quem acredite que esses filhos são o tal Santo Graal – mais do que uma taça, eles carregam o sangue de Cristo. E você acha que a Igreja ia liberar essa versão? A coisa complica um pouco, porém, quando colocam a dinastia merovíngia e os aliens de Sírius no meio da linhagem. Daí, até eu deixo de acreditar.

A Terra é um grande Piraquê de queijo
Tal qual o delicioso e barato biscoitinho salgado, a Terra é oca. Pior: lá dentro, ela é habitada. A nação chama-se Agartha. O povinho estranho se instalou nos subterrâneos depois da guerra entre a Lemúria e a Atlântida. Difícil de engolir? Então saiba que existem doze entradas para a tal civilização perdida, e três delas ficam – adivinha? – no Brasil. Uma em Manaus, uma em Mato Grosso e uma nas Cataratas do Iguaçu, em locais não divulgados. Tudo super fácil de achar, claro.

Controle populacional
Ah, Estados Unidos. Já pensou que a AIDS pode ser uma doença fabricada em algum laboratório norte-americano para ser usada como arma biológica? Muita gente já. Assim como a dengue teria sido criada como bioarma pela CIA para desestabilizar o governo sandinista da Nicarágua e o antraz enviado por carta após o 11 de setembro teria sido desenvolvido por um compatriota de Bush. Até o LSD, dizem, foi produzido pela cúpula ianque – para criar uma juventude alienada e sob-controle. Pense nisso.

Êta família pé-frio
Já dizia o Faustão: “fulano anda mais ocupado do que anjo da guarda dos Kennedy”. Isso porque a família vive com uma nuvem negra pairando em seu legado. E toda nuvem negra traz conspirações. John Kennedy foi morto por Lee Harvey Oswald em 1963. Realmente o cara estava lá armado. Mas há coisas mais estranhas nisso: a trajetória da bala, o fato de Oswald ter aparecido em um monte de lugar ao mesmo tempo dizendo aos quatro ventos que iria matar o presidente... Ele estava apenas se gabando?

Pisou na bola, hein?
A famosa frase “Este é um pequeno passo para o homem, mas um grande salto para a humanidade” foi proferida pelo astronauta Neil Armstrong quando ele pisou... Se você respondeu “na lua”, enganou-se. A resposta é “no deserto de Nevada”. Sim, as imagens da conquista do satélite pelos homens não passaram de um engodo bem feito, filmado em um estúdio de TV com várias fontes luminosas e muita areia no chão. Na verdade, o engodo foi mal feito, uma vez que há inúmeras falhas. Leia mais aqui.

A conspiração da conspiração
Se você assistiu aos filmes “MIB- Homens de Preto” com certeza deu muitas risadas com as palhaçadas de Will Smith e daquele sensacional pug chamado Frank. Aposto também que, se você gosta de ficção científica e aliens, deve ter assistido do primeiro ao último episódio de “Arquivo X”. Pois é isso que o governo dos Estados Unidos quer: pegar entidades malignas como os Men In Black e fazer tudo parecer piada, além de mostrar teorias conspiratórias na TV para ninguém acreditar nelas na vida real. Entendeu agora?

William Campbell rules
De todas, essa é de longe a minha favorita. Seguinte: Paul McCartney, o integrante mais popular da banda mais popular do mundo, sofreu um terrível acidente automobilístico em 1966 e partiu desta para uma melhor. Os engravatados produtores e a gravadora, claro, pressentiram que isso seria o fim dos Beatles. Eles então pegaram um sósia de Paul, William Campbell, e ficaram na moita. Os três membros remanescentes, porém, deram várias dicas da armação para os fãs. Vale a pena clicar aqui.

Lembre-se de que você tem todo o direito de desacreditar. Só não perca o bom humor, porque daí é que vamos todos parar na terra oca mesmo.

Vivi Griswold às 09:23 AM

segunda-feira, 5 de janeiro de 2004

Do macaco-rato ao demônio de fogo

Na bela Nova Zelândia, vive Lionel, um jovem com um complexo de Édipo mal-resolvido. Quando ele arruma uma namorada (que estranhamente se chama Paquita – lembre-se, estamos na Nova Zelândia), a mãe do moçoilo fica doida de ciúmes. Ela segue os dois até o zoológico, onde o casalzinho faz seu primeiro programa romântico. Lá, a velha é mordida pelo macaco-rato da Sumatra e, tchnãm!, vira um zumbi.

Se vocês pensam que isso saiu da minha mente doentia e pueril, estão muito enganados. Esse é o argumento de "Fome Animal" (Braindead), um dos primeiros longas de ninguém menos que... Peter Jackson. Sim, o mesmo Peter Jackson que hoje se encontra confortavelmente sentado por cima da carne seca em Hollywood, depois de ter comandado a transposição para as telas do épico literário "O Senhor dos Anéis".

Do macaco-rato da Sumatra, uma criatura toscamente animada em quadro-a-quadro, até o assustador Balrog, um demônio de fogo que enfrenta Gandalf na primeira e segunda partes da trilogia, podemos contar uma evolução e tanto. Não de talento, que o senhor Jackson já mostrava de sobra desde o excelente (e trash) "Fome Animal", mas de grana investida em suas produções.

Com a conclusão da trilogia "O Senhor dos Anéis", Jackson foi ovacionado por público e crítica. E olha que o homem merece. O último filme da saga, "O Retorno do Rei", não decepcionou os fãs do livro nem o público que jamais tocou num volume sequer das brochuras de Tolkien.

Bom, eu gostei. Embora seja o tipo de filme ao qual você vai não para saber o que acontece – afinal, se você esteve minimamente atento à história, já sabe quem é o tal rei e, ligando isso ao título, já sabe que o dito cujo vai retornar, o que significa que a Sociedade do Anel vai triunfar. O grande ponto é saber como a gang do Um Anel fará o serviço, e com que imagens sêo Jackson vai contar essa fábula.

O mais legal é que Frodo, depois de cumprir sua missão, deveria deixar de ter aquela cara de estagiário e fazer parte da presidência – inclusive colando um daqueles adesivos escrito "Só diretoria" se ele tiver um Opalão para passear pela Terra Média. Mas cheguei à conclusão de que o pobre hobbit nasceu assim mesmo, com a expressão de susto constante. Faça um bom emprego de sua graninha e corra até o cinema mais próximo para ver. Depois, você me diz se Frodo não continua com aquela cara de estudante que acaba de participar de uma dinâmica para conseguir um estágio, com direito a vale-transporte, ticket refeição e seguro de vida. Mas sem plano de saúde. Isso é só para os registrados.

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Alguém tem de fazer o serviço sujo...
Clara McFly às 06:39 PM


Carpe diem, molecada!

As férias das Garotas acabaram! Estaria mentindo se dissesse para vocês que não foi bom dar um tempo para reciclar as idéias... Entre pedaços de bolo da mamãe e filmes antigos, tive dias de princesa desocupada – o que foi bem divertido. Para mim, o trabalho está de volta. Mas ainda tem gente vagabundeando por aí! E é com esses que a Flá precisa ter uma conversinha.

Férias servem para curtir ao máximo e perder responsabilidades. Não me venha dizer que você precisa passar no banco ou arrumar o armário ou cortar o cabelo! Essas atividades só estarão desculpadas se você for ao banco, sentar na frente do gerente e disser “eu vim pedir um milhão de reais emprestado”, pra ver a cara do cidadão. Ou se você arrumar o armário e fizer um desfile pela casa, para a família toda, usando suas saias hippies e blazers que foram moda em 1982. Ou cortar o cabelo e pintá-lo de azul.

Senão, pode ir deixando de lado tarefas chatas e sem sentido – ou a impressão que ficará dessa fase de ócio será aquele vazio interior e o pensamento “droga, passou rápido, ainda estou cansado feito um asno”. Desculpem se, nessa descrição de um verdadeiro dia de descanso, eu exagerei na comilança ou fiz a vida parecer fácil e besta. Mas que esse devia ser o objetivo de todo cidadão em férias, lá isso devia ser.

Hora de acordar
Tarde, por sinal. Mas não muito, que passar o dia entre cobertas é legal quando se está gripado e com coriza. O importante é fazer essa parte lentamente. Abre o olho, espreguiça, pensa na vida, rola no edredom, dá um grito selvagem. Daí levanta e vai virar gente, fazer a higiene pessoal. Atenção: pessoas em férias precisam de banho tanto quanto os demais proletários.

Café matinal
Em linhas gerais, pode ser composto apenas de um pão com manteiga na chapa – o que minha amada mãe chamava de X-miséria – e um copão de leite com chocolate. Se for Ovomaltine, a felicidade está garantida. Beber fazendo barulho, com canudo, rende mais 5 anos de vida. E tem que acontecer na frente da tv, em meio à roupa de cama amontoada, assistindo programas femininos que ensinam a fazer pintura em vitral. Não cuspa o leite de tanto rir.

Pré-almoço
Tempo de inventar algo divertido pra fazer, como meter um CD anos 70 no som e dançar de pijama fingindo ser popstar. Nota da redatora: colheres de pau costumam dar ótimos microfones-falsos. Se quiser arriscar num admirável mundo novo, vá à feira. Preste atenção nas pessoas, nas sardinhas de olhos vidrados da barraca de pescados, no cheiro das frutas. Compre um pastel de pizza e umas margaridas! Leve pra alguém (as margaridas, não o pastel, que esse é conquista sua)! Se for para a sua mãe, contará ponto no céu. Se fosse para mim, chorava de emoção, porque margaridas são as minhas prediletas.

Almoço
Por Alá, nada de fazer miojo em casa! Dia de férias é oportunidade de: a) mandar ver numa massa gostosa de cantina modesta; b) visitar aquela tia que cozinha como ninguém; c) convidar um amigo em não-férias para papar e fazer invejinha de que VOCÊ não precisa voltar ao trabalho.

Pós-almoço
Se fosse eu, comprava logo um ingresso de cinema e iria assistir qualquer tranqueira. De preferência, comédia besta. E, óbvio, com um pacote indecente de pipocas no colo. Mas essa etapa também pode ser substituída por uma incursão à maior loja de CDs ou sapatos ou revistas ou eletrônicos da cidade (o tema do estabelecimento vai ao gosto do freguês-em-férias). Fliperama também é uma ótima opção! Pinball, claro.

Tardinha
Bom seria rechear esse espaço-tempo com uma Ferrari GT Califórnia, dois amigos nerds e um desfile alegórico no meio da cidade ao som de “Twist and Shout”... Demorou pra eu apelar ao “Curtindo a Vida Adoidado”, não? Mas, se não for o caso, também há a opção de tomar um café com rosquinhas em local bonito ou voltar para casa e puxar um ronco. Ah, droga: você trabalhou feito um burro velho, tonto e piolhento o ano inteiro! Merece toda a soneca que puder tirar. Só não vale cair em desgraça e assistir “Malhação”!

Noitinha
Que tal combinar uma happy hour com os pobres colegas que estão na labuta? Aposto que eles vão curtir levantar um brinde e saber sobre o seu dia divertido de vagabundo. Invente umas partes, pra ficar melhor... Diga que encontrou a Sandy no shopping e ela estava comprando calmantes ou que escapou de ser esfaqueado por um hare krishna fora de controle do qual você se recusou a comprar incensos. Sempre anima o ambiente.

Noitona
Dormir? Há! A noite é uma criança para quem não movimenta a economia do país! Alugue um filme, assista à sessão de exorcismo que passa na tv aberta de madrugada, tire fotos antigas do fundo do armário e reveja tudo... Também há tempo de parar dois minutos, apanhar um copo de groselha e pensar sobre o que fazer no dia seguinte de férias. Êta vida besta, hein?

Fla Wonka às 01:07 PM


Minhas férias

1987

As férias foram legais. Pena que acabaram. E agora tenho de escrever a redação porque a professora Sônia pediu. Eu obedeço porque quero passar de ano. Ganhei uma bicicleta do Papai Noel, mas ele errou a marca. Vai ver que não fabricam Caloi Cecizinha lá no Pólo Norte, então ele me deu uma Monark mesmo. Mas eu queria Caloi, porque eu adoro a propaganda dos bilhetinhos. Vai ver foi por isso que ele me deu uma Menina-Flor também – ela é um vaso que se transforma em boneca de cabelo cor-de-rosa igual o daquele cantor estranho, o Boy George.

Vó Diva fez bacalhau de novo. Eu odeio bacalhau. O Lucas, meu primo, também. Daí a gente comeu quibe. Onde já se viu comer quibe na ceia de Natal? Meu outro primo, o Thiago, gosta de bacalhau. Mas aquele gosta de qualquer coisa, até de pedra. Daí a gente fez guerra de vagem na mesa das crianças. É só botar a vagem da salada de legumes na toalha e dar um peteleco para acertar no outro. É divertido. Pena que adulto sempre dá bronca quando brincamos com a comida.

No Ano Novo o vô Justino deixou a gente beber champanhe. No rótulo da garrafa vem escrito “sidra”, que deve ser a marca. Parece Tubaína, só que azeda. A rolha voou lá na horta e fomos procurar. Dessa vez teve peru, mas eu e meus primos começamos a brigar pelas coxas. Peru só tem duas, e nós somos em três. Por causa da briga, ninguém pegou a coxa. “Estão felizes agora?”, disseram. Não estávamos. Queríamos um peru de três coxas. Ou de seis, para ter duas para cada um.

Depois da ceia a gente foi nos balanços do quintal. Começou a chover. A gente adora ficar balançando na chuva. Nossa roupa branca ficou encardida, mas daí a gente pôde falar “agora, tomar banho, só no ano que vem”. O ano que vem viria depois de algumas horas, mas era divertido ficar repetindo isso. “Almoço, agora, só no ano que vem”. Rarará.

Fui para Piracicaba com o Lu e o Thi. Eles moram lá. No quarto deles tem um armário gigante e, quando a gente abre, até cai brinquedo na cabeça. Posso brincar com todos os Playmobil e Comandos em Ação. Ninguém quer brincar com a minha Barbie. Mas tudo bem, porque depois do almoço a tia Leca deixa a gente ligar o Atari e ficar jogando Frostbite. Depois de duas horas, ela põe a mão no videogame e, como ele está quente, ela pede para a gente desligar. Droga.

Comemos pamonha e andamos de bicicleta na frente do prédio. Eu caí e machuquei meu joelho. Bem em cima da casquinha da ralada que já estava sarando. Tia Leca veio com o merthiolate. Só de sentir o cheio daquilo eu já comecei a chorar. “Não vai doer, eu assopro”. Sei. De noite, ela ligou para minha mãe e disse que eu armei um escândalo por causa de um machucadinho. Isso porque não foi no joelho dela. Queria ver. Se minha mãe soubesse de todos os palavrões que ela me ensina.

Daí fui para São Vicente na casa da vó Nena. Gosto do apartamento dela porque lá a gente só come sanduíche de mortadela no pão fresquinho e bebe Tang de laranja. Mas eu não gosto da TV, que não pega de jeito nenhum. Meu ouvido ainda está tampado de descer a serra. Vó Nena diz para eu levantar a cabeça e abrir a boca, que ele destampa. Não funciona.

O dia está nublado e chovendo. Peço bem forte para São Pedro parar de lavar o quintal. A chuva pára e daí aparece um tantinho de céu azul no meio daquele monte de nuvem. Grito para a vó Nena que o tempo melhorou e a gente vai para a prainha. Queria mesmo ir para a outra, com ondas, mas a vó Nena só me deixar ir na pequena que mais se parece com uma poça de água salgada. Por causa da chuva, a areia está cheia de gravetos. Assim não tem graça.

De volta para a minha casa, começo a arrumar o material escolar novinho que mamãe está comprando. Ela até me deu essa caneta de quatro cores. Quatro cores! Por isso eu escrevi a redação assim, toda colorida. Ficou bom, professora?

2004

Não passei o Natal e o Ano Novo na casa da minha avó. Não tem mais balanço no quintal. Não existe mais a mesa das crianças. Descobri que Papai Noel não existe e que sidra não é champanhe, como meu avô dizia. Tia Leca continua boca-suja, mas voltou de Piracicaba. O Lucas está fazendo um curso em algum lugar da França e o Thiago, que cursa Artes Plásticas na Unicamp, não faz mais guerra de vagem. Vó Nena morreu há três anos e faz uns 15 que eu não vou para São Vicente e para a prainha. Nunca mais tive férias assim, e nunca mais precisei descrevê-las em uma redação – até agora. Bom estar de volta, leitor.

Vivi Griswold às 09:51 AM

sexta-feira, 2 de janeiro de 2004

Aqui nesse mundinho fechado

Sim, eu sou do tempo do Lollo, da Kolynos e do Dip’n’lik. Completei o álbum de figurinhas do Jaspion e Changeman. Passei horas me divertindo com a Chuquinha, Fofolete, Moranguinho, Snif-snif e Lu Patinadora. Tive a unha do dedão do pé arrancada pelo Kichute do meu irmão. E era ele também quem compartilhava comigo o joystick retangular do Master System II (aquele com o Alex Kid na memória). Enfim, sou cria dos anos 80.

Mas apesar de eu, como a maioria dos nascidos nessa época, idolatrar esses ícones do passado, não são eles os personagens principais das minhas mais queridas memórias de infância. Os momentos que mais deixaram saudade foram aqueles recheados de criatividade, nas quais, em companhia do Rafael (meu irmão) ou das amiguinhas, me deixei levar pelo mundo da imaginação (sem nenhuma relação com a Xuxa, de quem, aliás, nunca gostei).

Sem mais delongas, aí vai minha humilde tentativa de resumir vários anos felizes num simples Top 10...

10) Day-care em órbita
Se algum pai ou mãe já teve vontade de mandar o filho pro espaço, na nossa cabecinha isso era possível, e não era nem de longe uma má idéia. Era, isso sim, uma diversão que consumia várias manhãs aqui em casa, enquanto mamãe tentava em vão tirar eu e o Rafa da cama. A cama, aliás, não era cama. Era uma nave, a Nave do Lençol, na qual funcionava uma espécie de creche comandada pelo... lençol! Papais ocupados deixavam seus filhos (nós dois e os bichos de pelúcia) aos cuidados do bondoso pedaço de pano, que era também o piloto do jardim-de-infância espacial. Mas o melhor apetrecho imaginário da Nave era, sem dúvida, a máquina de comida, que produzia X-tudos e sundaes com um simples toque num botão. De matar de inveja...

9) Almofada de estimação...
Um dos meus melhores amigos dentro da Nave era o Truve (o nome vem de truvesseiro, assim mesmo, com U). O Truve tem metade do tamanho de um travesseiro normal, mas desconfio que na verdade ele seja muito menor, pois cada vez que a capa ficava feia, minha avó costurava outra por cima sem tirar a anterior. Amigo fiel e confidente, Truve entrou na minha vida numa noite em que minha mãe, cansada de ouvir meu chororô sobre o medo de dormir sozinha, pegou a primeira coisa que viu na frente e falou: “toma, filha, abraça isso e me deixa dormir”. Abracei e nunca mais larguei. Durmo com o dito-cujo até hoje, beirando os 20 anos. E ele, mesmo não sendo mais meu coleguinha de Nave, continua sendo a melhor companhia quando algo me entristece.

8) ... e bicho que é quase gente
Primeirona na minha lista de amigos não-humanos, a Pink, nossa vira-latinha preta e marrom, alegrou meus dias durante 12 anos. Era perita em primeiros socorros, servindo de enfermeira quando eu e meu irmão brincávamos de simular acidentes entre a Moto Fera e o Fórmula 1, cada um pilotado por um de nós. O final da história era sempre o mesmo: alguém estirado no chão fingindo que estava machucado e chorando, e a pobre cachorrinha toda preocupada, latindo, lambendo e batendo a patinha até ter certeza de que estava tudo bem.

7) Latido S/A
Que melancia na cabeça que nada! Para aparecer, eu e minha amiga Daniele tínhamos uma receita melhor: quatro cachorros (três meus e uma dela). Nós duas éramos as organizadoras (e únicos membros) da Tarde Canina, que para a gente era uma diversão, mas para os pobres totós devia ser uma sessão de tortura. Afinal, durante uma tarde inteira eles eram lavados, escovados e obrigados a vestir toda sorte de acessório constrangedor para um cão, como chapeuzinhos, lacinhos, roupas com babados e crachás de identificação. Como se não bastasse, ainda levávamos a turminha para desfilar enfeitada pela cidade, e ríamos horrores com os olhares das pessoas e a confusão causada pelo emaranhado de coleiras. Anos depois, espero sinceramente não ter causado trauma nos cãezinhos...

6) Missão (quase) impossível
Quando se é criança, a própria casa pode ser uma aventura. Por isso, uma das coisas mais radicais de quando eu e Rafael tínhamos 6 e 4 anos era o que chamávamos de “fazer expedição”. Basicamente, sair da cama no meio da noite, seja lá por que motivo fosse. Combinávamos o plano nos mínimos detalhes, com direito a mapinhas em código, e depois que nossos pais dormiam, era hora da ação. Pegávamos nossas mochilas, lanternas, e íamos, pé-ante-pé, explorar a casa. Cada expedição tinha um objetivo, mas as que mais me marcaram tinham como propósito roubar uma caixa de Bis da cozinha e descobrir (na noite anterior à Páscoa) o esconderijo dos ovos de chocolate. Bons tempos de adrenalina fácil.

5) Money que é good nóis num have
Tá bom, eu confesso: fui uma garotinha mercenária! Não sei que atração era essa que eu tinha por vender as coisas. Aos 4 anos, fazia desenhos e colocava-os à venda na porta de casa. Aos 6 ou 7, comprei um conjunto de canetinhas coloridas, sentei no degrau da varanda e coloquei uma plaquinha: “faço tatuagens”, com o preço anexado embaixo (com direito a mostruário, uma folha de caderno com os vários modelos à disposição do cliente, entre eles uma árvore, um coração, um boneco de palitinhos). Ainda fiquei decepcionada porque, durante a tarde inteira, não apareceu nenhum candidato disposto a fazer uma tatoo com canetinha hidrocor. Mas a coisa ficou grave mesmo quando, na mesma época, distribuí panfletos que anunciavam: “venham ver crianças balançando na rede. Preço X”. Não sei por que motivo passou pela minha cabeça que alguém iria pagar para ter o imenso prazer de nos observar brincando...

4) Quem disse que farofa é só na praia?
Meu pai costuma dizer que “a pobreza não tem graça”. Discordo. Uma das épocas mais felizes de que me recordo era quando não éramos sócios de clube nenhum e, aos domingos, íamos para uma rua deserta num lugar bem alto da cidade, com uma vista linda e árvores em volta. A programação do dia incluía piquenique, voltinhas de bicicleta (aliás, ainda existem aqueles suportes de levar bicicletas atrás do carro?), patins e bola. Papai, mamãe, filhinhos, cachorro e um domingo de sol... quem precisa de mais?

3) Como nascem os bebês
Mais uma da série “brincadeiras para enrolar na cama na hora de acordar”. Era nessas horas que meu irmão e eu gastávamos todo nosso escasso conhecimento biológico, acumulado às custas de muitas perguntas na incômoda fase dos porquês. A cama era a barriga da mãe, e nós estávamos lá dentro. Havia “soldadinhos” que defendiam o lugar dos “bichinhos inimigos” (que mais tarde fomos saber que se chamavam, respectivamente, anticorpos e bactérias). Quando chegava a hora de “nascer”, íamos escorregando por baixo das cobertas até cair do lado de fora da cama, ajudados pelos soldadinhos e outras células gente-boa. Fala a verdade, é muita imaginação, né?

2) Censura 12 anos
Um pouco mais tarde, procuramos respostas mais concretas para dúvidas a respeito da perpetuação da espécie. E já que não dava pra constranger os pais a toda hora com perguntas (que muitas vezes envergonhavam mais a nós do que a eles), eu e minha amiga Kenya seguíamos o que se aprende na escola: em caso de dúvida, consulte os livros. Desenvolvíamos verdadeiras táticas de guerrilha para surrupiar da enciclopédia da mãe dela os volumes que falavam sobre aparelho reprodutor e coisas do tipo. Depois de um tempo boquiabertas com cara de quem descobriu a América, passávamos o mesmo sufoco pra devolver o dito-cujo à estante. Vai saber: dizem que curiosidade mata, era melhor não arriscar.

1) MPB – Musiquinhas de Puro Besteirol
É fato sabido e confirmado que pessoinhas na pré-adolescência acham a maior graça em termos escatológicos e palavrões de qualquer espécie. Pior quando resolvem aliar o talento para piadas sujas a um certo potencial artístico. Assim surgem musiquinhas lendárias, como “sabão crá-crá”, e aquelas riminhas do tipo “eu... banheiro... empregada... alguém abriu a porta e (xxx) a pessoa errada”... Bom, vocês sabem do que eu estou falando. Nosso grupinho (um grupo musical, se é que se pode chamar assim), além de repetir as pérolas propagadas no colégio, também tinha criações próprias, coisas do tipo “estou tão apertado, e o banheiro ocupado, estou tão apertado e o meu irmão tá lá dentro entalado”. Poesia pura! Melhor era o nome: Kavamipridanke, formado pelas iniciais das seis integrantes (que não serão citadas aqui para evitar processos por calúnia e difamação).

Por Vanessa

às 05:12 PM


Mã-nhê!

Depois de alguns (muitos) anos após minha tenra infância, a coisa mais gostosa que se tem pra fazer é lembrar com os amigos tudo de bom que acontecia naquela época e que não acontece mais. Fala a verdade: não tem coisa melhor do que descobrir que a sua infância era melhor que a do seu colega de trabalho, ou que os seus pais não ligavam para sua bagunça enquanto seu amigo lamenta as tardes de sábado de castigo só por causa do guarda-roupa desarrumado.

É por essas e outras que nada melhor do que um Top 10 das melhores lembranças da infância. Coisa que mesmo se quiséssemos, não teríamos como repetir. Afinal só tinha graça naquela época, não é mesmo?

10) Visita do Primo da Capital
Férias naquela época sempre foram boas, mas quando o "primo da capitar" chega para uma visita, a coisa melhora de figura. Com ele vem os famosos hits que fazem sucesso na cidade grande, a nova moda, os barzinhos, as meninas e as coisas que só acontecem na capital.

9) Sarau
Como já entreguei que sou caipira, nada melhor que chutar o balde de vez. Na minha cidadezinha querida, todo sábado era dia de "sarau no clube". Os meninos se produziam, as meninas ficavam cheirosas e arrumadas e lá ficávamos ouvindo The Cure, Smiths e outros sucessos dos anos 80 (alguém se lembra de Frankie Goes to Hollywood?). Só não me perguntem por que chamavam isso de sarau...

8) Dormir na casa da avó
Essa é show de bola e só funciona mesmo na infância (ou alguém aqui ainda agüenta uma noite de sábado vendo o SBT na companhia da coroa?). Quando eu chegava lá para o fim de semana, tudo já estava pronto: o leite, o chocolate, o refri, os brinquedos... Era o final de semana que pedia a Deus! E olha que eu até agüentava o Domingo no Parque do sêo Silvio, meu xará. Afinal, eu já estava entupido de guloseimas e nem notava o que acontecia ao meu redor...

7) Presentes
Ah, não vá me dizer que você, marmanjo, ainda ganha presente de aniversário e Natal... Não sei o que acontece, mas de repente o pessoal acha que você não precisa mais ganhar presente e que basta aparecer no boteco e te dar um tapa nas costas e ainda dizer: " tá ficando velho, hein?". Cadê os presentes!? Hein? Hein? Confesso que sofri quando descobri que não iria mais ganhar Falcon, Playmobil, carrinhos de ferro da Matchbox... Sacanagem.

6) Mesa das crianças, mesa dos adultos
Em casa, a pirralhada aparecia às pencas nas festas de fim de ano – e nada mais justo que deixar uma mesa só para os mocinhos e mocinhas. Nossa mesa era organizada e controlada por nós mesmos, deixando os adultos chatos e as saladas de alface e espinafre longe dali. Foi um trauma (mas com uma pitada de orgulho) quando fui "convidado" a sentar na mesa dos adultos no natal de 88.

5) Férias em família
Bom, as minhas férias em família não chegam aos pés da família Griswold, mas eu tenho guardadas com carinho as situações mais hilárias que passei quando íamos todos viajar. De estradas erradas à férias em “Ubachuva”, tudo já aconteceu. Uma pena que depois de crescidos cada um vá para um lugar diferente, pois eu iria adorar ficar 7 horas fingindo ser sardinha numa Caravan a caminho da "capitar" visitar os primos.

4) Bailinho
Eu adorava, especialmente quando começavam as músicas lentas. A tia Nilza (uma versão cover da Mirtes) levava as bebidas (refrigerantes e sucos), a luz diminuía, as meninas num canto esperando os meninos... E os meninos do outro lado esperando as meninas... Sorte minha que eu sempre tinha meu parzinho cativo nesses famigerados bailinhos: a vassoura.

3) Excursão de escola
Nessas horas, valia tudo, desde excursão ao zoológico ao coreto da esquina com a professora de desenho. Íamos todos de mãos dadas atravessar as ruas ou em ônibus lotados e barulhentos que nos levavam a um dia todo de bagunça longe dos pais. A gente ia arrumado, esperando impressionar as garotas da classe. Levávamos uma mochila cheia de tranqueiras e ainda por cima ficávamos o dia todo fazendo tanta bagunça que um dia minha mãe surtou. Fui ao zoológico e voltei rouco de tanto berrar, gripado por causa do excesso de sorvete e vermelho como um pimentão. Bicho? Que bicho? Não vi nenhum!

2) Amigos invisíveis
Levanta a mão quem não teve? Eu, na falta de um, tinha dois que me acompanhavam por todos os lados nas aventuras mais bacanas. Hoje em dia eu sinto um pouco a falta deles, mas sei que eles estão bem e aproveitando o merecido descanso. Como Calvin, eu imaginava que todos viam esses meus amigos, e não ligava nem um pouco de sair correndo pela casa brincando com eles.

1) Colo dos avós
De tudo o que descrevi aqui, é do colo dessas criaturas que eu sinto mais falta. Das cantigas, dos carinhos e dos mimos. Meus avôs não estão mais por aqui e minhas avós já velhinhas não conseguem carregar um bezerrinho (como elas... hum... carinhosamente me chamavam) de quase dois metros de altura no colo. Mas toda vez que apareço lá para uma visitinha, não canso de ganhar os mesmos mimos e carinhos.

Por Silvio

às 12:59 PM


Será que é só comigo?

Se há um dia tão ansiosamente esperado quanto a excursão ao Playcenter em nossa infância, é a data do aniversário. Uma ocasião especial em que você é o centro das atenções da família, ganha presentes, puxões de orelha, chuvas de ovos na saída da escola...

Mas comigo a coisa sempre foi um pouco diferente. Eu não gosto do meu aniversário. Eu não gosto especificamente do dia em que minha mãe me entregou a esse mundo doido – 02 de janeiro, estrategicamente situado no pós-Natal/Ano Novo/ressacas.

O caro leitor pode estar se perguntando: o que tem demais em fazer aniversário nesse dia? Vamos aos fatos:

1) Festas na escola
Uma das maiores frustrações dos meus quase vinte e cinco anos de vida é nunca ter ido à frente da sala de aula para dizer para a professora que era meu aniversário e ouvir a turma toda cantar parabéns. Por esse efêmero momento de estrelato eu engoliria a vergonha e me sujeitaria à possibilidade de virar uma “omelete girl” na hora na saída.

2) Todo mundo em férias
Já que eu não podia festejar na escola, festejava em casa, certo? Errado! Quem estaria em casa em plenas férias de verão? Logo depois do Ano Novo o pessoal ainda estava subindo a serra.

3) Dia mundial da ressaca
Aqueles que continuavam na cidade, em pleno dia 02, estavam vivendo à base de Estomazil, sem muito pique para salgadinho gordurosos ou bolos cobertos de chantilly.

4) Tudo está fechado
Se ainda assim eu fosse forte e teimasse em fazer uma festa, eu teria de encomendar tudo com muita antecedência, antes que as reservas de fim de ano esvaziassem os estoques de confeitarias e afins. E se deixasse para a última hora, nem encontraria os benditos estabelecimentos abertos.

5) It's raining again
Não bastassem os problemas práticos, São Pedro também não colabora comigo. Nem me lembro de algum aniversário em que tenha deixado de cair uma inoportuna chuva de verão, que estragou os planos mais diversos.

6) Dois pelo preço de um
Esse deve ser o pior. Como a data em questão é próxima do Natal, eu cresci ouvindo que um só presente valia pelas duas ocasiões. Dizem que as pessoas de capricórnio são melancólicas e pessimistas – mas como não ser, convivendo com essa máxima da economia doméstica desde a mais tenra idade?

7) Esqueceram de mim
O problema da escola se repete aqui no ambiente de trabalho. No meu último emprego, feita a escala de quem trabalharia na semana do Ano Novo, a única pessoa que trabalharia comigo no fatídico dia faltou. E eu passei o dia sozinha em uma biblioteca deserta.

8) Nem que fosse um chaveirinho
Outra frustração. Nunca ter nem podido participar daqueles sorteios típicos em aglomerações populares: "Quem fizer aniversário hoje, venha até o palco e ganhe um frango assado". Nunca tem show, bingo, quermesse ou algo que os valha no meu níver.

9) Adeus Ano Velho
O caro leitor teve ter notado o tom reclamão do texto, mas é o próprio reflexo da época. O usual sentimento de melancolia e auto-análise do fim de ano se alia à sensação de estar ficando mais velha. O que torna a ocasião duplamente causadora de baixas na auto-estima.

10) ?
O décimo motivo fica em aberto. Poderá ser a frustração de ter aberto meu coraçãozinho oitentista para vocês nessa época tão significativa e não ganhar nem um guarda-chuvinha de chocolate. Ou então como em um bom final de comédia romântica, a heroína sofre, sofre mas no fim seus dias cinzentos e chuvosos ficam para trás. Já estou ouvindo a trilha sonora: “Feliz aniversário, envelheço na cidade”...

Por Cristiane


* * * * * * * *


Nota do Garotas: Parabéns, Cris!

às 09:12 AM

quinta-feira, 1 de janeiro de 2004

Saia justa ou balonê?

Sempre que a família se reúne no Natal, minha mãe adora lembrar as histórias de quando eu e meus irmãos éramos mais novos. Não achamos chato, não, porque nos divertimos em lembrar que houve uma fase de nossas vidinhas inocentes em que íamos “fantasiados” para a escola.

Não era Dia das Bruxas, não era Carnaval, mas insistíamos em assistir às aulas (nessa época a gente aprendia a pintar dentro do espaço e fazia nossos próprios brinquedos com massinha) com figurinos que faziam mamãe morrer de vergonha.

Meu irmão simplesmente não ia para o maternal sem sua camiseta do Super-Homem. Tinha capa e tudo! E esta que vos escreve fazia questão das unhas vermelhas e chapeuzinho de festa. Parecia um mico de circo. Mas até aí, tudo bem, éramos pouco antenados no mundinho fashion. O que não tem desculpa mesmo é o figurino pré-adolescente dos anos 80. Listei dez itens básicos que me fazem corar de vergonha – e aposto uma tiara da Pakalolo como você também tinha.

10) Calça Bag ou Semi-bag
A idéia só podia ter vindo da terra do Tio Sam. Um diabo de jeans que não se ajustava em nenhuma parte do corpo que não fosse as canelas era item de série no guarda-roupa da geração oitentinha. Alguns modelos tinham o cós bem acima da cintura e eram conhecidos com “Saint-Tropeito”.

9) Saia Balonê
Se não me engano, foi a Xuxa quem divulgou o apetrecho. E lá iam as mamães comprar a saia com nome francês e visual de festa junina (a delicada peça parecia mesmo um balão).

8) Saia longa, cintão e bota
Minha mãe quis morrer quando viu uma amiga minha vestida de Karina, a personagem de Maria Zilda em Hipertensão. Parecer com a personagem que interpretava uma estrela de teatro mambembe, pra lá de independente (e cuja trilha sonora era Glory of Love, do Peter Cetera), era tuuuuuuudo, mesmo que a saia nunca ficasse completamente cheia e a bota dançasse em canelas tão fininhas.

7) Melissinha
Tinha a que vinha com a pochetezinha, a que imitava alpargatas, a que vinha com relógio. Não faltavam modelos e cores para as meninas que queriam andar na moda. Fora que a campanha publicitária era estrelada por lindas ruivinhas sardentas. A gente nem dizia que aquilo dava um chulé desgraçado.

6) Coisas da Pakalolo
Nunca mais vi a loja cujo slogan era “De bem com a vida”. Tudo nela era “fluorescente”, mas a gente nem sabia o que era rave. Os hits eram as chuquinhas de tecido franzido e as tiaras, que mais pareciam um headphone fofo e que, com o tempo, ficavam largas e empurravam o cabelo da gente para a frente.

5) Sapato Canadian
Como tudo que se prezasse nos anos 80, bastava ter um nome importado para cair no gosto da garotada. O sapato “canadense” liderava as vendas nas lojas de calçados, pois meninos e meninas podiam usá-lo. Era par constante da calça bag ou semibag e parecia, na verdade, um jacaré amarrado. Até hoje podemos encontrar modelos parecidos com esse exemplar magnífico da nossa infância. Mas eles vêm desacompanhados da calça em questão.

4) Bota branca de cano alto
Malditas paquitas, pobres de nós! Ter bota branca de cano alto foi o must de uma era. Toda menina queria ser paquita, ter algum apelido esquisito dado pela Xuxa e usar as tais botas. Menos eu… Minha mãe, sabiamente, não me deixou entrar na onda dos pés engessados (ela achava que a bota lembrava gesso mesmo), o que me fez desistir de descolorir os cabelos também (obrigada, mamãe, eu não ia ficar bem com aquela roupa de soldado).

3) Vestido trapézio
Como a moda vai a vem, parece que esse modelo de vestido foi um remake dos anos 60. Tinha de toda estampa possível e depois foi ganhando outros contornos e sendo usado com legging e keds branco (outro que dava um chulé do cão).

2) Japona colorida
Vários chicletes coloridos. Era assim que eu me sentia no meio da criançada da escola, quando fazia frio. Todo mundo tinha “japona”, a vovozinha da jaquetas de hoje. A minha era azul, tinha gorro e, como a de todo mundo, fazia um barulhinho gostoso de plástico raspando em plástico.

1) Minijaqueta jeans
Para mim, esse foi o grande marco do guarda-roupa esdrúxulo dos anos 80. Explico o porquê: imagine uma garota, com os cabelos devidamente repicados, usando uma calça para cima da cintura, com a canela ajustada, uma camiseta grandona e com o incrível toque fashion de uma jaquetinha jeans que começava três dedos para cima do umbigo, deixando a camiseta parecer uma saia por cima da calça. Conseguiu imaginar? Agora coloque ombreiras nessa jaqueta e me diga se estou certa ou não.

Por Ana

às 05:18 PM


Tipos estranhos da minha infância

Ao redor dos anos 80 existe uma nuvem que embaça tudo e que nos faz perguntar se aquilo realmente existiu. Seria possível que toda uma coletividade pudesse usar aquelas roupas e cabelos? É mesmo verdade que tais programas de TV, músicas e filmes foram aplaudidos por toda uma geração? E, sobretudo: aquelas pessoas que nos rodeavam eram humanas? Decidi vencer meus medos e mergulhar no universo 80s para eleger os tipos mais estranhos da infância.

10) Space Ghost
Tá certo, o cara traz a esquisitice no nome, mas sua obsessão por matar insetos gigantes me faz pensar que ele talvez fosse financiado pelo Detefon. Ele vivia com um colan branco, na companhia dum macaco mascarado, nunca mostrava o rosto e vivia no meio do nada. Sempre desconfiei desse cara e, mesmo agora, sabendo que se tornou um apresentador de talk-show respeitado, não consigo parar de olhá-lo de soslaio.

9) Príncipe Namor
Esse aí tinha asinha nos pés, vivia com uma sunga estranha, quando falava ficava com o corpo todo imóvel e só a mandíbula se mexia e tinha uns ataques de depressão e melancolia que embrulhavam o estômago. Acho que nunca me acostumei a assistir “O Homem do Fundo do Mar” por trauma do Namor.

8) Haniel
Esse você decerto não conhece. Foi meu colega durante todo o primário, na época em que primário se chamava primário. Ele era um cara magrinho e aparentemente pacato, mas a menor contrariedade seus olhos ejetavam e ele começava a bufar e dizer: “eu vou te matar! Eu vou te matar! Eu posso ir pra cadeia, mas eu juro que te mato!”

7) Shao Lin
Não o legítimo, mas o que tínhamos lá na nossa classe, um cara branquelão, de olhos claros sempre parados e extremamente introvertido. No primeiro dia de aula, o professor de educação física perguntou se ele jogava alguma coisa e ele respondeu: só caratê. Foi zoado o resto do tempo que passou por lá e sempre reagia da mesma forma, armando as mãos como se fosse dar um golpe de caratê. Golpe que felizmente nunca veio. Aliás, qual era o nome dele mesmo?

6) Vovó Mafalda
Uma velha gorda, de voz grossa, pernas e braços peludos, touca estapafúrdia na cabeça e despudorada a ponto de viver mostrando a calcinha – na qual estava bordado um enorme coração vermelho. Quem seria mais estranha? Ela ou eu, que dava risada dela?

5) A Noviça Voadora
Era um seriado de TV que apresentava uma freira voadora (parece que ela era tão magra que o vento no seu enorme chapéu de noviça a fazia voar) em Porto Rico. Acho que não preciso dizer mais nada.

4) Goldar
Era um robô dourado com uma vasta cabeleira loira no estilo trash metal de onde saíam duas antenas sempre prontas a disparar raios mortais contra os inimigos da Terra. Ele tinha uma esposa (?) e um filho com cara de japonês (??) e transformava-se em foguete. Enfim, o protagonista da série Vingadores do Espaço, que estava sempre acompanhado do velho Matusalém e sua enorme barba de algodão branca, é uma figurinha que me deixa meditabundo ainda hoje.

3) Pinóquio
Esse moleque de madeira deixava qualquer um deprê com suas histórias escuras e cheias de amaríssimas lições de moral. Merece figurar no Top 10. Aliás, merecia mesmo era alimentar alguma lareira no inverno.

2) Fofão
Afinal de contas, o que era aquilo? Um cachorro? Um E.T.? E por que o chamavam Fofão se aquela cara tinha jeito de ser dura feito o quê? E aquela voz? E a música “mê mê mê – mergulhe de cabeça – dê dê dê – deixe que aconteça – a vida quando tem substância é melhor”, que ele cantava pro Caldo Knorr?

1) Eu mesmo
Sinceramente, todo aquele tempo assistindo a essas coisas, arranjando pretexto pra fazer guerrinha de mamona na rua, comendo melancia com mostarda, amarrando pano de prato no pescoço, imitando os caras do Chip’s pulando do sofá, botando pipoca, aveia, sucrilhos, uns quatro tipos de geléia, mais manteiga, margarina e requeijão tudo numa única fatia de pão... Enfim, eu tenho autocrítica e sei que não posso ficar de fora dessa.

Ao iniciar a lista duvidava que teria fôlego para chegar a 10, mas lembrei da Zebra da Loteria Esportiva, de todos os figurantes de Os Trapalhões e de mais uma meia dúzia de colegas de classe e professoras. Percebi, então, que o ranking poderia ir muito mais longe. Isso me faz pensar que é preciso tomar muito, muito cuidado! Qualquer hora podemos ceder à tentação e deixar de ser esquisitos!

Por Marco Aurélio

às 01:15 PM


Reinações de Taisinha

As brincadeiras preferidas pela molecada nos anos 80 eram as mais ingênuas e imaginativas que as décadas tiveram notícia. Ter dinheiro para comprar artigos em loja era o de menos – como poderá ser conferido na lista que segue. Bom mesmo era botar a imaginação pra funcionar e dispor de qualquer item da residência dos pais para rechear manhãs e tardes de pura aventura.

1) Corrida com caixa de papelão
Era assim: cada um da turma procurava o maior número de caixas grandes que conseguisse. Geralmente o dia oficial dessa brincadeira era sábado, o dia internacional das mudanças residenciais. Aí era só dividir e decidir quem ficaria com a caixa da geladeira, do fogão e do freezer. Aos menores, restava a do depurador de ar. Feita a distribuição, começava a festa – ou melhor, a corrida. Cada um entrava em uma caixa e tinha que correr até um determinado ponto. Só que como essa corrida era algo de alta periculosidade, quase ninguém chegava ao ponto. Se um caísse com sua caixa de geladeira, todos se amontoavam e a risada era inevitável.

2) Carrinho de rolimã
Em frente de casas e prédios de crianças sempre tem alguma rampa, ladeira ou coisa que o valha. É batata. E é também a diversão da criançada que, vez por outra, monta um carrinho de rolimã com restos de madeira, quatro rodinhas e muitos tombos – que geralmente vêm acompanhados de mais risadas.

3) O primeiro "emprego" a gente nunca esquece
Não sei quanto a vocês, mas sempre, desde pequena, penso na minha independência financeira. Isso começou quando, aos seis anos de idade, resolvi fazer sacolé (gelinho, chupa-chupa, o que preferirem) e vender para os vizinhos. O objetivo inicial era comprar um presente para a mamãe no Dia das Mães, mas uma ida à banca de revistas levou meu plano por água abaixo. Gastei tudo em duas revistinhas para colorir do Palhaço Alegria e figurinhas da Rainbow Bright e dos Ursinhos Carinhosos.

4) Cabaninha no lugar mais importante da casa
Na minha época, barraquinhas que se abrem sozinhas, imitando casas de campo ou aquelas com a Turma da Mônica eram ficção científica. Afinal, custavam horrores e os meus pais preferiam investir na minha educação, viu? Deu no que deu, virei jornalista e não "advogadadesucesso". Mas, enfim... Como não havia cabaninhas no reino de Taís, colchas de retalhos feitas por minha mãe eram estendidas em cima da mesa de jantar da sala e o mundo lá debaixo se transformava. Não faltavam lanternas, panelinhas de plástico, bonecas que chupam o dedo e pipoca, muita pipoca.

5) Batata frita do restaurante do papai
Lá em casa, dentre todas as tranqueiras armazenadas na sala do apartamento onde morávamos, havia um bar alto, com duas banquetas, várias taças e garrafas. Não sei porque aquela peça ficava ali, mas sei fazia a nossa felicidade, minha e da minha irmã, toda sexta à noite. É que toda sexta à noite, meu pai, um perspicaz engenheiro elétrico, utilizava seus dotes culinários (que se resumiam a fazer frituras e bagunças na cozinha) e fritava quilos de batata, servida no palito, para as duas meninas que se instalavam nas banquetas, tomando baré-cola no canudinho e fingindo ter duas décadas a mais. Na vitrola tocava Elis Regina que se alternava com Roberto Carlos – quero deixar bem claro, ambos eram da minha mãe. Nada mais cool para uma sexta-feira à noite, não? Não quando se tem seis anos de idade...

6) Fogãozinho de tijolos
Se nas férias de verão não dava para viajarmos em caravana de primos e tios para a praia, ficávamos em casa, esperando as estrondosas e avassaladoras tempestades passarem. Quando terminava o aguaceiro, quase sempre tinha uma árvore no chão. E era para lá que íamos, felizes, com panelinhas de alumínio, um punhado de arroz e caixas de fósforos estrategicamente roubadas da cozinha. Arrumávamos tijolos e ali, em baixo da ex-árvore frondosa, fazíamos uma gororoba que nunca cozinhava. O resultado era uma gosma branca e dura – vulgo arroz – que comíamos como sobreviventes de guerra. Como era gostoso. E o mais interessante era a logística para a montagem do fogão a lenha, quero dizer, gravetos.

7) Malefícios da TV
Quando criança, eu estudava de manhã. Logo, nunca estava em casa na hora dos desenhos animados irados. Ou seja, ficar doente, levar injeção no bumbum e tomar remédio amargo valia o esforço de ficar a manhã toda vendo TV. Superamigos, He-Man, Turma do Zé Colméia, Corrida Maluca... Mas o mais excitante era a hora do sorteio das cartas. Quando a loira sentada em cima da remessa dos correios enviada ao Jardim Botânico jogava a envelopada toda para cima, eu ficava pensando “pega o envelope amarelo, o amarelo grande, o amarelo grande com selo de passarinho...” A pontinha de felicidade acabava quando ela não pegava o danado do envelope amarelo grande com selo de passarinho. Mesmo porque era hora de desligar a TV e almoçar.

8) Chiclete mastigado e guardado em lugares inusitados
Até parece que chiclete era artigo de luxo... Afinal de contas, não havia um que não passasse algum tempo no limbo do "debaixo da mesa" da sala da minha mãe ou no congelador da geladeira, ao lado dos sacolés de Nescau...

9) Comandos em Ação
Brincar de Barbie era legal. Brincar de Top Letras era legal. Brincar de Atari também era legal. Mas nada como ir para os jardins, em frente ao prédio, munida de uma meia dúzia de Comandos em Ação e imaginar que estava na Amazônia...

10) Bonecas de papel
Tá bom, elas tinham cabeças gigantescas, uns olhões enormes e boca pequenina, tipo desenho animado japonês. As roupinhas, também de papel, tinham que ser recortadas com o maior cuidado. E ainda assim não duravam mais de uma semana. Mas a grande dádiva das bonequinhas de papel era que podíamos levar para a escola, dentro dos livros, que ninguém percebia. E os nomes? Grace, Julia, Polyanna, Kelly – dignas de dar inveja aos nomes de classificados de acompanhantes. Fato é que todas as minhas bonecas se chamavam Vanessa. De papel ou não, lá vinha a Taís, com alguma de suas Vanessas debaixo do braço.

Por Taís

às 09:01 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold