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Clássico é clássico. E vice-versa – Parte 2 Continuemos. Se tem uma coisa que eu acho MESMO um pé no meio do meu saco imaginário são aquelas figuras que ficam no fundo de barzinhos com música ao vivo, gritando "Toca Ááááiron!" ou "Toca Sabááááá!", com voz bem cavernosa. Não contentes, eles prolongam as sílabas para dar mais ênfase e acompanham o berro com a mãozinha levantada, os dedos indicador e mínimo fazendo "heavy metal". E nem se dão ao trabalho de perceber que o repertório do cara que está no palco foi de Chico Buarque a, mais rock'n'roll da lista, Legião Urbana. Eles acham mesmo que esse carinha vai emendar os acordes finais de "Mulheres de Atenas" com "Iron Man"? Ah, faça-me o favor!
Os grandes ganhadores sobem ao pódio para os cinco primeiros lugares, na reta final da lista com os clássicos mais chatos do mundo. 5. Fear of the Dark, Iron Maiden 4. Smoke on the Water, Deep Purple 3. Hotel California, Eagles 2. Tom Sawyer, Rush 1. Dream On, Aerosmith PS - Hoje eu vim com proteção contra as latinhas e com doces de mentirinha para quem tiver coragem de confessar que também acha alguma dessas (ou outras) partituras famosas um saco. Como o Cameron achava o Senhor Rooney, disfarçado de pai da Sloane. Galãs? Só se for do Mundo Bizarro O leitor lembra dessa terminologia? Era aquela dimensão paralela inventada no desenho dos Superamigos onde todos tinham uma alma-gêmea do avesso. Isso posto, só posso acreditar que alguns atores que viraram símbolos sexuais vieram do tal Mundo Bizarro. Quer saber? Nem foi difícil juntar dez nomes para essa lista. Foi botar a cachola para funcionar e, de repente, lá estava uma dezena de sujeitos que causam (causaram?) suspiros em garotas de pouca fé e muita miopia. E não adianta querer me convencer que um homem de costas extremamente peludas pode fazer uma cena de sedução ficar bonita. Vamos aos docinhos de xuxu com vinagre? 10) Humberto Martins 9) Marcos Paulo 8) Nuno Leal Maia 7) Denis Carvalho 6) José Wilker 5) Reginaldo Faria 4) Antonio Fagundes 3) José Mayer 2) Tony Ramos 1) Francisco Cuoco Ô bichinho insuportável! Um pássaro com topete vermelho, um camundongo de luvas, um dinossauro roxo, um porquinho gago. Muitos animais, coadjuvantes ou não, conquistaram fama e simpatia no mundo da ficção para crianças. Mas nem todos os bichinhos criados para divertir despertaram sentimentos tão nobres nos telespectadores. Vai dizer que nunca sentiu vontade de cometer um crime contra algum exemplar da fauna televisiva? Como o IBAMA nada pode fazer contra seres inexistentes, prepare-se para dar vazão a seus instintos assassinos com uma seleção das 10 criaturas mais irritantes dos desenhos animados! 10) Super Mouse 9) Geninho 8) Mutley 7) Pacato 6) Scooby-Loo 5) Gorpo 4) Kissifur 3) Piu-piu 2) Snarf 1) Uni ![]() Uniiiiiiiiiiiiiiiii!
Clássico é clássico. E vice-versa – Parte 1 Não é por nada, não, mas eu tenho uma lista de clássicos mais chatos da história da música. Bom, pelo menos da música desde que a conheço. Nada contra as bandas, seus integrantes ou o tipo de música que fazem (pelo menos na maioria das vezes). Às vezes a canção é até boa, mas a aparente falha que acomete os tocadores das rádios e impede que se ouça uma faixa diferente de certo álbum, para variar um pouco, acaba tornando a composição insuportável. É difícil confessar essa aversão por algumas partituras que fizeram história, já que quando cito alguns dos premiados que estão na minha lista, invariavelmente o interlocutor quer me atirar latinhas ou o que estiver mais à mão. No mínimo, eu ganho uma cara com um muxoxo de nojo e desprezo: "Ah, não acredito que você não gosta de tal música!" E rapidamente ele encaminha o assunto para algo menos ofensivo que discutir preferências musicais, como religião, política ou futebol. Bom, já que é para polemizar, vamos à lista! Ou melhor, ao começo dela. São cinco hoje e mais cinco amanhã. Clássico para mim é Beethoven O começo da lista dos clássicos mais chatos do mundo, na modesta opinião desta escriba, segue abaixo. E não me atirem latinhas! (Tá bem, podem atirar... Vocês não serão os primeiros nem os últimos. Se quiserem variar, tentem com moedas, notas amassadas, passes ou mesmo cartões de crédito. Quem sabe, pelo menos eu pago o dinheiro do busão.) 10. Is This Love, Bob Marley 9. Bohemian Rhapsody, Queen 8. Stairway to Heaven, Led Zeppelin 7. Cocaine, Eric Clapton (ou Joe Cocker, tanto faz) 6. Money, Pink Floyd Madame Flávia sabe tudo Se tem um assunto sobre o qual eu sou um zero à esquerda é essa coisa de signo. Tem gente que acaba de me conhecer, recebe duas informações sobre a minha pessoa e na seqüência já larga: "qual é o seu signo?" Isso é uma baliza importante para saber quem eu sou? Que medo... Bom, eu não sei nada mesmo sobre zodíaco e essas teorias esotéricas em geral. O caso é que eu não entendo o tema, mas acho engraçado pacas. Cena de hoje cedo: Ana Maria Braga (assisto, pode xingar) recebe em seu programa uma astróloga. Previsão sobre amor? "Você vai ter muitos romances em breve, Ana, mas todos bastante rápidos". Ai, faz favor! Até eu posso prever isso, é só ler a Contigo! Outro dia peguei uma revista sobre astrologia na banca de jornal (esse fantástico mundo pouco visitado atualmente, mas que me prende por horas com seu cardápio variado). Em uma das matérias, um certo "mago" estava definindo a profissão que gente de cada signo deveria seguir. Praticamente todos os quadrinhos tinham sugestões como arquiteto, médico, advogado, diplomata. Quantos diplomatas existem hoje em dia? Dois?? Por que ali não tinha garçom, taxista ou chefe de manutenção? Tem muuuito mais gente nessas profissões - e eu suponho que essas pessoas tenham um signo, correto? De tanto pensar em como esse povo mágico consegue informações privilegiadas sobre cada signo - e partindo do princípio que eles têm mesmo poderes celestes -, acho que encontrei definições muito mais simples para cada fatia do zodíaco. Quem for sincero vai concordar (ou não): Áries - ranzinzas e donos das manias mais estranhas Touro - imaturos, molengas e cheios de frescura Gêmeos - duas caras, muito cuidado com eles Câncer - enrolados e, falemos a verdade, tremendos chatos Leão - nervosinhos, estrelinhas, uns malas Virgem - meigos na aparência, pentelhos na realidade Libra - poços profundos e aborrecidos de indecisão Escorpião - loucos, deviam ser todos internados Sagitário - envolventes, porém maléficos, muito maléficos Capricórnio - não há gente mais encrenqueira, pode procurar Aquário - querem ser os diferentões, mas são uns bolhas Peixes - vivem de ilusão e não têm vergonha na cara</b>
E não é que responderam? Os leitores e leitoras do Garotas não nos deixaram na mão! Depois que um censo alternativo com 30 perguntas foi ao ar na coluna de ontem, centenas de e-mails chegaram em nossa caixa postal - para a alegria dessas três meninas que adoram um mimo. Afinal, é sempre bom saber do que gostam as pessoinhas do outro lado do computador. É, estou falando de vocês mesmos. As estatísticas e gráficos não ficaram prontos, e nem vão ficar. Somos jornalistas, não sabemos fazer conta. Mas o resultado do censo foi unânime ao mostrar como tem gente desocupada por aí! Além de gastarem alguns minutos do dia lendo as bobagens que publicamos, muitos se deram ao trabalho de escrever algumas linhas para cada questão. A eles (e elas), nosso muito obrigada por brincarem conosco. Da próxima vez, será queimada, mãe-da-rua e amarelinha. Os extratos abaixo foram selecionados cuidadosamente entre as melhores respostas. Se seu nome foi citado, parabéns! Você acaba de ganhar um... um... um... pequeno espaço no Garotas! Não repara: é mixo, mas é de coração. Somos jornalistas, não temos dinheiro para ficar esbanjando. Então, vamos ao vencedores?
Você tinha uma Caloi ou uma Monark? Quando você come bolacha recheada, abre e come o recheio primeiro ou enfia tudo na boca? Em matéria de achocolatados, qual você prefere: Nescau ou Toddy? Para meninas: quando você era pequena, tinha Barbie ou Susie? Na Bozo-corrida, para qual cavalinho você torcia: branco, preto ou malhado? Você consegue dobra a língua ou não? Em seu aniversário, você faz o pedido na hora de apagar as velas ou na hora de cortar o bolo? Quando você assiste a um filme, costuma torcer pro mocinho ou pro bandido? Para meninos: quem você queria ser, o McGyver ou o Magnum? Você prefere fazer uso de desodorante roll-on ou em spray? Você coloca o papel higiênico com a ponta sobre o rolo ou com a ponta debaixo do rolo? Você dobra a ponta do durex para achá-la da próxima vez ou fica procurando por horas? Qual você prefere: "O Cálice Sagrado" ou "A Vida de Brian"? Em qual matéria você ia melhor na escola: Português ou Matemática?
Reginaldo e Rosana, uma união para toda a vida Até hoje, sempre que ouço alguém pronunciar o nome "Reginaldo", tenho a impressão de que, de algum lugar, vai surgir a melodia de "O Amor e o Poder", da Rosana. Mais especificamente, do trecho "Como uma deusaaaa…" Por que isso acontece? Se você tem menos de 18 anos, não deve nem desconfiar… Então já explico: quem se lembra da hilária "Fogo no Rabo", sátira novelesca da saudosa "TV Pirata"? E quem se lembra daquela heroína interpretada, se não me falham os neurônios, pela Deborah Bloch, que era apaixonada pelo galã feito por Luis Fernando Guimarães? Muito bem. O melhor da tal novelinha era o sarro que eles tiravam do uso da trilha nos folhetins televisivos. Toda vez que a tal heroína pronunciava o nome do galã, começava a tocar a musiquinha de amor dos dois. O efeito era mais ou menos o seguinte: "Reginaldo!" Como uma deusaaaaa… E não passava disso. Essa é uma prova da capacidade de aderência que algumas canções de trilhas de novelas têm sobre a pobre superfície dos nossos cérebros. E pensando nisso apresento a sensacional lista "Os Sete Temas de Novela Inesquecíveis (Mas que Gostaríamos de Esquecer)". Pelamordedeus, desliguem esse rádio! 7. Nuvem de Lágrimas, de Barriga de Aluguel 6. Festa do Amor, de Bambolê 5. Calada Noite Preta, de Vamp 4. Dona, de Roque Santeiro 3. Demais, de Selva de Pedra 2. Lua e Flor, de O Salvador da Pátria 1. O Amor e o Poder, de Mandala Ruborizei, muda de canal Eu sou uma garota envergonhada. Minhas bochechas coram em segundos e pelos motivos mais estúpidos (ontem isso aconteceu de novo, mas tenho vergonha de dizer o motivo...). Assim sendo, ver tv está se tornando um problema grave para o meu constrangimento. Comecei a perceber isso anos atrás, quando o Ratinho entrou no ar. Depois vieram os genéricos dele (liga a televisão de tarde para você ver... todo programa com tarja no rodapé da tela é exemplo) e o que era um desconforto virou uma tortura. Gente, ver pessoas contarem segredos escabrosos na frente da câmera me esquenta o rosto num clique - saber que o cidadão gosta de usar vestido vermelho e sair na noite azarando travestis é demais pra mim, poxa! Isso quando não vêm aquelas moças querendo saber, pelo famigerado teste de DNA, se o filho é do vizinho, do primo ou do marido mesmo. E o quadro vem acompanhado de uma musiquinha que diz "e se for teu, e se for teu..." Nossa, me deixa a face roxa. A coisa só vem piorando. Reality shows de qualquer espécie me fazem esfolar o controle remoto. Mudo de canal em desespero quando tem gente batendo boca por causa de quanto leite condensado cada um comeu ou quem não baixou a tampa da privada. Aquele programa da MTV, o Fica Comigo, leva minhas mãozinhas a taparem os olhos toda vez. Tem coisa mais constrangedora do que imaginar o pai de uma daquelas garotas ouvir a filha dizer, em rede nacional, que quer dar um beijo de língua num menino que nunca viu mais gordo??? Mas isso não é nada comparado à hora do fica-não-fica. Quer dizer que o sujeito passa duas horas ali contando um monte de mentira e tentando parecer bacana para depois, no clímax do programa, levar um vexatório selinho na maçã do rosto? Ai, me dá até vertigem pensar nisso... Se fosse comigo, eu ia fingir um desmaio. Se existisse um "constrangedômetro" no cantinho da tela, ele iria furar o meu monitor quando assisto Fica Comigo. Leitores, leitores: tem uma hora em que a menina ou menino que está "em exposição" tem que ouvir declarações de amor dos quatro participantes "em disputa". Esse momento é um festival de bochechas ruborizadas. Chego a gritar de embaraço - e olha que nem é comigo! Daqui dez anos essa molecada vai ver o videotape que a mãe gravou e vai tentar incendiar a MTV para apagar as provas. Daí eles vão ser presos, a história vai sair no Ratinho e eu vou ficar com vergonha por eles tudo de novo... Ou este ou aquele Você já se deparou frente a frente com um dos questionários imensos do censo? Pois eu já. E não acreditei na complexidade que é a tarefa de separar as pessoas em pequenas porções. Para mim, esse papo de raça, crença, orientação sexual, grau de escolaridade, renda familiar e classe social é tudo uma chatice sem fim. Pois eu tenho um modo de facilitar o trabalho dos moços e moças do censo que, de vez em quando, batem na nossa porta - e dá aquela vontade de fazer de conta que não estamos em casa, só para não ter que responder a 1392 perguntas pedantes. Veja bem: o mundo pode ser muito melhor e mais divertido se a gente souber descomplicar. Assim sendo, fiz 30 perguntas mais eficazes se o intuito é dividir as pessoas em grupos. Meu censo seria assim: 1) Quando você era criança e lia gibis, eram da Turma da Mônica ou do Tio Patinhas? 2) Você coa seu suco de laranja ou toma ao natural? 3) Você tinha uma Caloi ou uma Monark? 4) Quando você come bolacha recheada, abre e come o recheio primeiro ou enfia tudo na boca? 5) Ao consumir um picolé, você rasga a embalagem em cima ou embaixo? 6) Em matéria de achocolatados, qual você prefere: Nescau ou Toddy? 7) Para meninas: quando você era pequena, tinha Barbie ou Susie? 8) Para meninos: gostava mais do Playmobil ou do Lego? 9) Na Bozo-corrida, para qual cavalinho você torcia: branco, preto ou malhado? 10) Em momentos de tédio, gosta de jogar Tetris ou Paciência? 11) Quando você come um lanche do McDonald's, tira ou deixa o picles? 12) Você consegue dobra a língua ou não? 13) Você gosta mais de cachorro ou de gato? 14) Para acordar de manhã no horário certo, usa despertador ou rádio relógio? 15) Em seu aniversário, você faz o pedido na hora de apagar as velas ou na hora de cortar o bolo? 16) Quando você assiste a um filme, costuma torcer pro mocinho ou pro bandido? 17) Qual seriado você prefere: "A Feiticeira"ou "Jeannie é um Gênio"? 18) Qual é a melhor novela na sua opinião: "Roque Santeiro" ou "Vale Tudo"? 19) Para meninas: ao assistir a "Star Wars", você sonhou com o Luke ou com o Han Solo? 20) Para meninos: quem você queria ser, o McGyver ou o Magnum? 21) Ao virar uma página de revista, você lambe o dedo ou não? 22) Você prefere fazer uso de desodorante roll-on ou em spray? 23) Você coloca o papel higiênico com a ponta sobre o rolo ou com a ponta debaixo do rolo? 24) Você dobra a ponta do durex para achá-la da próxima vez ou fica procurando por horas? 25) Você gosta mais de Danoninho ou de Chambinho? 26) Qual você prefere: "O Cálice Sagrado" ou "A Vida de Brian"? 27) Nos Beatles, você gostava mais do Paul ou do John? 28) Quando você consome uma bala, você mastiga e engole ou chupa até o fim? 29) Em qual matéria você ia melhor na escola: Português ou Matemática? 30) Qual é o melhor filme de terror de todos os tempos: "O Exorcista" ou "O Iluminado"?
Nasce, cresce, se reproduz e morre? Nome, carro, animal, CEP, cigarro, novela, objeto, carro. E pontos, claro. Se a lista aparentemente desconexa acima fez acender uma luzinha na sua memória, pode marcar 5 pontos. Se imediatamente uma voz na sua cabeça gritou "Stop!", marque 15. Quem não passou tardes e tardes se divertindo com a brincadeira? Primeiro, acertavam-se os itens, anotados num papel "deitado"; depois, era só falar "ú-ês-tóp" e sacar de um certo número de dedos, contá-los rapidinho, associados ao alfabeto, e começar a preencher todos os tais quesitos, mas iniciados com a letra em questão. O primeiro a terminar gritava o nome do jogo, como sinal de que todos deviam parar de escrever. (Essa breve explicação foi para quem nasceu depois do meio dos anos 80, já que não vejo nenhum grupo de menores de 15 anos debruçados sobre tabelinhas mal-traçadas em papéis de caderno, contando dedos e gritando "Stop!") Quem escrevia algo que ninguém mais na roda escreveu marcava 10 (ou 15, dependendo da região) pontos. Quem botava o mesmo item que outro jogador somava só 5. E os lerdinhos, que não escreviam nada, ficavam com um redondo zero. Eu devo contar umas 3.572 horas, por baixo, de experiência no jogo. Como carecia só de um papel, uma caneta, os dedos e os miolos de cada jogador, era a pedida ideal para dias de chuva na praia e finais de tarde em que já tinha escurecido e a mãe só deixava brincar na sala. É claro que haviam as "figurinhas carimbadas" de cada categoria, como macaco no animal com M (ninguém se lembrava da morsa, morcego ou mula?), Dodge e Diplomata no carro com D e "Que Rei Sou Eu?" em novela com Q (essa era mesmo a única que existia nos anos 80, era pré-"Quatro Por Quatro" e "Quem É Você?"). E também tinha os espertinhos, que escreviam a primeira letra em questão em todas as coluninhas, rabiscavam qualquer coisa depois e, na hora de somar os pontos, improvisavam. Mas tem de ser muito habilidoso para fazer isso: se der um branco ou alguém pegar seu caderno, já era… O duro era provar que frutas como xeréu existiam ou que a novela "Quitéria" foi produzida, sim, e pela Tupi. Essas pérolas surgiam quando a letra da vez era algo insípido como Q, U ou X. Geralmente, as discussões acabavam levando mais tempo que a brincadeira em si. Aí, o lance era ser convincente, simpatizar com a banca (formada por todos os outros jogadores) e, principalmente, não estar ganhando de longe. Assim eles tinham dó e deixavam passar as invenções. Nunca me esqueço de uma vez em que, jogando com a ingrata letra I, tasquei "igreja" na coluna de objeto. Não aceitaram, pode?! Desculpa, mas essa não engulo até hoje. Igreja é objeto, sim! Para mim, o critério é o seguinte: pergunte a si próprio se o candidato-a-objeto em questão nasce, cresce, se reproduz e morre. Não? Então é objeto. Venha djavanear você também "Pétala de bem-me-quer/ Fogo no mar que bate em mim. Se vem do amor, bem-me-quer/ eu digo e digo sim." Compus a letra acima há 60 segundos. Mas vai dizer que não dá para pensar é que uma canção do Djavan? Bom, nem precisava, mas eu faço questão de lembrar que esse foi o homem que criou a intangível "Açaí, guardiã/ Zum de besouro, um imã/ Branca é a tez da manhã". Mas se engana quem pensa que alguém aqui vai malhar a composição do moço dos dreadlocks! Se não fosse esse rapaz, a MPB não teria metade da graça. Basta lembrar de uma entre as muitas myshearded lyrics que surgiram com músicas do sujeito para ver como ele já rendeu ótimos momentos de gargalhadas: um dos meus amigos cantava "Ao sair do avião", em vez de "Açaí, guardiã", por exemplo. E não é que a música continua fazendo o mesmo tanto de sentido com a mudança de letra? Sensacional! Djavan é gênio. Outro de seus maiores sucessos é "Oceano". Tocou 7.543 vezes na época da novela "Top Model", tá lembrado? "Amar é um deserto e seus temores/ Vida que vai na sela dessas dores/ Não sabe voltar, me dá teu calor". Poesia, gente, pura poesia. E também nessa última o mau entendimento funciona 100%: outro dos meus colegas ouvia perfeitamente "Amarelo deserto e benzedores". O erro estava lá, mas mesmo assim a letra não perdia a classe. Nem a graça. Djavan é o rei ou não é? Claro que é, ora... Aposto que ele já fazia tudo isso de caso pensado. Is in my ears Outro dia eu tive um sonho deveras estranho. Não que isso seja alguma novidade. Afinal, já sonhei que estava no meio de uma história do Hercule Poirot, sendo que tudo era em preto-e-branco e falado em inglês - fora as centenas de vezes que passei a noite com o clássico "ir pelada na escola". Mas sonhar com uma música, realmente, foi a primeira vez. Não estou lembrada se tinha alguma imagem, só sei que a canção ficava martelando em looping no meu subconsciente. Estranho. Ainda bem que não era "Eguinha Pocotó" e coisas do gênero, mas sim "Penny Lane", a minha favorita dos Beatles e, ouso afirmar, uma integrante do seleto grupo das melhores músicas da vida. O engraçado é que fazia muito tempo desde a última vez que a ouvi. Tanto que, naquela manhã, a primeira coisa que fiz ao botar meus pezinhos 34 fora da cama foi procurar o CD e aumentar o volume para matar a saudade daquela belezura e relembrar como fico feliz só de ouvir os primeiros acordes. O single foi o primeiro lançamento dos Beatles em 67 (10 anos antes de eu nascer), e o lado B era "Strawberry Fields Forever", outra maravilha. Segundo meu livrão "Anthology", Penny Lane era o ponto em que Paul tinha de descer e trocar de ônibus para ir até a casa do John, isso na época em que eram apenas rapazes em Liverpool - e não OS rapazes de Liverpool. "Penny Lane"é tão boa que chega a doer, e se fosse um doce, eu comeria de colher. A letra é sensacional, adoro as imagens que formam em minha cabeça ao pensar no barbeiro que guarda fotos de seus clientes, ou no bombeiro que tem uma foto da rainha no bolso, ou ainda na enfermeira que vende papoulas para arrecadar dinheiro. E o verso "beneath the blue suburban skies", não é lindo?
Oxítonas, paroxítonas ou proparoxítonas? Os anos 80 nos brindaram com algumas das letras mais despretensiosamente bacanas e divertidas do cancionato brasileiro. Mas parece que boa parte das bandas sofria de um problema comum: a prosódia. Deu branco? Não tem a menor idéia do que essa palavra quer dizer? Vamos ao tio Aurélio: Em outras palavras, é a maneira correta de se pronunciar a sílaba tônica. Em nome do bom andamento da métrica do verso e também para "ornar" (como dizia minha avó) as frases fazendo rimas, algumas das músicas mais famosas do período oitentista decidiram ignorar solenemente a prosódia. Paulo Ricardo, em "Olhar 43", mudou o nome do principado só para dizer que estava ao dispor da princesa "Stéphanie de Mona-CÔ". O Yahoo -- que deve ter dado adeus a todo o dinheiro do sucesso meteórico pagando direitos autorais às bandas das versões que faziam -- embalava as aventuras amorosas da secretária reprimida vivida por Maria Zilda em "Bebê a Bordo". A canção, de improvável título, era "Mordida de Amor", versão de "Love Bites" do Def Leppard. A certa altura, vinha o verso "Eu não quero TÔcar em você, oh, baby". O Uns e Outros sacou dos "missionários de um mundo PÁ-gão". Levei um certo tempo até entender que os tais missionários eram de um mundo sem fé, e não que pagavam alguma coisa. A Plebe Rude dizia ter nascido já com a ben-ÇÃO, para rimar com a má distribuiÇÃO, em "Até Quando Esperar". Mas nenhum deles supera o Nenhum de Nós e a impagável "Astronauta de Mármore", que cantava o "fim das vozes no meu radiÔ" e, não contente, ficava repetindo: "radiÔ-ô-ô". Aliás, para ser bem sincera, ainda tem trechos dessa música que eu não entendo. É no começo da segunda parte, e fala algo sobre nuvens e narizes azuis (?!). Ainda bem que já existe a internet. Vou dar um pulo no Google e poderei solucionar um dos grandes mistérios da minha vida, que me atormenta desde o lançamento da tal canção nas rádios… Não vinham com pilhas, mas e daí? Ganhar brinquedos caros era um milagre que não acontecia muito na minha casa. Éramos três pirralhos, os velhinhos não tinham cacife para alimentar toda a nossa voracidade por produtos da Trol. Mas eu nunca deixei de crescer os olhos para cima de alguns itens específicos. Eles eram... ai, Deus... eletro-eletrônicos!!! Os que mais chamavam minha atenção eram Merlim e Genius. Ah, claro que você lembra! O Genius parecia um disco voador, com teclonas em cores básicas e três opções de jogos. Todos eram relacionados com memória, e eu era boa pacas nisso. Teria sido a "Campeã Mundial Infanto-juvenil de Genius", não fosse o fato de só poder treinar quando surrupiava o aparelho na casa dos meus primos ricos. O Merlim era mais, digamos, substancial. Tinha a forma de um telefone sem fio da Antiguidade - gigante, pesado, bem pouco ergonômico - e vários módulos, entre eles uma versão hi-tech do arcaico Jogo da Velha. Duro é que custava o mesmo que um motorádio, e o meu pai preferia equipar nosso Fiat 147. Lembrando dessas duas maravilhas da infância oitentinha, fiquei pensando em outros produtos que necessitavam pilhas e eram especiais para gente pequena (não estou falando de anões, mas de crianças, copia?). Bonecas, por exemplo. Hoje o pessoal que cria brinquedos se empolgou em excesso e inventou uns tipos que arrotam, vomitam, xingam, engravidam. Mas, na minha juventude, bonecas interativas ainda eram novidade. As top five? Siga a ordem: 5) Bate-palminha, 4)Tippy, 3) Mimadinha, 2) Lu Patinadora, 1) Bochechinha. Executavam operações básicas como andar de bicicletinha ou tomar mamadeira (até hoje não entendo o processo surreal que fazia o leite desaparecer), mas eram objeto de desejo de 10 entre 10 garotinhas. Autoramas também costumavam sorver um bocado das alcalinas "do gato". Não eram lá para o meu bico classe-média, mas eu e meu irmão conseguimos ganhar um Ferrorama em algum ponto de 1983 - depois de implorar por meses e jurar obediência eterna e irrestrita ao nosso pai. Ele não caiu na nossa onda, claro, mas deu o presente mesmo assim. Só ficava bravo de verdade quando percebia que as pilhas do rádio tinham migrado ou para as costas de espuma das minhas bonecas ou para a caldeira do voraz e saudoso trem-elétrico. Lições de sobrevivência Sábado passado revi em DVD um dos maiores clássicos do terror, "O Massacre da Serra-Elétrica" - e isso me fez pensar em algumas coisas. Além da descoberta de que o título da produção está errado (uma vez que a arma usada pelo assassino açougueiro não é uma serra-elétrica, e sim uma moto-serra), muito me irritou o fato daqueles adolescentes não sentirem o cheiro do perigo. Um a um, todos caíram na armadilha mortal mesmo com todas as evidências diante dos olhos. Eles pagaram o preço por não saberem regras básicas de como evitar um encontro desagradável com o maníaco que sempre resolve vagar na mesma estrada deserta em que estão passando um bucólico fim de semana. Já que nenhum de nós quer cruzar com Leatherface e companhia, aqui vai uma cartilha em 20 lições que ajudarão a manter psycho killers fictícios fora do caminho. 1) Se você estiver cruzando uma estrada, nunca dê carona a estranhos. Principalmente se eles tiverem roupa suja, cabelo ensebado, olhar suspeito e atração por objetos pontiagudos; 2) Se a gasolina acabar, não tente passar a noite em uma residência velha e abandonada no meio do mato; 3) Se um de seus amigos diz que vai fazer o reconhecimento do local mas não volta em algumas horas, fuja. Nunca fique gritando o nome dele enquanto caminha por uma floresta escura; 4) Se você precisar pedir ajuda a alguém, não entre na casa onde o toque de campainha ou as batidas na porta não obtiveram respostas; 5) Se você entrar na casa mesmo assim e encontrar pistas suspeitas como manchas de sangue e restos humanos, não fique parado olhando como um bocó; 6) Se o maníaco encontrar você e começar a persegui-lo com uma arma letal de alto impacto, não fuja berrando. Os gritos só servem para mostrar a ele qual sua exata posição; 7) Curiosidade, em uma colônia de férias isolada, não é algo positivo. Portanto, se você vir uma luz ou ouvir um barulho, não tente descobrir o que é; 8) Nunca faça uma roda de amigos para ouvir histórias de terror de alguém que fala com a lanterna acesa no queixo. Isso sempre atrai coisa ruim. 9) Se houver uma garota loira em sua turma, mantenha distância dela - loiras são sempre as primeiras vítimas. Se você for loira, procure passar as férias em grandes centros urbanos; 10) Tente ficar longe de escadas, porões e sótãos; 11) Se precisar de um esconderijo, evite escolher lugares óbvios como armários, e muito menos locais que podem ser trancados pelo lado de fora; 12) Não dê uma de valente e jamais lute contra o maníaco usando armas insignificantes, como um pedaço de pau ou uma pedra. Você sempre vai sair perdendo; 13) Se você conseguir escapar, nunca peça socorro a um funcionário solitário de uma loja de conveniências vazia. Ele provavelmente tem um grau de parentesco com o vilão; 14) Não perca tempo tentando fazer uma ligação para a polícia. Nessas ocasiões, os aparelhos de telefone sempre estão com os fios cortados; 15) Aconteça o que acontecer, jamais nade pelado no lago, principalmente se for de noite; 16) Antes de fugir em uma caminhonete, certifique-se de que não há ninguém escondido debaixo da lona da caçamba; 17) Se você estiver no meio da fuga e conseguir chegar até o carro, não fique tentando dar a partida 15 vezes - se o veículo não pegar de primeira, é melhor continuar correndo; 18) Nunca confie demais em um policial. Apesar de usar armas de fogo, ele costuma ser morto rapidamente, bem antes de conseguir salvar você ou pedir reforço; 19) Esses assassinos seriais adoram fazer uma cena. Se o bandido está deitado e imóvel, isso não quer dizer que ele está morto; 20) Sempre acredite em lendas urbanas. Vivi Griswold às 09:50 AM
Entrou por uma porta e saiu pela outra Como prometi ontem, segue o fim da lista dos meus livros favoritos. Hoje, chegamos às quatro brochuras mais legais que li na pré-adolescência, aquela fasezinha pentelha onde você está menos definido que a imagem dos trailers que assisto no meu PC com conexão discada. Esses livros me deram uma breve idéia de que eu não era a única idiota a, de repente, passar a ter um pouco de vergonha da minha família quando estava com os amigos e a esperar que alguma coisa surgisse em meu corpo rapidamente, para preencher um eventual primeiro sutiã. Também jogaram um pouco de luz e humor no meu deprimente dia-a-dia quando eu pensava que era a única garota da classe que ainda não tinha beijado na boca e continuava gostando dos meus playmobils. E embalaram as tardes que eu passava junto à minha inseparável amiga, a Roberta, com quem eu formava a dupla Clá-dos-Cabelos e Rô-dos-Pelinhos. Não me perguntem porquê. Chega de confissões e memórias embaraçosas. Vamos às vias de fato! "Aos Trancos e Relâmpagos", Vilma Arêas "De Repente Dá Certo", Ruth Rocha "Rita Está Crescendo", Telma Guimarães Castro Andrade "A Hora do Amor, Álvaro Cardoso Gomes Agora vou correr para reunir todos esses meus tesouros e verificar se as traças ainda não fizeram deles sua refeição principal… Sabedoria de videocassete Quem disse que só os blockbusters entranham em nossos espíritos com teorias que levamos para a vida toda? Com vocês, citações de filmes renegados - alguns são bons mas esquecidos, outros são ruinzinhos mesmo - que trazem o i-ching cinematográfico. Nenhum deles, eu acho, é tão terrível que não possa ser visto pelo menos uma vez - ou isso também pode ser coisa da minha mente anormal. Mas que essas passagens valem o aluguel da fita, lá isso valem. 10) "Se você ler revistas com a programação da TV, você nem precisa de uma TV." 9) "Nunca subestime o sexo casual. Ele pode ser muito liberador." 8) "Eu não sei o que dizem para vocês aqui na França, mas 'rude' e 'interessante' não significam a mesma coisa." 7) "Eu sei que você vive no mundo real, e você é muito bom nisso. Mas isso é trabalho. Onde você vive de fato?" 6) "Querida... Quando você vai entender que 'ser normal' não é exatamente uma virtude?" 5) "A maior parte do que eu faço me lembra algo que eu li em um livro... Não deveria ser ao contrário?" 4) "Isso acontece, amigos entram e saem da sua vida como garçons de restaurante." 3) "Às vezes eu canto e danço pela casa de calcinhas, mas isso não faz de mim a Madonna. Nunca vai fazer." 2) "Muito bem, lembre disso: álcool é igual a vômito, que é igual a fedor, que é igual a 'ninguém gosta de você'!" 1) "Não importa o que digam: açúcar nunca é demais." Senta que lá vem a história Se existe algo no mundo que eu possa afirmar que conheço bem, esse algo tem de ser contos de fadas. Cresci ouvindo minha mãe e suas historietas cheias de príncipes e rainhas, bruxas e anões, castelos e calabouços. Mesmo tendo crescido, continuo fascinada por elas - acho o máximo a tradição oral que carregam e o fato da princesa ser sempre a mais forte. Tenho cá meus favoritos: "Os Seis Cisnes", em que a garota tem de costurar casacos de urtiga para reverter o feitiço jogado em seus seis irmãos; "Rulpelstilskin", um gnomo chato que ameaça levar o bebê da princesa se ela não descobrir seu nome em tempo; "Carapuça de Junco", onde a monarca usa um disfarce para trabalhar de criada no castelo de seu príncipe encantado. Semana passada, quando o calor senegalês deu descanso e um vento gelado soprava, fiz o que sempre faço em dias nublados: me enrolei na manta e peguei o livro de um dos meus autores favoritos, Neil Gaiman. A obra da vez é "Smoke and Mirrors", uma coletânea de historinhas curtas ao mesmo tempo adoráveis e perturbadoras, coisa que só ele é capaz de fazer com tamanha perfeição. Pois bem. Abri o livro no último conto, "Snow, Glass, Apples", escrito pelo autor durante um vôo - quando eu ando de avião, durmo; já Gaiman escreve essas preciosidades. É a vida. A história é narrada por uma rainha que vai descrevendo como conheceu o rei e se apaixonou perdidamente por ele, e como o casal era feliz e cheio de sonhos. Mas tudo foi por água abaixo por conta da presença assustadora de sua enteada. Aos poucos, o leitor começa a perceber que se trata do clássico "Branca de Neve", mas contado ao contrário. Ou seja, do ponto de vista da madrasta. Ao invés da heroína gentil e maltratada pela viúva de seu pai, Gaiman mostra uma criança assustadora e cruel, que matou o a mãe, o rei e espera fazer o mesmo com a mulher dele. A rainha, para se proteger, manda dar um fim na menina, mas nada consegue fazer parar sua sede por sangue, nem mesmo quando um caçador é enviado à flotesta para arrancar seu pequenino coração. No final, Branca de Neve e o prícipe enfeitiçado pelos poderes maléficos se vingam mortalmente da madrasta, a única que conhecia a verdadeira identidade da garota. Assim, a versão contada e recontada posteriormente é bem diferente da realidade sombria e esquecida... Imagine se eu soubesse dessa história aos seis anos! Ficaria noites e noites sem dormir, e provavelmente teria que fazer análise mais tarde. Segundo Gaiman, ele quis reescrever o conto como um vírus: uma vez que a gente o lê, nunca mais será possível olhar para o original com os mesmos olhos de antes. Acho que conseguiu. Vivi Griswold às 08:02 AM
A lua é flicts. Mesmo! Semana passada, assisti ao badalado eclipse lunar sentada numa cadeira de praia no quintal e fazendo malabarismos para tomar, ao mesmo tempo, o chá de capim-cidreira plantado no meu próprio jardim. O espetáculo me rendeu, além do deslumbramento visual, um baita torcicolo e uma lembrança dos livros que eu lia na infância. Tudo porque um dos que mais me marcaram foi "Flicts", do Ziraldo. Isso não faz sentido? Parece a defesa Chewbacca? Calma, eu chego lá. O livro conta a história de uma cor bem diferente chamada flicts. O pobrezinho passa o tempo todo procurando um lugar para ocupar, mas as cores tradicionais já estão por todos os cantos e nenhuma quer dar espaço ao diferentão. Ele fica só, até se mudar para a lua. E só quem foi até lá sabe que de perto, bem pertinho, a lua é flicts. Era uma história de final feliz, mas flicts amargava tanta solidão e rejeição até encontrar seu exótico destino que eu entrei em profunda depressão da primeira vez que li. Chorava escondida e tudo. E disfarcei a lagriminha no canto do olho por muitas releituras depois. Pois e não é que, quando a sombra tomou a lua e o eclipse chegou ao auge, eu vi que a lua é flicts mesmo? Fiquei bege (com o perdão do trocadilho de cores)! Pelo menos, parecia com a cor do livro grande e fininho da minha infância, ou ao menos com a memória que eu tenho dela. Foi quando me lembrei de oito livros que fizeram minha infância e pré-adolescência mais felizes e, arrisco dizer, tornaram-me uma pessoa melhor. Alguns ainda são editados, outros sumiram no limbo. Mas vale procurar em qualquer sebo, feira, buraco ou estante do vizinho para encontrar. Os quatro primeiros figuram bem reluzentes na lista aí embaixo. Os quatro derradeiros, mais pré-aborre, ops!, adolescentes, ficam para amanhã. Bolsas mágicas, ferrugens coloridas e outros mundos de brochuras "A Bolsa Amarela", Lygia Bojunga Nunes Além disso, é na bolsa que minha heroína esconde suas três vontades (a de crescer, a de ser menino e a de ser escritora), que sempre que desatam a crescer o fazem fisicamente, feito balões, e acabam envergonhando-a. Delicioso, cheio de símbolos e lições de moral sem o menor traço de pieguice. Ainda está em catálogo pela Ediouro. Viva! "Bisa Bia, Bisa Bel", Ana Maria Machado Como se já não bastasse, passa a conversar também uma garota que vai ser sua bisneta no futuro. Da Editora Moderna. "Raul da Ferrugem Azul", Ana Maria Machado Aqui, Raul percebe que está enferrujando, mas parece que ninguém da sua casa vê as manchas. Em busca de uma resposta para o mistério, ele descobre que deixar de fazer algo que você podia fazer pode trazer sérias conseqüências... Outra pérola que sabe combinar conteúdo e lições de moral sem pieguismo. Também da Editora Moderna. "Bem do Seu Tamanho", Ana Maria Machado Quando ela quer colinho da mãe, já está muito "grandinha para isso". Quando quer participar das conversas dos grandes, "ainda é muito pequena". (Quem não ouviu essas que atire a primeira pedra). Para desfazer o nó que se instaura na sua cabecinha, ela parte numa viagem junto a um boi de mamão e um garoto chamado Tipiti. Corre que ainda tem edição, da Moderna.
(Só olhava mesmo, como qualquer boa nerd, mas isso já é assunto para outro dia…) Vá se enfurecer com o que interessa Ontem li uma notícia que me fez pensar (raro, né?). Dizia o artigo que "os antitabagistas se enfureceram com a atriz Nicole Kidman porque ela fumou um cigarro durante uma entrevista em Cannes". Vem cá: não tem nada mais enfurecedor acontecendo no momento? Eu não sou fumante nem nada - a bem da verdade, acho um saco ter que respirar aquela fumaça que trava minha garganta sem ter optado por ser adicta. Mas é que não entendo essa postura feudal de "vamos matar o mensageiro". A Nicole Kidman deve fumar tanto quanto outras milhares de pessoas desconhecidas. Os que criticaram a tragada da moça, no entanto, não devem andar pela rua batendo no ombro de fumantes civis dizendo que eles estão fazendo apologia ao cilindrinho cancerígeno. A pergunta é: por que eles não vão lá na porta da Philip Morris e a Souza Cruz dizer que fabricar cigarros é o problema real? E outra: se Nicole tivesse mandado ver em um trago de tequila em meio a tal entrevista, ia ter gente "se enfurecendo" assim? Não, arrisco dizer que só ia virar piada. Longe de mim afirmar que fumar não faz mal e dar aquela esfarrapada desculpa de que álcool causa os mesmos problemas mas não é combatido do mesmo jeito. E mais longe de mim ainda dizer que só se armou esse salseiro devido à garota ser atriz de Hollywood - até porque sou desvairada defensora de que celebridades merecem ser punidas do mesmo modo que o resto de nós, ilustres bocós. O caso é o peso que se dá ao negócio todo. A Dona Nicole nunca foi a público dizer que fumar é legal - pelo contrário, ela já declarou várias vezes que se esforça para parar, mas tem enorme dificuldade. E eu não sei lá no exterior, mas aqui no Brasil a coisa fica ainda mais paradoxal quando se trata de famosos fazendo coisas erradas, grandes e pequenas. Os Manoéis Carlos da tv cansam de escrever novelas que versam sobre os problemas de ser alcoólatra ou toxicômano (apesar daquela professora chapada da novela das oito não me convencer nem um pouco). Mas quando atores, cantores e afins matam pessoas na vida real porque estavam dirigindo bêbados ou em alta velocidade e compram armas e drogas de traficantes (e NÃO vão pra o xilindró por causa disso), daí nada acontece. Pior: eles vão infestar os programas dominicais fazendo cara de coitados dizendo como são perseguidos porque são famosos. Então fica assim: quando cada qual receber o castigo que merece por cometer crimes previstos em lei, a sociedade pode (e deve) pular de nível e passar a pegar no pé daqueles que infringem até os menores preceitos morais da vida civilizada. Mas daí vai ser bem difícil completar o horário vespertino de domingo na televisão. Fla Wonka às 03:00 PMFreak Pop Show II - O horror continua Como todo filme de sucesso, a lista dos 10 artistas mais insuportavelmente inesquecíveis dos tenros anos de nossa MTV rendeu uma sequência. Milhares de leitores se manifestaram para sugerir muitos nomes que acabaram ficando de fora da primeira versão - tá, não foram MILHARES de leitores, mas o suficiente para montar um novo ranking, igualmente infame. E como toda sequência de filme de sucesso, esta terá muito mais emoções, mais cenas de nudez, um final comovente e até a participação de um famoso astro de Hollywood (que aliás poderá ser visto a partir de hoje na continuação cinematográfica mais esperada do ano). Chega de blábláblá e vamos às vias de fato!
9) Deborah Blando 8) 4 Non Blondes 7) Chris Isaak 6) Ace of Base 5) EMF 4) Skid Row 3) Bart Simpson 2) Paula Abdul 1) Right Said Fred ![]() Chuta que é macumba!
Salva, Jesus! É triste dizer mas, ao que parece, boa parte das pessoas da contemporaneidade (adoro essa palavra, impõe moral e trava a língua de uma tacada só!) perderam o respeito pelo Filho do Hómi. Para corroborar minha teoria, que pode a princípio assustar aos mais puritanos, coloco três situações testemunhadas de boa-fé por esta que vos escreve. Segunda-feira passada, horário nobre da televisão, máquina-de-fazer-doido sintonizada na Bandeirantes. Assisto com atenção ao programa do bispo RR Soares, dissidente da Igreja Universal – na minha opinião, uma das coisas mais curiosas (para não dizer hilárias) no ar na tv aberta atualmente. E eis que, depois de curas milagrosas, ele solta: "Jesus é lindo! Uma salva de palmas para Jesus!". Hum. Estranho. Outro dia na tv, canal que não reparei sintonizado, e a bispa (?!) Sônia Hernandez saca da frase que, para mim, a tornou famosa: "Jesus é um lugar quentinho no seu coração". Ainda bem que é no coração, pelo menos. Por fim, todos os dias, nas ruas de qualquer cidade, não é difícil topar com o adesivo: "Propriedade exclusiva de Jesus". Será que o Filho de Deus em-si paga o IPVA? Em verdade vos digo, fiéis leitores, que com essas coisas não se brinca. Ou não se devia brincar. Aposto que, aos que agem de má-fé na manipulação das crenças das pessoas, Jesus – o verdadeiro – há de reservar uma das últimas senhas possíveis na fila para o julgamento no Dia do Juízo. Bem à la cena final de "Beetlejuice – Os Fantasmas se Divertem". Clara McFly às 06:21 PMXuxa, Gigi e o encurtamento de saias Saio de casa todos os dias por volta das 9h20 da manhã. Bom, eu poderia sair uns 15 minutos mais tarde, mas como tenho o costume de ligar a tv enquanto engulo o leitinho, preciso dar o fora exatamente nesse horário para não correr o risco de encontrar com a Xuxa. Eu sei, eu sei: ela não faz o tal "Mundo da Imaginação" para gente da minha idade, então eu não tenho que dar palpite. Mas é que não há como fingir que aquela saraivada de idiotices seja interessante para qualquer um, tenha a criatura tenros 28 anos como eu ou 36 meses como o público da manhã. O que me faz pensar sobre os programas para pequenos na televisão é lembrar do passado. Quando a mãe da Sasha iniciou carreira na finada Manchete, ela não era nada além da namorada do Pelé. Quem dava um baile com os pom-poms na época era a Gigi do Bambalalão. Lembram dela? Era uma senhorita com olhos gigantescos que usava um penacho pregado na cabeça. Gigi não fazia nada de especial, e por isso mesmo era nossa ídola. Ela tinha voz de travesseiro, mandava e desmandava naquele circo e já vestia sainhas de cetim, mas apenas dois dedos acima do joelho. Só que ninguém estava preparado para a chegada da Xuxa num disco voador. Ela potencializou tudo o que a Gigi fazia quando foi para a Rede Globo. Encurtou a saia até virar um cinto, platinou e escovou os cabelos como a Barbie, lançou LPs, espezinhou dois caras vestidos de insetos e promoveu o rascunho dos concursos de "loira do Tchan", a contratação de Paquitas. Gigi e seus fantoches caíram no limbo depois disso! Não adiantou nem o fato dela ser formada em Comunicações e Artes pela USP e ter anos de janela como diretora e produtora de tv. Da minha parte, acho que a moça que interagia com os bonecos na TV Cultura ainda sobrevive na memória de muitos. Justamente porque não levou a profissão de tele-babá às conseqüências mais terríveis - como falar com a molecada como se eles fossem retardados em vez de ser simplesmente uma doce contadora de histórias. Concluo com os versos do sapientíssimo grupo "Língua de Trapo", que em meados dos 80 já jogava na cara de loiras afetadas a verdade sobre os pirralhos. A música chama-se "Os Donos do Mundo", o disco é o "Como é Bom Ser Punk" - e a acidez é para quem tem algum senso de humor: "Criança não é imbecil, criança não é demente Freak Pop Show Lembro-me perfeitamente de quando consegui, pela primeira vez, captar o sinal da MTV brasileira na televisão de casa - conquista que era o máximo naquela época. Achei que um novo e maravilhoso mundo se abriria para mim, e não contava com a quantidade de lixo que viria com ele. Era final dos anos 80, começo dos anos 90. Viciei facilmente na emissora, e acabei assistindo a todos os clipes que apareciam. O problema era que, mesmo se a música fosse dura de engolir, ficava com curiosidade de ver o vídeo (novidade, ué). Resultado: um grupo de artistas insuportáveis, habitué da programação por algum motivo desconhecido, ficou grudado na minha cabeça. Resolvi portanto dividir com você essas recordações não tão saudosas. Aí vai uma lista das 10 celebridades da música pop integrantes de um seleto clubinho pra lá de ruim e pra lá de estranho. São estrelas cadentes que duraram pouco - mas eram tão peculiares que é difícil de apagar da memória. Se você tem coração fraco, é melhor parar de ler por aqui. Não me responsabilizo pelos efeitos colaterais, nem por músicas horrorosas que provavelmente vão lhe perseguir pelo resto do dia. Depois não diga que eu não avisei!
9) Kriss Kross 8) Marky Mark 6) C&C Music Factory 5) MC Hammer 4) Enigma 3) Vanilla Ice 2) Locomia 1) Jordy ![]() Dur dur d'être bébé o c*!
Ele tem o poder de enfurecer os seres… Quem, nascido entre o fim dos anos 70 e começo dos 80, não assistiu a um daqueles famosos seriados japoneses de heróis? Aliás, vamos ampliar o leque dos anos, já que, muito antes do Esquadrão Relâmpago Changeman aterrisar na telinha da extinta Machete, o National Kid já havia entretido a minha mãe e sua geração. E, na cola do avô dos programas do gênero, vieram os inesquecíveis "Spectreman" (que eu sempre entendi "SpectrOman"), "Ultraman" e seus inimigos com o zíper da fantasia aparecendo. Mas fiquemos só nos exemplares dos anos 80. Pois eu confesso que, apesar de ser menina, assistia a todos com meu irmão -- e delirava cada vez que aparecia o Satã Goss, no "Jaspion", e o narrador dizia solenemente: "Satã Goss tem o poder de enfurecer os seres e torná-los monstros incontroláveis", em todo orado episódio. Meu favorito era o "Changeman". Eu gostava mais dos episódios em que os cinco -- Change Dragon, Change Pegasus, Change Griffon, Change Mermaid e Change Phoenix -- montavam aquele robô gigante com os veículos de cada um, para combater um monstrengo recém-aumentado pelo incansável Gyodâi, uma criatura capenga com um enorme olho, que só se prestava mesmo a agigantar os seres malignos depois que eles eram explodidos pela Power Bazuca ("Munição! Na mira! Fogo!"). Eu tinha um pouco de medo dos soldados Hidler -- ok, eu morria de medo das tais criaturas azuis com cachos amarelos, especialmente depois que meu pai, usando uma máscara deles, surpreendeu a gente no quarto, brincando de navio na beliche, e pregou o maior susto -- mas adorava brincar de "Changeman". A brincadeira dava um certo problema, pelo menos entre meus irmãos, primas e eu (sim, eu não era a única garota que gostava do Esquadrão Relâmpago na vizinhança!). O fato é que TODAS as meninas queriam ser a Change-Mermaid. Primeiro, porque o uniforme dela tinha mais cor de rosa. Segundo, porque ninguém queria ser a heroína cujo símbolo era uma galinha. Claro que, do alto dos meus 7 ou 8 anos, não tinha a mais vaga idéia do que era uma fênix… E, do alto dos meus 25, continuo sem saber o que é um Griffon. Os outros são os outros e só Logo depois da febre de "Jaspion" e "Changeman", começaram a pipocar sentais nos programas infantis, mas nenhum deles ganhou o espaço do inimigo do Satã Goss e do Esquadrão Relâmpago em meu coração. Tinha o Jiraiya, o Jiban e, pasmem, o Lion Man, cuja cabeça era obviamente de pelúcia. Assim não dá. Droga, o mundo é dos espertos? Tudo bem, eu confesso que sou meio "tolerância zero". Não com tudo, claro, mas em certos momentos... Ouvir ditados e expressões cretinas serem repetidos por pura falta de criatividade, por exemplo, me deixa doida. São umas lorotas inventadas no tempo do guaraná fechado à rolha e que funcionam como frases de biscoito da sorte para gente que realmente não tem o que dizer. Ou você vai querer me convencer de que o lema "primeiro a obrigação, depois a diversão" é aceitável? Primeiro a diversão, sempre! E se sobrar tempo, daí é possível pensar na obrigação. A não ser que haja tempo e possibilidade de encaixar a enrolação no meio. O largamente difundido "amigos, amigos... negócios à parte" também é triste. Quem diz isso costuma ter poucos amigos, aliás - provavelmente porque passou a perna em vários deles. Assim como os que usam o cômodo "falem mal, mas falem de mim". Pessoas que repetem essa máxima são as mesmas que costumam chorar de solidão no travesseiro. Outro desses ditados bem odiosos é o velho "antes só do que mal acompanhado" - que só ficou pior quando foi invertido pelo Erasmo Carlos numa versão ainda mais desgraçada, o "antes mal acompanhado do que só". Só sendo mesmo muito chato para não conseguir ficar "bem acompanhado e pronto". Mas o pior de todos é, sem rastro de dúvida, o infame "o mundo é dos espertos". A simples menção desse dito me dá a impressão de que o sujeito que proferiu a frase vai pular em cima de mim e afanar minha carteira. Essa frase pode ter nascido de várias formas, como pela boca de um sujeito que vendia escrituras da Lua ou por aquelas tias que roubam vagas no estacionamento. O fato é que, se o mundo é mesmo dos espertos, acho que eu preciso encontrar o inventor do ditado e comprar esse terreninho na Lua.
...que muitos deles nasceram de maneira porquinha. Minha versão predileta é aquela que conta o motivo de várias pessoas usarem o termo "cuspido e escarrado" para dizer que fulano é a cara de beltrano. O dito, parece, surgiu de uma expressão bem menos nojenta. Antigamente, pelo que contam, dizia-se que fulano era beltrano "esculpido em carrara", uma referência às estátuas de mármore do renascimento - a pedra que vinha da cidade de Carrara, na Itália, era a de melhor qualidade -, que retratavam humanos com perfeição de detalhes. Daí alguém bastante surdo entendeu tudo errado e brincou de telefone sem fio, fazendo o bonito "esculpido em carrara" virar "cuspido e escarrado". Eu não digo que certas pessoas repetem ditados como papagaios sem cérebro? Fla Wonka às 11:53 AMDuro de empregar Todo mundo que não é jornalista costuma comentar comigo como o jornalismo deve ser uma profissão ótima. A gente passa o dia escrevendo, conhece artistas, fica com o nome famoso, entra de graça no cinema, ganha um monte de jabá. Mas se você acha que não temos do que reclamar, bem, na verdade nós temos. É sério. Vou contar um segredo de bastidores. O jornalismo é dividido em duas categorias: os que trabalham demais e os que não trabalham. O primeiro grupo trabalha demais porque o segundo grupo existe. E o segundo grupo existe porque o primeiro grupo trabalha demais. Deu para entender? É meio Tostines, eu sei. Jornalista, como 99% da população brasileira, vive com o bichinho do desemprego fungando na nuca todo santo dia. Com medo de que o bichinho ataque, ele mostra serviço e faz as atividades de 5 pessoas. O chefe, vendo isso, pensa "para quê manter 10 empregados se 2 fazem o mesmo trabalho?" e manda embora os outros com a desculpa de "corte de gastos" - como se nossos míseros salários fizessem alguma diferença para a empresa no final do mês. Desse modo, há poucos profissionais que fazem muito e muitos que fazem quase nada. Sinto confessar que me enquadro no segundo grupo, e não é de hoje. Sou tão escolada que perdi a conta de quantas entrevistas já fiz, quantos currículos já mandei e quantas dinâmicas de grupo fui obrigada a participar em busca de um emprego nessa profissão dura de roer. Não vou citar nomes, mas há uma famosa livraria em São Paulo que faz dinâmicas engraçadíssimas - para quem senta e fica rindo da situação constrangedora, claro. Já os infelizes candidatos têm de contar historinha, brincar de escravos-de-Jó, relatar um sonho, revelar que animal gostaria de ser e desenhar a partir de uma elipse. Estive presente em duas delas, e posso me considerar uma sobrevivente por ter suportado cinco horas (cinco horas!) durante as quais paguei toda a sorte de prendas humilhantes, enquanto uma psicóloga da minha idade escrevia num papel suas impressões sobre a roupa que eu estava usando. Minha vontade era sair correndo, gritando com as mãos no rosto como o Macaulay Culkin em "Esqueceram de Mim". Todos meus testes psicológicos, assim como os estudos dos meus rabiscos e da minha caligrafia devem ter dado "fique longe dessa maluca" ou "boa aptidão para espremer laranjas", uma vez que ainda estou aqui assistindo a todos os programas vespertinos da TV. Bem, o que é meu está guardado. Só espero que não seja num cofre acorrentado a um monolito no ponto mais profundo do Oceano Pacífico. Perca a vaga, mas não o bom-humor Se você também vive em entrevistas de emprego mas ainda não obteve um resultado positivo, lá vão algumas falas que podem ajudar na próxima vez. São personagens bacanas que já foram questionados sobre a vida profissional e se saíram muito bem - nas respostas engraçadas. "Eu tenho um chapéu. Um chapéu escrito 'domador de leões' que acende e mostra as palavras 'domador de leões' em grandes letras de neon vermelho, assim você pode domá-los depois do anoitecer" - Mr. Anchovy (Michael Palin) contando sua única qualificação como artista de circo no sketch "Guidance Counselor" do Monty Python. "Eu não quero vender, comprar ou processar algo como carreira. Eu não quero vender algo comprado ou processado, ou comprar algo vendido ou processado, ou processar algo vendido, comprado ou processado. Como carreira, eu não quero fazer isso" - Lloyd (John Cusack) tentando explicar o que diabos ele quer em "Digam o que Quiserem". Entrevistador: “Senhor Murphy, você está querendo dizer que mentiu em seu currículo?” "Senhor, não tenho experiência em bancos, mas sou muito atraído por dinheiro. Eu gosto. Eu uso. E eu tenho um pouco, que guardo num pote sobre a geladeira. Eu quero colocar mais naquele pote, e é aí que o senhor entra" - Robbie (Adam Sandler) respondendo à fatídica pergunta sobre experiência durante uma entrevista em "Afinado no Amor". Entrevistador: “O que você acha do fenômeno El Niño?”
A pergunta que não quer calar Desde a reformulação da revista da operadora de TV Net, paira uma dúvida sobre minha pobre cabeça. E olha que eu nem sou assinante da operadora -- muito menos da revista. Tá, eu gostaria que eles cobrissem minha região, mas... enfim. A referida publicação ganhou o nome de "Monet". O problema é a pronúncia. Batendo o olho, você imagina que a referência seja o nome do famoso pintor, certo? Mas o que tem a ver uma revista de programação de TV por assinatura com o mestre do impressionismo francês? "Deve ser um trocadilho com o nome da operadora", pensei. Tá. Então pronuciaria-se, para expressar o trocadilho, Mô-Nét. O problema é que chamar a revista de Mô-Nét dá a impressão de que você está falando errado o nome do pintor. E chamar a revista de Monê, como a pronúncia do nome do artista, dá a impressão de que você está falando, na melhor das hipóteses, sobre uma publicação de arte. Ainda bem que eu não sou assinante. Senão, ia ter de inventar subsídios dos mais diversos quando quisesse me referir à revista -- coisa que, obviamente, faria com mais freqüência se utilizasse os serviços da operadora. Poderia falar assim: "a revista de programação do mês já chegou?" ou "me passa o guia de TV aí, por favor". Ou passaria a usar só o guia de tela. Tudo para evitar a fadiga. Meu pequeno exército Já fui viciada em muitas coisas. Nada que tenha me levado para a cadeia ou centros de tratamento de qualquer espécie. Mas um dos meus vícios atingiu níveis alarmantes. Ah, eu a-ma-va meus Playmobils... Comecei a montar minha metrópole de pessoinhas sorridentes de plástico injetado ao ganhar a primeira caixinha em um Dia das Crianças. Trazia uma casa pequena de montar, uma mocinha de vestido verde e acessórios no estilo faroeste. Mas a garota se tornou uma camponesa solitária. Então, no Natal seguinte, fui obrigada a pedir um segundo jogo para os meus velhinhos: o restante do forte apache. A população cresceu, mas como o forte vinha somente com cavalos, índios e confederados, a mocinha continuou meio perdida no meio daquele monte de rapazes. E como ela não era nenhuma vadia, pedi, no aniversário, mais um presente da série. O hospital dos Playmobils vinha numa caixa gigantesca - tanto que ficava guardada no maleiro do meu guarda-roupa, uma honra dada apenas aos brinquedos-tesouros que eu ganhava. Tinha sala de operações, cadeiras de roda, itens diversos para equipar os doutores e as enfermeiras. O caso é que todo mundo tinha como figurino único o uniforme branco do PS, e a mocinha da primeira casa ainda se sobressaía - ela já estava saturada de ser sempre a doente nas histórias. Daí veio a glória: me comportei o ano todo e faturei um completo castelo dos carinhas de cabelo móvel! As princesas aceitaram a garota do tempo do Velho Oeste sem ligar para a diferença de séculos. Brinquei tanto com aquela comunidade - na época, o pessoal os pés chatos e mãos de gancho já era em número maior que a população da minha rua - que os capacetes dos soldados começaram a descascar. Alguns anos depois a moçada toda foi ensacada e, depois de um tempo, doada para crianças da vizinhança (meu pai era desapegado, fazer o quê?). É verdade que eu já estava interessada em outras coisas, mas doeu no coração saber da migração do meu povo Playmobil semanas depois do ocorrido. Espero que hoje eles vivam bem, unidos e que não tenham sido reciclados. Ainda faço umas visitas no www.playmobil.com. Para ver seus filhos e netos, sabem como é.
Meus doutores eram gênios feitos de plástico! Quem disse que mãe sabe o que faz? Hoje posso me considerar uma viciada em cinema. Tanto que, se eu passar apenas um fim de semana sem completar o ritual de ficar na fila do ingresso, ficar na fila da pipoca, ficar na fila para entrar na sala e ficar na fila para sair da sala, começo a me deprimir. E olha que eu odeio fila. Mas nem sempre foi assim. Quando eu era pequena fui pouquíssimas vezes ao mundo mágico da salona escura e da telona brilhante. Na verdade, pensando agora no assunto, só consigo me recordar de três: para assistir aos filmes "A Princesa e o Robô", "Bambi" e "E.T. - O Extraterrestre". O primeiro eu adorei, já os outros dois... "Bambi" é um caso clássico de tortura. Pouca coisa pode traumatizar tanto uma criança do que ver a mãe da criaturinha ser morta a sangue frio daquele jeito. Quando fui levada ao cinema, inocentemente achando que ia presenciar uma fábula meiga do Walt Disney, abri o berreiro e continuei chorando por horas a fio só de lembrar do brutal assassinato. Mas nada se compara ao que estava por vir. O dia em que a minha mãe resolveu me arrastar para ver "E.T." - porque todas as amigas dela tinham levado os filhinhos e todos eles tinham achado liiiiindo - marcou a minha vida para todo o sempre. Pois foi extamente a partir daquela data que o meu maior medo infantil começou. Eu fiquei petrificada na poltrona. Lembro-me de esconder o rosto com as mãos para não olhar aquele ser pavoroso. Sejamos francos: o bicho era assustador, além de ter um corpo enrugado que se acendia todo, de possuir um pescoço que crescia e de falar como uma velha com cirrose. E aquela cena em que o Elliot joga a bolinha dentro do galpão e a bolinha volta é de arrepiar. Chorei, gritei, suei. Não dormi naquela noite, nem na próxima, nem na próxima. Qualquer barulhinho no quarto, pronto, o E.T. tá vindo. Foi um pesadelo. Minha mãe, ciente do estrago que tinha feito e que poderia custar anos de análise para sua filha, decidiu, do alto de sua sabedoria, me dar um boneco do personagem para eu me "familiarizar" com ele. Adivinha? Se antes eu tinha medo do E.T. entrar no quarto, bem, agora ele ESTAVA no quarto. Eu pegava o brinquedo (tinha até uma chavinha nas costas para subir o pescoço) e o enfiava debaixo de todos os cobertores, bem no fundo do armário, para criar alguma dificuldade caso o monstro alienígena quisesse aprontar comigo de madrugada. Sei que só fui conseguir assistir ao filme inteiro há pouco tempo, quando reestreou nos cinemas. Dessa vez eu chorei de novo (de pena) e vibrei com a célebre cena das bicicletas voadoras. Ainda bem que a gente evolui, de certa forma - e que o E.T. conseguiu voltar para o planeta dele e não pode mais me atacar. Vivi Griswold às 09:56 AM
Com choro e com vela Não é todo dia que você acorda animado, feliz e de bom-humor, com o estoque de piadas e observações irônicas bem carregado e aquela vontade de levantar e sair vivendo. Mas ficar triste às vezes também pode ser gostoso. Principalmente se você não tem razão nenhuma para tanto e acompanha o estado de espírito com algumas canções que foram feitas para isso. Sem mais delongas, segue um punhado dos versos mais tristes de músicas que já ouvi. A seleção priorizou trechos que, por si só, são tristes demais, mesmo fora do contexto da letra. Por essa razão, o verso-título gritado de "Don’t Let Me Down", dos Beatles, ficou de fora. É uma das coisas mais tristes que já ouvi, mas em boa parte porque foi a música da última apresentação deles. As nacionais também ficam para outro post. 5. ... And my clothes don’t fit me no more, de "Streets of Philadelphia" 4. To die by your side is such a heavenly way to die, de "There’s a Light That Never Goes Out" 3. But I’d trade all of my tomorrows for one single yesterday, de "Me and My Bobby McGee" 2. These things, they go away, replaced by everyday, de "Nightswimming" 1. Driving on city buses for a hobby is sad, de "The State That I Am In" Garotas que Dizem "quem manda aqui sou eu" Como a companheira Vivi bem disse abaixo, estivemos ontem sendo acachapadas por um filme como poucos. Matrix Reloaded fez muitas coisas - mas a principal delas foi me lembrar de como as garotas podem ser umas belas chutadoras de traseiros no cinema. Depois de ver a Trinity dominar todos, até o cidadãozinho que é o Escolhido, não me controlei em pensar que, oras bolas, nós mocinhas até que estamos bem representadas no setor de não levar desaforo para fora do set. Daí eu puxei pela memória e me lembrei de várias cenas que, um dia, me fizeram cerrar os pequenos punhos e gritar um sonoro "Aêêêê!!" quando a mocinha do filme decide agredir gente besta sem levantar nem um dedinho. Nenhuma das cinco que ranqueei abaixo partiu a cara de ninguém depois dessas frases, mas, ó, que lição de moral. Para entrar no espírito "recolha-se à sua insignificância, criatura", aí vão elas. 5) Erin Brockovich, no filme homônimo 4) Gracie Hart, em "Miss Simpatia" 3) Holly Golightly, em "Bonequinha de Luxo" 2) Bridget Jones, em "O Diário de Bridget Jones" 1) Trinity, em "Matrix Reloaded" Meninos, nós vimos! Extra! O Garotas esteve em peso (não tanto peso assim, vá) no evento mais aguardado do ano até o presente momento: a exibição para a imprensa de "Matrix Reloaded". Lá estávamos, felizes da vida, nos acotovelando com mais 856 jornalistas presentes no local - se tudo aquilo for repórter de entretenimento e cultura, pode me chamar de Creuza. Ou então tá explicado o motivo de tanto desemprego nessa profissão. Ê concorrência! Voltando. Muito já se especulou sobre a sequência do sensacional "Matrix" e, quanto mais nos aproximamos do grande dia de estréia, mais cresce o frisson sobre a superprodução. Todo mundo já leu, ouviu falar e viu em trailers que a) existem cenas de luta tão maravilhosas que mais parecem um balé, b) o impagável vilão agente Smith volta multiplicado por 300 e c) Neo continua sendo o predestinado - mas deu uma melhorada no guarda-roupa e agora voa que é uma beleza. Mas o que ainda não comentaram, pelo menos não que eu tenha visto, é como Trinity (Carrie-Anne Moss) arrasa e rouba a cena. Lembra-se daquela teoria sobre a Ginger Rogers ser melhor do que o Fred Astaire pelo simples motivo dela dançar como ele e ainda usando salto alto? Pois essa teoria "girl-power" cabe direitinho quando o assunto é a patroa de "Matrix". Trinity rules Pense comigo: Trinity bate em todo mundo mesmo apertada em uma roupa de vinil e botas malvadas, além de nunca despentear o cabelo. E de quebra, após ter conquistado o coraçãozinho de Neo no primeiro filme, agora possui o rapaz na palma da mão. Ele está locamente apaixonado pela morena, precisa ver! Isso sim é um prodígio. O bacana é que a personagem e seu affair dão um toque a mais na produção. Assim, "Matrix Reloaded" não é só pancadaria high-tech. É pancadaria high-tech, devaneios filosóficos (que só vão ser entendidos depois de muitas tentativas da parte dos espectadores) e muito A, M, O, R. A cena em que Trinity e Neo estão, er, doing it, se é que você me entende, é demais. Linda, sutil, bem produzida e sexy. Enquanto Zion, o último recanto dos humanos, está sendo sacudido por uma rave tribal (até agora não entendi, mas...) o casal aparece entrelaçado e sem uma roupinha sequer. Nada há entre os dois, a não ser aquele monte de plug. Outra passagem favorita é quando Persephone (Monica Belucci com um vestido tão justo que, se espirrar, voa peito para todos os lados) tenta roubar um beijo de Neo em troca do favor que vai ajudar a revolução. Mas ela não quer um selinho qualquer. É cômico o olhar que o moço dá para Trinity, tipo "posso, benhê?". Nossa heroína engole seco, mas mantém a pose. Chiquérrima. Ok, isso foi nosso olhar "date movie" atuando. Mas peraí, todo mundo precisa de um pouco de romance na vida - até predestinados e garotas boas de briga. Ah, dia 22 está quase aí. Você não perde por esperar. ![]() Ai ai ai, Mr. Anderson, onde o senhor estava até uma hora dessa? E nem me venha com aquele papo de salvar a humanidade, hein?
Fala direito, meu filho! Antes da estréia de "Mulheres Apaixonadas", me deparei com uma chamada bizarra da tal novela. Nela, Rodrigo Santoro sacava da frase "Amor de primo é para sempre" ou coisa que o valha, partindo para cima de uma garota que só podia ser, suponho, a prima gostosa do moçoilo. Muito bem. Apesar de estar no perfil do personagem interpretado pelo ator, a frase é, na melhor das hipóteses, constrangedora. Ok, um pouco risível também… E deste tipo de pérolas a chamada novela-das-oito está pipocada. Por isso mesmo não vou me debruçar aqui sobre tio Manoel Carlos e sua equipe de roteiristas, que devem ter aprendido a escrever diálogos naqueles livros de inglês, onde as pessoas conversam assim: – Olá, me chamo Patricia. Como você se chama? E outras frases à la the book is on the table, enfim. O duro é pegar essas frases constrangedoras (mas que sempre têm lá sua pontinha de cômicas -- e o que é melhor: involuntariamente cômicas) em filmes. Sem discriminação, vamos às cinco mais-mais das frases carinhosamente intituladas… Era para ser sério? Ah ah ah! Oh oh oh oh oh uh uh gasp gasp uá ah ah ah ah ah ih ih ih ih ih Pfffffssss! Oh oh oh ah ah ah ih ih ih ih ih! Ai ai... ops. Desculpe. Achei que era para rir. 5. – Você sabe o que acontece com um sapo quando ele é atingido por um raio? O mesmo que acontece a todas as outras coisas. 4. – Enfermeira, pegue o ácido tricloricético. Jogue no monstro! 3. – Deixou algo para a gente, coronel? 2. – Saia do meu avião! 1. – Onde está o resto de mim? Perto desse pessoal, "amor de primo é para sempre" é pinto. Abaixo o blá, blá, blá! Viva o yeah, yeah, yeah! Se você é daqueles que tem urticária nervosa só de pensar em assistir um filme do gênero musical (você deve ser homem... tá bom, sem preconceitos...), tenho modestas indicações. Um é bem velho, outro é só meio velho, outro é recente e o último, de tão novo, você nem deve saber que existe. O bem velho é uma produção de 1991 chamada "The Commitments" (aqui no Brasil ganhou o subtítulo de "Loucos pela Fama", mas ignore essa parte). Como a história, divertidíssima, é sobre a formação de uma banda na Irlanda, eles executam pelo menos 20 ótimas canções durante o filme. Mas são muito bem colocadas, então não há overdose. Dá é vontade de virar backing-vocal, mas isso é conversa para outro dia. O meio velho: trata-se de "Quase Famosos", lançado em 2000, um delírio para quem sempre sonhou em estar perto do seu grupo musical favorito. A cena que toca, em todos os sentidos, é uma cantoria desbragada que une roqueiros, groupies e jornalistas adolescentes com uma linda cara de pastel. A música é "Tiny Dancer", procure já na coleção de clássicos da sua mãe. O recente (que só é chamado recente porque eu vi na tv a cabo há uns pares de dias), é "Rock Star" (2001). Com o Mark Wahlberg no papel principal, o filme não é exatamente um musical. Aliás, "Quase Famosos" também não, mas são dois filmes que falam para quem gosta de música mas não tolera atores que começam o diálogo conversando normalmente e depois descambam para o lá-lá-ri-lá-lá. Não vi o novíssimo - mas digo que é bom Como diria o patrão Silvio Santos, eu não vi, mas minha filha número 18 viu e disse que é o máximo. Na verdade eu não tenho filha alguma, mas uma amiga é que viu e garantiu que vem por aí um fantástico filme-para-quem-gosta-de-música-mas-não-de-musicais. Chama-se "24 Hour Party People", ou "A Festa Nunca Termina". Foi lançado no ano passado, mas ainda deve chegar ao Brasil em grande escala. A história se passa nos anos 70. Inspirado por um show do Sex Pistols, um bando de amigos decide criar um selo para reunir bandas que estão fazendo sucesso no momento. Não vi, mas quero. E tomara que dê para cantar muito junto com o filme. Ah, ora essa! Eu sou menina e adoro musicais mesmo... Fla Wonka às 03:25 PMFilosofia de trânsito Como qualquer pessoa que mora em São Paulo e ainda possui coragem suficiente para botar os pés fora da porta de casa, costumo passar muito tempo presa no congestionamento. Adicionando isso ao fato de não possuir carro - e, portanto, ser sempre a carona ou passageira de ônibus - posso me distrair com as pequenas piadas diárias da metrópole: os adesivos com mensagens. A chamada "filosofia de trânsito" há muito saiu da caipirice de pára-choque de caminhão para encontrar um lugar ao sol da capitar. Hoje, para ter uma frase estampada no vidro traseiro, não é mais preciso trabalhar levando carga para o interior. Basta ser boy, testemunha de Jeová, mano ou engraçadinho, ou as quatro coisas juntas. Para analisarmos o fenômeno, vamos dividir os adesivos em seis principais categorias. 1) A religiosa Os adesivos religiosos são conhecidos por carregarem as maiores pérolas filosóficas. Um dos mais encontrados por aí é "Dirigido por mim, guiado por Deus". Também temos "Ora que melhora", "Propriedade exclusiva de Jesus" e "Em caso de arrebatamento, este carro ficará desgovernado". Esse último confesso que demorou muito tempo até eu entender do que se tratava. Há adesivos "sérios", ou melhor, aqueles que não são para ser engraçados a princípio. Normalmente são extratos da Bíblia e normalmente a empresa que os confecciona não conhece a mínima regra de português e acaba enfiando vírgulas em todos os lugares. Ex: "O Senhor, é o meu pastor, e nada, me faltará". Ainda existem aqueles que extrapolam a linha do bom senso - para a nossa diversão. O melhor, até agora, é o que li em uma kombi na região da Rebouças: "Deus é jóia, o resto é bijoteria". Um crássico. 2) A de mano Mano que é mano tem adesivos gigantescos com o nome do estabelecimento responsável pelo som "da hora" que "vitaminou" a "caranga". Na maioria dos casos, tal adesivo ocupa todo o vidro traseiro (em geral, fumê) e não sobra espaço para mais nada. Mas o mano não se dá por vencido e acha sempre um lugarzinho no pára-choque para dizeres como "Nóis capota, mais num breca", "É velho mas tá pago", "Meu outro carro é um Mercedes" e "100% U 1000 D". 3) A de boy (e agroboy) Boy costuma ser um pouco mais discreto na hora de exibir frases. Na maioria das vezes os adesivos são publicidades de estações de rádio, ou algo do tipo "Eu *folha* Campos do Jordão", ou ainda o personagem Johnny Bravo fazendo pose. Porém é fácil achar "No stress", "I'd rather be diving" e "No aula yes boteco". Entretanto temos os chamados agroboys, aqueles que vão curtir um som country em Barretos todo o ano. Para eles a CAI (Central de Adesivos Irritantes) bolou o da "Estância do Alto da Serra" - pago um milk-shake para quem nunca viu um desses. 4) A anarquista A categoria anarquista é aquela que pega as mensagens mais famosas e as distorcem. O exemplo mais ilustrativo é a singela mensagem "Não tenho tudo que amo, mas amo tudo de tenho", reformulada para "Não tenho tudo que amo, mas foda-se". O prêmio vai para "Distância do Alto da Serra", versão para a já citada praga agroboy. Ah, e lembre-se de "Eu atropelo duendes" e do excelente "Só stress", fabricados pelos alunos de engenharia de uma certa faculdade. 5) A politicamente correta Apesar de ser a categoria mais sem-graça, não poderíamos deixá-la de lado. "Eu tenho vergonha dos vereadores corruptos de São Paulo", "Já fui assaltado" e "Velocidade controlada pelos buracos da Prefeitura" pipocam a toda hora e em todo lugar. Eu fiz minha mãe colar no carro dela um escrito "Gatos: amigos para 7 vidas" - não é fofo? 6) A profissional "Consulte sempre um advogado". Ou poderia ser "assessor de imprensa", "dentista", "promoter", "nutricionista" e "motoboy". Resumindo, complete a frase com qualquer profisão e teremos 98% dos adesivos desta categoria. Outra frase famosa é "If you can read this, thanks to your english teacher" - como se precisasse ter feito 10 anos de CCAA para entender essa balela.
Pode repetir? – Parte 2 Quem nunca cantou versõezinhas em português para letras em inglês? Tinha as clássicas, adaptadas por engraçadinhos e que se espalhavam feito fogo na palha seca. Como, por exemplo, "dez pastéis e um kibe, guaraná com limão" para "step by step, uh baby, gonna get to you girl". Tá. Ficou parecidinho, mas era claro que os Novos Garotos no Quarteirão não cantavam isso. O mesmo serve para "veste o uniforme-forme-forme" em "Yes we were born, born, born..." de "Born to be Alive", do Patrick Hernandez. Era para fazer piada mesmo, todo mundo sabia que os cantores não falavam aquilo. Mas eu me impressionava com algumas outras músicas, não tããão populares, que para mim tinham frases em português no meio. Uma delas repetia insistentemente no refrão "Ah, I won’t let you down, won’t let you down, won’t let..." E eu, ingênua, do alto dos meus sete ou oito anos e sem noção alguma de inglês, entendia: "ah, eu vou ler jornal, vou ler jornal, vou leeer…" Acho que na mesma época -- eu andava afiada! -- estourou o hit "Eyes Without a Face", do Billy Idol, nas rádios. Para mim, ao repetir o refrão do título, ele estava se propondo a "ajudar o peixe". E tinha o detalhe do efeito de eco a certa altura da música: "aaaajudar o pêeish, pêeish, pêeeish". Ok, eu sei que não fazia nenhum sentido. Mas é como eu achava que era. Tem outra que deve pertencer ao mesmo remoto tempo -- e essa entendo do mesmo jeito até hoje. É a pérola do easy-listening dramático "I Should Have Known Better", assinada por um tal Jim Diamond. Talvez a luzinha da memória não acenda com o nome da música, mas era aquela em que, a certa altura, o cara gritava: "ai, ai, ai, ai... ai, ai, ai, ai, ai, ai... lo-óve iúúú". Pode ser que isso esclareça. Se eu não era capaz de decifrar uma sentença simples como "Eyes without a face", imagina sacar que o refrão da música era composto por uma expressão verbal do chamado present perfect ou algo que o valha. Por isso, eu entendia que o cara gritava, em desespero, "e chama o bombeiro". Ficava deveras coerente, porque havia uma parte em que ele desfiava o que pareciam ser os gritos de dor, seguidos do pedido de socorro: "ai ai ai ai, ai ai ai ai ai ai... chama o bombeiro!", ao invés de "I I I I, I I I I... should’ve known better!" Aliás, toda vez que ouço essa música nas Antenas 1 e Alpha FMs da vida, ainda acho minha versão melhor. Tem mais dramaticidade. Anthony Kieds, esse especialista Duas músicas do álbum "Mother’s Milk", do Red Hot Chili Peppers, têm frases ditas por Anthony Kieds, vocalista da banda, que ainda me intrigam. A certa altura de "Johnny Kick a Hole in The Sky", ele solta o que parece ser um claro e audível "bobão!". Já na cover de "Fire", a coisa é mais intrigante ainda: entre os versos, dá para ouvir a clara exclamação "é isso aí!". Hoje sei que o que eu julgava ser "e chama o bombeiro" é "should’ve known better", mas ainda não decifrei qual expressão, em inglês, pode se assemelhar a "é isso aí!" Toda ajuda é bem-vinda. Até do Jim Diamond. Sempre a última a saber Logo depois de publicar o Pode repetir – Parte 1, recebi de um amigo o link para o Virunduns. É um blog que publica só misheardeds em português. São três amigos que inventaram a brincadeira e mantêm tudo funcionando, entre eles, o simpático Marmota. Fica a dica para quem quiser se aprofundar no tema. Clara McFly às 04:05 PMNeurose não tem idade Botar medo em crianças é um esporte que a humanidade pratica há milhares de anos. Na minha família, o artifício paternal também era usar o pavor para nos manter longe de encrenca. O problema é que até hoje tenho taquicardia quando penso nos dois maiores vilões da minha infância: Homem do Saco e Reverendo Moon. Não sei se eles eram conhecidos (e tão temidos) em outras partes da cidade, do estado ou do país. Mas, segundo constava a lenda urbana no meu bairro, a coisa corria assim: o Homem do Saco era um especialista em capturar meninos e meninas e perambular pela cidade com eles enfiados num sacão levado nas costas. Gozado como eu nunca desconfiei que seria meio idiota o cidadão rebocar tanto peso a troco de nada... De qualquer modo, eu parei de acreditar nessa primeira papagaiada envolvendo sacos e homens errantes por volta dos sete anos. Mas foi aí que tudo piorou, porque enquanto o Homem do Saco perdeu espaço, o Reverendo ganhou destaque na mídia infantil. Supostamente, o Senhor Moon rodava pela cidade com uma Kombi azul com cortininhas na janela apanhando pirralhos a caminho da escola (assim sendo, qualquer feirante que passasse na porta do colégio me fazia correr para trás do bebedor). Mais tarde, Moon fazia os reféns passarem por sessões de - segure-se na cadeira, que agora a cena vai ficar terrivelmente forte - lavagem cerebral!!! Ah, que medo me dava pensar nisso!!! Como o leitor já deve ter imaginado, minha mentezinha destorcida figurava que lavagem cerebral era um procedimento cirúrgico que envolvia médicos trabalhando em porões, serras, bisturis, mangueiras e jatos de sangue e água para todo lado. O Reverendo Moon, para mim, era um apavorante violador de cérebros, portanto. Hoje eu sei que o Homem do Saco foi criado pelo imaginário adulto para manter a garotada do lado de dentro do portão e o Reverendo Moon não passa de um dono de seita que tem problemas com o Fisco norte-americano. Mas vai explicar isso para o meu cérebro que teme ser lavado em uma imunda sala de operações... Fla Wonka às 12:27 PMA Pollyanna que habita em mim É difícil um filme mexer tanto com a gente que, ao sair do cinema, dá para sentir que alguma coisinha lá no fundo mudou - e para melhor. "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain" foi uma dessas raridades. Mas ei, esse texto não é sobre a obra-prima em verde e vermelho de Jean-Pierre Jeunet, mas sobre (pasme) um tantinho de auto-ajuda! Lembrei-me de Amélie porque ela, como eu, era adepta de saborear os pequenos prazeres da vida. Aqueles momentos que duram segundos e parecem ordinários, mas que trazem uma satisfação bobinha e divertida. Tipo atirar pedras no riacho, como fazia nossa amiga francesa. Pois então tratei de colocar minha porção Pollyanna em prática e fiz uma lista de 20 desses instantes mágicos que me fazem feliz. Desafio você a fazer sua própria seleção e tentar cumprir pelo menos um item hoje mesmo. Daí veremos se seu dia não fica um tanto mais alegre - ainda que por um curto espaço de tempo! 1) Ser o primeiro a comer a cereja do bolo 2) Patinar de meia no chão encerado 3) Enfiar a mão num saco de grãos 4) Passar cola branca no dedo, esperar secar e tirar a casquinha 5) Estourar plástico bolha 6) Raspar a vasilha com as sobras da massa do bolo 7) Apagar velas de aniversário 8) Completar palavras-cruzadas de jornal 9) Estrear uma caixa de lápis de cor novinha em folha 10) Assoprar dente-de-leão (ou careca-do-vovô) 11) Fazer bolhas de sabão 12) Enrolar cabelo no dedo 13) Virar panquecas no ar 14) Enfiar o dedo no pote de Nutella e lamber 15) Amassar copinho de plástico com o pé 16) Tentar fazer a maior bola de chiclete do mundo 17) Mamar leite condensado diretamente da lata 18) Desenhar no espelho embaçado 19) Destacar as margens daqueles papéis de impressora 20) Abrir a bolacha só para lamber o recheio Vivi Griswold às 09:10 AM
Pode repetir? – Parte 1 A princípio, achei que fosse só eu. Afinal, meus sentidos nunca foram dos mais apurados (os seis graus de miopia confirmam a afirmação). Algumas conversas ou situações constrangedoras depois me fizeram perceber que não. Todo mundo tem sua mishearded lyric para contar história... Mishearded lyric é a expressão usada em inglês para designar aquela escorregadela que você dá ao entender uma letra totalmente diferente do que o cara de fato cantou numa parte da música. O KissThisGuy (que está na nossa fabulosa seção de links) é todinho composto disso -- mas só de canções em inglês. O título do site veio da comum impressão de que Jimi Hendrix cantava "Excuse me, while I kiss this guy" ("Me dêem licença, enquanto beijo esse cara") em "Purple Haze", o que, embora próximo da pronúncia da letra correta ("Excuse me, while I kiss the sky"), anarquizou totalmente o sentido da música. Pois eu tenho um punhado de letras que entendia mal -- culpa dos meus ouvidos pouco apurados e de uma imaginação descontrolada. Para começar, na mais tenra infância, eu achava que naquela música do Heróis da Resistência que diz "eu te recriei, só pro meu prazer", o cara falava "eu te depilei, só pro meu prazer". E ainda ficava pensando: "Mas porque ele gostou tanto de depilar a moça?" "Faroeste Caboclo", talvez devido à sua extensão, é uma das que mais deram nó nos meus pobres neurônios. Eu entendia que o Santocristo tinha atirado no Jeremias-Maconheiro-Sem-Vergonha com uma "Manchester 22". E que o bandidão traidor tinha "organizado a maconha", ao invés da roconha (também, que diabo de palavra é "roconha"?) E tem a clássica "Noite do Prazer", do Claudio Zoli, que confundiu todo mundo. Afinal, quem ia adivinhar -- e o cantor falava bem rapidinho essa parte -- que a vitrola "tocava BB King" e não que alguém "trocava de biquíni" sem parar? Confesso que até hoje perco o entendimento de alguns trechos de músicas, buracos esses que são preenchidos involuntariamente com a imaginação. Mas embora eu seja pródiga nesse tipo de coisa, tenho de admitir que dois amigos me superaram no tema. Afinal, entender o trecho de Bete Balanço que dizia "que a palma da sua mão mostrou" como "que a cobra d’água mãe mostrou" é superar qualquer contato com a realidade. Eu tiro o chapéu para essa. Só não é melhor que trocar "proliferando ódio e destruição", parte de "Carta aos Missionários" do Uns e Outros, por "proliferando arco-íris-truição". Esse meu amigo (vamos chamá-lo de Dener para proteger sua identidade) não se contentou em montar uma frase com palavras que, ao menos, existissem. Teve que sacar do neologismo de justaposição com o arco-íris. Se bem que, pensando melhor, se pode ter "roconha", não vejo problema com o "arco-íris-truição". O assunto continua. Hoje, tratamos de misheards criados em português para letras na mesma língua. Amanhã, visitaremos as versões para lá de livres em português para letras em inglês. Manda-chuva? Só se for o gato Não sei se estou imbuída pelo espírito de 115 anos que a Abolição da Escravatura completa hoje, mas deu uma vontade enorme de escrever sobre os meus chefes. E de como eu azucrinaria a vida deles se as artimanhas de desenhos animados existissem na vida real. Ultimamente esses mortos-vivos andam me torturando além da conta. Sempre foi assim, mas nos últimos tempos nossa relação ficou problemática como uma perseguição entre Tom e Jerry - sim, eu sou o Tom, o que toma na cabeça. Isso posto, acompanhe comigo como seria perfeito se fosse possível: - Se a cada vez que eu escuto "eu preciso que você me entregue o trabalho em dez minutos" uma bigorna caísse do teto, eu seria uma proletária feliz; - Quando eles me pedem favores (e para ontem), eu poderia dizer que sim, como não, e depois lhes apertar as mãos com aqueles dispositivos de choque elétrico; - A técnica de transformar as pernas em turbinas e disparar pela porta de saída quando eles me mandam ficar terminando tarefas de noite seria uma dádiva; - Botar uma banana de dinamite na boca dos caras e acender o pavilzinho resolveria bem o impasse quando eles desatam a encher minha paciência por causa de horário; - Como seria ótimo tirar da mochila um porrete ou uma bazuca quando recebo meu cheque mensal... Tenho certeza de que, assim, a conta ia ser refeita; - Quando os insultos pessoais voam pela redação onde trabalho como mísseis teleguiados, o bom seria pregar um alvo no traseiro de cada um deles. Só assim para os "tiros verbais" irem parar no ponto certo...
Ah, se eu tivesse as perninhas do Papa-léguas... Tec tec tec Sem dúvida esse é um dos sons da minha infância. Ganha um doce quem adivinhar de primeira o que é! Tá bom, lá vão mais algumas dicas: era um brinquedo, vinha nas cores azul/vermelha e precisava de muitos rostos de pessoas de mentirinha - e de apenas um dedo de pessoas de verdade - para que a diversão fosse garantida por horas... E aí, já sabe? Claro que me refiro ao Cara a Cara, um dos melhores jogos que a Estrela já lançou em toda a sua história. Além de ser um passatempo excelente para dias de chuva, o brinquedo exigia raciocínio rápido e um pouquinho de sorte também. Para quem não se lembra, vinham dois tabuleiros com dezenas de caras (homens, mulheres, brancos, negros, com barba, com óculos). Cada participante escolhia uma carta que ilustrava uma delas e, a partir de perguntas eliminatórias, ia-se aos poucos chegando à carta do adversário. Levava os louros quem adivinhasse primeiro. Digamos que eu perguntava "tem olho azul?". Se a resposta de meu oponente fosse positiva, podia abaixar todos os rostos que exibiam olhos de outra cor. E era no ato da eliminação que entrava o tec tec tec. Ainda acho que um dos meus indicadores é mais desenvolvido do que o outro de tanto que eu o exercitava. Era a glória quando seu adversário pegava um representante da minoria. Lúcia, por exemplo, a única garota loira com fitas no cabelo. Se a resposta para "tem fita no cabelo?" fosse um sonoro "sim", pronto, todos os outros vinham abaixo - e era preciso abaixar um por um, para saborear o momento. Meu Cara a Cara de infância se perdeu, mas acabei comprando um novinho. Hoje minha tática evoluiu, assim como o grau de dificuldade. O bacana é escolher duas cartas por jogador, ou ainda fazer perguntas de nível moral e/ou social. Tipo "tem cara de desempregado?" ou "tem cara de quem aperta todos os botões do elevador só de pirraça"? Nunca dá certo no final, mas rende cada risada... Cara-de-pau! Parece que tem gente por aí que adora mexer no que já é bom e acaba estragando coisas sagradas. Deve ser aquele mesmo povo que inventou de trocar para plástico os recipientes do Karo e do Catupiry, sabe? Resultado: quem procurar agora o Cara a Cara na loja de brinquedos vai achar uma versão meia-boca que fica devendo (e muito) à original. Mudaram a embalagem do brinquedo, que antes tinha um menino banguela sensacional. Veja bem, a caixa do Cara a Cara era tão clássica quanto as embalagens dos palitos de dente Gina e do chocolate em pó dos padres. Mas não, ninguém respeitou. O pior é que os "novos" rostos não passam de caricaturas baratas dos desenhos antigos. E como não fosse heresia suficiente, mudaram todos os nomes - aquelas pessoas antes tão familiares, hoje são completos estranhos. Alfredo, o paraguaio trambiqueiro, não se chama mais Alfredo. Nem Jorge, com sua boca caída, ou Maria, com seu nariz de porquinho e boina fora de moda. Estragaram tudo! Tem gente que não tem vergonha na cara. ![]() Que saudades, amiguinhos...
É tudo verdade Eu sou cheia de vícios. E acho que o menos nocivo deles é fumar. Adoro, por exemplo, telejornalismo norte-americano. Falo sozinha. Xingo no trânsito. Guardo fósforo usado dentro da caixa. E o pior de todos: se pego um telefilme baseado em história real, não consigo despregar os olhos da tela até o fim. É mais forte que eu. As tramas são sensacionais: o marido planeja a morte da mulher para ficar com o dinheiro do seguro e fugir com a amante; a mãe perde a guarda dos filhos, pois acham que ela os envenenou com anticongelante (?!) ou qualquer coisa do tipo ou a família tem de entrar para o programa de proteção à testemunha depois de presenciar uma matança na porta de casa. São coisas que, para mim, só ganhariam atenção daqueles programas mondo cane maquiadinhos e enlatados, do tipo "Arquivos do FBI", "Detetives Médicos" ou "Reportagens Investigativas", com direito à melhor e mais engraçada dublagem porca que já se viu na TV. O filme vai seguindo com aquelas reviravoltas pouco prováveis -- mas que aconteceram de verdade, e daí ser tão legal: cirurgias plásticas para escapar do perseguidor (ex-marido, na maioria dos casos), mudanças de cidades (onde geralmente se vai parar numa casa vizinha à do inimigo), carros que pifam no meio da neve. Tudo muito emocionante, mas nada que se compare ao triunfante desfecho. Não estou me referindo, aqui, ao fim do filme, quer dizer, "fim" com os personagens acertando a vida ou salvando a pele. Meu ponto alto e favorito nos telefilmes é aquela hora em que a tela fica preta e aparecem as frases que esclarecem o destino dos personagens ou onde eles estão hoje -- já que, como pessoas reais, sua existência não termina com o fim da projeção. É hora das sentenças do tipo: "Laurie Kellog cumpre pena perpétua pelo assassinato de seu marido na Penitenciária Feminina de Porangaba, Massachussets" [fade. Pausa.] "Seus filhos moram com a avó paterna, em Chatanooga, Tennesse" [fade. Pausa dramática] "Ela tem direito a visitas de Eileen e Mike duas vezes por ano" [fade. Sobem os créditos]. Depois disso, suspiro feliz no sofá. Sei como a esbórnia toda terminou. A glória completa é quando aparece uma foto da fulana de verdade. Aí, eu não preciso de mais nada. Só desligar a TV com aquela sensação de dever cumprido. Juro, ele era vizinho do primo da namorada do irmão da minha cunhada! E se os clássicos de sessão da tarde dos anos 80 fossem telefilmes? Correríamos o risco de encarar, na tela preta entre o desfecho da trama e a subida dos créditos, coisas como: "Hoje, ele aguarda execução na Penitenciária de Segurança Máxima de Kissimee, na Flórida" [fade, créditos]
"Ellen Griswold abandonou o marido para casar-se com Siegfried , que conheceu na última viagem em família. Hoje, ela vive em Las Vegas com o novo esposo e o tigre branco" [fade, créditos]
"Sem nada, voltou para o subúrbio, onde divide um cômodo com seus quatro avós -- de 98, 100, 102 e 103 anos -- e a mãe, a quem ajuda no trabalho de lavadeira" [fade, pausa] "Willy desapareceu misteriosamente desde que passou a fábrica para as mãos de Charlie. Há quem diga que ele foi visto na Jamaica, ao lado de um senhor robusto que muito lembrava o rei do rock" [fade, créditos]
"Hoje, mora numa confortável mansão em Mullholand Drive, de onde coordena campanhas pela Libertação do Tibete" [fade, créditos] Era só não ter pirado... O que é hoje o Michael Jackson? Antes que algum fã aí diga "cantor", "artista" ou "dançarino", já vou logo me adiantando em dizer que, hoje, ele é simplesmente a maior chacota do mundo do entretenimento. O que é uma pena. Fácil ver o que ele se tornou ao notar a quantidade de sarro que se tira do sujeito na tv - e o duro é que quase todas as críticas fazem o maior sentido. Por que? Porque ele poderia ter seguido carreira como o maior astro do mundo. Para isso, como disseram uns garotos entrevistados sobre o assunto "Wacko Jacko", era só não ter enlouquecido. Michael poderia ter sido uma espécie de versão-virada-de-milênio do Elvis Presley. Ele tinha carisma, legiões de fãs histéricos, estilo, capacidade de inventar novos passos de dança, novas modas, novas futricas leves para revistas de fofoca. Mas tudo, tudo isso passou da conta. Não é preciso entrar no mérito "Michael está a cara da Helena Bohan-Carter em Planeta dos Macacos". Todo o mundo sabe que o rapaz passou por uma mudança estética bem mais parecida com a reforma da lavanderia lá de casa do que com a restauração de um Picasso. O comportamento do cidadão é o que mais assusta e menos se compreende. Jackson não se parece em quase nada com um artista de renome mundial com alguma coisa na cachola. Não conseguiu administrar a fama, a grana, o assédio. E eu acho isso muito triste, porque adorava requebrar ao som de "Billie Jean" ou "The Way You Make Me Feel" nos anos 80. Fazer o "moon walk" como ele, é claro, não dava certo - eu tenho dois pés esquerdos e a porção cerebral designada para dança em estado de coma. Mas quando vestia minha japona vermelha, o mocassim da escola e uma calça pula-brejo com meia branca aparecendo, ninguém me segurava. Daí o Michael pirou, ficou branco e sem-graça, comprou filhos no hipermercado e eu não tive mais motivos para gostar dele. Só para lamentar que tão brilhante astro tenha virado uma grandessíssima estrela cadente. Fla Wonka às 12:10 PMConhece a última do papagaio? Era uma vez um senhor que queria adquirir uma ave ornamental e, para tanto, dirigiu-se a uma pet-shop. Ao voltar para casa com sua compra, o distinto cavalheiro achou estranho a total falta de movimento na gaiola. Examinando mais de perto ele reparou, para seu completo espanto, que o pobre animal estava pregado no puleiro. Indignado, voltou para exigir providências do estabelecimento que lhe havia vendido o... PAPAGAIO MORTO! Você provavelmente nunca ouviu essa anedota numa roda de boteco, nem da boca de seu tio (aquele mesmo, que enche a cara na ceia de Natal e dá vexame). Mas eu garanto que é a melhor piada de papagaio do mundo todo, e seu efeito é similiar àquela tortura medieval que prende a pessoa para fazer cócegas e morrer de rir. Trata-se de um dos trabalhos mais conhecidos e elogiados do Monty Python, grupo insano formado por cinco comediantes ingleses e um americano. Imbatível, o sexteto assinou a série "Flying Circus", exibida pela BBC, e alguns filmes, como "A Vida de Brian", "O Sentido da Vida" e "O Cálice Sagrado" - de onde foi emprestado o nome deste site que vos fala. Se existir algo para ilustrar o sentido mais puro do adjetivo genial, yep, são eles. Voltando à piada: John Cleese (mais conhecido hoje pelo personagem Q dos recentes filmes do 007) é o cliente fulo da vida, enquanto Michael Palin, meu Python favorito, é o vendedor da pet-shop. O pobre papagaio, duro como um pau, é na verdade uma arara-azul empalhada, mas isso não vem ao caso. A graça do quadro é a luta verbal entre os dois. De um lado, Cleese tenta mostrar de todas as formas que o animal está mortinho da silva e exige um outro papagaio, de preferência vivo. Palin, por sua vez, tenta convencer o cliente de que o bicho não está morto, mas "descansando". É simplesmente hilário. Tão hilário que entrou para o especial que a revista Time publicou em 31 de dezembro de 1999. O sketch aparece como o segundo melhor quadro de comédia do século 20. Eu disse segundo? Pois é. Perdeu para um da dupla Abbott & Costello - coincidentemente norte-americana. Há controvérsias, é o que eu digo! "The Dead Parrot" virou parte da cultura pop e não é difícil encontrar referências em muitas produções posteriores. A última que notei foi no date movie "Como Perder um Homem em 10 Dias", em cartaz nos melhores (e piores) cinemas do ramo. Repare no diálogo entre Andie (Kate Hudson) e Ben (Matthew McConaughey) na hora em que a moça descobre que a "samambaia do amor" morreu. Bingo! ![]() "Look, matey, I know a dead parrot when I see one, and I'm looking at one right now"
Ei, ei, ei! O meu forte é a rima! Eu tenho uma coisa a confessar. Calma; não é nada que envolva atividades ilegais, imorais e muito menos engordativas, o que qualquer pessoa que me conhece sabe, visto meus míseros 43 quilos mantidos desde os 17 anos. Bom, eu tenho um nome duplo. Sim. Dois nomes. E não é Maria Clara, Ana Carolina ou qualquer dessas coisas mais aceitáveis. Às vezes me constrange um pouco responder à pergunta "nome completo", bem comum em formulários de bancos, hospitais, convênios ou promoções. Mas quando isso acontece sempre penso nas pobres garotas que tiveram suas graças colocadas em pegajosos refrões do cancionato popular brasileiro: Carla, Camila e Anna Julia. É um bom consolo, já que essas meninas devem ter tido de aturar um bom volume de piadas repetitivas, comentários sem-graça e toda sorte de situações constrangedoras ao se apresentarem aos engraçadinhos de plantão. Imagina só, nos idos do início dos 90, garoto e garota se encontram na Overnight ou na Up and Down: Como se não bastasse, depois do Nenhum de Nós nos 90, o LS Jack e o Los Hermanos (vale um parêntese: banda vítima do próprio sucesso, já que eles nem se comparam ao LS Jack, pelamordedeus) resolveram, na década seguinte, tornar a vivência das Carlas e Annas Julias um pouquinho pior. Pelo menos meu nome (nem o primeiro, nem o segundo, muito menos os dois juntos, que alguém acertar a combinação ia ser demais!) não figura em nenhum desses refrões. Ufa! Além do mais, é duro rimar Clarissa. Tenho tentado a vida toda, e a única palavra que encaixa é linguiça, o que não é nada poético, apesar do decadente nível dos versos na música. Tá bom, eu também sou péssima com rimas. Melhor deixar pra lá… ‘Sêo’ Bono, ‘Sêo’ Morrisey e ‘Dona’ Natalie Há uns cinco anos, eu pretendia batizar minhas filhas só com nomes tirados de músicas. Já estava tudo acertado: seriam três rebentas que receberiam as graças de Glória, Alma e Gala. Glória da música de mesmo nome dos primórdios do U2; Alma de "Alma Matters" do Morrissey, e Gala de "Stockton Gala Days", do 10.000 Maniacs. Minha mãe, com a sapiência de sempre, postulou: "Vão chamar sua filha de Galinha na escola." Desisti. Criança é cruel mesmo. Eu gosto deles do jeito que eles são... Por favor, que ninguém me entenda mal: eu não sou uma dessas sirigaitas que corre atrás de qualquer barra de calça que vê pela frente. Mas é que existem uns tipos no mundo do cinema e da televisão que, se passassem lá perto de casa, não me escapariam... Tudo bem, eu sei que eles não existem. E é por isso que fica tudo mais interessante! Apesar de serem miragens e terem traços de personalidade os mais diversos, estes são rapazes irresistíveis - pelo menos para mim, mas eu concordo que meu gosto com relação ao sexo oposto não é o mais ortodoxo. E só mais uma coisinha deve ser dita antes de entrarmos na lista propriamente dita. Aqui não estão listados os atores, mas seus personagens! Sim, vai uma grande diferença porque, sinceramente, acho o Hugh Grant um chato, mas quando ele se vestiu de livreiro em "Um Lugar Chamado Notting Hill", conquistou uma porçãozinha do meu coração. Ok, vamos aos moços. 10) Dr. Luka Kovac (Gorac Visnjic), em "ER" 9) Peter Parker (Tobey Maguire), em "Homem-Aranha" 8) Han Solo (Harrison Ford), em "Star Wars" 7) Rob Gordon (John Cusack), em "Alta Fidelidade" 6) Will Grahan (Edward Norton), em "Dragão Vermelho" 5) Ferris Bueller (Matthew Broderick), em "Curtindo a Vida Adoidado" 4) William Thacker (Hugh Grant), em "Um Lugar Chamado Notting Hill" 3) Nino Quincampoix (Mathieu Kassovitz), em "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain" 2) Wolverine (Hugh Jackman), em "X-Men" e "X-Men 2" 1) Mark Darcy (Colin Firth), em "O Diário de Bridget Jones"
Eu também gosto de você do jeito que você é, Mark... Até com esse suéter... Puxe pela memória! A teledramaturgia brasileira já nos brindou com milhares de personagens desde a primeira novela exibida diariamente, "2-5499 Ocupado", que foi ao ar pela TV Excelsior em 1963. De lá pra cá, tivemos tipos estranhos, simpáticos, engraçados, cativantes e insuportáveis. Aposto que você se lembra de muitos - mas aposto também que já se esqueceu de um punhado deles há tempos. Pois aqui vai uma homenagem aos personagens inesquecíveis dos quais poucos ainda se recordam. Não estou falando daquele psiquiatra de "O Clone" que era tão expressivo quanto uma vassora de piaçava e não tinha uma fala sequer, mas de pessoas de mentirinha que eram boas pra danar e participaram de novelas globais um pouco antigas (mas nem tanto, que eu não sou tão velha assim, pô). Vamos ao (oba) top 10! 10) Tonho Da Lua, por Marcos Frota 9) Naná, por Zezé Polessa 8) Astromar Junqueira, por Rui Resende 7) Vitinho Giovanni, por Flávio Migliaccio 6) Cinira, por Rosane Gofman 5) Caio Szymanski, por Antônio Fagundes 4) Matosão, por Otávio Augusto 3) Tina Pepper, por Regina Casé 2) Heleninha Roitman, por Renata Sorrah 1) Ravengar, por Antônio Abujamra ![]() Ei Ei Ei Ravengar é nosso rei! Nota da redatora: Já que a Rede Globo faz questão de esconder nas profundezas de seu site qualquer informação da época em que havia coisa boa na emissora (faz tempo, hein?), é mais fácil procurar outros meios para saber detalhes sobre esses e outros folhetins bárbaros. Quer uma dica? Clique aqui! Vivi Griswold às 09:12 AM
Amor e recheios de pão: versões vs. (a)versões Em time que está ganhando... A crise de criatividade que atinge os estúdios de cinema com suas refilmagens, como bem compilou por aqui a senhora Flá Wonka num post passado, também passa pelo mundo musical, e não é de agora. Versões para músicas são produzidas em larga escala desde que alguém percebeu que aquilo vendia -- e, na maioria das vezes, bem. Sejamos justos: o conceito de "vamos fazer de novo" muitas vezes acrescenta algo de bacana à versão original e gera coisas legais. Podem atirar latinhas, mas eu gosto muito de três canções bem populares que são regravações e, mais que isso, acho até que o trio é melhor que seus originais, apesar de, no caso de duas delas, as originais serem daquele tipo de pessoa que se convencionou chamar de "monstros sagrados" da música. Preparados? Lá vai: são elas "Space Oddity", do Bowie, gravada pela Natalie Merchant, ex-vocal do 10.000 Maniacs; "Hey Joe", de Hendrix, na versão de letra e arranjo bem brasileiros do Rappa; e "Molly’s Lips", do Vaselines, na excelente e acelerada gravação do Nirvana, banda pela qual, deixo claro, nunca morri de amores. Isso sem contar músicas bem fraquinhas ou de gosto duvidoso que, transformadas, ficaram legais para dedéu, como "Take on Me" do A-ha na versão ska do Reel Big Fish, a disco "I Will Survive" deliciosamente cool com o Cake ou de cortar os pulsos e se levar muito a sério com o REM (essa é versão rara, de show -- obrigada, LimeWire!). Ou, ainda, o monte de covers punk das músicas mais improváveis, feitos por bandas como o Me First and the Gimme Gimmes. Já imaginou "Hotel California" ou "Don't Cry For Me Argentina" gritadas a três acordes? Pois eles fizeram. Pois bem. Isso foi só para mostrar que, sim, há luz no fim do túnel no mundo das versões. Mas agora vamos ao pior, que é sempre minha parte favorita. Vamos às (a)versões! Quem deixou fazer? Elas atacam os mais variados artistas, em releituras de cantores e bandas igualmente variadas -- e, em alguns casos, muito precisadas de dinheiro, porque não é possível permitir que sua obra seja tratada assim! Listo abaixo as sete piores (a)versões que já ouvi, em minha curta mas limpinha existência. 7. Uma Onda que Passou, da Tribo de Jah 6. Because the Night em versão dance 5. Eu te Amo, de Zezé di Camargo e Luciano 4. Astronauta de Mármore, do Nenhum de Nós 3. Se a Gente se Entender, da Angélica 2. Triste Mas eu Não me Queixo, do Surto 1. Não Acredito, Lulu Santos Bom, não se pode dizer que não foi original... O manequim nem dá bola pra mim Tudo bem que falar de moda não é minha especialidade. Acho, aliás, que nunca vai ser, dado o meu estilo "a roupa que me atacar primeiro de manhã é a que sai de casa comigo". Mas é que tem coisas que eu realmente não entendo sobre o modo de vestir que hoje reina pelas ruas. Como almoço todos os dias em um shopping center, andei notando isso tanto nas vitrines quando nas garotas que percorrem corredores. Para começo, não entendo porque quase todas as lojas ostentam as mesmas peças de roupa, com a mesma modelagem e as mesmas cores. Uns dois verões atrás, a moda era usar lilás. Bom, meus olhos sangram só de ver essa corzinha feiosa que lembra gangrena, então eu passei toda a estação sem comprar uma peça de vestuário. Simplesmente porque o mundo da moda decidiu que lilás era o hit da hora, e eu fui contra. O que me preocupa é que certas modas se espalham como pneumonia asiática em vagão de metrô chinês. Reparei, por exemplo, que hoje está muito em voga usar cintos de couro com um palmo e meio de largura. É alguma tendência "Gigantes do Rinque"? Porque esse acessório mais parece aquelas faixas de couro que os halterofilistas usam para não deslocar a coluna. Saltos de sapato também costumam ser um problema. Se a moda é salto fino, pode esquecer: nem com a ajuda de um microscópio eletrônico será possível achar um do tipo quadrado. E o que são aqueles sapatos com plataforma de plástico transparente? Parece vestimenta de passista de escola de samba pobre. Não queria entrar no assunto "tamanho", mas vá lá. Eu sei que estou um ou dois (ou três... ok, quatro) quilos acima do peso, mas parece que as roupas andam sendo projetadas com base nas medidas de uma moça da Somália. Uso tamanho 42. Isso é muito fora do padrão? Porque, dia desses, a vendedora de uma dessas lojinhas estilo "atendemos mal para testar sua paciência" disse que, se o 42 não estava servindo, era melhor eu escolher outra peça da prateleira porque (sic) "nós não fabricamos tamanhos grandes". Se no momento eu tivesse um garfo de churrasco, tinha perfurado os olhos da tal. E depois a enterraria sob o assoalho vestida de lilás dos pés à cabeça. Fla Wonka às 12:13 PMCinema café-com-leite não cola Sei que estou prestes a cutucar onça com vara curta, como diria minha sábia vovó, mas não consegui me segurar: estava muito animada com o filme "Carandiru", pois já havia visto o trailer e gostado. E, cá entre nós, PRECISAVA ver o Rodrigo Santoro de travesti. Mas confesso que, tirando alguns pouquíssimos momentos, foram duas horas de desconforto na poltrona. Antes de mais nada, é bom esclarecer que admiro o novo cinema brasileiro, principalmente o excelente "Cidade de Deus", o bom "O Invasor" e o divertidinho "Durval Discos". Mas sou contra falar bem de filme nacional pelo simples fato de ser nacional, como se fosse uma categoria café-com-leite. Cinema é cinema, e ponto. Dito isso, "Carandiru", dirigido por Hector Babenco, mostrou-se uma decepção dura de engolir. Para mim, chegou a ser constrangedor em diversos momentos (e eu não me refiro aqui ao Santoro de camisola transparente). A história é uma adaptação de "Estação Carandiru", livro escrito pelo médico oncologista Drauzio Varella e lançado em 1999. A obra, ganhadora de um prêmio Jabuti, conta o cotidiano dos detentos através das experiências de Varella em seu trabalho voluntário de combate à AIDS, doença que varria as celas lotadas. Luiz Carlos Vasconcelos, ator que interpreta o médico, merece um capítulo à parte. O homem usa drogas alucinógenas, só pode ser! Ou como explicar o fato dele sorrir O TEMPO TODO? Será que trabalhar de graça cuidando de assassinos, ladrões e estupradores é tão divertido? O preso vinha e falava "ah, doutor, eu matei a minha mulher a facadas e dei 80 tiros no amante dela", e ele balançava a cabeça e abria o sorrisão. Ah, por favor. Outro que não me convenceu é Peixeira (Milhem Cortaz), um tipo truculento à lá Vin Diesel. Apesar da cara de mau, do linguajar, dos músculos e das tatuagens, ele passava os dias acariciando e beijando um gatinho - é o velho clichê "os brutos também amam" ou o quê? A melhor atuação de todas é a de Rita Cadillac que, no papel dela mesma, dá aula de como colocar camisinha com a boca (é, cinema nacional também é utilidade pública). Ok, já parei. Olha que nem vou entrar no mérito do roteiro capenga, das frases de efeito mal colocadas e dos figurantes que parecem ter saído ontem do teatrinho da escola. É melhor não falar mal de filme brasileiro ou daqui a pouco terá um capanga me esperando na esquina com um treisoitão. Mas estaria mais contente se tivesse dado meus 13 reais do ingresso em troca de um saquinho com minhocas de gelatina. Vivi Griswold às 09:17 AM
Rápido, troque as mãos! Quem não cantou clássicos como "A Igrejinha" e "A Linda Rosa Juvenil" nos douros anos da pré-escola? Pois eu cantava, seguia aquela pantomima toda com as mãozinhas – entrelaçava para fazer a igrejinha, me atrapalhava um pouco para o novo entrelaçamento, desta vez com os dedos para dentro para mostrar a igrejinha cheia de gente, fazia o sacristão com o dedão e tudo mais -- e quando chegava em casa ainda ensinava para o meu irmão. Sinto saudades daquela época, como todos devem sentir. (Talvez a menina em cujo cabelo eu enfiava massinha todos os dias nem tanto). Mas nem por isso montei uma banda de pagode ou um grupo de axé, compus musiquinhas com rimas de nível pré-escolar e saí dançando a fazendo gestinhos com a mão nos programas de auditório por aí. Porque a única coisa que explica aquela trupe de negões sarados, cantando "liga para mim!" e fazendo um telefone com a mão perto do ouvido, é saudade demasiada do pré. E o mesmo vale para os compositores e as mocinhas de trajes sumários das bandas de axé, que exibem a rebolada coreografia da "dança da manivela" (por Deus, o que pode ser isso?!) girando a mão. Talvez essas pessoas sofram de algum delírio pós-traumático que as fez estacionar o desenvolvimento. Eles ainda acham que estão no pré, tadinhos. Vai ver eles tinham uma amiguinha má que enfiava massinha no cabelo deles e, na enorme ânsia de ter dias melhores na escolinha, continuam vivenciando a época, dessa vez sem amiguinhas infernais, mas sim com muito, muito dinheiro entrando em caixa. Eu tenho saudades do pré e não formei uma banda de pagode ou axé. Mas talvez devesse... Vai ver que quem não cresceu e aprendeu a ganhar dinheiro fui eu. As sete melhores do pré Tire o pó da memória e cante comigo a seleção das dez musiquinhas mais fofuchas da era pré-escolar! Mas perdoem os títulos – alguns são improvisados, pois como peças de tradição oral, é difícil encontrar os nomes "oficiais". 7. Coelhinho: "De olhos vermelhos, de pelo branquinho, de pulo bem leve, eu sou o coelhinho!" 6. Casinha infestada de... : "Fui morar numa casi-nha-nha infesta-da-da de cupim-pim-pim" 5. Indiozinhos: "Um, dois, três indiozinhos... quatro, cinco, seis indiozinhos... sete, oito, nove indiozinhos... dez num pequeno bote!" 4. A Dona Aranha: "A dona Aranha subiu pela parede, veio a chuva forte e a derrubou" 3. A Igrejinha: "Esta é a igrejinha, esta é sua torrinha, abre a porta não há ninguém: é dia de semana, meu bem" 2. A Linda Rosa Juvenil: "A linda rosa juvenil, juvenil, juvenil/ Vivia alegre no seu lar, no seu lar, no seu lar/ Mas uma feiticeira má, muito má, muito má/ Enfeitiçou a rosa assim, bem assim, bem assim/ E o mato cresceu ao redor, ao redor, ao redor..." 1. A Barata e as Saias de Filó: "A barata diz que tem sete saias de filó. É mentira da barata, ela tem é uma só! Ha ha ha, ho ho ho, ela tem é uma só!" Janela, janelinha, porta, campainha Que me perdoem os fanáticos por segurança, mas morar em casas foi, é e sempre será muito mais divertido do que morar em apartamento. E eu não estou aqui só para defender os quintais. Tive essa certeza hoje ao passar pelas ruas de Pinheiros e ver que os rapazes da prefeitura estavam dedicados a podar as árvores do bairro. Quando eu ainda era uma meninota de perninhas roliças, essa era uma época mágica. Minha diversão era apanhar o maior número de galhos cortados e amarrar todos no portão de ferro lá de casa. Terminado o trabalho, fingia que morava na casa do Tarzan e convidava os amigos para vir brincar de "bando de macacos". Além da semana da poda, outras centenas de atividades só ficavam realmente legais porque eu morava numa casa, e não em um apê do tamanho de uma caixa de tênis Ortopé, como hoje. Tomar sol na laje, por exemplo. Solário de cobertura ou piscina de edifício não têm o charme de uma laje quando o plano é pegar um bronzeado urbano - sem falar que passei anos lendo meus livrinhos sentada na tal da laje, para ter paz. E tinha. O estilo de vida que se leva em uma casa, apartamento nenhum pode imitar. Pular corda sem amarrar uma das pontas no portão é inconcebível. Assim como a alegria de sentar no muro e ficar apreciando o ir-e-vir dos garotos bonitinhos que você paquera nas redondezas. Uma das coisas mais bacanas das casas é a campainha (eu sei, apartamento também tem, mas nem se compara). Apertar esse botão na residência dos vizinhos e correr até doer a lateral da barriga era um namoro que eu prazerosamente mantinha com o perigo. Dá para fazer isso morando prédio? Até dá, mas desconfio que não tenha metade da graça. O dispositivo campainha ainda é relacionado com outra das minhas diversões mórbidas de infância residencial. Atender vendedores, mórmons e profetas do apocalipse em geral era ótimo, porque desenvolvi uma incrível técnica de parecer interessada sem ouvir absolutamente nada do que eles diziam ou vendiam. Será possível ter saudade dos Testemunhas de Jeová? Eu tenho! Por onde será que eles andam pregando hoje, com tantos prédios, é o que eu fico pensando na minha microsacada... Fla Wonka às 03:51 PMX-Girl Pegando carona no sucesso de "X-2", Cinemão com "C" maiúsculo feito para aqueles que sabem apreciar bom entretenimento sem culpa, o Discovery Channel exibiu, dias atrás, um especial chamado "Mutantes Entre Nós". O programa provou de uma vez por todas que há sim gente muito estranha andando por aí, e que a Marvel não está tendo devaneios tão absurdos. É, você pode ser um mutante. Ou eu. Vai saber. O melhor dos casos foi o de um velhinho japonês que é um imã ambulante. Sim, o homem atrai metais. Para exemplificar, ele pegou uns talheres e os colou em seu corpo. E lá ficou, o velhinho cheio de colheres grudadas. Como se não bastasse, seus descendentes também possuem tal peculiariedade. Uma linda família de Magnetos de olhinhos puxados, quer algo mais fofo? Tá, não existe vantagem alguma em atrair metais, ou em se dobrar inteiro até caber em uma caixa de sapatos. Apesar disso, confesso que eu queria ser mutante. Imagine ter superpoderes de verdade, ainda que inúteis! Depois que o programa acabou, fiquei imaginando quais habilidades desejaria caso fosse uma X-Girl. Encontrei várias, cito algumas: - Transformar raiva acumulada em raios laser, para poder desintegrar instantaneamente (e sem derramar muito sangue) pessoas que conversam no cinema ou que resolvem travar lutas com pacotes de bala bem no momento mais agonizante do filme; - Ter controle das nuvens e do vento para conseguir baixar rapidamente a temperatura quando o termômetro está em 34 graus na sombra, podendo assim vestir o sobretudo de lã que comprei há dois anos e nunca usei; - Entender a língua dos gatos para conversar com os meus, poder ronronar (call me freak, mas eu AMO esse som) e ainda possuir garras afiadas e retráteis para facilitar a abertura daquelas malditas embalagens de CDs e bolachas; - Possuir um controle remoto universal dentro da minha cabeça, de modo que consiga mudar os canais com uma piscada mais demorada, aumentar o volume mexendo o nariz como a Feiticeira (a da série, não a da bunda) e ligar o DVD apenas mostrando a língua; - Conseguir me secar sem usar toalhas, coisa útil para os banheiros públicos. Daí não usaria lenços de papel (pouparia árvores) e não precisaria perder 25 minutos do meu tempo com as mãos debaixo daqueles infernais secadores de ar quente; - Ter o poder de alterar etiquetas de códigos de barra só com o olhar, para assim colocar precinhos mais camaradas em artigos que eu quero comprar mas minha conta bancária não permite; - Conseguir materializar pensamentos de comida, como quando bate um desejo de tomar um super milk shake de chocolate no meio da tarde ou comer um yakissoba caprichado na hora do jantar. É só pensar, manter a concentração... e voilà! E quais seriam os seus, hein, X-leitor? Vivi Griswold às 09:08 AM
Pode deixar a conta com aquele cavalheiro irlandês, ali Quando eu era pequena, tinha uma solução muito fácil para os problemas de dinheiro -- que, naturalmente, àquela altura de minha vida não eram meus, mas sim do meu pai e da minha mãe. Se eu queria alguma coisa e minha mãe dizia que não tinha dinheiro para comprar, eu pensava: "Não tem dinheiro? É só dar um cheque, ué!". Mas só pensava e não falava, porque achava que ia desmoralizar minha mãe com minha completa esperteza sobre o mundo das finanças. A Lara, minha irmã mais nova, usava um paralelo -- e olha que ela aprendeu sozinha, já que eu nunca comentei essa minha teoria infantil com ela. Quando algum de seus pedidos não podia ser atendido com a justificativa do "não-tenho-dinheiro", a pequerrucha sacava da resposta: "então vamos na 'mánica' (sic) de dinheiro!", referindo-se aos caixas 24 horas. Pois bem. As fabulosas idéias de soluções financeiras dos infantes da família Passos não páram por aí. Outro dia meu irmão João (aquele com quem eu crio coreografias ao som de Claudinho & Buchecha) veio com um papinho: "O governo do Brasil controla a Casa da Moeda nacional, não é?". Digo: "É". E ele: "Então porque o governo não emite um montão de dinheiro para pagar a dívida externa?" Na verdade eu também pensava isso quando era menor, e percebi que, embora hoje saiba que as coisas não são tão simples assim, não sei explicar exatamente porque o Brasil e os outros países não fazem isso. Assim, ninguém mais precisava contar com a ajuda do Bono para obter o perdão das dívidas externas. Melhor mesmo, porque isso não vai dar em nada. Boleto em nome de Sr. Bono Vox E vou dizer o porquê. Vocês já notaram como toca U2 nas rádios por aqui? É o tipo de banda que tem um hit para cada estilo de emissora: as baladas "Stay" e "One" tocam na programação easy-listening da Alpha FM e da Antena 1. "Pride" e "Where the Streets Have no Name" pipocam nas faixas de flashback das rádios rock. "With or Without You" toca até no "Love Songs" da Sucesso-ex-Cidade, o programa cuja vinheta é a mesma desde que o mundo é mundo ("Love songs are back agaaaaaain!"). Isso sem contar as mais recentes "Elevation" e "The Hands that Built America", que tocam indiscriminadamente, a qualquer hora e em qualquer rádio. Daí, conclui-se que, se quisessem fazer algo de concreto a respeito da causa, tio Bono e sua trupe podiam botar a mão no bolso, pegar todo esse dinheiro destinado ao jabá -- que pelo volume de execuções não deve ser pouco -- e sanar a dívida de algum país pobre. Costura, menina, costura! Você deve estar se perguntando: "como essa garota começou falando de teorias monetárias infantis e terminou o texto com o Bono Vox?" Bem, eu gostaria de ter a resposta, mas sinto desapontá-los… Na verdade, minha própria cabecinha está se perguntando isso e, apesar dos esforços, não consegue responder à própria pergunta. Pois para ficar tudo ainda mais sem pé nem cabeça, deixo-os com a imagem da capa de um dos álbuns de Richard "Angelia" Marx, para refrescar a memória de quem não se lembrou da cara do intérprete de ostensivo mullet ao ler o post Desdobrem a lona para pendurar no portão. O melhor da foto é que a capa parece seguir o conceito daquelas toalhas de praia que tinham belíssimos desenhos de uma mulher pelada, meio pantera meio gente. Sensacional.
Corre, Angelia, corre! Refilma que piora Sou ávida defensora da reciclagem enquanto ela se referir às latas de alumínio, vidro, plástico, água, papel ou mesmo bagaço de mexerica-cravo. Mas a reciclagem televisivo-cinematográfica é algo que, na maioria das vezes, me dá engulhos. Recentemente recebi uma notícia digna de ataque de choro - e, pasmem, dessa vez não tinha nada a ver com o meu salário. Dizia um site sobre cinema que alguns produtores estavam se juntando para refilmar o clássico 80s "Dirty Dancing". Olha o choque: seria uma nova história, mas ainda baseada em uma relação entre jovens de mundos distintos. Só que, agora, seria entre uma moça americana e um dançarino cubano. E se passaria na Flórida. E teria a Sela Ward ("Onde and Again", argh!), com gancho para público. Sofri. Nada foi confirmado ainda sobre o filme, mas minha úlcera anti-refilmagens já gritou. Foi o mesmo que senti quando garantiram uma nova versão de "A Fantástica Fábrica de Chocolate" com o Marylin Manson travestido de Senhor Wonka. Se fosse verdade e Hollywood tivesse um portão, eu iria fazer piquete na entrada. Acontece que, sobre esses dois remakes from hell, ainda só existem boatos (tomara, Alá, tomara...). Muito pior são os casos em que a tragédia é real. Há registros de que diretores da Rede Globo vêm mantendo uma usina de reciclagem de seriados com proporções feudais em seu porão. O que explica a reinvenção de "A Grande Família" e "Carga Pesada". O primeiro é ruizinho, mas o elenco ajuda bem. Mas alguém teve coragem de assistir ao segundo? Acredite em mim: o que já era chato nos anos 70 tornou-se simplesmente constrangedor. Patrícia Pillar deve estar mesmo precisando de dinheiro para sustentar os anti-depressivos do marido... Estou prestes a fazer dois abaixo-assinados distintos, um para a Liga dos Produtores Americanos com Idéias Ruins e outro para o Centro de Cozimento de Roteiros da Rede Globo. O primeiro vai pedir a garantia de não-relançamento de clássicos como "Curtindo a Vida Adoidado", "Os Goonies" e "Férias Frustradas". O segundo vai sugerir que "Armação Ilimitada" e "TV Pirata" sejam sumariamente desconsiderados para novas versões. E assino embaixo. Ele só queria colinho Um dos brinquedos mais adoráveis dos anos 80 não tinha nada em especial. Não falava, não se mexia, não vinha com 785 acessórios, não era personagem de desenho do Cartoon Network. Na verdade, ele era de pano, tinha cara de coitadinho e... só. "Então por quê fazer um texto sobre isso?" você deve estar se perguntando. Ah, porque ele era o Snif Snif! Sim, o cãozinho fake mais lindinho possível. Como minhas experiências com cachorros de carne e osso e latidos infernais e hiperatividade e mau comportamento não deram muito certo (eu já era uma cat person mas não sabia), Snif Snif veio para preencher meu vazio por não ter um animal de estimação. Era impossível não abraçar o boneco de pano recheado por espuma fofa. Tal ação poderia levar horas e horas. Ele tinha uma cara de dar pena (daí o nome Snif Snif), uns olhinhos caídos... Havia vários modelos diferentes, mas todos vinham com coleira, certificado de posse e caixa-transporte de papelão. Usando um termo pra lá de datado, foi uma coqueluche. Toda criança tinha um (e quem não tinha queria ter. E quem fala que não queria, tá mentindo). O sucesso foi tanto que a Estrela lançou o Snifinho, uma versão filhote. Lembro-me quando chegou a minha vez de ir na loja e escolher um Snif Snif. Apesar de gostar do branco com mancha no olho e orelhas curtas, optei pelo marrom e preto com orelhas longas, só porque o achava feio demais - e, portanto, morria de pena, pois nenhuma criança gostava dele e o pobrezinho ficaria encalhado nas prateleiras do Mappin para todo o sempre. Que brinquedo de hoje em dia desperta um sentimento tão nobre numa garotinha? Meu Snif Snif feio, porém limpinho, acompanhou-me durante muito tempo. Certa vez, ao encontrar minha melhor amiga de infância, nossa primeira recordação "dos velhos tempos" foi o dia em que nossos cachorrinhos de pano fizeram aniversário (ou pelo menos a gente decidiu que fariam) e nos sujamos preparando brigadeiros de barro para a festa. Após tantas peripécias, o pobre brinquedo perdeu a coleira e o forro teimou em aparecer através de alguns buracos. Realmente não me lembro qual foi o triste fim do Snif Snif, mas fico feliz em saber que ele sobreviveu em tempo de minha irmã (nascida nos mid-80s) o conhecer e o amar também. Afinal de contas, ele só queria colinho.
Travestis no porta-malas, celulares em chamas e uma garota chamada Raquel Se tem uma coisa que me põe doida, além de ter de lavar as mãos com aqueles horrorosos sabonetes líquidos de banheiro público, é receber aqueles e-mails com baboseiras. Não, não estou falando dos muitos -- e sempre bem-vindos -- e-mails do pessoal que escreve para a gente para falar do Garotas. Refiro-me àquelas invencíveis correntes, que cobrem os mais variados temas, indo de crianças à beira da morte a assaltos praticados por travestis que se escondem no porta-malas do seu carro (?!). Isso sem contar as mensagens de amizade, amor, patriotismo, indignação ou qualquer outro estado de espírito, montadas com imagens de flores e bebês. A cada ano são criadas novas lendas, versões da era digital das velhas histórias da loira do banheiro, do Reverendo Moon e das balinhas Van Melle aditivadas com cocaína por algum moço mau. Neste ano, duas me chamaram atenção. São, de fato, tão criativas que tive de dar o braço a torcer e deixar explodir as gargalhadas presas por meu cenho franzido, vencendo a cara de mau-humor que faço ao topar com esse e-lixo na minha caixa postal. A primeira é sobre os celulares que pegam fogo no posto de gasolina. Dizia o e-mail que 'uma amiga de uma vizinha, prima do namorado do concunhado do meu irmão' teve o rosto todo queimado depois de atender o celular enquanto abastecia. Aparentemente, esse (f)utilíssimo objeto essencial à vida moderna entra em combustão espontânea quando usado próximo a uma bomba de gasolina. Será que quem passa essas coisas adiante não se pergunta: "mas que base científica isso pode ter?" ou "será que se fosse verdade, não teria alguém processando a empresa ou o posto, ou não teria saído no jornal?". Parece que não. A outra é sobre uma 'nova modalidade de assalto' -- aliás, várias correntes de alerta começam assim. Mas essa só pode ter sido produto de alguma mente perversa. Acontecia assim: ao deixar o carro com o manobrista em barzinhos da região da Dom Pedro, em Santo André, o cara parava seu carro na rua e abria o porta-mala para um traveco entrar. O pobre moço ficava lá dentro, todo montado (imaginem um travesti enfiado na mala dum Ka, por exemplo), esperando até o manobrista levar o carro de volta -- o que, geralmente, acontece lá para as quatro ou cinco da manhã. Aí, ele desmontava o banco traseiro e passava para dentro do seu carro -- tudo isso com o veículo em movimento --, surpreendendo o motorista e dando procedimento ao assalto. Não é demais? Você olha no retrovisor e vê carros, olha para frente e faz uma curva, olha de novo no retrô e um cara com dois metros de altura e a cara da Susana Gimenes aparece apontando uma faca para você! E eu me pergunto: por que os travestis esperariam até quatro horas amassados num porta-mala para te assaltar? E por que especificamente travestis? Ah, o cara que bolou essa é mesmo um gênio! Quem diabos é Raquel? Na categoria 'minha filhinha está morrendo', o destaque fica para a impressionante história da Raquel. Aposto que todo mundo que tem um endereço eletrônico já recebeu essa, sobre uma garotinha chamada Raquel de dez meses (já faz bem uns dois anos que ela conta com a mesma idade) que precisa de uma operação para curar um câncer cerebral. O e-mail continua, impávido, dizendo que a cada três pessoas para quem a mensagem for repassada, os pais da Raquel receberão 32 centavos de dólar da Aol e de uma tal ZDNET. Como se fosse possível a Aol ter esse controle sobre o envio, e como se fosse viável que eles pagassem 32 centavos de dólar a alguém para reenviar e-mails. O bacana é que tem até uma foto da Raquel anexa à mensagem. E eu fico pensando na pobre garotinha da foto, que vai ser motivo de chacota quando estiver na escola e esses hoax tiverem sido desmascarados. Na dúvida… Bem, tenho de registrar que já recebi pedidos de ajuda verdadeiros pela internet. Mas há uma regrinha básica, resultado da aplicação do bom-senso, que pode e deve ser aplicada para separar o joio do trigo. Basta ver se há um contato no final da mensagem. Um telefone, ou e-mail, para confirmar a história. Se não tiver, provavelmente é paia. Como você vai ajudar alguém, dar informações sobre uma criança desaparecida ou enviar remédios para um bebê se não tiver como entrar em contato com a pessoa? Se tiver um número, ligue e cheque se é verdade. De todas as dezenas de vezes em que recebi essas correntes, duas eram verdadeiras, sobre crianças doentes -- e valeu ajudar. O resto é truque de pessoas com muita criatividade ou muito precisadas de endereços eletrônicos para mala direta. Saudade da bela dama Se Audrey Hepburn ainda estivesse desfilando sua elegância pela Terra, teria organizado ontem uma agradável festa de 74 anos - mas o evento não seria fotografado pela revista Hello!, porque ela não era dessas coisas. Isso faz lembrar o vácuo que as reais estrelas de cinema deixaram na telona. Assistir pérolas do romance como "Bonequinha de Luxo", "My Fair Lady", "Cinderela em Paris" e "A Princesa e o Plebeu" dá uma dimensão do que essa mulher podia fazer com o imaginário de moças bobas (categoria na qual me incluo com prazer). Além de representar tão bem, Audrey era capaz de dançar como quem flutua no ar e cantar com uma afinação adorável. Mas entremos no túnel do tempo de volta ao presente. É verdade que podemos contar com o esforço vocal de Nicole Kidman e o rebolado entusiasmado da Senhora Zeta-Jones, mas é difícil ir além delas, não? Hoje viram atores e atrizes gente que não tem nem uma boa dicção! Exemplos, você pede? Bom, os dois mais claros, no gênero feminino e masculino, me parecem ser Demi Moore e Vin Diesel. Ela tem um calo vocal que poderia servir como projeto de conclusão de curso para qualquer fonoaudiólogo. Ele parece ser o "como queríamos demonstrar" do seminário "além de fazer crescer pêlos nos lugares mais estranhos, esteróides te dão voz de lenhador". Ou o amado leitor vai querer me enganar que consegue projetar na mente uma cena em que a Srta. Moore e o Sr. Diesel cantam e dançam de rostos colados e usando roupa de festa? O mais comum, atualmente, é compensar essa falta de graça e talento com músculos - e, curioso, os dois exemplos supracitados fizeram isso mesmo. Tia Audrey nunca precisou mostrar nada além de suas canelinhas de pardal para atrair atenção. Já os astros de agora, quando o assunto é competência de atuação, mostram uma enorme habilidade em puxar ferro. Haja vista a panturrilha de Demi em "Striptease", que mais parecia o bíceps de Vin em "Triplo X". Audrey foi levada de volta ao mundo das pessoas especiais em 1993, depois de encerrar a carreira em alta e se dedicar por vários anos à assistência de comunidades carentes na África. Em seu tempo, não foi a única a ser chamada de "atriz completa". Se tivesse vivido nos dias de hoje, ela seria. ![]() Fla Wonka às 12:11 PM Beleza Americana Você se recusa a tomar Coca-cola, lanchar no McDonald's e assistir a filmes norte-americanos por conta da adesão ao boicote de produtos vindos da terra do Tio Sam? Bem, esqueça a parte do cinema. Porque está em cartaz uma jóia que destrói o "american way of life" como nunca se viu antes. E o melhor: com classe, com embasamento, com bom-humor, com resultados e com uma trilha sonora maravilhosa. Estou falando de "Tiros em Columbine" o tão premiado, comentado e aguardado documentário de Michael Moore, aquele cineasta batuta que endereçou uma mensagem furiosa ao Bush durante o discurso de agradecimento pelo Oscar que seu trabalho levou. Moore não deixa pedra sobre pedra e vai destruindo toda a beleza do sonho americano. Sem fazer muito esforço, expõe uma sociedade que simplesmente perdeu a noção do que é viver em sociedade. Expõe um povo burro, preconceituoso, consumista e violento ao ponto de atirar na própria sombra. Ainda bem que existem exceções, ainda bem que Moore é uma delas. O documentário parte da tragédia ocorrida em Columbine em 1999, quando dois estudantes armados até os dentes resolveram entrar na escola atirando para todos os lados. Depois de matar 12 colegas e um professor, além de ferir centenas, a dupla acabou com a própria vida. Na tentativa de desvendar o que leva a essa violência toda, são exibidos os tipos mais estranhos. Entre eles, um estudante que fez cinco litros de napalm em casa; o irmão de um dos culpados pelo atentado à bomba em Oklahoma que dorme com uma pistola carregada debaixo do travesseiro; um dos criadores do desenho "South Park" que estudou em Columbine; o belzebu Marilyn Manson, culpado pelos conservadores por incentivar os dois estudantes citados acima. E por aí vai. Poderia escrever sobre "Tiros em Columbine" até amanhã, mas vou deixar você respirar e tomar fôlego para ir ao cinema mais próximo e ver com seus próprios olhos. Quando os créditos finais aparecerem ao som de Joey Ramone com sua versão bitter-sweet de "What a Wonderful World", ficará o sentimento de que isso valeu mais do que qualquer boicote. Vivi Griswold às 09:05 AM |
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