segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Agora segura, que vamos dizer tudo

Semana Especial – “Despedida”

Tudo começou em 11 de abril de 2003 e, depois de uns dez dias, meu queixo já caíra junto com os de Vivi e Clara com nosso fantástico número de pageviews diários: cerca de 100 cliques. Era um deleite porque, ora essa, a gente achou que nem nossas mamães apertariam os botões certos (ou teriam vontade de) até chegar no nosso site estalando de novo. O nome era pirado demais; o conteúdo tinha fotos e piadas de menos; o conteúdo tinha parágrafos, metáforas e memórias demais. Não era, de fato, pra virar um site famoso aquele tal “Garotas que Dizem Ni”. Mas de repente a gente se viu como o Kevin Costner em “O Campo dos Sonhos”: a gente construiu, eles vieram. Vocês vieram! E vocês tostaram o nosso saco desde os primeiros dias, ai que delícia!

Leitor é um dilema para nós três, sempre foi. Desde a faculdade, lidamos com Leitores – das revistas, jornais e sites onde trabalhamos. Desde esses primórdios de carreira, o Leitor sempre se rebelou, se reportou, se manifestou, mandou críticas, sugestões, choramingos, até “dicas”. Mais ou menos assim: semanas depois de seu nascimento, o Garotas já atraía não mais mamães, papais, os irmãos, os primos, os amigos e um ou outro amigo do amigo. Atraía, graças a uma divulgação maciça nossa, pra lá de muitos mil cliques. E Leitores. E eles (vocês!) já começaram a... oh, céus... participar.

Teve muito elogio bonito, lógico, e esses receberam resposta igualmente mimosa. Mas, caramba: teve cada cutucão... Desde sempre, no Garotas, viramos o urso de pelúcia do Leitor – amado e beijado num dia, chutado pra fora da cama no outro. Fomos qualificadas de invejosas, mal-amadas, sem graça, comunistas, cabeças-ocas, racistas, rancorosas, usurpadoras de um lugar que não merecíamos na internet. “Garotas que não Dizem Nada”, “Garotas que Dizem Bobagem”... Credo, um trocadilho pior que outro.

Um fã de Britney, sem entender a brincadeira, digitou logo um “suas prostitutas acéfalas” e clicou no “Enviar”. Eu nunca vou esquecer – não porque tenha me ofendido tanto assim com esse xingamento 14-anos-de-idade-e-pudim-no-cérebro, mas porque... bem, era intenso.

Sempre foi intenso! Se houvesse um site www.queimaelapastor.com.br, tínhamos as três perecido lá. Clarissa porque teimava em ser irreverente com as igrejas recém-inauguradas; Eu porque teimava escrever deus assim, sem maiúscula; Vivi... bom, a Vivi sempre foi tão fofa que redimiu a gente (apesar de ter levado muita lambada também em outros 20 departamentos temáticos).

Leitor quer respeito e correção. Quer texto publicado na hora certa, não quer um erro de português maculando a página, quer comentários abertos, não quer republicações (mesmo que estejamos ardendo em febre ou velando a vó morta), quer todos os botões funcionando, quer resposta ligeira ao seu e-mail, quer ver esse ou aquele tema escrito logo, não quer “merchandising” – ou ver qualquer marca citada, mesmo que a gente não tenha recebido um puto por isso e tenha escrito por vontade mesmo. Ora essa, ele é o Leitor! Mesmo que o Leitor nunca tenha dado um níquel para poder exigir.

Nenhum níquel. Em todos esses anos, demos muitos prêmios pagos do bolso, pagamos servidor do bolso, mas nunca pedimos doações. Olha, mas é bom ser sincera agora e dizer: há três anos, quando o vermelho-chinês da minha conta bancária se tornou bordô-escuro – e um leitor escreveu dizendo que eu estava demorando a voltar aos textos depois que a Sabrina nasceu e ele achava isso absurdo – eu quis abrir o “Flávia Esperança” e aceitar 5 ou 10 paus mensais de cada um para continuar escrevendo... Minhas sócias não aceitaram por vergonha, agradeçam a elas! (Mas se alguém quiser o número da conta no Banco Real... er... tenho aqui).

O fato é que Leitor gosta de um mimo. É, você, você gosta de um mimo, sim! Ficaram todos mal-acostumados. Logo, junto com as críticas mais malucas, começaram a vir os pedidos. Pedidos de entrevista para trabalho da faculdade de jornalismo, foram uns 558. Pedidos do tipo “eu preciso de uma imagem do Atari, vocês me mandam urgente?” (como se a gente fosse banco de imagens 80s), foram centenas também. Pedidos para publicar um texto que ele havia escrito; pedidos para visitar o blog e mandar umas sugestões; pedidos para comentar política e economia; pedidos para dar uma palestra gratuita; pedidos para fazer aparição em festa de firma. Ok, esse último não veio. Pena, a gente provavelmente teria ido.

Mentira, a gente não teria ido. E é bom dizer isso claramente porque, vixe, tem Maluco misturado com Leitor, viu? Hoje já classificamos todos em “Leitor Bonzinho e na Dele”, “Leitor que Virou Amigo”, “Leitor que Abusa” e “Serial Killer de Marca Maior”. Uma vez recebi mensagem dizendo “Eeee, descobri onde você mora! Estarei em SP dia desses, vou passar aí”.

Mas a gente sabe, é a internet que faz dessas coisas mesmo. Como sempre diz a Clá, quando a gente abre a porta, entra de tudo – pessoas boas e ruins, gente legal e chata, camaradas e doidos de pedra. Conexões via cabo, às vezes, são confundidas com amor genuíno, e a pessoa quer se aproximar e “pegar com a mão”, telefonar, visitar. Mesmo que não seja de verdade. Mesmo que nós sejamos apenas três bocós que escrevem mais ou menos sobre coisas cotidianas. E se o Leitor se identifica loucamente e quer virar nosso irmão de sangue, criando intimidade e sabendo tudo o que vai dentro de nós... Bom, é hora de chamar os tiras!

Ah, não se ofenda se a carapuça servir um pouquinho, tá bem? Foram seis anos quase, essa foi apenas a hora do nosso desabafo, Leitor. Você reclamou feito um bebezão, agora foi a nossa vez, pelo amor de deus. E deus com caixa baixa, que é o meu jeito e pronto. Preste atenção, porém, que Leitor é sempre escrito com caixa alta... Porque se tem uma coisa que a gente levou em conta, acima e apesar de tudo, foi o nosso exigente, esperto, abusado, opinativo e até divertido Leitor.




Fla Wonka às 10:49 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold