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As Garotas que escreviam demais Semana Especial – “Grandes Diretores produzem Grandes Garotas” “Boa noite. (Quieto, seu corvo idiota!). Hum-hrum. Boa noite. Meu nome é Alfred Hitchcock. Muitos de vocês devem ter visto algumas de minhas obras-primas, consideradas peças essenciais da sétima arte em termos de temática, inovação técnica e apuro visual. Os que não viram, espero que morram degolados e depois sejam jogados no porta-malas de um Sinca-Chambord e então desovados em um pântano gélido e ermo. Mas voltando. Eu sou um cineasta das antigas, sim, mas decidi voltar à ativa apenas para um último trabalho. Tudo bem, na verdade eu estava morto. Mas isso é detalhe. Ao tomar conhecimento da história dessas três meninas, fiz questão de “retornar”, se é que vocês me entendem... Afinal, vou contar como mais essa obra-prima, talvez a maior de todas, será produzida. (Quieto, seu corvo idiota!). O filme se passará em Nova York – porque a real história das Garotas que Dizem Ni se dividiu entre São Bernardo do Campo, São Paulo e Osasco, e eu faço filmes de medo, mas pavor mesmo eu sinto é de Osasco. Enfim. Tudo acontecerá na Big Apple e será filmado em película e em preto-e-branco. Quero ressaltar a evolução das rugas na pele alva das meninas desde o dia em que se conheceram. Já contei que não teremos cortes de câmera? Demais, hein, falaê!? Vamos começar com um plano que entra pela janela de um escritório, onde as meninas trabalham ferozmente em suas máquinas de escrever. São jornalistas. Mas, para dar um ar mundano, uma será Editora de Horóscopo, a outra Repórter do Obituário e a terceira, Colunista de Fofocas. Ah, que se dane se elas estudaram tanto... Hoje dizem que trabalham com uma tal de internet! E como eu nem entendi o que é isso – e me parece coisa do diabo – mudei o roteiro. Pronto, as três se conhecem, trocam conversinhas de meninas, são oprimidas em horário comercial. Primeiro clímax: a demissão. O baixinho que as demite, diretor do jornal, usa chapéu de feltro, terno cinza, suspensórios, fuma algo fedorento e é burro feito uma porta. Elas choram um bocadinho na hora da demissão, mas então têm uma bela idéia: apagar o desgraçado, metê-lo no armário da redação e fazer uma happy hour ali mesmo. Nesse ínterim, elas descobrem que gostaram desse negócio. Fundam então essa ‘irmandade do crime’. Com seu charme natural, conquistam a atenção das vítimas sugerindo colunas em jornais e revistas – e depois de marcar encontro com os editores em becos escuros de Nova York, enforcam todos com fios de telefone. O quê? Os telefones não têm mais fios? Filmar hoje em dia perdeu o charme, viu. A história segue com as garotas ficando famosas e conquistando centenas de leitores – ao mesmo tempo em que tomam gosto pelo banho de sangue. Aliás, depois que um leitor questiona os escritos das meninas publicamente, elas decidem inovar. Invadem a casa do infiel à noite travestidas com perucas bem feias e o atacam no chuveiro. O homem grita, mas elas seguem cantando grandes sucessos da Xuxa até que ele não resiste e morre de embolia. A onda de crimes persiste por toda a Nova York. Elas escrevem livros impregnados em veneno, para matar aqueles que molham a pontinha do dedo na boca pra virar a página, esses porcos; Inventam festas em bares fantásticos e depois colocam doses cavalares de laxante nas garrafas de tequila; dão entrevistas dando conselhos absurdos para que as outras pessoas se animem a escrever (e depois morram frustradas, esquecidas e na miséria). O segundo clímax chega quando uma misteriosa senhora bate à porta da mansão das garotas. Ela veste tailleur negro, salto baixo, carrega uma triste bolsa de crochê e um chapéu cafona. Tem o rosto contraído, arrogante, e então solta a bomba: ela sabe de todos os crimes das meninas. Tem provas. E vai colocá-las na cadeira elétrica (Nova York é cadeira elétrica ou câmara de gás, hein? O que, injeção letal?? Ah, estragou a cena, pô!). A menos que... as meninas se tornem suas ghost writers. A mulher mostra fotos dos assassinatos sendo cometidos, gravações de conversas entre as assassinas, recibos das Fantas que elas beberam enquanto planejavam tudo. Para ficar quieta, ela quer apenas isso: que elas dêem uma entrevista dizendo que pararam de trabalhar, sumam das manchetes e passem a escrever reservadamente apenas sobre ela. Que a tornem famosa, célebre, amada, invejada e copiada por todas as senhoras suburbanas. Seu nome: Mirtes. A câmera vai se movimentando pelo salão, mostrando as três garotas amarradas às cadeiras e batendo ferozmente, de novo, às máquinas de escrever. Lágrimas correm em seus rostos enquanto Mirtes, altiva e risonha, grita com elas e diz que continuem trabalhando! A câmera sai pela janela do recinto da mesma forma que entrou. Sobe a trilha incidental apavorante. E fim! Bom, não? Será minha obra-prima mais primorosa de todas! O quê? Você quer que eu coloque sua família de pássaros assassinos no filme para comer os olhos das garotas no final? Ora, elas já pagaram seus pecados. Cale a boca e deixe-as em paz, seu corvo idiota!”.
Fla Wonka às 09:38 AM |
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