quinta-feira, 6 de novembro de 2008

O buraco branco

Semana Especial – “É o Fim!”

O cotidiano massacrante, o juízo final ou a invasão de extraterrestres com maquinário pesado realmente são de meter medo. Mas se tem um fim que pode apavorar de verdade, é o fim da comida. Olha, eu gostaria de estar iniciando aqui um texto todo sóbrio e sócio-politizado sobre o problema da fome na África, mas estou falando é do fim da comida na geladeira mesmo.

Essa é a fome que todos já passaram e ainda passarão muito. Causada pela preguiça suprema de ir ao mercado comprar víveres, a gente se apega ao que tem. Nem que esse apego se traduza num sanduíche de pão velho com feijão frio.

Na terceira vez em que o namorido pergunta “Mas não tem requeijão?”, começo a responder com grunhidos. Ou, pior, com efeito: “Ah, tem sim. Está lá na geladeira da vizinha do 3. Eu guardo o requeijão lá porque ando querendo emagrecer, sabe?”. A fome desequilibra a gente, né? Causa hostilidade, falta de traquejo... natural que tanta guerra já tenha começado por causa de fome.

Sabemos que a coisa começa a ficar feia com essas faltas – o requeijão, a margarina, queijo, iogurte, frios de colocar no pão para preparar um sanduíche salvador. Depois que os laticínios já se foram faz tempo, somem os víveres de maior substância, como as verduras, os legumes e as frutas. Notar que o último tomate mofou chega a apertar o coração e dar vontade de chorar porque, oras, ele podia virar uma boa refeição acompanhado de sal e orégano. Se o orégano já não tivesse acabado em junho, claro.

Os ovos se foram no último omelete; não tem uma raspa de geléia no vidro pra passar na bolacha água e sal; já não há sinal dos restinhos armazenados em potes perdidos, como aquele fim de frango desfiado que, com o arroz sobrado de sexta passada, daria um bom jantar.

A geladeira começa a tomar ares de miséria plena. Quando dá pra ver mais de duas grades vazias, torna-se extremamente preocupante. É hora de migrar da cidade baixa para a cidade alta – e começar a descongelar salsichas e comê-las com mostarda vencida.

Se a salsicha acaba, pode restar o auxílio de um pacote de macarrão pré-cozinho, ervilhas pra comer refogada, o último hambúrguer que sobrou na caixa e está parecendo defunto no IML, mas será encarável com, sabe-se lá, umas batatinhas que restaram perdidas no armário. O que é isso?? Um pote de sorvete??

Nessa hora, jantar duas ou três bolas de passas ao rum parece banquete da Rainha! Mas, ao abrir, claro, só se encontra no pote uma porção de carne sobrada pra fazer comida do cachorro... Malditos potes opacos de sorvete... (E depois de um lampejo desesperado como “bom se o cachorro come é porque deve ser gost...”, melhor bater a porta do freezer e sair fora).

Dizem os cientistas que os seres humanos podem viver pra mais de um mês sem comer sólidos, mas se faltar líquido, em cerca de três dias abotoamos o paletó de madeira. Pena que leite, suco e até a garrafa especial pra armazenar água geladinha são os primeiros a se esvair. Se ficarem esquecidos no fundo da geladeira, pior: num arroubo de fome, o sujeito vira a caixinha longa vida na goela esperando se fartar com o leite nutritivo, mas recebe um jorro de porcaria talhada e azeda na boca. Ok: se você também já cuspiu a coisa na pia e correu escovar os dentes, também não conto pra ninguém.

Na fase em que a geladeira começar a fazer forte eco e parecer um buraco branco que vai te tragar pra dentro dele, é hora de pensar em abastecê-la de novo. Se der pra abrir aquela lata de pêssego em calda da cesta no Natal passado e viver disso por dois dias, maravilha. Se seu idéia for chupar o caldo de carne feito bala a fim de satisfazer o estômago, melhor parar por aí e iniciar o feitio da fabulosa listinha de compras.

Ter experimentado dias e dias de fome terá feito você mais forte, além de mal-nutrido. E então você estará preparado para encarar que quase todo fim é triste, mas é também um recomeço.

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Muitos já desapareceram nesta região


Fla Wonka às 08:28 AM

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No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
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No som
Verso, vinil, vitrola, voz
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Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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