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O fim da picada Quando eu estreei na vida escolar, comecei entrando em um colégio todo de bacana. Sei lá, acho que um fio desencapou na cachola de mamãe e ela achou uma ótima me colocar numa 1ª série bem porreta. A escola, acreditem, selecionava alunos por “vestibulinho”. É uma prova para separar aptos de inaptos, diziam. Não me lembro o que perguntavam na tal prova a fim de eleger pequenos gênios de 7 anos, mas imagino que seria algo como “descreva seu bicho preferido e a cor do sapato que está usando” – e todos os que não escrevessem “dragão e fúcsia-perolado”, estavam dentro. “Vestibulinho” não é o fim da picada? Aqui perto de casa, o supermercado se habituou a dar produtos para o pessoal que pede comida. Com isso, conseguiram juntar cerca de 30 pessoas – entre jovens, idosos e criancinhas – que agora vivem na rua, morando debaixo da marquise dia e noite num frio e num calor que dão vontade de chorar. Agora, tem dia em que os funcionários do mercado dão pão e enlatados pra turma, e tem dia em que lhes dão um passa-fora na base da vassourada. Empresas sem a menor noção de responsabilidade e sociedade são o fim da picada. Sério que a Sônia Abraão bateu papo com o seqüestrador de Santo André por horas e horas, ao vivo, enquanto se faziam negociações? É-o-fim-da-picada. Minha amiga foi ao médico para fazer um check-up e entender por que não conseguia engravidar. Aos 4 minutos de consulta, o doutor disse que era óbvio, uai: ela tinha 41 anos, queria o quê? Disse que já podia desistir. Bem assim. Felizmente ela recobrou forças e foi ver outro médico. Está grávida de dois meses agora. Médico que faz consulta de 4 minutos, não tem tramela na boca e já perdeu a sensibilidade é o fim da picada. Assistir novela da Rede Globo é o fim da picada televisiva. Shows que custam R$ 300, no Brasil, são o fim da picada musical. Outro dia ligou aqui em casa a babá de uma coleguinha de escola da minha filha. A moça queria saber se a Sabrina podia ir brincar lá. Eu disse que sim, mas que primeiro era melhor falar com a mãe da menina. Não? “Não, quem trata das coisas da Júlia sou eu mesma”, disse a babá. Mas, hein?! Gente que tem filhos e depois entrega em consignação é o fim da picada. Eu vi algumas matérias na televisão sobre as eleições norte-americanas. 1) O processo leva um mês pra finalizar, e é tão complicado que o repórter deu nó na língua pra (tentar) explicar; 2) Uma senhora dava entrevista dizendo que Obama não pode ganhar, porque senão ele vai tomar o dinheiro de todos e dar pros pobres; 3) Em alguns estados do país, os votos não são contabilizados em proporção, mas assim: em tiver mais, leva os delegados todos, no famoso “the winner takes it all”, como se fosse um cassino de Las Vegas; 4) o personagem-símbolo da campanha de John McCain é um tal “Joe, o encanador”. Não me peçam pra explicar... Porque eleição parece ser o fim da picada em toda parte do mundo mesmo... O fim da picada é algo esquisito à beça, não? Porque quando parece que o fim chegou, ainda tem muita picada pela frente. O fim da picada, para nossa capacidade humana, é intangível. |
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