sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Adeus, minha Catarina

Aí outro dia eu fui à médica e reclamei que estava com dores de barriga e enjôos estranhos. Contei alguns outros sintomas bem específicos, ela olhou para mim e me deu a notícia de uma vida. Não, não era um bebê. Eram... bichas. Eu provavelmente estava com... bichas.

Hesito um minuto antes de falar porque, bem, não é elegante ter... bichas (tá, a partir de agora vou usar outros sinônimos). Muito menos confessar isso em público. Mas eu fiquei tão impressionada pelo fato de, em pleno século 21, ter... vermes, que tinha de fazer um desabafo. Comecei com a médica:

- Eu tenho o quê?
- Bichas. Vermes. Na barriga, sabe?
- Claro que eu sei. Estudei isso em Ciências e Saúde, mas achei que só acontecia...
- Na roça? Hahaha. Não, não. É supernormal.
- Supernormal no Zâmbia, né?
- Claro que não. Em todo lugar. Você come muito fora?
- Pracaramba. Todo dia.
- Então. Assim como muita gente... Tá vendo? É muito comum, isso. Só que as pessoas não sabem.

Puxa, que legal. Agora eu sou do (não tão) exclusivíssimo clube de pessoas que têm... helmintos -- mas do exclusivíssimo clube das pessoas que sabem disso. Mas peraí... O bicho vai sair por onde? Meu Deus, e aquelas histórias horríveis sobre o primo do vizinho de uma tia da menina da rua debaixo, que contou que botou as lombrigas pela boca e quase morreu sufocado? Gulp.

- Doutora, elas vão sair pelo meu nariz?
- Hahahahaha! Não, claro que não! Isso era no tempo antigo. Vou te dar um remédio e elas saem no cocô.
- E eu não vou ver nada, né?
- Não. O remédio pulveriza.
- Ah, que bom!

Fui à farmácia confiante. O remédio era dose única, supersimples, mastigável, pá, acabou. E eu pensando que ia ser aquele horror... Tsc tsc! Isso era no tempo antigo, sim senhor.

É como piolho: na minha época, minha mãe tinha que passar pente fino todo dia, esfregar com coca-cola e aplicar um xampu fedido como macaco morto a tapa. Com muita sorte, os piolhos desapareciam em uma ou duas semanas. Hoje em dia, tem um bagulhinho que, de um dia para o outro, manda embora os bichinhos. Rápido, simples, limpo e indolor.

É. Vida de parasita está cada vez mais dura.

Quando cheguei em casa, contei o estranho fato para Lacerad. No meio da narrativa, me toquei: putaquepariu! E Catarina, minha lombriga ensinada, citada tantas vezes aqui neste domínio? Eu teria que... que... matar Catarina!!!

Falei para ele que não ia mais tomar: "não quero me livrar de Catarina!". Ele argumentou, veemente:

- Não tem essa, você tem que tomar! Ela é um... um... parasita! Literalmente.

Hesitei uns minutos. Eu sabia que ele tinha razão. Mas era difícil: nunca na minha vida um personagem que inventei virou realidade de repente. Isso tinha acabado de acontecer com Catá... e eu já teria de matá-la!

Criei coragem e mastiguei o comprimido. A médica disse que levava de dois a sete dias para fazer efeito completo. A esta altura, é seguro dizer que Catarina já não está mais entre nós. Não me arrependo de nada, fiz a escolha certa. Mas achei que ela merecia pelo menos uma homenagem de despedida.

Catarina, a Lombriga Ensinada
* 7 - 7 - 2003
+ 7 - 10 - 2008

Clara McFly às 11:30 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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