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Vai, se concentra Mas bastou sentar para escrever por quatro minutos, o telefone já tocou? 8h17. É recorde. Era o marido, querendo passar recados e pedir dois favores. Impressionante que você pode trabalhar duro, ter prazos, chefia e metas, mas se fizer tudo isso a partir de casa, o mundo te considera um vagabundo. Certamente a família acha que eu passo o dia de pijamas, bebendo limonada e brincando na internet. E eu nem gosto tanto assim de limonada. Despachei mais dois e-mails... telefone de novo. “Lar de Maria”, querendo saber se eu posso depositar mais 10 para o Natal da molecada. Posso. Se eu der 15, você me liga de novo só em março de 2009? Promete? Um título! Consegui fazer um título! Mas o interfone toca. Seo Isael, o encanador, que veio receber pelo trabalho na caixa d’água do prédio. Isso que dá não ter porteiro. Isso que dá morar em prédio miúdo. Não, isso que dá ser a síndica! Vamos lá, concentra, um subtítulo agora... o telefone. Andreza, da escola de inglês franqueada do bairro. Quer que eu aprenda o idioma em seis semanas, intensivo, pela módica quantia de... “Andreza, se eu não aprendi inglês em 33 anos, não vai ser em seis semanas, viu. Beijo, linda”. Só um subtítulo, eu imploro. Vamos, cabeça. Relaxa. Não, não tem barulho de trânsito, serra elétrica de obra, nenê chorando, grupo de maritacas ou o afiador de faca lá fora. Não tem, concentra. “Além da farinha de trigo, existem...”. Campainha. A senhora que mora embaixo quer saber por que a reforma do jardim não começou hoje. “Hoje, só amanhã”, eu digo tentando rir de alguma coisa. Ela não colabora. Depois faço o subtítulo, vamos aos tópicos, vai. Amo tópicos, eles são efêmeros e saem facilmente. 1. Farinha de milho. Preciso falar da Vitamina B que ela contém. Sabrina chora. Estava puxando o maior ronco, mas lembrou que queria fazer xixi. Espera! A boneca, a Maristela, também quer fazer xixi, mamãe. Cuido das duas rapidinho pro sono não fugir, coloco de volta na cama... telefone. E interfone! Juntos! Não digo que essa casa é recorde? No fone, marido de novo. O mesmo recado de antes. Sério, querem me esclerosar. No interfone, leitura do gás. Ah, sim, tem essa: duas vezes por mês, companhia de gás e companhia de luz me fazem descer quatro lances de escada pra abrir a porta para eles anotarem nossas contas. Não dá pra eu enviar os dados pela internet? Não dá pra ler isso por cabo de fibra ótica? Não? Ok, estou descendo, moço. Lá embaixo, a vizinha me pega pelo braço e diz que, absurdo!, a reforma do jardim vai eliminar a trepadeira (morta) que tem na janela dela. Eu só penso na reportagem sobre farinhas – e em como seria bom moer essa mulher até que ela virasse pó. Ouço, anoto a reclamação no meu bloquinho imaginário, jogo mentalmente a anotação na Recycle Bin e vamos subindo. Será que eles lembram da minha filha, dormindo sozinha lá no apto. 5? Depois eu vou ser metida no xilindró por abandono, neguinho vai lá depor em minha acusação. Aposto. Já foram três tipos de farinha, restam apenas 13. Força, concentra. Eu PRECISO reclamar junto ao homem do biscoito sobre a poluição sonora. Gente, ele repete sem parar: “Bolachas, bolachas, bolachas Texto pelos meados, agora vai! Quando passa a arrebentação, a coisa anda. O quê? Pipoca aqui uma janela de MSN de um tal me chamando pra papear?? Mas eu nem estava online! Eu acredito no sexto sentido humano. Só não respondo a ele. Concentra, mulher! Vontade de ir ao banheiro, nhãã... Agüenta. Faltam só uns mil toques. O que é isso? Branco? Deu branco? Justo agora? Vai, branco, passa antes que o telefone chame de novo! Nããão... é branco mesmo. A inspiração se foi e nem por fórceps mental essa matéria sairá agora. Já devia ter aprendido: redator precisa de uma choupana na floresta para ganhar sua concentração, senão a inspiração fica aborrecida e some. O telefone toca. Hoje, é recorde. Ponto final.
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