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Um dia, a Toscana A Frances não me conhece. Na verdade, eu julgo que também não a conheço por completo – mas sei bastante sobre ela. Sei que deu um passo maluco na vida, indo comprar uma casa muito longe de sua San Francisco, lá no centro da Itália. Sei que ela e seu segundo marido torraram muitos dólares nisso, inclusive na contratação de pedreiros parvos que fizeram muita bobagem. Sei que ela adora sopa, mas odeia cobras. Sei que ela é amorosa com estranhos, como os poloneses que fizeram um muro em seu jardim e um tiozinho que jamais lhe retribuía o cumprimento. E como eu queria saber ainda mais sobre ela, comprei o livro e fui saber. O livro, no caso, é “Sol o Sol da Toscana”. Muitos (ou muitas?) já viram o filme lançado em 2004 com Diane Lane no papel principal. Ali, ela é Frances Mayes, uma professora e crítica literária que vive nos Estados Unidos e, depois de sofrer um divórcio penoso, embarca em uma viagem de recuperação à região da Toscana, na Itália. Lá, Frances pira e decide ficar, empregando todo o dinheiro da separação em uma casa caindo aos pedaços – que ela reforma primorosamente e que atrai toda sorte de revelações e boas novas para sua vida. Ah, sim, o filme é uma gracinha. Se você, como eu, adora uma história até que engraçada sobre solteironas que viram a mesa e, corajosamente, colocam a vida no bom caminho, ele é Top Ten. Diane Lane interpreta “a divorciada” como ninguém e é linda feito manhã ensolarada, então tudo no filme é atraente e doce. Mas não bastou. Quem seria, afinal, aquela doida daquela Frances? Eu sabia que ela era de verdade, não personagem de filme apenas. A história de “Sob o Sol da Toscana” era uma versão do livro de mesmo título que ela escreveu por volta de 1992. Na internet, li coisa ou outra, mas tudo menos interessante e informativo que o filme. E então, outro dia, amargando uma tarde de chuva durante férias na praia, fugi para a livraria mais próxima. E então achei ali na prateleira, brilhante e orvalhado, “Sob o Sol da Toscana”. O livro. Fazia, vou dizer, uns bons anos que não lia um volume de mais de 300 páginas em menos de quatro dias. Mesmo com o sol tendo voltado às férias, eu sempre seguia para a piscina ou a praia atracada com aquela brochura pocket de capa safada. Ler a história que Frances Mayes quis me contar virou um vício. Ri, sorri e me surpreendi tantas vezes que já estava ficando chato para o Sr. Wonka ouvir mais um “ai, escuta essa parte!”. Acontece que o livro tem muito pouco a ver com o filme, e tudo era delicioso de saber. De texto simples sem ser bobo, ele é muito, muito descritivo – coisa que eu adoro. Frances conta tudo sobre seu desejo de ter uma “casa fora de casa”, sobre como chegou à Itália, sobre a gincana para transferir seu dinheiro dos EUA para a terra de Dante, sobre a infância, sobre o drama de dividir a vida entre San Francisco e Cortona (a cidade onde ela sediou seus verões). Diferentemente do filme, na época da compra de Bramasole, a casa dos sonhos, ela já estava casada com Ed, seu segundo marido. Ela conta suas impressões norte-americanas sobre os italianos, sobre Ed e a reforma da casa (o homem virou um mestre-de-obras tostado de sol e musculoso), sobre as viagens aos arredores, sobre os vizinhos, sobre a comida. Ah, a comida! Frances foi tocada pela magia da massa italiana, dos tomates, da mussarela, do azeite, das cerejas. Ô, lugarzinho para comer bem, essa Toscana. Aliás, eu já conhecia a Toscana antes de ler o livro. Conhecer a Toscana da Frances, por outro lado, foi uma viagem nova. Nova e empolgante, com uma cadência que parece dizer “veeenha para cáááá você tambéééém” (com a voz daqueles caras que narram contos da cripta). Desde aquela última página lida já com saudades, comprei mais uns dois ou três exemplares para amigos que pipocaram na mente durante da leitura. Vivi, que reformou bravamente a própria casa; Fabi, que queria ir pra Itália – e foi; Mamãe, que adora uma boa história de mulherzinha empreendedora (porque ela mesma é uma). Dias mais tarde, eu ainda estava ridiculamente fuçando em sites de nomes bobos como www.rent_toscana.com ou www.tuscanyaccomodations.com. Vendo preços, me recolhi um pouco à minha insignificância financeira. Mas não deixei de sonhar com uma Bramasole pra mim – e vou consegui-la, incluindo no pacote os tomates, as oliveiras e os pedreiros ordinários. Porque eu nem conheço a Frances pessoalmente, mas o que ela conta, qualquer um com sonhos pode entender.
Esta é a Bramasole que fez Frances Mayes escrever tão bem Fla Wonka às 09:08 AM |
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