sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Nada além de flores

"And as things fell apart
Nobody paid much attention"

A primeira vez que ouvi esta música foi na famigerada premiação da MTV em que Caetano pediu "vergonha na cara" à emissora, depois que o som falhou pela terceira vez em sua apresentação ao lado de David Byrne. Eu tenho uma memória melódica de peixinho dourado: dois minutos depois de ouvida a canção, não consigo fazer nem o na-na-na. Além do mais, o piti me distraíra. Mas para compensar, guardo um ou mais versos da letra por anos a fio. E aí, graças ao São Google, encontro qualquer coisa (desde que o verso não seja "I love you").

Digitei "there was a shopping mall now it's all covered with daisies". Além da melodia e do piti de Caetano, taí outra coisa da qual eu realmente tinha gostado: o bizarro humor da letra - ou pelo menos da parte que eu tinha entendido.

Descobri que a música que eu procurava se chamava "(Nothing But) Flowers" e era do Talking Heads. Já gostei. Eu gosto de músicas com parênteses no título. Mais algumas pesquisas e ela entrou na minha fila de downloads e exibiu sua letra em uma janela de navegação.

Pronto. Apaixonei. "(Nothing But) Flowers" foi lançada em 1988, no Naked, último álbum do Talking Heads. O ritmo é irresistível e a letra é sensacional: ela subverte a ordem natural do que a gente vê por aí, descrevendo um cenário pós-apocalíptico... paradisíaco. E reclama da falta de asfalto, microondas e Pizza Hut, com pérolas como "se isso é o paraíso, quisera eu ter um cortador de grama" e "costumávamos usar o microondas; agora comemos apenas castanhas e frutinhas".

Isso sem contar o "desde o tempo dos dinossauros, carros são movidos a gasolina; para onde eles foram?! Agora, não há nada além de flores!". Não é genial essa inversão completa do desespero humano, geralmente associado ao fim das flores - e não dos carros?

E, para fechar com chave de ouro e ser muito Talking Heads mesmo, apesar da letra, o videoclipe da música - que tem a participação de Johnny Marr, guitarrista do Smiths - exibe várias estatísticas terríveis do que temos feito com a Terra ultimamente.


Pare de fazer sentido


Clara McFly às 10:07 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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