quinta-feira, 21 de agosto de 2008

A mulher mais chata do mundo

A mulher mais chata do mundo é bonita, inteligente, tem um bom emprego, fala duas ou três línguas e dirige carro do ano. Mas nada disso importa muito, porque ela é, sim, a mulher mais chata do mundo.

Claro que a mulher mais chata do mundo tinha que fazer aula de ginástica junto comigo. Logo eu, que gosto tanto de gente chata... Mas, enfim, no começo eu a achei simpática – o que, de fato, ela é. Em geral, acho que as pessoas mais chatas do mundo são simpáticas mesmo. Tão simpáticas, extrovertidas e pra cima que ficam chatas.

A mulher mais chata do mundo fala mais que o homem da cobra, como diria minha avó. Fala sobre tudo, tem opinião fixa sobre tudo, e quando a gente discorda, ela dá novamente sua versão em voz mais alta. Mania de chato.

A mulher mais chata do mundo é esguia, definida e alongada. Nada disso, porém, agrada à mulher mais chata do mundo. Ela quer fazer mais aulas de ginástica, mais exercícios difíceis, ter mais tônus que o planeta inteiro e respirar como um beija-flor enquanto leva o joelho atrás da cabeça. A mulher mais chata do mundo é obcecada com sua imagem. E cobra isso da professora.

Mas ela finge que não liga pra aparência, na verdade. Muito pelo contrário. A mulher mais chata do mundo só fala em energia, forças superiores, chacras. Mal sabe ela que, na primeira vez que me falou de chacra, eu achei que ela se referia a alguma pequena propriedade sua no interior. Um sitiozinho, quem sabe.

Ela é super bem-lançada nessa coisa de esoterismo – que ela não chama de esoterismo, lógico. Mesmo assim, vive me pressionando para fazer um curso que coloca o atlas da gente no lugar. Eu juro que me esforcei pra entender o que raios era isso, de “corrigir o atlas”, mas só consegui me imaginar consultando o mapa-mundi. Ela diz que é uma porção óssea da nossa coluna que nasce fora de registro, e todos temos que acertá-la. Já fiz cara de “hã?”, mas ela não cessa de me falar disso.

Aliás, como já mencionei, a mulher mais chata do mundo fala pacas. Fala sobre o tempo, sobre o trânsito, sobre as eleições, sobre baladas. Isso numa aula de apenas 50 minutos que prevê, acima de tudo, fazer exercícios envolvendo respiração. E como eu dou atenção pra ela e respiro ao mesmo tempo? Ela quase já me fez cair do aparelho umas dez vezes.

A mulher mais chata do mundo é meio solitária. Está sempre na academia, sempre sempre. Faz aulas três ou quatro vezes por semana – isso quando não acha algo extra, como sessão de massagem, sessão de acupuntura, sessão de esfoliação russa com polifenóis de tomate. Ela também pede à moça da nutrição que lhe embale o jantar, todo dia. Nessas horas, dá um pouco de pena da mulher mais chata do mundo, porque ela deve passar muito tempo sozinha...

E daí eu comento sobre a tal sopa de aipo que ela encomendou e, pronto, já começa o bombardeio sobre a minha alimentação. Não devo comer carne, não devo comer frango, não devo sequer pensar em frutos do mar e me afastar 100% de enlatados. Para a mulher mais chata e mais neurótica do mundo, “eles” querem que a gente coma porcaria para subjugar a Humanidade. Bom... pelo menos a mulher mais chata do mundo tem isso de engraçado: ela é toda conspiração.

Ela crê que sua chefe a persegue. Que dá à ela as piores tarefas e é muito invejosa de sua energia e imagem. Agora, se a chefe é má e virulenta como ela diz, eu já a imagino com a cara da madrasta da Cinderela. Mas não que a mulher mais chata do mundo seja a Cinderela – porque ela acredita que os homens são uns porcos abomináveis. A professorinha comenta toda contente que conheceu um rapaz... a mulher mais chata do mundo diz que ela “não deve facilitar”.

Eu já conheci muita gente chata, mas a mulher mais chata do mundo é quase um clichê, um estudo sócio-psicológico. Agora me digam sinceramente? Eu que estou sendo chata?

E se você também conhece a pessoa mais chata do mundo, por favor, me conte aqui como ela é? Assim a gente compara dados e, quem sabe, publica uma tese bem chata sobre o assunto!




Fla Wonka às 08:39 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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