quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Amarelando

Recomendar livros não é uma ciência muito da exata – assim como dar perfume ou bichos vivos de presente. A pessoa que recebe pode amar e pode odiar, porque gosto é gosto e histórico é histórico (e, se ela anda pulando a cerca, ler “O Primo Basílio” não será, assim, divertido de ler). Já as crianças não carregam muitas contra-indicações quando ganham um livro. Bastou não ser nada atroz demais ou cabeça demais, elas adoram. Aliás, eu tenho uma dica, molecada!

É uma dica meio velhinha, na realidade. No ano que vem, esse volume completará 30 anos de lançamento. O curioso, porém, é como o texto continua vibrante, atual, engraçado e educativo. “Chapeuzinho Amarelo” é uma obra de Chico Buarque (que, escrevendo história, mata mais a pau do que com qualquer “Construção” ou “Roda Viva”) com ilustrações de Ziraldo (ah, vá, que os desenhos dele são o máximo?). A obra conjunta é de um primor tão primoroso que, já em 1979, foi considerado “altamente recomendável para crianças”.

Chapeuzinho Amarelo não é como aquela outra, a Vermelho. Ela é covarde. “Amarelada de medo”, como dizem Chico e Ziraldo. Tinha medo de tudo, a Chapeuzinho – incluindo-se aí festa, conto de fada e amarelinha. O medo maior era de um lobo. “Um lobo que nem existia”.

O livro, um pouco rima e um pouco poesia, junta as palavras de uma forma tão brilhante e divertida que, só de contar, a gente se emociona. Ou não?

“E Chapeuzinho Amarelo,
de tanto pensar no LOBO,
de tanto sonhar com LOBO,
de tanto esperar o LOBO,
um dia topou com ele, que era assim:
carão de LOBO,
olhão de LOBO,
jeitão de LOBO
e principalmente um bocão
tão grande que era capaz
de comer duas avós,
um caçador,
rei, princesa,
sete panelas de arroz
e um chapéu de sobremesa.”

Quando a Chapeuzinho Amarelo afinal topa com o LOBO (em caixa alta, que lobo assustador é LOBO), o medo começa a ir embora. Nem com os dentes arreganhados dele, que o Ziraldo desenha como ninguém, a menininha se abala. O LOBO vira BOLO e Chapeuzinho... bom, a Chapeuzinho usa a mesma imaginação que lhe metia pavor para ficar mais feliz, relaxada e corajosa. E não é disso que todos precisamos?

Eu sei, livro é difícil de se recomendar. Mas se eu puder dar essa dica, sugiro que passe hoje na loja e arremate o seu. Seja você pequenininho ou já bem grande.

chapeu.jpg
"Chapeuzinho não comeu aquele bolo de lobo,
porque sempre preferiu de chocolate"


Fla Wonka às 09:50 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold