quinta-feira, 24 de julho de 2008

Que voltem os velhos

Hábitos. Conjuntos de manias e idéias costumazes que faz de cada um de nós gente única. Ele se manifesta de muitas formas – ao colocarmos o chinelo debaixo da cama à noite ou quando empilhamos camisetas por cor no armário. É hábito. Ultimamente, ando gostando mais dos antigos que dos novos. Pena que muitos quase que já morreram.

Hoje cultivam-se maneiras modernas de agir. Aniversário, por exemplo: quase todo mundo comemora em bar (e assim perdemos a chance de decorar a casa com bexigas e comer coxinha requentada na manhã seguinte). Escrever diário caiu de moda – e nem a cine-garota Bridget Jones reacendeu a chama e o charme dos cadernos secretos. Também já não se ouve falar de quem costure colchas de retalhos, aquela belezura de trabalho.

Claro, eu não defenderia o retorno do casamento baseado em dote, dos carburadores e das fraldas de pano. Deusolivre retroceder no tempo a esse ponto. Mas muitos hábitos bacanas ficaram perdidos em algum ponto do passado e agora fazem falta, deixando a vida menos romântica e, no bom sentido, antiquada.

Podem chamar de “idéias do arco da velha”. Eu sinto mesmo vontade de ver de volta...

... gravata borboleta e suspensórios
Talvez os rapazes chutem meu traseiro por declarar isso, mas como esconder? Acho uma gracinha homem com acessórios do tipo. A gravatinha deixa com cara de boneco de ventríloquo? Que nada! Assim como o suspensório, rende é graciosidade. Juntos, então, que doçura!

... a Cuba Libre
Ah, sim, eu gostaria que os cubanos tivessem mais liberdade, mas estou falando é do drinque. A bebida, parece, reúne coca-cola, um pouco de rum, gelo, canudo e, quiçá, guarda-chuvinha. Falou em bebida refrescante, pouco alcoólica e decorada de modo cafona, falou comigo.

... encontro para jogar buraco
Acho que os baralhos estão em extinção. Não há mais quem saiba tirar partida de biriba, pôquer ou mesmo rouba-monte (este último, aliás, é praticado apenas por deputados em Brasília... e não da forma lúdica). Onde estão as noites recheadas por canastra real e lavadeira de Ás?

... o macarrão feito em casa
Só de birra, adquiri o cilindro que abre a massa para reavivar a tradição que nossa família perdeu. Tudo bem, comprar o saco de talharim no mercado é muito mais simples, mas nada é tão agregador quanto juntar sobrinhos para fazer pasta. E tirar guerrilha de farinha depois.

... as festas do pijama
Por falar na molecada, eles vêm perdendo muito da graça de ser criança. Não podem lamber a vasilha do bolo por ameaça de salmonela. Não brincam na rua por risco de atropelamento. Ao menos o hábito de dormir na casa dos amigos e badernar com travesseiros poderia voltar, hein?

... namorico de portão
Bandidos deviam ter um código de honra prevendo o não-assalto de casais apaixonados. Foi ruim perder a chance de dar uns amassos no carro ou se despedir na porta de casa por longos minutos amorosos. Hoje é mais sábio jogar a moça do veículo em movimento, para evitar seqüestro.

... livros de receitas
Minha mãe tinha o requinte de copiar o feitio do prato em um caderno e, depois, recortar a foto e colar junto. Eu faço um desses, mas me esmero somente em reproduzir a receita com letra bonita – a fim de não substituir “uma xícara de frutas” ou “uma xícara de fritas”.

... as viagens de trem
Queria ir para Santos pela via férrea. Queria ir à Araraquara da mesma forma. Queria embarcar hoje à noite para o Rio de Janeiro e acordar frente ao mar amanhã. Não dá, porque esse transporte é considerado lerdo, perigoso e caro. Bom mesmo é dirigir feito uma besta? Pois sim...

... dos piqueniques
Vivemos a combinar, mas nunca que a “festa das saúvas” acontece! Um dia, porém, vou embalar a torta de palmito, as queijadinhas, suco de uva, brioches e sanduíches de queijo e rumar para o parque mais próximo. De preferência, usando saia rodada e sentando sobre a toalha xadrez.

... os bailes com jantar
Eis a minha maior frustração para com os hábitos desaparecidos. Não devia ter coisa mais encantadora para nossos pais e avós do que vestir traje de gala (brega mesmo, quem liga?) e adentrar o salão de tábuas enceradas. Após a ingestão de algo como codorna e suflê, é hora de bailar ao som de Glen Miller ou orquestras de jazz. Um dia ainda vou gastar a sola do sapato revivendo esse hábito para lá de saudoso. Ah, se vou.

festa baile.bmp
Ninguém mais tira para dançar?

Este texto é uma (deliciosa) reedição. Flá saiu pelo mundo para recolher assinaturas pela volta da gravata borboleta, mas semana que vem taí.


Fla Wonka às 10:27 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold