quinta-feira, 3 de julho de 2008

Eu prefiro ser...

... essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Bah, mentira. Eu prefiro ter algumas velhas opiniões, misturar com opiniões novas e mesclar tudo com sonhos, muitos sonhos de como tudo deveria ser. E de como EU deveria ser! Porque, vá, todo mundo já sonhou em ser outro. Um popstar que desempenha no palco; uma atriz daquelas que ganha Oscar; o médico que descobriu a cura do câncer, da Aids, da gripe e da queda de cabelo; a mulher que desbravou as florestas de Ruanda para checar os gorilas; a astronauta; o mergulhador; a bailarina; o piloto. Todo mundo preferiria ser, além do que é, também outras coisas.

Já que só posso falar de mim, eu queria ser escritora. Tudo bem, eu escrevo. Ok, eu escrevo e um punhado de gente lê – o que me deixa especialmente feliz quando penso “uia, e eu achei que nem minha mãe teria saco pra isso”. Escrever me faz mais forte e orgulhosa, mais alegre e sentimental. Mas a plenitude só existe nos sonhos, não é?

Porque, nos sonhos, eu queria ser Jane Austen. Jane não foi uma simples autora de romances açucarados que se passam na Inglaterra do século 17. Jane foi uma maga das histórias, uma mulher muito inteligente, mesmo que ninguém notasse – porque ninguém, lá em 1800, notava mulher alguma exceto se precisasse dela para cozinhar, bordar, desenhar, casar ou fazer beicinho.

Mas Jane tinha estilo no que escrevia. E isso eu admiro, estilo próprio, particular, criado do zero, contrariando tudo o que se fazia até então. Eu queria ser a Jane do mesmo modo que queria ser Helen Beatrix Potter. Não, não tem a ver com a família do Harry Potter (apesar de dizerem que J.K. Rowling, outra das minhas musas, a usou de inspiração). Tem a ver com histórias infantis, tem a ver com os desenhos mais delicados, tem a ver com garra e muita competência.

Agora que “Miss Potter” saiu nas telas de cinema e vídeo, muitos podem conhecer melhor Beatrix. Eu a conheci faz uns 15 anos, durante um trabalho de faculdade – apesar da escritora e ilustradora ter ficado famosa lá no início do século 20. E eu quis ser essa moça imediatamente.

Não só porque eu sempre quis ser escritora justamente de livros para crianças, e ela foi a maior de todas, mas por causa de sua história. Vou poupar os detalhes sórdidos (sobre o noivo que morreu antes que eles pudessem se casar, porque os pais novos-ricos dela eram um porre). Basta dizer que Beatrix se fez sozinha, caçou durante anos uma editora (mais precisamente, caçou 70 vezes) para publicar seus livros sobre coelhinhos, gatinhos e patinhos quando ninguém achava a menor graça nisso. Quando encontrou, insistiu para manter suas idéias e seu estilo, fez questão de usar as próprias ilustrações, manteve olho atento em todo o processo.

Ficou rica. Bem rica. Tão rica que pôde comprar terras no campo, uma fazenda inteira até – e lá continuar desenhando seus bichinhos e contando as agruras de Peter Rabbit, o astro principal, e da gata Miss Moppet, da rata Hunca Munca e de Jemima, a pata mais burra do planeta.

Beatrix ficou feliz com sua vida e suas realizações afinal. Como devem ter ficado Zélia Gattai, que se tornou uma das minhas prediletas aos 12 anos, quando li o soberbo “Anarquistas Graças a Deus”. Ou Cecília Meirelles, a única que me faz amar e reverenciar poesia em “Ou Isto ou Aquilo”. Ou Agatha Christie, mestra, crânio, a psicopatia melhor traduzida em livros que poderia haver.

Sonhando com todas elas, fico feliz também, porque eu sempre preferi ser uma grande escritora, muito lida e apreciada. Mas isso sou eu. E você? Quer contar aqui o que preferia ser?

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Eu preferia ser...
a dona de Peter Rabbit!


Fla Wonka às 09:41 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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· Flá Wonka
· Vivi Griswold