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Esporros Homéricos ‘Não se sente senão o que se soube falar’ -- Paul Gèraldy ‘Palavra dada não se pega de volta’, dizia meu pai que, durante sua vida – e, sejamos francos, boa parte de sua morte - pegou de volta milhares e milhares de palavras dadas por ele. De qualquer forma, tenho pensado demais nas palavras das nossas vidas, no que dizemos, em como dizemos. Em minha casa de menina, na minha família, as palavras tinham valor quase sagrado. Éramos treinados no e para o discurso. O que se dizia, como se dizia, quantos sentidos a mesma frase podia ter, de quantas formas a mesma frase podia ser percebida: neste credo fomos criados, esta fé professávamos. Viver novamente - depois de ficar velha, depois de tanto tempo – com minha mãe, que é terapeuta de discurso, só fez botar mais lenha nesta fogueirinha. Não éramos – não somos – lá muito bons com sentimentos (embora eu deva declarar que meu irmão parece estar fazendo um belo serviço com seus meninos), mas no discurso escrito, falado e televisionado, éramos – e somos – até bem competentes. Ao contrário daquela música dos Titãs, a vida toda acreditei que as palavras podem, sim, ser boas ou más, quentes ou frias, iguais ou diferentes. E também, ao contrário deles, eu nunca achei que palavras fossem sombras. Para mim elas sempre foram rochas, jamais levadas pelo vento. Eu me lembro das palavras e de quem as disse, eu me lembro do discurso, do tom, da entonação, do franzir de sobrancelhas, das mãos que tremiam para abrir o saquinho de açúcar, do sorriso - meio torto, meio triste - do timbre, do grave e de cada agudo. Acredito em dizer as coisas, mas não todas. Acredito no peso da palavra dada e acredito, muitíssimo, na palavra não proferida. O que não é dito tem tanto peso e é discurso também. Acredito em atos falhos, e que as palavras magoam, rasgam e podem curar. Acredito no que as palavras revelam por vontade própria ou, exatamente, no que tentam esconder. Acredito no poder de cada palavrinha, na força dos substantivos, na assertividade dos verbos, na natureza dúbia dos elogios. Acredito no papel das palavras durante a negociação, acredito que se perde e ganha com palavras, acredito – e já fui vítima e algoz, muitas e muitas vezes - no poder de convencimento das palavras. Acredito também no poder criador das palavras – vivo dele. Aprendi que palavras têm gramatura, peso e textura. Tem cheiro, tem som. Acredito que, ao darmos um nome para o que não existe, ele passa a existir, acredito que bois batizados por nós formam manada mais fácil de manejar. Acredito em definições, em mensagens na garrafa, em análises precisas, em gritos primais, em comunicados, em afirmações absurdas, em mentiras deslavadas, nas orações da Stella, em negações veementes, em xingamentos, em palavras de amor, em convites velados, em bulas de remédio, nas beatas de Eça de Queiroz, em telefonemas ofegantes, em manuais de redação, em elogios entusiasmados, em esporros homéricos, em sussurros no ouvidinho, em posts de blogs, em gritos na multidão, nas canções de Caymmi, em receitas grudadas no armário da cozinha (como fazia minha doce Lígia), em piadas prontas, nos poemas do Quintana, em atestados de antecedentes, em certidões de casamento, em orações emocionadas, em fábulas orais, em panfletos distribuídos nas calçadas, em dizer o nome das pessoas com quem falamos muitas e muitas vezes, em agradecer sempre, nos mundos de Érico Veríssimo, em faixas que agradecem a Santo Expedito pela graça alcançada e em graças alcançadas - exatamente porque os pedidos foram formulados, em redações “As minhas férias”, em pedidos feitos em papeizinhos e enfiados nas falhas do Muro, em cheques ao portador (principalmente quando o portador sou eu), no que está pulicado no Diário Oficial, em ler nas entrelinhas, em cartas à redação, em guias de exames, em discursos feitos lá de cima do caixote, nas muitas coisas que se aprende tomando um café curto à beira da mesa daquele bar que nos deixa fumar cigarrilhas, em cardápios, em placas de trânsito, em ditos populares, em expressões idiomáticas, nas famosas últimas palavras, em sotaques engraçados, em gemidos de prazer, nos trocadilhos tontos da Silvana, em acordos que podem - ou não - ser cumpridos, em poemas - ainda que rabiscados em guardanapos, em urros de pavor, em cantar sozinha dentro do carro, em falas enroladas, em livros perfeitos, em jornais duvidosos, em falar com voz de bebê com o cachorro, em enviar e receber longos e-mails, em notas do editor, em declarações, em nadas-consta, em fichas corridas, em subtextos-que-você-meu-querido-entende-se-quiser, em listas intermináveis, em recibos passados, em conclusões assombrosas. Celebro a palavra e o discurso em todas as suas maravilhosas manifestações e sou grata, eternamente grata, por ter sido ensinada a amar o que se diz e como se diz e, por ter sido ensinada a respeitar a palavra – a minha e a dos outros - por ser capaz de entender as palavras, ainda que nem sempre perfeitamente e em manejá-las, ainda que de forma medíocre. Nem sei mais por que estou falando disto. As palavras me tomam e eu me perco. Acho que o que cabe aqui é uma liçãozinha de moral: sua família pode não ter condições de dar tudo que você quer – ou precisa – para enfrentar a vida. Mas aproveite o que quer que seja a especialidade da sua família e fique bom de verdade nisto. Não é o melhor dos mundos, mas o melhor dos mundos, deixe que eu lhe conte um segredinho, não existe. Bem, não existe mais. O que a Fal escreve está entre aquele punhado de coisas que fazem eu me sentir melhor, como as músicas do Belle and Sebastian e os poemas do Manu Bandeira. Por isso é uma honra recebê-la aqui, mesmo que o produto de sua visita faça eu me envergonhar, com orgulho, da minha parca destreza com as palavras. Obrigada, Fal.
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