terça-feira, 1 de julho de 2008

A máquina de costura da minha avó

A máquina de costura da minha avó agora mora na casa da minha mãe. É uma daquelas máquinas Singer bem antigas, tão antigas quanto a minha avó. Daquelas que funcionam na base do pedal.

Minha avó ficava lá pedalando e do outro lado da agulha saíam coisas incríveis. Ela fazia vestidinhos para as netas e colchas de retalhos. Eu tenho uma delas até hoje; é um fenômeno da estética construída a partir de pedaços de coisas que não queremos mais. Eu fico imaginando o que saiu de cada um daqueles retalhos; o pedaço de brim deve ter sido uma calça para minha mãe; o barrado vermelho pode ter feito um vestido para a minha tia; o tecido estampado talvez tenha virado uma camisa para o meu tio. Todos pedacinhos de histórias que minha avó não pode mais me contar, mas não tem problema porque eu imagino tudo.

Quando eu era pequena e minha mãe estava terminando o colégio, minha avó cuidava de mim todas as manhãs. Não era exatamente um programa de recreação, porque, como todas as velhinhas, minha avó levantava às seis da manhã para cuidar da casa. Eu fico imaginando porque alguém tem de levantar seis da manhã para cuidar da casa, mas imagino que isso fizesse sentido naqueles tempos sem delivery e microondas. Mas enfim.

Na verdade, minha avó fazia todo o trabalho de casa comigo pelas bandas. Acho que não era um problema para ela, porque eu era boazinha e me distraía com pouco. Ela sempre teve muita boa vontade; me carregava e explicava tudo que ela ia fazendo: sovava a massa de pão (e me dava um pedacinho para brincar), quebrava as casquinhas de ovo para colocar nos vasos, jogava água quente nos lençóis. Eu achava tudo muito interessante e tal, mas minha hora favorita era mesmo quando ela ia costurar.

Era o meu primeiro contato com uma máquina e eu me impressionava muito. Ela me explicava: "olha só, eu ponho a linha aqui e passo aqui, tá vendo? Agora vou por o pé aqui embaixo... viu? Já tá costurando!". E a máquina começava a fazer choc choc choc e operar milagres; tinha um cheiro de óleo e do pano dos botões forrados guardados há um tempão.

A máquina, além de ser uma engenhoca interessantíssima aos meus olhos infantis, ainda guardava um monte de segredos. Isto porque a mesa onde ela se punha tinha uma porção de gavetinhas; quem tem máquina antiga em casa deve saber. Cada gavetinha era um universo de botões e carretéis que minha avó me deixava desbravar contente. Eu abria e ficava ali sentindo aquele cheiro de guardado, me admirando com as linhas mescladas, separando os botõezinhos por cor e tamanho.

Isso quando ela não me dava uma linha bem grande, enfiada na agulha, e me deixava alinhavar todos os botões. Acho que já contei isso por aí; eu mirava bem o buraquinho do botão, me sentindo muito importante por usar um instrumento perigoso como uma agulha; passava o botão pela agulha toda e puxava até o fim da linha, onde estavam os nozinhos feitos por minha avó. Fazia um lindo colar de botões só para, no fim, ter o prazer de estourar a linha e desmanchar tudo, mandando todos os botõezinhos de volta para a gaveta onde eles moravam.

Todas estas memórias me ocorreram na hora em que topei com a máquina de costura da minha avó, que agora mora na casa da minha mãe. Abri as gavetinhas e os botões ainda estão ali, assim como aquele cheiro característico deles. Eu sinto muitas saudades da minha avó, ainda que ela esteja viva. E espero que, um dia, a máquina de costura dela venha morar na minha casa - mesmo eu sendo incapaz de fazer uma barra de calça.

Clara McFly às 10:31 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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