quarta-feira, 25 de junho de 2008

Costanza Experience

Obviamente vocês já devem me conhecer. Mesmo assim, por educação, me apresentarei. Me chamo Gabriel Von Doscht e sou um renomado escritor que ganha a vida publicando textos como autor convidado nos mais variados cantos da internet. Mas se engana que pensa que minha vida sempre foi uma maravilha. Não! Para chegar até aqui eu tive de trabalhar muito. E é ali, em 1978, que a minha história começa.

Eu era um jovem rapaz em busca do primeiro emprego, nadando num mar de incertezas acerca do meu promissor futuro. Tinha essa garota, Bernadete, a menina mais linda da faculdade... Mas não vou falar sobre ela ainda. Deixemos Bernadete para mais adiante no texto.

Era 1978, eu estava à procura de um emprego na área da propaganda. Enviei meu currículo para algumas empresas e apenas uma me chamou para entrevista. Era uma empresa conceituada no ramo do marketing para internet. Todos diziam que era uma empresa à frente de seu tempo e isso me deixou bastante nervoso. Não poderia cometer nenhum deslize na entrevista que estava por acontecer.

Cheguei na empresa às duas da tarde.

Na sala de reuniões, Almeida, o entrevistador, me cumprimentou e, em voz alta, começou a ler meu currículo. Após a leitura, o Almeida aplicou-me um teste psicotécnico e um exame de vista, como era de praxe naquela época. Em seguida comecei a responder intermináveis perguntas dos mais variados tipos e tamanhos.

Satisfeito com meu desempenho na entrevista, Almeida me levou conhecer a empresa e os funcionários. Após um breve passeio pelas propriedades, seguido de uma saborosa xícara de chá, Almeida me disse “tchau” e eu fui embora.

Ao chegar em casa, minha mãe, aflita, me perguntou como eu havia me saído na entrevista de emprego. Contei tudo para ela, com riquezas de detalhes.

-- Então... Quando você começa? – perguntou ela.

Aí que me toquei. No frenesi da situação, tanto eu como o Almeida, havíamos esquecido de tratar de alguns detalhes, como, por exemplo, a minha admissão ou não na empresa.

Cercado de dúvidas e sem ter um telefone para saná-las (em 1978 o aparelho telefônico ainda não havia sido inventado), não consegui dormir naquela noite, pensando se estava ou não admitido.

Como pude deixar tal informação escapar? E se eu não fosse trabalhar no dia seguinte, mesmo não contratado, poderia eu ser demitido? As dúvidas alternavam na minha cabeça como se fossem a grade do SBT, e na manhã seguinte não pensei duas vezes, coloquei uma gravata e fui para o escritório.

E assim continuei fazendo, todas as manhãs, por seis anos inteiros, sem ter nunca assinado um contrato ou recebido um salário. Isso se chama atitude e atitude é o segredo do universo.

Um dia, em 1984, minha mãe me perguntou:

-- Por que você ainda vai trabalhar lá se ninguém nunca te contratou?

Pensei numa resposta rápida para a pergunta, mas não a tinha. Então pensei numa resposta demorada, mas infelizmente também não a tinha. Na manhã seguinte não pensei duas vezes, fiquei dormindo e não fui trabalhar. Ao final do mesmo dia, o Almeida, então diretor da empresa, me ligou avisando que eu estava demitido por falta não justificada.

Desde então nunca mais quis ter um emprego. Hoje em dia estou satisfeito sendo um famoso romancista de 42 anos que mora com mãe (abaixo segue uma foto nossa).

image001.jpg

Que essa história motive vocês o tanto quanto me motiva uma vitrine de loja de informática que usa peixes num aquário como proteção de tela em seus monitores.

Por Gabriel Von Doscht

* * * * * *

Gabriel Von Doscht atende pelo codinome de Moskito e manda prender e soltar no De Que Jeito. Quando nós, Garotas, estávamos começando - lá nos idos de 1986 - este esforçado rapaz já trabalhava há seis anos no ramo (mesmo sem ter sido contratado).

Ele é impossível, nonsense e o melhor dos rappers brancos. E nós agradecemos, comovidas, pela participação.


Clara McFly às 01:02 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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