segunda-feira, 23 de junho de 2008

As cenas mais tristes do mundo

Ah, eu choro mesmo. Choro com filme sobre relacionamento entre mães e filhas, choro com música que tem significado especial, choro com a situação do Tibet, choro até com corte de cabelo ruim. Porque a vida é muito alegre, mas quando sabe ser triste... é triste de chorar. E nem precisa ser algo muito violento como um terremoto que desabriga famílias ou uma guerra muito injusta. A tristeza está em pequenos detalhes, todo santo dia. É segurar pra não desidratar de tanto chorar.

“Vai ver é TPM”, vão dizer. Pior que nem é, viu, que isso se cura com um chocolatão bem do feliz. Pode ser um momento de sensibilidade mais profunda, aí sim. Por exemplo: eu adoro viajar. Até de carro, até Jundiaí, que seja. Mas o contentamento de pegar a rodovia às vezes acaba por completo quando vejo aqueles cachorrinhos mortos no meio fio. Estrada devia ter rede anti-cão-atravessador. Porque eles são bobos e acham que podem ir rápido, mas daí vem o veículo e, bum!, carcaça na pista.

O estômago trava todo e acho muito, muito triste. É como parar em porta de escola no primeiro dia de aula – coisa que só as mães, os fortes ou os idiotas fazem. Tem mais criança chorando e se atracando com o pescoço de sua dona do que... não, não tem lugar onde a molecada fique mais tristonha e chorosa. Nem na frente daquela maquininha que (supostamente) pesca os bichos de pelúcia.

Bom, se bem que outro dia eu presenciei a cena mais triste do mundo e, sim, ela envolvia uma menininha. Mas não tinha a ver com fome, sede, sono ou com a presença de palhaços horrorosos. Teve a ver com a perda.

Eu no carro, parada no tráfego. A menina sendo levada pela mãe, pela mão, em correria. Deviam estar atrasadas para algum compromisso, para pegar o ônibus ou o trem, não sei. Pois a garotinha, toda fofa, com aqueles birotes no cabelo e uniforme do pré, vinha bem feliz, ainda que rebocada pela genitora, chupando um pirulito.

Até que, na pressa, o pirulito caiu no chão. A mãe foi avisada pela pequena, mas o atraso devia ser enorme mesmo, porque ela mal parou de caminhar/correr. A menina abriu um berreiro... Era o rosto mais desapontado, revoltado e magoado que já vi. Sério, mais do que o rosto do sujeito que perdeu o campeonato, mais do que o candidato que perdeu a eleição, mais do que o rosto da mulher cuja bolsa foi afanada.

Era o rostinho mais triste do mundo. Queria ter mil pirulitos comigo só pra descer e dar tudo pra ela. Ou que fosse um só, que tenho certeza, ela já curtiria. Mas o semáforo afinal abriu. E quando virei a esquina, ela ainda estava andando, chorando, arrasada, a carinha torcida de dor. Porque o mundo pode ser feliz no geral, mas às vezes, nos detalhes, o mundo sabe ser um maldito pirulito perdido no chão.




Fla Wonka às 08:45 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold