segunda-feira, 9 de junho de 2008

E pra sua avó também

Por muitas vezes a gente pensa que, por ter nascido na era que conta com os games, os iPods, as TVs de plasma e os descascadores de alimentos, temos o melhor de tudo. A gente pensa também que nenhuma fase do cinema foi tão divertida, bacana e cabeça como a nossa – mesmo vendo as telas recheadas com a vigésima continuação de “Jogos Mortais”. A gente pensa, inclusive, que os filmes antigos “até que são legaizinhos”, mas que servem muito mais para as nossas mães e avós. A gente devia pensar melhor.

É uma opinião pessoal, mas na lista dos cinco filmes mais engraçados de todos os tempos deve estar “Quanto Mais Quente Melhor” (1959). As interpretações de Tony Curtis e Jack Lemmon não têm preço – e devem deixar os ditos atores-comediantes de hoje com a bocarra aberta.

Como épico, cá pra nós, é interessante ver “Gladiador”, “Coração Valente”. Mas e “... E o Vento Levou” (1939, quase 70 anos!)? É, talvez, o maior épico de todos. História da guerra civil norte-americada, misturada com a personalidade das sulistas mimadas, salpicada com cenários nunca imaginados e as quase quatro horas de duração que avalizam um épico. É ver Scarlett e se entregar à ela. E não é só com a sua vovó que isso acontece, vá por mim.

Outro dia o feliz canal TCM me presenteou com a exibição de “Um Bonde Chamado Desejo” (1951, mas poderia ser de hoje de manhã). Tinha a Scarlett como Blanche DuBois – porque a Vivien Leigh é capaz de passar de moreninha doida e atrevida à loirinha doida e delicada numa claquete. Tinha o melhor Marlon Brando de todos. Tinha uma única locação, a casa dos Kowalski. Tinha diálogos exímios e uma história que você fica pagando pra ver onde vai dar. E como se dá mal, ave.

Nos filmes chamados antigos, não há aquela necessidade de efeitos. Bom, também os maiores efeitos que eles tinham era pendurar discos voadores no fio de nylon ou brincar com a iluminação... Então era preciso escrever muito bem, atuar muito bem, ser mestre de edição e juntar aquilo tudo com maestria.

Por isso os diretores eram considerados gênios. Em “À Sombra de uma Dúvida” (1943), o mote é que o Tio Charlie chega na cidadezinha da sobrinha – também chamada Charlie, em homenagem – para passar uma longa visita. Com o tempo, a menina baba-ovo começa a notar que... bem, talvez o Tio Charlie seja um assassino de viúvas. Esse “é/ não é”, “conta/ não conta”, “mata/ não mata” de Alfred Hitchcock vai até a última cena.

Não passei nervoso parecido em qualquer filme atual. Em “À Sombra de uma Dúvida” quase tive que morder o braço do sofá, tamanha aflição. Se é filme de vovó, essas velhotas devem ter coração de aço.

Filmes desse tipo, PB, com trilha instrumental permanente e aqueles finais em corte seco – não precisava ficar usando grua e plano infinito, a história era o mais importante, então acabou, acabou! – recheiam uma tarde inteira. E depois ficam na cabeça, martelando suas frases marcantes, seus dramas éticos politicamente incorretos, suas histórias emblemáticas. Não é coisa de vovó. E a gente não merece ficar só com os remakes, vai?


Stanley era um vadio miserável.
Sorte dele ser também o melhor Brando de todos

Fla Wonka às 09:15 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold