quinta-feira, 22 de maio de 2008

O ócio deve ser criativo – e permitido

Às vezes sinto que deveria me candidatar a algum cargo público. Não tenho a pretensão de achar que posso resolver a fome no país ou riscar do mapa, de vez, estes traficantes filhos de uma égua. Talvez minha contribuição seja mais eficaz no âmbito da rotina classe média. Alguém me apóia se eu virar senadora e instituir um dia de "Folga Oficial"?

O raciocínio sobre essa medida não é complexo (pelo menos não para quem é empregado... já criaturas com cargo de gerente ou mais costumam ter dificuldade para entender a teoria). Eu penso que, além de mim, muita gente já inventou dor de cabeça, de barriga, dentista ou morte da vó para faltar um dia no trabalho. É uma situação ridícula que não deveríamos ter que protagonizar sendo adultos.

Quando se é criança, dizer para a mãe que a garganta está "pegando" pra matar dia de aula é natural. Bom, garganta é sempre vermelha, e se o moleque for bem no fingimento, engana fácil. Já depois dos 20 anos é ato extremamente vexatório ligar pro escritório e dizer, com voz embargada, que "a cunhada da minha prima prendeu o dedo numa gaveta, o tal gangrenou, está super dolorido, ela pode perder a unha a qualquer momento, eu preciso dar força pra minha prima". Eu morro de vergonha.

Então, seria mais aceitável acabar com essa besteirada e partir logo para a regularização do "cambal". Como senadora Flá, minha proposta seria: todo proletário teria direito a um dia por mês de folga total destinada ao que lhe der na telha.

Se o cidadão está com a cota de paciência estourada e quer ficar um dia todo vendo tv, basta dizer ao chefe: "Teixeira, amanhã vou usar minha FO (Folga Oficial) e ficar em casa vendo novelas bestas e programas de auditório. Valeu." Nada de inventar desculpa ou simular uma terrível Virose Letal dos Andes. Seria direito instituído, sem espaço para delongas.

Deu vontade de visitar uma tia, ir ao cinema na sessão das 15h00, bater um bolo de chocolate e chamar amigos para comer? Use a FO. Sempre quis passar uma tarde no shopping ou no parque para ver como os ricos levam a vida? Lance mão da FO. Deu na veneta de aprender a montar ikebana? Não precisa mais inventar consulta no oftalmologista dilatador de pupilas. Use a FO e diga ao chefe um belo "não gostou, pega eu".

Pode parecer – para os supracitados cargos de gerente ou mais – que isso não passa de artimanha contraproducente. Não é. Estou carequíssima de ver pessoas desmotivadas enrolando com os afazeres enquanto jogam Tetris ou visitam site de mapa astral. Em vez dessa moçada perder tempo fingindo produzir, não seria melhor dispensá-los 1 dia em 30 para serem felizes? Isso não é uma forma de motivar o sujeito, mostrando que lhe é permitido ter vida após o trabalho?

Esta senadora fajuta e pretensiosa aqui pensa que sim. Eu até poderia desenvolver melhor a proposta e procurar um político já estabelecido para me ajudar a colocá-la em prática. O diabo é que, para fazer isso, preciso de um dia de folga. E ninguém mais cai nas minhas desculpas mentirosas...


Este texto é uma reedição. Não que a Flá tenha requisitado uma "FO". É que ela está cuidando de pessoas convalescentes e, a cada vez que tenta vir escrever, é convocada a levar mais um chá, mais um comprimido, mais uma tijela de sopa. Acontece. E sempre no feriado... Mas ela deseja que todos aproveitem o descanso e avisa que, na segunda, volta a ser inédita.


Fla Wonka às 08:59 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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· Flá Wonka
· Vivi Griswold