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Daquilo que eu li Dolores Haze, Venceslau Pietro Pietra, Clarissa Dalloway, Marcelo, Hercule Poirot, Tom Joad, Gregor Samsa. Todos já foram meus grandes companheiros por algumas semanas e, embora não os encontre mais, sei que eles ainda estão por aqui. Não vá pensar, caro leitor, que minha casa seja assombrada por antigos moradores que já esticaram as canelas, como naqueles filmes de terror. Essa turma, na verdade, apenas protagonizou as grandes histórias de livros que eu li. E hoje sou um pouquinho de cada um deles – afinal, todo mundo fica sendo um pouco do que leu. Minha relação com os livros vai longe. Quando eu era pequena, logo me vi fascinada por aquelas misteriosas brochuras que minha mãe e meu pai recebiam todo mês, com um carimbo de um tal Círculo do Livro. “Ah, então é um clubinho? Pois também quero participar já!”, devo ter pensado. Assim, eles me incluíram na brincadeira e comecei a receber meus próprios livros. Foi nessa época que conheci o Marcelo. Ou Marmelo. Ou Martelo. O garoto genial saiu da não menos impressionante imaginação de Ruth Rocha, que assina o livro “Marcelo Marmelo Martelo e Outras Histórias”. Muito do perguntador, o rapazote decide questionar seus pais sobre a razão das coisas se chamarem assim, como chamam. Para ele, é inacreditável que “colher” se chame “colher”. Devia chamar, antes, “mexedorzinho”, oras! Eu até dava razão para o Marcelo, até que ele descobre a importância das palavras serem entendidas por todo mundo. Quando eu tinha nove anos, peguei coqueluche. É uma daquelas doenças muito populares entre crianças, que a gente pega uma vez na vida, tipo sarampo ou catapora. Passei trinta dias de molho – e devo confessar que não foi nada ruim. Como eu era muito boazinha e aplicada, minha professora da terceira série repetiu as notas que eu tinha alcançado nos testes do mês anterior para as provas daquele mês. Em casa, minha mãe me enchia de cuidados e meu pai coroou tudo me trazendo um livro por dia. Foi a glória para uma devoradora de histórias como eu. Minha pequena biblioteca aumentou consideravelmente. Naqueles tempos eu me lembro de ter lido “Bem do Seu Tamanho”, “Bisa Bia, Bisa Bel” e “Tininho, o Folgado”, entre outras inúmeras pérolas. Como eu sabia que à noite vinha outro livrinho, atacava as páginas do presente do dia anterior sem dó nem piedade. Não precisava fazer economia. Já mais velha, sem a mamata de um livro por dia, me vi forçada a economizar certas histórias às quais eu me apegava muito. Sim, porque, como todo bom leitor, quando passo os olhos pelas páginas de um livro sou capaz de embarcar por completo na trama. E ela nem precisa ser um primor de literatura, não: chorei por semanas quando venci os quatro volumes de “As Brumas de Avalon” e tive saudades de Gregório de Mattos ao fechar “Boca do Inferno”. Alguns livros já me diziam de cara que o fim seria duro. Já com outros foi surpreendente. Comecei “Mrs. Dalloway” umas quatro vezes, mas não engatava. Com os anos de experiência – provida também pelas leituras obrigatórias da escola – percebi que não era o momento. Quando fosse, eu engataria na leitura sem problemas. Afinal, é melhor esperar um pouco e saborear de fato um clássico do que enfiá-lo goela abaixo e ganhar um trauma. Assim, finalmente mandei “Mrs. Dalloway” numa talagada só – isso até perceber que o macinho de páginas acomodado na minha mão esquerda estava bem gordo, enquanto que o restante, na mão direita, parecia mais fino que meu dedinho. Pronto. Foi a deixa para começar a economizar na leitura, tentando fazer com que minha xará Clarissa passasse o maior tempo possível comigo antes do fim. Com “Macunaíma”, hoje meu livro favorito escrito na língua pátria, foi a mesma história. Por isso que eu digo: é bom respeitar o tempo de cada obra, mas tão importante quanto é insistir. Imagina se eu ia suportar viver sem conhecer a história do grande herói brasileiro, entrecortada por lendas desse Brasilzão afora? E do gigante comedor de gente Piaimã, que se disfarçava no ilustre industriário Venceslau Pietro Pietra e morava na rua Maranhão? Toda vez que passo ali pela região do Pacaembu e cruzo a tal rua, não consigo evitar de imaginar qual delas seria a casa do gigante. Esse é, ao mesmo tempo, minha glória e meu problema com os livros. Eu me envolvo demais. Sabe aquelas pessoas que comentam os lances da novela como se conhecessem as personagens, tipo “Menina, você viu o que a safada da Lurdinha fez com o Luiz Cláudio ontem”? Pois é. Fico assim besta com livros. Tanto que, ao terminar “Lolita”, senti falta da companhia de Dolores por quase um mês. É o tipo de livro que faz você querer cortar os pulsos – e reler tudo de novo depois. Estranho... Mesmo assim, garanto que a viagem vale a pena. Sempre.
E ainda é um dos meus livros favoritos A quem interessar possa, (ainda) tem aqui uma lista aqui dos personagens citados no começo do texto, os livros dos quais fazem parte e seus autores imortais. * Este texto é uma reedição. Clara está tentando salvar sua biblioteca de um ataque de traças da Tanzânia, mas prometeu que na terça reaparece. Clara McFly às 10:10 AM |
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