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Estranhas famílias Hoje a gente se acostumou a ver famílias com dois pais, famílias com duas mães e família com dois pais E duas mães. Tem família com filhos, enteados e a vovó que mora junto na casa. Tem famílias em que os avós é que são pais. E família em que os filhos é que cuidam dos pais. Mas talvez a família mais exótica ainda seja aquela com pai, mãe e filhos. É que essas têm umas esquisitices que saltam aos olhos. A primeira delas diz respeito... bom, ao respeito. O que se vê de moleque e menina tratando pai e mãe feito pano de chão e saco de lixo, não está no gibi. E nem precisa ser adolescente – que esses até se entende, dada a ebulição de hormônios e as músicas que escutam. São uns toquinhos de gente mandando em todo o clã, definindo a programação, datas e horários. Ninguém tem coragem de ir contra a vontade do pequeno tirano. E o que se vê é um trocinho dando escândalo no corredor do shopping, arremessando comida longe, agredindo brinquedos indefesos. A mãe fica constrangida, o pai faz cara de pastel e todos ficam ali, paralisados pelos desmandos de um pivete que nem sabe soletrar Backyardigans – mas que quer dois desses, o pingüim e a hipopótama, e se não ganhar se atira no chão da loja. Outra coisa estranhíssima nas famílias tradicionais é o uso da força bruta. O pai aperta o braço do menino no meio dos transeuntes e quase arranca o membro em questão. E isso sempre acontece por causa de uma gotícula de sorvete no shorts, por causa de um “posso ir no banheiro?” a mais, por causa de uma recusa ao macarrão. Pai que bate em criança é, além de cruel, muito burro. Porque, convenhamos: se adiantasse, todos nós teríamos apanhado uma vez só e aprendido para todo o sempre. Se é dado o tapão para ensinar o certo, esqueça, porque não rola. A consciência vai embora junto com o ardido no lombo. A terceira esquisitice, me perdoem, mas é pior do que o desrespeito mútuo e a troca de sopapos. E olha que nem envolve gritos, agressões ou palavras de baixo calão. Envolve só uma alta dose de alienação mesmo. Toda vez que almoçamos fora no sábado ou no domingo – repito, toda vez – há uma mesa composta do papai bacanoso, da mamãe empertigada e de um ou dois pimpolhos fofinhos. Na quinta cadeira, uma moça de branco. Ela mal come, ela não participa da conversa. Seu trabalho é entreter a molecada – controlar seu apetite, limpar babas de comida e coca, correr atrás do pequeno pelo restaurante, embalar seu sono. Até papear com ele e desenhar letras num papel, é trabalho da mocinha de branco. Caramba, é fim de semana. Não é que os pais estejam trabalhando ou ocupados, eles saíram pra comer fora. Se divertir, portanto. E nem nessa hora frugal os tipos são capazes de prover, zelar e acarinhar seus próprios filhos. Eu acho muito, muito estranho. Se a mesa de almoço fosse composta por duas drag queens, um alce, cinco marcianos e sete anões, nem assim me causaria tanto espanto. As famílias de hoje podem, de fato, ser muito esquisitas.
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