quinta-feira, 8 de maio de 2008

Boca de siri

Da infância pra cá, eu acho que mudei muito. Muito mesmo (e nem estou falando da substituição dos óculos azuis de coruja por outros mais bonitos ou da abolição do aparelho fixo). Fiquei mais sarrista, mais valentona, mais caxias, mais fresca... A única coisa que nunca mudou, talvez, seja a completa aversão a ficar de boca fechada. Tinha algo novo e bacana acontecendo, eu queria logo contar! E que sofrível era – e ainda é – ouvir “mas não fala nada pra ninguém”.

Sempre foi uma teoria familiar que olho-gordo existia. Existia e podia acabar com a sua vida. Então a gente marcava férias e eu queria logo ir dizer para as minhas amiguinhas, contar onde ia passear e que – aimeudeusdocéu – eu ia dormir em hotel! Mas cadê que deixavam? Era para guardar segredo. Não conte, que não é pra todo mundo saber.

Todo mundo? Mas eu só queria dividir com umas duas meninas algo de muito bom! O que elas poderiam fazer, ligar para o Rio Grande do Sul e mandar nos bloquear na estrada que leva à Serra Gaúcha? Eu nunca acreditei em olho-gordo. Ou, pelo menos, nunca acreditei que ele pegaria em mim por compartilhar boas notícias.

Ganhávamos um vídeo-cassete: boca de siri, não era pra sair falando na rua; O pai recebia promoção: fecha o bico, ninguém tem que saber a hierarquia profissional da família; Minha avó caía no caminho da feira e ralava joelho, queixo e testa: ai, já contou pra suas amigas? Pode contar, claro!

Não me entendam mal, os membros da minha família são gentis, simpáticos e de mente aberta. Mas acho que todo núcleo é assim: dividir coisa boa pode atrair mal-olhado, mas dividir coisa ruim é permitido. Quem iria invejar o curativo da minha vó, né?

O problema era esse, ser alvo de inveja e ser mal interpretado, visto como esnobe ou contador de vantagem. Porém, eu penso que se você não confia em certo indivíduo para lhe contar uma grata novidade, acreditando que ele entenda e vibre junto, ele não é seu amigo real. E não devia saber de qualquer coisa, boa ou ruim. Não devia nem mesmo constar na sua agenda. Se é amigo, é pra saber de tudo.

Assim que marco a passagem, quero dizer aonde vou. Assim que consigo comprar um vestido, quero mostrar. Assim que recebo uma grana há muito esperada, conto mesmo, finalmente saí do vermelho! Que mal há nisso? Olho-gordo? Ora, por favor... Eu posso usar um colírio diet.

O medo de ser o centro de conversas é que faz as pessoas ficarem cismadas em contar suas boas novas. Eu não cismo. Se é mesmo boa e é mesmo nova, acho bom participar à quem me importa – e eles usem a informação como bem quiserem, eu confio. Afinal, minha boca nunca foi de siri. Mas pretendo comer vários deles na minha viagem daqui uns dias. Não contei? Ah, não era para dizer a ninguém... Então não bote olho-gordo, tá?




Fla Wonka às 09:22 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold