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Ça va? Eu estou em coma Quando minha mãe achou que já era bem hora de aprender inglês direito – pois as aulas da escola regular não passavam de um safado verbo “to be” –, eu contava uns 10 anos. Fui matriculada em uma instituição de preço mediano e ensino um pouquinho abaixo disso (que eu não vou dizer o nome, mas era o Fisk). Foram cerca de 18 meses de aulas. Foi tudo o que agüentei. Eu simplesmente odiava aprender inglês e os métodos ali eram pra lá de modorrentos. Hoje eu falo a língua bretã como o Tarzan, mas até que me viro. E para não me ver jogada para trás no mundo dos idiomas, decidi recentemente tomar aulas de francês. E me sinto, toda quarta das 11h ao 12h, como uma garota em coma. Com o inglês, tudo aconteceu por magia depois que larguei o cursinho miserável. Com a necessidade de passar em testes da língua na escola e também de encará-la no vestibular, acabei estudando em casa os livros que me deram. Passada a provação, o inglês de repente se tornou mais necessário ainda, na faculdade, nos empregos e tudo o mais. Aprendi na raça. Acho que foram os filmes de Hollywood e as músicas que eu procurava traduzir para ter certeza de que não estava cantando, sei lá, “eu quero ser sua escrava sexual-al-al-al”. De 0 a 10, chuto que meu inglês é 6,5 – está na média, eu passo enganando bem. Já com o francês, não é igual. Tudo o que eu sabia dele quando comecei as aulas era falar abajur, croissant, chofer, buffet e citar toda a história da linda Paris. Tudo o que eu sei agora é que é mais parecido com o português do que eu pensava. E que aprender os números é uma tarefa inglória. O 90 é “quatre-vingt dix”. Sim, tem que multiplicar e somar pra chegar no 90. E eu pensando que tinha me inscrito para francês, não para matemática. Minha querida professora, Lenira, tem uma paciência du diable. E sabe usar sua principal técnica de ensino: ela elogia. No primeiro dia, na primeira meia hora, ela me fez ler um texto. Quando terminei, ela desatou a elogiar – trés bien, Flaviá!. Disse que minha pronúncia é excelente. Como poderia? Tá lembrada? “Abajur, croissant, chofer, buffet e Paris”! Só! Creditei essa tal “facilidade” na conta da minha mãe. Desde que eu era menininha, ela treinava em voz alta o francês que aprendeu no curso de normalista. Além disso, quando a TV Cultura lançou aquele cursinho televisivo de francês, lá estava minha mãe ouvindo que “la fille travaille à la boulangerie”. Era engraçado ficar escutando. Acho que, daí, aprendi a exagerar os Rs e não ter vergonha do biquinho. Porque, sim, o biquinho é essencial. Não dá pra falar francês sem biquinho. “Uma” se diz “une”. Não une, “iúne”. Vai, na fé: “iúúúúne tarte au citron”. É vergonhoso? Ué, quem quer passar além da Champagne tem que passar além da dor. Além da pronúncia, descobri que eu guardo logo o vocabulário. Já posso trocar fácil as palavras-chave de uma sentença por outras que aprendi em francês. E aí, dá vontade de ir ao correio só para pedir “un carnet de timbres”. Apesar de eu não usar selos há uma década. A parte que eu ainda não gosto é que, ouvindo, sei absolutamente tudo o que a professora está dizendo. Entendo os vídeos que ela mostra, as músicas que escuto, as conversas que o namorido, aquele maldito ás do francês, trava comigo no café da manhã. Entendo tudo, mas não sei responder na-da. Rien de rien. Fico me sentindo como uma paciente em coma, escutando os outros falarem e não conseguindo nem balbuciar “eu quero melão”. É revoltante. Mas hora dessas eu pego mais uns verbos, monto umas frases-padrão e saio por aí com a minha cara-de-pau. Foi ela que me ajudou a ser 6,5 no inglês. Será ela a me ajudar a fazer melhor com o francês. |
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