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Ases do estorvo Eu gosto de gente. Juro, gosto mesmo – a despeito de tudo o que essa raça pode fazer, é quase um instinto gostar de gente. A primeira reação é sempre dizer “ah, vá, coitado... acho que ele não quis amolar/incomodar/aborrecer ninguém”. Mas às vezes é preciso admitir que, sim, algumas pessoas querem mesmo, deliberadamente, amolar/incomodar/aborrecer outrem. Quem compra uma moto daquelas que simulam barulho de trovão, por exemplo. Não é apenas um amante das duas rodas, é alguém que acha mesmo legal acelerar a coisa no talo e matar velhinhos do coração. O ruído do escapamento é tal que faz tremer o teto da garagem – mas não fica concentrado dentro dela. Eles saem pelas ruas espalhando um rugido de doer o pensamento. Podiam ter uma moto simplesinha, daquelas lambretas fofas? Não, precisam ter o acessório do “Easy Ryder” em meio às suas pernas. Quem compra uma motocicleta assim não quer só furar o tráfego ou sentir o vento no rosto; quer mostrar para a vizinhança toda – quiçá toda a Zona Sul – o poder de seu escapamento rosnador. É como a moleca que ouve música no volume 23 (na escala de 0 a 25). Ela liga se os demais humanos querem conversar, assistir filme ou, sei lá, num momento de piração... dormir? Liga nada. Dormir é coisa de velho, ela decreta. E lá vai o prédio inteiro ser embalado pelo timbre suave do Marylin Manson. Se reclamarem, ela toca pro nível 24 – e só depois é que abaixa, contrariada. No dia seguinte, podem esperar pelo pior. Como um “Ivete Sangalo – Ao Vivo” ou “The Best of Celine Dion”, talvez. Não dá para gostar de gente que estaciona carro na frente da garagem alheia. Não dá para gostar de gente que chuta a poltrona da frente no cinema; Não dá para gostar de gente que acha que “bagagem de mão” quer dizer “mala de 20 quilos que entope o corretor da aeronave”. Às vezes, não dá nem para gostar de gente boazinha e religiosa. Porque, em alguns cultos, o sujeito quer falar com Deus – mas O trata como a Velha Surda da “Praça é Nossa”. Tá louco, hora dessas o Criador vai descer aqui só para pedir que falem mais baixo. Cantam e tocam o órgão tão alto que são capazes de fazer um bairro inteiro virar ateu. E isso Deus não vai perdoar... É duro ser compreensivo quando parece que o outro não dá a mínima para os seus direitos. E depois que algum abjeto inventou “os incomodados que se mudem”, aí os ases do estorvo se sentiram protegidos por lei. Por isso fica sempre mais difícil gostar de gente. Tomara que o instinto siga falando mais alto – mesmo quando o próximo escapamento de moto passar por aqui. |
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