quarta-feira, 23 de abril de 2008

Sem licença para dirigir

Vai daí que a pessoa cansada de acordar em horário indigno e mofar em transporte público para chegar no horário ao trabalho em outra cidade decidiu, enfim, comprar um carro. E, mais surpreendente do que ceder pela primeira vez à tentação de quatro rodas, direção hidráulica, câmbio automático, ar condicionado e tocador de iPod depois de mais de uma década de seu aniversário de 18 anos, a pessoa saiu daquele mesmo dia da concessionária como orgulhosa proprietária das chaves de um possante vermelhinho bem bonitão. Só faltava um detalhe. A carteira de motorista.

Como eu contei aqui, eu enrolei demais para tirar minha carteira de motorista. Foi só com uns 22 anos e sob muita pressão materna. Após o recebimento do documento, porém, nunca mais peguei num carro. E pretendia não pegar, até que veio a mudança para um país que dificulta um pouco o uso de coletivos (a não ser que você more em Nova York, com uma estação de metrô por esquina, praticamente), e a oferta para trabalhar em uma empresa bem longe de casa. Empurrei o máximo possível a decisão mas, enfim, me dei por vencida. Só que minha carteira brasileira, aquela, também estava vencida, e há anos. E minha carteira californiana (sim, aqui o lance é por estado), ainda era inexistente. Ou melhor, ainda é.

O processo de tirar carteira nos Estados Unidos é bem burro. Por exemplo, você não pode comprar carro sem documento (obrigada namorido por ser co-proprietário do possante); mas, para tirar o documento, você precisa de carro. Por aqui não é costume ter esses zilhões de auto-escolas como é no Brasil. Também não tem carro de auto-escola pra você ralar nas calçadas da vida. Aqui é tudo com o seu carro - o seu, ou o da sua mãe.

Bem, voltando ao processo. O primeiro passo é adquirir uma cópia do livrinho que ensina as normas de trânsito do estado onde você mora. Os californianos aí tem um plus a mais, uma vez que têm o prazer de dar de cara com o Governator, Arnold Schwarzenegger, e sua mensagem de boas vindas às ruas, avenidas e estradas do Estado Dourado. Se o seu sistema for nervoso, é capaz que nem consiga ir adiante. Mas é preciso persistir.

O livrinho é muito bem escrito e explicadinho e tals, mas conta com umas passagens hilárias. Tipo: ele ensina que se um cego estiver atravessando a rua, o motorista não deve chegar bem pertinho dele e buzinar. Ah, jura? Também, segundo o livrinho, é proibido portar armas de fogo e atirar de dentro do veículo, bem como é proibido soltar animais vivos nas estradas. Ainda bem que ele avisou, ufa.

Depois de decorar todos esses detalhes, o aspirante a motorista vai lá no Detran (que aqui é chamado DMV) fazer a provinha escrita. Ouvi muita gente dizer que a tal provinha era bem chata, mas para mim até que foi tranquila. Ok, no dia anterior eu fiz umas provas-testes no site do DMV e na prova para valer caíram muitas perguntas parecidas e de que eu já sabia a resposta. Quem mandou ser preparada.

Uma vez aprovada na prova escrita, eles me deram um papelzinho que funciona como uma licença provisória. Com ele, eu posso sair dirigindo por aí, desde que acompanhada por uma segunda pessoa maior de 18 anos com carteira que pode tomar o controle do veículo em caso de eu me enfiar num rio ou quiser dar um cavalo de pau na auto-estrada durante a hora do rush.

Com o papelzinho em mãos, comecei a treinar para a prova prática. Aprendi todos os controles do carro. Relembrei como é que se dirige, o que, com carro automático, é a coisa mais fácil do mundo (adeus, embreagem, não volte nunca mais e nem me escreva). Segundo namorido, fiz alguns progressos. Por exemplo, no segundo fim-de-semana, soube que saí no nível "velha chinesa". Desculpem os leitores de origem chinesa ou os PCs da vida: venham morar aqui para vocês verem como velhas chinesas dirigem nesta terra de meu deus.

Depois de muito praticar, chegou o dia da prova. É assim: você chega com o seu carro, fica na fila. Vem o examinador (no caso, uma examinadora, chinesa - já vi que estava ferrada) e, de fora do carro, pede para você fazer coisas básicas tipo dar seta para a esquerda, seta para a direita, pisar no freio, etc. Daí o examinador (já falei que a minha era chinesa?) entra no carro e pede pra você mostrar onde é que liga o farol, o limpador de pára-brisa, etc. Depois dessa lenga-lenga, finalmente pedem que você saia com carro.

Tudo ia muito bem, no meu caso. A examinadora não dava um pio além de instruções secas como "vire à direita" ou "encoste e dê ré". Quando vi que estávamos voltando ao prédio do DMV, já estava toda contente por saber que minha carteira estava garantida. Até que, ao entrar no prédio virando à esquerda, eu não dei a preferência a um carro que vinha ao longe. A chinesa teve um chilique e me reprovou. Vou precisar fazer o teste de novo (e de novo, de novo, até sabe-se lá quando).

Ou seja, depois de todo este processo - que renderam os 10 parágrafos acima - eu continuo sem licença para dirigir.

* * * * * *

Muito prazer, eu sou a Vivi
Eu sei que depois de todo este tempo afastada você até esqueceu que existe uma terceira garota por aqui. A ruiva pede desculpas mas avisa que a costura anda apertada com tendência a mais apertos no decorrer do período, e que ela vai aparecendo quando lhe for humanamente possível. Ou, se você souber onde eu consigo um clone meu, tamos aí.

Vivi Griswold às 08:17 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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