terça-feira, 22 de abril de 2008

Folha amarela

Quem tem irmãos ou convive com gente pequena deve saber: crianças são capazes de inventar as brincadeiras mais nonsenses da paróquia. E o legal é que, apesar do amplo repertório comum – com jogos do tipo esconde-esconde, taco, chá de bonecas e afins – toda criança teve suas brincadeiras particulares. Como as minhas com o João.

Como vocês sabem, o João nasceu quando eu tinha cinco anos e era a estrela da casa. Foi duro ter de dividir o posto com um bebê que parecia um queijo branco. Mas quando comecei a perceber que ele fazia quase tudo que eu mandava, ficou mais fácil. E aí começamos a inventar as brincadeiras mais malucas.

Uma delas era a Folha Amarela. Um impedia a passagem do outro e falava “folha amarela”. Então, o impedido de passar tinha de adivinhar a cor que o outro estava pensando. O legal é que não tinha nenhum policiamento. Eu podia pensar em vermelho e, no momento em que ele chutasse vermelho, podia mudar mentalmente minha cor de escolha para, sei lá, verde água. Mas nós éramos honestos!

Quando todas as cores se esgotaram, começamos a inventar umas. E cor-de-burro-quando-foge passou a ser uma opção.

Qual a graça de ficar minutos a fio tentando adivinhar a cor que o outro está pensando? Sabe Deus.

Mais divertido era o famoso Olhando Bem de Perto, Você Parece..., que consistia em olhar a cara do outro bem de pertinho e determinar: “olhando bem de perto, você parece um... mangusto”. O truque era arrumar tantos bichos exóticos quanto possíveis: um texugo, um gnu, uma lagartixa, um besouro. Segredinho? Esse eu fazia com o João até bem pouco tempo atrás.

Mas a brincadeira bizarra da minha infância, por excelência, era o Isquidum. Não tenho a mais vaga idéia de como isso surgiu. Só sei que a gente virava um pro outro e falava:
- Vamos brincar de isquidum?
- Vamos.

Então nos dirigíamos silenciosamente para o quarto da minha mãe, em cujo guarda-roupa ficavam todos os cobertores e edredons da casa. Abríamos a portona pesada, pegávamos todos os cobertores, dividíamos. Aí, cada um pegava sua pilha de mantas, abria, punha nas costas. Feito ermitões.

O passo seguinte era darmos uma volta completa pela casa – saíamos pelo corredor enrolados naquela estranha combinação de xadrez Parahyba, retalhos e acolchoados; passávamos pelo nosso quarto, escada, sala, cozinha (e minha mãe continuava cozinhando, como se nada estivesse acontecendo); escada de novo e corredor para terminar o tour no mesmo local onde começamos, o quarto da minha mãe.

E aí, a glória: subíamos na cama dela, jogávamos todos os cobertores pelos ares e, repentinamente, começávamos a sambar e cantar alegremente: “isquidum-dum-dum, isquidum-dum-dum, isquidum-dum-dum”.

Explicação? Até hoje não achei. Mas são memórias inexplicáveis que ainda me fazem sorrir.

* * * * * *

Que burrica!

Acreditem se quiser, mas este texto estava pronto desde o feriado. Fiz, salvei no computador de casa e hoje, crente que era segunda, acordei feliz e fui trabalhar.

Só me toquei de que hoje *já era terça* lá pelas seis da tarde, com a ajuda de Flá. Tive um ataque de riso, ela outro. E aqui está o texto.


Clara McFly às 07:53 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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