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Só com a letra em punho Quando “Faroeste Caboclo” começou a martelar nas rádios lá por 1987, eu era pouco mais que uma menininha. Mesmo assim (e dada a curiosidade para saber o que se escondia atrás do “pii” que a 89FM colocava sobre certas palavras da canção), corri pedir emprestado o LP da minha prima. Queria decorar a letra da música inteira. Nem preciso dizer que levou uns quatro dias de agulha indo e voltando naquela primeira faixa do lado B para captar nove minutos de verso cantado. Como o Renato Russo conseguia? Imagino que esses vocalistas passam todas as viagens de ônibus ou avião de fones alojados no ouvido para decorar suas próprias canções. Michael Stipe, por sua vez, devia preferir dormir nos trajetos da turnê do REM. Porque quando ele cantava “It’s the End of the World As We Know It”, ah, ele lia no papel sim, que eu já vi. Tô com ele: são quatro minutos de estrofes sem ponto ou vírgula. Daria câimbra no cérebro pensar tão rápido. Melhor dar câimbra só na língua. Em sendo vocalista de banda, eu evitaria ainda ter que cantar, de cabeça, “Route 66” e aquele punhado de cidades (se esquecer de uma, o povo local se melindra, sabe como é...). Também não adiantaria gritar da platéia pra que eu cantasse “Cinema”. Ice MC, aposto, só fazia playback da canção, porque não tinha memória disponível para nominar nada menos do que 40 estrelas em seqüência – 39 sem contar ele mesmo, vá. O problema dessas letras complexas é que o sujeito escreve de engraçadinho, querendo se fazer de esperto, e depois passa a vida tentando se livrar do carma de ter que cantá-las em público. Ou você acha que Freddy Mercury adorava de paixão dissecar “Bohemian Rhapsody” ao microfone? Ah, por favor, é uma epopéia de seis minutos em forma de música que não repete um verso sequer. Aliás, em forma de rapsódia – ópera mesmo – que ser simplista não era o forte do Freddy. Se bem que, eu vou dizer: quando a gente finalmente consegue decorar os versinhos e cantar tal e qual o dono da canção, é um orgulho só. Juro que, uma vez, eu consegui acompanhar Bob Dylan em “Hurricane”. Nove minutos da história completa de Rubin Carter! Quase o mesmo tempo que usei para entoar, junto com Renato, a história do Santo Cristo. Só que eu precisei esquecer parte da minha infância para decorar tanta coisa. Vocalista de letra longa sofre... Esta é “The History of Everything”, do Barenaked Ladies. Contar a formação do Universo em 2 minutos usando palavras como “australopithecus” é de tirar o chapéu, não? Pra cantar junto, basta baixar a letra em qualquer canto... e treinar por umas duas semanas Fla Wonka às 09:22 AM |
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