sexta-feira, 28 de março de 2008

O estranho caso da endoscopia

Há algumas semanas eu fui ao gastroenterologista. Eu odeio essa palavra, gastroenterologista. É o tipo de palavra que eu nunca sei se estou falando direito. Mas, depois dos 30, você começa a ter de lidar com coisas deste tipo. E com coisas piores, como o gastroenterologista pedir uma endoscopia. Foi o que aconteceu comigo. E terça eu estava lá, pronta para ter um tubo enfiado goela abaixo pela primeira vez.

Devidamente acompanhada de minha irmã, cheguei ao laboratório com as exigidas 10 horas de jejum. Nada, não podia tomar nem uma agüinha. E, por piada do destino, tinha um restaurante ao lado do laboratório. 9 da manhã, eu há 10 horas sem comer e o cheiro de frango assado enchendo o lugar. Ótimo.

Esperei alguns minutos, detestando o clima de laboratório. Não confio em lugares antissépticos. Para consolo, me agarrava no testemunho de quem já tinha feito a bagaça antes: todos me disseram que o sedativo, aplicado pouco antes da perscrutação, dava o maior baratinho. Até que me chamaram e eu entrei na salinha com duas médicas. Uma delas disse que eu parecia um... desenho japonês. Fiquei pensando se eu já estava sedada e não sabia.

Mandaram eu me deitar na maca. Espirraram um negócio amargo na minha garganta e ela simplesmente desapareceu. Eu disse a uma das médicas que não estava mais sentindo a minha garganta. Ela respondeu: “ah, isso é normal. Quer um papelzinho, para o caso de você babar?”. E eu me perguntava em que mundo esse tipo de diálogo era normal.

A outra chegou perto de mim e explicou que ia aplicar o sedativo na veia. Eu falei “tudo bem se eu olhar para o outro lado?”. Ela riu e perguntou se eu tinha medo de injeção. Eu pensei se *ela* é que estava sedada, porque se eu queria olhar pro outro lado, só podia ser porque eu tinha medo de injeção.

Senti amarrarem a famigerada borracha no meu braço. As duas conversavam animada e indignadamente sobre um paciente que chegara uma hora e meia atrasado e ainda queria ser atendido. “Diz que está rodando a baiana lá na recepção”. Será que *ele* é que estava sedado? Meu Deus, eu não sabia de mais nada!

Só continuava lá, com o bracinho esticado, abrindo e fechando a mão, como me recomendaram. Até que ela, a médica da injeção, me disse “já acabou”. E eu: “ah, você já tirou a agulha?”. E ela: “não, a agulha tem que ficar até o final do procedimento, por isso você não pode dobrar o braço”. Eu: “tenho certeza que vou me esquecer disso”. Ela: “eu vou te ajudar a lembrar”, e me virou de lado na maca.

(...)

Não sei quanto tempo depois, acordei deitada em uma poltrona já em outra sala. Minha irmã, sentada à minha frente, explicava pormenorizadamente a um tiozinho desconhecido como fazer a técnica do cujo-nome-esqueci, que ela faz na ioga para limpar as narinas. Quanto tempo será que dura essa sedação?

Ela disse que eu expliquei umas quinze vezes como tinha apagado. Talvez fosse o efeito colateral da amnésia, descrito no papel que me mandaram assinar antes de entrar no exame (e que me deixou completamente apavorada, com suas perguntas do tipo “possui alguma doença psiquiátrica?”).

Amanhã eu tenho que ir buscar o resultado. Mas tenho a clara impressão de que eles podem me entregar qualquer coisa. Mesmo depois que acordei, não senti nem uma dorzinha, nada. Quer dizer, os caras foram lá, conheceram meu eu interior, fotografaram, excursionaram e tudo... e eu não percebi? Tenho certeza de que não fiz o exame. O laboratório pode, em toda sua existência, ter feito apenas uma endoscopia – que eles copiam e distribuem para todo mundo.

Tá, tudo bem, eles não podem. Mas ficou a dúvida. O que é mais assustador: enfiarem um longo cano pela sua garganta com você acordada ou enfiarem um longo cano pela sua garganta e você absolutamente não se lembrar? Mistééério...

Clara McFly às 12:00 PM

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Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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