quarta-feira, 26 de março de 2008

Ás da carona

Aos 15 anos de idade é comum ter fantasias sobre o grande momento de ostentar a própria carteira de habilitação. Parece até que o pequeno documento carrega um quê de carta de alforria para os traumas adolescentes. Com ela, a vida adulta trará liberdade para cair em uma longa e deserta estrada, sem destino, seguindo apenas o chamado da alma. Carro conversível, vento batendo no cabelo, pé no acelerador, "Born To Be Wild" no rádio e o sol começando a se pôr no horizonte. Eu confesso que também tinha essa fantasia. Mas a realidade me tirou de vez do banco do motorista.

O fato é que o carro dos meus sonhos, aquele conversível e comprido, teria de ser transformado em um automóvel pequenino e sem estilo para caber tanto nas pouquíssimas vagas da cidade quanto no orçamento apertado da pilota. Vento batendo no cabelo, a solução é abrir as janelas – mas o que fazer com a fumaça dos caminhões, o barulho das ruas e a violência dos semáforos? Pé no acelerador, o jeito é sumir com todos os outros milhares de carros que estão empatando o caminho e causando um congestionamento danado. Pôr-do-sol, impossível com tanto prédio e outdoor tirando a visão.

Sejamos francos: carro pode ser até muito prático e confortável, mas enche o saco. Você passa a maior parte do tempo parado no trânsito, sem poder fazer outra coisa além de pisar na embreagem e trocar a marcha, torrando debaixo do sol (no caso de não haver ar condicionado), ouvindo sempre as mesmas músicas, correndo o risco de ser assaltado ou atingido em cheio por um maluco. Carro precisa de manutenção trabalhosa e cara, como abastecer (o que são aqueles preços nas bombas de gasolina?), trocar o óleo, licenciar e verificar periodicamente um monte de coisinhas. E quando o pneu fura? Na chuva? De madrugada?

Por essas e outras, eu não tirei carta quando completei 18 anos. Tampouco ganhei um automóvel de presente dos meus pais. Decidi que seria do contra e, apesar dos olhares abismados dos meus amigos, que se matricularam na auto-escola já no dia do aniversário e imploraram por um presente de quatro rodas e motor, resolvi que ficaria sem carro até a ocasião em que eu sentisse realmente uma necessidade muito grande de ser dona de um possante. Lá se vão dez anos, e sabe de uma coisa? Essa ocasião ainda não chegou.

Só fui participar do ritual de decorar plaquinhas, colocar o rabo no cavalo e testar as vistas quando já estava no último ano da faculdade, e por pressão materna. Minha mãe começou com uns dramas do tipo "se eu ficar doente, não tem quem me leve no hospital...", o que na verdade significava "tire carta para você poder fazer supermercado e ir buscar seus irmãos quando eu quiser lavar o cabelo". Mesmo sacando o truque, decidi fazer a vontade dela e segui para a auto-escola, sem saber ao menos diferenciar o acelerador do breque.

Na primeira aula, sentei naquele banco esquerdo, tão estranho. Pus o cinto, verifiquei o retrovisor, dei a partida, coloquei a primeira e abaixei o freio de mão como o instrutor pediu. E não é que o carro saiu do lugar sem dar um solavanco sequer? Consegui fazer a baliza, consegui parar e sair na subida, consegui estacionar rente à calçada. Passei no teste teórico e não fui considerada lelé no psicotécnico. Fui aprovada de primeira no teste prático, sem precisar pagar uma cerveja para o examinador. Ou seja, sou uma motorista nata e posso esfregar isso na cara de quem acha que eu não possuo carro porque não sei dirigir ou tenho medinho.

Tudo bem que dali para cá eu devo ter esquecido um monte de coisas e posso até vir a fazer umas barbeiragens caso seja forçada a assumir o volante. Mas nada que não possa ser reaprendido depois de pouco tempo. Por enquanto meu documento está vencido há um par de anos e eu continuo sendo uma usuária fiel de transporte coletivo até segunda ordem.

Pode parecer papo de bicho-grilo, mas eu realmente acho que as ruas já têm carros demais e não quero ser responsável por botar mais um, sendo que posso sobreviver sem. Contudo, não é apenas por consciência ecológica que eu fico no ponto esperando condução não. Acontece que – não dê risada – eu adoro andar de ônibus. Adoro. Já que tem alguém dirigindo por mim, posso reparar em cada detalhezinho da cidade e posso ler livros se o trânsito resolver empacar. E, principalmente, posso prestar atenção nas pessoas ao redor e nas conversas alheias, o que é divertidíssimo.

Confesso que a diversão acaba quando estou cansada, molhada de chuva e a cidade está parada. Mas se tivesse que dirigir assim, não seria igualmente ruim ou até pior? Pelo menos, no ônibus, eu posso dormir – o que é altamente desaconselhável ao volante. O único defeito dos coletivos é mesmo a falta de espaço em horários de pico, quando você não tem por onde se segurar ou uma brecha no chão para colocar o pé. Também poderia haver mais opção como o metrô para aliviar um pouco a tensão aqui em cima.

Afinal, aposto meu mindinho que não sou a única criatura deste planeta a pensar assim. A solução é, talvez, dar a chance de outras pessoas descobrirem que, assim como eu, elas também são ases da carona.

* * * * * *

Upideite: A autora pede desculpas ao seu eu-lírico passado, uma vez que a) ela comprou um carro e b) ela está prestes a fazer os testes para obter a carteira californiana. Aliás, o texto hoje é reeditado não apenas para matar as saudades de quando ela era jovem e cheia de ilusões, mas também porque ela precisa estudar a brochura para o exame escrito amanhã.

Vivi Griswold às 10:45 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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