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Há uns vinte anos Hoje nós tivemos aula de Estudos Sociais. É um nome bem bonito, mas ainda não entendi o que tem a ver com as coisas que a gente aprende. Por exemplo, a professora mostrou um retrato do Dom Pedro Primeiro e explicou que ele proclamou a In-de-pen-dên-cia (palavra comprida!) do Brasil. Daí, ele ficou sendo o rei daqui. Antes, tinha rei. Agora, é só presidente. Então, a tia disse que quando um rei morria, o príncipe é que virava rei. Depois do D. Pedro Primeiro quem reinou foi o filho dele, que tinha um montão de nomes, mas ficou conhecido como... D. Pedro Segundo. Quando a tia mostrou o retrato desse tal D. Pedro Segundo, eu não entendi mais nada. Ele é bem mais velho que o pai dele! Como pode? Fiquei pensando em como alguém pode ficar mais velho que seu pai e não consegui responder. Daí, desisti de pensar nisso e fiquei pensando em outra coisa. Será que se minha mãe fosse rainha, eu ia me chamar Dona Sandra Segunda? A gente podia morar lá naquele museu com um jardim grandão, perto de onde o papai trabalha, no Ipiranga. Deve ser legal ser princesa, mas tem que usar muita saia e eu não gosto de saia. Especialmente daquelas com armações que cutucam por debaixo, igual à de festa junina. Todas as saias de princesa devem ser assim. Pensando melhor, prefiro continuar de agasalho. Quando cheguei da escola, minha mãe disse que tinha uma surpresa para mim. É que meu pai comprou um monte de figurinhas para o meu álbum e esqueceu de me dar ontem de noite. Acho que é porque ele estava muito bravo; chegou contando para minha mãe que tinha um homem lá onde ele trabalha que não tem o menor es-crú-pu-lo. Ele falou bem assim, e eu não entendi porque ele estava tão bravo com o homem sem espúc... escúf... es-crú-pu-lo, já que isso deve ser muito feio. Eu nunca vi uma palavra tão feia assim. Nem as que meu vô fala e logo depois toma um sabão da minha vó, porque "tem criança na sala". "Putaquetepariu" é bem mais bonito que "escrúpulo". Mas ninguém deu um sabão no meu pai quando ele gritou que era duro trabalhar com gente sem... sem... sem isso aí. Depois que eu terminei de abrir os envelopes das figurinhas e ler os versinhos, fui perguntar para a minha mãe o que queria dizer "fita". E ela: "fita, ué, igual às de amarrar no cabelo". E eu: "não é não, mãe". E ela: "lógico que é! Onde você viu?". E eu: "aqui na figurinha, ó: 'quando você me fita, meu coração palpita'. 'Me fita' é amarrar, mãe?". Daí, ela riu e disse que não. É que "fita" também pode ser "olha"; no versinho da figura era isso. Ela também me explicou que "palpita" não tem nada a ver com "palmito", como eu pensava. É quando o coração bate rápido. Eu fiquei um pouco confusa e um pouco feliz, porque descobri que uma palavra igualzinha à outra pode querer dizer uma coisa to-tal-men-te diferente. É que nem "manga", né? Tem de camisa e tem aquela fruta horrível. Eca. Quando eu comi aquele montão de manga debaixo do pé, no sítio, passei a noite inteira vomitando. Minha mãe disse: "eu não falei para não comer tanta manga? Agora taí, fazendo o maior papelão!". Eu não entendi bem o que ela quis dizer com essa história de papelão. Pensei que papelão fosse bom. Eu gosto, pelo menos. Dá para fazer porta-retratos e desenhar neles. Mas acho que minha mãe não concorda. Bom. Depois que eu colei todas as minhas novas figurinhas, minha mãe deixou eu assistir televisão. Eu vi o Daniel Azulay pintando naquela tela mágica de novo! Acho que essa é a coisa mais legal que eu já vi na minha vida. Aposto que nem minha mãe, que sabe tudo, consegue explicar como ele pode pintar um desenho tão bonito só com algumas pinceladas. Deve ser uma tinta mágica mesmo, porque eu tentei fazer em casa e não deu certo. Tem tanta coisa que eu não entendo. Mas uma hora eu consigo. |
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