sexta-feira, 14 de março de 2008

Carla e eu

Muito tempo atrás, nos áureos anos de colegial, eu achei uma frase legal e a escrevi na minha agenda, no dia 13 de março: “Ser livre é ser revolucionário e alegre”. Aí, uma japonesa ruiva, que eu nem ia muito com a cara, pegou minha agenda e escreveu ao lado da minha anotação: “eu sei que foi para mim!”. Detestei a Carla logo de cara. Como ela podia saber disso?

Tinha sido para ela mesmo. Eu não conhecia direito aquela menina com jeito meio libertário, aquele cabelo ruivo e os cigarros na porta da escola. Tinha a clara impressão de que ela se achava o máximo. E, junto com a desconfiança, eu nutria, é claro, uma admiração.

Não me lembro muito bem como, mas a gente se aproximou. E aí as impressões se inverteram: descobri que ela não se achava tão o máximo assim, mas eu é que passei a achá-la.

A Carla comprou comigo meu primeiro maço de cigarros. E fumamos muitos deles, acompanhadas de café, pelo resto da adolescência. Essa fase terrível e bonita da vida passou e a gente ficou, com nossos cafés e cigarros.

No meio do caminho, descobrimos um monte de afinidades. Entrar noite adentro acordadas, jogando baralho ou conversando. Ouvir Natalie Merchant e outras cantoras mulherzinhas. Tomar banho de mar e sol na areia. Cuidar de crianças. Não se conformar com o final d’”O Casamento do Meu Melhor Amigo” – dançar com amigo gay num vestido lavanda o c*r*lho, a gente quer é casar (embora a gente já tenha, as duas, se casado e se separado).

Prestamos vestibular juntas, entramos na faculdade juntas. Ela tinha carro e me dava carona. E o carro da Carla, minha gente, era um capítulo à parte – assim como a habilidade dela para guiá-lo. Um dia a porta simplesmente caiu. Voltamos até São Bernardo segurando. Noutro dia, ela entrou na contramão da avenida Jabaquara. Eu vi aquelas palavras enormes, “DEVAGAR”, “PARE”, tudo de ponta cabeça.

- Er, Carla. Acho que você tá na contramão.

No segundo seguinte, despontaram lá na frente os faróis dos veículos na mão certa. A sorte é que a avenida é larga e a Carla fez a volta rapidinho.

O engraçado é que a Carla é a pessoa mais aérea do mundo quando se trata de guiar um carro ou cantar (ela é capaz de criar neologismos como “suflua” e “esfogue” no meio das músicas). Mas é uma das mães mais atenciosas e bacanas que eu conheço. E uma das profissionais mais cotadas da empresa onde ela trabalha.

A Carla odeia pessoas esfuziantes e gente que comunga com a Mãe Terra. Não quer salvar as baleias ou o planeta. Jura que é antipática em nível pro. Se mete em enrascadas e segura as barras. Joga baralho com o Caetano e dança com ele. É uma motorista amiga da CET. Finge que não liga. Causa. Inventa moda. Tem uma incrível capacidade de me sacar, desde aquele dia em que percebeu que eu achava ela a pessoa mais revolucionária e alegre que eu conhecia. Por isso, ela deve saber que eu continuo achando ela o máximo.

Carla, me espera aí nos 30 que eu tô chegando!

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“And all 'round your island
There's a barricade.
It keeps out the danger,
It holds in the pain

And sometimes you're happy,
Sometimes you cry
Half of me is ocean,
Half of me is sky
But you got a heart so big it could crush this town”

-- Walls, Tom Petty



carla_cae.jpg

Caetano e Carla: pérolas do meu baú


Clara McFly às 11:06 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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