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A árdua rotina do ócio Trabalhador de escritório, aquele que pega às 9h e larga às 18h, é um tremendo enganador. É sim, não venha defender – porque é bem provável que você também seja um. Ou vai dizer que o desenrolar de um dia de “trabalho” não acontece, em muito, do jeitinho que segue? Seria para chegar no posto de serviço 9h em ponto. Mas que nada. Bota lá a culpa no trânsito, no filho chorão, nas chaves fugidias e pronto, comparece às 9h20, 9h28... Então seria o caso de começar logo a operar, mas ele prefere ir tomar um café, pra calibrar o cérebro. Cafezinho, papo com o colega... Já são 10h. Então é hora de abrir o portal de notícias e ver o que se passa no mundo (como se isso fosse não só importante para exercer sua função, mas crucial mesmo). Vê as notícias. Vê a cotação das moedas. Opa, vê quem saiu do BBB! Deixa ler um bocadinho desse barraco aí. O relógio já resvala em 10h30. Então ele decide afinal trabalhar. Logo depois de checar seus e-mails, lógico. Acessa um, responde duas cyber-missivas. Acessa outro, apaga uns 15 spams. Acessa um terceiro – ué, não é bom ter um e-mail só, é como ter só um par de tênis. E daí descobre um recado de alguém no orkut convidando-o pra fazer parte da comunidade “Dentadura de vampiro, eu tive”. Beleza! Deixa dar uma espiada no orkut. Como já são 11h30, ele decide enrolar até a hora do almoço, porque trabalhar essa mixaria e depois ter que parar pra comer não presta. 12h30, lá vai o herói descer para o rango. Deveria voltar 13h30, conforme combinado em seu contrato de trabalho, mas que nada. 14h10 e, aí sim, ele ressurge na sala. Mas 14h15 já salta fora de novo, rumo ao banheiro. Escovar os dentes, tirar a água do joelho, conferir o topete no espelhão... Parada pro cafezinho na máquina, comenta com o Getúlio do Almoxarifado sobre o jogo de ontem... Não é que já são 15h? Putz, 15h! Precisa ir ali no postinho bancário pagar o cartão de crédito, senão os juros mastigam o saldo. Faz o trâmite. E, na volta, dá um giro ali pelo departamento de vendas, pra ver se a secretária gatinha continua lhe jogando um charme. Se não, 15h20 ele está em sua mesa. Se sim, o relógio registra dez pra quatro. E já que são 16h, simbora dar uns telefonemas. Primeiro pra mamãe, saber se aquela santinha está passando bem e vai fazer lasanha no domingo. Depois pro Zé, saber se tem pelada sábado. Ah, olha só, o Zé está no MSN, nem precisa telefonar! Às 17h ele já conversou com o Zé por MSN sobre todos os assuntos inócuos possíveis. Melhor trabalhar um pouco, vá. Começa o relatório, mas na terceira linha, o computador dá pau. Tá vendo? Quando a gente tenta trabalhar, esse puto do Bill Gates ferra tudo. São 17h15 e ele faz uma reunião rápida com o chefe. São 17h30 e ele já empilhou o requerimento do chefe na gaveta de cima. São 17h35 e ele se sente estafado e pressionado por tantos pedidos que esse chefe lazarento lhe faz. Decide que, pelo menos hoje!, vai embora no horário. 17h59 ele larga a caneta no meio do rabisco que estava fazendo no cantinho da folha enquanto navegava no Google Earth (caçando sua academia de ginástica lá dos céus). 18h em ponto está na frente do elevador, comentando com o povo com cara de preocupado sobre os rumos desse escritório. Amanhã ele vai corrigir esses rumos! Pelo menos por uns 15 minutos de trabalho.
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