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De pouso em pouso Hotéis não são mesmo uma delícia? A cama sempre feita, toalhas sempre disponíveis, todos os incômodos da rotina afastados pela simples colocação do aviso “Do Not Disturb” na maçaneta da porta. Adoro os lençóis alvos, adoro os sabonetinhos miniatura, adoro o serviço de quarto. Hotéis são uma delícia! Bom... mas existem hotéis e “hotéis”. Em Veneza, fiquei quase em um palácio. Juro, o teto estava a uns cinco metros do chão, havia televisão no banheiro e o lustre devia custar o preço da minha casa. Em Roma, fiquei com vista para a Via Veneto, o charme em forma de avenida, e em Mendoza estive num daqueles hotéis de marca – onde o xampu do banheiro era de vinho tinto, me fazendo duvidar se eu devia esfregá-lo na cabeleira ou tomá-lo em uma taça. Porém, em Londres um camundongo me fez visita, saltando para dentro das paredes quando tentei caçá-lo. Em Milão, a espelunca era tamanha que a moça da portaria, em resposta ao meu pedido de esquentar a sopa da bebê, disparou um “no!”. Em Mariana nem era um hotel, era um convento. E desde então eu respeito mais as freiras, porque acordei todas as manhãs com a marca do estrado impressa nas minhas costas, dada a finura do colchão. Em Paris o quarto era para ser romântico, com uma encantadora clarabóia no teto. Era, na verdade, uma sauna mofada na qual não existia circulação de ar. E a clarabóia era, então, a saída de emergência em caso de desmaio iminente. Em Nova York era tudo tão sujo, deprimente e avacalhado que perdi o sono matutando: “se as cortinas forem lavadas, a água sairá como a do Tietê; será que à noite os ácaros vão se amotinar e roubar meu cartão de crédito?; procurando bem, aposto que vou achar pelo chão aquelas marcas de giz branco que indicam onde estava o corpo do defunto”. Em Verona o barulho era tanto que dormir na quadra da Mangueira parecia melhor idéia. Em Bariloche, o hostel não tinha TV, rádio ou água quente. Em Ilhabela, preferi não dormir de pijama, mas de calça jeans, blusa e tênis – e abraçada com a minha mochila. Eu adoro hotéis porque eles rendem ótimas histórias. E isso se aplica tanto aos hotéis quanto aos “hotéis”.
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