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Uma teoria animada Daí eu ligo a TV para a minha filha ver seus programas prediletos. E, invariavelmente, algum transeunte da casa explode em riso – mas não porque os desenhos que a Sabrina vê sejam lá superengraçados. É que o povo acha essas animações mais novas umas belas porcarias. Dizem que é meloso demais. Que tem musiquinha demais. Que ensina muitas lições. Sentem falta das bigornas e dos gatos em chamas. Mas eu tenho uma explicação para o sumiço dos elementos perfuro-cortantes nos desenhos animados e a chegada das canções rimadas sobre escovar os dentes. Bom, é assim. Nos nossos tempos de criança – assumindo-se aí que você, como eu, tenha assistido desenhos com mais freqüência entre 1980 e 1995 – a vida era bem diferente. Tínhamos medo do Reverendo Moon, do Homem do Saco e da Loira do Banheiro no plano imaginário; do ET e do Darth Vader no plano cinematográfico; do Escadinha e do Maluf no plano físico. Nossas ameaças estavam lá muito distantes... Ninguém considerava a possibilidade de ser assaltado e morto por conta de 10 cruzeiros. Então a TV podia traduzir para as crianças as piores situações. Ora, era bem engraçado quando Tom tentava atear fogo no Jerry. E eu ria a beça de ver Papa-Léguas deixar o Coiote cair do abismo. Ora, quem não gargalhava com os atropelamentos, os disparos de rifle bem na fuça, o roubo de sacos com o cifrão desenhado, as marretas sendo batidas nas cabeças com toda a força? A gente podia rir, porque nada disso aparecia no telejornal da noite. Hoje sim. Hoje a molecada fica sabendo de ladrões que mataram crianças da mesma idade delas. Ficam sabendo de índios incendiados, roubos à banco com uso de granadas, traficantes fazendo comunidades reféns... E tudo bem ali, a dois quarteirões de suas casas. Daí fica mais fácil entender porque Caillou ensina a dizer “por favor” e “obrigado”. E porque o Clifford fala sobre como tomar banho é importante. E porque os Backyardigans cantam o tempo todo e, em meio à melodia de rima porca, então contando sobre marcianos fofinhos, surfistas engraçadinhos e fantasmas medrosinhos. Ah, é claro que gente como a gente sente falta das bigornas, dos porretes e do uso de veneno da caveira contra o inimigo. E é claro que gente como a gente não concorda que ver o Pica-Pau realizar rachas na estrada cause algum grande desvio de caráter. Mas é de se compreender a mudança de temas. O mundo, em geral, ficou bem menos engraçado. A versão atual desse clássico ensinaria a respeitar semáforos, guardas e a fazer uma boa baliza Fla Wonka às 09:10 AM |
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