segunda-feira, 1 de outubro de 2007

No braço, na veia, na bunda

- É uma sinusite braba mesmo. Eu te aconselho a tomar essa injeção ainda hoje, para começar a fazer efeito logo e você dormir melhor. Sua cara tá péssima... Não tem medo de agulhas não, né?

- Ah... não, não. Mas não teria aí um efervescente, Doutora? Eu bebo até o fundinho, juro.

Sabe, não é que as seringas funcionem para mim como Kriptonita para o Superman. Para dizer a verdade, na infância, eu era a única dos três filhos que se portava normalmente diante da ameaça afiada – a mais velha desmaiava; o do meio urrava palavrões e tentava escapar. Mas, francamente, quem é que curte ter um canudinho de metal invadindo sua epiderme?

A gente já começa a vida levando algumas dessas. Uma delas, desgraçadamente dolorosa, vem bem ali no muque do braço – que, àquela alguma, não tem muque algum para segurar a dor. Vacinas e afins são dadas à revelia por senhoras vestidas de branco, com um aparelho denominado revólver e em sistema drive-thru. Depois não querem que a gente fique traumatizado com medo de injeção.

Pois o fato é que não adianta nada traumatizar. Só vai deixar tudo mais embaraçoso. O que dizer, por exemplo, já mais velho, ao fazer exame de sangue? A moça vem com a ampola, o algodão, a seringa e aquela tripa de borracha que não só aperta o braço, como também depila todos os seus pobres pelinhos-nenéns (e há quem diga que a tripa dói mais que a picada).

Não tem possibilidade de se jogar no chão, chorar, bater o pé e dizer para a mãe que não quer injeção. Será preciso sentar na cadeira escolar de um braço, esticar o mesmo e olhar para o outro lado e comentar sobre o clima na iminência da invasão metálica. Isso se o sangue não sumir da face, se o mundo não começar a fica branquinho, se o ar não faltar e se a próxima coisa a ver não for o piso frio de encontro à bochecha.

Aí é administrar o embaraço mesmo. Que, por sinal, ainda será menor do que aquele causado pela injeção em outras partes. Sério: ter oito anos e virar de bunda para o doutor a fim de se livrar da amidalite é suportável. Tendo mais idade que isso, deveria ser proibido.

Eles dizem que tem mais músculo no bumbum e que, portanto, doerá menos. Digam isso para os coitados que precisam sair da farmácia puxando de uma perna e que irão sentar torto por dois dias. O ano é 2007 e as cápsulas ainda não são capazes de resolver tudo? Fala a verdade.

Não importa se é injeção no braço, na veia, na bunda. O fato é que é preciso não demonstrar medo, pois elas sentem e se vingam fazendo doer mais ainda. Mas se não tem possibilidade de usar efervescente, fazer o quê...?

Fla Wonka às 09:03 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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· Vivi Griswold