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Clichê em dose dupla Não que eu tenha conhecido de perto muitas gêmeas – na verdade, só lembro do caso das minhas vizinhas e amigas de infância. Ainda assim, as irmãs estavam longe de seguir aquele padrão de comportamento que as novelas globais adoram mostrar. Porque se a trama contar com protagonistas gêmeas, o telespectador pode ter certeza de que, ricas ou pobres, morenas ou loiras, cariocas ou nordestinas, as duas vão invariavelmente passar pelos mesmos perrengues de sempre. O primeiro e mais importante detalhe tem a ver com a personalidade. As gêmeas, obviamente, são idênticas na aparência (sim, gêmeas televisivas não podem ter cortes ou cores de cabelo diferentes pois, afinal, são interpretadas pela mesma atriz), mas são completamente distintas no caráter. Para ser uma boa dupla de gêmeas uma delas precisa ser tão pura e inocente quanto um cordeiro recém-nascido, enquanto a outra tem que ser tão maléfica e enganadora como uma cobra pronta para dar o bote. Não há meio termo. Não com as gêmeas da TV. Ok, vamos dar um desconto: elas não são assim idênticas de tudo. Porque para o telespectador não misturar o Bem e o Mal e ter seus princípios bagunçados, costuma haver um detalhe que diferencie as duas. Muitas vezes é o guarda-roupa. Enquanto a gêmea-do-Bem só usa vestido de quermesse e sandalinha de feira hippie, a gêmea-do-Mal aposta nas minissaias e meias arrastão e salto agulha. Dessa maneira a novela espera que os dois extremos estejam muito definidos, como sabemos ser o que acontece na vida real. Pois então. A gêmea-do-Bem, ainda que sonsa e sem nenhum sex-appeal, se apaixona perdidamente por um mocinho honesto e de boa família e tem seu amor retribuído. Já a gêmea-do-Mal só se envolve com os piores tipos, normalmente golpistas de terceira categoria. E assim elas seguem, até que a gêmea-do-Mal, após muito esforço, consegue jogar areia nos planos matrimoniais do casal politicamente correto – sim, porque lá pela metade da novela a gêmea-do-Bem precisa comer o pão que o diabo amassou e a gêmea-do-Mal precisa reinar um pouco. Daí é chegada a hora de outro comportamento clichê: a malvada se faz passar pela boazinha e papa o noivo da irmã. Afinal, o mocinho também é um sonso de marca maior que não consegue enxergar que a fulana vem a ser, na verdade, a outra. Se meu noivo não conseguisse saber a diferença entre eu e minha irmã, sério, é porque alguma coisa está muito errada. Mas quando a gêmea-do-Mal e o mocinho vão parar debaixo dos lençóis de cetim do Projac, ah, a culpa é toda daquela diaba enganadora que confundiu o pobre rapaz. Muitos capítulos se passam até a gêmea-do-Bem sacar que a irmã não presta – ora, ela é tão irritantemente boazinha que chegou a acreditar que a bisca tinha conserto. Então ela perdoa o mocinho por ter sido aproveitado pela gêmea-do-Mal. Esta última, após perder a partida e os dólares e ser ridicularizada diante de milhares de brasileiros, termina a sete palmos no chão. E tem que ser morte-matada, viu, porque o crime e a falcatrua nunca compensam em novela global. É, Gilberto Braga tem um emprego fácil. ![]() Ó, quem é quem?
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