Existe uma canção sensacional interpretada pelo Cordel do Fogo Encantado, letra de um senhor Lirinha, que se chama “O Amor é Filme”. Alguns devem lembrar dela como sendo o fundo musical dos créditos finais de “Lisbela e o Prisioneiro”. E talvez se recordem que, nela, o moço diz que “o amor é filme/ eu sei pelo cheiro de menta e pipoca que dá quando a gente ama/ Eu sei porque eu sei muito bem como a cor da manhã fica/ Dá felicidade, dá dúvida, dor de barriga/ É drama, aventura, mentira, comédia romântica”. Mesmo quem não é dado a uma canção tão gingada há de concordar: não só o amor, mas a vida é filme mesmo. Ou deveria ser.
Nem sei quantas vezes me vi repetindo passagens de cinema – em cenas ou diálogos. Nem sei quantas vezes desejei ser como a protagonista de “A Rosa Púrpura do Cairo” e, num arroubo de sorte, poder entrar pela telona e sair vivendo meus filmes prediletos. Nem sei quantas vezes estapeei minha própria cabeça dizendo “larga de ser besta, a vida não é filme”. Que pena.
Porque, se fosse, imaginem quantos enredos magníficos a gente poderia viver! Tudo bem, a vida acabaria em 120, 130 minutos (ou em uns 340, caso a vida fosse um filme iraniano preto-e-branco dublado em sueco). Mas ué: vai ver seria mais vantagem ter toda a emoção fugaz do que passar oito décadas morosas.
Sem querer polemizar sobre a quantidade de tempo da vida, mas acho que teríamos pelo menos algumas vantagens óbvias caso ela fosse mesmo um filme. A mágica da sétima arte presents...
... mudanças na fotografia
Acordou e viu a nuvem negra impossibilitando seu passeio até o litoral? Troca o filtro, uai. De repente vai ficar tudo mais claro, nítido e azulzinho, perfeito para um mergulho.
... edição das partes chatas
A esposa começou com uma ladainha sem fim de como ela se sente preterida frente ao seu emprego. Corta! Retira essa cena. Vamos direto para a locação seguinte: o bar.
... troca de áudio
O bebê entrou em uma nóia sem fim e está lá, urrando fino às 4h00 da manhã. Que tal baixar o canal de áudio dele e trocar por uma peça erudita bem suave, dessas que recuperam o sono?
... demissão de atores
Se você acha que seu vizinho de mesa no escritório é um boçal safado que rouba suas idéias e apresenta como dele – e ainda mastiga comida chinesa com a boca aberta no meio da tarde – que ele seja posto na rua. E convoca o Gianecchini pra substituir!
... repetição da cena
Quando sua primeira tentativa de fazer o gol de placa não foi no ângulo, basta voltar e tentar mais 124 vezes, até sair.
... entrada de dublê
Ah, como seria maravilhoso ter um profissional qualificado para ficar no seu papel quando é hora de fazer uma cirurgia, entrar na depilação ou visitar a sogra...
... direção de elenco
Porque, óbvio, no filme da sua vida você tem que ser o diretor – e então sua mãe receberia indicações para fazer lasanha todo dia, enquanto sua irmã teria ordens do script para liberar a televisão às 19h00 e o cachorro, treinado, faria gracinhas para sua diversão.
... uso da grua
Hum... talvez só servisse mesmo para ajeitar a antena lá no telhado. Mas, ah, já que tem grua, usemos!
... o clímax
Não existem dias insuportáveis em que nada, nada acontece? Em que a modorra toma conta de nós e nenhuma novidade parece dar as caras? Os filmes, por outro lado, sempre têm clímax, o ponto alto! Pode ser beijo, pode ser fuga, pode ser redenção, reencontro ou a descoberta de um tesouro lendário guardado por um fantasma e que será a salvação de seu pai moribundo detido pelos nazistas. Não importa, é clímax. E se a vida fosse filme, essa seria minha parte preferida.