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Torcendo pro diabo A história do best seller “O Diabo veste Prada” é conhecida – principalmente depois que o livro de Lauren Weisberger foi transportado para o cinema: Andrea, uma recém-formada cujo sonho maior é entrar para o seleto time de redatores da revista New Yorker, vai parar como assistente de Miranda, editora-chefe da Runaway, uma prestigiada publicação de moda. A garota sofre na mão da carrasca chiquérrima, influente e teimosa, que liga de cinco em cinco minutos para dar ordens absurdas sem pedir por favor nem obrigada. Antes de passar os olhos pela primeira página, o leitor já está preparado para tomar as dores de Andrea, sofrendo ao lado dela cada vez em que é obrigada a passar longas horas dos seus dias (e noites) à disposição dos caprichos da chefe-cascavel. Portanto, nessa história de opostos, eu tinha certeza sobre qual time escolher – até porque quem já padeceu nas mãos de gente poderosa sempre terá uma tendência natural a torcer pelos fracos e oprimidos. À media em que a leitura foi avançando, porém, a coisa começou a ficar mais complicada, até chegar num ponto em que eu queria mandar essa menina para os infernos. Ou pelo menos dizer a ela umas verdades sobre o que é ter um emprego realmente ruim. E, na boa, o dela está longe disso. Ok, Miranda não é uma pessoa fácil, e isso fica claro cada vez que a editora-celebridade entra em cena. E sejamos sinceros: ser obrigada a pedir cinco cafés-da-manhã só porque a bisca não avisa a que horas resolverá aparecer no escritório e não gosta de café-da-manhã esquentado no microondas é um abuso. Também dá peninha quando Andrea precisa acordar às cinco da manhã e ganhar as ruas em pleno inverno nova-iorquino. Mas Andrea ganha roupas. Muitas, muitas roupas. E não é roupinha não, é coisa do naipe de Gucci e Versace. Se o sapato que ela está usando estiver surrado demais, basta estalar os dedos que um novo e tinindo par de Jimmy Choos aparecerá na mesa dela como um passe de mágica. Ela é convidada para festas onde corre o risco de tropeçar no Brad Pitt e derrubar no chão a taça de cristal cheia do melhor champanhe que há. Ela pode usar e abusar do carro da “firma” e nunca mais precisar pegar metrô. Sério, do que essa garota está reclamando? Eu nunca ganhei roupa alguma de emprego algum. No máximo, ganhei um babador – não pergunte, a empresa gostava de posar de “malucona”. Mesmo em lugares mais legais, o funcionário é sortudo de conseguir abocanhar uma camiseta que sirva em uma pessoa com menos de 300 quilos e dois metros de altura. Festa? Pffff. Só se for aquele churrasco safado que o RH costuma inventar para que as pessoas que não se suportam possam passar mais tempo juntos não se suportando. Sobre o carro da firma, nem comento… Basta dizer que eu já precisei implorar por um taxi porque passava da meia-noite e do contrário eu teria de pegar três conduções para casa. Puxa, quantas pessoas acordam toda santa manhã e seguem para um emprego que paga mal? Quantas dessas pessoas precisam de todos os mantras para suportar um chefe injusto e calhorda? Isso sem entrar no mérito “filhinha, fique feliz que você é solteira e trabalha em uma revista renomada, ao invés de precisar suar atrás do caixa do McDonald’s para conseguir sustentar sua prole de cinco filhos”. E Miranda? Ah, Miranda. Digam o que quiserem, mas a mulher é um luxo. É claro que isso não dá a ela, nem a ninguém, o direito de pisar em seus subalternos com salto agulha – que é para machucar bem. Mas, novamente fazendo um paralelo com a vida real, quantos chefes que estão longe de ser uma Miranda em matéria de poder e requinte (são de fato um bando de zés manés) não pisam nos outros? Talvez você não concorde comigo mas, diabo por diabo, eu sou muito mais um que veste Prada. Vivi Griswold às 08:57 AM |
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