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Pim, pam, póing Quando eu era pequena, o caminhão de gás passava na rua buzinando. E o moço que rolava os bujões para dentro da nossa casa vinha dependurado na boléia gritando “óóó o gááááás!” vizinhança afora. Aí, alguém achou que isso causava muita poluição sonora. E criaram o “jingle” do gás, aquela musiquinha meio new age com umas badaladas de sino no meio. Ficou ótimo, ficou lindo, ficou agradável. Só não sei porque ainda não aplicaram isso em todos os outros “póings”, “flãs”, “pings” e “tuins” que continuam soltos por aí. No supermercado, por exemplo. Se antes a moça do caixa digitava preço a preço nossas mercadorias, hoje é muito mais fácil apenas passar o código de barras do produto pelo leitor óptico da registradora. Nos livramos das etiquetas coladas nos vidros e pacotes, que tanto estorvavam na hora de reaproveitar um belo pote de manteiga vazio para guardar as sobras do almoço. Porém – e sempre há um porém – haja saco para agüentar aquele “pi pi pi” emitido pelas máquinas. Aquilo me irrita e me faz querer arrancar meu próprio braço nos 10 minutos que permaneço ali, entre a fila e a passagem do meu carrinho. Imagina a pobre da caixa, que passa oito horas ouvindo a sinfonia múltipla dos feixes de luz batendo nos códigos de barras, cada máquina daquela fila infinita tocando no seu próprio ritmo? Alguém podia se incomodar com isso, como se incomodaram com o caminhão do gás – cá entre nós, um barulhinho amador perto dos caixas. Na rua, a coisa fica ainda mais sonora. Queria ter gravado o som de uma caminhada em uma avenida de São Paulo digamos aí uns dez anos atrás, só para comparar com o nível decibélico de agora. Isso porque a orquestra das ruas ganhou novos instrumentos, e depende só do seu ouvido encontrar uma harmonia entre eles. “Bibibibibibibibiiiiiiii” é a buzinada permanente dos motoboys, na neura de avisar que estão costurando e é melhor você não mover seu carro um milímetro sequer; “trulululu”, “tléim tléim”, “se ela dança, eu danço” são os celulares tocando infinitamente, com um sempre extensível menu de musiquinhas; “piiiiiiiiiiiiiiii” são os caminhões dando ré; “este carro está sendo roubado” é o brado do alarme. Tudo fala hoje em dia. A máquina do estacionamento do shopping deseja “boas compras”. O computador faz um barulhinho traumático quando trava – “flã!”. As janelinhas do Messenger não se contentam em piscar laranjinhas: “turlirã”. Um e-mail que entra na caixa postal tilinta: “plim”. A catraca do bilhete único guincha: “píííí”. O elevador diz “quarto andar”, numa voz que oscila entre o simpático e o macabro. E aparentemente as pessoas pegam ternura com os barulhinhos. A tecnologia das máquinas fotográficas digitais eliminou o barulho do clique mecânico ao batermos a foto, mas os fabricantes deixam aquele “clique” artificial, gravado, a disparar toda vez que apertamos o botão. Ao que parece, tudo tem que fazer barulho. Quando a agonia bate num limite e eu fico imaginando se ainda tem algum lugar no mundo onde é possível ouvir o silêncio, me lembro da máxima popular: melhor ouvir isso que ser surdo. Ou a gente entra num acordo com essa sinfonia ou ela acaba com a gente. O que vier primeiro. Píííííííííííííííííí!!! (Fim do texto)
A Confraria de Blogueiros Suspeitos apresenta... Austregésilo Foi para o Céu? Uma história de mistério onde nem os próprios escritores sabem quem afinal mandou o velho filhadaputa dormir com os peixes. Saiba mais sobre esta história de horror, amor, espionagem e um quiçá um pouco de procrastinação e terebintina aqui.
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